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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Generais e patrões: os militares egípcios-norte-americanos

15/8/2013, [*] Marwan Bishara, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


As forças armadas egípcias obedecem tão somente aos interesses dos EUA
Com a situação em escalada rumo a confronto declarado entre os militares egípcios e apoiadores da Fraternidade Muçulmana, Washington brinca mais uma vez de cabra-cega com estados seus fregueses.

Feliz de ver os islamistas de volta, o governo dos EUA resistiu a chamar de golpe a derrubada do Presidente Mursi, nem depois de influentes membros do Congresso a terem identificado como tal.

O governo Obama queria que o golpe prosperasse, mas não queria ser apanhado com sangue nas mãos. Mas se contava com conseguir acalmar os militares e manobrá-los, errou.

Os generais decididos a conter, se não a quebrar a Fraternidade, viram os problemas políticos que o Egito enfrenta como problemas de segurança a exigirem o uso da força.

Impuseram leis de emergência que permitem maior controle, mas o movimento só fez aumentar a violência. Prepararam-se para atacar violentamente os apoiadores de Mursi. E viram Washington permanecer quase integralmente em silêncio.

Os clamores dos EUA por moderação, diálogo e pela volta das urnas pareceram mais retóricos que práticos ou efetivos.

O ex-Secretário de Defesa dos EUA, Leon Panetta, e o ex-general egípcio, Hussein Tantawi
A ansiedade por manter relação íntima com os militares e por continuar relevantes no Egito impediu que os norte-americanos tomassem posição clara.

Investir nos militares egípcios

O Egito é “importante aliado não OTAN”, com as ligações de militares com militares no centro de tudo. As relações entre os militares egípcios e o ocidente começaram depois do Tratado de Paz de 1979 entre Israel e Egito. E fizeram do Egito o segundo maior beneficiário de assistência bilateral, atrás só de Israel.

Para tanto, foi necessário um grande investimento financeiro e militar que totalizou US$66 bilhões desde a assinatura do Tratado de Paz. A corte que os americanos fazem aos generais egípcios custa aos EUA US$ 1,3 bilhão ao ano, desde 1987
 
Presentes caros, como 1.000 tanques e 221 jatos de combate  ao custo de bilhões mostram o quanto os EUA comprometeram-se com o Egito.

Um dos mais de 200 F-16 da Força Aérea egípcia
Em 2011 – ano da revolução – o Egito recebeu quase 1/4 de todos os fundos do Financiamento Norte-americano para Militares Estrangeiros [orig. America’s Foreign Military Financing].  

A colaboração EUA-Egito resultou, dentre muitas outras coisas, numa força egípcia americanizada de defesa.

Anualmente, mais de 500 oficiais egípcios beneficiam-se do sistema norte-americano de educação militar. Entre esses, altos oficiais egípcios, inclusive o comandante da defesa nacional do país, general Abdel Fattah al-Sisi, que se formou na Academia de Guerra dos EUA na Pennsylvania, e o comandante da Força Aérea, Reda Mahmoud.

A educação e a formação dos oficiais egípcios em academias militares norte-americanas, os programas de treinamento e os exercícios militares conjuntos geraram traços duradouros de ligação entre os establishments dos dois países.

Duas posições que são uma

A questão então é: com os militares egípcios convertidos em parceiros que já causavam tantos embaraços – o que os EUA deveriam ter feito? Um ultimato? Cortar a ajuda, depois de anos durante os quais os EUA foram fonte de fundos tão significativos?

A sabedoria convencional no establishment político no Oriente Médio, especialmente entre os aliados de Israel, reza que Washington precisa manter relacionamento íntimo com os militares egípcios, e sempre.

Há quem diga que os militares egípcios são aliados confiáveis e indispensáveis naquele mar revolto; e apoiá-los serve também aos interesses da segurança nacional dos EUA. Para esses, as forças civis emergentes – populares, se for o caso; islamistas ou seculares – não são nem amistosas nem confiáveis.

Outros dizem que calar qualquer crítica permite que Washington exerça alguma influência na tomada de decisão dos militares.

O Secretário de Estado John Kerry (E) e Martin Indyk(D)
O recém nomeado “enviado de paz” de Washington para o Oriente Médio, Martin Indyk diz que os EUA    devem comunicar-se por canais privados com os militares do “maior, militarmente mais poderoso, culturalmente mais influente e geoestrategicamente mais importante país do mundo árabe”, nunca trabalhar contra eles.

