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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

2015: Motivos para otimismo

6/1/2015, [*] Dmitry Orlov, Club Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Alguns blogueiros têm hoje papel cada dia mais importante, de ajudar a preencher os gigantescos vazios de informação que a imprensa-grande-empresa insiste em manter como tal, quero dizer, como vazios de informação sonegada.



Minha linha de raciocínio não parece aproveitável ou recomendável, se se considera o que todos andam dizendo. Muitos estão convencidos de que 2015 será reprise de 2014 com algumas poucas mudanças para melhor (são previsões sempre seguras, mas chatíssimas de ler), e outros alertam para o perigo de um confronto nuclear entre EUA e Rússia (é possível, com a mesma probabilidade de acontecer que uma colisão de asteroide ou de aparecer uma supernova bem na nossa vizinhança galáctica). Mas até aí é mais do mesmo. A pergunta interessante a ser feita é “O que mudou no terreno em 2014, se é que mudou?”.

Para mim, o desenvolvimento realmente interessante em 2014 é que o mundo como um todo (com poucas e mínimas exceções) tornou-se bastante mais lúcido sobre o tópico “O que os EUA, como império global, são e defendem”. Hoje, já se compreende completamente, em universos mais amplos, que:

1 – Os EUA são império do mal tentando, nem tanto reinar sobre o mundo, mas, mais, destruir o mundo para arrancar vantagens de curto prazo contra todos os demais países.

2 – Os EUA estão falindo, como império e como país, e não há quantidade de fraudes, detonações, torturas e assassinatos que salve os EUA.

3 – Os EUA ainda são bastante poderosos e podem causar desgraça massiva, enquanto vão caindo ladeira abaixo. Essa desgraça pode ser contida, enquanto se fazem planos para um arranjo internacional que surgirá depois de os EUA terem sido descartados.

Se se considera 2013 e antes, esses sentimentos já estavam aparecendo bem manifestos, mas só nas periferias e em tom baixo. A diferença é que em 2014 os mesmos sentimentos tornaram-se conhecimento generalizado, e já apareceram enunciados até de tribunas presidenciais. E ainda mais importante: não se ouvem contra-argumentos! Não escuto uma única voz, que seja, que argumente que os EUA são potência benigna, que estão em ascensão, que não matariam uma mosca e que são e sempre serão o centro do universo. É. Ainda há quem pense assim, mas já não há quem leve a sério tal “pensamento”.

Império do Mal
Ainda há uns poucos redutos sobreviventes: principalmente o Reino Unido, o Canadá e a Austrália. Mas mesmo aí o quadro real aparece sempre distorcido, por causa da imprensa-empresa nacional Murdock-izada que opera por lá. A julgar pelo que ouço do pessoal que vive lá, estão todos quase uniformemente nauseados pela posição de subserviência doentia que seus líderes adotaram ante os EUA.

Quanto à União Europeia (UE), a imagem de uniformidade política que Bruxelas tenta distribuir para o mundo é, em grande parte, ficção. Nos países centrais da Europa Ocidental, líderes empresariais já são, quase uniformemente, favoráveis a cooperação mais próxima com a Rússia, e são contra sanções. Na região não central, nas franjas, países inteiros parecem à beira de mudar de lado. A Hungria – que nunca foi amiga da Rússia – parece hoje mais pró-Rússia que nunca. A Bulgária, que ao longo de séculos manteve atitude de amor-ódio ante a Rússia, parece hoje muito mais tendente ao amor. Até os poloneses dão tratos à bola, coçam a cabeça e se perguntam se cooperação tão íntima com os EUA algum dia seria boa coisa para os interesses nacionais poloneses.

Outra grande mudança que observei é que porcentagem significativa do pessoal que pensa nos EUA já não confia na própria imprensa-empresa norte-americana. Há um certo padrão nas mensagens que se tornam virais e espalham-se alucinadamente por tuítos e pelas chamadas “mídias sociais”. Mensagens marginais, periféricas, devem, por definição, permanecer nas margens.

Até que, ano passado, algo aconteceu: publiquei algumas colunas em que tentava cavar uma via de escape na cobertura que a imprensa-empresa de massas nos EUA fazia dos eventos na Ucrânia; e sempre que publicava colunas daquele tipo, a resposta era avassaladora, surgiam centenas de milhares de novos leitores. Ainda mais importante: muitos deles nunca mais desapareceram e continuaram a visitar o blog querendo mais.

Entendo que isso signifique que o que tenho a dizer, ainda que absolutamente não seja o que a imprensa-empresa capitalista dominante repete e repete, nem por isso é informação marginal, que só interessaria a pequenos nichos especiais de opinião.

