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sábado, 29 de junho de 2013

Slavoj Žižek – “Dificuldades no Paraíso: protestos na Grécia e Turquia”

28/6/2013, Slavoj Žižek, London Review of Books
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Slavoj Žižek

Em seus primeiros escritos, Marx descreve a situação na Alemanha como situação na qual a única resposta a problemas particulares seria a solução universal: a revolução global. É expressão condensada da diferença entre período reformista e período revolucionário: em período reformista, a revolução global permanece como sonho que, se serve para alguma coisa, só serve para dar peso às tentativas para mudar alguma coisa localmente; em período revolucionário, vê-se claramente que nada melhorará, sem mudança global radical. Nesse sentido puramente formal, 1990 foi ano revolucionário: as muitas reformas parciais nos estados comunistas jamais dariam conta do serviço; e era necessária uma quebra total, para resolver todos os problemas do dia a dia; por exemplo, o problema de dar suficiente comida às pessoas.

Em que ponto estamos hoje, quanto a essa diferença? Os problemas e protestos dos últimos anos são sinais de que se aproxima uma crise global, ou não passam de pequenos obstáculos que pode enfrentar mediante intervenções locais? O mais notável nas erupções é que estão acontecendo não apenas, nem basicamente, nos pontos fracos do sistema, mas em pontos que, até aqui, eram percebidos como histórias de sucesso. Sabemos por que as pessoas protestam na Grécia ou na Espanha; mas por que há confusão em países prósperos e em rápido desenvolvimento como Turquia, Suécia ou Brasil?

Aiatolá Khomeini
Com algum distanciamento, pode-se ver que a revolução de Khomeini em 1979 foi o caso original de “dificuldades no paraíso”, dado que aconteceu em país que caminhava a passos largos para uma modernização pró-ocidente, e o mais estável aliado do ocidente na região. (Talvez haja algum furo, na nossa noção de paraíso.)

Antes da atual onda de protestos, a Turquia era quente: modelo ideal de estado estável, a combinar pujante economia liberal e islamismo moderado, pronta para a Europa, um bem vindo contraste com a Grécia mais “europeia”, colhida num labirinto ideológico e andando rumo à autodestruição econômica. Sim, é verdade: aqui e ali sempre se viam alguns sinais péssimos (a Turquia, sempre a negar o holocausto dos armênios; prisão de jornalistas; o status não resolvido dos curdos; chamamentos a uma ‘grande Turquia’ que ressuscitaria a tradição do Império Otomano; imposição, vez ou outra, de leis religiosas), mas eram descartados como pequenas máculas que não comprometeriam o grande quadro.

E então, explodiram os protestos na praça Taksim. Não há quem não saiba que os planos para transformar um parque em torno da praça Taksim no centro de Istambul em shopping-center não foi “o caso”, naqueles protestos e que um mal-estar muito mais profundo ganhava força. O mesmo se deve dizer dos protestos de meados de junho no Brasil: foram desencadeados por um pequeno aumento no preço do bilhete do transporte público, e prosseguiram mesmo depois de o aumento ter sido revogado. Também nesse caso os protestos explodiram num país que – pelo menos segundo a imprensa – estava em pleno boom econômico e com todos os motivos para sentir-se confiante quanto ao futuro. Nesse caso, os protestos foram apoiados aparentemente pela presidenta Dilma Rousseff, que se declarou satisfeitíssima com eles.

É crucialmente importante não vermos os protestos turcos meramente como sociedade civil secular que se levantaria contra regime islamista autoritário apoiado por uma maioria islamista silenciosa. O que complica o quadro é o ímpeto anticapitalista dos protestos: os que protestam sentem intuitivamente que o fundamentalismo livre-mercadista e o fundamentalismo islamista não se excluem mutuamente.

Praça Taksim na noite de 3/6/2013
A privatização do espaço público por ação de um governo islamista mostra que as duas modalidades de fundamentalismo podem trabalhar de mãos dadas: é sinal claro de que o casamento ‘'por toda a eternidade'’ de democracia e capitalismo já caminha para o divórcio.

Também é importante reconhecer que os que protestam não visam a nenhum objetivo ‘real’ identificável. Os protestos não são, “realmente”, contra o capitalismo global, nem ‘realmente’ contra o fundamentalismo religioso, nem “realmente” a favor de liberdades civis e democracia, nem visam “realmente” a qualquer outra coisa específica. O que a maioria dos que participaram dos protestos “sabem” é de um mal-estar, de um descontentamento fluido, que sustenta e une várias demandas específicas.

