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domingo, 7 de setembro de 2014

Slavoj Žižek: “ISIS/ISIL é a desgraça do verdadeiro fundamentalismo”

3/8/2014, [*] Slavoj Zizek, The New York Times
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


ISIS/ISIS desfila com Toyotas pelo deserto 
Tornou-se lugar comum nos meses recentes observar que o crescimento do Estado Islâmico no Iraque e no Levante, ISIL, seria o último capítulo na longa história do despertar anticolonial – que estariam sendo redesenhadas as arbitrárias fronteiras traçadas depois da Iª Guerra Mundial pelas grandes potências — e que, simultaneamente, esse seria um capítulo na luta contra o modo como o capital global mina o poder dos estados-nação.

Mas o que causa tanto medo e consternação é outro traço do regime do ISIL: as declarações públicas feitas pelas autoridades do ISIL deixam bem claro que a principal tarefa do poder do estado não é regular o bem-estar da população (saúde, a luta contra a fome). O que realmente interessa é a vida religiosa, e a preocupação de que toda a vida pública obedeça a leis religiosas. Por isso é que o ISIL mantém-se mais ou menos indiferente às catástrofes humanitárias dentro de seus domínios. O motto deles é, aproximadamente “cuide da religião, que o bem-estar cuida dele mesmo...”

Aí está a fenda que separa a noção de poder praticada pelo ISIL e a moderna noção ocidental do que Michel Foucault chamou de “biopoder”, que regula a vida de modo a garantir o bem-estar geral: o califato do ISIL rejeita totalmente a noção de biopoder.

Isso faz do ISIL estado pré-moderno? Em vez de ver no ISIL um caso de resistência extrema à modernização, deve-se, isso sim, concebê-lo como um caso de modernização pervertida, e inseri-lo no conjunto das modernizações conservadoras que começaram com a restauração Meiji no Japão do século XIX (uma rápida modernização industrial assumiu a forma ideológica de “restauração”, ou o retorno da plena autoridade do imperador).

O relógio do Califa é, possivelmente, um Rolex, talvez um Sekonda, ou que poderia até ser um Omega Seamaster de £ 3.000 
A imagem-foto bem conhecida de Abu Bakr al-Baghdadi, líder do ISIL, com luxuoso relógio suíço no pulso, é, nisso, emblemática: o ISIL é bem organizado para propaganda pela rede e para negócios financeiros, embora essas práticas ultra modernas sejam usadas para propagar e reforçar uma visão ideológico-política que, muito mais que conservadora, parece ser movimento desesperado para “reparar” delimitações hierárquicas bem visíveis.

Contudo, não se deve esquecer que mesmo essa imagem de organização fundamentalista estritamente disciplinada e regulada não está livre de ambiguidades: será que haveria carência de opressão religiosa nos locais nos quais as unidades militares do ISIL parecem operar? Ao mesmo tempo em que a ideologia oficial do ISIL milita contra a permissividade ocidental, a prática diária das gangues do ISIL inclui orgias em ampla e grotesca escala, incluindo roubos, estupros seriais, tortura e assassinato de infiéis.

Observada bem de perto, a aparentemente heroica prontidão do ISIL para arriscar tudo ainda parece mais ambígua.

Há muitos anos, Friedrich Nietzsche percebeu como a civilização ocidental estava andando na direção do Último Homem, uma criatura apática, sem grande paixão ou comprometimento. Incapaz de sonhar, cansado da vida, não se expõe a riscos, buscando só conforto e segurança:

Friedrich Nietzsche
Um pouco de veneno de quando em quando: isso gera sonhos agradáveis. E muito veneno por fim, para um agradável morrer. Ainda se trabalha, pois trabalho é distração. Mas cuida-se para que a distração não canse. Ninguém mais se torna rico ou pobre: as duas coisas dão trabalho. Quem deseja ainda governar? Quem deseja ainda adoecer? Ambas as coisas são árduas. Todos querem o mesmo, todos são iguais cada um é igual: quem sente de outro modo vai voluntariamente para o hospício. “Descobrimos a felicidade”, diz o Último Homem, e eles piscam o olho. [1]

Parece que a fenda que separa o permissivo Primeiro Mundo e a reação fundamentalista a ele acompanha cada vez mais e mais as linhas da oposição entre viver vida longa e feliz, cheia de riqueza material e cultural, de um lado; e, de outro, dedicar a própria vida a uma causa transcendente. Não seria isso o que Nietzsche chamou de antagonismo entre niilismo “passivo” e niilismo “ativo”?

