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domingo, 9 de junho de 2013

Turquia: “A rua acende-se contra Erdogan”

9/6/2013, Juan Luis Sánchez (de Istambul), El Diario, Espanha
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Juan Luís Sánchez
·       As torcidas dos times de futebol da cidade – com longa história de lutas entre elas – unem-se na praça e fazem subir o tom do protesto
·       O Primeiro-Ministro mantém a Polícia longe da praça Taksim, age em outros pontos da cidade e convoca manifestações para apoiá-lo
·       A ocupação vive seu momento de afluência máxima, e os organizadores dão-se conta do cansaço. Resistência é questão, também, de tempo.

Praça Taksim em 8/6/2013
Primeiro, Erdogan tentou, pela força, desalojar a ocupação. Em seguida, aproveitou a viagem ao estrangeiro, para ver se sua ausência acalmava os ânimos, e os ocupantes abandonavam espontaneamente a Praça. Essa semana, não conseguiu evitar uma sequência de atos contraditórios: insultou os manifestantes, pediu perdão pela violência policial usando para isso um porta-voz, disse que manteria inalterados os planos de urbanizar o Parque Gezi e, em seguida, que ouviria as demandas populares. Tudo isso na mesma semana e com o mesmo resultado: nenhum.

Nem as provocações do Primeiro-Ministro turco Tayyip Erdogan geraram sequer um estalo de violência dentro da multidão que ocupa o Parque Gezi, nem suas desculpas esvaziaram a praça. A ocupação já tem vida própria, seus próprios ritmos. E não acabaria de um dia para o outro, nem se os que lá estão desejassem que acabasse.

Praça Taksim em 8/6/2013. Ao fundo o Parque Gezi.
Não há um metro de grama onde não haja um cobertor, um colchão, uma barraca. Filas de centenas de pessoas, recém-chegadas ao Parque Gezi, esperam sua vez para receber alguma coisa para pôr no chão e poder deitar e cobrir-se. Além das horas e horas de caminhadas de dezenas de milhares de pessoas que se vão reunindo por afinidades as mais variadas.

A ocupação do Parque Gezi viveu ontem, sábado, o momento definitivo da própria afirmação, um apogeu muito incômodo para o governo e também de muito desgaste para os que trabalham na vida interna do movimento.

Durante as noites de fim de semana, “Occupy Gezi” deixa de ser espaço comunitário de resistência e converte-se em acampamento de um Fórum Social.


Alguns jovens em Taksim começam a dar-se conta de que, se falam de resistência, falam, de fato, de tempo. E de que nem todos têm a mesma capacidade física para resistir: “Todos os dias vou trabalhar, passo por aqui e só durmo três horas. Não sei por quanto tempo mais aguentarei” – confessa Gökçe (nome fictício), um dos ativistas de Gezi, muito cansado, mas profundamente satisfeito com a experiência. “Chegou um momento em que, em vez de cuidar dos que chegam, mal conseguimos atender às suas necessidades básicas. Acabou-se a magia dos primeiros dias. Já não temos os olhos brilhantes que se via por todos os lados” – queixa-se outro, que trabalha na cozinha, que cresce e se reorganiza quase que de hora em hora. “Estou sem dormir, literalmente, há cinco dias. Meto-me no saco de dormir e tento fechar os olhos, mas não consigo dormir” – conta uma terceira voluntária.


Contra o cansaço, nada melhor que um antídoto moral, um momento de euforia coletiva. Um desses momentos aconteceu ontem em Taksim.

Torcedores das três equipes de futebol da cidade (Galatasaray, Fenerbache e Besiktas) tomaram a Praça Taksim numa marcha conjunta que deixou para trás as brigas históricas que sempre os separaram, muitas vezes com episódios de extrema violência. Vê-los lado a lado numa mesma manifestação talvez não chame a atenção de estrangeiros que não conhecem o país. Mas emociona os turcos.

