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sexta-feira, 20 de abril de 2012

A Arma Secreta de Israel


Arma Secreta de Israel (2003) from Malandro on Vimeo.
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.Título Original: Israel's Secret Weapon, 2003, (44 minutos)
.Realização: Olenka Frenkiel, BBC.
.Tradução e legendas: Malandro (Português)
.Fundamental! - Sinopse de Malandro
. Enviado por João Pedro (Liberdade 074)

Mordechai Vanunu
A Arma Secreta de Israel é um documentário realizado pela BBC em 2003, que conta a história de Mordechai Vanunu, o denunciante das armas nucleares israelitas, que foi sentenciado a 18 anos de prisão pelo seu Governo, dos quais 11 foram passados em isolamento.

Tendo sido transmitido pela primeira vez em 2003, poucos dias antes do início guerra do Iraque, este é um importante documentário que nos mostra como a suposta “única democracia do Oriente Médio”, raptou um dos seus cidadãos em solo estrangeiro, tendo depois julgado-o secretamente, por este ter revelado ao mundo aquilo que já se suspeitava. Que Israel tem um programa nuclear bastante avançado, calculando-se que o país possui um arsenal nuclear com cerca de 100 a 200 bombas atômicas, as quais, nunca foram inspecionadas pela comunidade internacional.

Este é um dos poucos documentários realizados sobre o assunto e que nos revela também o secretismo existente na sociedade israelita em todos os seus setores.

Um documentário bastante atual. Basta para isso, trocar a então situação do Iraque com a atual situação do Irã, para verificarmos que a retórica usada é mesma. Dois pesos e duas medidas.

O mundo exige tudo do Irã e nada de Israel.

terça-feira, 13 de março de 2012

Os perigos de “exigir” guerra à Síria, ao Irã

9/3/2012, Leslie H. Gelb, The Daily Beast 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Não deveria escrever o que aqui vai. Estou violando um código. Estou delatando o mais profundo, o mais sombrio segredo do clã dos especialistas em política exterior: apesar de termos de falar e escrever como se soubéssemos de tudo, a verdade é que sabemos pouco, muito pouco, sobretudo sobre as intenções dos “bandidos” da história e sobre as consequências das guerras. 

Mas, dado que a imprensa-empresa insiste em nos tratar como se fôssemos sábios e em ignorar os horrendos erros que cometemos, nós seguimos com nosso joguinho, e, com isso, provocamos danos terríveis. Aí vão alguns exemplos recentes de o quanto somos ignorantes e perigosos, e de por que todo o público externo deve desconfiar muito e guardar a máxima cautela sempre que ouvirem ou lerem “verdades” e “conclusões” e “certezas” enunciadas pelo meu clã de especialistas.

Sen. Lindsey Graham, R-Carolina do Sul, exibe foto de um míssil iraniano coberto com propaganda anti-Israel, no Capitólio, em Washington, 3ª-feira, 16/2/2012   
(Foto J. Scott Applewhite / AP Photo)
Tomem o caso do Irã. Os que mal podem esperar para atacar o Irã e iniciar uma guerra dizem-nos que Teerã está a três segundos, três meses ou três anos, ou um ano, de ter uma bomba atômica. Acreditem: dizem, sem ter jamais visto um fiapo de prova do que dizem. Dizem, exclusivamente, porque trabalham para empurrar Israel e os EUA para um ataque militar contra o Irã.

O que todos sabemos com certeza é pouco: o Irã está enriquecendo urânio e tem capacidade para enriquecer quantidade suficiente de urânio para fabricar bombas nucleares dentro de – talvez – um ano, dois anos, talvez mais tempo. É possível que o Irã esteja desenvolvendo outras capacidades necessárias para pôr aquele urânio em forma de bomba ou míssil e instalar a bomba ou míssil num equipamento de transporte e detonação. Essa é a informação que nos chegou, até agora, por vídeos e áudios da inteligência.

Essas atividades são motivo para preocupações? Sim, sem dúvida. Mas não são motivo para guerra ao Irã, nem agora nem em breve. São motivo, sim, para que EUA, Israel e outras nações procurem acumular mais e mais informação confiável, e para que ponham a funcionar os órgãos de diplomacia. De diplomacia, é claro, porque se pode discutir até o dia do Juízo Final sobre o que têm e planejam os iranianos, mas só se formos capazes de oferecer propostas que se possam discutir e analisar teremos meios para testar nossas hipóteses. Se o Irã rejeitar propostas razoáveis, então, sim, haverá motivos para suspeitas, e a guerra poderá começar a impor-se como última via inafastável.