Nós, no ocidente, somos o Último Homem nietzscheano, imerso em estúpidos prazeres diários; enquanto os muçulmanos radicais estão prontos a arriscar tudo, engajados na luta até o ponto da autodestruição. A Segunda Vinda de William Butler Yeats parece dar perfeitamente conta de nosso sofrimento atual:

Aos melhores falta qualquer convicção. Enquanto os piores estão plenos de ardor.

William Butler Yeats
Essa pode ser excelente descrição da atual fissura entre liberais anêmicos e fundamentalistas apaixonados. “Os melhores” já não conseguem engajar-se plenamente; “os piores” engajam-se apaixonadamente no fanatismo racista, religioso, sexista.

Mas terroristas fundamentalistas são realmente fundamentalistas, no sentido autêntico da palavra? Será que realmente creem? Fato é que falta a eles um traço fácil de identificar nos fundamentalistas autênticos, de budistas tibetanos aos amish nos EUA – a ausência de ressentimento e inveja; a profunda indiferença em relação ao modo de vida dos que não creem.

Se os chamados hoje fundamentalistas realmente cressem, teriam encontrado a própria trilha rumo à Verdade e não se sentiriam ameaçados pelos não crentes. Por que invejá-los? Quando um budista encontra um hedonista ocidental, ele dificilmente o condena. Ele apenas observa com benevolência que a busca de felicidade do hedonista se autoconsome, se autoderrota.

Ao contrário dos verdadeiros fundamentalistas, os terroristas pseudo-fundamentalistas sentem-se profundamente perturbados, intrigados e fascinados pela vida pecaminosa dos incréus. Sente-se que, ao combater o outro-pecador, eles combatem a tentação que os consome. Por isso, os chamados fundamentalistas do ISIL são uma desgraça para o verdadeiro fundamentalismo.

É onde o diagnóstico de Yeats falha, para explicar a desgraça de hoje: a intensidade apaixonada de uma gangue é manifestação de uma falta de verdadeira convicção. No fundo deles mesmos, os terroristas fundamentalistas também não conhecem a convicção profunda – as explosões de violência são prova disso. Deve ser muito frágil a convicção do muçulmano que se sinta ameaçado por uma caricatura estúpida desenhada por jornalista estúpido num estúpido jornal dinamarquês de baixa circulação. O terror fundamentalista islâmico não tem raiz na convicção nos terroristas, da sua própria superioridade e no desejo deles de salvaguardar a sua identidade cultural religiosa contra o massacre pela civilização de consumo global.

Humvees, sonho de consumo do ISIL?
O problema com o terrorista fundamentalista não é que nós o consideremos inferior a nós, mas, ao contrário, que eles se consideram, em segredo, inferiores. Por isso, nossa condescendência arrogante, as repetidas garantias politicamente corretas, de que não nos sentimos superiores a eles, só fazem enfurecê-los cada vez mais e alimentam neles o ressentimento.

O problema não é diferença cultural (o esforço deles para preservar a identidade deles), mas o fato, exatamente oposto, de que eles secretamente internalizaram nossos padrões e avaliam-se, eles, pelos nossos padrões.

Paradoxalmente, o que falta aos fundamentalistas do ISIL e a outros como eles é, precisamente, uma boa dose daquela absoluta convicção da própria superioridade.
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[*] Slavoj Žižek (nasceu em Liubliana, capital da Eslovênia em 21 de março de 1949), doutorou-se em Filosofia na sua cidade natal e estudou Psicanálise na Universidade de Paris. Žižek é conhecido por seu uso de Jacques Lacan numa nova leitura da cultura popular, abordando temas como o cinema de Alfred Hitchcock e David Lynch, o leninismo e tópicos como fundamentalismo e tolerância, correção política, subjetividade nos tempos pós-modernos e outros.
Em 1979, começou a trabalhar no Instituto de Sociologia de Liubliana. Pouco depois, em 1980, começou a publicar livros que examinavam as teorias Hegelianas e Marxistas a partir do ponto de vista da teoria psicanalítica Lacaniana. Além disso, editou certo número de traduções de Louis Althusser, Jacques Lacan e Sigmund Freud para o Esloveno. Candidatou-se a presidente da Eslovênia em 1990, mas perdeu.
Tornou-se largamente reconhecido como teórico contemporâneo a partir da publicação de O Sublime Objeto da Ideologia, seu primeiro livro escrito em inglês, em 1989. O trabalho de Žižek não pode ser facilmente categorizado. Ele retorna ao sujeito cartesiano e à Ideologia Alemã, especialmente aos trabalhos de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Immanuel Kant e Friedrich Wilhelm Joseph Schelling. 
Žižek é ateu e suas teorias frequentemente vão contra as análises teóricas tradicionais. Ele costuma ser politicamente incorreto e já causou diversas polêmicas em vários círculos intelectuais. Ressalta com frequência que, para entender a política de hoje, nós precisamos de uma noção diferente de ideologia.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Excrescência da política brasileira

