quinta-feira, 11 de abril de 2013
Mulheres infelizes no Brasil
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
As mulheres decidem, e podem se orgulhar
Por Sulamita Esteliam
Encontro Rede Mulher em Comunicação em Maragogi/AL, promovido pelo Centro de Mulheres do Cabo/PE - 22 e 23 de outubro de 2010. Foto Paulo Lopes Nós mulheres somos mais da metade da população brasileira: 51,3%, segundo o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/2007. De há muito ocupamos as universidades – 57% das matrículas no ensino superior. No mercado de trabalho, também, beiramos a metade: 49,7% da população economicamente ativa, pelos dados de 2009 do IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Podemos, sim, governar um país. E devemos nos orgulhar de termos essa oportunidade, ainda rara no mundo.
Comandamos nossos lares, não apenas como mães, donas de casa, cuidadoras: 65,8% das mulheres casadas contribuem com 40,9% das despesas dos lares, ainda segundo o IPEA. A cada ano, mais e mais mulheres são responsáveis pelo sustento de suas famílias: na classe C, esse percentual chega a 32%; nas classes A e B, 25%. Ombro a ombro com os homens ou sozinhas, somos cada vez mais protagonistas de nossos destinos.
Ganhamos salários menores que os homens, mesmo em funções idênticas. Somos minoria, ainda, nos cargos de direção, postos executivos, públicos e privados, legislativos, judiciários, sindicais, religiosos. Ainda reclamamos parceria na dupla, tripla jornada.
Não obstante, estamos a um passo da Presidência da Republica. Só depende de nós. Afinal, somos a maior parte do eleitorado: 51,8%, de acordo com o TSE – Tribunal Superior Eleitoral.
Amassamos barro, manejamos enxadas, rodos e vassouras. Pilotamos fogão, tanques e máquinas de lavar. Mas também dirigimos empresas, clínicas, hospitais, escolas, hoteis, mercados. Comandamos obras, redações, linhas de produção, veículos individuais e coletivos – lares, templos, terreiros e bordeis. Brilhamos nos palcos das artes e da vida.
Nos perdemos e nos achamos em meio a fraldas, livros, cuecas, computadores, laços, tratores, espinhas, terços, cólicas, textos, véus, tintas, cálculos, desejos, culpas e odores – redes, humores e lençóis. Sangramos, regularmente. “Bicho esquisito”, já cantou Rita Lee.
Parimos. “Somos metade da humanidade e mãe da outra metade”, ecoa a frase de uma líder comunitária recifense, há coisa de 10 anos. Somos mãe, e isso é sublime, quando temos o direito de escolha. Nosso existir vale mais do que querem nos fazer crer o moralismo obsceno e o fundamentalismo conveniente. Também temos o direito ao cuidado da vida.
Semeamos. Esperneamos. Plantamos. Regamos e colhemos. Pintamos e bordamos. Muitas vezes, tudo ao mesmo tempo: somos estéreo – múltiplos canais para diferentes ressonâncias. Talvez por isso, nos traduzam anjas ou demônias – trôpegas, loucas, absolutas. Quem não é?
Mulher assertiva é autoritária, agressiva? Ou é fêmea que se impõe num mundo onde o macho sempre deu as cartas? “Mulher que nega, nega o que não é para negar”? Ou valoriza o direito de ser senhora dos seus próprios caminhos.
Há quem ache que mulher pode, no máximo, ser sindica de prédio. Claro, miss simpatia, também. O estereótipo da imagem não sustenta nossa realidade. Nosso cotidiano é faina. Nosso tecer é teia delicada, muitas vezes, nas dobras do talvez. Ainda assim seguimos adiante, dominamos nossos medos, galgamos escarpas, construimos trilhas – passo a passo.
Somos de Vênus, sim. Mas também somos de Marte. Navegamos conforme a maré. Todavia, sabemos nadar contra a corrente, contornar obstáculos, feito o rio que traça seu próprio curso. Temos mãos que afagam e pulso que sustenta. Por que não podemos governar um país?
