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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Sobre D. Eliane e a "bolidade" da bolinha de papel

[vilavudu] "Sobre D. Eliane e a bolidade da bolinha de papel" [case-piada na mídia UNIVERSAL], represas, bancos... MÊO! D. Eliane pirô de veiz!


Dona Eliane,

nunca antes na história desse país leu-se maior quantidade de futrica, vendida como se fosse 'colunismo', do que hoje, na sua 'coluna'. 

Nem a D. Danuza jamais escreveu tanta besteira! E a D. Danuza é (era) campeã universal de colunagem feita SÓ de besteiras e vendida como se fosse jornalismo... a leitores consumidores pagantes! (Um dia o *IDEC acorda! Não é possível que jamais acorde! ACOOOORDA *IDEC!)

Nenhuma “realidade” pipoca, D. Eliane. Acorde! A realidade é. O que falta é jornalismo e jornalistas que prestem.

De onde, diabos, hoje, a senhora tirou a ideia de que um rolo de fita (?!) lançado contra a careca porta-arapongagens do ex-Serra ["Serra-WHO?!"], teria sido convertido em bolinha de papel, em troca da salvação do banco-lá do cara-lá?! Mas que porcaria de ideia, foi essa?! A senhora não tem editor? Ninguém lê, aí, antes de publicar as coisas, sô?! Ah, eles lêem?! Então é muuuuuuuito pior! [risos, risos]

Acorde, D. Eliane e anote: Foi BO-LI-N-HA-DE-PA-PEL. BOLINHA DE PAPEL. Bateu lá, aquela bolinha sincera, liberta, democrática, livre e leve, naquela careca mau-caráter ("Eu voltarei, Alckmin!" "Eu voltarei, Aécio!" "Eu voltarei, FHC!" [risos, risos]) só de salafrarices rellena, ricocheteou (a bolinha de papel!), voou linda e leve e assim... entrou para a história do pior jornalismo do mundo.

A senhora encontrará provas da bolidade da BOLINHA DE PAPEL, na mídia UNIVERSAL (tá todo mundo rindo da senhora, D. Eliane, até em inglês! A culpa por acaso seria da BOLINHA DE PAPEL?!), por exemplo, em:  

Aquela bolinha de papel é PROVA de que esse seu jornalismo é jornalismo de araque, D. Eliane (mas há mais provas, também, em: O Bicho Preguiça). 

Bom. Invente aí o que a senhora ainda quiser tentar, que a senhora é caso perdido.

Fato é que foi BOLINHA. Também achamos pouco. Mas que foi bolinha, foi. Meta isso na sua cabeça, plíz: foi uma B-O-L-I-N-H-A-D-E-P-A-P-E-L. Não há dúvida alguma sobre a bolidade da bolinha. Ponto final.

Quanto aos seus saberes sobre fendas em represas, a senhora pode pegá eles e... vendê eles pro Alckmin, aqueeeeeele, o que herdou as crateras do cara-lá, o do crânio salafrário (e da bolinha de papel, pimba, no alvo, coisinha mais linda!).

Mas... Que mais a senhora inventará, depois do cáosaéreo e da febre amarela e do banco trocado por 30 segundos de bolinha em horário nobre, quando toooooooda a internet já tinha mapeado tooooooooda a rota aérea da bolinha, ida e volta?!

A senhora não tem medo que deus castigue?! A senhora não tem limites? A senhora não tem vergonha na cara?! Será o Benedito? Os Friazinhos? O maridão?! Mêo! Mas... até quando, D. Eliane?!

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Eliane Cantanhede, FSP, 11/11/2010, p. 2 

BRASÍLIA -Foi só passar a eleição com seus programas alegres e coloridos e a realidade insiste em pipocar nas suas mais variadas formas. Como uma chuva de bolinhas, não exatamente de papel.
Aliás, o escândalo da vez é no banco PanAmericano, do Sílvio Santos, que visitou Lula no meio da campanha e é dono também do SBT, a rede que reduziu o rolo de fita da agressão a José Serra no Rio a uma mera bolinha de papel. Deve ser só coincidência. De concreto, o rombo é milionário, a solução foi negociada com BC e CEF e tudo foi descoberto durante a campanha, mas só divulgado agora.
Outro "probleminha" detectado antes da eleição, mas que vem à tona depois dela, é que uma das turbinas da usina de Itaipu, com mais de 30 anos de uso, apresenta trincas de até 30 cm. Quantas outras estão assim? Taí uma boa pergunta, enquanto os dez partidos aliados se estapeiam pelo rico Ministério de Minas e Energia.
E como o país da urna eletrônica, um dos sistemas mais sofisticados de votação do mundo, não consegue fazer o Enem direito? Rolou de tudo um pouco. Teve prova repetida, erro de gabarito, aluno tuitando, um festival de irregularidades. É nisso que dá fazer as coisas sem licitação -uma semana depois do segundo turno.
Para completar, mal acabaram de fechar as urnas e lá vem a eleita falar em CPMF, enquanto projetos de aumentos salariais tramitam no Congresso e grassa a suspeita de que as contas públicas chegam a 2011 fora de controle.
Deve ser por essas e outras que se discute a tal regulamentação da mídia, uma das coisas que a gente sabe como começa e não sabe como acaba. Como as CPIs dos bons tempos do PT na oposição, lembra?
Lula deveria ter pensado bem antes de abandonar o governo às moscas e às Erenices para só fazer campanha. Até porque Dilma, coitada, não vai ter a surrada bengala da "herança maldita".

sábado, 30 de outubro de 2010

Encontros Moviola: “Novos Fundamentalismos”

21/10/2010, reunião e debate (e cervejada) na Livraria Moviola, RJ
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Veja também:
2. Rodrigo Guerón: “A michetagem intelectual” – (em preparação)
3. Ivana Bentes: “Novos ou velhos fundamentalismos?”
4. Cunca Bocayuva: “O governo Lula e o manejo da potencialidade do capitalismo. A mobilidade plebéia” (em preparação)