Bancada fundamentalista na Câmara dos Deputados

Publicado em 09/04/2013 por Mário Augusto Jakobskind*

O caso do pastor Marco Feliciano, que se arrasta há um mês, não se restringe apenas ao parlamentar, muito menos à Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Trata-se de uma ofensiva conservadora, especialmente fundamentalista religiosa, que representa um retrocesso para o país.

Feliciano, segundo a Folha de S. Paulo, agora em defesa protocolada no Supremo Tribunal Federal, confirmou suas anteriores declarações racistas afirmando que “paira sobre os africanos uma maldição divina”.

Remover Feliciano do cargo de presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias é uma necessidade, sem dúvida, mas não basta. Ele representa uma excrescência da política brasileira e é preciso frear a ousadia de seus pares que formam a Frente Parlamentar Evangélica.

Se isso não for feito o quanto antes, o Parlamento brasileiro acabará até aprovando projeto do Deputado João Campos, do PSDB, que, pasmem, na prática levará ao fim do estado laico.

O correligionário de Aécio Neves e Fernando Henrique Cardoso, entre outros, elaborou proposta incluindo as entidades religiosas de âmbito nacional entre aquelas que podem propor ação direta de inconstitucionalidade e ação declaratória de constitucionalidade ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Se aprovado em plenário, já foi na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados, o projeto irá para votação no Senado. Se este retrocesso não for abortado, as entidades religiosas poderão questionar decisões judiciais já adotadas pelos Ministros do STF, desde a autorização para o uso de células troncos até a união estável para casais do mesmo sexo.

Podem imaginar como um retrocesso dessa natureza em pleno século XXI repercutiria no exterior? Enquanto os Parlamentos da Argentina e Uruguai aprovam a união estável, no Brasil uma Frente Parlamentar Evangélica se mobiliza até para acabar com a laicidade do Estado.

Como se não bastasse a desmoralização da Comissão de Direitos Humanos sob a presidência de Feliciano, integra também o espaço agora dominado pelos fundamentalistas uma outra excrescência da política brasileira, o Deputado Jair Bolsonaro, que além de defensor veemente do golpe de 64, em várias ocasiões chegou a justificar a tortura.

Mas a ocupação da Comissão pelos fundamentalistas se deve basicamente a partidos como o PMDB, PT, PSDB, PC do B e outros, que se desinteressaram pelo tema deixando que o Partido Social Cristão (PSC) indicasse Feliciano.

Além de declarações racistas e homofóbicas, bem como proceder de forma autoritária e policialesca como presidente da Comissão ao proibir a entrada do povo em sessões, para não falar das acusações de estelionato que responde no STF, Feliciano tem passado dos limites com menções sobre “satanás” e outras contra parlamentares que não rezam por sua cartilha fundamentalista.

Tem até vídeo em que este senhor farsante afirma que as mortes de John Lennon e do grupo Mamonas Assassinas foram uma ação de deus. Pode uma coisa destas presidir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados? 

Neste contexto, que não se restringe ao PSC, soma-se a recente declaração do Senador do PSDB, Aécio Neves considerando o golpe de 1964 como “revolução de 64”. O político mineiro se traiu, porque geralmente os que se utilizam da referida linguagem sempre apoiaram a quebra da ordem constitucional que representou a derrubada do Presidente João Goulart.

Para completar a ofensiva conservadora, que passa também pela Opus Dei, o Governador de São Paulo tem como assessor particular um tal de Ricardo Salles, defensor veemente do golpe de 64 e fundador do grupo intitulado Endireita Brasil.

