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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Matt DeHart:Privacidade Coletiva e o Arquipélago Anônimo


Missivas de uma prisão de segurança máxima

Abril/2014, National PostMatt DeHart
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Dica de Biella Colleman pelo twitter, em: “Eloquente, apaixonada e poética defesa do anonimato, por Matt DeHart”

Matt DeHart é soldado norte-americano, atualmente preso no Canadá, depois de pedir asilo, fugindo dos EUA, onde é condenado por seu trabalho com os Anonymous.


Matt DeHart
O mar está subindo e as colinas que nos restam são poucas e muito distantes umas das outras. Mas essa não é discussão sobre a mudança climática, apesar dos perigos. Essa é discussão sobre o arquipélago anônimo no mar global da vigilância e da perda de nossa privacidade coletiva. Apesar de nossa privacidade individual estar hoje sob grave perigo, ainda há contramedidas para preservar nossos pensamentos e ideias contra olhos e ouvidos hostis. Ainda não podem ouvir a voz dentro da nossa cabeça, nem podem seguir todos, todo o tempo. Não podem roubar ideias de dentro da nossa cabeça, nem podem prever acuradamente nossas intenções imediatas nem nosso comportamento público. Eles ainda não têm esse poder, mas tentarão. Tentarão, porque cedemos a eles nosso direito à privacidade coletiva.

Parte 1

Porque “privacidade” não é coisa claramente definida na Constituição dos EUA, é o direito mais vulnerável que há. Embora como sociedade os norte-americanos ainda lutemos para definir e consagrar na Constituição ou criar limites à invasão à privacidade individual, nós já perdemos a batalha para proteger nossos direitos como comunidades, como grupos. Na verdade, só muito raramente pensamos sobre o nosso direito à privacidade coletiva.

Pensemos um pouco.

Dez indivíduos exercendo o direito de votar não podem ser contados como se fossem nove. O governo não pode entrar numa igreja, numa mesquita ou numa sinagoga e lá ficar, impedindo que quem queira entrar entre (à parte os que já estão infiltrados nas mesquitas), nem pode negar a uma parte dos membros o direito de rezar na igreja porque são muitos. Assim, ideias partilhadas por duas ou 20 pessoas são ainda menos protegidas que as ideias dentro da nossa cabeça. Nossos direitos coletivos diminuem, conforme aumentem as coletividades?

O governo responderá com o argumento da “expectativa razoável" para limitar a privacidade. É posição defensável, embora acabe sempre desmesuradamente exagerada, quando se aplica a protestos públicos ou fóruns públicos. Infelizmente, alguns governos habitualmente infiltram agentes em reuniões privadas, sem causa provável ou motivo razoável para suspeitas.

A solução restante foi reunir-nos em grupos menores ou tomar ainda mais cuidado com aqueles com os quais partilhamos ideias. É precisamente quando nosso círculo de contatos confiáveis encolhe, de um grande grupo para apenas uns poucos, até que só temos, de contato confiável, nós mesmos, que nosso conceito de privacidade e correspondentes expectativas começam a falhar. Não é legal ler meus pensamentos, mas é legal ler os pensamentos que partilho com um amigo, com dois, com dez? Qual a massa crítica a partir da qual se torna necessário vigiar ideias, algumas das quais são secretas?

Se o governo decidiu arbitrariamente que, digamos, grupos de dez ou mais, reunidos em segredo, têm de ser vigiados, o que impede o mesmo governo de diminuir o número arbitrariamente para cinco, depois dois, até chegar, no fim, a um só? Porque a ideia é que a singularidade deve ser observada e, sendo o caso, pode ser indispensável intervir contra ela, e a singularidade começa, pela própria natureza, com pequenos números.

Matt DeHart - Anonymous

Ideias em estado embrionário são vulneráveis. Para serem expressas, manifestadas, discutidas, aceitas ou rejeitadas, elas precisam de um coletivo, no qual possam ou diminuir ou crescer. Algumas ideias impopulares exigem espaço ainda mais restrito de privacidade, uma privacidade de coletivo, ou fenecem e morrem, ou permanecem sem serem jamais realmente formadas.

