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terça-feira, 5 de novembro de 2013

O futuro do Afeganistão (2/3)

8/10/2013, [*] Nikolai BOBKIN, Strategic Culture  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 



Abdul Rassoul Sayyaf chega a Kabul para se candidatar à presidência do Afeganistão
A volta dos Talibã a Kabul é causa de preocupação especial para a Rússia e os estados vizinhos, da Comunidade de Nações Independentes [orig. Community of Independent Nations (CIN)]. Para Karzai, o Afeganistão é país independente e tem direito de decidir o próprio destino, inclusive o envolvimento dos Talibã no processo político. Está seguro e nada preocupado pelo fato de que, depois da saída da Força Internacional de Segurança [orig. International Security Assistence Force (ISAF)], os Talibã possam voltar à cena política e partilhar o poder. Os que assumiram o governo depois da retirada das forças soviéticas permitiram que o Afeganistão se convertesse numa espécie de criadouro do terrorismo internacional. Eles também se sentiram seguros. Os que antes governaram o país não tinham nenhum desejo político de empurrar a recém obtida independência na direção de trabalhar a favor do povo afegão.

Agora, Karzai está à beira de cometer o mesmo erro; e insiste em que seu governo estaria em condições para assumir total responsabilidade pelo futuro do país. O atual governo afegão opera ao lado de EUA e OTAN, para envolver o país numa confusão cujas consequências são difíceis de prever...

Hamid Karzai
A presteza com que a OTAN liderada pelos EUA optaram por manter a própria presença nos limites da missão de Resoluto Apoio para garantir a transferência para os afegãos da responsabilidade pela segurança não deve passar despercebida. Do mesmo modo, segundo a OTAN, Kabul já é hoje responsável por 90% das operações de combate dentro do país – o que não implica que o regime-fantoche de Karzai seja suficientemente forte para essa missão. A OTAN evidentemente exagera, ao dizer que as forças do governo contariam com o apoio da maioria da população.

O que o ocidente tem dito, que os Talibã teriam apoio só de uma pequena minoria depois de 12 anos de guerra que não trouxeram qualquer resultado tangível, parece ser, antes, mais uma desastrada manobra de propaganda, para encobrir o fato de que a operação comandada pelos EUA fracassou.

Os soldados da ISAF sairão todos, ou alguns permanecerão no Afeganistão, como parte da missão de Resoluto Apoio? Tudo depende dos EUA e do governo de Karzai; e deixarão os Talibã voltar ao país?

Chegou o momento da verdade. Os EUA e a OTAN devem informar a comunidade internacional sobre os resultados da sua presença durante 12 anos no Afeganistão.

Absolutamente não é verdade que a força constituída de 100 mil soldados tenha eliminado a infraestrutura da Al-Qaeda – e esse seria o principal feito do ocidente. O Afeganistão está bem próximo de, outra vez, ver-se dominado pelos Talibã. O movimento é apoiado pelo Paquistão – sua terra natal. Para Islamabad, uma Kabul amigavelmente controlada pelos Talibã é vantagem estratégica. Lembremos que durante os cinco anos de governo dos Talibã, o movimento não conseguiu disseminar seu poder e controle por todo o país, apesar de comandarem as rédeas do poder de estado, aspecto no qual o Paquistão também falhou. 

Atualmente os Talibã contam com apoio internacional muito limitado (da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e do Paquistão, países que ainda não alteraram sua posição). O dinheiro continua fluindo, até agora sem parar, para o Diretorado para Inteligência de Interserviços [orig. Diretorade for Inter-Services Intelligence], os serviços secretos do Paquistão, mais conhecidos como Inter-Services Intelligence ou pela sigla ISI; não raras vezes, o processo escapou completamente ao controle governamental.

Os Talibã são o único instrumento de pressão que Islamabad pode usar para influenciar a política afegã; a elite paquistanesa jamais romperá os laços que a ligam aos Talibã. O Paquistão fará o máximo possível para conseguir a volta dos Talibã, como um dos resultados do processo de reconciliação sob “o comando do povo afegão no papel protagonista”. Isso significa a possibilidade de os Talibã serem escolhidos por via eleitoral, em vários níveis de governo.