Manifestantes na Tunisia em 2011
A luta para entender os protestos não é luta só epistemológica, com jornalistas e teóricos tentando explicar seu ‘'real'’ conteúdo: é também luta ontológica pela própria coisa, o que esteja acontecendo dentro dos próprios protestos. É apenas luta contra governo corrupto? É luta contra governo islamista autoritário? É luta contra a privatização do espaço público? A pergunta continua aberta. E de como seja respondida dependerá o resultado de um processo político em andamento.

Em 2011, quando irrompiam protestos por toda a Europa e todo o Oriente Médio, muitos insistiram que não fossem tratados como instâncias de um único movimento global. Em vez disso, argumentavam, haveria uma resposta específica para cada situação específica. No Egito, os que protestavam queriam o que em outros países era alvo das críticas do movimento Occupy: “liberdade” e “democracia”. Mesmo entre países muçulmanos, havia diferenças cruciais: a Primavera Árabe no Egito era contra um regime autoritário e corrupto aliado do ocidente; a Revolução Verde no Irã, que começou em 2009, era contra o islamismo autoritário. É fácil ver o quanto essa particularização dos protestos serve bem aos defensores do status quo: não há nenhuma ameaça direta à ordem global como tal; só uma série de problemas locais separados.

O capitalismo global é processo complexo que afeta diferentes países de diferentes modos. O que une todos os protestos, por mais multifacetados que sejam, é que todos reagem contra diferentes facetas da globalização capitalista. A tendência geral do capitalismo global hoje é andar na direção de expandir o mercado, invadir e cercar o espaço público, reduzir os serviços públicos (saúde, educação, cultura) e impor cada vez mais firmemente um poder político autoritário. Nesse contexto, os gregos protestam contra o governo do capital financeiro internacional e contra seu próprio estado ineficiente e corrupto, cada dia menos capaz de prover os serviços sociais básicos. Nesse contexto, os turcos protestam contra a comercialização do espaço público e contra o autoritarismo religioso. E os egípcios protestam contra um governo apoiado pelas potências ocidentais. E os iranianos protestam contra a corrupção e o fundamentalismo religioso. E assim por diante.

O Movimento "Occupy" em 2011
Nenhum desses protestos pode ser reduzido a uma única questão. Todos lidam com uma específica combinação de pelo menos dois problemas, um econômico (da corrupção à ineficiência do próprio capitalismo); o outro, político-ideológico (da demanda por democracia à demanda pelo fim da democracia convencional multipartidária). O mesmo se aplica ao movimento Occupy. Na profusão de declarações (muitas vezes confusas), o movimento manteve dois traços básicos: primeiro, o descontentamento com o capitalismo como sistema, não apenas contra um ou outro corrupto ou corrupções locais; segundo, a consciência de que a forma institucionalizada de democracia multipartidária não tem meios para combater os excessos capitalistas. Em outras palavras, é preciso reinventar a democracia.

A causa subjacente dos protestos ser o capitalismo global não significa que a única solução seja “derrubar” o capitalismo. Nem é viável seguir a alternativa pragmática, que implica lidar com problemas individuais enquanto se espera por transformação radical. Essa ideia ignora o fato de que o capitalismo global é necessariamente contraditório e inconsistente: a liberdade de mercado anda de mãos dadas com os EUA protegerem seus próprios agronegócios e agronegociantes; pregar a democracia anda de mãos dadas com apoiar o governo da Arábia Saudita.

Essa inconsistência abre um espaço para a intervenção política: onde o capitalista global é forçado a violar suas próprias regras, ali há uma oportunidade para insistir em que ele obedeça àquelas regras. Exigir coerência e consistência em pontos estrategicamente selecionados nos quais o sistema não pode pagar para ser coerente e consistente é pressionar todo o sistema. A arte da política está em impor demandas específicas as quais, ao mesmo tempo em que são perfeitamente realistas, ferem o coração da ideologia hegemônica e implicam mudança muito mais radical. Essas demandas, por mais que sejam viáveis e legítimas, são, de fato, impossíveis. Caso exemplar é a proposta de Obama para prover assistência pública universal à saúde. Por isso as reações foram tão violentas.

Praça Tahrir (Cairo, Egito) em 24/6/2012
Um movimento político começa com uma ideia, algo por que lutar, mas, no tempo, a ideia passa por transformação profunda – não apenas alguma acomodação tática, mas uma redefinição essencial –, porque a própria ideia passa a ser parte do processo: torna-se sobredeterminada. [*] Digamos que uma revolta comece com uma demanda por justiça, talvez sob a forma de demanda pela rejeição de uma determinada lei. Depois de o povo estar profundamente engajado na revolta, ele percebe que será preciso muito mais do que a demanda inicial, para que haja verdadeira justiça. O problema então é definir, precisamente, em que consiste esse ‘muito mais’.