Entendo também, por isso mesmo, que muitos blogueiros têm hoje papel cada dia mais importante, de ajudar a preencher os gigantescos vazios de informação que a imprensa-grande-empresa insiste em manter como tal, quero dizer, como vazios de informação sonegada.

Kim Kardashian
É claro que a imprensa-grande-empresa ainda tem importante papel a desempenhar. Por exemplo: sem a imprensa-grande-empresa, eu não saberia o tamanho da bunda de Kim Kardashian. Aí está a grande imprensa-grande-empresa para manter-me bem informado. A bunda de Kim Kardashian canta? Quero dizer: se você está em busca de informação fidedigna sobre essa importante temática, então, sim, a grande-empresa-grande-imprensa nacional norte-americana é sua amiga. Mas para a maioria das questões não relacionadas a bundas, acho que os que comandam os circos político e “midiático” nos EUA infringiram uma regra fundamental; parece que esqueceram, porque foi enunciada pela primeira vez por um norte-americano muito citado, Abe Lincoln:

Abe Lincoln
“É possível enganar todas pessoas por algum tempo, e algumas pessoas, todo o tempo. Mas não é possível enganar todas as pessoas, todo o tempo”.

Caso alguém aí no reino da “mídia” esteja cansado de escrever colunas que só servem para o/a colunista limpar com elas a respectiva Kardashian, eis alguns itens que, se os “jornalistas” quiserem, podem tentar refutar:

1 – A desigualdade econômica TEM DE aumentar sempre, até que a coisa toda desabe, porque só assim é possível continuar a inflar a bolha financeira, enquanto a economia física, real, produtiva, está realmente encolhendo. É totalmente impossível que os ricos gastem na economia real todo o dinheiro que têm.

Em vez disso, os coitadinhos têm de se contentar com investir em itens de luxo, que também não podem usar 24 horas por dia, sete dias por semana, de tal modo que a maioria dos milionaríssimos estão condenados a parar onde estão e deixar-se decair lentamente. Ou, então, eles põem o dinheiro deles em bens de papel de vários tipos – e isso, claro, é ótimo para a bolha financeira. Seja como for, se você vive numa bolha financeira, você tem de avançar, não importa como, contra as mais insuperáveis limitações físicas de terra, energia, água limpa, minas de minérios valiosos e outros itens essenciais para os estoques industriais. Nesse caso, o melhor a fazer é inverter o negócio de Robin-Hood e começar imediatamente a roubar dos pobres para dar aos ricos.

2 – O caos mundial TEM DE SER AUMENTADO SEMPRE, porque é o modo de os militares dos EUA justificarem a própria existência. São militares caríssimos, mas não muito produtivos. (Só o projeto do novo jato de combate F-35 já custou mais de um trilhão de US dólares para ser desenvolvido – e mesmo assim é uma droga de projeto, e é possível que jamais venha a ser construído).

Pois apesar desse gasto alucinado de dinheiro, os militares norte-americanos não conseguem obter uma vitória decisiva, em praticamente qualquer das várias guerras em que estão metidos, não importa quem seja o inimigo, não importa o quanto seja fraco e pobre e miserável, e o máximo que conseguem é sempre um conflito de baixa intensidade, a ser mantido como tal, até que o incêndio novamente recomece a qualquer momento.

MILITARES DOS E.U.A.
Surrando as bundas de mulheres
e crianças civis desde 1950
Provavelmente por causa disso, os militares norte-americanos vivem a ameaçar os fracos e pobres, e usam essas ameaças para obter vantagens financeiras. Mas o único modo de tornar efetivas as ameaças é destruir um ou outro país, regularmente ou com semirregularidade:

“Que lindo país, o de vocês. Odiaríamos convertê-lo em outra Líbia...”

Qualquer confronto com alguma real potência militar – Rússia, China, Índia, até o Irã – está, é claro, completamente fora de questão, porque uma única derrota militar humilhante para os EUA (inevitável, se se considera que os EUA sempre foram derrotados nas guerras em que se meteram com adversários menores e mais fracos), bastaria para pôr abaixo todo o programa do militarismo norte-americano.

3 – Como outro presidente dos EUA (Dwight Eisenhower) disse uma vez: “Se você não consegue resolver um problema, aumente o problema”.

Mas é claro que vez ou outra você tem, sim, de resolver algum problema! Você não pode simplesmente só aumentar e aumentar e aumentar sempre ad infinitum todos os problemas que lhe apareçam.

