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sábado, 29 de junho de 2013

Slavoj Žižek – “Dificuldades no Paraíso: protestos na Grécia e Turquia”

28/6/2013, Slavoj Žižek, London Review of Books
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Slavoj Žižek

Em seus primeiros escritos, Marx descreve a situação na Alemanha como situação na qual a única resposta a problemas particulares seria a solução universal: a revolução global. É expressão condensada da diferença entre período reformista e período revolucionário: em período reformista, a revolução global permanece como sonho que, se serve para alguma coisa, só serve para dar peso às tentativas para mudar alguma coisa localmente; em período revolucionário, vê-se claramente que nada melhorará, sem mudança global radical. Nesse sentido puramente formal, 1990 foi ano revolucionário: as muitas reformas parciais nos estados comunistas jamais dariam conta do serviço; e era necessária uma quebra total, para resolver todos os problemas do dia a dia; por exemplo, o problema de dar suficiente comida às pessoas.

Em que ponto estamos hoje, quanto a essa diferença? Os problemas e protestos dos últimos anos são sinais de que se aproxima uma crise global, ou não passam de pequenos obstáculos que pode enfrentar mediante intervenções locais? O mais notável nas erupções é que estão acontecendo não apenas, nem basicamente, nos pontos fracos do sistema, mas em pontos que, até aqui, eram percebidos como histórias de sucesso. Sabemos por que as pessoas protestam na Grécia ou na Espanha; mas por que há confusão em países prósperos e em rápido desenvolvimento como Turquia, Suécia ou Brasil?

Aiatolá Khomeini
Com algum distanciamento, pode-se ver que a revolução de Khomeini em 1979 foi o caso original de “dificuldades no paraíso”, dado que aconteceu em país que caminhava a passos largos para uma modernização pró-ocidente, e o mais estável aliado do ocidente na região. (Talvez haja algum furo, na nossa noção de paraíso.)

Antes da atual onda de protestos, a Turquia era quente: modelo ideal de estado estável, a combinar pujante economia liberal e islamismo moderado, pronta para a Europa, um bem vindo contraste com a Grécia mais “europeia”, colhida num labirinto ideológico e andando rumo à autodestruição econômica. Sim, é verdade: aqui e ali sempre se viam alguns sinais péssimos (a Turquia, sempre a negar o holocausto dos armênios; prisão de jornalistas; o status não resolvido dos curdos; chamamentos a uma ‘grande Turquia’ que ressuscitaria a tradição do Império Otomano; imposição, vez ou outra, de leis religiosas), mas eram descartados como pequenas máculas que não comprometeriam o grande quadro.

E então, explodiram os protestos na praça Taksim. Não há quem não saiba que os planos para transformar um parque em torno da praça Taksim no centro de Istambul em shopping-center não foi “o caso”, naqueles protestos e que um mal-estar muito mais profundo ganhava força. O mesmo se deve dizer dos protestos de meados de junho no Brasil: foram desencadeados por um pequeno aumento no preço do bilhete do transporte público, e prosseguiram mesmo depois de o aumento ter sido revogado. Também nesse caso os protestos explodiram num país que – pelo menos segundo a imprensa – estava em pleno boom econômico e com todos os motivos para sentir-se confiante quanto ao futuro. Nesse caso, os protestos foram apoiados aparentemente pela presidenta Dilma Rousseff, que se declarou satisfeitíssima com eles.

É crucialmente importante não vermos os protestos turcos meramente como sociedade civil secular que se levantaria contra regime islamista autoritário apoiado por uma maioria islamista silenciosa. O que complica o quadro é o ímpeto anticapitalista dos protestos: os que protestam sentem intuitivamente que o fundamentalismo livre-mercadista e o fundamentalismo islamista não se excluem mutuamente.

Praça Taksim na noite de 3/6/2013
A privatização do espaço público por ação de um governo islamista mostra que as duas modalidades de fundamentalismo podem trabalhar de mãos dadas: é sinal claro de que o casamento ‘'por toda a eternidade'’ de democracia e capitalismo já caminha para o divórcio.

Também é importante reconhecer que os que protestam não visam a nenhum objetivo ‘real’ identificável. Os protestos não são, “realmente”, contra o capitalismo global, nem ‘realmente’ contra o fundamentalismo religioso, nem “realmente” a favor de liberdades civis e democracia, nem visam “realmente” a qualquer outra coisa específica. O que a maioria dos que participaram dos protestos “sabem” é de um mal-estar, de um descontentamento fluido, que sustenta e une várias demandas específicas.

Manifestantes na Tunisia em 2011
A luta para entender os protestos não é luta só epistemológica, com jornalistas e teóricos tentando explicar seu ‘'real'’ conteúdo: é também luta ontológica pela própria coisa, o que esteja acontecendo dentro dos próprios protestos. É apenas luta contra governo corrupto? É luta contra governo islamista autoritário? É luta contra a privatização do espaço público? A pergunta continua aberta. E de como seja respondida dependerá o resultado de um processo político em andamento.

Em 2011, quando irrompiam protestos por toda a Europa e todo o Oriente Médio, muitos insistiram que não fossem tratados como instâncias de um único movimento global. Em vez disso, argumentavam, haveria uma resposta específica para cada situação específica. No Egito, os que protestavam queriam o que em outros países era alvo das críticas do movimento Occupy: “liberdade” e “democracia”. Mesmo entre países muçulmanos, havia diferenças cruciais: a Primavera Árabe no Egito era contra um regime autoritário e corrupto aliado do ocidente; a Revolução Verde no Irã, que começou em 2009, era contra o islamismo autoritário. É fácil ver o quanto essa particularização dos protestos serve bem aos defensores do status quo: não há nenhuma ameaça direta à ordem global como tal; só uma série de problemas locais separados.

O capitalismo global é processo complexo que afeta diferentes países de diferentes modos. O que une todos os protestos, por mais multifacetados que sejam, é que todos reagem contra diferentes facetas da globalização capitalista. A tendência geral do capitalismo global hoje é andar na direção de expandir o mercado, invadir e cercar o espaço público, reduzir os serviços públicos (saúde, educação, cultura) e impor cada vez mais firmemente um poder político autoritário. Nesse contexto, os gregos protestam contra o governo do capital financeiro internacional e contra seu próprio estado ineficiente e corrupto, cada dia menos capaz de prover os serviços sociais básicos. Nesse contexto, os turcos protestam contra a comercialização do espaço público e contra o autoritarismo religioso. E os egípcios protestam contra um governo apoiado pelas potências ocidentais. E os iranianos protestam contra a corrupção e o fundamentalismo religioso. E assim por diante.

O Movimento "Occupy" em 2011
Nenhum desses protestos pode ser reduzido a uma única questão. Todos lidam com uma específica combinação de pelo menos dois problemas, um econômico (da corrupção à ineficiência do próprio capitalismo); o outro, político-ideológico (da demanda por democracia à demanda pelo fim da democracia convencional multipartidária). O mesmo se aplica ao movimento Occupy. Na profusão de declarações (muitas vezes confusas), o movimento manteve dois traços básicos: primeiro, o descontentamento com o capitalismo como sistema, não apenas contra um ou outro corrupto ou corrupções locais; segundo, a consciência de que a forma institucionalizada de democracia multipartidária não tem meios para combater os excessos capitalistas. Em outras palavras, é preciso reinventar a democracia.