John Caputo
A perspectiva liberal-pragmática entende que os problemas podem ser resolvidos gradualmente, um a um: “Há gente morrendo agora em Rwanda, então esqueçam a luta anti-imperialista e vamos impedir o massacre”. Ou: “Temos de combater a pobreza e o racismo já, aqui e agora, não esperar pelo colapso da ordem capitalista global”. John Caputo argumenta exatamente assim em After the Death of God (2007):

Eu ficaria perfeitamente feliz se os políticos da extrema-esquerda nos EUA fossem capazes de reformar o sistema oferecendo assistência universal à saúde, redistribuindo efetivamente a riqueza mais equitativamente com um sistema tributário [orig. Internal Revenue Code (IRC)] redefinido, restringindo o financiamento privado de campanhas eleitorais, autorizando o voto universal, para todos, tratando com humanidade os trabalhadores migrantes, e levando a efeito uma política externa multilateralista que integrasse o poder dos EUA dentro da comunidade internacional etc., i.e., intervindo sobre o capitalismo mediante reformas profundas, de longo alcance... Se depois de fazer tudo isso, Badiou e Žižek ainda reclamarem de um monstro chamado Capitalismo a nos assombrar, eu estaria inclinado a receber o tal monstro com um bocejo.

O problema aqui não é a conclusão de Caputo: se se pode alcançar tudo isso dentro do capitalismo, por que não ficar aí mesmo? O problema é a premissa subjacente de que seja possível obter tudo isso dentro do capitalismo global em sua forma atual. Mas e se os emperramentos e mau funcionamento do capitalismo que Caputo listou não forem meras perturbações contingentes, mas necessários por estrutura? E se o sonho de Caputo é um sonho de ordem capitalista universal, sem sintomas, sem os pontos críticos nos quais sua “verdade reprimida” mostra a própria cara?

Os protestos e revoltas de hoje são sustentados pela combinação de demandas sobrepostas, e é aí que está a sua força: lutam por democracia (“normal”, parlamentar) contra regimes autoritários; contra o racismo e o sexismo, especialmente quando dirigidos contra imigrantes e refugiados; contra a corrupção na política e nos negócios (poluição industrial do meio ambiente etc.); pelo estado de bem-estar contra o neoliberalismo; e por novas formas de democracia que avancem além dos rituais multipartidários. Questionam também o sistema capitalista global como tal, e tentam manter viva a ideia de uma sociedade que avance além do capitalismo.

Duas armadilhas há aí, a serem evitadas: o falso radicalismo (“o que realmente interessa é abolir o capitalismo liberal-parlamentar; todas as demais lutas são secundárias”), mas, também, o falso gradualismo (“no momentos temos de lutar contra a ditadura militar e por democracia básica, todos os sonhos de socialismo devem ser, agora, postos de lado”).

Aqui, ninguém se deve envergonhar de acionar a distinção maoísta entre antagonismo principal e antagonismos secundários, entre os que mais interessam no fim e os que dominam hoje. Há situações nas quais insistir no antagonismo principal significa perder a oportunidade de acertar golpe significativo, no curso da luta.

Só uma política que tome plenamente em consideração a complexidade da sobredeterminação merece o nome de estratégia. Quando se embarca numa luta específica, a pergunta chave é: como nosso engajamento ou desengajamento nessa luta afeta outras lutas?

A regra geral é que quando uma revolta contra regime semidemocrático começa – como no Oriente Médio em 2011 – é fácil mobilizar grandes multidões com slogans (por democracia, contra a corrupção, etc.). Mas muito rapidamente temos de enfrentar escolhas muito mais difíceis. Quando a revolta é bem-sucedida e alcança o objetivo inicial, é quando nos damos conta de que o que realmente nos perturbava (a falta de liberdade, a humilhação diária, a corrupção, o futuro pouco ou nenhum) persiste sob novo disfarce. Nesse momento somos forçados a ver que havia furos no próprio objetivo inicial. Pode implicar que se chegue a ver que a democracia pode ser uma forma de des-liberdade, ou que se pode exigir muito mais do que apenas a mera democracia política: que a vida social e econômica tem de ser também democratizada.

Em resumo, o que à primeira vista tomamos como fracasso que só atingia um nobre princípio (a liberdade democrática) é afinal percebido como fracasso inerente ao próprio princípio. Essa descoberta – de que o princípio pelo qual lutamos pode ser inerentemente viciado – é um grande passo em qualquer educação política.