Torcedores de um recém criado “novo time”, “Unidos de Istambul” – como se vê em vários cartazes – cobriram de luz de fogos de artifício o fim de tarde do Parque. Foram acesos coordenadamente em vários pontos do Parque Gezi, e de cima de um dos edifícios vazios que se destaca na grande esplanada, em cuja fachada penduraram-se cartazes com fotos dos heróis políticos de diferentes grupos e faixas com palavras de ordem contra Erdogan.

Praça Taksim em 8/6/2013
“Isso aqui é muito, muito maior que Occupy Wall Street” – diz Olivia, jovem austríaca que viajou a várias cidades para participar e documentar levantes populares e esteve em Nova York. “É, provavelmente, a maior ocupação de espaço público que vi, em todo o mundo” – diz o repórter esloveno Bostjan Videmsek, que esteve no Cairo, em Atenas, em Madrid.

Não é só a praça. Todas as avenidas que levam à praça estão fechadas e tomadas por milhares de pessoas, em alguns casos por várias centenas de metros. Há barricadas, construídas com ônibus municipais, pedras arrancadas das calçadas, valetas de obras públicas ou de segurança, pilhas de móveis... Montanhas de objetos empilhados.

Praça Taksim em 8/6/2013
O risco de um acidente, uma desgraça repentina, de que irrompa alguma briga entre os muitos grupos que ali se aproximaram (partidos políticos, grupos sociais, culturais, torcedores de futebol) paira sobre toda a ocupação. “Você está vendo: há bandeiras curdas, dos nacionalistas, de diferentes torcidas organizadas, de Fenerbache, dos Galatasaray... Já estamos há dias, e volta e meia algum atrito acontece, embora sejam sempre brigas pontuais” – diz Gökçe. Uma grande briga ali é tudo de que Erdogan mais precisa.

Mesmo assim, a Polícia não voltou a aparecer. Não se veem policiais uniformizados na Praça Taksim, nem em volta. Depois que recolheu os policiais da polícia de choque, o governo de Erdogan optou pela total ausência de polícia no Parque Gezi – embora continuem os enfrentamentos violentos em outras cidades do país, principalmente em Ancara, onde a Polícia usou gás lacrimogêneo e canhões de água para reprimir os protestos. Vídeo a seguir:


Mas não há policiais em Taksim, que é onde Erdogan disputa a grande batalha midiática internacional – única batalha que obrigou os grandes veículos turcos a começar a reconhecer que algo acontece em Istambul.

Erdogan organizou para ele mesmo um banho de massas, na chegada a Istambul, vindo da Tunísia. Dezenas de milhares de pessoas o receberam com ovações no aeroporto, onde falou de prosperidade e democracia.

Dia seguinte, seis jornais turcos publicaram a mesma manchete Erdogan parece pensar que a jogada deu certo. Seu partido anunciou, para a semana que vem, grandes comícios em várias cidades e grandes manifestações em Ancara e Istambul.  

A queda de braço continua. Erdogan começa a pôr suas forças na rua.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Turquia: 240 mil trabalhadores unem-se aos protestos, em mais de 67 cidades

“Agora já estamos num movimento de resistência”

4/6/2013, 18h, The Real News Network [vídeo]
 Traduzido da transcrição e das legendas pelo pessoal da Vila Vudu


SHAGHAYEGH TAJVIDI, Produtor de TRNN: Há dias, o ar que se respira em Istambul cheira a gás lacrimogêneo. A Polícia continua a usar armas químicas, por toda a parte.

Hoje, os levantes entraram em nova fase, quando a Confederação dos Funcionários Públicos da Turquia (KESK) – 11 sindicatos e cerca de 240 mil trabalhadores – declararam-se em greve geral por dois dias. 

A greve, que estava sendo planejada para futuro próximo, em resposta a novas leis de “flexibilização” da legislação trabalhista na Turquia, foi antecipada para hoje, em resposta à brutalidade e às práticas cada dia mais antidemocráticas da polícia do governo de Erdogan.