Nova Melhoria no Memorial Eisenhower
Dwight D. Eisenhower, Presidente Vidente
Sim, mas... Que problemas os EUA resolveram ultimamente? O que está acontecendo de bom no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, na Síria ou na Ucrânia? Nada e nada: tudo só piora a cada dia.

E quanto à reforma financeira no início do colapso de 2008 que apanhou todos de surpresa? Nada.

E já há outro colapso gigante à vista, no formato de fracasso da nascente indústria dofracking, porque o preço do petróleo caiu muitíssimo.

Algo de bom a noticiar sobre a reforma da assistência pública à saúde? Não. A saúde pública está cada vez mais ridiculamente mal feita e mais cara.

Os estudantes estão conseguindo pagar os empréstimos para pagar cursos superiores? Não! Nem perto disso!

E que tal um esforço para reduzir as emissões de carbono, para adiar (já que evitar já se sabe que é impossível) o desaparecimento da costa leste, onde metade de tudo está sendo submerso? Não, não, nem um fiapo de esperança.

Resolveram-se os problemas da dívida pública? Não. Nem se fez qualquer esforço nessa direção. Os EUA continuam na rota para a bancarrota e colapso nacional? Ah, sim, continuam.

Todos os sistemas estão OK. Engatem a marcha e sigam em frente!

Claro que a milhagem varia de pessoa a pessoa, mas descobri número surpreendente de pessoas pelo mundo (embora não especialmente nos EUA) que já estão bem antenadas para todas essas questões. E aí está algo que me faz sentir otimista à espera de 2015.
__________________________

[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak Oil. Em 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, “A Nova Era da Vela”. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Pepe Escobar: “Óscar hora mais escura”


22/2/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar - Russia Today TV

O zunzum em Los Angeles é que Argo ganhará o Óscar, esse ano, de Melhor Filme.


O suspense da CIA dirigido por Ben Affleck já levou o Globo de Ouro de Melhor Filme e os prêmios da Associação de Diretores da América, da Associação de Atores de Cinema e o da Associação de Produtores de Cinema. Só em Hollywood alguém ganha o prêmio de Melhor Filme, sem que o sujeito que fez o filme e organizou tudo para que fizesse sentido sequer seja indicado ao prêmio de Melhor Diretor (o qual quase com certeza irá para o Zeus de Hollywood, Steven Spielberg, por seu Lincoln, épico da Guerra Civil).

Estamos falando de política e cinema? Sim, sem dúvida alguma. É impossível compreender Washington sem consumir algum tempo em Hollywood. Foi o que fiz – do final dos anos 1980, aos primeiros anos 1990s. Nunca sequer me aproximei da Associação da Imprensa Estrangeira em Hollywood [orig. Hollywood Foreign Press Association (HFPA)]: um bando de babacas que orbitam em torno do sistema das grandes “estrelas” e cuja única meta na vida é almoçar e jantar de graça, antes de votar no concurso do Globo de Ouro.

Mesmo assim não perdi um coquetel, nenhum lançamento de filme nos estúdios, nenhuma festa e conheci uma galáxia inteira de estrelas, grandes e mínimas, vi como se acertam os negócios, e participei da peregrinação anual Hollywood-Cannes (para o festival de cinema). Cheguei até a segurar um Óscar na minha própria mão, uma vez, em 1993, emprestado por Emma Thompson, na sala de imprensa, quando se preparava para chamar ao palco seu (então) marido “Kenneth” [Branagh]. O Óscar não é pesado. Nem é lá muito bonito. Mas, sim, é o Santo Graal, como ser recebido na Casa Branca. Se você entender como funciona a indústria em Hollywood, você entende a política de Washington, pode-se dizer, de A a Z.

Falemos então sobre os principais concorrentes políticos do ano: Lincoln, de Spielberg; Argo, de Affleck; e Zero Dark Thirty (ZD30) [port. A hora mais escura], de Kathryn Bigelow.

ET voltar casa...

No ethos de Hollywood, nada é político; tudo tem de ser submetido e subordinar-se aos intoxicantes miasmas do mito do bipartidarismo hipernacionalista. Para Hollywood, guerras e história têm sempre de subordinar-se à ideologia (isso explica por que Apocalypse Now, de Coppola – em que se vê o strip-tease da ideologia – “é” a verdadeira guerra do Vietnã).


Não surpreende que Argo esteja sendo definido em Hollywood conforme o clichê ingênuo, como a “uma crônica liberalmente hollywoodizada”, quando, de fato, não passa de pesada propaganda & promoção da CIA, história de um agente que aparece com um esquema para tirar do Irã alguns diplomatas cercados dentro da embaixada dos EUA durante a crise dos reféns de 1979 no Irã. O plano consiste em fazê-los passarem por – e o que mais seria?! – uma equipe de filmagem saída de Hollywood.