Minha geração levou duas décadas para poder votar para presidente da República. Vivenciamos o obscurantismo da negação da nossa cidadania por 21 anos. Esta reles escriba faria 29 anos quando votou para governador pela primeira vez, em 1982. Fomos para as ruas na campanha das diretas, muitas de nós empurrando carrinhos de bebê ou com filhos no colo e/ou pelas mãos. Nas camisetas, o fato: Minha mãe (Meu pai) nunca votou para presidente. Diretas, JÁ!
Só conquistamos o direito de escolha cinco anos depois, em 1989.
A nova geração de mulheres brasileiras vive outro tempo, outra realidade. Quem tem hoje 17 anos, como minha caçula, pôde dar seu primeiro voto para uma mulher, no primeiro turno destas eleições.
Melhor, meninas de todas as idades puderam optar entre duas mulheres. Não duas mulheres quaisquer, porque mulheres existem de diferentes matizes. Mas duas mulheres forjadas na luta, na defesa dos direitos democráticos e da cidadania plena. Uma delas se tornou a mulher mais votada de todos os tempos no Brasil, quiçá do Planeta – por livre expressão da vontade popular.
Estamos a dois passos de decidir os destinos da Nação, numa segunda oportunidade de escolha. Um gesto, aparentemente, simples, mas de profundo impacto no futuro de várias gerações.
Há dois projetos, bem distintos, em disputa. E ainda há muito o que fazer para o Brasil se tornar um país mais justo e igualitário, um país com oportunidades reais para todos seus filhos e filhas. Podemos avançar ou retroceder.
Nós decidimos.
Sobretudo, as mulheres decidem. Não fujamos de nossa responsabilidade. Antes, dela nos orgulhemos.
Extraído do blog A Tal Mineira
Extraído do blog A Tal Mineira
sábado, 14 de agosto de 2010
Guerras ocidentais "versus" mulheres muçulmanas
5/8/2010, Marwan Bishara, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido por
Marwan Bishara é jornalista, editor-chefe e analista político da rede Al-Jazeera [1]
A imprensa ocidental transborda de matérias sobre os maus tratos dos Talibãs às mulheres no Afeganistão e no Paquistão, e desperta incontáveis vozes de apoio, muito menos às mulheres do que à guerra que, como se diz, assegurará “futuro mais promissor aos direitos das mulheres”. Essa semana, a matéria de capa da revista Time promove exatamente esse tema.
Se as guerras ocidentais algum dia tivessem feito alguma coisa para “libertar” as mulheres orientais, as muçulmanas seriam as mulheres mais “libertadas” do mundo – depois de séculos de intervenções militares por exércitos ocidentais. Não são, nem serão, sobretudo quando qualquer “liberdade” venha necessariamente associada ao mando ocidental.
O Afeganistão conheceu sua quota de intervenção militar por britânicos, russos e norte-americanos, e até agora, ninguém libertou uma única muçulmana. De fato, relatos de grupos feministas confiáveis locais demonstram que as condições de vida das mulheres afegãs pioraram muito desde a invasão pelos EUA, há quase uma década.
As normas sociais dos Talibãs talvez afrontem modernos valores ocidentais, mas de modo algum podem ser sumariamente trocadas por valores ocidentais implantados, muito menos a tiros (ou a peso de bombas de fósforo).
Se, como insiste o general Petreaus, os soldados dos EUA devem “viver” com os afegãos, para conseguir derrotar os guerrilheiros, devem também esperar hostilidade cada vez maior contra os invasores estrangeiros e seus valores.
A carga do homem branco? [2]
Os mesmos argumentos da civilização pró-ocidente que têm sido usados há séculos para justificar as mais sangrentas guerras coloniais no oriente são reaproveitados hoje para manipular a opinião pública que sempre resiste contra todas as guerras e induzi-la a apoiar a escalada militar na Ásia Central.
A velha fantasia dos homens ocidentais, de “salvarem” mulheres veladas das garras de seus opressores e raptores, está sendo explorada para promover a ideia de que a guerra “libertará” as mulheres veladas da “maldição” de terem de conviver com “terroristas barbudos”, assim como a mesma guerra também “libertará” os EUA do “terrorismo” dos mesmos barbudos.