A agitação começou em Istambul, dia 27 de maio, quando tratores começaram a arrancar árvores na Praça Taksim, no Parque Gezi, local histórico no coração da cidade. Os planos do governo, de construir ali um shopping center, despertaram a indignação popular, e muitos imediatamente e durante a noite, instalaram-se ali, com barracas e para plantar mudas de árvores, em resposta à demolição de um dos últimos espaços verdes remanescentes em Istambul. Começou assim, o que, nos últimos dias, já foi descrito como cenário de guerra.

Mas o protesto também se ampliou: é hoje movimento de resistência, bem maior e mais radical que modesto ato para proteger parques e árvores.

ADVOGADA, ISTAMBUL (legendas traduzidas): O que posso dizer é que enfrentamos um déspota, governo desrespeitoso, que absolutamente não se interessa nem ouve o povo e nossas ideias. Religião e democracia, para eles, são instrumentos. Com o que está acontecendo aqui, se vê, definitivamente, que não há democracia alguma nesse governo. A imprensa nada diz. Quem fala, é posto na cadeia. Todos nossos generais estão na cadeia.

YASEMEN, MANIFESTANTE: Como é possível?! Mas você viu como tudo começou? As pessoas estavam sentadas, lendo livros! Estavam conversando, na Praça Taksim. E de repente, pelas 5h da manhã, foram atacados pela Polícia, sem aviso – nem avisaram, ninguém disse “saiam, ou usaremos gás lacrimogêneo contra vocês”. Nada, primeiro lançaram as bombas de gás, depois os canhões de água sob pressão. Eles agiram como se... tudo aqui fosse gravíssimo.

ADVOGADO: Como advogado, posso dizer que não há legitimidade nesse comportamento da Polícia. Atacaram o povo, sem que a Polícia fosse sequer provocada. Usaram porretes e força excessiva, e bateram com tal fúria, que podiam ferir braços, pernas, até matar. É ação muito perigosa.

TAJVIDI: Os atuais protestos lançaram luz diferente sobre o governo do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan. A repressão violenta contra os cidadãos, nessas manifestações, não foi notícia nos canais comerciais de televisão. Mostraram, no mesmo horário, o concurso de Miss Turquia e programas de culinária.

Para informar-se sobre as manifestações, as pessoas tiveram de usar seus próprios meios – conectaram-se pelas mídias sociais e procuraram informação em veículos fora da Turquia, tudo para escapar da muralha de censura interna e dos repetidos “apagões” nas redes 3G na área de Taksim.

O canal The Real News Network conseguiu conectar-se por algum tempo com um ativista que estava em Taksim, embora a conexão estivesse muito instável e quase inaudível.

TANYEL, NOS PROTESTOS EM TAKSIM (legendas traduzidas): Quero destacar que o governo Erdogan e sua Polícia atacaram indiscriminadamente o povo, que estava em posição muito vulnerável. A Polícia lançou muitas granadas de gás lacrimogêneo, sem qualquer distinção, contra crianças e outras pessoas vulneráveis. Nesse momento, há centenas de feridos nos hospitais.

A mídia turca tentou cobrir os protestos. Mas não se viu nenhuma notícia nos canais turcos de televisão, desde a noite passada. Só exibiram programas sem importância.

Mas as mídias sociais ajudaram, Twitter e Facebook, e as pessoas conseguiram informar-se e vieram para cá. A manifestação só aconteceu por causa das pessoas, nas mídias sociais. Todos trataram de mostrar o que estava acontecendo para toda a Turquia. Trata-se de muito mais do que de proteger o Parque Gezi. Trata-se de uma batalha entre o governo da Turquia e os jovens turcos. O pessoal quer que Tayyip e seu governo renunciem imediatamente. Agora, estamos já num movimento de resistência.