O governo dos EUA usa cinco argumentos gerais pelos quais ataca esse espaço restrito de privacidade coletiva, não importa que ideia esteja sob a específica proteção de um ou outro coletivo. São eles: terrorismo, segurança nacional, crime organizado, pornografia infantil e propriedade intelectual. Esses são os argumentos (mais geralmente) aceitos legitimamente e socialmente.

O problema que enfrentamos é que algumas das ideias que o governo considera mais perigosas e associadas a interesses do governo dos EUA não se encaixam em nenhuma dessas categorias aceitas. Num sistema tradicionalmente totalitário, as pessoas são presas e encarceradas por ideias políticas. Numa sociedade falsamente democrática, “ofensas” políticas podem ser rotuladas pelos termos de uma daquelas categorias socialmente aceitáveis. De um modo ou de outro, as pessoas acabam encarceradas.

Talvez infelizmente, ou desagradavelmente, é verdade que ideias políticas impopulares, assim como provas de crimes cometidos pelo estado podem, sim, ser igualmente protegidas naqueles pequenos coletivos, onde também se podem proteger comportamentos realmente ilícitos.

Mesmo assim, temos de manter a privacidade de nossos coletivos, ou a civilização ocidental deixará de existir.

Em Os Miseráveis, Victor Hugo descreve esses tipos que se reúnem em segredo em quartinhos dos fundos de estabelecimentos privados. Os homens urdiam em segredo mudanças positivas. Embora seja ficção, Hugo falava ali de eventos acontecidos.

A República Constitucional dos EUA não existiria sem quartos dos fundos privados e espaços coletivos secretos nos quais se reuniam os conspiradores que conspiravam contra a Coroa Britânica. Se o rei George tivesse um informante em cada grupo de conspiradores ou houvesse alguma coisa como a Agência de Segurança Nacional, a Revolução Americana jamais teria acontecido. Quando perdemos essa privacidade para manter coletivos, perdemos a capacidade para desafiar em massa o estado– sobretudo quando o estado, nos EUA, viola a própria Constituição. Isso é o que vemos acontecer hoje, aqui.

O último bastião para resistir contra a total perda de privacidade é o anonimato. Mediante o anonimato, podemos restaurar a privacidade coletiva.


*****
Parte 2, em breve (Arquipélago Anônimo).



Para saber mais sobre o caso de Matt, leia a matéria de Adrian Humphreys no National Post, Hacker, Creeper, Soldier, Spy: The Story of Matt DeHart (ing.).

Links


domingo, 10 de agosto de 2014

Técnicas de punição dolorosa


Publicado no sítio The Vineyard of The Saker
Traduzido (para o inglês) pela equipe russa do Saker
Tradução (para o português): mberublue



The Saker
O ocidente está tão acostumado ao seu joguinho de um lado só que ficou realmente surpreso com a resposta russa às sanções que o ocidente impôs contra o país.

Tudo bem. Deixe lá que se acostumem com isso. Seja quem for que contra nós vier com uma espada, pela espada perecerá. Isto serve apenas quando estivermos a falar de uma batalha onde se usará a espada, uma “guerra quente”. No entanto, se esta é uma guerra de sanções e proibições, o agressor terá mais do que pediu, certamente.

Apoio em gênero, número e grau a introdução de sanções retaliatórias contra os países que por sua vez sancionaram a Rússia. Por muitas razões:

·        é bom para nossa economia e nossos produtores;
·        é importante para a autoestima de nosso povo, que nunca deixou de punir o infrator que tenha perdido o senso de realidade;
·        é necessário para que se tenha respeito pela Rússia, não apenas no interior do país mas também além de suas fronteiras.

A Rússia é uma superpotência. Recuperamos o status depois da reunificação da Criméia. Portanto não adianta; é futilidade tentar tratar a Rússia como se fosse uma criança birrenta que deve ser punida e aprender uma lição.

Pois a partir de agora qualquer agressor deve ter em mente o fato de que pagará caro por sua agressividade. A retribuição acontecerá na mesma medida e grau da agressão.

Se a agressão for econômica, o agressor pagará caro através de sua própria economia e renda. Pagará igualmente caro em vidas de seus soldados e com a perda de liberdade de manobra na esfera internacional por qualquer agressão militar.