À luz de tão pesada overdose de moralismo, foi particularmente embaraçoso para os líderes norte-americanos constatar que seus aliados são perfeitamente competentes para construir acordos com os mesmos grupos de barbudos aterrorizantes, que chegam para parlamentar, é claro, com suas barbas e suas práticas sociais.
Ano passado, o governo Obama condenou publicamente o presidente do Paquistão Asif Ali Zardari, por reconhecer as leis da Xaria no pequeno vale do rio Swat. Para o governo Obama, seria “rendição” aos Talibãs. O mesmo governo Obama também condenou o presidente do Afeganistão Hamid Karzai, por ter assinado lei que admite o estupro nos casamentos da minoria xiita que vive no país.
Ninguém se lembrou de lembrar-se que até há bem pouco tempo, o estupro conjugal foi legal na Grã-Bretanha e nos EUA, onde ainda é legalmente considerado crime menor que o estupro não-conjugal em vários estados.
Os que buscam solução militar para problemas sociais falham sempre ao não fazer distinção ente o Islã e os Talibãs, ou entre aspectos culturais e religiosos da vida na Ásia Central. E falham sempre, também, porque jamais explicam como, afinal, alguma mulher poderá alcançar algum direito, por meios militares.
Afinal de contas, a grande maioria dos paquistaneses e afegãos já votaram contra os Talibãs – e no caso do Paquistão elegeram um partido secular liderado por uma mulher ocidentalizada, a falecida Benazir Bhutto, supostamente assassinada pelos Talibãs. De fato, os fundadores do Paquistão eram tão seculares quanto muitos de seus equivalentes ocidentais.
Os últimos meses mostraram que o governo do Paquistão é capaz de fazer frente aos Talibãs, quando entenda necessário. E quando a televisão paquistanesa mostrou o chicoteamento de uma jovem de 17 anos, houve indignação nacional, dos mais de 170 milhões de paquistaneses.
Por décadas, paquistaneses e afegãos foram vítimas de Talibã de estilo medieval, de mujahedeen e de senhores-da-guerra apoiados e armados pelos EUA através dos serviços de inteligência do Paquistão e da Arábia Saudita.
De fato, durante grande parte do século 20, todas as intervenções militares diretas ou apoiadas por países ocidentais, no Oriente Médio expandido, visaram a derrubar regimes seculares na região – do Irã de Mossadegh ao Egito de Nasser, passando pelo Iraque de Hussein, e para não falar de Najibullah, no Afeganistão soviético.
A carga da mulher branca
Ironia, que outros conservadores não vêem, é o conservador britânico Cyril Townsend publicar, no jornal panárabe dos sauditas Al-Hayat, em artigo que levava o título “Direito das mulheres no Afeganistão”, que as soldadas britânicas lutam para que também no Afeganistão as mulheres tenham respeitados os seus direitos.
E nem uma linha de explicação sobre por que, 18 anos depois de meio milhão de soldados de EUA e Grã-Bretanha tanto terem guerreado para libertar o Kuwait e proteger sua aliada, a Arábia Saudita, as mulheres sauditas, até hoje, são proibidas de votar e de dirigir carros.
Tolices semelhantes apareceram em 2001, enunciadas pelas primeiras-damas Laura Bush e Cherie Blair, de apoio à “guerra para libertar as mulheres do Afeganistão”, quando de fato só faziam promover a guerra de seus respectivos homens e outros, e nunca, em tempo algum, promoveram algum direito de alguma mulher.
A revista Time seguiu a mesma toada, essa semana, com lembrete para que não se esquecesse o suplício das mulheres afegãs. Richard Stengel, editor-gerente da revista, escreveu que não publicara a matéria nem exibira aquela imagem “para apoiar nem o esforço de guerra dos EUA nem os que são contra a guerra”. Pode ser. Mas a matéria e a capa contribuíram para justificar a guerra em círculos humanitários “civilizados” e nada fizeram para criticar a guerra naqueles mesmos círculos.