TAJVIDI: Apesar de ter chegado ao poder com promessas de prosperidade econômica e democratização, há dez anos, e apesar de sempre ter contado com apoio popular, o partido Justiça e Desenvolvimento de Erdogan, o AKP, também enfrenta crescente descontentamento, e não por poucas razões. Para começar, o governo de Erdogan mantém a mídia sob um dos mais duros regimes de censura em todo o mundo. Em 2012, a Comissão de Proteção de Jornalistas divulgou que a Turquia aparecia em primeiro lugar na lista de países que tem o maior número de jornalistas presos, à frente da China e do Irã.

Desde 2009, o Partido AKP iniciou investigações contra a União da Comunidade Curda, investigações mediante as quais, o governo tomou por alvo intelectuais, jornalistas e estudantes. O governo alegou que seriam medidas para prevenir ações terroristas, e que atingiriam todos os partidos que tivessem qualquer ligação com a ala urbana do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Fontes independentes em Istambul estimam que essas investigações tenham levado mais de 3 mil pessoas à prisão.

Pouco antes do levante do Parque Gezi, o partido governante, AKP, foi duramente criticado por medidas para proibir a venda de bebidas alcoólicas em estabelecimentos abertos ao público. Embora essas leis ainda não sejam vigentes, ficou bem claro que seria a mais nova ameaça do governo religioso de Erdogan, contra a Turquia secular. O conservadorismo religioso de Erdogan, aliado ao autoritarismo crescente e à intolerância à crítica ou a opiniões diferentes da sua, culminam, agora, em demonstrações de massa, gigantes, por todo o país.

BARIS KARAAGAC, professor, Universidade TRENT: O neoliberalismo crescente, a comercialização das relações sociais na Turquia, é outra razão pela qual, agora, a população está tomando as ruas. É processo que já se vê em andamento há dez anos, desde que o governo AKP chegou ao poder. Esse processo está avançando à custa de prédios históricos, por exemplo. Todos esses fatores operaram como catalisadores. Agora, muitas pessoas decidiram reagir contra o governo de Erdogan, do AKP.

TAJVIDI: E são muitas as pessoas que estão tomando as ruas, já em 67 cidades, em todo o país. Um dos aspectos mais interessantes é a diversidade das pessoas e grupos que se vão unindo aos levantes populares de resistência. O que se vê é que as políticas de Erdogan tiveram efeito polarizador, numa sociedade turca já dividida.

Esta rede The Real News falou com ativistas em Istambul, que comentaram os traços diversos e complexos das multidões nas ruas e suas demandas.

ALP, ATIVISTA (legendas traduzidas): Os primeiros a aparecer nas manifestações foram artistas, gente de vários partidos, de associações, instituições e dos sindicatos. Mas ontem à noite, depois das 19h, o movimento já era público. Só está sendo possível, porque todos distribuem e recebem informação pelas mídias sociais. Acho que a maioria aqui não é gente de partido político, sindicato ou associação. O que se vê aqui são estudantes, professores, médicos, advogados.

YASEMEN: Ontem vi gente que sempre apoiou o AKP, que realmente votou no AKP. E estavam protestando na rua, ali, ao meu lado. Muita gente com véu. Isso é muito importante. Há muitos religiosos que também nos apoiam.

TAJVIDI: Ainda é muito cedo, é claro, para saber a que levará essa resistência, o que conseguirá, se a luta gerará benefícios já em 2014, ano em que haverá a primeira eleição presidencial, com voto direto, na Turquia. Com a ambição de Erdogan, que desejava reconstruir todo o sistema eleitoral, ameaçado agora pelos eventos dos últimos dias, observadores perguntam se Erdogan fará concessões e se o movimento popular nas ruas conseguirá alterar a correlação de forças entre Erdogan e sua tradicional base eleitoral.

KARAAGAC: O que já se vê bem claramente é que o governo percebeu que, doravante, não poderá continuar a agir protegido pela impunidade total, sem dar qualquer atenção à oposição popular. Até agora, sempre agiu assim. Mas o povo, ou parte muito ativa do povo, já disse “Basta!”.