Devo dizer que essa não é posição só minha. É posição também consensual nas agências de inteligência dos EUA. E não há de ser por acaso que, desde alguns dias, até veteranos espiões israelenses, notórios cérebros da inteligência de Israel e militares de alta patente tenham-se posto a gritar de todos os telhados, publicamente, em movimento tradicionalmente oposto ao código de silêncio que rege esses assuntos.

Os falcões linha mais dura, israelenses e norte-americanos não se cansam, por sua vez, de dizer que não há motivos para que nos preocupemos com as consequências de atacar o Irã; que os iranianos não podem fazer, ou não se interessarão por fazer coisa alguma que nos cause grave dano. Epa! Protejam a cabeça e o bolso! Como poderiam saber se Teerã, se for atacada, não decidirá retaliar e atacar, digamos, campos de petróleo sauditas ou iraquianos, lançando os preços de petróleo à estratosfera? Ou como alguém pode saber se os terroristas não optarão por atacar norte-americanos, israelenses e outros, em todos os cantos do mundo? Sim, é claro: eu também não sei. Mas esses são riscos reais que é preciso reconhecer e aceitar, antes de decidir atacar o Irã.

Ou tomem o caso da Síria. Os gêmeos pró-guerras-em-geral, senadores John McCain e Lindsey Graham, além da usual coorte de neoconservadores desatinados e intervencionistas “humanitários”, bradam a favor de ação militar. Querem ataques aéreos e muitas armas para os rebeldes sírios, querem “zonas aéreas de exclusão” e coisa e tal e tal. Não suportam que o presidente Bashar al-Assad ataque o próprio povo. Nem nós. Nem ninguém. 

Mas... Por que os neoconservadores estão tão agudamente preocupados com os vários milhares de sírios mortos, quando se sabe que jamais perderam o sono com os milhões já mortos e outros tantos que continuam a ser mortos na África? Por que os neoconservadores não discursam a favor de armarmos os tibetanos? Fácil: porque não querem guerra contra a China. Por hora, os neoconservadores só querem inflar o orçamento militar dos EUA e que os EUA finquem pé na Ásia. Depois a gente vê o que faz. 

Se não houver oposição clara, se os que são contra guerras não fizerem direito o que têm de fazer, em pouco tempo os EUA estarão novamente em guerra, como aconteceu no Iraque e no Afeganistão. E, outra vez, haverá muito a lamentar.

Assim sendo, é preciso começar a desconfiar de que a obcecação daqueles todos para que Washington “avance” contra a Síria e nos meta em outra guerra inclui algo mais, além de salvar vidas. No caso do Irã: querem enfraquecer a posição do Irã no mundo árabe, ao lado de seu poderoso aliado sírio e ajudado por extremistas apoiados pela Síria, como o Hezbollah no Líbano e o Hamás em Gaza. Objetivo muito nobre.

Mas, também aí, quais as consequências, ou melhor, os riscos, o preço? Os intervencionistas, por exemplo, correram a armar os rebeldes sírios. Oh, nobre povo que combatia a tirania de Assad. Lindo. Mas quem são, afinal, os tais rebeldes? Há elementos da al-Qaeda que também lutam contra Assad? Há outros muçulmanos extremistas, que também se opõem à tirania de Assad? E não serão, se já não forem, ameaça muito mais grave a Israel e outros árabes, como a Jordânia, que o próprio Assad?

Os obcecados-por-guerras dizem que não, não, que ninguém se preocupe... Mas fato é que não sabem responder essas perguntas. E menos ainda sabem o que aqueles “combatentes da liberdade” da Al-Qaeda e outros farão com as armas químicas do arsenal de Assad. Nem os intervencionistas de “intervenção-na-Síria-já” sabem explicar como chegarão por ar à Síria; nem o que conseguirão fazer, no caso de nem ataques aéreos conseguirem impedir que Assad continue a lutar contra a oposição interna.

A lista de perguntas que se deve fazer aos pregadores de guerras “humanitárias” é longa, mas é preciso tê-la pronta e apresentá-la antes que qualquer presidente decida desembainhar a espada. 