Papéis invertidos

Alguns, uma minoria no establishment de Washington, defendem o rompimento de relações com os militares egípcios se não puserem fim à violência. Veem qualquer sinal de cumplicidade entre os EUA e os militares egípcios autoritários como danoso aos interesses dos EUA de longo prazo, sobretudo porque abre caminho para algum tipo de retaliação por islamistas na região.

Mas é ilusório supor que esse tipo de alerta merecerá qualquer atenção em Washington. Que sentido haveria em cortar a ajuda militar, num momento em que os EUA vão rapidamente perdendo a importância na região?

Vendo reduzirem-se o próprio poder de alavancagem e a própria influência, sobretudo se se consideram os eventos dramáticos em curso na Síria, Iraque, Irã, Líbano e em toda a região de modo geral, Washington absolutamente não poderá abrir mão de um dos poucos pilares estratégicos que lhe restam no Oriente Médio.

Os militares egípcios sabem perfeitamente disso tudo e compreendem muito bem a utilidade que têm para os EUA na região. Por exemplo: e se o próprio Egito decidir “separar-se” dos EUA? Com certeza haveria pânico em Washington e não menos pânico em Israel.

Afinal de contas, não é o Egito quem ajuda os EUA a manter a estabilidade  por ali e a preservar a segurança de Israel?

O caminho adiante…

Washington muito apreciaria que os generais pusessem fim à violência, que entregassem o país a governo civil, que admitissem um retorno rápido ao processo democrático e até, talvez, que se recolhessem de volta à caserna.

Violência e destruição provocadas pelo exército egípcio e patrocinada pelo EUA
Mas, se dizem tal coisa, os EUA só o dizem em voz baixa, sem o cuidado de fazer saber aos generais que o fracasso deles terá consequências que lhes serão cobradas. Com a espiral de violência alastrando-se pelas ruas do Egito, os EUA teriam de fazer valer o poder de alavancagem que tenham sobre os militares egípcios.

A declaração da Casa Branca e a fala do secretário de Estado condenando a violência não são, de modo algum, bom começo. Condenar a violência? Mas todos condenaram a violência... Até os generais egípcios!

Não há conversa privada ou com os respectivos botões ou arrependimentos públicos que consiga conter a escalada da violência. Se têm real poder sobre o seu estado-freguês, os EUA têm de começar por dizer aos generais egípcios: acabem com a lei de emergência e reponham em cena as urnas. Não há terceira via. É isso ou isso. 
___________________

[*] Marwan Bishara é analista político sênior da Al Jazeera – Qatar (em inglês) e Editor da revista Empire onde discute as políticas das potências mundiais e suas agendas. Foi professor de Relações Internacionais na American University of Paris e professor convidado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales. Escreve e fala extensivamente sobre política global; tornou-se uma autoridade em muitas das questões atuais mais relevantes; a política externa dos EUA e do Grande Oriente Médio. Seu livro mais recente, The Invisible Arab, tem sido elogiado pela crítica por sua visão sobre os fatores que levaram à Primavera Árabe, captando o espírito e a energia do movimento.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Por que Israel atacou Gaza... outra vez?


29/11/2012, Hamid Dabashi, Al-Jazeera
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Hamid Dabashi é professor da cátedra Hagop Kevorkian de Estudos Iranianos e Literatura Comparada na Universidade Columbia, NY. Acaba de lançar seu novo livro – Arab Spring: The End of Postcolonialism – pela editora Zed.


Bombardeio de Israel sobre as áreas civis de Gaza
Falando numa conferência de imprensa depois do anúncio do cessar-fogo na 4ª-feira, 21/11, o ministro da Defesa Ehud Barak disse que: “Todos os nossos objetivos foram alcançados, acabar com os foguetes Fajr, plataformas de lançamento e escritórios do Hamás”. Mas em seguida, ele mesmo se autodesmentiu: “E mesmo agora, nesse momento, tarde da noite, continuam a cair foguetes em território israelense. As comunidades do sul de Israel continuarão a ser atacadas nos próximos dias”. E, no frigir dos ovos, concluindo, Barak “agradeceu ao Exército de Israel e seus comandantes, e ao governo Obama pela ajuda para financiar o “Domo de Ferro” [antimísseis]”. [1]

Pelo menos, não se vangloriou de ter assassinado 161 palestinos, no mínimo; entre os quais 71 civis. [2]

Por hora, à parte a evidência de que o ministro de Defesa de Israel não consegue engatar duas frases consecutivas sem se autodesmentir, o que, precisamente, os israelenses teriam conseguido nessa mais recente rodada de bombardeio assassino contra Gaza – e por que, para começo de conversa, lançaram esse novo ataque?