TAJVIDI: Para a rede The Real News Network, Shaghayegh Tajvidi.
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Ver também:
1/6/2013, redecastorphoto, Muftah (editorial) em: Protestos na Turquia: “Um ciclo crescente de descontentamento"

sábado, 1 de junho de 2013

Protestos na Turquia: “Um ciclo crescente de descontentamento”

1/6/2013, Muftah (editorial), Turquia [com fotos excelentes]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido no buteco da Rute Bruaca na Vila Vudu: Matéria até que aproveitável, se comparada ao BESTEIROL  de repetição de agências norte-americanas, que é só o que se lê na insuportável imprensa-empresa no Brasil. Mas (não surpreendentemente) não se lê aí uma linha sequer sobre o crescente descontentamento, na Turquia, contra a guerra que Erdogan tenta inventar contra a Síria.

A polícia turca atacou os manifestantes com Spray de pimenta e gás lacrimogêneo
Os protestos na Turquia entram hoje no 5º dia, com manifestantes tomando as ruas de várias cidades pelo país. Os protestos, que inicialmente visavam a impedir a destruição do Parque Gezi em Istambul, transformaram-se, por causa da agressão policial, e incluem já manifestações mais amplas, de oposição ao governo da Turquia.

Mashallah News oferece bom balanço do desenvolvimento dos protestos, até agora:

Em Istambul, apenas 1,5% da área urbana é ocupada por espaços verdes; na Parque Geziestão nove acres desse total. Na 2ª-feira (27/5/2013), chegaram equipes da empresa construtora, e começaram a derrubar árvores, para construir um shopping center. Na 2ª-feira havia ali cerca de 50 pessoas; na 5ª-feira (30/5/2013) à noite já eram 10 mil, apesar de a Polícia ter usado sprays de pimenta e gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes. Na 6ª-feira (31/5/2013), a agressão policial aumentou: a Polícia usou canhões de água e força excessiva, na tentativa de evacuar a praça e impedir que prosseguissem os discursos, cantos, palavras-de-ordem e a montagem de acampamentos.

Manifestação ocupa ponte que liga os lados Ocidental e oriental de Istambul
Em discurso muito aguardado, hoje (1/6/2013), o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan respondeu ao crescente movimento de protesto. Reproduzindo as mesmas estratégias várias vezes tentadas e sempre fracassadas, de outros ditadores regionais (muitos dos quais já despachados do poder), o primeiro-ministro minimizou o significado das manifestações, rejeitou as demandas dos manifestantes e atribuiu a “agitação” a “outras forças”. EA World View  assim resumiu o discurso de Erdogan:

O primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan (...) falando hoje sobre a agressão policial a manifestantes, usou tom desafiador – e disse, dos que se manifestam contra o redesenvolvimento da Praça Gezi, que “há jogadas, aqui (...) Ninguém tem o direito de protestar contra a lei e a democracia”.

Erdogan disse que a Polícia cometeu erros no uso de sprays de pimenta e gás lacrimogêneo contra os manifestantes, e que o Ministério do Interior investigará tudo isso. Mas que a Praça Taksim – onde os manifestantes permaneceram acampados por quatro dias, antes de serem atacados pela Polícia, na 6ª-feira – não pode ser usada como “paraíso seguro” para manifestações. E insistiu que “organizações ilegais” estariam provocando “cidadãos ingênuos”.

O primeiro-ministro, invocando história e ideologia, disse que manterá os planos para converter o espaço verde do Parque Gezi em um supermercado, que será construído como réplica das tendas militares da era otomana.

Erdogan disse que os que se opõe a “projetos de transformação urbana” querem que “nosso povo viva em favelas”.