A lógica da abordagem dos paquistaneses baseia-se no fato de que os pashtuns são o maior grupo étnico na população do Afeganistão. Poucos falam do fato de que os pashtuns são tão amplamente dominantes na população. Cálculos mostram que o candidato dos Talibã tem boa chance de vencer as eleições de 2014. E, seja como for, a próxima eleição presidencial pode converter-se no principal evento político no Afeganistão. O atual chefe de estado, Hamid Karzai, não exclui a possibilidade de que o próximo presidente venha a sair das fileiras dos Talibãs.

Mulá Muhammad Omar
Pode ser o fundador dos Talibã, Muhammad Omar. Karzai está pronto para cooperar com ele, sob a condição de que os Talibã desistam da luta armada. Há notícias de que os Talibã já iniciaram conversações secretas com o governo. Estariam em andamento em Kabul, não em algum outro país – o que implica que os EUA apóiam o processo. A posição de Mullah Omar antes da retirada vai-se tornando cada vez mais forte; ele sabe que o atual governo é fraco.

Tudo isso implica que os líderes Talibã não desistiram de tomar em suas mãos o poder no Afeganistão e de reviver o Emirado Islâmico. Não há dúvidas de que os Talibã estão decididos a reinserir os métodos de força, na condução do processo político.

O grupo não declarou abertamente que tenha planos de participar nas eleições, mas é opinião generalizada que, se puder candidatar-se, será eleito por ampla diferença. Os Talibã tem muitos apoiadores fiéis entre os eleitores. Mas há outras opções; as escolhas não se limitam aos Talibã e a apoiadores do atual presidente Karzai; outras forças políticas islamistas emergiram, nem muito próximas de Islamabad nem tão radicais quanto os apoiadores de Mulá Omar.

Abdul Rassoul Sayyaf registrou-se como candidato na sede da Comissão Eleitoral Independente em Kabul. É pashtun do vale Paghman e teólogo. Sayyaf é um dos políticos islamistas mais influentes do país; por muitos anos, liderou a facção Mujahedin União Islâmica para a Libertação do Afeganistão [orig.Islamic Union for the Liberation of Afghanistan] em luta contra a União Soviética. Em fevereiro de 1989, foi eleito o primeiro-ministro do governo Mujahedin de transição, quando se associou muito estreitamente aos comandantes afegãos Burhanuddin Rabbani e Gulbuddin Hekmatyar. Sayyaf sempre se opôs aos Talibã e combateu contra eles, associado à Aliança do Norte. Depois que as tropas dos EUA chegaram ao Afeganistão, Sayyaf aliou-se a elas e apoiou Karzai nas eleições.

Antes de se registrar como aspirante à presidência, Sayyaf foi membro da câmara baixa do Parlamento, onde manteve o status de imã conservador e muito respeitado. O comandante de campo Ismail Khan aceitou o convite para integrar a chapa como vice-presidente e para participar de um possível governo Sayyaf, caso sejam eleitos. Ismail Khan sempre foi nome influente na província ocidental de Herat, próxima da fronteira do Irã. Abdul Ahad Irfan, presidente da Câmara Alta do Parlamento e líder da Comissão de Unidade Nacional do Afeganistão, também se registrou como candidato; concorre ao cargo de segundo vice-presidente.

Essas figuras, do triunvirato dos esperançosos podem desafiar os islamistas Talibã nas eleições. Caberá ao povo avaliar a reputação de Sayyaf como líder religioso pashtun e o fato de que mantém amplas conexões com grupos islamistas dentro e fora do Afeganistão. Os eleitores não duvidam de seu importante currículo militar e da influência que tem nas regiões ocidentais do Afeganistão. A juventude islamista vê com simpatia e respeito suas qualificações como intelectual religioso; é hoje uma espécie de novo tipo de pregador religioso, que não participa da tradição Talibã que prega forte rigidez religiosa em todos os aspectos da vida, segundo os padrões morais vigentes ao tempo do Profeta Maomé. Não esqueçamos que os Talibã proibiam as mulheres de saírem de casa. Hoje, mais de 2 milhões de meninas frequentam escolas; mais de 300 mil crianças afegãs mantêm contas Facebook; 70% da população é constituída de jovens de menos de 25 anos. Todos esses fatores pesarão muito, se houver eleições limpas.