Os norte-americanos têm de ser protegidos dessas serpentes mercadoras de petróleo, e só podem contar com o Congresso e com a imprensa, para protegê-los. Congresso e imprensa, portanto, têm de trabalhar muito melhor do que até aqui: têm de arrancar o melhor que os especialistas tenham a oferecer, sobre fatos, sobre opiniões, sobre fatos nos quais basearam suas opiniões. Têm de fazer perguntas fortes, que façam sentido forte, e não podem admitir que qualquer especialista se safe de assumir compromissos difíceis. Infelizmente, nada mais raro do que ver políticos e jornalistas decididos a apertar especialistas. 

Mas, se a imprensa-empresa fracassar outra vez, como já fracassou no Iraque e no Afeganistão, haverá mais guerra. EUA estarão novamente em guerra, como aconteceu no Iraque e no Afeganistão. E, outra vez, haverá muito a lamentar. Mas os intervencionistas “humanitários” que querem guerra-já não lamentarão. Nunca lamentam. Estão dispostos a continuar lutando todas as guerras que apareçam, qualquer guerra, até que apareça alguma guerra, algum dia, que eles “vençam”.

domingo, 11 de março de 2012

E sobre as bombas atômicas de Israel?


5/3/2012, John Cassidy, The New Yorker, New York
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

John Cassidy
Caso você tenha esquecido – e não seria difícil, dado que ninguém jamais fala delas em debates públicos – Israel tem cerca de cem bombas atômicas, talvez o dobro ou o triplo, e a capacidade técnica e os equipamentos necessários para dispará-las de silos subterrâneos, de submarinos e de jatos bombardeiros F-16.

Além do ministro da Defesa de Israel, pouca gente sabe precisamente quantos mísseis armados com ogivas nucleares o país tem. Segundo estimativa não secreta divulgada em 1999 pela Agência de Inteligência da Defesa dos EUA, citada num boletim da Federação dos Cientistas Norte-americanos de 2007, Israel tinha então entre 60 e 80 ogivas nucleares. Estimativas mais recentes dizem que o número é consideravelmente maior.

O Instituto de Estudos Estratégicos com sede em Londres diz que Israel tem “cerca de 200” ogivas nucleares carregadas em mísseis terra-ar Jericho 1 e Jericho 2 de curto e médio alcance. Jane, a empresa da Defesa-informação, estima que, no total, o número de ogivas nucleares esteja entre cem e 300, o que põe o arsenal nuclear de Israel lado a lado com a capacidade nuclear de britânicos e franceses. E muitos acreditam que essas ogivas já estejam carregadas nos novos mísseis balísticos intercontinentais Jericho 3, que têm alcance de mais de 7.200km – o que significa que, em teoria, podem atingir alvos na Europa e na Ásia.

Desde os anos 1960s, quando Israel construiu sua primeira bomba atômica, governos sucessivos têm-se recusado a reconhecer a existência do programa israelense de armas atômicas – posição oficial designada por uma palavra em hebraico, amimut, que significa “opacidade”, “transparência-zero”. E não se trata só de Israel reconhecer ou não reconhecer. Israelense que revele detalhes sobre o programa nacional de bombas atômicas comete crime, pelo qual pode ser condenado a longas penas de prisão. Em 1986, Mordechai Vanunu, ex-técnico nuclear, entregou ao Sunday Times de Londres, fotografias que havia tirado do Centro de Pesquisa Nuclear do Negev, próximo à cidade de Dimona. Depois de publicada a história de Vanunu, agentes do Mossad sequestraram-no em Roma, onde passava férias, e o levaram de volta a Israel. Cumpriu pena de 18 anos de prisão, 11 dos quais em confinamento (solitária).

Avner Cohen, o historiador israelense-norte-americano que, em 1998, publicou livro-tese acadêmica sobre o programa nuclear israelense, “Israel and the Bomb” [Israel e a Bomba] teve melhor sorte. Mas quando voltou a Israel em 2001, para uma conferência, foi preso e submetido a 50 horas de interrogatório por agentes de segurança do Ministério da Defesa, que queriam saber sobre suas fontes e motivações para escrever o livro. E em 2002, Yitzhak Yaakov, ex-chefe do programa de pesquisa de armas do exército de Israel recebeu pena de dois anos de suspensão depois de escrever suas memórias [1]. “Para mim, tudo isso é um pesadelo” – disse Yaakov, durante seu julgamento. “Acordo pela manhã e lembro que fui interrogado, acusado de espionagem. Disseram-me que eu era pior que Vanunu e que minha esposa é Mata Hari”.