A causa subjacente dos protestos ser o capitalismo global não significa que a única solução seja “derrubar” o capitalismo. Nem é viável seguir a alternativa pragmática, que implica lidar com problemas individuais enquanto se espera por transformação radical. Essa ideia ignora o fato de que o capitalismo global é necessariamente contraditório e inconsistente: a liberdade de mercado anda de mãos dadas com os EUA protegerem seus próprios agronegócios e agronegociantes; pregar a democracia anda de mãos dadas com apoiar o governo da Arábia Saudita.

Essa inconsistência abre um espaço para a intervenção política: onde o capitalista global é forçado a violar suas próprias regras, ali há uma oportunidade para insistir em que ele obedeça àquelas regras. Exigir coerência e consistência em pontos estrategicamente selecionados nos quais o sistema não pode pagar para ser coerente e consistente é pressionar todo o sistema. A arte da política está em impor demandas específicas as quais, ao mesmo tempo em que são perfeitamente realistas, ferem o coração da ideologia hegemônica e implicam mudança muito mais radical. Essas demandas, por mais que sejam viáveis e legítimas, são, de fato, impossíveis. Caso exemplar é a proposta de Obama para prover assistência pública universal à saúde. Por isso as reações foram tão violentas.

Praça Tahrir (Cairo, Egito) em 24/6/2012
Um movimento político começa com uma ideia, algo por que lutar, mas, no tempo, a ideia passa por transformação profunda – não apenas alguma acomodação tática, mas uma redefinição essencial –, porque a própria ideia passa a ser parte do processo: torna-se sobredeterminada. [*] Digamos que uma revolta comece com uma demanda por justiça, talvez sob a forma de demanda pela rejeição de uma determinada lei. Depois de o povo estar profundamente engajado na revolta, ele percebe que será preciso muito mais do que a demanda inicial, para que haja verdadeira justiça. O problema então é definir, precisamente, em que consiste esse ‘muito mais’.

John Caputo
A perspectiva liberal-pragmática entende que os problemas podem ser resolvidos gradualmente, um a um: “Há gente morrendo agora em Rwanda, então esqueçam a luta anti-imperialista e vamos impedir o massacre”. Ou: “Temos de combater a pobreza e o racismo já, aqui e agora, não esperar pelo colapso da ordem capitalista global”. John Caputo argumenta exatamente assim em After the Death of God (2007):

Eu ficaria perfeitamente feliz se os políticos da extrema-esquerda nos EUA fossem capazes de reformar o sistema oferecendo assistência universal à saúde, redistribuindo efetivamente a riqueza mais equitativamente com um sistema tributário [orig. Internal Revenue Code (IRC)] redefinido, restringindo o financiamento privado de campanhas eleitorais, autorizando o voto universal, para todos, tratando com humanidade os trabalhadores migrantes, e levando a efeito uma política externa multilateralista que integrasse o poder dos EUA dentro da comunidade internacional etc., i.e., intervindo sobre o capitalismo mediante reformas profundas, de longo alcance... Se depois de fazer tudo isso, Badiou e Žižek ainda reclamarem de um monstro chamado Capitalismo a nos assombrar, eu estaria inclinado a receber o tal monstro com um bocejo.

O problema aqui não é a conclusão de Caputo: se se pode alcançar tudo isso dentro do capitalismo, por que não ficar aí mesmo? O problema é a premissa subjacente de que seja possível obter tudo isso dentro do capitalismo global em sua forma atual. Mas e se os emperramentos e mau funcionamento do capitalismo que Caputo listou não forem meras perturbações contingentes, mas necessários por estrutura? E se o sonho de Caputo é um sonho de ordem capitalista universal, sem sintomas, sem os pontos críticos nos quais sua “verdade reprimida” mostra a própria cara?

Os protestos e revoltas de hoje são sustentados pela combinação de demandas sobrepostas, e é aí que está a sua força: lutam por democracia (“normal”, parlamentar) contra regimes autoritários; contra o racismo e o sexismo, especialmente quando dirigidos contra imigrantes e refugiados; contra a corrupção na política e nos negócios (poluição industrial do meio ambiente etc.); pelo estado de bem-estar contra o neoliberalismo; e por novas formas de democracia que avancem além dos rituais multipartidários. Questionam também o sistema capitalista global como tal, e tentam manter viva a ideia de uma sociedade que avance além do capitalismo.

Duas armadilhas há aí, a serem evitadas: o falso radicalismo (“o que realmente interessa é abolir o capitalismo liberal-parlamentar; todas as demais lutas são secundárias”), mas, também, o falso gradualismo (“no momentos temos de lutar contra a ditadura militar e por democracia básica, todos os sonhos de socialismo devem ser, agora, postos de lado”).

Aqui, ninguém se deve envergonhar de acionar a distinção maoísta entre antagonismo principal e antagonismos secundários, entre os que mais interessam no fim e os que dominam hoje. Há situações nas quais insistir no antagonismo principal significa perder a oportunidade de acertar golpe significativo, no curso da luta.

Só uma política que tome plenamente em consideração a complexidade da sobredeterminação merece o nome de estratégia. Quando se embarca numa luta específica, a pergunta chave é: como nosso engajamento ou desengajamento nessa luta afeta outras lutas?

A regra geral é que quando uma revolta contra regime semidemocrático começa – como no Oriente Médio em 2011 – é fácil mobilizar grandes multidões com slogans (por democracia, contra a corrupção, etc.). Mas muito rapidamente temos de enfrentar escolhas muito mais difíceis. Quando a revolta é bem-sucedida e alcança o objetivo inicial, é quando nos damos conta de que o que realmente nos perturbava (a falta de liberdade, a humilhação diária, a corrupção, o futuro pouco ou nenhum) persiste sob novo disfarce. Nesse momento somos forçados a ver que havia furos no próprio objetivo inicial. Pode implicar que se chegue a ver que a democracia pode ser uma forma de des-liberdade, ou que se pode exigir muito mais do que apenas a mera democracia política: que a vida social e econômica tem de ser também democratizada.

Em resumo, o que à primeira vista tomamos como fracasso que só atingia um nobre princípio (a liberdade democrática) é afinal percebido como fracasso inerente ao próprio princípio. Essa descoberta – de que o princípio pelo qual lutamos pode ser inerentemente viciado – é um grande passo em qualquer educação política.

Representantes da ideologia reinante mobilizam todo o seu arsenal para impedir que cheguemos a essa conclusão radical. Dizem-nos que a liberdade democrática implica suas próprias responsabilidades, que tem um preço, que é sinal de imaturidade esperar demais da democracia. Numa sociedade livre, dizem eles, devemos agir como capitalistas e investir em nossa própria vida: se fracassarmos, se não conseguirmos fazer os necessários sacrifícios, ou se de algum modo não correspondermos, a culpa é nossa.