Representantes da ideologia reinante mobilizam todo o seu arsenal para impedir que cheguemos a essa conclusão radical. Dizem-nos que a liberdade democrática implica suas próprias responsabilidades, que tem um preço, que é sinal de imaturidade esperar demais da democracia. Numa sociedade livre, dizem eles, devemos agir como capitalistas e investir em nossa própria vida: se fracassarmos, se não conseguirmos fazer os necessários sacrifícios, ou se de algum modo não correspondermos, a culpa é nossa.

Em sentido político mais direto, os EUA perseguem coerentemente uma estratégia de controle de danos em sua política externa, recanalizando os levantes populares para formas capitalistas-parlamentares aceitáveis: na África do Sul, depois do apartheid; nas Filipinas, depois da queda de Marcos; na Indonésia, depois de Suharto etc. É nesse ponto que a política propriamente dita começa: a questão é como empurrar ainda mais adiante, depois que passa a primeira, excitante, onda de mudança; como dar o passo seguinte, sem sucumbir à tentação ‘'totalitária'’; como avançar além de Mandela, sem virar Mugabe.

Bertolt Brecht
O que significaria isso, num caso concreto? Comparemos dois países vizinhos, Grécia e Turquia. À primeira vista, talvez pareçam completamente diferentes: Grécia, presa na armadilha da ruinosa política de austeridade; Turquia em pleno boom econômico e emergindo como nova superpotência regional. Mas e se cada Turquia contiver sua própria Grécia, suas próprias ilhas de miséria? Como Brecht diz em sua Elegias Hollywoodenses (orig. Hollywood Elegies [1942]),

A vila de Hollywood foi planejada segundo a ideia
De que o povo aqui seria proprietário de partes do paraíso. Ali,
Chegaram à conclusão de que Deus
Embora precisando de céu e inferno, não precisava
Planejar dois estabelecimentos, mas
Só um: o paraíso. Que esse,
para os pobres e infortunados, funciona
como inferno . [**]

Esses versos descrevem bastante bem a “aldeia global” de hoje: aplicam-se ao Qatar ou Dubai, playgrounds para os ricos, que dependem de manter os trabalhadores imigrantes em estado de semiescravidão, ou escravidão. 

Manifestações na Grécia - 2011
Exame mais detido revela semelhanças entre Turquia e Grécia: privatizações, o fechamento do espaço público, o desmonte dos serviços sociais, a ascensão de políticos autoritários. Num plano elementar, os que protestam na Grécia e os que protestam na Turquia estão engajados na mesma luta. O melhor caminho talvez seja coordenar as duas lutas, rejeitar as tentações “patrióticas”, deixar para trás a inimizade histórica entre os dois países e buscar espaços de solidariedade. O futuro dos protestos talvez dependa disso.




Notas de rodapé

[*]  Em seu prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política, Marx escreveu (no seu pior modo evolucional) que a humanidade só se propõe problemas que seja capaz de resolver. E se invertermos a ganga dessa frase e declararmos que, regra geral, a humanidade propõe-se problemas que não pode resolver, e assim dispara um processo cujo desdobramento é imprevisível, no curso do qual, a própria tarefa é redefinida?

[**]  Não encontramos tradução para o português. Aqui, tradução de trabalho, sem ambição literária, só para ajudar a ler. (NTs).

segunda-feira, 24 de junho de 2013

De Tahrir para Taksim: O ocidente sempre interferiu e interfere

24/6/2013, Ramzy Baroud, Asia Times Online  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ramzy Baroud
A distância entre a Praça Tahrir no Cairo e a Praça Taksim em Istambul é imensa. Não há mapa do caminho que ajude a usar a experiência popular da primeira, para explicar as circunstâncias que levaram à outra.

Muitos tentaram insistir nas semelhanças entre as duas praças, porque anda na moda atualmente “aproximar” eventos de noticiário de televisão e jornais, mesmo que haja um mundo de diferenças reais a separá-los.

Depois da revolta popular que tomou o Egito no início de 2011, designada midiaticamente pelo nome super amplo de “Primavera Árabe”, não faltaram “especialistas” saltimbancos, dos que dançam para as elites nas televisões, que se puseram a ver “primaveras” eclodindo por todos os lados na Região e longe daqui. Em semanas recentes, quando manifestantes tomaram as ruas de várias cidades turcas, logo recomeçaram as “comparações”.