Um século depois de o poeta inglês Rudyard Kipling ter pela primeira vez invocado “A carga do homem branco” para explicar a invasão e a ocupação das Filipinas pelos EUA, Washington e Londres continuam a tentar justificar suas ações militares de intervenção e ocupação, servindo-se das mesmas falsidades requentadas.
É escandaloso que depois de as mentiras sobre “A carga do Homem Branco” terem sido desmascaradas, ao preço do sangue de milhões de homens e mulheres, novas doses gigantescas da mesma violência ainda apareçam justificadas sob o pretexto de alguma “carga” sobre ombros de algum homem ou mulher.
E é exatamente isso que se vê, quando tantos advogam que se bombardeiem incansavelmente culturas que não conhecem, até que se tornem culturalmente semelhantes ao Ocidente.
Essa perigosa escatologia espera construir sobre o que destrói e pode acabar destruindo sociedades muçulmanas inteiras, arrastada pela fantasia de que, pela morte e pelo sangue, o ocidente alcançará a liberdade que fantasia para outros, sem assegurá-la sequer às suas mulheres.
A guerra é o abuso máximo
Como principais vítimas do abuso do poder, as mulheres ocidentais vivem em posição única, da qual podem denunciar e rejeitar, mais que todas as mulheres, o maior e mais completo abuso, o abuso dos abusos, o abuso destrutivo, pelo homem ocidental, do poder patriarcal: a guerra.
Quanto às mulheres muçulmanas, não há qualquer espaço nessa guerra para ouvir o que pensem, suas esperanças ou aspirações. A voz delas está sendo progressivamente calada, pelo som ensurdecedor das bombas e explosões.
As mulheres orientais foram as primeiras vítimas civis das guerras ocidentais.
Quantas viúvas, mães, irmãs e filhas enlutadas o ocidente ainda terá de produzir, antes de aprender a rejeitar todas as guerras de agressão, e de aprender a ver o que é, de fato, a suposta ‘missão civilizadora’ do Ocidente? Depois de décadas de guerras, o Iraque e o Afeganistão são hoje nações de viúvas – até agora são cinco milhões de viúvas, e o número não para de aumentar.
Os maus tratos contra mulheres não são limitados por culturas ou fronteiras.
Paradoxalmente, a violência contra mulheres, em famílias de veteranos de guerra, nos EUA, é de três a cinco vezes maior do que na média das famílias norte-americanas. Essa, sim, é, literalmente, uma Carga da Mulher Branca.
Muitas mulheres alistam-se no serviço militar para alcançar plena igualdade no campo dos direitos. Há mais mulheres soldadas
Seja como for, homem algum jamais fez guerra para libertar mulher alguma. Bem diferente disso, segundo Martin Van Creveld, historiador de guerras, os homens fazem guerra para fugir de suas esposas e famílias, à caça de êxtase e transcendência. Não se pode dizer que seja causa propriamente feminista.
Notas de tradução
[1] Para saber mais, ver: About Empire
[2] Orig. The White Man's Burden é título de um poema do inglês Rudyard Kipling, publicado originalmente na revista popular McClure’s em 1899, com o subtítulo “The United States and the Philippine Islands”. Há uma ambiguidade no título, talvez mais clara em inglês que em português, e no modo como o poema (que teve várias versões) foi construído, que permite várias interpretações [a carga que pesa sobre os ombros do homem branco, e por extensão, a tarefa “civilizatória” que lhe caberia; ou a carga representada pelo homem branco invasor e colonialista, que pesa sobre outros ombros, dentre outras interpretações]. Efeito dessa ambiguidade, o poema tem servido como “referência poética” tanto para os que combatem o racismo eurocêntrico quanto para os que partilham as ambições ocidentais de dominar o mundo
O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Western wars vs. Muslim women
Nota do blog redecastorphoto: esta tradução foi realizada a propósito do artigo: "BHObama: propaganda para ocultar crimes de guerra" do Chico Villela