Em sentido político mais direto, os EUA perseguem coerentemente uma estratégia de controle de danos em sua política externa, recanalizando os levantes populares para formas capitalistas-parlamentares aceitáveis: na África do Sul, depois do apartheid; nas Filipinas, depois da queda de Marcos; na Indonésia, depois de Suharto etc. É nesse ponto que a política propriamente dita começa: a questão é como empurrar ainda mais adiante, depois que passa a primeira, excitante, onda de mudança; como dar o passo seguinte, sem sucumbir à tentação ‘'totalitária'’; como avançar além de Mandela, sem virar Mugabe.

Bertolt Brecht
O que significaria isso, num caso concreto? Comparemos dois países vizinhos, Grécia e Turquia. À primeira vista, talvez pareçam completamente diferentes: Grécia, presa na armadilha da ruinosa política de austeridade; Turquia em pleno boom econômico e emergindo como nova superpotência regional. Mas e se cada Turquia contiver sua própria Grécia, suas próprias ilhas de miséria? Como Brecht diz em sua Elegias Hollywoodenses (orig. Hollywood Elegies [1942]),

A vila de Hollywood foi planejada segundo a ideia
De que o povo aqui seria proprietário de partes do paraíso. Ali,
Chegaram à conclusão de que Deus
Embora precisando de céu e inferno, não precisava
Planejar dois estabelecimentos, mas
Só um: o paraíso. Que esse,
para os pobres e infortunados, funciona
como inferno . [**]

Esses versos descrevem bastante bem a “aldeia global” de hoje: aplicam-se ao Qatar ou Dubai, playgrounds para os ricos, que dependem de manter os trabalhadores imigrantes em estado de semiescravidão, ou escravidão. 

Manifestações na Grécia - 2011
Exame mais detido revela semelhanças entre Turquia e Grécia: privatizações, o fechamento do espaço público, o desmonte dos serviços sociais, a ascensão de políticos autoritários. Num plano elementar, os que protestam na Grécia e os que protestam na Turquia estão engajados na mesma luta. O melhor caminho talvez seja coordenar as duas lutas, rejeitar as tentações “patrióticas”, deixar para trás a inimizade histórica entre os dois países e buscar espaços de solidariedade. O futuro dos protestos talvez dependa disso.




Notas de rodapé

[*]  Em seu prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política, Marx escreveu (no seu pior modo evolucional) que a humanidade só se propõe problemas que seja capaz de resolver. E se invertermos a ganga dessa frase e declararmos que, regra geral, a humanidade propõe-se problemas que não pode resolver, e assim dispara um processo cujo desdobramento é imprevisível, no curso do qual, a própria tarefa é redefinida?

[**]  Não encontramos tradução para o português. Aqui, tradução de trabalho, sem ambição literária, só para ajudar a ler. (NTs).

sexta-feira, 8 de março de 2013

Bertolt Brecht: “Cinco dificuldades de escrever sobre a verdade”


BRECHT, Bertolt, 1898-1956  - Writing the truth: five difficulties (1934) 32 p.
Tradução de Vitor Pordeus
Enviado por Sílvio Tendler


A Editora Abadia Catadora começou a ser gestada no fim de 2011 por moradores e moradoras da Cidade Estrutural, no Distrito Federal. Seu nome homenageia uma corajosa cidadã e militante local, antiga profissional da reciclagem de lixo. A inspiração partiu da oficina de edição de livros oferecida por integrantes da editora argentina Eloísa Cartonera, em novembro daquele ano. Com a perspectiva de trabalhar com edição de livros, disseminar a literatura e contar a história da comunidade, foi criada a Abadia Catadora. Em comum com sua congênere argentina, a proposta editorial de produzir livros artesanais, com capas de papelão reciclado, trabalhadas à mão. Cada livro é único, expressão artística singular.

A região da Estrutural começou a ser ocupada, nos anos 1960, a partir da fixação de pessoas atraídas pela atividade de reciclagem no lixão da Estrutural, o maior de Brasília, a apenas 20 km do Plano Piloto. Muitos dos moradores que participaram da oficina são integrantes do Movimento de Educação e Cultura da Estrutural e participam do Projeto Ponto de Memória, que busca a valorização da comunidade por meio do resgate de sua memória e identidade.

Estruturada nos moldes de uma cooperativa, funcionando de forma participativa, a Editora Abadia Catadora é um novo canal para textos que estimulam a reflexão e a discussão política.

A Editora tem ainda como objetivo apoiar o processo de construção e preservação da memória social e coletiva, por meio do lançamento de escritores locais. Iniciará seus trabalhos com a publicação de três títulos, cada um com tiragem de 50 exemplares: “De mãos abertas e de punho erguido”, poesias de Carlos Rodrigues Brandão; “As cinco dificuldades de escrever sobre a verdade”, artigo de Bertolt Brecht; e “A menina e o rio”, conto de Almir Gomes, jovem da comunidade, que estreia como escritor.

Algumas palavras

Vitor Pordeus
Bertolt Brecht viveu ferozmente tudo o que escreveu. Depois de testemunhar os horrores da I Guerra Mundial, parte, ainda estudante de medicina, para o teatro, com sua primeira peça, Baal (1918).

Quando Hitler chega ao poder na Alemanha, o nome do dramaturgo alemão estava entre os cinco mais procurados pelo regime nazista. Dizer a verdade naquele período era algo extremamente perigoso.

Exilado, sistematicamente perseguido, foi arrancado de sua terra e de seu povo.

A partir de sua luta contra a censura, a ignorância e o preconceito, Brecht nos lega esse texto, uma espécie de manual de sobrevivência em uma Era Científica. Nele, estão relacionadas e analisadas as cinco mais importantes dificuldades para se escrever, ou se comunicar, a verdade.

Cinco dificuldades de Escrever sobre a Verdade foi elaborado na mesma época em que Brecht escreveu uma de suas peças mais conhecidas, A Vida de Galileu. Não por acaso, essa peça relata a vida do famoso astrônomo Galileu Galilei, condenado pela Inquisição por defender que a Terra não era o centro do universo.

O texto é rico e poético, pois como o próprio diz, os versos ateus de Epicuro são mais perigosos porque são belos.

Certamente Cinco dificuldades de Escrever sobre a Verdade nos ajudará, escritores e leitores, a partir da experiência vivida por Brecht, a desenvolver uma melhor comunicação da verdade. Ele realmente foi expulso por um bom motivo.

Obrigado mestre Brecht, tiraremos máximo proveito.

Expulso por um bom motivo
de Bertolt Brecht

Eu cresci como filho
De gente abastada. Meus pais
Me colocaram um colarinho, e me educaram
No hábito de ser servido
E me ensinaram a dar ordens. Mas quando
Já crescido, olhei em torno de mim
Não me agradaram as pessoas da minha classe e me juntei
À gente pequena.