Manifestação que reuniu 1 milhão de pessoas na entrada da Praça Tahrir no Cairo, Egito
Mas oportunismo intelectual não é fenômeno novo, nem diferente: não passa de repetição amplificada do já velho conhecido, o oportunismo político ocidental. Depois que a “primavera árabe” foi reconhecida como oportunidade para novos arranjos regionais, EUA, Grã-Bretanha e França trataram, rapidamente, de capitalizá-la, tanto politicamente, para reformatar o Oriente Médio, como para assegurar que, daquele fervor revolucionário, nada brotasse que não os favorecesse.

Embora ditadores árabes sempre tenham atacado com brutalidade os manifestantes mais pacíficos, não havia guerras, no pleno sentido da palavra, até que a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) imiscuiu-se.

Líbia antes (E) e depois (D) do bombardeio "humanitário" da OTAN 
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Na Líbia, a OTAN converteu um levante com limitado componente armado, em guerra total sem limites, que resultou em milhares de mortes, feridos e desaparecidos. A guerra na Líbia mudou até a paisagem demográfica de vastas porções do país. Comunidades étnicas foram completamente extintas na região. Benghazi, cujo destino parecia tanto preocupar o primeiro-ministro britânico David Cameron, mal sobrevive hoje, vandalizada por grupos de milícias armadas que ainda competem entre elas. Depois de recentes confrontos na cidade, o chefe interino do exército líbio, Salem Konidi, alertou pela TV estatal, dia 15/6, que havia risco real de “um banho de sangue”. Muito estranhamente, a OTAN não manifestou qualquer sinal de preocupação.

“Intervenções humanitárias” seletivas são políticas ocidentais bem conhecidas na região, mas os recentes protestos na Turquia demonstram o quanto é insaciável o apetite do ocidente, quando se trata de explorar desgraças nacionais de outros países. Mas parte da culpa cabe também ao governo de Erdogan, que tanto fez para, desde sempre, gerar oportunidades para interferências.

Posto ante as altas apostas no novo jogo do Oriente Médio, depois dos levantes violentos dos últimos dois anos, o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan, depois de hesitar um pouco, acabou por adotar estilo político em tudo consistente com o da OTAN – organização da qual a Turquia é membro. Por quase dez anos, a Turquia teve papel específico nos mundos árabe e muçulmano – uma escolha a que o país foi forçado, depois de ver fracassar seus esforços para ser admitido na União Europeia, com Alemanha e França chefiando a cruzada contra os esforços da Turquia.

Praça Taksim no parque Gezi, Istambul, Turquia em 2/6/2013
Com os confrontos sangrentos iniciados também na Síria, a chamada “Primavera Árabe” virou ameaça às províncias turcas do sul, o que obrigou o governo Erdogan a uma guinada de realinhamento, voltando ao mesmo campo ocidental que já rejeitara abertamente a Turquia.

A Turquia pôs-se então em posição bem estranha: apresentou-se como “líder dos árabes enfraquecidos”, embora sem deixar de operar pelo tradicional paradigma da OTAN, todo ele construído com vistas a uma agenda intervencionista. A inconsistência das políticas turcas são palpáveis e crescentes: ao mesmo tempo em que negocia com Israel a indenização pelo assassinato de nove ativistas turcos mortos a caminho de Gaza em maio de 2010, hospeda os comandantes do Hamás para conversações de alto nível. Facilita a ação da oposição síria que opera política e militarmente a partir do território turco, ao mesmo tempo em que denuncia conspirações internacionais para desestabilizar a Turquia. E, ao mesmo tempo, não dá nenhuma atenção à situação no norte do Iraque, onde, há anos, prosseguem os confrontos entre seu próprio exército turco e a oposição local armada.

O governo de Erdogan foi ignorado, justificado ou sancionado pelas potências ocidentais, enquanto Ancara manteve-se solidamente alinhada às políticas da OTAN. Mas os europeus incomodaram-se imediatamente, no instante em que a Turquia avançou sobre as fronteiras fixadas – como no caso da questão turco-israelense. E o problema é que, por mais que Erdogan e seu governo se empenhem, jamais conseguem satisfazer a exigente definição de democracia à europeia – direitos humanos e outros sempre úteis conceitos assemelhados.

Naomi Wolf
A hipocrisia da OTAN, mesmo entre os próprios membros é uma arte. Comparem-se, por exemplo, as respostas europeias ao violento ataque policial contra o movimento Occupy Wall Street (OWS, iniciado dia 17/9/2011) e a massiva campanha de prisões, espancamento e humilhação de manifestantes. Como adiante se soube, o FBI e o Departamento de Segurança Nacional sempre monitoraram o movimento, unindo, para essa finalidade, suas forças especiais antiterrorismo. Foi o que Naomi Wolf revelou ao jornal The Guardian, em 29 de dezembro de 2012.