O ministro da Defesa diz que alcançaram “todos os seus objetivos”, a começar por “destruir os Fajr rockets”; em seguida, na linha adiante, admite que “os foguetes Fajr continuam a chover sobre Israel”. Quem produz essas história alucinadas? Quem acredita nessas conversas – por que se preocupar com isso? De fato, para quem tente entender o ataque israelense contra Gaza, o que digam os senhores-da-guerra de Israel não faz, mesmo, diferença alguma.

Assassinaram o agente que fazia o acordo de paz

“Acho que Israel cometeu erro estratégico grave e irresponsável ao assassinar o comandante Jaabari”. Não é avaliação feita por palestino, ou árabe, ou muçulmano, em artigo publicado por revista esquerdista, islamista ou anti-Israel. É a avaliação de Gershon Baskin, o negociador israelense que estava em contato com o Hamás; e essa avaliação foi publicada no New York Times  [3]. Baskin diz mais:

Gershon Baskin
Passando mensagens de um lado para o outro, constatei, pessoalmente, que o comandante Jaabari não estava interessado apenas em algum cessar-fogo de curto prazo; foi também o homem encarregado de implementar outras negociações anteriores negociadas com a agência de inteligência egípcia. O comandante Jaabari implantou e fez valer aqueles acordos de cessar-fogo só depois de confirmar que Israel, sim, concordara em suspender os ataques contra Gaza. Na manhã do dia em que foi assassinado, o comandante Jaabari recebera minuta de acordo para um cessar-fogo de longo prazo com Israel – que incluía mecanismos para fiscalizar os movimentos e ações dos dois lados e assegurar o cumprimento do que fosse acordado. Essa minuta de acordo fora negociada por mim e pelo vice-ministro de Relações Exteriores do Hamás, Sr. Hamad, na semana anterior, quando nos encontramos no Egito.

Assim, se Israel está de fato interessada em paz e em proteger seus próprios cidadãos, como Barack Obama e outros sionistas norte-americanos vivem a repetir que estaria, nesse caso por que assassinar a sangue frio a única pessoa capaz de construir paz efetiva e, imediatamente depois, lançar ataque massivo contra alvos civis, ataque que, sem possibilidade de dúvidas, desencadearia resposta de vingança feroz? Nada disso faz qualquer sentido.

Esse fato, agora corroborado por um alto funcionário israelense, expõe o contexto mais amplo no qual se vê que Israel se interessa por qualquer coisa, menos pela paz, conclusão inescapável e claramente evidente no assalto incansável contra terras palestinas, roubadas, de fato, dia a dia, todos os dias, sem que algum governo dos EUA ou a chamada “comunidade internacional” tenham jamais tido força para impedir a ação criminosa dos colonos israelenses, violentos, assassinos, verdadeiras gangues organizadas para roubar terras palestinas. Nada mais distante, portanto, dos planos de Israel que paz nem, sequer, algum arremedo de paz – o que se viu ainda recentemente na nova rodada de atrocidades contra Gaza.

Cada vez que há um ataque militar, contra o qual não se vê qualquer reação, é sinal de que, enquanto Israel bombardeia Gaza, em outros pontos da Palestina há israelenses roubando terras palestinas. As gangues de colonos vivem dia de ação intensa, sempre que há essas ‘'operações militares'’ israelenses: enquanto duram os ataques, o roubo de terras palestinas pode avançar sem qualquer tipo de obstáculo ou impedimento. Essa ação de roubo ininterrupto de terras – que se faz à luz da história – é absolutamente oposta a qualquer noção (ou desejo) de paz.

Obama gosta de repetir que os israelenses tem (teriam) o direito de se defenderem. É o mesmo que dizer que tem(teriam) pleno direito de roubar cada dia mais terra palestina, aterrorizar os palestinos e continuar a consolidar o estado de apartheid racista de Israel. É estado de apartheid tão racista que, enquanto Obama defende Israel, o próprio aparelho de propaganda e os próprios agentes de propaganda-em-chefe em Israel zombam, pelas redes sociais, do próprio Obama e fazem piada sobre a cor da pele do presidente dos EUA! [4]

Será que a África do Sul também tem (teria) direito de defender o seu próprio estado racista de apartheid? Ou o sul racista dos EUA tem (teria) direito de defender o seu próprio estado de apartheid escravista? E a Índia tem (teria) também direito de pregar o fundamentalismo hindu?

Grande parte das pessoas que hoje vivem em Gaza provêm, de fato, de áreas que os sionistas hoje chamam de “Israel”. Tiveram suas terras roubadas e foram empurrados para um grande campo de concentração, no qual, hoje, são bombardeados pelos jatos de Israel. Israel controla todas as entradas e saídas e todas as fronteiras desse campo de concentração e decide, até, a quantidade de calorias que os homens, mulheres e crianças palestinos podem comer.

