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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Festival de Veneza destaca filmes de diretores pouco conhecidos

Entre os candidatos ao Leão de Ouro deste ano em Veneza estão o alemão Tom Tykwer e a norte-americana Sofia Coppola. Festival de Cinema exibe "Lope", do brasileiro Andrucha Waddington, fora da mostra competitiva.


A edição de 2010 do Festival Internacional de Cinema de Veneza apresenta 24 filmes na concorrência, nem todos de diretores conhecidos do grande público. Do alemão Tom Tykwer, o festival traz Drei (Três), drama que gira em torno de um relacionamento de casal.

As expectativas em relação a Veneza concentram-se também em torno do último filme de Sofia Coppola e de Darren Aronofsky, vencedor há dois ano do Leão de Ouro no mesmo festival.

O alemão Tom Tykwer
O alemão Tom Tykwer

A presença de Monte Hellmann, de 78 anos, também na mostra competitiva, é um tributo do festival ao diretor norte-americano, nome lendário do cinema independente norte-americano. Seus The Shooting (1967) e Two Lane-Blacktop (1971) são considerados verdadeiras pérolas do independent film produzido fora do domínio hollywoodiano.

Italianos em destaque

Críticos italianos já etiquetaram essa 67ª versão do Festival de Veneza como um páreo entre produções italianas e norte-americanas. O cinema do país anfitrião está muito bem representado na mostra competitiva, com a presença de diretores jovens e ainda pouco conhecidos, como Ascanio Celestini, Saverio Costanzo e Mario Martone.

O norte-americano Julian Schnabel
O norte-americano Julian Schnabel

Outro longa que deve chamar a atenção no festival é Miral, do artista e realizador Julian Schnabel, autor de O Escafandro e a Borboleta (2007) e de Berlin (2007), com o cantor Lou Reed. O francês François Ozon, o japonês Takashi Miike e o chinês Hark Tsui são outros nomes conhecidos na mostra competitiva.

Mostras paralelas

Entre as produções alemãs presentes nas mostras paralelas destaca-se Atom, de Markus Löffler e Andrée Korpys, que mistura imagens documentais e encenadas para falar dos protestos antinucleares na Alemanha.

Fora da competição será exibido Lope, uma coprodução entre Brasil e Espanha, dirigida por Andrucha Waddington, centrada na vida do poeta e dramaturgo espanhol Félix Lope de Vega (1562-1635), dividido entre o amor de duas mulheres. O ciclo Horizontes inclui O mundo é belo, de Luiz Pretti, um curta-metragem brasileiro de nove minutos.

A retrospectiva do Festival de Veneza rastreia este ano a comédia italiana entre os anos de 1920 e 1988.

SV/dw/dpa/ap

Revisão: Roselaine Wandscheer

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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Imprensa europeia vê Serra como político experiente à beira da derrota

Brasil | 30.08.2010

José Serra, do Partido da Social Democracia Brasileira


Imprensa europeia destaca longa experiência política do candidato de oposição, e tenta explicar mau desempenho de José Serra na campanha eleitoral. Para ingleses, Serra ainda pode virar o jogo.

Para muitos jornais europeus, o passado político de José Serra não passa despercebido. O candidato do PSDB a presidente do Brasil é visto como um bem-sucedido ex-ministro da Saúde, um respeitado e competente ex-governador do estado de São Paulo. "Para esse homem, enfrentar e derrotar um adversário político novato parecia uma aposta razoável", avalia o jornal francês Le Monde.

Mas o desenrolar da campanha eleitoral colocou Serra, de 68 anos, numa situação adversa, como lembra a publicação, que reproduz a opinião de um eleitor do Nordeste brasileiro dada a uma revista: "Se Lula apoiasse Serra, eu votaria no Serra."

Para o Le Monde, o candidato não tem mais chances – e, mais uma vez, sua derrota é causada por Lula. "Esta campanha é sua última chance de se tornar presidente, um objetivo para o qual, segundo disse, 'se preparou a vida inteira'. E mais uma vez Lula e Dilma Rousseff o impedem de alcançá-lo", escreve o jornal francês sobre José Serra.