Mas não se ouviu nenhum clamor de indignação dos aliados europeus dos EUA, contra aquelas práticas. Como tampouco se ouviram clamores no escândalo mais recente, quando se soube que a Agência de Segurança Nacional dos EUA espiona milhões de pessoas, usando as mídias sociais e a tecnologia de internet, em nome de caçar terroristas. De fato, são práticas já tão rotineiras, que ninguém se dá ao trabalho de criticá-las – senão num campo específico. A revista Bloomberg Business Week indignou-se, em manchete: [a Agência de Segurança Nacional espionar cidadãos]: “péssimo para os negócios (17/6/2013). 

 
François Hollande (E) - Barack Obama (C) - David Cameron durante o G8
Enquanto as nações árabes são a parte mais afetada pelas guerras e levantes que desestabilizaram a região, destruíram a Líbia, estão destruindo a Síria e ameaçam o futuro de gerações inteiras, muitos se posicionam como claque, como David Cameron, François Hollande da França e Barack Obama. Dentre outros, esse trio ilustra a via como se determina hoje o futuro da Síria, para promover esses específicos interesses e – claro – a “segurança” de Israel.

Mas a resposta de alguns dos líderes da União Europeia, aos protestos contra o governo de Erdogan em Istambul, Ankara e Izmir nas últimas semanas foi muito diferente. Nem os maiores esforços do primeiro-ministro Tayyip Erdogan bastarão para impedir que a Europa se mobilize para capitalizar os lucros que advenham das desgraças dos turcos.

Angela Merkel
A alemã Angela Merkel rapidamente assumiu a palavra pelo grupo: quer bloquear, desde já, qualquer movimento para “reabrir conversações sobre incluir a Turquia na UE” – como a agência Reuters noticiou dia 20/6, supostamente como “crítica” ao ataque, pela polícia turca, contra manifestantes. Mas a chanceler é sempre generosa no que tenha a ver com violência extrema, desde que seja violência dos israelenses, contra os palestinos. Nisso, todas as capitais europeias estão sempre absolutamente coesas.

Enquanto isso, as potências ocidentais continuam a obrar contra os interesses dos povos no Oriente Médio, perfeitas engenheiras do caos, para explorar o caos, com a ajuda de inúmeros governos regionais, empenhadíssimos em servir àqueles interesses. Vale observar que nem a Turquia se salvou, apesar de ser instrumento utilíssimo para as práticas políticas e militares da OTAN.

É possível que a dupla cara que a Europa lhes mostra leve os círculos políticos turcos a recalcular os próximos passos. A Turquia pode decidir demitir-se do papel de ferramenta para as políticas da OTAN no Oriente Médio. Não se sabe se escolherá essa via. É questão à qual os turcos terão de dedicar-se, antes de serem empurrados para tumultos sem qualquer controle ou meta, fabricado e ampliado pela interferência ocidental, cujos resultados sempre são letais. Sempre.



sexta-feira, 21 de junho de 2013

Turquia: Jornalismo comercial (também) INSUFICIENTE na cobertura dos eventos

21/6/2013, Dmitriy SEDOV, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: Mais do que “informar” sobre a Turquia, este artigo deve ajudar a fazer-ver que NINGUÉM estará discutindo consequentemente a questão brasileira, enquanto militantes e partidos políticos não souberem fazer outra coisa além de “indignar-se” ante a vergonhosamente incompetente cobertura jornalística dos eventos em curso no Brasil.
Em nenhum país do mundo empresas comerciais de jornalismo têm a influência que têm no Brasil (país de partidos fracos, historicamente). Por isso, talvez, ninguém veja com clareza que as empresas comerciais de jornalismo no Brasil estão, de fato, COMPLETAMENTE embasbacadas.
Elas ainda não sabem se:
(a) os eventos em curso ajudam o governo Dilma (caso em que os eventos serão apresentados pela mídia como “baderna social” e as empresas comerciais de jornalismo ‘exigirão’ que a ordem seja imposta a qquer preço); ou
(b) se prejudicam o governo Dilma (caso em que os eventos serão apresentados como “movimento jovem” – movimento jornalístico de “imprensa livre” que equivale a mostrar canibais que comem vísceras de gente como “combatentes da liberdade”, o que, como se sabe, o jornalismo de empresas comerciais TAMBÉM já fez no mundo e, de tanto fazer, faz cada dia mais desavergonhadamente – e sem oposição discursiva consequente).
Nunca antes na história desse país, tanto dependeu tanto de o poder democrático DIZER-FAZER COISA COM COISA, politicamente, publicamente, nas fuças e nas canelas do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão).