Affleck é visto em Hollywood como um “liberal”, como George “Sudão Livre” Clooney. Longe vão seus dias de garoto propaganda de Nespresso. Cloney – da realeza Hollywoodiana – é um dos co-produtores de Argo, sócio de Affleck e Grant Heslov.

Se se justapõem os dois filmes, Argo é a história de um resgate e A hora mais escura é a crônica de proeza bem-sucedida com desfecho conhecido (aliás, como Lincoln). Argo e A hora mais escura coincidem é na evidência de que ambos os filmes são odes à CIA. Portanto, inevitavelmente, os iranianos mostrados pelo “liberal” Affleck não passam de bando de fanático histéricos, tanto quanto os árabes e paquistaneses mostrados por Bigelow e têm de ser, ou torturados, ou apresentados como permanente incômodo na periferia dos eventos “que contam”.

Argo defende sua aspiração à credibilidade histórica com uma sequência inicial de cinco minutos, coreografada como história em quadrinhos, que ali está para dar “informação” mínima, para que o público “conheça” todas as complexas forças que estavam em ação na revolução iraniana. Dali em diante, a CIA assume as rédeas da história. Esqueçam o contexto – e nem pense em ver ali sequer um personagem iraniano decentemente apresentado como personagem: são sempre hordas, ondas e ondas de massas irracionais, sempre aos berros.

Nem uma palavra sobre o assassinato da democracia iraniana protagonizado pela – e quem poderia ser? – CIA em 1953. Nem uma palavra sobre a política secreta do Xá, a Savak, que “desapareceu”, torturou e matou a mancheias, treinada pela – e quem poderia ser? – CIA.

Interessante lembrar que imediatamente depois da revolução iraniana, durante a Jihad afegã dos anos 1980s, a CIA canalizou rios de dinheiro e armas para jihadistas salafistas, inclusive para um certo Osama bin Laden; e, com a ajuda de dinheiro saudita, promoveu a criação de um monstro à Frankenstein – os Inter-Services de Inteligência do Paquistão (ISI). Hoje, a CIA apoia jihadistas salafistas da Líbia até a Síria – remix do Afeganistão dos anos 1980s.

Essa exploração da CIA não se compara à mensagem (não exatamente subliminal) veiculada pelo “liberal” – além de “progressista” – Affleck. Em Argo, toda a população iraniana é apresentada como terroristas que odeiam “nossos valores”.

Lincoln é tão “liberal” quanto Argo. Mas Spielberg é mestre consumado do fazer cinema, muito mais efetivo no que tenha a ver com manipular emoções. Se Baudrillard ainda vivesse, teria desconstruído Lincoln como perfeito exemplo de história como simulacro.


Lincoln de Spielberg é ícone maior que a vida, um totem a-histórico frente ao qual o público deve prostrar-se ritualmente, parte de um perpétuo sacrifício ante o altar da política, afirmação suprema do sistema político norte-americano. É a representação perfeita do sonho americano e dos valores americanos. Lincoln vai às telas para ser adorado. Lincoln – e não chega a surpreender – é o ET. Suspensão da razão ou descrença? Oh yes, todos temos de continuar enfeitiçados.

Espanque-me com suas baquetas / Hit me with your rhythm stick [1]

Kathryn Bigelow é muito boa diretora de cinema. Seu Estranhos Prazeres [orig. Strange Days (1995)] é, provavelmente, um dos melhores filmes cult dos oscilantes anos 90s governados por William “Bubba” Clinton. Ninguém discorda, em Los Angeles, de que Bigelow é versão feminina do falecido Tony Scott.


Sobre A hora mais escura a questão não é se Bigelow ter-se-ia convertido numa Leni Riefenstahl (desculpe, Leni) norte-americana. A questão é – e nem é preciso consultar o Godard do auge, nos anos 1960s – que tudo se decide na edição do filme (até o que nunca esteve nem no roteiro).

A hora mais escura abre com uma tela negra e áudio de telefonemas aterrorizantes do 9/11. Corte para a tortura de “Ammar” num black site [buraco negro] da CIA, prelúdio da iminente simulação de afogamento. Isso, para dar o tom do filme. A hora mais escura, editado como o filme foi editado, é espantosa, impressionante, assustadora publicidade para a Guerra Global ao Terror de Bush-Cheney.

Naquele imundo país de Oz, a CIA só tortura “terãristas” [2] certificados e comprovados do mal; o governo dos EUA jamais mata civis inocentes; e todos os torturadores, analistas e matadores high-tech são altruístas, imaculados, inatacáveis heróis.