Salles representa a velha direita, acoplada a nova direita que ao longo dos últimos anos tem feito de tudo para doar o que ainda resta sob controle do Estado brasileiro. Nesta ofensiva se inserem os leilões de petróleo, já marcados para maio próximo, e que tiveram início no governo entreguista de FHC.

Por estas e muitas outras, se não houver uma maciça mobilização dos movimentos sociais, o Brasil será palco em breve de um retrocesso que remonta aos piores momentos de sua história no século passado.

Seria uma espécie de repetição como farsa, agora caminhando para 50 anos, do golpe civil militar de 64.
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Mário Augusto Jakobskind* é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.

Enviado por Direto da Redação

 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

O deputado que fala com o Espírito Santo



Marco Feliciano

Publicado em 04/04/2013 por Urariano Motta*

Recife (PE) - O deputado ou pastor Marco Feliciano, todos sabem, preside até agora, contra a grita geral do Brasil, a Comissão de Direitos Humanos na Câmara dos Deputados. Resta saber como o deputado/pastor possui uma linha exclusiva, de ligação direta com o Espírito Santo. Em mais de uma oportunidade, ele aparece como o Ele maior, pois declara no púlpito, no microfone, diante da câmera ou da câmara, tanto faz, pois tudo é instrumento para a Sua voz, de feliz Feliciano:

...pela primeira vez na história desse Brasil, um pastor cheio do Espírito Santo conquistou o espaço que até ontem era dominado por Satanás.

É como se o deputado fosse o próprio Espírito Santo.

Não vem ao caso aqui lembrar os pecados de corrupção e de abuso de mandato cometidos por Feliciano, quando não está em uma das pessoas da Santíssima Trindade. Ou quando Lhes dá as costas, porque a ligação esteve interrompida. No momento, o que mais desperta a piedade, em toda a gente impura da terra, é o desequilíbrio  do deputado Marco Feliciano. Em uma entrevista, o divino pastor caído em desgraça para a maioria confessou:

Eu sou filho de uma mulher que, por causa da pobreza... minha mãe houve um tempo na vida dela em que ela tinha uma pequena clínica de aborto. Uma clínica clandestina. Eu cresci no meio disso. Eu vi mulheres perderem os seus bebês assim e eu fiquei traumatizado por isso. Eu vi fetos serem arrancados de dentro de mulheres.

A isso, respondeu a mãe do pecador que é Deus, dois dias depois, em reportagem da Folha de São Paulo: que o filho jamais viu um aborto feito por ela. Que na época, quando ela recebia adolescentes para lhes fazer abortos, Feliciano era um recém-nascido. Pois dona Lúcia Maria Feliciano, a mãe do homem que fala com o Espírito Santo, era então uma doméstica de 20 anos, mãe solteira de um filho pequeno, o próprio bebê Marco Feliciano.

Observe o leitor que o nobre deputado das duas uma: ou é um Ser Superdotado de visões anteriores à sua primeira consciência, ou se encontra muito fora do lugar na presidência da Comissão de Direitos Humanos. Com mais propriedade, deveria estar em uma comissão de outros direitos: dos superfariseus, dos guardiões dos templos antes de Cristo, ou numa hipótese mais caridosa, na comissão de frente dos pacientes que vagam insones em um sanatório. Por reconhecimento a todos os seus direitos, que Ele merece a cada entrevista que comete.

Sem prejuízo dos crimes contra os direitos das pessoas, Marco Feliciano tem se mostrado um caso de enlouquecimento em público. Na melhor das hipóteses, ele deveria estar na presidência de um sanatório de exclusões, onde não entrassem os pecadores mais equilibrados. A saber: na presidência de um hospício onde fossem barrados os homossexuais, os negros, os ateus, os socialistas, os democratas, as feministas, os jornalistas, os trabalhadores, os intelectuais, enfim, toda a mancha escura que nos dá prazer e orgulho de viver na terra.

Com o seu louco fundamentalismo, na sua modalidade mais terrível, da que tem visões saneadoras, ele é a antipropaganda dos evangélicos, dos cristãos, e, acima de tudo, do Congresso Nacional. No tempo da Comissão da Verdade, da recuperação do Brasil para uma democracia que encare a memória, o louco deputado Marco Feliciano é mais que ridículo, é trágico e perigoso. Pois ele possui todas as características dos fascistas, que se exibem puros, falsos puros, religiosos, na verdade fariseus, enquanto excluem os homens sujos – todos os homens que não sejam conforme o seu credo.