Assim
Eles criaram um traidor, ensinaram-lhe
Suas artes, e ele
Denuncia-os ao inimigo.
Sim, eu conto seus segredos. Fico
Entre o povo e explico
Como eles trapaceiam, e digo o que virá, pois
Estou instruído em seus planos.
O latim de seus clérigos corruptos
Traduzo palavra por palavra em linguagem comum,

Então
Ele se revela uma farsa. Tomo
A balança da sua justiça e mostro
Os pesos falsos. E os seus informantes relatam
Que me encontro entre os despossuídos, quando
Tramam a revolta.
Eles me advertiram e me tomaram
O que ganhei com meu trabalho. E quando me corrigi
Eles foram me caçar, mas
Em minha casa
Encontraram apenas escritos que expunham
Suas tramas contra o povo. Então
Enviaram uma ordem de prisão

Acusando-me de ter idéias baixas, isto é
As idéias da gente baixa.
Aonde vou sou marcado
Aos olhos dos possuidores.
Mas os despossuídos
Lêem a ordem de prisão
E me oferecem abrigo. Você, dizem
Foi expulso por bom motivo

Cinco dificuldades de escrever sobre a verdade

Bertolt Brecht
Hoje em dia, quem quiser combater a mentira e a ignorância e escrever a verdade deve superar pelo menos cinco dificuldades. Deve ter a coragem de escrever a verdade, embora ela seja negada em toda a parte; inteligência para reconhecê-la, pois ela está oculta em todos os espaços; habilidade para manipulá-la como arma; discernimento para selecionar as pessoas em cujas mãos ela será eficiente; e
engenhosidade para disseminá-la entre essas pessoas. Essas dificuldades são enormes para escritores que vivem sob o fascismo, mas também existem para aqueles que fugiram ou foram exilados. E mesmo para escritores que trabalham onde a liberdade civil prevalece.

1. A coragem para escrever a verdade

Parece óbvio que quem quer que escreva não pode suprimir ou ocultar a verdade ou escrever algo
deliberadamente falso. O escritor não deve se submeter aos poderosos, nem enganar os fracos. Naturalmente, é muito difícil não se submeter aos poderosos, e é altamente
vantajoso enganar os fracos.

Desagradar os proprietários significa transformar-se em um dos despossuídos. Renunciar ao pagamento pelo trabalho pode ser o equivalente a desistir do trabalho. Rejeitar a fama, quando essa é oferecida pelas classes dominantes, pode significar rejeitá-la para sempre. Isso exige coragem.

Geralmente, em tempos de extrema opressão, fala-se muito sobre assuntos sofisticados e elevados. Tais tempos exigem coragem para escrever sobre questões baixas e ignóbeis, como a comida e a moradia dos trabalhadores.

Exigem coragem quando todos os outros estão vociferando sobre a importância vital do sacrifício. Quando se derramam todos os tipos de honra sobre os camponeses, é necessário coragem para falar de máquinas e forragem barata que poderiam aliviar seu honrado trabalho. Quando cada canal de comunicação afirma ruidosamente que um homem sem conhecimento ou educação é melhor que aquele que estudou, é preciso coragem para perguntar: melhor para quem?

Quando se fala sobre raças superiores ou inferiores, exige coragem perguntar se não é a fome, a ignorância e a violência que produzem deformidades. E também exige coragem dizer a verdade sobre nós mesmos, sobre os vencidos.

Muitos dos perseguidos perdem a capacidade de reconhecer seus próprios erros. Para eles, a perseguição em si é a maior injustiça. Os perseguidores são maus simplesmente porque perseguem; os perseguidos sofrem por causa de sua bondade. Mas essa bondade foi agredida, derrotada, suprimida; era, desse modo, uma bondade fraca, indefensável, não confiável. Por isso, não pensemos que a bondade precisa ser fraca, como a chuva precisa ser molhada. Exige coragem dizer que os bons foram derrotados não porque eram bons, mas porque eram fracos.

Naturalmente, na batalha contra a mentira, a verdade deve ser escrita, e essa verdade não pode ser uma afirmação genérica, ambígua e sofisticada. A inverdade é feita precisamente desse caráter genérico, ambíguo, sofisticado.

Quando se diz “ele disse a verdade”, isso significa que antes alguns ou muitos, ou no mínimo uma pessoa, falaram algo diferente da verdade – uma mentira ou afirmação vaga. Ele, porém, falou a verdade, algo prático, factual, inegável, preciso.

Não é preciso muita coragem para reclamar em um lamento genérico da maldade do mundo e do triunfo da barbárie, ou gritar energicamente que a vitória do espírito humano está garantida, onde as reclamações são ainda permitidas.

Há muitos que fingem que o canhão está apontado para eles próprios, quando na verdade são alvo de meros binóculos de ópera! Eles proclamam suas demandas vagas para um mundo de amigos e pessoas inofensivas.

Exigem uma justiça em geral, pela qual nunca fizeram nada; pedem por uma liberdade genérica para obter uma parcela de algo do qual já se aproveitam há muito tempo. Acham que a verdade é apenas o que soa bem. Se a verdade fosse algo estatístico, seco ou factual, algo difícil de encontrar, que exigisse estudo, não reconheceriam-na como verdade. Eles possuem apenas a aparência de quem diz a verdade.

O seu problema é: eles ignoram a verdade.

2. A inteligência para reconhecer a verdade

Como é difícil escrever a verdade, uma vez que a mesma está suprimida em toda a parte, para a maioria das pessoas trata-se de questão de for o íntimo escrever ou não a verdade. Acreditam que somente é necessária a coragem.

Esquecem do segundo obstáculo: a dificuldade de encontrar a verdade. De forma alguma pode-se dizer que é fácil encontrá-la. Primeiro de tudo, encontramos problemas para determinar qual verdade deve ser dita. Assim, por exemplo, aos olhos de todo o mundo, grandes nações civilizadas, uma após a outra, caem na barbárie.

Ademais, todos sabem que a guerra interna travada com a utilização dos mais assustadores métodos pode, a qualquer momento, converter-se em uma guerra internacional, com o potencial de transformar nosso continente em um monte de ruínas. Essa, sem dúvida, é uma verdade, mas existem outras. Assim, por exemplo, não deixa de ser verdade que as cadeiras têm assentos ou que a chuva cai de cima para baixo.

Muitos poetas escrevem verdades desse tipo. Eles parecem pintores que pintam naturezas morta nas paredes de um navio que está afundando.

Nossa primeira dificuldade não os incomoda e suas consciências estão tranquilas. Não perturbados por aqueles que estão no poder, tampouco pelos gritos dos desesperados, seguem pintando. A irracionalidade de sua conduta produz neles um “profundo” pessimismo, que vendem a bons preços; recompensa que seria mais adequada àqueles que observam esses mestres e suas vendas. Ao mesmo tempo, não é fácil se dar conta que suas verdades são simples como aquelas sobre cadeiras ou chuva; elas costumam parecer verdades sobre coisas importantes. Pois é da natureza da criação artística conferir importância a qualquer objeto. Mas, sob um exame mais rigoroso, é possível enxergar o que eles meramente dizem: uma cadeira é uma cadeira; e ninguém pode impedir a chuva de cair para baixo. Eles são incapazes de descobrir as verdades que devem ser escritas.