É inescapável: todos têm de amar essa CIA que mentiu incansavelmente até conseguir uma guerra no Iraque; que entregou-se a uma orgia de tortura em incontáveis buracos negros espalhados pelo mundo, depois de incontáveis “entregas especiais” clandestinas de prisioneiros para serem torturados em diferentes locais, por torturadores-parceiros; essa CIA que, agora, mudou-se para uma Guerra de Drones – HUMINT [Human Intelligence Network] é demorado demais e caro demais – para melhorar o próprio desempenho assassino, frequentemente adornado com danos colaterais.

Um tsunami digital foi mobilizado para torturar como se vê em A hora mais escura. Bigelow defendeu as cenas de tortura: “mostrar não significa apoiar”. Sim, mas... outra vez, a coisa começou no roteiro – escrito por Mark Boal, ex agente infiltrado por pouco tempo no Iraque. Para o roteiro, Boal baseou-se em informação de primeira mão, exclusiva, reservada, de quem teve “acesso de primeira mão” aos torturadores da CIA e a várias outras fontes da CIA. Durante vários meses, Boal e Bigelow insistiram que A hora mais escura seria narrativa “factual”, estilo documentário, da caçada a Osama bin Laden, até o desfecho. Mas também disseram que não passaria de um filme.

Nessa matéria do Los Angeles Times vê-se o discurso mais articulado que Bigelow produziu em defesa de A hora mais escura. Ela insiste que “não estava interessada em apresentar essa ação militar como se fosse isenta de consequências morais”. Insiste que A hora mais escura é “rigoroso” – destacando o aspecto “documental” do filme. Insiste também que “sou pacifista e sempre fui, a minha vida inteira”.


Bigelow, sim, filmou A hora mais escura – esteticamente – quase como um documentário. Não mostra a tortura bruta, mas de forma cuidadosamente higienizada. A tortura, nos termos de A hora mais escura, parece inteiramente justificada. Portanto, inteiramente normalizada. Portanto, inteiramente apoiável. Afinal de contas, os torturadores são seres tão humanos – exatamente como os reféns em Argo. Sartre salva todos: o inferno, de fato, são os outros. Especialmente se forem muçulmanos.

Boal e Bigelow também insistiram que trabalharam “jornalisticamente”. É – literalmente – o detalhe que faltava: prova que A hora mais escura é o produto acabado da Guerra Global ao Terror: o jornalismo “incorporado” à guerra. Era uma vez, antigamente, o blues pariu uma cria e deram-lhe o nome de rock'n roll. Nos EUA pós-modernos, o Pentágono pariu o jornalismo “incorporado” à guerra; em seguida, a CIA também pariu: nasceu o cinema incorporado à guerra.

A hora mais escura tem de ser visto como o mais bem acabado produto cinematográfico da era Obama. Os registros mostram como o ícone do “Sim, podemos” com as habilidades retóricas sedosas que se conhecem (acorde, Spielberg! O seu novo Lincoln está aí, bem à mão!) atropelou tudo, da ética ao respeito à lei: não fechou Guantánamo, ao mesmo tempo em que se pivoteava da Guerra Global ao Terror para a guerra clandestina, guerra de sombras, com, inclusive, uma “lista de matar” (não, “nós não torturamos”, disse Obama em entrevista à televisão norte-americana, tendo, como pano de fundo, uma cena de A hora mais escura). Simultaneamente, os grandes patrocinadores e doadores – como no caso da CIA – alegremente chafurdam nos brilhos do mito cinematográfico.

A beleza do negócio todo é que Hollywood, funcionando como funciona, sequer precisa da CIA – ou do Pentágono – como patrocinadores. Hollywood faz a Voz do Dono como operação padrão. E já começa com cartas vitoriosas, tecnicamente – porque ninguém, exceto alguns estranhos épicos europeus e asiáticos, podem competir com Hollywood em termos de qualidade de produção, custos das produções e de know-how para vender recreação.

Ainda assim, Hollywood apresenta-se com orgulho, como “liberal”. Argo talvez leve o Óscar de Melhor Filme, e Spielberg, o de Melhor Diretor. Mas que ninguém se engane: como representação suprema do complexo pós-moderno militar-industrial-de segurança-Hollywoodiano, nada chega sequer próximo de fazer mais bem feito que A hora mais escura.



Notas dos tradutores
[1] Hit Me with Your Rhythm Stick  é um rock punk gravado por Ian Dury and The Blockheads, lançado em novembro de 1978.
[2] Como Bush pronuncia [aproximadamente] a palavra terrorists, objeto de infindáveis piadas nos EUA.