Falando em termos mais amplos, Erdogan insistiu que seu governo reflete a vontade do povo e a oposição deve manifestar-se pelas urnas, nas eleições, não nas ruas. Mas mostrou-se cheio de confiança de que vencerá qualquer desafio: “Não tentem competir conosco. Se reunirem 200 mil pessoas, posso pôr um milhão, nas ruas”.

Como era de esperar, o discurso de Erdogan não fez esfriar os protestos, que prosseguem, com grande número de manifestantes nas ruas.

Embora essas manifestações talvez pareçam irrupções isoladas de descontentamento, outros recentes atos de públicos de protestos sugerem outra coisa.

Em dezembro de 2012, houve manifestações contra a demolição de Ince Pastanesi, uma confeitaria histórica em Istambul. Depois de quase 70 anos de atividade, a loja, como o Parque Gezi, foi programada para ser demolida, também para ser substituída por um shopping center. Apesar das repetidas manifestações públicas no local, que pediam que a prefeitura poupasse a loja, nada conseguiu impedir que o prédio fosse demolido.

Dia 7 de abril de 2013, manifestantes reuniram-se para protestar contra a demolição do histórico Teatro Emek em Istambul, também demolido para dar lugar a um shopping center. Na ocasião, como agora, a Polícia respondeu com violência 
A Polícia usou canhões d’água e gás lacrimogêneo, dia 7 de abril, para dispersar milhares de manifestantes, entre os quis o diretor grego-francês de cinema, Costa-Gavras, e vários atores, que haviam viajado a Istambul para defender o icônico Cinema Emek e protestar contra a demolição daquele prédio histórico.

A Polícia já havia bloqueado o acesso à rua lateral onde se localiza o cinema, obrigando os manifestantes a permanecer na avenida İstiklal, no coração do bairro onde se concentram vários cinemas e teatros em Istambul. Depois de um alerta, de que a manifestação não tinha autorização para se realizar, a Polícia passou a bombardear a multidão com jatos d’água e, segundo testemunhas, com granadas de gás lacrimogêneo.

O crítico de cinema Berke Göl e três outros manifestantes foram detidos, como noticiou o jornal Radikal. Um dos mais conhecidos e respeitados diretores do cinema turco, Erden Kıral, teria desmaiado durante o ataque da Polícia.

Um grupo de 200 manifestantes permanece acampado à frente do prédio da Polícia de Beyoğlu, exigindo a imediata soltura dos que permanecem detidos, segundo o jornal Radikal.

A Fundação Istambul para Artes e Cultura (İKSV) lançou declaração em que condena o uso de “força excessiva” pela Polícia. “Condenamos a agressão a amantes do cinema que nada fizeram além de tentar proteger a memória cultural de Istambul”, dizia a declaração”.

Embora essas ações pareçam rejeitar alguma “modernização” ou expor alguma vontade de reviver “velhos tempos”, parece haver aí um conjunto de motivações mais profundas. Como escreveu um blogueiro turco 

Como se lê nos relatos de Elif Ince, do jornal Radikal, que escreve sobre os eventos no Parque, o movimento #OccupyGezi  é um levante urbano contra a elite conservadora turca e suas políticas neoliberais.

Um dos manifestantes explica a Ince que a demolição da confeitaria Inci Pastanesi nunca foi assunto de bolos e docinhos; que os manifestantes que protestaram contra o fechamento do cinema Emek Theater não estavam preocupados apenas com preservar prédios históricos. E que a solidariedade no Parque Gezi Parki não é questão apenas de defender árvores.

Os manifestantes estão acampados no parque porque a cidade é do povo e deve ser governada pelo povo, não pelas decisões e caprichos de um líder político e seus discípulos no governo.

Multidão atinge o auge da manifestação na chegada ao Gezi Park
Mais uma vez, esse desejo de ser ouvido sobre o próprio ambiente em que se vive é também apenas parte da história. Esforços para modificar hábitos e práticas sociais e culturais também estão despertando resposta desafiadora de muitos turcos. Poucos dias antes do início das manifestações no Parque Gezi, dia 25 de maio, casais turcos manifestaram-se contra os esforços para proibir manifestações públicas de afeto nos trem do metrô. O jornal Huffington Post comentou:  
Dúzias de casais participaram de um “beijaço” numa estação do metrô em Ancara, capital da Turquia, para protestar depois que autoridades do metrô advertiram um casal que se beijava em público.