Abdullah Abdullah
Se Sayyaf vencer as eleições presidenciais, a coalizão chefiada por ele aprofundará e cimentará laços com a OTAN como organização que garantirá apoio ao Afeganistão em tempos de dificuldades (sinal claro de que espera receber as bênçãos dos EUA). Sayyaf prometeu manter-se fiel ao princípio da igualdade no processe da reconciliação nacional de todas as nacionalidades incluindo os tadjiques, uzbeques e hazaras, que jamais antes tiveram qualquer chance real de ter presidente saído de seus respectivos grupos étnicos.

Dessa vez, Abdullah Abdullah, ex-líder da Aliança do Norte, também concorre. Obteve seu registro eleitoral dois dias antes de Sayyaf. Não se exclui a possibilidade de os dois organizarem alguma espécie de ação conjunta contra os Talibã, os quais jamais partilharam o poder com os vindos do norte do país.

No momento, como mostra a experiência do governo Karzai, é impossível falar sobre unidade afegã sem a inclusão das minorias nacionais e religiosas. Se se criarem determinadas circunstâncias, os eleitores da Aliança do Norte podem vira a apoiar Sayyaf, se não surgir rivais significativos. O ministro de Assuntos Exteriores Zalmai Rassoul; o liberal Ashraf Ghani; Qayum Karzai, irmão do atual presidente, todos concorrem e têm esperanças de ser eleitos. A questão é definir os principais patrocinadores, inclusive os que vivem no exterior.


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[*] Nikolay Bobkin; PhD em Ciências Militares, professor associado e pesquisador sênior no Center for Military-Political Studies, Institute of the U.S.A. & Canada. Colaborador especialista na revista online New Eastern Outlook. Escreve habitualmente para diversos sites e blogs tais como: Strategic Culture, Troubled Kashmir, Make Pakistan Better e muitos outros.

sábado, 26 de outubro de 2013

Pepe Escobar: EUA-Paquistão - um “casamento-drone”

24/10/2013, [*] Pepe Escobar, Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Paquistaneses protestam com slogans anti-EUA, em manifestação em Karachi, dia 23/10/2013, contra os ataques de drones dos EUA, na região tribal do Paquistão
(Foto: Asif Hassan, AFP)
Obama sequer mencionou os “drones” [1], quando conversou com a imprensa, depois de reunir-se com o primeiro-ministro do Paquistão Nawaz Sharif. A culpa então será toda de Islamabad? Na verdade, não.

O primeiro-ministro do Paquistão Nawaz Sharif chegou para o encontro com o presidente Barack Obama na Casa Branca, com uma forte, destacada prioridade: por favor, senhor presidente, ponha fim na sua guerra de drones no meu país.

Portas fechadas para a reunião desta 4ª-feira (23/10/2013), Sharif bem pode ter dito e repetido que a lógica dos mísseis Hellfire não faz sentido algum, nem no quadro alucinado da Guerra Global ao Terror [orig. Global War on Terror (GWOT)] – a qual, na mania do governo Obama de inventar novas siglas para coisas velhas, foi rebatizada como Operações de Contingência no Exterior [orig. Overseas Contingency Operations (OCO)]. Bem pode ter dito que a dronagem, viabilizada agora nas operações OCO, é, de fato o maior obstáculo à paz no Paquistão.

A Casa Branca divulgou sua versão oficial da conversa entre Sharif e Obama. Nada que dê qualquer esperança ou eleve a alma. Conforme o previsto, a dronagem prosseguirá. Obama não pronunciou a palavra “drones”, quando falou aos jornalistas; só platitudes sobre “respeitar a soberania do Paquistão” e instruções para Sharif, o qual “deve verificar esses incidentes no interior do Paquistão e pôr fim à exportação de terrorismo.” Mas a reunião não foi completo fracasso para Islamabad.

Nawaz Sharif (E) e Barack Obama (D) em 23/10/2013
“Tiro duplo” (Orig. Double tap) e se-segure [2]

Pouco antes do encontro Obama-Sharif, a Anistia Internacional divulgou relatório devastador, no qual questiona não só o idioma “legalês”, que é marca registrada do governo Obama para defender os ataques de drones contra as áreas tribais do Paquistão, mas, também, diz o óbvio: os responsáveis – desde os operadores dos joysticks no deserto de Nevada, até os moradores da Casa Branca, todos eles – podem vir a ser julgados por crime de guerra.