A militarização radical

Segundo relatórios recentes [5], “cerca de 10% das crianças palestinas em Gaza, com menos de cinco anos de idade, já tiveram o crescimento comprometido pela desnutrição. Relatório recente de Save the Children e Medical Aid for Palestinians constatou que, além da desnutrição, a anemia alastra-se na população, afetando 2/3 dos bebês, 58,6% das crianças em idade escolar e mais de 1/3 das mulheres grávidas”. Será essa a “tática” dos israelenses para promover a paz?

Por tudo isso, pode-se dizer que desde o primeiro dia de existência, até hoje, Israel jamais, nem por um só dia, interessou-se por construir qualquer paz. O único interesse de Israel sempre foi expulsar e assassinar mais e mais palestinos, e roubar suas terras – e o presidente Obama, “Mr. Audácia da Esperança” aí está, hoje, dedicado ainda a promover o projeto sionista israelense, apesar de soldados israelenses racistas zombarem do presidente e de milhões de cidadãos norte-americanos por serem negros, nas mais repugnantes manifestações imagináveis de racismo.

E voltamos sempre à pergunta inicial: por que, afinal, Israel atacou Gaza... outra vez?! Há um traço bem evidente de ambição eleitoreira aí operante – como Marwan Bishara escreveu em Al-Jazeera, [6] imediatamente depois de Israel ter (re) começado a bombardear Gaza: 

Marwan Bishara
Netanyahu, como seus predecessores, está usando o assassinato do líder do Hamás, Ahmed al-Jaabari e a subsequente escalada militar para minar as lideranças políticas na Palestina (do Hamás e do Fatah) e aumentar suas chances de reeleição, incendiando as questões de segurança nacional de Israel, pondo-as em evidência acima das questões de segurança econômica, na mente dos eleitores israelenses.

Bishara lembra que: “Há seis anos, escrevi um artigo sob o título Oriente Médio: o ciclo das retaliações tem de acabar [7] (em inglês) que se aplica hoje, com pequenas correções de datas, alguns nomes etc. Dado que os fatos não mudam e repetem-se incansavelmente, repito também a análise”.

A vantagem de reler o artigo de Bishara é ver com perfeita clareza o ciclo vicioso de desculpas e mentiras que Israel continua a impingir ao mundo: Israel não tem nenhuma intenção de fazer ou tentar qualquer tipo de paz. A única intenção de Israel é assassinar o maior número possível de palestinos para roubar e confiscar suas terras.

Outra consequência óbvia desse ciclo de mentiras que sempre se repete é a militarização radical da Resistência palestina, que vê as crianças palestinas serem programática, sistematicamente assassinadas por esse inimigo pervertido – militarização radical a qual, por sua vez, é pretexto perfeito para justificar a massa de bilhões de dólares em ajuda militar que Obama oferece a Israel, armamento tão poderoso que, por sua vez, explica que a República Islâmica também continue a ter imenso poder em Gaza, como ajuda à Resistência.

E assim está criado o ciclo vicioso e/ou a profecia que se autorrealiza. A propaganda pró Israel intensifica-se em Washington, DC; e, em todo o mundo árabe cresce a fúria antissionista, a começar por Teerã – o que é exatamente o de que precisam Israel e a República Islâmica para se manterem relevantes nas questões da Região.

Muitos lembraram que com certeza haveria meios melhores para testar o novo sistema antimísseis de Israel, “Domo de Ferro” – sistema de defesa antiaérea considerado à prova de ataques –, presente que Obama deu a Israel, pensando em instalá-lo ali para ser usado, adiante, num possível futuro ataque dos EUA contra o Irã.

A explicação talvez seja essa. Cercado já por pesados muros de apartheid, Obama agora protegeu toda a empreitada colonial israelense com um “Domo de Ferro” de vários bilhões de dólares. Ah! E o quanto é simbólico o tal “domo”!

Agora, Israel está completamente, não só metaforicamente, convertida em máquina autista, autocentrada, encapsulada dentro de seus próprios muros inexpugnáveis e, ainda, com uma cúpula de ferro a proteger-lhes a cabeça, como uma nave militar espacial vinda de planeta estrangeiro e distante, com o objetivo de matar a maior quantidade de seres humanos, adultos e crianças, e, sempre, em total impunidade. Agora, com o tal Domo instalado, talvez Obama espere que, pelo menos, no caso de algum país da região jogar alguma bomba sobre Israel, os senhores-da-guerra israelenses tenham alguns minutos para pensar e, com sorte, talvez decidam não se pôr a bombardear Gaza.