Agora que Israel ameaça bombardear o programa de pesquisas nucleares para finalidades pacíficas do Irã – porque nem os serviços de inteligência dos EUA acreditam que tenha evoluído até o estágio de poder tentar construir bombas atômicas, segundo o Times  [2] – a encenação continua. Considerem a entrevista que Benjamin Netanyahu concedeu em 2010 ao meu ex-colega, Jeffrey Goldberg, publicada em The Atlantic:

Netanyahu não poria a questão em temos de paridade nuclear – a política israelense do amimut (opacidade, transparência zero) proíbe reconhecer a existência do arsenal nuclear israelense, de mais de 100 bombas atômicas, bombas termonucleares de dois estágios, que podem ser disparadas por mísseis, aviões bombardeiros ou submarinos (dois dos quais, segundo fontes da inteligência estão atualmente posicionados no Golfo Persa). Em vez disso, preferiu falar sobre o programa iraniano como uma ameaça não só a Israel, mas a toda a civilização ocidental. [3]

Evidentemente, o governo de Israel tem pleno direito de formular como lhe apraza suas políticas, considerados os interesses do país. E, também evidentemente, os EUA devem fazer o mesmo. Em seu discurso ao AIPAC, ontem, o presidente Obama disse o seguinte:

Um Irã nuclear é completamente contrário aos interesses da segurança de Israel. Mas também é contrário aos interesses da segurança nacional dos EUA. Na verdade, todo o mundo tem interesse em impedir que o Irã chegue a uma arma nuclear. Um Irã armado com arma nuclear poria abaixo todo o regime de não proliferação que tanto nos custou construir. Há riscos de que uma arma nuclear iraniana caia em mãos de alguma organização terrorista. É quase certo que outros, na região, sentir-se-ão obrigados a ter sua própria arma nuclear, o que dispararia uma corrida armamentista numa das regiões mais voláteis do mundo. [4]

E em todo aquele longo discurso, nem uma vez houve qualquer menção às bombas atômicas israelenses, nem à persistente recusa, por Israel, a assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (do qual o Irã é signatário). Algum presidente dos EUA algum dia reconheceu publicamente a existência das bombas atômicas de Israel? 

Em seu livro mais recente, “The Worse Kept Secret: Israel’s Bargain with the Bomb” [O segredo mais mal guardado: a barganha de Israel com a bomba], [5] Avner Cohen refere-se a um encontro, em setembro de 1969, entre o presidente Richard Nixon e Golda Meir sobre as bombas atômicas clandestinas de Israel.

Nenhum registro escrito ou testemunho oral sobre o que se disse naquele encontro sobreviveu, que se conheça; e o que os líderes disseram naquela reunião permanece cercado do mais denso mistério. Em retrospectiva, pode-se dizer que naquele encontro foi instituído o amimut como posição estratégica apoiada mútua e simultaneamente por Israel e EUA. O encontro Nixon-Meir marca o local e dada do nascimento da barganha.

Num momento em que o lobby nos EUA, com a cooperação dos candidatos Republicanos, pressiona o governo norte-americano para que apoie a linha dura de Netanyahu contra o Irã, talvez seja hora de reavaliar aquela barganha. Nem é preciso mudar muito. O regime de Teerã é profundamente antipático, e muitos de nossos outros aliados, incluídos a Grã-Bretanha, França e Arábia Saudita, também estão decididos a impedir que se una ao clube atômico. Mas reconhecer publicamente o que todos sabem sobre Israel – que, sim, é uma das potências nucleares do planeta – teria a grande vantagem de salvar os EUA, tirando-o da posição vulnerável em que está, repetidamente acusado de servir-se de dois pesos e duas medidas, no relacionamento com o Irã.




Notas dos tradutores
[2] 24/2/2012, New York Times, em: “U.S. Agencies See No Move by Iran to Build a Bomb”.
[3] Set. 2012, The Atlantic, em: “The Point of No Return”.
[4] Ver “‘Bibi’ continua a sacudir o cachorro americano?”, Pepe Escobar, 5/3/2012, Asia Times Online, traduzido. 
[5] Amazon: “The Worst-Kept Secret: Israel's Bargain with the Bomb”.