E esse nem é o relatório mais devastador já publicado. Basta compará-lo com o resultado, publicado em setembro de 2012, de uma investigação conjunta feita por especialistas da faculdade de Direito de Stanford e da New York University School of Law, “Living Under Drones” [A vida abaixo dos drones], que concluiu que só 2% das pessoas incineradas por mísseis Hellfire eram “terroristas”. Muitos eram vítimas do temido “tiro duplo” – o segundo ataque, que vem imediatamente depois do primeiro e invariavelmente mata legiões de civis passantes e presentes na cena do primeiro ataque, e socorristas.

Miram Shah, nas áreas tribais do Paquistão, a apenas 16 quilômetros da fronteira afegã, pode ser definida como a capital drone do planeta. Em Miram Shah, os mísseis Hellfire já incineraram, dentre outras construções, uma padaria, uma escola para meninas e um mercado de moedas estrangeiras. O exército do Paquistão já desabilitou a rede local de celulares, e os Talibã fecharam os internet-cafés: jovens demais, assistindo a pornografia. O governo Obama insiste em que o festim de Hellfires seria “cirúrgico” e “contido” – e que matou “dúzias” da al-Qaeda e dos Talibã. Para Sharif, Obama, no máximo, admitiu que “houve erros”.

Em princípio, Sharif conserva posição forte na Assembleia Nacional do Paquistão, representando, principalmente o poderoso Punjab, muito populoso (de onde, aliás, saem a maioria dos soldados do exército paquistanês). Convocou uma “conferência de todos os partidos” para tentar resolver o dilema do terrorismo no Paquistão. Implica, necessariamente, conversar com os Talibã.

O líder dos Talibã (ou Tehrik-i-Taliban Pakistan, que é o nome completo da organização ali), Hakimullah Mehsud, disse bem claramente o que pensa e de que ponto parte.

Essencialmente, os Talibã vêem Islamabad como um bando de infiéis e capachos dos EUA, todos a serem combatidos. Por isso estão em guerra. É como se Mehsud tivesse lido o relatório, segundo o qual Islamabad apoiou “secretamente” a ofensiva dos drones da CIA.

O pessoal da segurança do Paquistão examina um drone norte-americano de vigilância que caiu em território do Paquistão, a dois quilômetros da fronteira, na cidade de Chaman, na província do Baluquistão, onde os insurgentes são muito ativos, dia 25/8/2011.
(Foto Asghar Achakzai, AFP)
O que os Talibã querem é a lei da Xaria, exatamente o que a maioria absoluta da população paquistanesa rejeita.

Para complicar ainda mais, ninguém sabe se os Talibã (que negaram), ou alguma facção extremista, está por trás de uma recente onda de ataques com suicidas-bomba e explosões de carros, que incluiu um ataque horrendo ao bazaar de Qissa Khwani – “Mercado do Contador de Histórias” – em Peshawar, a rainha das cidades dos pashtuns.

Permanece o fato de que o que está agora acontecendo é só um prelúdio da disputa pela primeira posição na largada da corrida que se iniciará depois da dita retirada dos EUA do Afeganistão, no final de 2014.

Depois da reunião com Sharif, a ênfase criptográfica de Obama, que se disse “confiante” de que haverá alguma solução “boa para o Afeganistão, mas que também ajude a proteger o Paquistão no longo prazo”, só fez confundir ainda mais uma questão já intratável.

A lógica simplista em Washington é que a “estabilidade” no Paquistão depois de 2014 “protegerá” o Afeganistão de tornar-se, outra vez, um paraíso jihadista.

Hamid Karzai
Ao mesmo tempo, Washington e Islamabad sonham com alguma espécie de partilha de poder entre quem venha a suceder Hamid Karzai em Kabul, e os Talibã afegãos. E assim, como num passe de mágica, sumiria a jihad transfronteira Afeganistão-Paquistão.
O que esse róseo cenário esquece é que a questão chave não é a jihad. A questão chave é o que querem os pashtuns armados dos dois lados daquela fronteira artificial que os britânicos inventaram.