Obama pescando
Tudo faz crer que a principal função da operação Gaza é mostrar a superioridade militar de Israel: conseguiram cercar 1,7 milhão de seres humanos no maior campo de concentração que o mundo jamais viu, para poder bombardeá-los sem qualquer “risco” de punição. Enquanto isso, Barack Obama, depois de dar luz verde a Israel, viajou para pescar em Myanmar.

A verdadeira ameaça existencial

Esses e talvez outros fatores estão todos no campo das possibilidades – mas nenhuma delas dá conta, nem singularmente nem coletivamente, dos motivos pelos quais Israel sempre, de tempos em tempos, põe-se a assassinar palestinos. Portanto, a pergunta continua: por quê?

Netanyahu jamais se teria atrevido a atacar Gaza quando a Primavera Árabe estava em plena floração. Nada disso. Naquele momento, dedicou-se a ameaçar invadir o Irã. Teria sido uma segunda linha de ataque de seu governo. – Mas não deu certo; Adelson e Murdoch não conseguiram comprar-lhe um presidente Republicano o qual, aí sim, teria presenteado Netanyahu com sua sonhada guerra ao Irã. E lá está Obama, outra vez, no Salão Oval. Então... Netanyahu atacou Gaza, como sempre, para mostrar que ele manda, que é o chefão, que imensa superioridade militar é a dele! Eis aí, afinal, porque as coisas sempre se repetem e Israel sempre volta e volta a atacar Gaza.

Mas, por baixo de todos esses fatores, há sempre o medo instintivo de Netanyahu, que treme de medo das revoluções árabes – dos levantes democráticos de ponta a ponta no mundo árabe.

Mahmoud Ahmadinejad
Porque esses levantes e essa democracia, sim, são A ameaça existencial que pesa contra Israel. Fantasiar que Mahmoud Ahmadinejad ou, mesmo, a República Islâmica seriam ameaça existencial contra Israel é piada perversa, doentia, que a máquina de propaganda israelense transformou em bicho-papão assustador, horrendo, apavorante.

As revoluções árabes, mesmo no estágio nascente, turbulento em que estão (ou principalmente nesse estágio) são, sim, ameaça existencial contra as colônias de apartheid exclusivas para judeus [orig. are the existential threat to the Jewish apartheid settler colony]. Para piorar, nem o partido Likud, nem os sionistas liberais parecem ter qualquer ideia sobre o que fazer ou propor para redesenhar o destino de mais de 6 milhões de judeus colhidos na armadilha do sionismo, essa ideologia falida, que tenta sobreviver cercada por trás de seus muros-armadilhas de apartheid e, agora, também coberta por um Domo-armadilha de Ferro.

Fazer chover bombas assassinas sobre palestinos inocentes em Gaza foi mais uma tentativa desesperada para fazer o relógio andar para trás, fazê-lo voltar a dezembro 2008/janeiro 2009, apenas um ano antes de as revoluções árabes eclodirem. Foi ato de nostalgia assassina pervertida, de sionistas alucinados, que se veem atropelados pela história.

É possível que Netanyahu também estivesse testando Mursi? Mas, nesse caso, não teria sido o único: egípcios e árabes em geral também estão testando Mursi (...).

Mas, de fato, o medo de Netanyahu e a causa de ter perdido o rumo e o prumo, não é Mursi. O que transtorna Netanyahu é, isso sim, a erupção vulcânica que, para começar, levou Mursi ao poder, em eleições livres. A Israel que Netanyahu governa, além da Arábia Saudita e outras petroditaduras retrógradas do Golfo Persa, e além dos EUA, por um lado, e, por outro, também o clericato que governa o Irã e a ditadura síria, todos esses temem um único e inegável fato: as revoluções árabes, que – mais dia menos dia, imediatamente ou dentro de algum tempo – porão abaixo todos esses regimes de opressão.

Nas excelentes palavras de of Haidar Eid [8], professor da Al-Aqsa University, em Gaza:

Haidar Eid
Agora é a hora da verdade, hora de mandar mensagem bem clara ao novo mundo árabe: a era Mubarak e Abu el-Gheit é passado. O poder de “contenção” que dependia do massivo desequilíbrio de poder entre Israel e os palestinos, já não está nas mãos de Israel e dos seus aliados ocidentais. Esse poder hoje está com os homens e mulheres comuns nas ruas de Túnis, Cairo, Rabat, Doha, Amã e Muscat. As manifestações, que irromperam em Londres, New York, Glasgow e outras cidades, todas elas, se traduzirão em nova realidade, concreta. Nesses novos tempos, palestinos e árabes, os egípcios em particular, devem ser parceiros da paz, não mediadores em negociações que os povos não controlam.