3. IVANA BENTES: “Novos ou velhos fundamentalismos?”
Não sei se são velhos fundamentalismos. Talvez interesse chamar a atenção hoje para as estratégias que foram mobilizadas para trazer hoje à discussão, para recolocar em pauta hoje, os velhos fundamentalismos.
Acho que a novidade, em termos de cultura de massa, é que nunca se discutiram abertamente no Brasil alguns desses temas trazidos por essa campanha eleitoral: o aborto, o Estado laico... São questões que se explicitaram, afinal, de um modo que permite ver como a emergência dessa pauta, de uma forma conservadora pode ser um ponto de partida extremamente positivo para reverter-se essa pauta – depois da eleição de Dilma.
Nesse sentido, me oponho um pouco ao hiperativismo pessimista do Guerón [risos], e já antecipo aqui o meu otimismo crítico.
Claro que é momento de tensão, as coisas ainda não estão definidas, mas vejo de forma positiva a emergência desses temas. Não, evidentemente, o modo como estão sendo trazidos e tratados. Quanto a isso, acho que as estratégias de mídia são decisivas e devem ser discutidas.
No primeiro turno, ainda tivemos alguma boa discussão da pauta política, sobre os avanços nos programas de políticas públicas. Tivemos alguma discussão política, sobre os programas implantados pelo governo Lula, Bolsa-Família e outros.
Mas o segundo turno – e é onde se vê que a questão da mídia é decisiva na pautação desses temas específicos e para pautá-los em alguns momentos, não em outros – foi pautado por uma ideia, por um slogan que esteve na base da campanha de Serra e foi a ideia sobre a qual trabalhou a empresa que fez a publicidade da campanha, segundo a qual, a nossa "marca" seria “uma crise moral”.
Já que eles não conseguiram, na discussão dos programas, empurrar para um impasse o projeto político, o projeto de Brasil do governo Lula, restou a eles impor a pauta da tal “crise moral”, uma suposta crise moral, é claro. As questões ligadas aos Estado laico, ao aborto, aos direitos dos homossexuais entraram aí.
Todos esses direitos já estão de forma muito clara no Plano Nacional dos Direitos Humanos. E quando foram apresentados lá já criaram certa reação, mas, naquele momento esses temas não foram trazidos à tona, pela mídia. Agora, então, eles voltam àquele tema. A verdade é que essa reversão ao discurso moralista, centrada nos ‘bons costumes’, voltou, agora, associada à possibilidade de Dilma ser eleita.
Não citaram o Plano, mas ele apareceu algumas vezes, sempre oferecido como ‘prova’ de que não se trataria de discussões vazias, mas que, sim, esses ‘riscos’ existiriam, no caso de Dilma ser eleita. Assim ‘reativaram’ a tal ‘crise moral’.
De novidade, só, que, antes, havia o discurso moralista de direita, e ele agia, mas muita gente não assumia esse discurso moral de direita. As pessoas tinham vergonha, jornalistas, intelectuais, sociólogos, a classe média, não explicitavam seu discurso de direita. Agora, assumiram. Na mídia, chama muito a atenção: articulistas, jornalistas, sociólogos explicitaram um discurso de direita, há produção acadêmica, há toda uma universidade mobilizada para constituir um ideário conservador, de direita, que reivindica para si o direito de existir. Isso, antes, não estava explicitado e, agora, apareceu de modo muito claro.
Claro. Há a questão dos meios de comunicação tornados órgãos de publicidade de um só programa e de uma só campanha, de uma elite.
Mas a questão moral já havia aparecido na primeira eleição de Lula – questões morais, de ‘ética’, foram também um dos motes daquela eleição. Também lá se mobilizaram questões de ética, de moral, sempre usados como elementos para expor a ideia da ‘não-confiabilidade’ do governo Lula. E voltaram na segunda eleição de Lula e, agora, na eleição de Dilma. O argumento voltou, como voltou a coisa de o programa do governo Dilma ser igual ao dos governos Lula: os avanços estão aí, mas ela tampouco seria confiável.
E por aí se entrou numa argumentação, num discurso irracional, numa emocionalidade, numa irracionalidade, emocionalidade que é traço típico do discurso midiático. E isso acabou por mobilizar toda a campanha política.
Episódio exemplar desse movimento e da centralidade que ganhou na campanha é o dramático evento do ataque da “bolinha de papel”, que já apareceu ridicularizado até no Le Monde.
Paralelamente, aí também apareceu o contradiscurso forte, um ativismo forte, que faz oposição à mídia de massa e já existe nas redes sociais, Twitter, Facebook, e que conseguiram impor-se na discussão. Na segunda eleição de Lula, já havia a militância de resistência pela rede. Mas na eleição de Dilma, afinal, muito velozmente, os discursos da mídia puderam ser quase instantaneamente desconstruídos. Desconstruiu-se tudo, com ferramentas eficazes, muito velozmente. Logo que as primeiras imagens apareceram, viu-se pela internet a utilização da própria linguagem midiática para desconstruir o discurso da mídia, com detalhes, a forma da narração, construindo um contradiscurso, que utilizou a própria linguagem da mídia para desconstruir o discurso da mídia. As capas de Veja foram parodiadas, apresentadas como piada. Hoje há quatro ou cinco vídeos na internet, produzidos por jornalistas profissionais e também por amadores. Hoje, nas redes, as capas da Veja são antecipadas e antecipa-se também a linguagem da mídia, as estratégias da mídia. Isso é muito eficaz, embora seja ainda pouco e pequeno e, sim, me parece um ganho muito importante.
A própria Globo respondeu ao presidente Lula, embora sem citar o Twitter, às críticas que lhe fez o presidente Lula e lhe fizeram as redes sociais. Hoje, por exemplo, a manchete de O Globo é resposta à reação das redes sociais e reafirma a desqualificação moral do presidente e da candidata, sempre com adjetivos no campo do discurso moral, da não confiabilidade.
A desqualificação moral me parece ser esse último reduto ao qual regrediu a campanha e os discursos da mídia. Nesse campo, sim, me parece que as questões dos novos fundamentalismos que vamos discutir aqui, sim, me parecem importantes. São as questões mais polêmicas e que mexem com questões religiosas, os direitos da mulher, que têm a ver com o aborto e a vida, o casamento de homossexuais. São questões que arrastam todos para esse pântano que é o ‘a moral do outro’. Depois das intervenções dos outros aqui presentes, talvez possamos articular outras consequências disso tudo.
Pra terminar, vejo, sim, possibilidades extremamente positivas, tanto quanto vejo traços extremamente preocupantes, o que se viu nessa campanha. 
Temos, sim, de discutir a ‘herança’ desse acirramento das questões morais, do ódio, da criação de tensões absolutamente maniqueístas no campo político, os efeitos de se fazer campanha de torcedor ‘hooligan’, muito dual, e na explicitação disso tudo.
Temos, para o futuro, uma pauta importantíssima a ser levada depois da eleição de Dilma.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Partido Alto Bolinha de Papel - Sambistas com Dilma


enviado por Beatrice



Manifesto dos Sambistas, Chorões e Foliões do Rio em Apoio à Candidata Dilma


Rio, 24 de Outubro de 2010

Nós, sambistas, músicos e foliões dos blocos de carnaval de rua do Rio, vimos a público divulgar o nosso apoio à candidatura de Dilma no 2º turno das eleições presidenciais.