Como os EUA controlam o território da Rússia
Como já aconteceu por várias vezes no decorrer da história, nós não começamos a confrontação. Acontece que a Rússia está sendo “punida” porque... uma guerra está em curso nos arredores de suas fronteiras, depois de apoio explícito e ostensivo ao golpe de estado na Ucrânia pelo ocidente. Ocorre que a OTAN ameaça expandir sua infraestrutura nas proximidades de nossas fronteiras. O nosso território está sendo bombardeado pela zona de conflito.

O ocidente, em si mesmo, não está em perigo. A Rússia jamais tomou qualquer atitude agressiva contra o ocidente a partir de suas fronteiras. No entanto, estamos sendo punidos. Muito bem, também podemos puni-los. Vocês precisam de nós muito mais do que precisamos de vocês.

A partir de agora nenhum canhão tem permissão de disparar perto de nossas fronteiras sem a nossa explícita permissão. Além de entender, o mundo deve recordar. Acontece dessa forma desde os tempos da Imperatriz Elizabeth Petrovna até os tempos de Leonid Brezhnev.

Ninguém tem o direito de disparar perto de nossas fronteiras e especialmente, através delas. É bom que nossos gentis “parceiros” se acostumem com o fato de que toda a parte eurasiana da Europa é território de nossos interesses vitais.

Sempre foi assim e assim deve continuar agora. Entretanto, nesse meio tempo, armas não só militares, mas também econômicas estão disparando não sem nossa permissão, mas em nós. A seu tempo, os atiradores devem ser e serão punidos.

Severamente punidos. Chega! O ocidente equivocadamente interpreta nossa bondade como sendo fraqueza. Está na hora de responder a todas as agressões contra a Rússia com técnicas de punição dolorosa.

Rússia (e China) cercada por bases dos EUA-OTAN
Há apenas uma semana atrás, no artigo “Técnicas para infligir a dor para proteger a Rússia”, escrevi o seguinte:

Já está na hora da Rússia mudar para uma política de técnicas de fazer sentir dor. Ademais, a continuação de nossa política de tentar promover a paz apenas faz nossos inimigos aumentarem suas forças. Temos que parar de sorrir e começar a responder aos ataques desfechados contra nós. Nossas ações tem que ser mais rápidas e proporcionar maior dano que os golpes de nossos inimigos. Como em um ringue, na luta contra um boxeador de maior peso, o atleta mais leve tem apenas uma vantagem: a velocidade.

E distribuir golpes dolorosos aos pontos mais sensíveis de nosso forte adversário. Quais são os pontos que mais doem em nossos “parceiros” geopolíticos? É necessário avaliar, escolher e golpear.

Então, aconteceu exatamente isso. Entendemos, reconhecemos, fizemos nossas escolhas. E respondemos aos golpes.

De acordo com as medidas para implementação da Ordem Executiva Presidencial nº 560, de 06 de agosto de 2014 “Adoção de Medidas Econômicas Especiais para Proporcionar Segurança para a Federação Russa” foi introduzida a proibição, por um ano, das importações de produtos agrícolas, matérias primas e alimentares dos seguintes países:

Estados Unidos da América;
União Europeia;
Canadá;
Austrália;
Reino da Noruega.

A lista inclui:

  1. Carne, porco, aves, salgados, secos ou defumados, peixes e frutos do mar, frescos, refrigerados ou congelados.
  2. Leite e produtos dele derivados, vegetais, frutos e nozes, embutidos e produtos assemelhados e outras variedades de carnes (incluindo produtos alimentícios acabados com base em carne).
  3. Alimentos processados, queijos, requeijão e outros produtos lácteos, baseados em gordura vegetal.

Necessário se faz enfatizar que os embargos da Federação Russa em relação aos produtos dos países ocidentais não se estendem à comida importada para bebês nem para compras individuais de bens originários de países sancionados pela Rússia.

Alimentos dos países sancionados
Adicionalmente, a Rússia impôs a proibição de vôos de companhias aéreas ucranianas em seu espaço aéreo.

Esta foi uma resolução acordada pelo governo. Refere-se à suspensão do trânsito de aeronaves ucranianas sobre o espaço aéreo russo para certo número de países – Azerbaijão, Geórgia, Armênia e Turquia, disse o Primeiro Ministro Medvedev.