Notas de rodapé

[1]  21/11/2012, Jerusalem Post, em: Barak: We achieved all our goals against Hamas
[2]  21/11/2012, Associated Press, Josef Federman,em: Cease-fire begins between Israel and Hamas
[3]  16/11/2012, New York Times, Gershon Baskin em: Israel’s Shortsighted Assassination
[5]  17/11/2012, Informed Comment, Juan Cole: Top Ten Myths about Israeli Attack on Gaza
[6]  18/11/2012, redecastorphoto, Marwan Bishara, em: Oriente Médio redux: O Hamás é consequência, não causa, da violência da ocupação (português)
[7]  30/6/2006, New York Times, Marwan Bishara em: Mideast: End the cycle of retaliation - Editorials & Commentary - International Herald Tribune (em inglês).
[8]  19/11/2012, Al Jazeera, Haidar Eid, em: Gaza 2012!” 

domingo, 18 de novembro de 2012

Oriente Médio redux:: O Hamás é consequência, não causa, da violência da ocupação


17/11/2012, Marwan Bishara, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Marwan Bishara
Assistindo à escalada em Israel/Palestina e aos preparativos para um possível grande assalto por terra contra a Faixa de Gaza, ouvem-se os mais variados comentários. Quando o comentário é novo, raramente é correto; e quando é correto, raramente é novo.

Netanyahu, como seus predecessores, está usando o assassinato do líder do Hamás, Ahmed al-Jaabari e a subsequente escalada militar para minar as lideranças políticas na Palestina (do Hamás e do Fatah) e aumentar suas chances de reeleição, incendiando as questões de segurança nacional de Israel, pondo-as em evidência acima das questões de segurança econômica, na mente dos eleitores israelenses. Há seis anos, escrevi um artigo sob o título “Oriente Médio: o ciclo das retaliações tem de acabar” (em inglês) que se aplica hoje, com pequenas correções de datas, alguns nomes etc. Dado que os fatos não mudam e repetem-se incansavelmente, repito também a análise.

Se Israel espera interromper o ciclo de violência brutal, deve manter negociações mais sérias, escreve Bishara
Quando a poeira assentar, a ofensiva de Israel contra os territórios palestinos sitiados terá causado mais mortes e mais destruição; e o governo de Israel continuará preso no mesmo beco sem saída. Em vez de atacar os vizinhos, os israelenses têm de pôr fim ao ciclo vicioso de provocações e retaliações e engajar-se em negociações sérias e significativas.

O governo israelense do primeiro ministro [há seis anos, era Ehud Olmert; hoje, é Benyamin Netanyahu] fundamenta sua campanha contra a infraestrutura civil dos palestinos em três falácias:

(1) que Israel não inicia os ataques, apenas responde para proteger seus cidadãos, no caso de um soldado sequestrado;
(2) que sua resposta é proporcional e não visa a ferir a população civil; e
(3) que não negocia com terroristas.

Para começar, a ofensiva israelense não brotou, do nada, essa semana. O governo de Israel, no poder [então] há apenas dois meses, é responsável pela morte de 850 palestinos, entre os quais muitas crianças, em ataques com alvo definido e execuções extrajudiciais ilegais. O governo do Hamás manteve um cessar-fogo unilateral por 15 meses, mas os ininterruptos ataques israelenses tornaram a reação dos palestinos simples questão de tempo.

Desde o início da Intifada, em setembro de 2000, repetidos bombardeios israelenses e assassinatos predefinidos de palestinos agravaram a violência e resultaram em número maior, não menor, de israelenses mortos e feridos. De fato, praticamente todos os grandes atentados cometidos por suicidas-bomba palestinos desde 2001 foram atos de retaliação contra assassinatos cometidos por israelenses, a maior parte dos quais cometidos quando os palestinos discutiam ou já se autoimpunham decisão de cessar-fogo.

Mais três exemplos: dia 31/7/2001, Israel assassinou dois importantes militantes do Hamás em Nablus, assassinato que pôs fim a quase dois meses de cessar-fogo autoimposto pelo Hamás e levou ao terrível atentado do dia 9/8, de um suicida-bomba numa pizzaria em Jerusalem. Dia 23/7/2002, jatos israelenses bombardearam um prédio de apartamento lotado de moradores na cidade de Gaza, matando um alto dirigente do Hamás, Salah Shehada, e 15 civis, 11 dos quais crianças, horas antes de ser declarado um cessar-fogo unilateral já decidido e noticiado. Dia 4/8, pouco mais de uma semana depois, a resposta veio sob a forma de outro atentado de suicida-bomba.