Avaliamos que, nos oito últimos anos, houve avanços substanciais nas políticas públicas do país priorizando aqueles que mais precisam de um estado forte na economia, na educação, na cultura, no dia a dia de milhões de brasileiros e brasileiras que passaram a poder sonhar com um futuro melhor.

Por isso vamos votar em Dilma no próximo dia 31 de outubro, dizer um sonoro não ao atraso, a “privataria” do PSDB/ DEM, e eleger a primeira mulher presidente do Brasil. É Dilma, é 13!

É o samba, o choro e a cultura popular carioca e nacional, ajudando a mudar o país!

Nossos Bambas:

- Martinho da Vila
- Wilson Moreira
- Monarco
- Nelson Sargento
- Delcio Carvalho
- Gisa Nogueira
- Noca da Portela
- Tantinho da Mangueira
- Moacyr Luz
- Paulão Sete Cordas
- Zé da Velha
- Silvério Pontes
- Cláudio Jorge
- Wanderley Monteiro
 
Foliões do carnaval de Rua do Rio:

 - Pedro Ernesto: Presidente do Cordão da Bola Preta
- Angela e Didu Nogueira: Clube do Samba
- Nelson Rodrigues Filho: Bloco do Barbas
- Beto Bastos: Nem Muda Nem Sai de Cima
- Dodô Brandão: Simpatia é Quase Amor
- Simone Pinho e Mauro Delgado: Barangal
- Alfredinho Melo: Bloco do Bip Bip
- PC:  Banda da Bolivar
- Evelin Sussekind: Bloco de Segunda
- André Diniz: Escritor e folião de todos os Blocos
- Alipio Carmo e Guilherme Sá: Eu, Você e Sua Mãe
- Sergio Rosa: Eu Sou Eu, Jacaré é Bicho d´Água
- Cláudio Cruz: Embaixadores da Folia
- Zé Paulo: Urubuzada
- Lucio Sanfilippo: Cantor
- José Maria Braga: grupo Galo Preto
- Rodrigo Carvalho: grupo Galo Cantô

enviado por Lyra

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Papéis e Papelões

Cynara Menezes 27 de outubro de 2010 às 9:00h

A simulação da agressão a José Serra no Rio de Janeiro é só mais um episódio de uma campanha tomada pela baixaria, a hipocrisia e a má-fé

São 7 e meia da manhã da segunda-feira 18 em Salvador. Toca o telefone na casa do estudante H. A. Ele atende. Ouve uma voz de mulher, que diz: “Você é eleitor e vai votar na Dilma?” E desfia rapidamente as denúncias contra a ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra. No dia seguinte, às 10 horas, na cidade-satélite de Taguatinga, no Distrito Federal, o telefone toca na casa da advogada Melissa Carvalho. Voz feminina novamente. “Você vai votar em Dilma? Então saiba que ela era favorável ao aborto e depois mudou de opinião. Não dá para confiar em um candidato assim”, e coisas do gênero. Não adianta a pessoa tentar responder: trata-se de uma gravação.

Telefonemas similares têm ocorrido em todo o País. Os relatos se sucedem no Twitter. Em Minas Gerais, há casos distintos, onde a operadora pergunta se a pessoa que atende o aparelho votou em Marina Silva. Em caso positivo, inicia-se um discurso contra o voto no segundo turno em Dilma Rousseff. Quem paga por essas centrais de telemarketing anti-Dilma? Ninguém sabe.

O PT pediu investigação à Polícia Federal sobre o caso, uma das muitas denúncias que têm brotado do jogo sujo praticado contra a candidata de Lula. O próprio presidente veio a público reclamar da campanha difamatória, dizendo nunca ter visto em sua vida eleição com tamanho baixo nível.

“O que se fala da Dilma é uma coisa impensável. Eu que fui candidato, que fui difamado, nunca tive coragem de dizer contra meus adversários 10% do que a hipocrisia de uma parte dos tucanos está dizendo da Dilma”, afirmou Lula.

Por mais incrível que possa parecer, as críticas do presidente à campanha de difamação contra Dilma foram utilizadas por comentaristas, no mesmo dia, para justificar o tumulto ocorrido entre militantes petistas e tucanos no Rio de Janeiro, durante uma caminhada do candidato do PSDB José Serra na quarta-feira 20. Como se Lula, ao mencionar as baixezas sofridas por sua candidata, incitasse os militantes à violência, e não a campanha sórdida, em si, é que acirrasse os ânimos.A história da agressão a Serra é um caso para entrar no anedotário da política nacional.

Houve, obviamente, desrespeito por parte de simpatizantes do PT ao candidato durante a caminhada. Serra foi chamado de “assassino” por ex-agentes do combate à dengue, conhecidos como “mata-­mosquitos” -  demitidos por ele quando era ministro  -e que se tornaram desde então ferrenhos adversários do tucano. É uma terminologia inaceitável, comparável em sua vilania apenas à frase da mulher do tucano, Mônica Serra, que acusou a petista de ser a favor da “morte de criancinhas”. Na confusão, o presidenciável foi atingido por um objeto na calva, a princípio descrito como um rolo de fita adesiva, que se transformou, ao longo do dia, em pedra, depois em mastro de bandeira e, por último, de acordo com reportagem do SBT, numa mísera bolinha de papel.

 O episódio, é claro, foi parar nas primeiras páginas dos jornais no dia seguinte, transformado em agressão grave contra o tucano – o site da revista Veja falou que a van do presidenciável havia sido apedrejada, coisa que ninguém viu.

Serra chegou a ser submetido a uma tomografia e ­aconselhado a repousar por 24 horas. Violência é algo condenável numa campanha, mas o que ocorreu diante das câmeras do SBT foi igualmente condenável: o tucano protagonizou uma encenação para se fazer de vítima da truculência “nazista” do PT, como declarou à saída do tumulto.