Por outro lado, existem alguns que lidam somente com as mais urgentes tarefas, que abraçam a pobreza e não temem os poderosos e que, miseravelmente, não podem encontrar a verdade. A esses falta conhecimento. Eles estão cheios de antigas superstições, de óbvios preconceitos, que em dias passados eram frequentemente apresentados em belas palavras. O mundo é complicado demais para eles. Não conhecem os fatos; não percebem relações. Além da convicção, é necessário conhecimento, que pode ser adquirido, e método, que pode ser aprendido.

O que é necessário a todos os escritores desta era de perplexidade e mudanças relâmpago é conhecer o materialismo dialético, a economia e a história. Esses conhecimentos podem ser adquiridos em livros e compêndios, se a dedicação necessária for aplicada.

Muitas verdades podem ser descobertas de modo mais simples. Ou ao menos parte da verdade ou fatos que levam à descoberta da verdade.

Método é bom em toda pesquisa, mas também é possível fazer descobertas sem usar método algum, mesmo sem pesquisa. Mas, por meio de um procedimento trivial, é quase impossível encontrar uma
verdade que possibilite aos homens agir.

Pessoas que simplesmente descrevem pequenos fatos não são capazes de entender as coisas deste mundo, de modo que são facilmente controláveis.

Só a verdade leva ao entendimento, e nada mais. Tais pessoas não conseguem superar os desafios para que possam escrever a verdade. Se uma pessoa tem coragem para escrever a verdade e é capaz de reconhecê-la, restam ainda três dificuldades.

3. A habilidade de manipular a verdade como arma

A verdade deve sempre ser dita com atenção aos resultados produzidos por ela na esfera da ação. Como exemplo de verdade que não leva a resultado algum, mesmo que errado, podemos citar a visão geralmente aceita em determinados países de que más condições sociais são resultado da barbárie.

Segundo essa visão, o fascismo é uma onda de barbárie que estourou sobre alguns países com a força elemental de um fenômeno natural. De acordo com essa opinião, o fascismo é um novo, terceiro poder, além (e acima) do capitalismo e do socialismo; não apenas o movimento socialista, mas também o capitalismo teriam sobrevivido sem a intervenção do fascismo. Naturalmente, essa é uma afirmação fascista; concordar com ela é render-se ao fascismo.

O fascismo é uma fase histórica do capitalismo; assim, é algo ao mesmo tempo novo e velho. Em países fascistas, o capitalismo continua a existir, mas somente na forma do fascismo; e o fascismo somente pode ser combatido como o próprio capitalismo, como a mais nua, crua, vergonhosa, opressiva e perigosa forma de capitalismo. Mas como pode alguém dizer a verdade sobre o fascismo, a menos que considere criticar o capitalismo que o produz? Quais serão os resultados práticos dessa verdade? Aqueles que são contrários ao fascismo sem ser contra o capitalismo, os que lastimam a barbárie como resultado da barbárie, são como as pessoas que querem comer vitela sem sacrificar a bezerra.

Eles querem comer a carne, mas odeiam ver sangue. Ficam satisfeitos se o açougueiro lava as mãos antes de pesar a carne. Eles não são contra as relações de propriedade que produzem a barbárie; apenas são contra a barbárie em si.

Elevam a voz contra ela, e o fazem em países onde existem perniciosas relações de propriedade, mas onde os açougueiros lavam as mãos antes de pesar a carne.

Acusações contra medidas bárbaras podem surtir efeito quando aqueles que as escutam pensam que tais medidas estão fora de questão em seus próprios países. As relações de propriedade são mantidas de forma menos violenta em alguns países. Neles, a democracia ainda serve para alcançar resultados, como a garantia da propriedade privada dos meios de produção, que em outros países somente são atingidos por meio da violência.

O monopólio privado das fábricas, minas e terras cria condições bárbaras em toda a parte, embora nem sempre evidentes. A barbárie chama atenção quando o monopólio da propriedade somente pode ser protegido por meio da violência.

Alguns países que ainda não consideram necessário defender seus monopólios bárbaros por meio da dispensa de garantias formais do Estado Constitucional e de amenidades como a arte, a filosofia e a literatura são particularmente interessados em ouvir visitantes que cometem abusos, ao negar aquelas amenidades em seus países. Eles escutam com alegria, porque a partir do que ouvem esperam
obter vantagens em guerras futuras.

Diremos nós que alguém reconheceu a verdade quando, por exemplo, exige aos gritos um ataque impiedoso contra a Alemanha “porque aquele país é a verdadeira pátria do mal de nossos dias, a filial do Inferno, o lar do anticristo”? Deveríamos dizer que esses são os tolos e perigosos. Pois o que se deve concluir a partir dessa irracionalidade é que como o gás venenoso e as bombas não escolhem os culpados, a Alemanha deveria ser exterminada – todo o país e seu povo.

Aquele que realmente não sabe a verdade se expressa em termos sofisticados, gerais e imprecisos. Ele grita sobre “os” alemães, queixa-se do mal em geral, romanceando as coisas de tal maneira que quem quer que o ouça não consegue decidir o que fazer. Decidirá ele não mais ser alemão? Desaparecerá o inferno se ele próprio for bom?

A conversa mole sobre a barbárie, cuja fonte é a barbárie, é também uma verdade desse tipo. Ela é combatida através da cultura. Ela é dita em termos gerais; não serve de guia para a ação e é, na verdade, destinada a ninguém.

Tais descrições vagas apontam apenas para poucas conexões na cadeia das causas. Seu obscurantismo oculta as forças reais que geram desastres. Se pudesse ser jogada luz sobre o assunto, rapidamente ficaria claro que os desastres são causados por certos homens. Pois vivemos em um mundo onde o destino do homem é determinado pelos homens.

O fascismo não é um desastre natural que pode ser entendido simplesmente em termos de “natureza humana”. Mas, mesmo quando estamos lidando com catástrofes naturais, existem formas de retratá-las que são dignas dos seres humanos, porque apelam ao espírito de luta dos homens.

Após o grande terremoto que destruiu Yokohama, muitas revistas americanas publicaram fotografias mostrando montanhas de ruínas. Na legenda de uma dessas fotografias lia-se: “STEEL STOOD” (O AÇO FICOU DE PÉ).

Apesar de só ver ruínas à primeira vista, o olho distinguia, depois de ler a legenda, que alguns arranha-céus permaneceram de pé.

Entre as muitas descrições sobre um terremoto, aquelas feitas por engenheiros civis sobre movimentações do solo, forças de estresse, calor etc. são as de maior importância, pois levarão a construções que resistirão aos terremotos.