Consultando a Wikipédia, conhecemos algumas pérolas de Marco Feliciano:

Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é a polemica (sic). Não sejam irresponsáveis twitters. A maldição que Noé lança sobre seu neto, canaã, respinga sobre continente africano, daí a fome, pestes, doenças, guerras étnicas...

Quando você estimula uma mulher a ter os mesmos direitos do homem, ela querendo trabalhar, a sua parcela como mãe começa a ficar anulada, e, para que ela não seja mãe, só há uma maneira que se conhece: ou ela não se casa, ou mantém um casamento, um relacionamento com uma pessoa do mesmo sexo, e que vão gozar dos prazeres de uma união e não vão ter filhos...

Se um louco assim se diz repleto do Espírito Santo, penso que caberia processo de calúnia e difamação movido por todas as igrejas na terra. E nos céus, quando por engano bater à porta de Deus, uma justa expulsão para o inferno ao lado.
_________________

Urariano Motta* é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas(Recife, Bagaço, 1997).

Enviado por Direto da Redação

sábado, 30 de outubro de 2010

Encontros Moviola: “Novos Fundamentalismos”

21/10/2010, reunião e debate (e cervejada) na Livraria Moviola, RJ
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Veja também:
2. Rodrigo Guerón: “A michetagem intelectual” – (em preparação)
3. Ivana Bentes: “Novos ou velhos fundamentalismos?”
4. Cunca Bocayuva: “O governo Lula e o manejo da potencialidade do capitalismo. A mobilidade plebéia” (em preparação)