As imagens mostram o candidato sendo atingido por um pequeno objeto branco que não lhe causa nenhum ferimento aparente – o que foi confirmado pelo médico que o atendeu, Jacob Klingerman, seu amigo desde 1964 e secretário municipal de Saúde durante a administração de Cesar Maia, aliado de Serra, na prefeitura do Rio. Klingerman declarou que havia apenas um “inchaço” no local, o que ainda assim parece exagerado diante do tamanho do objeto arremessado, possivelmente não um rolo de adesivos, mas uma bola feita com adesivos. Na descrição feita pelo vice de Serra, Índio da Costa, era, porém, um “pacote de uns 2 quilos”.

O episódio virou uma guerra de versões na tevê. O Jornal Nacional, da Rede Globo, disse que o tucano foi atingido em duas ocasiões. Primeiro por uma bola de papel e, 15 minutos mais tarde, por um bolo de fita crepe. Mas o SBT manteve sua história. Disse que filmou todo o percurso e desafiou outras emissoras a exibirem imagens do segundo objeto. E insistiu: Serra só foi atingido uma única vez.

O que mais chama a atenção nas cenas levadas ao ar pelo SBT é que Serra só leva a mão à cabeça 20 minutos depois de ser atingido e após receber um telefonema.

Na saída do hospital, disse ter se sentido grogue com a pancada. “Achei que fosse desmaiar, mas deu para segurar”. A dramaticidade com que a old media tupinquim tratou o episódio contrastou com o tom de piada na internet.

Na rede mundial de computadores, Serra foi comparado ao goleiro chileno Roberto Rojas, aquele que fingiu ter sido atingido por um rojão durante um jogo no Maracanã em 1989, pelas eliminatórias da Copa do Mundo, e que acabou banido do futebol durante alguns anos.

O presidente Lula também recorreu a Rojas para criticar o adversário político pelo episódio, que qualificou como “farsa” e “mentira descarada”.

Já o candidato tucano fez coro com os articulistas da mídia e colocou a culpa pelo episódio em Lula. “O fato de o presidente da República se jogar de corpo e alma no processo eleitoral, ao invés de se dedicar ao País, e incitar que os adversários sejam destruídos, como ele tem feito, e tem vários exemplos nesse sentido, só contribui para esse clima de violência”, disse Serra em evento em Maringá, no Paraná, onde pediu desculpas pelas duas horas de atraso habituais, dizendo ter ficado até tarde da noite gravando seu programa eleitoral. Mas e as 24 horas de repouso recomendadas pelo médico?

À parte o ridículo da história, o que fica de lição é que a campanha não pode descambar para a violência ou agressões verbais virulentas, com o uso do termo “assassino” para atingir o adversário.

Desta vez foi Serra, mas tem sido Dilma Rousseff a maior vítima, desde antes de ser candidata, do xingamento, em e-mails apócrifos que lhe atribuem até assassinatos durante a ditadura.

 Dilma, como se sabe, não participou de ações armadas.

O PT, que antes de a disputa chegar ao segundo turno, não havia se dado conta da extensão da boataria, montou agora uma central telefônica contra as calúnias e sites para propagar desmentidos de falsidades disseminadas pela internet.

Só o site sejaditaverdade (www.sejaditaverdade.net) compilou mais de 40 boatos espalhados na internet contra a petista, que vão desde a ficha falsa do Dops veiculada em primeira página pela Folha de S.Paulo até ser lésbica e fumar charuto. O novo truque, para utilizar a onda carola deflagrada pela oposição é insuflar a briga religiosa com um e-mail em que um site falsamente atribuído ao partido conclama a combater a Igreja, “caminho já traçado pelo companheiro Hugo Chávez na Venezuela”.

A ex-VJ da MTV e ex-vereadora Soninha Francine, coordenadora de internet de Serra, chegou a propagandear o site como sendo de “dilmistas e petistas”, copiando a imprensa de direita na rede, mas acabou pedindo desculpas ao ser informada de que se tratava de um fake.

Por se tratar de um blog, a página não tem registro. Ou seja, qualquer um pode tê-la aberto. Mesmo assim, o PT pediu investigação à PF. Na quinta-feira 21, o site continuava no ar, com uma mensagem a atribuir aos petistas preconceito contra os paulistas, como fez Serra no último debate dos presidenciáveis, na RedeTV!, no domingo 17. Sob o título “O Brasil não é Só São Paulo”, o texto fomenta a briga entre nordestinos e paulistas, clamando contra “a hegemonia” do estado na política. Os “comentários” do blog têm sentido idêntico: “Vocês não valem nada, odeiam São Paulo e os paulistas, fascistas vermelhos”, diz um suposto leitor. Para acreditar que isso partiu do PT, como Soninha, só por ingenuidade ou má-fé.

O PSDB tem se eximido de participação na divulgação de ofensas contra a candidata petista, mas uma gráfica de São Paulo foi flagrada, no sábado 15, imprimindo 2 milhões de panfletos religiosos contra a candidatura petista. Metade foi apreendida. Trata-se da mesma carta assinada pela regional Sul I da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em São Paulo, distribuída por algumas igrejas nas duas semanas que antecederam o primeiro turno.

A gráfica Pana, localizada no bairro do Cambuci, pertence a Arlety Kobayashi, filiada ao PSDB e irmã do coordenador de infraestrutura da campanha de Serra, Sérgio Kobayashi. O candidato tucano disse que a conexão era “irrelevante”.

Fato é que, como um dos sócios declarou a jornalistas durante o flagrante, a encomenda inicial era de 20 milhões de panfletos, que a gráfica recusou por não ter o porte necessário à montanha de material. O responsável pelo contato com a gráfica, Kelmon Luís de Souza, um fanático simpatizante da monarquia, atribuiu o pedido à diocese de Guarulhos, cujo bispo, dom Luiz Gonzaga Bergonzini, capitaneou a campanha de parte da Igreja contra Dilma e o PT no primeiro turno. O secretário-­geral do partido, José Eduardo Cardozo, declarou ser “indiscutível” a relação dos panfletos com a campanha peessedebista.

A CNBB, que havia distribuído nota sobre o tema, voltou a se manifestar na quinta-feira 21 e demonstrou não ser de todo contrária à atuação dos bispos.

Em entrevista coletiva, o presidente da entidade, dom Geraldo Lyrio Rocha, praticamente­ deu o aval para que padres e bispos façam campanha contra o PT se desejarem. Segundo dom Geraldo, a atuação de Bergonzini está dentro da normalidade.