Turquia: Praça Taksim - ao fundo o arvoredo do Parque Gezi
Os eventos na praça Taksim em Istambul estão sendo apresentado pela imprensa-empresa ocidental como consequência de uma decisão “ecologicamente incorreta” do governo turco, para construir num parque na cidade. Nada mais distante da realidade, e a versão jornalística levanta questões sobre os reais interesses do Ocidente na disseminação do conflito.

A verdade é que a praça em questão tem papel praticamente nenhum no conflito. O xis da questão é que, nessa operação, Recep Erdoğan planeja demolir o Centro Cultural Mustafá Kemal Atatürk, ali localizado, e remover o monumento do fundador da República Turca secular. Em lugar do Centro Cultural, Erdoğan decidiu construir uma mesquita, embora já haja uma mesquita na mesma praça, Taksim Mescid Camii.

Essa intenção, sim, uniu toda a parte secular da sociedade, nos protestos contra o primeiro-ministro. Ampla variedade de grupos comunitários, inclusive grupos antes inconciliáveis, uniram-se na oposição à política de Erdoğan de ativamente destruir o legado político de Atatürk.

Claro que a islamização consistente do país ao longo dos últimos 10 anos já causava um descontentamento latente em várias forças da sociedade, antes dos atuais conflitos. O potencial de protesto foi-se acumulando gradualmente.

E quando a sociedade soube da tentativa de demolir o Centro Atatürk – símbolo da ordem secular – sobreveio a explosão.

Entre os turcos, nenhum culto é mais profundo que o que cerca o fundador da república. Poucos políticos no mundo gozam de respeito tão incondicional quanto o fundador do moderno estado turco. Só um político que se veja como “igual” a Atatürk desafiaria publicamente seu prestígio.

Centro Cultural Mustafá Kemal Atatürk
Tudo sugere que Recep Erdoğan imagine-se, ele mesmo, como uma espécie de “anti-Atatürk”. Planeja feito histórico na mesma escala grandiosa, mas com o sinal trocado: quer fazer da Turquia, em vez de estado secular moderno, um estado islamista.

Por isso é indispensável remover os símbolos conectados a Mustafá Atatürk e por isso Erdoğan agarra-se tão ferozmente e tão obcecadamente à ideia de demolir o centro cultural e o monumento. Para ele, seria uma vitória ideológica, no plano simbólico, em momento crucial da história. Mas os que resistem também veem a luta pelo monumento como luta pelo rumo que a Turquia tomará.

Erdoğan já fez muitas coisas, para erradicar o legado de Atatürk.

Mustafá Kemal Atatürk
Atatürk, com o apoio do exército, despiu a Turquia de todos os atributos de “estado islamista” e converteu o coração do antigo Império feudal otomano em país secular europeizado. Para Atatürk, o exército existia para proteger a autoridade secular e impedir o avanço da islamização.

Erdoğan dedicou todos os dez anos de seu governo a afastar o exército dessa função de defender a coesão (secular) da sociedade, substituindo os oficiais seculares por imãs, nos corpos de comando. Nos anos recentes, houve uma “epidemia” crescente de demissões, escândalos e “denúncias” contra oficiais e generais do Exército Turco, acusados de tentar golpes, de atos de corrupção e muito mais.

Desde 2007, o próprio Erdoğan fala frequentemente da “inevitável islamização” da Turquia. Tem apoiado islamistas no exterior, especialmente em países vizinhos. Rebeldes chechenos, inguches e do Daguestão recebem até hoje apoio e suprimentos de Ankara. Nas Guerras da Chechenia, houve “amirs turcos” [orig. êem bilal). Dentre os rebeldes dizimados por forças federais havia tantos turcos quanto sauditas.

Na Turquia, Erdoğan comanda uma política de neo-otomanismo, uma mistura de nacional-socialismo e sunismo.

Recep Erdoğan
Erdoğan obteve apoio, simultaneamente, das classes mais pobres na Turquia e na Europa. Dentre os países europeus, Espanha e Alemanha são os mais empenhados apoiadores de Erdoğan; e a Alemanha mantém laços muito estreitos com a Turquia. Mas, mais importante que isso, Erdoğan é a menina dos olhos dos socialistas que estão no poder na Europa: para eles, é a encarnação do ideal que tanto acalentam, de um “Islã racional”.