Se alguém deseja descrever o fascismo e a guerra, grandes desastres que não são catástrofes naturais, deve fazê-lo em termos da verdade prática. Precisa mostrar que esses desastres são lançados pelas classes dominantes para controlar um vasto número de trabalhadores que não possuem os meios de
produção.

Se alguém deseja escrever com sucesso a verdade sobre as condições malignas deve escrever de modo que as causas evitáveis possam ser identificadas. Se as causas evitáveis podem ser identificadas, as condições malignas podem ser combatidas.

4. O discernimento para selecionar aqueles em cujas mãos a verdade será eficiente

A comercialização por séculos de publicações críticas e descritivas e o fato de que o escritor foi liberado de se preocupar com o destino de seus escritos levaram-no a uma falsa impressão. Ele acha que seu editor ou intermediário distribui o que ele escreveu para todos.

O escritor pensa: Eu falei, e aqueles que desejam ouvir me ouvirão. Na verdade, ele falou e aqueles que podem pagar o ouvirão.

Muito já foi dito sobre isso, apesar de ainda ser pouco. Eu simplesmente quero enfatizar que “escrever para alguém” foi transformado simplesmente em “escrever”. Mas a verdade não pode ser simplesmente escrita; ela tem que ser escrita para alguém; alguém que possa fazer algo com ela. O processo de reconhecer a verdade é o mesmo para escritores e leitores.

Para dizer boas coisas, é preciso ouvir bem e ouvir coisas boas. A verdade precisa ser dita deliberadamente e ouvida deliberadamente.

E para nós escritores é importante a quem falamos a verdade e quem nos fala a verdade.

Nós temos que falar a verdade sobre condições terríveis àqueles cujas condições são piores, e precisamos também conhecer a verdade deles. Precisamos nos dirigir não somente àqueles que já sustentam certas posições, mas às pessoas que, devido a sua situação, deveriam sustentar essas
posições. E o público está continuamente mudando. Mesmo os carrascos podem ser abordados se o pagamento pelos enforcamentos não estão em dia ou o trabalho fica muito perigoso.

Os camponeses da Bavária eram contra qualquer revolução, mas quando a guerra se prolongou demais e os filhos que voltavam para casa não encontravam oportunidades em suas fazendas, tornou-se possível conquistá-los para a revolução.

É importante para o escritor encontrar o tom da verdade. Geralmente, ouvimos um tom muito suave e melancólico, um tom de pessoas que não machucariam uma mosca. Ouvindo-os, os miseráveis ficam mais miseráveis.

Aqueles que assim usam a verdade podem não ser inimigos, mas certamente não são aliados. A verdade é beligerante; ela ataca não somente a falsidade, mas particularmente pessoas que espalham a falsidade.

5. A engenhosidade para espalhar a verdade entre muitos

Muitas pessoas, orgulhosas por possuírem a coragem necessária para escrever sobre a verdade, felizes por terem conseguido encontrá-la, cansadas talvez pelo trabalho necessário para colocá-la em uma forma viável e impacientes para que ela seja agarrada por aqueles cujos interesses estão apoiando, consideram supérfluo aplicar qualquer engenhosidade especial ao espalhar a verdade. Por esse motivo, elas frequentemente sacrificam toda a eficácia de seu trabalho.

Historicamente, a engenhosidade tem sido utilizada para espalhar a verdade, sempre que essa é suprimida ou ocultada.

Confúcio adulterou uma tradicional lenda histórica, alterando algumas palavras. Onde se lia “O governante de Hun mandou matar o filósofo Wan porque ele disse isso e aquilo,” Confúcio substituiu “matar” por “assassinar”. Quando se dizia que o tirano tal “morreu assassinado”, ele substituiu por “foi executado”. Desse modo, Confúcio abriu caminho para uma nova interpretação da história.

Em nossos tempos, qualquer um que diga “população” no lugar de “povo” ou “raça”, e “propriedade privada” no lugar de “terra”, está, por esse simples ato, retirando seu apoio a grandes mentiras. Ele está tirando dessas palavras suas implicações místicas e degradadas. A palavra povo (Volk) implica certa unidade e certos interesses comuns; assim ela deveria ser utilizada quando se fala a respeito de povos, porque só nesses casos será concebível algo como uma comunidade de interesses.

A população de um território pode ter muitos interesses diferentes, até mesmo opostos – e essa é uma verdade geralmente suprimida. De modo semelhante, quem fala da terra e descreve vividamente seu cheiro e cor está apoiando as mentiras dos poderosos. Pois a fertilidade do solo não é a questão, nem o amor dos homens pela terra, nem mesmo as técnicas que utilizam para trabalhá-la; o que é de importância capital é o preço dos cereais e o preço do trabalho. Aqueles que extraem lucros do solo não são os mesmos que extraem os grãos dele, e o cheiro de terra sulcada pelo arado é desconhecido na Bolsa de Valores. A última, aliás, tem um cheiro completamente diferente. “Propriedade privada ‘ é a expressão correta; ela oferece menos oportunidade de engano.

Onde existe opressão, a palavra obediência deveria ser empregada ao invés de disciplina, pois disciplina pode ser auto-imposta e, desse modo, tem algo de nobre em seu caráter que falta à obediência. E uma palavra melhor que honra é dignidade humana; a última tende a manter o indivíduo em foco.

Todos sabemos muito bem que tipo de pilantras se metem a defender a honra de um povo. E como
eles distribuem honras aos famintos que os sustentam. A engenhosidade de Confúcio ainda é válida hoje.

Thomas More em sua Utopia descreveu um país onde as condições justas de vida prevaleciam. Era um país muito diferente da Inglaterra em que viveu, mas lembrava muito a Inglaterra, exceto pelas
condições de vida.

Lênin queria descrever a exploração e opressão na Ilha Sakalina, mas ele precisava tomar cuidado com a polícia Czarista. No lugar da Rússia ele colocou o Japão, e no lugar da Sakalina, a Coreia.

Os métodos da burguesia japonesa lembravam a todos os seus leitores os da burguesia russa na Sakalina, mas o panfleto não foi censurado pois a Rússia era hostil ao Japão. Há muitas coisas que não podem ser ditas na Alemanha sobre a Alemanha, mas podem ser ditas sobre a Áustria.

Há muitas formas engenhosas com as quais se pode trapacear um Estado fascista. Voltaire combateu a doutrina de milagres da Igreja escrevendo um poema galante sobre a virgem de Orléans. Ele descreveu os milagres que sem dúvida ocorreram para que Joana D’Arc permanecesse virgem no meio de um exército de homens, de uma corte de aristocratas e de um grupo de monges. Com a elegância de seu estilo, e descrevendo aventuras eróticas que caracterizavam a vida luxuriosa da elite, ele lançou descrédito sobre uma religião que fornecia os meios para viver uma vida irresponsável. Ele até tornou possível, de forma ilegal, que seus trabalhos chegassem àqueles a quem eram destinados.

Seus leitores poderosos promoveram ou toleraram a distribuição de seus escritos. Dessa forma, eles retiravam apoio da polícia que defendia seus privilégios. Outro exemplo: o grande Lucrécio diz expressamente que um dos maiores estímulos para espalhar o ateísmo de Epicuro foi a beleza de seus versos.