“Ele tem o direito e até o dever de, de acordo com a sua consciência, orientar os fiéis do modo que julga mais eficaz, mais conveniente.” O presidente da CNBB esclareceu que a entidade não dá orientação de votos em partidos ou candidatos, mas que as dioceses têm autonomia e que não lhe cabe “censurar”. Dom Geraldo ainda considerou “positiva” a polêmica introdução do problema do aborto durante a campanha eleitoral. “O tema foi colocado em pauta e não se podia entrar em um processo eleitoral sem trazer à tona temas de máxima relevância.” Segundo o presidente da CNBB, o fato de o Brasil ser um Estado laico não impede que se discutam questões religiosas nas eleições. “Estado laico não é sinônimo de Estado ateu, antirreligioso ou arreligioso. O Estado brasileiro é laico, mas a sociedade brasileira não é laica, é profundamente religiosa. Não estou dizendo só católica, mas evangélica, afro, dos cultos indígenas.” É possível que as declarações dêem novo fôlego à utilização do tema do aborto na reta final, posto de lado, ao menos oficialmente, pelos tucanos desde que uma ex-aluna de Mônica Serra revelou ter ouvido dela própria a confissão de ter feito um aborto.

O caso começou a circular na internet até ir para na coluna social de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo. A declaração partiu de Sheila Canevacci Ribeiro, eleitora de Plínio de Arruda Sampaio no primeiro turno. Segundo ela, Mônica queixara-se a um grupo de alunas do trauma que sofrera em ter de abortar um filho no exílio, nos Estados Unidos, porque o então jovem casal não teria condições de criá-lo naquele momento. Outra aluna de Mônica, que não quis se identificar, confirmou o relato. Para quem acusara Dilma de “gostar de matar criancinhas”, a atuação de Mônica Serra à frente de uma campanha antiaborto, tendo feito um, foi vista no mínimo como hipócrita.

Embora a assessoria do PSDB tenha negado o procedimento, as buscas na rede mundial de computadores para as palavras Monica/aborto e Serra/aborto superaram as menções relacionando Dilma ao termo, e o uso da temática diminuiu. Desde então, a candidata a primeira-dama, que tinha ido ao Chile entregar uma imagem de Nossa Senhora Aparecida aos mineiros resgatados, não mais foi vista em eventos de campanha. O que não significa que a estratégia de criar atrito entre o PT e os cristãos tenha sido abandonada.

Chama a atenção a dobradinha escancarada entre Serra e os que distribuem panfletos nas igrejas. Durante a celebração do Dia de Nossa Senhora Aparecida, mais uma vez a carta da CNBB regional Sul I foi entregue em missas em Contagem, em Minas, e na basílica de Aparecida, em São Paulo. Recém-eleito deputado federal, o delegado da PF Protógenes Queiroz esteve na basílica no mesmo dia 12 em que o contrito Serra comungou sem haver se confessado, e conta ter visto os distribuidores de panfletos entrarem junto com a comitiva do candidato. “Eram pessoas de terno escuro que chegaram ao local com Serra”, afirma Queiroz.

A cena se repetiria em Canindé, no Ceará, quatro dias depois. Ao lado do senador tucano Tasso Jereissati, Serra foi assistir à missa em homenagem a São Francisco de Assis. O fato de ter chegado quando a cerimônia havia começado irritou o frei Francisco Gonçalves, que reclamou, em princípio, do barulho.

Depois novamente queixou-se, desta vez das câmeras de televisão. Por último, o frei atacou diretamente a distribuição de panfletos pelo grupo que acompanhava Serra, em que Dilma Rousseff era acusada de ser a favor do aborto e de estar envolvida com grupos terroristas como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). “Gostaria de chamar a atenção de todos para este papel que estão distribuindo. Acusam a candidata do PT de coisas em nome da Igreja e não é verdade”, disse o frei, criticando os tucanos pela “profanação” do templo.

Os fiéis aplaudiam. Jereissati exaltou-se e teve de ser contido pela mulher para não agredir fisicamente o padre, a quem acusou de “petista”, do tipo que está “causando problemas à Igreja”. O sacerdote saiu escoltado por seguranças. Do lado evangélico, a artilharia serrista é comandada pelo bispo Silas Malafaia, um dos líderes da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que tem utilizado o programa que mantém pela manhã na TV Bandeirantes para criticar Dilma e o PT. Malafaia, que anunciou apoio a Marina no primeiro turno e depois se bandeou para o lado de Serra, chegou a aparecer no programa eleitoral do tucano. “Quem é que tem liderança, que está acima de partidos políticos, que está preparado, que tem experiência? Serra, 45. Deus abençoe o Brasil, Deus abençoe você”, disse.

Por trás do apoio dos evangélicos a Serra estão benesses prometidas pelo tucano, segundo relatos jornalísticos. O pastor Alcides Cantoia Jr., da Assembleia de Deus, em São Paulo, responsável pela “coordenadoria de evangélicos”, telefona para igrejas e entidades a elas ligadas e oferece benefícios em troca do apoio ao PSDB. Entre as vantagens, o candidato tucano promete, se eleito, parcerias governamentais com as entidades. Não se sabe, porém, se esse tipo de ação terá efeitos no segundo turno como teve no primeiro. Ao contrário, a última pesquisa do Ibope mostrou que a contraofensiva de Dilma nesse segmento funcionou. A petista subiu entre católicos e evangélicos, e Serra caiu.

Com as pesquisas a indicar a recuperação de Dilma Rousseff nas intenções de voto, a expectativa é que cresçam, às vésperas da eleição, os golpes abaixo da linha da cintura. Um aspecto interessante é que esse tipo de boataria parece ter como pano de fundo o preconceito de gênero, porque costuma aparecer todas as vezes que uma mulher é candidata a cargos majoritários. Foi assim com a petista Marta Suplicy, em São Paulo, quando se candidatou à prefeitura e ao governo, e com Jandira Feghali,­ do PCdoB, ao se lançar ao Senado, em 2006, e à prefeitura do Rio, em 2008.

Não à toa, os programas eleitorais de Serra costumam soltar frases sobre Dilma do tipo “ela não vai dar conta” ou “sem chefe ela não funciona”.