Dia 10/6/2003, Israel tentou assassinar um alto líder político do Hamás em Gaza, Abdel-Aziz Rantisi; a tentativa fracassou, Rantisi escapou com vida, mas quatro civis palestinos morreram. Esse atentado levou à explosão do ônibus em Jerusalém, que matou 16 israelenses.

Embora os crimes-provocação de Israel não justifiquem os atentados de suicidas-bomba, eles demonstram suficientemente que a fonte do terrorismo é, sempre, a agressão militar israelense e a violência da ocupação. Nesse contexto, os civis palestinos não se veem como “dano colateral”, mas como vítimas do terrorismo de Estado.

Quanto à natureza da “retaliação” pelos israelenses, difícil considerar “proporcional e moderada” a destruição que Israel promove de toda a infraestrutura civil da região onde vivem 1,3 milhões de palestinos. O Exército de Israel abriu a ofensiva da semana passada contra Gaza bombardeando pontes, estradas, redes elétricas e redes de suprimento de água.

A própria natureza da ofensiva israelense visa a castigar, intimidar, assustar, apavorar e conter, com força bélica desproporcional, indiferente ao sofrimento que a ação inflija a civis. Cortar serviços básicos de toda a população é ação não apenas injustificável: implica castigo coletivo, ação ilegal expressamente proibida nos termos da Convenção de Genebra.

A assimetria entre o poder de fogo de Israel e dos palestinos não pode ser traduzida em assimetria também entre o valor da vida de israelenses e de palestinos. O mundo alarmou-se quando os palestinos capturaram um soldado israelense. Mas não se veem iguais sinais de alarme quando Israel mantém [então, 9 mil; hoje vários milhares de] prisioneiros palestinos.

Por mais que Israel diga que não negocia com terroristas, negociou, sim, pelo menos, com certeza, com o Hezbollah. O bombardeio israelense dos geradores elétricos que alimentam a cidade de Beirute e a grande ofensiva em 1996, que levou ao massacre de Qana, não foi suficiente para conter a resistência libanesa; e Israel, sim, foi obrigada a negociar, usando intermediários, com um grupo que, para Israel, é grupo terrorista; e foi obrigada a aceitar a troca de centenas de prisioneiros libaneses e palestinos, para receber os restos mortais de soldados israelenses mortos no Líbano. E Israel, como se sabe, também negociou com palestinos, para obter a libertação do soldado Gilad Shalit.

Dado que [então, 39; hoje 45] anos de esforços israelenses para intimidar os palestinos, não conseguiram intimidá-los e, sim, só conseguiram levar os palestinos à radicalização, não seria hora de Israel mudar de tática?

Naquele minúsculo território, os israelenses jamais viverão em segurança, enquanto mantiverem os palestinos em situação de insegurança desumana.

A saga ainda em andamento comprova o absurdo do unilateralismo como opção. O então primeiro ministro Olmert usou a captura de um soldado israelense para minar o acordo histórico firmado com o Hamás, e que acabava de ser negociado com o partido Fatah do presidente Mahmoud Abbas, para formar um governo de unidade: seria o reconhecimento de facto, pelo governo palestino, do estado de Israel e da possibilidade de negociar com Israel.

O ocidente goste ou não, o Hamás, como o Hezbollah, são, sobretudo, produtos da violência e da opressão da ocupação israelense, não o contrário. Por isso, Israel teria tudo a ganhar se moderasse o uso de seu aparato bélico e se dedicasse a negociar o fim da ocupação. Não há como pensar em segurança de Israel, sem isso.

Se insistir no uso desproporcional da violência, Israel só conseguirá fazer aumentar a popularidade e o prestígio do Hamás e empurrar o grupo de volta à clandestinidade e à guerra.

domingo, 13 de março de 2011

Líbia: o que Obama e a OTAN temem?

Marwan Bishara

Three questions to Marwan Bishara – Entrevista, 12/3/2011, Al-Jazeera, Qatar
“Três perguntas para Marwan Bishara”
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Al-Jazeera: Os ministros da Defesa dos países da OTAN reuniram-se na 5ª-feira, mas não decidiram ainda o que fazer sobre a Líbia. O senhor entrevistou Anders Fogh Rasmussen, secretário-geral da OTAN. O que dizem por lá?

Marwan Bishara: O secretário-geral da OTAN dedicou-se aplicadamente a nada dizer e nada desmentir. Foi extremamente cauteloso e não se comprometeu. De fato, não disse coisa alguma. 