É fato que o alto nível literário de uma certa afirmação pode render proteção a ela. Entretanto, também é comum que levante suspeitas. Em tais casos poderá ser necessário rebaixar deliberadamente o nível. Isso ocorre, por exemplo, quando descrições das más condições são imperceptivelmente escondidas na desprezada forma de uma história de detetive. Tais descrições justificariam uma história de detetive.

O grande Shakespeare deliberadamente baixou o nível de seu trabalho por razões de muito menor importância.

Na cena em que Coriolano é confrontado por sua mãe e está de partida para sua cidade natal, Shakespeare deliberadamente torna o discurso dela ao filho muito fraco. Era inoportuno para Shakespeare que Coriolano fosse impedido, por boas razões, de completar seu plano. Era necessário que se entregasse ao velho hábito com uma certa submissão.

Shakespeare também nos dá um modelo de engenhosidade para espalhar a verdade: é o discurso de Antonio sobre o corpo de Cesar. Antonio continuamente enfatiza que Brutus é um homem honrado, mas ele também descreve o acontecido, e a descrição do acontecido é mais impressionante do que a descrição sobre o executor do acontecimento. O orador, assim, permite a si próprio ser conquistado pelos fatos; ele deixa que os fatos falem por si próprios.

Um poeta egípcio, que viveu há quatro mil anos, empregou método similar. Aquele foi um tempo de grande luta de classes. A classe que até então governara estava defendendo-se com dificuldade contra seu grande oponente, a parte da população que até então servira.

No poema, um homem sábio aparece na corte do governante e o chama para uma luta contra o inimigo interno. Ele apresenta uma longa e impressionante descrição das desordens que foram provocadas pelos levantes das classes inferiores. Essa descrição era assim:

Então é assim: os nobres lamentam e os servos se alegram. Cada cidade diz: “Deixe-nos expulsar os fortes de nosso meio”. Os escritórios são arrombados e os documentos removidos. Os escravos estão se tornando senhores.

Então é assim: o filho de um homem bem nascido não é mais reconhecido. O filho da patroa torna-se o filho de sua escrava.

Então é assim: os burgueses foram presos as suas responsabilidades. Aqueles que nunca viram o dia partiram para a sua luz.

Então é assim: As pobres caixas de ébano estão sendo quebradas; a nobre madeira está sendo cortada para fazer camas.

Vejam, a capital foi derrubada em uma hora.

Vejam, os pobres da terra tornaram-se ricos.

Vejam, aquele que não tinha pão, agora possui celeiro cheio com as posses de outro.

Vejam, é bom para o homem quando ele pode comer sua comida.

Vejam, ele que não tinha milho agora possui celeiros; aqueles que aceitaram a generosidade do milho agora o distribuem.

Vejam, ele que não tinha bois agora possui rebanhos; ele que não conseguia animais de carga agora possui rebanhos de gado puro.

Vejam, aquele que não podia construir barraco para si próprio agora possui quatro paredes fortes.

Vejam, os ministros buscam abrigo no celeiro, e aquele que não tinha permissão para dormir em cima de muros, agora possui cama.

Vejam, aquele que não podia construir para si próprio uma canoa agora possui navios; quando o proprietário olhar seus navios, descobrirá que não são mais seus.

Vejam, aqueles que tinham roupas estão vestidos em trapos, e ele que não teceu nada para si próprio agora possui o mais fino linho. O homem rico vai com sede para a cama, e ele que uma vez implorou por restos agora tem uma cerveja forte.

Vejam, ele que não entendia nada de música agora possui uma harpa; ele para quem ninguém cantava agora aprecia música.

Vejam, ele que dormia sozinho por falta de esposa agora tem mulheres; aqueles que olhavam suas faces na água, agora têm espelhos.

Vejam, os mais altos do país agora vagam por aí sem emprego. Nada mais é relatado aos poderosos. Ele que uma vez foi mensageiro agora envia outros com suas mensagens.

Vejam, cinco homens cujo mestre os enviou. Eles dizem: vá por si próprio; nós chegamos. É significativo que essa descrição seja de um tipo de desordem que pareça muito desejável aos oprimidos.

E ainda assim, a intenção do poeta não é transparente. Ele condena expressamente essas condições, apesar de condená-las insuficientemente.

Jonathan Swift, em seu famoso panfleto, sugeriu que a prosperidade da terra poderia ser restaurada por meio do assassinato dos filhos dos pobres e da venda de sua carne.

Ele apresentou cálculos exatos demonstrando as economias que poderiam ser feitas se as classes dominantes não parassem por nada. Swift fingiu inocência. Ele defendeu um modo de pensar que ele odiava com intenso ardor e profundidade, utilizando como tema uma questão que expunha abertamente a crueldade daquele modo de pensar.

Qualquer um podia ser mais talentoso que Swift, ou de algum modo mais humano – especialmente aqueles que não haviam se incomodado previamente em considerar quais eram as conclusões lógicas a respeito de seus pontos de vista.

Propaganda que estimula a reflexão, não importa em que campo, é útil para a causa dos oprimidos. Esse tipo de propaganda é muito necessária.

Sob governos que servem à promoção da exploração, qualquer reflexão é considerada uma coisa baixa, assim como qualquer coisa que sirva àqueles que são oprimidos. É baixo estar constantemente preocupado em conseguir o suficiente para comer; é baixo rejeitar honras oferecidas aos defensores de um país, os quais passam fome; baixo é duvidar do Líder, mesmo quando sua liderança leva à desgraça; é baixo resistir a realizar um trabalho que não alimenta o trabalhador; baixo é revoltar-se contra a obrigação de cometer atos irracionais; baixo é estar indiferente a uma família que não pode ser ajudada por maior preocupação que se tenha.

Os famintos são insultados como lobos vorazes que não tem nada a perder; aqueles que duvidam de seus opressores são acusados de duvidar de sua própria força; aqueles que exigem pagamento por seu
trabalho são denunciados como preguiçosos. Sob tais governos, a reflexão em geral é considerada baixeza e cai em descrédito.

Pensar não é mais ensinado em lugar algum. O ato de pensar é perseguido. Contudo, sempre é possível chamar a atenção para os triunfos do pensamento em alguns campos, sem medo de punição. São campos em que as ditaduras necessitam de pensamento. Por exemplo, é possível referir-se aos triunfos do pensamento em campos como o da ciência e tecnologia militares. Mesmo assuntos como aumento dos estoques de lã por meio de organização mais eficiente, ou invenção de materiais substitutos, exigem pensamento.

Adulteração de comida, treinamento de jovens para a guerra – todas essas coisas exigem pensamento; e em relação a esses assuntos, o processo de pensamento pode ser descrito.