A mídia turca noticiou que, no início da semana, autoridades do metrô da cidade divulgaram documento em que pedem que os passageiros “ajam de acordo com regras morais”, depois que câmeras de vigilância interna filmaram um casal que se beijava”.

A questão levou um deputado da oposição a questionar o partido governante, que é partido islamista, e que, como temem os secularistas, trabalha para expandir a influência do Islã na vida dos turcos, única explicação para que autoridades do metrô tenham sido liberadas para difundir regras sobre “comportamentos morais” (...).

Manifestante desafia um canhão de água
E há também a questão da recente proibição, na Turquia, de bebidas alcoólicas. Dia 24 de maio, o Parlamento turco aprovou lei que cria várias restrições à venda, divulgação e consumo de bebidas alcoólicas. Um jornalista turco descreveu as novas proibições como forma de pressão contra os cidadãos, as quais, essencialmente, restringem a liberdade de as pessoas agirem livremente em espaços públicos 
Na Turquia, enfrentamos um processo de engenharia social ideologicamente motivado, extremamente conservador e socialmente opressivo, que é parte da agenda islamista para o governo do AKP. Esse projeto não tem qualquer legitimidade democrática, porque é violação clara de direitos e das liberdades dos turcos.

Outra prova de que o movimento geral é esse, é o que disse o primeiro-ministro Erdogan na convenção de seu partido no Parlamento, dia 28 de maio, ao reagir contra os que diziam que as proibições de bebidas alcoólicas estão relacionadas à agenda dos islamistas. Erdogan disse que “não faz diferença de que religião se trate: a religião estipula não o que é errado, mas o que é certo. Se se trata de estipulação certa, os senhores se oporão a uma lei certa, por ter sido inspirada por pensamento religioso? Será que, para os senhores, uma lei escrita por meia dúzia de bêbados poderia ser válida? Como se admitirá que nossas convicções sejam apresentadas como algo a ser rejeitado?”

Erdogan portanto, declarou abertamente que a proibição de bebidas alcoólicas é, sim, exigência religiosa, e que deseja reformatar a vida em espaços públicos, nos termos do que a religião determina. E avançou: declarou “anti-religião” qualquer um que se oponha à proibição de bebidas alcoólicas alegando direitos e liberdades individuais.

O alívio que alguns sentiram ao ouvir Erdogan dizer, no mesmo discurso, que “os arranjos que se fazem agora não implicam qualquer interferência no modo de vida de pessoa alguma” durou pouco. Na sequência, Erdogan acrescentou que “se você quer beber, leve sua bebida alcoólica e beba-a em casa. Beba o que quiser beber. Nada temos contra isso”.

Com essas palavras, o primeiro-ministro turco disse a segmento considerável da população: não continuem a fazer o que sempre fizeram nos espaços públicos. Basta isso, como grave exemplo de pressão, que ultrapassa em muito o conteúdo e o contexto das leis já aprovadas sobre bebidas alcoólicas.

Não se trata, pois, só de “destruição de árvores”, de os turcos perderem “bolos e docinhos” ou de desejarem preservar prédios históricos, mas da sensação, que se vai generalizando, de que a vida pública na Turquia está sendo limitada e modelada para atender às exigências de um tipo de perspectiva ideológica. Isso, afinal, parece estar motivando os protestos no Parque Gezi e outras manifestações públicas de desafio ao governo de Erdogan, que já surgem por todo o país. Essas mostras públicas de descontentamento, que se veem no vídeo (a seguir) da noite de ontem, 31/5/2013, não dão sinais de estar arrefecendo.