Críticas moderadas

O diário alemão Süddeutsche Zeitung é mais comedido ao noticiar a disputa presidencial no Brasil. Sobre Serra, destaca o lema do candidato – "O Brasil pode mais" – e as críticas que ele faz contra alguns pontos da política de Lula, como a proximidade com Irã, Cuba e Venezuela.

"Ele acredita ser o Estado", reproduz o jornal a fala de Serra sobre algumas decisões do presidente. A publicação, no entanto, afirma que o candidato da oposição não pode endurecer o tom, já que o bom momento da economia brasileira deu muita popularidade a Lula.

Crise anunciada

Por outro lado, o jornal suíço Neue Zürcher Zeitung julga que Serra faz um grande esforço para se aproximar da imagem do presidente Lula. A tática, segundo a publicação, é vista como uma fraqueza do candidato da oposição.

A chance de vitória é "atualmente menor do que nunca", prossegue o jornal, segundo o qual a oposição poderá sofrer uma derrota histórica. "O clima no comitê de Serra é tenso. Alguns aliados já tentam minimizar os danos e se afastam do candidato. Parece que já há um resultado preliminar da campanha presidencial", arrisca o Neue Zürcher Zeitung.

Ainda há esperança

A publicação inglesa The Economist acompanha de perto o panorama da política brasileira. A revista reconhece que, na teoria, José Serra seria capaz de vencer a eleição, "afinal já desempenhou diversos cargos políticos em uma carreira longa e bem-sucedida". Mas a verdade é que Serra está se esforçando para continuar na corrida até 3 de outubro.

The Economist ressalta que Serra é conhecido por sua atuação no governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), que, "apesar de ter obtido algumas conquistas sólidas, é lembrado sem ternura pelos brasileiros".

A revista inglesa é um pouco mais relutante quando tenta prever o resultado das eleições presidenciais. A publicação afirma que a liderança de Rousseff ainda não é "incontestável". Na visão do semanário, Serra pode ter uma chance se houver um segundo turno. "E, no Brasil, há sempre a possibilidade de um escândalo ou um tropeço."

Autora: Nádia Pontes
Revisão: Roselaine Wandscheer


http://www.dw-world.de/dw/article/0,,5955699,00.html

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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Oposição a Lula é alvo de críticas em debate sobre eleição no Brasil

Brasil | 01.07.2010

Foto com cartaz do PT decorava palco do debate
Foto com cartaz do PT decorava palco do debate

Debatedores em evento realizado por fundação alemã em Berlim afirmam que José Serra representa a "direita disfarçada" e Marina Silva é candidata alternativa de setores conservadores.

O evento organizado pela Fundação Friedrich-Ebert nesta quarta-feira (30/06) em Berlim teve o título "O Brasil vota – a herança de Lula, os candidatos à presidência e suas metas". No entanto, as cerca de 200 pessoas que compareceram à sede berlinense da fundação – ligada ao partido social-democrata alemão – assistiram menos a um debate sobre os nomes da corrida presidencial brasileira, mas ouviu as conquistas do governo Lula e as qualidades da candidata do PT, Dilma Rousseff.

Luta contra a ditadura

"Dilma é uma pessoa muito competente e não só uma boa gestora", afirmou Iole Ilíada Lopes, diretora da Fundação Perseu Abramo, entidade criada pelo Partido dos Trabalhadores, durante sua explanação sobre a escolha da candidata de Lula. "E tem uma história de luta contra a ditadura", complementou, tendo atrás de si uma foto exibindo um cartaz de campanha de Dilma.

Para Emir Sader, mídia faz oposição a Lula
Para Emir Sader, mídia faz oposição a Lula

A mesa de discussão era composta também pelo sociólogo Emir Sader, teórico de orientação marxista e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que não esconde sua predileção por Lula.

Outro participante foi o cientista político alemão Peter Birle, diretor do departamento de pesquisa do Instituto Ibero-Americano de Berlim. Ele fez uma análise da política externa do Brasil e traçou perspectivas da diplomacia do país no caso de uma mudança governamental.