A OTAN está dividida entre os que, como a Grã-Bretanha, querem ação imediata; e os que, como a Itália, temem que qualquer envolvimento da OTAN na região comprometa ainda mais o já complicado relacionamento nacional de cada um, com a Líbia. E há outras divisões como, por exemplo, a que separa Turquia e EUA, sobre a natureza e o papel da OTAN no Oriente Médio, com ou sem intervenção na Líbia.

Seja como for, todos concordam que (1) em nenhum caso, por hora, a ação da OTAN deve ser maior que a implantação de uma zona aérea de exclusão [NFZ, No-Fly Zone] e que (2) a NFZ só será possível se se cumprirem três exigências: (a) aprova-se outra Resolução do Conselho de Segurança, que amplie a Resolução 1.970; (b) a OTAN obtém apoio dos países da região para qualquer ação; e (c) a ação só será considerada se houver escalada muito forte da violência contra a população civil líbia. 

Antes da reunião da OTAN marcada para a próxima 3ª-feira para discutir a situação da Líbia, EUA e Europa já pediram a renúncia de Gaddafi, enquanto todos esperam os acontecimentos em três frentes: na ONU, na Liga Árabe e na União Africana.
A OTAN está monitorando a situação na Líbia, mas quais são as opções?
Al-Jazeera: Uma zona aérea de exclusão imposta pela OTAN pode levar a reação ainda mais violenta?

Marwan Bishara: Há riscos em qualquer campanha militar de longo termo, expansiva, coordenada pela OTAN contra país árabe. A OTAN perdeu toda a credibilidade e está muito fortemente desmoralizada aos olhos da rua árabe. Há determinados riscos em qualquer campanha militar de longo prazo, sempre dispendiosas, contra país árabe; e há riscos específicos, se a campanha militar for conduzido pela OTAN, que perdeu credibilidade aos olhos dos árabes, depois das guerras do Iraque e Afeganistão. As potências ocidentais sabem que estão numa posição precária: se invadirem ficam mal, se não invadirem, também ficam mal.

Além do mais, as três últimas zonas aéreas de exclusão implantadas sob comando da OTAN – no Iraque em 1991-1993, na Bósnia em 1993 e no Kosovo em 1999 – foram campanhas militares gigantescas, massivas, complexas, de alto custo, e que, bem feitas as contas, não alcançaram os objetivos declarados nem evitaram qualquer escalada da violência contra civis. A zona aérea de exclusão da OTAN, operação militar liderada pelos EUA no Kosovo, exigiu 38 mil ações militares, ao longo de 78 dias. 

Simultaneamente, ainda não se sabe se Rússia e China, membros com poder de veto, aprovarão nova Resolução da ONU, nas atuais circunstâncias, sobretudo agora, que as forças leais a Gaddafi recuperaram posições no oeste do país. 

Sem Resolução do Conselho de Segurança da ONU, alguma nova “coalizão de vontades” – quer dizer, campanha militar de exércitos do ocidente não autorizada pela ONU – pode implicar escalada ainda maior na guerra e erros muito graves, que podem levar a manifestações populares ainda maiores no Oriente Médio, sobretudo na Líbia. 

Al-Jazeera: Isso explica a hesitação na OTAN?

Marwan Bishara: Em boa medida, sim. As potências reunidas na OTAN temem que qualquer envolvimento militar amplo resulte em desastre ainda maior para o ocidente. 

Eles não estão muito seguros quando à escala e os riscos de uma zona aérea de exclusão, em termos gerais. Além disso, os países reunidos na OTAN têm diferentes prioridades nacionais em relação à Líbia, e ideias diferentes sobre o uso direto da força na região árabe.

Os EUA falaram em termos genéricos sobre uma zona aérea de exclusão, a qual, segundo o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, seria operação complexa, que implicaria manter sob bombardeio cerrado as defesas aéreas e o comando das comunicações. Tudo isso gera altos riscos e abre a possibilidade de escalada no plano militar. E Gates não é o único que está muito preocupado. 

Todo o governo Obama teme tomar decisões que, adiante, empurrem os exércitos norte-americanos ainda mais para o fundo da areia movediça que é o mundo árabe. A Casa Branca parece ter concluído que é mais interessante, do ponto de vista dos interesses dos EUA, não se aproximar muito das revoltas árabes. Estão analisando as coisas caso a caso, em termos de custos/benefícios diretos. Apoiar o rei-ditador no Bahrain, congratular-se com os revoltosos no Egito e na Tunísia e ganhar tempo no caso da Líbia são movimentos ‘normais’, do ponto de vista da nova abordagem “pragmática” que o governo Obama tenta adotar para a Região.