Sanções que ainda podem vir a ser implementadas:

  1. Uma proibição de vôo contra aeronaves da Europa e dos Estados Unidos que voem sobre o nosso espaço aéreo para a Ásia Oriental, que seja, a região Ásia/Pacífico.

  1. Alterar as chamadas de entrada e pontos de saída no espaço aéreo russo para qualquer vôo regular ou charter da Europa, o que vai acarretar aumento de custos de transporte e tarifas para transportadores aéreos ocidentais.

Nosso país está pronto para revisar as regras de uso da rotas transsiberianas, quer dizer, denunciar os princípios acordados de modernização do sistema existente na atualidade – declarou o Primeiro Ministro Medvedev – a revisão será aplicável em sua plenitude aos países europeus. Interromperemos também as conversações com as autoridades aéreas dos Estados Unidos sobre o uso das rotas transsiberianas.

Rússia deve bloquear voos da UE sobre a Sibéria
A resposta às agressões não somente é justificada, como também é a única iniciativa correta para a Rússia. Entretanto, a Rússia sempre estará pronta para cessar a confrontação e reiniciar uma pacífica e mútua cooperação benéfica.

Contra esses países que declararam suas sanções econômicas contra nós, a Rússia foi forçada a introduzir suas próprias sanções. Para todo o mundo, o sinal é muito claro: nem tente! Tem um custo. Leve-se em consideração que nossas sanções tem um período de duração de um ano. É o suficiente para que nossos “parceiros” também sintam a dor das sanções e mudem seu modo de pensar. Se nada disso ajudar, o período pode ser estendido à vontade. Apresentaremos aos nossos “parceiros” novos setores nos quais serão ainda mais machucados, e mais apropriados para nós.

Este é o nosso país e o país é nosso, portanto as regras serão as nossas. Já jogamos por suas regras o tempo suficiente. Agradecemos a vocês, parceiros queridos que já desistiram das próprias regras. Claro que esse fato nos livra da necessidade de nos retirarmos unilateralmente.

Surpreso? Não esperava por isso?

Acostume-se. Estamos de volta...

[*] Nikolai Starikov nasceu em 23/8/1970 em Leningrado. E escritor, jornalista Op-Ed e figura política. É casado e tem duas filhas. Em 1992 graduou-se na Saint Petersburg State University of Engineering and Economics (com licenciatura em economia). Iniciou como especialista em economia em documentários tais como: Parvus in the Revolution e Storm of the Winter Palace. Refutation. Hoje, Starikov é líder de várias organizações políticas, incluindo a União de Cidadãos Russos (Профсоюз граждан России), fundada em 25/4/2011 e o Grande Partido Pátria (Партия Великое Отечество), registrado em 10/4/2013. O autor descreve o gênero de suas obras, como sendo de um “Detetive da História Política", mistura emocionante de geopolítica, economia, História da Rússia e de vários países. Baseia seus livros em memórias de participantes e testemunhas de um determinado evento. Starikov é o organizador do “Goebbels Award”, que é concedido a “pessoas que mentem sobre, caluniam e difamam a Rússia". Publica em seus sítios os resultados da votação entre os leitores.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Consequências estratégicas das revelações de Snowden (I)

17/1/2014, Dmitry Minin, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“Se desertei, desertei do governo para o público” – E. Snowden

Nossos agradecimentos a Edward Snowden pelo seu sacrifício
Um dos eventos mundiais mais importantes de 2013 foi a revelação, por Edward Snowden, de que os EUA trabalham para manter toda a humanidade sob vigilância, usando equipamento eletrônico e tecnologia de ponta.

Nos últimos dias do ano passado, o ex-empregado de uma empresa que prestava serviços terceirizados à Agência de Segurança Nacional dos EUA falou por televisão à comunidade mundial, para, mais uma vez, alertar para a gravidade do problema. Em sua fala, Snowden referiu-se ao romance 1984 de George Orwell. [1] Disse que os significados da vigilância descritos por Orwell (o romance foi escrito em 1948) parecem ingênuos e engraçados, à luz do que está sendo feito hoje.