Erdoğan começou a combater contra o Kemalismo, quando estava na crista de sua influência no país e no exterior. A Turquia desenvolvia-se economicamente a taxas invejáveis e fortalecia sua posição na região. A guerra na Síria foi ocasião pela qual Erdoğan muito esperava, para mostrar-se ainda mais firmemente. Ironia, porém, nesse quadro, é que Erdoğan tenha denunciado os métodos “não democráticos” de al-Assad, no trato com a oposição.

Hoje, os métodos para dispersar os manifestantes turcos, as prisões, a violência generalizada, também nas cidades turcas, mostram o tipo de “verdadeiro democrata” que é o próprio Erdoğan.

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A cobertura que a mídia comercial ocidental está dando aos eventos na Turquia merece ser examinada à parte. Nada mais difícil de acreditar, do que a versão segundo a qual a mídia comercial ocidental manteria alguma isenção na informação que distribui sobre a Turquia. E já ninguém sabe o que fazer para não expor o real confronto: a “força islamista irresistível” de Erdoğan, contra o “objeto inafastável” da oposição kemalista.

A realidade já não cabe no conceito de “islamização civilizada” que, supostamente, faria de Recep Erdoğan o representante autorizado pelo ocidente na Região. Há apenas um mês, a Europa ainda garantia todo o seu apoio à islamização da Turquia – e a imprensa-empresa noticiava “de acordo”. E então, de repente, apareceu na rua, onde todos veem, um movimento popular anti-islamista, por trás do qual está, firme, o Exército, além de vastas fatias da sociedade (e, provavelmente, também grupos da elite turca).

A solidariedade nacional clara, com declarações de vontade por vias pacíficas, e a consolidação do movimento via Facebook e Twitter prosseguem – seguindo todos os cânones do neoliberalismo.

Mas, estranhamente, para a mídia comercial... contra os interesses do Ocidente! Uma “revolução colorida ao contrário” está em construção na Turquia. E nenhuma capital europeia pode prever o que sairá disso. Assim, a imprensa empresa não sabe o que “noticiar”...

Afinal, é possível que forças que pregam política externa comandada pelos preceitos internacionalistas de Atatürk, “o Pai dos Turcos”, podem, sim, chegar ao poder na Turquia. Essa política já existiu e foi hegemônica, ainda bem recentemente: pregava “nenhum problema com os vizinhos” – e falar de “vizinho”, na Turquia, é falar de Síria. Esse movimento pegaria os estrategistas da OTAN, completamente, “no contrapé”.

Por essa razão, a imprensa-empresa ocidental vacila sobre a posição a adotar no noticiário sobre a Turquia. Praticamente não se veem notícias, no ocidente, sobre a retórica anti-islamista dos que se manifestam nas ruas. E o noticário capenga: tampouco se divulga uma linha sobre a retórica pró- Atatürk, que também está nas ruas turcas.

Enquanto isso, o conflito se alastra, contra a intransigência fundamentalista de Erdoğan, o “querido” do Ocidente.

Passeata realizada domingo( (16/6/2013) em apoio a Erdogan
No domingo, 300 mil apoiadores de Recep Erdoğan, organizados pelo Estado, saíram às ruas. Tudo foi planejado como demonstração das forças que apoiam o primeiro-ministro. E é claro que essas forças existem. Contudo, para conseguir virar a situação a seu favor, Erdoğan teria de ter a autoridade de fato, simbólica, que Atatürk (ainda) tem.

Parece, contudo, que Erdoğan se superestimou, porque, em resposta, os manifestantes voltaram às ruas e enfrentaram a Polícia. O primeiro-ministro pôs nas ruas de Istambul mais de mil agentes das Forças Especiais. Então, e, de fato, sem que ninguém esperasse, vários poderosos sindicatos de trabalhadores turcos – ameaçados de extinção, se se implantarem normas islamistas – uniram-se aos manifestantes.

A Reuters noticiou que um dos maiores sindicatos da Turquia, a “Confederação dos Funcionários Públicos” (tu. KESK), convocou greve geral para a 2ª-feira, 17/6. A liderança de outro sindicato turco, a “Confederação dos Sindicatos de Trabalhadores Revolucionários” (tu. DISK), convocou assembleia de emergência e decidiu unir-se na mesma ação.

Especialistas observam atentamente os sentimentos do Exército. Também ali podem acontecer surpresas.

Tudo sugere que o preço que Recep Erdoğan terá de pagar por sua tentativa de varrer Kemal Atatürk da história da Turquia vai-se tornando alto demais. Os próximos desenvolvimentos mostrarão se conseguirá pagar…