No rádio, um dos esquetes veiculados no Nordeste mostra dois homens conversando, um deles dizendo ter sido “arrasado” por uma mulher chamada Wilma. O outro responde: “Mulher é assim mesmo. Não fica assim, essa mulher tem várias caras”. A novelinha mistura em seguida a fictícia “Wilma” com a real Dilma, apresentada como alguém que também “tem várias caras”. “Toda vez que uma mulher se destaca numa campanha majoritária, a tendência é desqualificá-la fora do debate político. Falam do cabelo, da roupa, das plásticas, do marido ou da falta dele”, diz Jandira Feghali, que até hoje espera a conclusão de uma investigação da PF sobre os torpedos telefônicos disparados no dia da eleição, favorita ao Senado, e perdeu para Francisco Dornelles.

Exatamente o mesmo aconteceu com Dilma agora: quem não se lembra quanto se falou da plástica, das roupas e até da peruca da candidata, quando se tratava do câncer que sofreu?

“O que me incomoda é o paternalismo do Serra, principalmente nos debates. Ele nunca agiria assim se fosse Lula ou Ciro Gomes o adversário”, opina Marta Suplicy. “Lula tem toda razão.

“Assim como houve preconceito com ele por ser operário tem-se agora com Dilma por ser mulher”, diz Rose Marie Muraro, uma das precursoras do feminismo no Brasil – e eleitora da petista.

O mais curioso é que esse preconceito de gênero é bem frequente entre as próprias mulheres.

Em termos de intenção de voto, Dilma ainda é mais votada pelos homens do que pelas mulheres. Mas isso parece estar diminuindo: de acordo com a última pesquisa Ibope, a petista abriu 7 pontos de vantagem (48% a 41%) no segmento feminino em relação a Serra.

“Mulher que discrimina Dilma é machista, submissa ao homem”, dispara Muraro. “Sem falar na inveja, que é muita.

Cynara Menezes é jornalista. Atuou no extinto "Jornal da Bahia", em Salvador, onde morava. Em 1989, de Brasília, atuava para diversos órgãos da imprensa. Morou dois anos na Espanha e outros dez em São Paulo, quando colaborou para a "Folha de S. Paulo", "Estadão", "Veja" e para a revista "VIP". Está de volta a Brasília há dois anos e meio, de onde escreve para a CartaCapital.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Uma coisa estranha aconteceu na noite passada em Natal

O texto acima é anexo de um e-mail com informações falsas dizendo que Dilma Rousseff, se eleita, não poderá assumir por não ser brasileira (ela nasceu em Minas Gerais). Segue na linha do movimento da extrema-direita dos Estados Unidos, chamado “birther”, que alega que Barack Obama não nasceu nos Estados Unidos e, portanto, não poderia ser presidente. Nos Estados Unidos, onde racismo explícito é inaceitável, foi a forma que a extrema-direita encontrou de carimbar Obama como “alienígena”, um negro que não sabe seu lugar, que não pode representar um país “de cristãos protestantes e brancos”. O ataque a Obama veio acompanhado da tentativa de classificá-lo como “muçulmano”. Ou seja, foi não apenas uma tentativa dos republicanos de ganhar a eleição, mas de “deslegitimar” o eleito ao classificá-lo como alguém que não pertence à Nação. É a mesmíssima coisa que Serra e a sua campanha estão fazendo.