A discussão que se faz hoje determinará o quanto confiaremos doravante, tanto na tecnologia que nos cerca por todos os lados, como no governo que a regulamenta – Edward Snowden

Vídeo a seguir legendado pelo Jornal GGN:


Infelizmente, o vídeo da fala de Snowden só foi distribuído pelo Canal 4 britânico. Os grandes veículos da imprensa-empresa mundial fizeram o máximo que puderam para diluir e diminuir o significado das palavras de Snowden. A rede BBC (em russo), por exemplo, só fez lembrar que, antes, o mesmo Canal 4 havia entrevistado o ex-presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad e até Marge Simpson, personagem de um desenho animado norte-americano.

Contudo, por mais que Washington [e Grã-Bretanha] tente esquecer e fazer esquecer o mais depressa possível o pesadelo das revelações de Snowden, elas continuam a influenciar a política mundial e, em algumas regras, já assumiram traços de influência propriamente estratégica.

1. Pode até haver quem diga que nos próprios EUA o programa de monitoramento eletrônico da humanidade será reformado; mas não há dúvida de que o programa sobreviverá, sobretudo no que tenha a ver com monitorar e vigiar o resto do mundo.

Por exemplo, a Comissão de Inteligência do Senado aprovou lei que aumenta o controle sobre os programas do governo norte-americano de cibervigilância em larga escala, mas não os extinguirá completamente. Em audiências secretas, a Comissão aprovou a introdução de novas limitações à operação de agências de inteligência que trabalham com grandes quantidades de dados de comunicações, e a limitação do período de armazenamento desses dados por cinco anos: 11 votos a favor das limitações e 4 contra. Depois da esperada aprovação dessa lei pelo Congresso e de o presidente ter sancionado a lei, um tribunal especial nomeará especialistas ‘independentes’ que serão encarregados de examinar questões de interpretação da lei. E o Senado terá de confirmar o nome que o presidente indique para os postos de diretor e de inspetor geral da Agência de Segurança Nacional [orig. National Security Agency (NSA)] dos EUA.

Especialistas já escreveram que “se os EUA pretendem reduzir sua perigosa dependência do duplifalar, terão de submeter-se a supervisão real e a um debate aberto e democrático sobre suas políticas. A era da hipocrisia acabou” .

A Era da Hipocrisia ACABOU
Houve momento em que essa virada deu sinais de que talvez viesse a ser efetiva e mais decisiva. Dia 16/12/2013, uma Corte Federal Distrital em Washington julgou a favor de dois norte-americanos que processavam o Estado e a Agência de Segurança Nacional dos EUA pela gravação ilegal de dados de uma conversa telefônica. A Corte decidiu que os programas de coleta de dados de conversas telefônicas violam a 4ª Emenda, que protege os cidadãos dos EUA contra escutas não autorizadas judicialmente. O mundo chegou a ver aí um prelúdio da possível reabilitação de Snowden.

Mas poucos dias depois, dia 3/1/2014, o Tribunal FISA [oficialmente Foreign Intelligence Surveillance Court] dos EUA autorizou as agências de segurança a continuar a coleta em massa de dados de conversações telefônicas dos cidadãos norte-americanos. No mesmo dia, o Departamento de Justiça protocolou um protesto na Corte de Apelação dos EUA contra a decisão da Corte Federal Distrital que bloqueara o programa de escutas clandestinas. Até agora, o “Grande Irmão” está vencendo esse round.

Michael Rogers
Espera-se que, por efeito do escândalo, o atual diretor da Agência de Segurança Nacional dos EUA, general Keith Alexander, deixe o posto na primavera de 2014, fim de seu atual mandato. Alexander dirige a Agência desde 2005. O jornal britânico The Guardian fala do vice-almirante Michael Rogers, atual comandante do Cibercomando da Marinha dos EUA [orig. U.S. Navy Fleet Cyber Command], como provável sucessor de Alexander no comando da ASN-EUA.

Alguma coisa por aí sugere qualquer tipo de restrição ao arsenal de vigilância eletrônica dos EUA? Absolutamente não. Apesar do barulho em torno do sistema de vigilância global, a Casa Branca não cogita de abrir mão da força que criou; em vez disso, cogita, isso sim, de tornar aquela estrutura ainda mais secreta, escondendo-a nos porões do Pentágono, para o qual passarão muitas das atuais funções da Agência de Segurança Nacional dos EUA, por ser “mais confiável” no que tenha a ver com preservar segredos. Essa é uma das recomendações de uma comissão especial que o presidente Obama criou, depois das revelações de Snowden. Essa comissão sugeriu especificamente que o serviço de gestão da segurança de informações da Agência de Segurança Nacional dos EUA seja transformado em agência separada e posta sob jurisdição do Pentágono.