Sem mudanças na diplomacia

"A política externa brasileira é conhecida por sua continuidade a longo prazo. Então, não deve haver uma virada radical, mesmo com uma troca de governo", opinou Birle. Ele lembrou, entretanto, as críticas de Serra à política de Lula em relação a Venezuela, Bolívia, Irã e Mercosul como possíveis mudanças de ênfase na diplomacia brasileira, no caso de uma vitória do candidato do PSDB.

"É com orgulho que viemos aqui para discutir um governo de sucesso no Brasil". Assim abriu sua participação no evento o sociólogo brasileiro Emir Sader. Ele classifica o Brasil como "uma democracia política" que é, ao mesmo tempo, "uma ditadura social", embora veja a atual sociedade brasileira como menos injusta desde que Lula assumiu o governo.

Miséria ainda é grande

"O governo Lula, pela primeira vez, mudou o ponteiro da desigualdade no Brasil. Em oito anos de governo, temos uma sociedade menos injusta. A maior parte da população já não está nas categorias mais baixas, está na metade da pirâmide", afirmou, observando, em seguida, que a pobreza e a miséria ainda são muito grandes no país.

Para Sader, a solução estaria na continuidade e aprofundamento das medidas já iniciadas pelo atual presidente. Ele citou, entre elas, os programas de microcrédito, Bolsa-Família, Luz para Todos e o aumento real do salário mínimo.

Maioria dos problemas foi herdada

O sociólogo admitiu haver problemas na gestão Lula, os atribuiu, entretanto, em grande parte à herança deixada pelos governos anteriores e ao que considera "retrocessos", como a crise econômica e políticas neoliberais.

"O governo Lula não mudou estruturalmente alguns elementos, como por exemplo em relação à hegemonia do capital financeiro. A desregulamentação econômica em escala mundial não levou ao investimento produtivo e sim a uma brutal transferência de recursos do setor produtivo para o especulativo", disse.

Iole Lopes acha que Marina Silva pode ajudar a direita
Iole Lopes acha que Marina Silva pode ajudar a direita

"Atualmente, dá mais dinheiro investir na bolsa de valores, embora não crie empregos. O Brasil chegou a ter uma taxa de juros de 48% no período de Fernando Henrique Cardoso, hoje ela está em 10%. Continua tendo a taxa real de juros mais alta no mundo, mas atrai capital que não gera riqueza nem empregos", explicou Sader. "São problemas pendentes que, se não forem enfrentados, dificultarão a continuidade e o aprofundamento da política social."

Oposição é "direita disfarçada"

A oposição ao presidente Lula na pessoa do candidato do PSDB, José Serra, é vista por Sader como uma "direita disfarçada". "A oposição diz que não é anti-Lula, porque quem for anti-Lula perde. Ela é pós-Lula, que seria um aprofundamento do que o Lula já fez", disse. "É uma direita disfarçada, porque se for aberta será frontalmente derrotada", concluiu. O teórico brasileiro afirmou, ainda, que a mídia é a grande opositora do atual governo. "Não há um jornal, rádio e televisão no Brasil que apoie o governo", comentou.

Já a candidata Marina Silva tem, na avaliação da professora Iole Ilíada Lopes, um lado "conservador com relação a muitos temas" apesar de seu perfil de esquerda, ligado à ecologia. A candidata do Partido Verde desempenha, na opinião de Lopes, a função de atrair votos que, de outra maneira, iriam para a candidata Dilma Rousseff.

"Se a candidatura de Serra naufragar, ela [Marina] pode virar a candidata alternativa da direita", disse. "De alguma forma, [Marina] está ajudando os setores conservadores e o seu candidato", concluiu Lopes.

Autor: Marcio Damasceno
Revisão: Roselaine Wandscheer

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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Sem crescimento equilibrado é difícil um país ter credibilidade, diz Marco Aurélio Garcia em entrevista à Deutsche Welle

Brasil | 21.06.2010

Assessor de Lula para assuntos internacionais faz balanço de oito anos de governo petista.

Analisando o papel do Brasil no cenário mundial, Garcia tacha sanções ao Irã como "incorretas e inúteis".

Em outubro próximo, será eleito o sucessor do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva. Após oito anos de gestão, Lula entrega o governo como um dos líderes mais influentes do mundo e após converter o país em potência em ascensão. O assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, falou à Deutsche Welle.