por Miguel Nicolelis, especial para o Viomundo
Desde que cheguei ao Brasil, há duas semanas, eu vinha sentindo uma sensação muito estranha. Como se fora acometido por um ataque contínuo da famosa ilusão, conhecida popularmente como déjà vu, eu passei esses últimos 15 dias tendo a impressão de nunca ter saído de casa, lá na pacata Chapel Hill, Carolina do Norte, Estados Unidos.
Mas como isso poderia ser verdade? Durante esse tempo todo eu claramente estava ou São Paulo ou em Natal. Todo mundo ao meu redor falava português, não inglês. Todo mundo era gentil. A comida tinha gosto, as pessoas sorriam na rua. No aeroporto, por exemplo, não precisava abrir a mala de mão, tirar computador, tirar sapato, tirar o cinto, ou entrar no scan de corpo todo para provar que eu não era um terrorista.  Ainda assim, com todas essas provas evidentes de que eu estava no Brasil e não nos EUA, até no jogo do Palmeiras, no meio da imortal “porcada”, a sensação era a mesma: eu não saí da América do Norte! Mesmo quando faltou luz na Arena de Barueri durante o jogo, porque nem a 25 km da capital paulista a Eletropaulo consegue garantir o suprimento de energia elétrica para um prélio vital do time do coração do ex-governador do estado (aparentemente ninguém vai muito com a cara dele na Eletropaulo. Nada a ver com o Palmeiras), eu consegui me sentir à vontade.
Custou-me muito a descobrir o que se sucedia.
Porém, ontem à noite, durante o debate dos candidatos a Presidência da República na Rede Record, uma verdadeira revelação me veio à mente. De repente, numa epifania, como poucas que tive na vida, tudo ficou muito claro. Tudo evidente. Não havia nada de errado com meus sentidos, nem com a minha mente. Havia, sim, todo um contexto que fez com que o meu cérebro de meia idade revivesse anos de experiências traumatizantes na América do Norte.
Pois ali na minha frente, na TV, não estava o candidato José Serra, do PSDB, o “partido do salário mais defasado do Brasil”, como gostam de frisar os sofridos professores da rede pública de ensino paulistana, mas sim uma encarnação perfeita, mesmo que caricata, de um verdadeiro George Bush tropical. Para os que estão confusos, eu me explico de imediato. Orientado por um marqueteiro que, se não é americano nato, provavelmente fez um bom estágio na “máquina de moer carne de candidatos” em que se transformou a indústria de marketing político americano, o candidato Serra tem utilizado todos os truques da bíblia Republicana. Como estudante aplicado que ainda não se graduou (fato corriqueiro na sua biografia), ele está pronto para realizar uns “exames difíceis” e ser aceito para uma pós-graduação em aniquilação de caracteres em alguma universidade de Nova Iorque.
Ao ouvir e ver o candidato, ao longo dessas duas semanas e no debate de ontem à noite, eu pude identificar facilmente todos os truques e estratégias patenteados pelo partido Republicano Americano. Pasmem vocês, nos últimos anos, essa mensagem rasa de ódio, preconceito, racismo, coberta por camadas recentes de fé e devoção cristã, tem sido prontamente empacotada e distribuída para o consumo do pobre povo daquela nação, pela mídia oficial que gravita ao seu redor.
Para quem, como eu, vive há  22 anos nos EUA, não resta mais nenhuma dúvida. Quem quer que tenha definido a estratégia da campanha do candidato Serra decidiu importar para a disputa presidencial brasileira tanto a estratégia vergonhosa e peçonhenta da “vitória a qualquer custo”, como toda a truculência e assalto à verdade que têm caracterizado as últimas eleições nos Estados Unidos.  Apelando invariavelmente para o que há de mais sórdido na natureza humana, nessa abordagem de marketing político nem os fatos, nem os dados ou as estatísticas, muito menos a verdade ou a realidade importam. O objetivo é simplesmente paralisar o candidato adversário e causar consternação geral no eleitorado, através de um bombardeio incessante de denúncias (verdadeiras ou não, não faz diferença), meias calúnias, ou difamações, mesmo que elas sejam as mais absurdas possíveis.
Assim, de repente, Obama não era mais americano, mas um agente queniano obcecado em transformar a nação americana numa república islâmica. Como lá, aqui Dilma Rousseff agora é chamada de búlgara, em correntes de emails clandestinos. Como os EUA de Bill Clinton, apesar de o país ter experimentado o maior boom econômico em recente memória, foi vendido ao povo americano como estando em petição de miséria pelo então candidato de primeira viagem George Bush.
Aqui, o Brasil de Lula, que desfruta do melhor momento de toda a sua história, provavelmente desde o período em que os últimos dinossauros deixaram suas pegadas no que é hoje o município de Sousa, na Paraíba, passa a ser vendido como um país em estado de caos perpétuo, algo alarmante mesmo. Ao distorcer a verdade, os fatos, os números e, num último capítulo de manipulação extremada, a própria percepção da realidade, através do pronto e voluntário reforço  do bombardeio midiático, que simplesmente repete o trololó do candidato (para usar o seu vernáculo favorito), sem crítica, sem análise, sem um pingo de honestidade jornalística, busca-se, como nos EUA de George Bush e do partido Republicano, vender o branco como preto, a comédia como farsa.
Não interessa que 26 milhões de brasileiros tenham saído da miséria. Nem que pela primeira vez na nossa história tenhamos a chance de remover o substantivo masculino “pobre” dos dicionários da língua portuguesa. Não faz a menor diferença que 15 milhões de novos empregos tenham sido criados nos últimos anos. Ou que, pela primeira vez desde que se tem notícia, o Brasil seja respeitado por toda a comunidade internacional. Para o candidato da oposição esse número insignificante de empregos é, na sua realidade marciana, fruto apenas de uma maior fiscalização que empurrou com a barriga do livro de multas 10 milhões de pessoas para o emprego formal desde o governo do imperador FHC.
Nada, nem a realidade, é  capaz de impressionar os fariseus e arautos que estão sempre prontos a denegrir o sucesso desse país de mulatos, imigrantes e gente que trabalha e batalha incansavelmente para sobreviver ao preconceito, ao racismo, à indiferença e à arrogância daqueles que foram rejeitados pelas urnas e vencidos por um mero torneiro mecânico que virou pop star da política internacional. Nada vai conseguir remover o gosto amargo desse agora já fato histórico,  que atormenta, como a dor de um membro fantasma, o ego daqueles que nunca acreditaram ser o povo brasileiro capaz de construir uma nação digna, justa e democrática com o seu próprio esforço. Como George Bush ao Norte, o seu clone do hemisfério sul não governa para o povo, nem dele busca a sua inspiração. A sua busca pelo poder serve a outros interesses; o maior deles, justiça seja feita, não é escuso, somente irrelevante, visto tratar-se apenas do arquivo morto da sua vaidade, o maior dos defeitos humanos, já dizia dona Lygia, minha santa avó anarquista. Para esse candidato, basta-lhe poder adicionar no currículo uma linha que dirá: Presidente do Brasil (de tanto a tanto). Vaidade é assim, contenta-se com pouco, desde que esse pouco venha embalado num gigantesco espelho.
Voltando à estratégia americana de ganhar eleições, numa segunda fase, caso o oponente sobreviva ao primeiro assalto, apela-se para outra arma infalível: a evidente falta de valores cristãos do oponente, manifestada pela sua explícita aquiescência para com o aborto; sua libertinagem sexual e falta de valores morais, invariavelmente associada à defesa do fantasma que assombra a tradição, família e propriedade da direita histérica, representado pela tão difamada quanto legítima aprovação da união civil de casais homossexuais. Nesse rolo compressor implacável, pois o que vale é a vitória, custe o que custar, pouco importa ao George Bush tupiniquim que milhares de mulheres humildes e abandonadas morram todos os anos, pelos hospitais e prontos-socorros desse Brasil afora, vítimas de infecções horrendas, causadas por abortos clandestinos.