Para os próximos cinco anos, o Pentágono planeja multiplicar por cinco as atuais dimensões do Cibercomando, uma estrutura especializada dentro das Forças Armadas dos EUA: passará dos atuais 900, para 4900 funcionários. E especialistas não descartam a possibilidade de que esse número seja aumentado. Outras divisões do Pentágono estão ameaçadas com cortes massivos de pessoal. Além disso, o Cibercomando poderá ganhar status de órgão independente. Atualmente, faz parte do Comando Estratégico dos EUA, com as forças estratégicas nucleares, os mísseis de defesa e as forças espaciais. Espera-se que o novo comando, além de proteger redes e coletar informação, conduzirá ciberataques “contra estados e organizações hostis”, a partir do território dos EUA ou de seus aliados.

Simultaneamente, surgiram sérias linhas de discordância entre a comunidade de inteligência e o governo dos EUA, quando funcionários da Casa Branca repetidas vezes tentaram fazer crer que o governo e o presidente nada teriam a ver com a atividade da inteligência, como se os agentes da inteligência espionassem por vontade própria e para finalidades só deles. A comunidade de inteligência vê essa atitude da Casa Branca como desleal e inescrupulosa, e a atitude causou indignação. Em artigo publicado no Los Angeles Times, representantes da comunidade de inteligência dos EUA refutaram a ideia de que o presidente Barack Obama e seus assessores não soubessem coisa alguma sobre as escutas implantadas, dentre outros, em gabinetes e até nos telefones privados de autoridades de outros países. Todas as gravações ilegais obtidas de telefones de governantes de países aliados dos EUA foram feitas com a aprovação da Casa Branca e do Departamento de Estado, afirmam agentes da inteligência dos EUA, em serviço e aposentados. “Há gente furiosa” – disse uma fonte de alto escalão. “É como se a Casa Branca tivesse oficialmente renegado a comunidade de inteligência”.

2. Além disso, os EUA e os demais países membros da aliança conhecida como “Cinco Olhos” [orig. Five Eyes] – Grã-Bretanha, Canadá, Austrália e Nova Zelândia [também chamado de Aliança Anglo-sionista (NTs)] – também vivem dificuldades de relacionamento político com outros países, depois que o papel deles foi revelado como elos do sistema global de ciberespionagem. E já se sabe também que os EUA não foram inteiramente honestos sequer com os seus aliados mais próximos.

Antenas operacionais da ASN em Teufelsberg Hill ou Devil's Mountain, Berlim em 5/11/2013
Os EUA assinaram tratado de não espionagem mútua com Grã-Bretanha, Austrália, Nova Zelândia e Canadá. Outros países parceiros, dentre os quais Alemanha e França, esperam ainda por acordo similar. Mas, seja como for, o que todos viram é que nenhum acordo impede a espionagem global norte-americana. Não há dúvida alguma de que a Grã-Bretanha também está sob vigilância e, muito provavelmente, também Canadá e Austrália.

Relações nessa esfera entre Londres e Bruxelas ficaram gravemente tensas; Bruxelas se organiza para mostrar diretamente aos britânicos que as práticas das agências britânicas de inteligência violam a política de segurança da União Europeia. Em conexão com o que aconteceu, a Comissão Europeia planeja recorrer à Corte Europeia, em Luxemburgo, para que ponha fim à vigilância eletrônica pelos britânicos, se violam leis da União Europeia. Decisão da Corte Europeia prevalece sobre a legislação nacional britânica. A Comissão Europeia já requereu que os britânicos apresentem justificativa legal para as atividades de espionagem do Quartel-General das Comunicações de Governo [orig. Government Communications Headquarters (GCHQ)], que recolhe informações de contatos pela Internet em mais de 200 canais de comunicação por fibra ótica. A Alemanha não está contente. A inteligência britânica comandava uma rede inteira de “postos de escuta eletrônica” instalada a poucos passos do Bundestag e espionava o gabinete da chanceler Angela Merkel, usando equipamento instalado no telhado da embaixada britânica.