Deutsche Welle: Em que situação Lula deixa o país?

Marco Aurélio Garcia: Em uma boa situação. Temos uma taxa de crescimento que poderá superar os 8% este ano, com uma situação social muito positiva. Houve um aumento do salário mínimo e um acréscimo significativo de 14 milhões de novos empregos nos últimos oito anos. A situação macroeconômica está bastante bem.

Lula deixa contas equilibradas e uma redução sensível da vulnerabilidade externa do país, com reservas de quase 260 bilhões de dólares. É óbvio que há questões sociais a serem resolvidas. Não estamos numa situação autocomplacente, porém quem chegar à presidência do país encontrará uma situação mais fácil do que a que Lula encontrou ao começar seu governo.

No ano passado foram descobertas novas reservas de petróleo no país. Que posição o país ocupa em termos de reservas petrolíferas? Em que serão utilizados esses recursos?

É muito difícil de estimar, pois constantemente aparecem novas jazidas, mas acreditamos que o Brasil se situará entre os quatro principais produtores mundiais de petróleo. As últimas estimativas projetaram as reservas em cerca de 80 bilhões de barris, mas esta cifra já foi superada.

O mais importante é que o Brasil não se transforme num exportador de óleo bruto, mas que tenhamos a capacidade de agregar valor a essa produção, quer dizer, produzir gasolina, diesel e outros derivados. Vamos destinar uma parte significativa dos lucros petroleiros para criar um grande fundo para financiar políticas sociais, de desenvolvimento científico e tecnológico, educação e cultura.

O Brasil tem um gasto militar considerável. Qual é o perigo disso? Não seria melhor investir esses recursos em educação?

Isso não procede. O Brasil é um dos países com menor gasto militar. Na América Latina, não há comparação com o Chile e o Peru. Depois do regime militar, que talvez estigmatizou as Forças Armadas por haverem participado do golpe de Estado, houve uma redução brutal do gasto militar no país. Isso provocou a perda de capacidade das Forças Armadas, que ficaram com armamento antiquado, soldos baixíssimos e, sobretudo, com falta de perspectivas.

Eu sempre disse que no Brasil as Forças Armadas tinham três inimigos, que eram o comunismo internacional, a Argentina e o inimigo interno. O comunismo internacional já não existe; a Argentina se transformou em nosso principal aliado; e o inimigo interno está no governo. Havia a necessidade de repensar totalmente a estratégia de defesa do país. Foi o que fizemos no ano passado.

Eliminamos essa ideia napoleônica dos quartéis nas cidades. O que queremos são Forças Armadas que protejam as fronteiras, a Amazônia e os litorais. Tudo isto no quadro de uma estratégia dissuasória. Temos 8 mil quilômetros de litoral, o que é muita coisa, pressupõe equipamentos modernos, sofisticados, e grande capacidade de mobilidade.

Em que consiste o êxito econômico do Brasil, que nenhum outro país latino-americano consegue imitar? No desenvolvimento de uma indústria nacional antes de se converter em potência petrolífera?

Felizmente não fomos uma potência do petróleo, porque se tivéssemos sido talvez isso teria consequências negativas para o país. Não para o nosso governo, mas talvez governos anteriores teriam feito o que outros países fizeram.

Como o México?

Não me refiro ao México, mas ao que outros países fizeram. Chávez, inclusive, tem uma visão muito crítica sobre o modelo de desenvolvimento que seu país levou a cabo como país petroleiro. O Brasil pôde desenvolver como o México, como a Argentina, uma indústria nacional importante. E preservou esta indústria e a desenvolveu inclusive durante o período militar. Porque os militares brasileiros não foram neoliberais, foram desenvolvimentistas.

Autoritários, mas desenvolvimentistas. Isso deu certa base industrial ao país, mas o problema foi o desequilíbrio. Durante a ditadura, crescemos. Durante vários anos tivemos uma taxa de crescimento de 10-12% ao ano. Entre os anos 1930 e 1980, a economia brasileira cresceu a uma média de 6%, o que é muito. No entanto, esse crescimento foi marcado por um desequilíbrio macroeconômico muito grande. O crescimento da dívida, períodos de picos de inflação e exclusão social. Não foi um crescimento com impacto na melhoria das condições de vida das pessoas.