George Bush, tanto o original quanto o genérico dos trópicos, provavelmente conhece muitas mulheres do seu meio que, por contingências e vicissitudes da vida, foram forçadas a abortos em clínicas bem equipadas, conduzidas por profissionais altamente especializados, regiamente pagos para tal prática. Nenhum dos dois George Bushes, porém, jamais deu um plantão no pronto-socorro do Hospital das Clínicas de São Paulo e testemunhou, com os próprios olhos e lágrimas, a morte de uma adolescente, vítima de septicemia generalizada, causada por um aborto ilegal, cometido por algum carniceiro que se passou por médico e salvador.
Alguns amigos de longa data, que também vivem no exterior, andam espantados com o grau de violência, mentiras e fraudes morais dessa campanha eleitoral brasileira. Alguns usam termos como crime lesa pátria para descrever as ações do candidato do Brasil que não deu certo, seus aliados e a grande mídia.
Poucos se surpreenderam, porém, com o fato de que até o atentado da bolinha de papel foi transformado em evento digno de investigação no maior telejornal do hemisfério sul (ou seria da zona sul do Rio de Janeiro? Não sei bem). No caso em questão, como nos EUA, a dita grande imprensa que circunda a candidatura do George Bush tupiniquim acusa o Presidente da República de não se comportar com apropriado decoro presidencial, ao tirar um bom sarro e trazer à tona, com bom humor, a melhor metáfora futebolística que poderia descrever a farsa. Sejamos honestos, a completa fabricação, desmascarada em verso, prosa e análise de vídeo, quadro a quadro, por um brilhante professor de jornalismo digital gaúcho.
Curiosamente, a mesma imprensa e seus arautos colunistas não tecem um único comentário sobre a gravidade do fato de ter um pretendente ao cargo máximo da República ter aceitado participar de uma clara e explicita fabricação. Ou será que esse detalhe não merece algumas mal traçadas linhas da imprensa? Caso ainda estivéssemos no meio de uma campanha tipicamente brasileira, o já internacionalmente famoso “atentado da bolinha de papel” seria motivo das mais variadas chacotas e piadas de botequim. Mas como estamos vivendo dentro de um verdadeiro clone das campanhas americanas, querem criminalizar até a bolinha de papel. Se a moda pega, só eu conheço pelo menos uns dez médicos brasileiros, extremamente famosos, antigos colegas de Colégio Bandeirantes e da Faculdade de Medicina da USP, que logo poderiam estar respondendo a processos por crimes hediondos, haja vista terem sido eles famosos terroristas do passado, que se valiam, não de uma, mas de uma verdadeira enxurrada, dessas armas de destruição em massa (de pulgas) para atingir professores menos avisados, que ousavam dar de costas para tais criminosos sem alma .
Valha-me Nossa Senhora da Aparecida — certamente o nosso George Bush tupiniquim aprovaria esse meu apelo aos céus –, nós, brasileiros, não merecemos ser a próxima vítima do entulho ético do marketing eleitoral americano. Nós merecemos algo muito melhor.  Pode parecer paranoia de neurocientista exilado, mas nos EUA eu testemunhei como os arautos dessa forma de fazer política, representado pelo George Bush original e seus asseclas,  conseguiram vender, com grande sucesso e fanfarra, uma guerra injustificável, que causou a morte de mais de 50 mil americanos e centenas de milhares de civis iraquianos inocentes.
Tudo começou com uma eleição roubada, decidida pela Corte Suprema. Tudo começou com uma campanha eleitoral baseada em falsas premissas e mentiras deslavadas. A seguir, o açodamento vergonhoso do medo paranóico, instilado numa população em choque, com a devida colaboração de uma mídia condescendente e vendida, foi suficiente para levar a maior potência do mundo a duas guerras imorais que culminaram, ironicamente, no maior terremoto econômico desde a quebra da bolsa de 1929.
Hoje os mesmos Republicanos que levaram o país a essas guerras irracionais e ao fundo do poço financeiro acusam o Presidente Obama de ser o responsável direto de todos os flagelos que assolam a sociedade americana, como o desemprego maciço, a perda das pensões e aposentadorias, a queda vertiginosa do valor dos imóveis e a completa insegurança sobre o que o futuro pode trazer, que surgiram como conseqüência imediata das duas catastróficas gestões de George Bush filho.
Enquanto no Brasil criam-se 200 mil empregos pro mês, nos EUA perdem-se 200 mil empregos a cada 30 dias. Confrontado com números como esses, muitos dos meus vizinhos em Chapel Hill adorariam receber um passaporte brasileiro ou mesmo um visto de trabalho temporário e mudar-se para esse nosso paraíso tropical. Eles sabem pelo menos isto: o mundo está mudando rapidamente e, logo, logo, no andar dessa carruagem, o verdadeiro primeiro mundo vai estar aqui, sob a luz do Cruzeiro do Sul!
Fica, pois, aqui o alerta de um brasileiro que testemunhou os eventos da recente história política americana em loco. Hoje é a farsa do atentado da bolinha de papel. Parece inofensivo. Motivo de pilhéria. Eu, como gato escaldado, que já viu esse filme repulsivo mais de uma vez, não ficaria tão tranqüilo, nem baixaria a guarda. Quem fabrica um atentado, quem se apega ou apela para questões de foro íntimo, como a crença religiosa (ou sua inexistência), como plataforma de campanha hoje, é o mesmo que, se eleito, se sentirá livre para pregar peças maiores, omitir fatos de maior relevância e governar sem a preocupação de dar satisfações àqueles que, iludidos, cometeram o deslize histórico de cair no mais terrível de todos os contos do vigário, aquele que nega a própria realidade que nos cerca.
Aliás, ocorre-me um último pensamento. A única forma do ex-presidente (Imperador?) Fernando Henrique Cardoso demonstrar que o seu governo não foi o maior desastre político-econômico, testemunhado por todo o continente americano, seria compará-lo, taco a taco, à catastrófica gestão de George Bush filho. Sendo assim, talvez o candidato Serra tenha raciocinado que, como a sua probabilidade de vitória era realmente baixa,  em último caso, ele poderia demonstrar a todo o Brasil quão melhor o governo FHC teria sido do que uma eventual presidência do George Bush genérico do hemisfério sul. Vão-se os anéis, sobram os dedos. Perdido por perdido, vamos salvar pelo menos um amigo. Se tal ato de solidariedade foi tramado dentro dos circuitos neurais do cérebro do candidato da oposição (truco!), só me restaria elogiá-lo por este repente de humildade e espírito cristão.
Ciente, num raro momento de contrição, de que algumas das minhas teorias possam ter causado um leve incômodo, ou mesmo, talvez, um passageiro mal-estar ao candidato, eu ousaria esticar um pouco do meu crédito junto a esse grande novo porta-voz do cristianismo e fazer um pequeno pedido, de cunho pessoal, formulado por um torcedor palmeirense anônimo, ao candidato da oposição. O pedido, mais do que singelo, seria o seguinte:
Candidato, será  que dá pro senhor pedir pro governador Goldman ou pro futuro governador Dr. Alckmin para eles não desligarem a luz da Arena Barueri na semana que vem? Como o senhor sabe, o nosso Verdão disputa uma vaguinha na semifinal da Copa Sulamericana e, aqui entre nós, não fica bem outro apagão ser mostrado para todo esse Brazilzão, iluminado pelo Luz para Todos, do Lula. Afinal de contas, se ocorrer outro vexame como esse, o povão vai começar a falar que se o senhor não consegue nem garantir a luz do estádio pro seu time do coração jogar, como é que pode ter a pretensão de prometer que vai ter luz para todo o resto desse país enorme? Depois, o senhor vem aqui e pergunta por que eu vou votar na Dilma? Parece abestalhado, sô!
*Miguel Nicolelis é um  dos mais importantes neurocientistas do mundo. É professor da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, e criador do Instituto Internacional de Neurociência de Natal, (RN). Em 2008, foi indicado ao Prêmio Nobel de Medicina.