3. IVANA BENTES: “Novos ou velhos fundamentalismos?”
Não sei se são velhos fundamentalismos. Talvez interesse chamar a atenção hoje para as estratégias que foram mobilizadas para trazer hoje à discussão, para recolocar em pauta hoje, os velhos fundamentalismos.
Acho que a novidade, em termos de cultura de massa, é que nunca se discutiram abertamente no Brasil alguns desses temas trazidos por essa campanha eleitoral: o aborto, o Estado laico... São questões que se explicitaram, afinal, de um modo que permite ver como a emergência dessa pauta, de uma forma conservadora pode ser um ponto de partida extremamente positivo para reverter-se essa pauta – depois da eleição de Dilma.
Nesse sentido, me oponho um pouco ao hiperativismo pessimista do Guerón [risos], e já antecipo aqui o meu otimismo crítico.
Claro que é momento de tensão, as coisas ainda não estão definidas, mas vejo de forma positiva a emergência desses temas. Não, evidentemente, o modo como estão sendo trazidos e tratados. Quanto a isso, acho que as estratégias de mídia são decisivas e devem ser discutidas.
No primeiro turno, ainda tivemos alguma boa discussão da pauta política, sobre os avanços nos programas de políticas públicas. Tivemos alguma discussão política, sobre os programas implantados pelo governo Lula, Bolsa-Família e outros.
Mas o segundo turno – e é onde se vê que a questão da mídia é decisiva na pautação desses temas específicos e para pautá-los em alguns momentos, não em outros – foi pautado por uma ideia, por um slogan que esteve na base da campanha de Serra e foi a ideia sobre a qual trabalhou a empresa que fez a publicidade da campanha, segundo a qual, a nossa "marca" seria “uma crise moral”.
Já que eles não conseguiram, na discussão dos programas, empurrar para um impasse o projeto político, o projeto de Brasil do governo Lula, restou a eles impor a pauta da tal “crise moral”, uma suposta crise moral, é claro. As questões ligadas aos Estado laico, ao aborto, aos direitos dos homossexuais entraram aí.
Todos esses direitos já estão de forma muito clara no Plano Nacional dos Direitos Humanos. E quando foram apresentados lá já criaram certa reação, mas, naquele momento esses temas não foram trazidos à tona, pela mídia. Agora, então, eles voltam àquele tema. A verdade é que essa reversão ao discurso moralista, centrada nos ‘bons costumes’, voltou, agora, associada à possibilidade de Dilma ser eleita.
Não citaram o Plano, mas ele apareceu algumas vezes, sempre oferecido como ‘prova’ de que não se trataria de discussões vazias, mas que, sim, esses ‘riscos’ existiriam, no caso de Dilma ser eleita. Assim ‘reativaram’ a tal ‘crise moral’.
De novidade, só, que, antes, havia o discurso moralista de direita, e ele agia, mas muita gente não assumia esse discurso moral de direita. As pessoas tinham vergonha, jornalistas, intelectuais, sociólogos, a classe média, não explicitavam seu discurso de direita. Agora, assumiram. Na mídia, chama muito a atenção: articulistas, jornalistas, sociólogos explicitaram um discurso de direita, há produção acadêmica, há toda uma universidade mobilizada para constituir um ideário conservador, de direita, que reivindica para si o direito de existir. Isso, antes, não estava explicitado e, agora, apareceu de modo muito claro.
Claro. Há a questão dos meios de comunicação tornados órgãos de publicidade de um só programa e de uma só campanha, de uma elite.
Mas a questão moral já havia aparecido na primeira eleição de Lula – questões morais, de ‘ética’, foram também um dos motes daquela eleição. Também lá se mobilizaram questões de ética, de moral, sempre usados como elementos para expor a ideia da ‘não-confiabilidade’ do governo Lula. E voltaram na segunda eleição de Lula e, agora, na eleição de Dilma. O argumento voltou, como voltou a coisa de o programa do governo Dilma ser igual ao dos governos Lula: os avanços estão aí, mas ela tampouco seria confiável.
E por aí se entrou numa argumentação, num discurso irracional, numa emocionalidade, numa irracionalidade, emocionalidade que é traço típico do discurso midiático. E isso acabou por mobilizar toda a campanha política.
Episódio exemplar desse movimento e da centralidade que ganhou na campanha é o dramático evento do ataque da “bolinha de papel”, que já apareceu ridicularizado até no Le Monde.
Paralelamente, aí também apareceu o contradiscurso forte, um ativismo forte, que faz oposição à mídia de massa e já existe nas redes sociais, Twitter, Facebook, e que conseguiram impor-se na discussão. Na segunda eleição de Lula, já havia a militância de resistência pela rede. Mas na eleição de Dilma, afinal, muito velozmente, os discursos da mídia puderam ser quase instantaneamente desconstruídos. Desconstruiu-se tudo, com ferramentas eficazes, muito velozmente. Logo que as primeiras imagens apareceram, viu-se pela internet a utilização da própria linguagem midiática para desconstruir o discurso da mídia, com detalhes, a forma da narração, construindo um contradiscurso, que utilizou a própria linguagem da mídia para desconstruir o discurso da mídia. As capas de Veja foram parodiadas, apresentadas como piada. Hoje há quatro ou cinco vídeos na internet, produzidos por jornalistas profissionais e também por amadores. Hoje, nas redes, as capas da Veja são antecipadas e antecipa-se também a linguagem da mídia, as estratégias da mídia. Isso é muito eficaz, embora seja ainda pouco e pequeno e, sim, me parece um ganho muito importante.
A própria Globo respondeu ao presidente Lula, embora sem citar o Twitter, às críticas que lhe fez o presidente Lula e lhe fizeram as redes sociais. Hoje, por exemplo, a manchete de O Globo é resposta à reação das redes sociais e reafirma a desqualificação moral do presidente e da candidata, sempre com adjetivos no campo do discurso moral, da não confiabilidade.
A desqualificação moral me parece ser esse último reduto ao qual regrediu a campanha e os discursos da mídia. Nesse campo, sim, me parece que as questões dos novos fundamentalismos que vamos discutir aqui, sim, me parecem importantes. São as questões mais polêmicas e que mexem com questões religiosas, os direitos da mulher, que têm a ver com o aborto e a vida, o casamento de homossexuais. São questões que arrastam todos para esse pântano que é o ‘a moral do outro’. Depois das intervenções dos outros aqui presentes, talvez possamos articular outras consequências disso tudo.
Pra terminar, vejo, sim, possibilidades extremamente positivas, tanto quanto vejo traços extremamente preocupantes, o que se viu nessa campanha. 
Temos, sim, de discutir a ‘herança’ desse acirramento das questões morais, do ódio, da criação de tensões absolutamente maniqueístas no campo político, os efeitos de se fazer campanha de torcedor ‘hooligan’, muito dual, e na explicitação disso tudo.
Temos, para o futuro, uma pauta importantíssima a ser levada depois da eleição de Dilma.