Isso foi resolvido?

Conseguimos resolver em primeiro lugar o problema do desequilíbrio macroeconômico e da vulnerabilidade externa. O Brasil era um grande país devedor quando Lula assumiu o governo. Agora, é um país credor. Até à Grécia estamos emprestando dinheiro. Em segundo lugar, reiniciamos um período de crescimento econômico, e o fizemos com forte distribuição de renda e este foi um dos fatores de crescimento econômico.

Porque quando a crise chegou houve uma retração do mercado internacional. As exportações no ano seguinte à crise (2009) caíram em 25% a 30%. Nós compensamos isso em grande parte com o mercado interno. Para que haja um mercado interno, as pessoas têm que ter emprego, receber salários e, neste tempo, o salário mínimo no Brasil dobrou o seu valor.

O fato de um ex-líder sindical como Lula ter chegado à presidência do Brasil seria impensável na Europa. Mas também sua política externa, da qual o senhor tem sido o assessor, surpreende os europeus. Qual é a expectativa de Lula?

Uma expectativa centrada na defesa dos valores universais relativos à soberania nacional, aos direitos humanos, à solução de conflitos através da negociação, e numa ênfase muito grande na necessidade de uma ordem multilateral. Nós cremos que o Brasil pode ter uma voz no mundo, pois cremos ter resolvido algumas questões internas. Não todas: temos muito a fazer no tocante à inclusão social, por exemplo. Porém o fato de havermos alcançado um crescimento equilibrado macroeconômico e social nos fortaleceu muito. Pois caso contrário é muito difícil um país ter credibilidade.

Apoio de Lula (e) a Ahmadinejad causou controvérsia
Apoio de Lula (e) a Ahmadinejad causou controvérsia

O fato de o Conselho de Segurança da ONU ter imposto sanções ao Irã não terá consequências para a aspiração do Brasil de pertencer a esse mesmo conselho?

Pode ser que tenha, é imprevisível. Penso que talvez não, pois nossa decisão não foi uma aventura, foi algo pensado. Nós – a Turquia e o Brasil – tivemos êxito em algo que os demais países não conseguiram, que era levar o Irã à mesa de negociações.

O Conselho de Segurança tem como preocupação fundamental sanar situações de crise, nós acreditamos na possibilidade de que o conflito com o Irã se resolva. Para além das sanções – impostas pelo Conselho de modo incorreto e, sobretudo, inútil – não está excluído que a negociação possa se restabelecer. O Irã está demonstrando boa vontade para tal.

Em Cuba, Lula se mostrou leal a um regime símbolo de resistência para os EUA, mas que viola os direitos humanos. Lula chamou de delinquente Orlando Zapata, o dissidente cubano que morreu na prisão.

Não, não o chamou de delinquente, acho que houve aí um comentário lateral que provocou esta interpretação. Existe de maneira geral em toda a América Latina, um movimento de solidariedade com Cuba, especialmente a partir do bloqueio estadunidense, que é um erro muito grave, porque penaliza a população e não produz os resultados que Estados Unidos gostariam de ver, ou seja, uma mudança no regime.

É por isso que usamos Cuba como um símbolo para criticar uma solução semelhante ao caso do Irã. Cuba tem problemas políticos. Todos os países têm, alguns mais, outros menos. Em algum momento eu disse que todos os países têm problemas de direitos humanos, o que foi interpretada por alguns meios de comunicação como se fosse uma posição cínica de nossa parte. Nós não somos cínicos.

Estados Unidos e outros países mantêm uma relação muito fluida com países onde há gravíssimas violações dos direitos humanos. [Eles] têm as suas razões, que são desde interesses de Estado até econômicos. Nós não temos nenhum interesse econômico em Cuba. Estamos ajudando Cuba sobretudo em projetos que possam melhorar a vida dos cubanos, como nos setores agrícola e portuário. Acreditamos que as mudanças em Cuba têm de ser decididas pelos cubanos e há um movimento nesse sentido na sociedade cubana.

Entrevista: Eva Usi (av)
Revisão: Roselaine Wandscheer

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