A Embaixada dos EUA, à direita, fica próxima do edifícios do legislativo da Alemanha em Berlim. A chanceler Angela Merkel está entre os líderes das nações aliadas dos EUA que mais se queixaram sobre os relatórios de espionagem dos EUA
Houve problemas também nas relações entre Londres e vários países do Oriente Médio, quando se divulgou que as ações de espionagem contra seus governantes (inclusive em Israel) eram conduzidas em estreita cooperação com agências de inteligência dos EUA, a partir da base militar Dhekelia (território britânico) em Chipre, próximo da linha que separa as áreas grega e turca da ilha. Tudo isso foi confirmado por jornalistas investigativos do jornal grego Ta Nea. 

Muitos países na região do Pacífico Asiático apresentaram queixas contra Canberra, quando documentos da ASN-EUA revelaram que a Austrália também permitira que suas embaixadas na Indonésia, Tailândia, Vietnã, China e Timor Leste fossem usadas pelos norte-americanos para atividades de espionagem.

Canadá, como se soube, especializou-se em espionagem econômica para a aliança dos “Cinco Olhos”, contra México e Brasil, especialmente contra as respectivas empresas nacionais de petróleo.

3. Apesar da disposição que os EUA manifestaram para resolver “amigavelmente” as complicações geradas por suas ações de espionagem contra aliados próximos, o verme da dúvida implantou-se e não desaparecerá facilmente. Já não é possível explicar esses fatos por necessidades do combate ao terrorismo. Tornou-se óbvio para os governos de países aliados de Washington que os EUA os mantém sob constante vigilância, o que põe os norte-americanos em posição de vantagem desleal inadmissível em todas as negociações. Poucos falam sobre isso, mas não há dúvida de que todos conjecturam e concluem. (...)

Viviane Reding
Viviane Reding, Comissária de Justiça, Direitos Fundamentais e Cidadania da União Europeia, já disse que: “Não se pode negociar num amplo mercado transatlântico, se houver qualquer mínima suspeita de que nossos parceiros mantêm escutas dentro do gabinete de nosso negociador chefe”.

Mesmo assim, seria ingenuidade assumir que Washington, que tem posições estáveis e de raízes profundas na Europa, cederá facilmente nesse seu forte ciberabraço pouco amistoso. Foi o que ficou bem evidente, ano passado, quando se cogitou de convocar Edward Snowden para uma audiência do Parlamento Europeu dia 18 de dezembro, ou de ouvi-lo por videoconferência. Um representante do Partido Popular Europeu [orig. European People’s Party] “consistentemente pró-atlanticista”, com ampla maioria no Parlamento Europeu, comunicou, dia 12/12, que membros conservadores do Parlamento haviam votado contra qualquer contato, mesmo por vídeo, entre Snowden e parlamentares europeus; e a proposta foi bloqueada. Segundo esse deputado europeu “consistentemente atlanticista”, tal iniciativa teria “consequências negativas nas relações transatlânticas, altamente indesejáveis nesse momento, às vésperas da assinatura de um acordo de livre comércio entre EUA e União Europeia”.

Jonathan Pollard - Cana brava por espionagem nos EUA pró Israel...
Até Israel, aliado estratégico dos EUA já se inclui entre as vítimas; soube-se que líderes israelenses estavam sob total vigilância, inclusive em quartos de hotel em Jerusalém, alugados como base de escutas clandestinas, próximos de instalações do governo. E, isso, quando os EUA recusam-se, há muitos anos, a devolver a Israel o agente israelense Jonathan Pollard, condenado a prisão perpétua e mantido numa prisão norte-americana, por sentença que declara que seus atos de espionagem são comportamento “amoral e inaceitável em relações entre aliados próximos”. Agora, Israel já fala da “hipocrisia monstruosa da Casa Branca” e já exigiu a imediata libertação de Pollard, em termos de, praticamente,  um ultimato.

[Continua]




Nota dos tradutores

[1] ORWELL, George [1948], 1984, São Paulo: Companhia das Letras, 2009, 416 p. (Há outras edições.)