Enaltecer a guerra, o objetivo automático desse tipo de pensamento, pode ser engenhosamente evitado, e desse modo, o pensamento que surge da questão de como a guerra é melhor travada pode levar a outra questão: se a guerra faz realmente sentido. O pensamento pode ser então aplicado a outra questão: como pode uma guerra sem sentido ser prevenida? Naturalmente, essa pergunta mal pode ser feita abertamente. Sendo assim, não poderá o pensamento que estimulamos ser utilizado? Isto é, pode ele ser colocado de modo a levar à ação? Pode.

Para que a opressão da parte maior da população pela menor possa continuar em tempos como os nossos, uma certa atitude é necessária, e essa atitude deve permear todos os campos. Uma descoberta no campo da biologia, como aquela do inglês Darwin, poderia, de repente, colocar em
perigo a exploração.

Apenas a Igreja esteve alarmada por certo período de tempo; o povo não notou nada de novo. Em anos recentes, as pesquisas dos físicos nos levaram a consequências no campo da lógica que poderiam muito bem colocar em risco dogmas que sustentam a opressão. Hegel, o filósofo do Estado prussiano, que realizou investigações complexas no campo da lógica, sugeriu a Marx e Lênin, os expoentes clássicos da revolução proletária, métodos de valor inestimável.

O desenvolvimento das ciências está interrelacionado, mas é desigual, e o Estado nunca é capaz de manter seu olho em tudo. A guarda avançada da verdade pode escolher posições de batalha que estão relativamente pouco vigiadas.

O que conta é que o tipo correto de pensamento seja ensinado, um tipo de pensamento que investiga os aspectos transitórios e mutáveis de todas as coisas e processos.

Governantes têm forte desagrado por mudanças significativas. Eles prefeririam ver tudo permanecer o mesmo – por mil anos, se possível. Eles amariam se o Sol e a Lua ficassem parados. Assim, ninguém mais cresceria faminto, ninguém desejaria seu jantar. Os governantes que mandam disparar um tiro não querem que o inimigo seja capaz de atirar; o deles há de ser o último tiro.

Uma forma de pensamento que privilegia a mudança é uma boa forma para encorajar os oprimidos.

Outra ideia com a qual os vencedores podem ser confrontados é que, em tudo e em todas as condições, contradições aparecem e crescem. Tal visão (a dialética, a doutrina de que todas as coisas fluem e mudam) pode ser estimulada em domínios que por um tempo escapem da percepção dos poderosos.

Pode se empregada na biologia ou na química por exemplo. Mas também pode ser indicada na análise do destino de uma família, e aqui também não deve chamar muita atenção.

A noção de que as coisas dependem de fatores que estão constantemente mudando é uma idéia
perigosa para os ditadores, e essa ideia pode aparecer disfarçada, sem atrair a atenção da polícia.

Uma descrição completa de todos os processos e circunstâncias encontradas por um homem que abre uma tabacaria pode desferir um golpe contra a ditadura. Quem refletir sobre isso rapidamente
descobrirá o porquê. Governos que levam as massas à miséria precisam proteger-se contra o pensamento das massas sobre os governos enquanto elas estão na miséria. Tais governos falam muito sobre Destino. É o Destino, e não eles, o culpado por tanto sofrimento. Qualquer um que investigue o assunto é preso antes de chegar à conclusão e que a culpa é do governo. Mas é possível opor-se a toda essa irracionalidade sobre Destino, demonstrando que o Destino do Homem é determinado pelos homens.

Isso pode ser feito de muitas formas.

Por exemplo, pode-se contar a história de uma fazenda de camponeses –uma fazenda na Islândia, digamos. A vila inteira está falando sobre a maldição que assola a fazenda. A camponesa se jogou dentro de um poço. Seu marido enforcou-se. Um dia, o filho do camponês casa-se com uma garota, cujo dote é de vários acres de boa terra. A maldição parece se desfazer sobre a fazenda. A vila divide-se no julgamento sobre a causa dessa feliz mudança dos acontecimentos. Alguns atribuem à disposição solar do filho do camponês, outros, às novas terras que a jovem esposa somou à fazenda, tornando-a suficiente para prover uma vida decente.

Mas, mesmo em um poema que simplesmente descreve a paisagem, algo pode ser alcançado, se as coisas criadas pelos homens são incorporadas à paisagem.

É necessário engenhosidade para espalhar a verdade.

Resumo

Atualmente, a grande verdade é que nosso continente está cedendo espaço à barbárie porque a propriedade privada dos meios de produção está sendo mantida pela violência.

Reconhecer simplesmente essa verdade não é suficiente, mas também se ela não for reconhecida, nenhuma outra verdade relevante poderá ser descoberta.

Qual a utilidade de escrever algo corajoso sobre a barbárie na qual estamos ingressando (o que é verdade) se não está claro porque nós estamos entrando nessa condição?

Precisamos afirmar que a tortura está sendo utilizada para preservar relações de propriedade. Para falar a verdade, ao afirmarmos isso, perderemos muitos amigos, que são contra a tortura apenas porque pensam que as relações de propriedade podem ser mantidas sem a tortura, o que é uma inverdade.

Precisamos falar a verdade sobre as condições bárbaras em nosso país a fim de que algo seja feito para lhes dar um fim – algo, a saber, que mudará as relações de propriedade. Mais ainda, precisamos dizer essa verdade àqueles que mais sofrem em decorrência das relações de propriedade existentes e que têm o maior interesse em sua mudança – os trabalhadores e aqueles a quem podemos induzir a que sejam seus aliados, porque eles também não têm qualquer controle sobre os meios de produção, mesmo que participem de seus lucros.

E devemos agir com muita engenhosidade.

Todas essas cinco dificuldades devem ser superadas ao mesmo tempo, uma vez que não podemos descobrir a verdade sobre condições bárbaras sem pensar naqueles que sofrem em função delas; não podemos agir sem que nos livremos de qualquer traço de covardia; e quando pretendemos esclarecer o estado real das coisas para aqueles que estão prontos a utilizar essa verdade, devemos também considerar a necessidade de oferecer-lhes a verdade de forma que seja uma arma em suas mãos, e ao mesmo tempo devemos fazer isso de forma tão engenhosa que o inimigo não descubra nem impeça nosso oferecimento da verdade.

Isso é o que se requer de um escritor quando ele é convidado a escrever a verdade.

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Editora Abadia Catadora
Abadia Catadora, 2012,
Quadra 3 conj. 14 casa 4, Setor Leste
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Arte da capa
Erica, Douglas, Lucas, Almir, Regiane, Vicente, Ana, Abadia, Samuel, Marcos, Mateus,
Diagramação
Michelli Costa
Revisão
Fabio Ariston

Agradecimentos:
Editora Eloísa Cartonera (Cristian e Washington)
Embaixada da Argentina (Gonzalo Entenza)
Movimento de Educação e Cultura da Estrutural / Projeto Ponto de
Memória
Universidade Católica (Professor Lunde Braghini)
Organização dos Estados Ibero-Americanos (Cláudia Castro)
Nicolas Behr
Vitor Pordeus
Maestro Alexandre Schubert
Fernando Lopes
Carlos Rodrigues Brandão