O Talibã Afegão quer voltar ao poder (e tem boa chance). O Talibã Paquistanês quer a lei da Xaria (o que não obterá) e não tem sequer alguma mínima chance de chegar ao poder. E quanto aos EUA “gerenciarem” o que aconteça simultaneamente no Afeganistão e no Paquistão... é a maior piada do século 21.

Vejam quem fala

Sirvamos, pois, uma chávena de chá verde, como fazem em Peshawar, e vejamos quem diz o quê a quem. O governo Obama, acompanhando os mais ardentes desejos do Pentágono, reza para conseguir assinar um acordo de segurança com Karzai – o qual implicará manter “forças” dos EUA em solo. Não surpreende que o líder supremo dos Talibã, Mullah Omar, já tenha dito que, isso, é não-não.

O plano B é alguma espécie de subacordo a ser alcançado como parte da lua-de-mel em curso entre Washington e Teerã, pressupondo que perdure. Implicaria uma forte presença do Irã num Afeganistão-pós-OTAN. E, outra vez, espaço político zero para os Talibã.

Islamabad, de sua parte, quer conversar com os Talibã no Paquistão – mas eles não estão para conversas. Ao mesmo tempo, Islamabad vive aterrorizada pela possibilidade de que a Índia venha a ter ainda mais influência num Afeganistão-pós-OTAN.

Nessa linha, Islamabad não ficaria totalmente infeliz se os Talibã – seus ex-clientes nos anos 1990s – monopolizassem completamente o poder no Afeganistão-pós-OTAN. O problema chave continua a ser o Talibã Paquistanês. Se a conversa no Afeganistão é confusa, no Paquistão é inexistente. A única opção de vitória para Islamabad seria convencer Obama a pôr fim à guerra dos drones; e conseguir que o Exército Paquistanês, sozinho, acabe com os Talibã paquistaneses; ou dar a eles tudo que eles querem nos Waziristões. Não parece possível nem viável.

Um jovem paquistanês, do grupo islamista radical e proscrito Jamaat ud Dawa (JD) ergue uma bandeira de um drone dos EUA, em protesto em Lahore contra os ataques de drones nas áreas tribais do Paquistão, dia 5/7/2013
(Foto Arif Ali, AFP).
E é aí, afinal, que se pode ver a real agenda de Washington. Aconteça o que acontecer, Islamabad sempre poderá ser diagnosticada como incapaz de ajudar a “estabilizar” o Afeganistão nem, sequer, o próprio Paquistão. Assim sendo, o que fará a mais benigna das superpotências? Será obrigada, altruisticamente, a continuar “envolvida” no Af-Pak – claro, para sempre.

Em resumo: o presidente Sharif vai a Washington falar sobre o fim dos drones, menos ajuda e mais comércio – porque há uma porta aberta, principalmente para os têxteis do Paquistão (mas dará em nada). E Obama só quer falar de terrorismo e de uma vaga “estabilidade” depois da retirada dos soldados dos EUA, do Afeganistão, em 2014.

Comparem isso e a visita de verão de Sharif a Pequim. A economia paquistanesa está em situação de desastre absoluto. Precisa desesperadamente resolver os racionamentos de energia elétrica e de combustível, antes de poder começar a sonhar com qualquer progresso econômico. Sharif então vai a Pequim e obtém que os chineses envolvam-se em todos os campos da economia do Paquistão, de energia a infraestrutura. E até brada que:

(...) o corredor econômico que parte de Kashgar [em Xinjiang] até Gwadar [no Oceano Índico] muda o jogo (...). É hora de nossos dois países avançarem em maior velocidade.

No que tenha a ver com a visita de Sharif aos EUA, a coisa andou em velocidade de estacionamento lotado.

Os norte-americanos já começaram a dar tiros nos drones. Ainda que os Talibã paquistaneses aproveitem a ideia e passem a usar suas Kalashnikovs para a mesma finalidade, nem assim os problemas de Sharif estarão mais perto da solução.




Notas dos tradutores

[1] Drone (ing.) é o substantivo que, predominantemente, designa a abelha-zangão, com uma conotação de “zumbido monótono”. Vítimas sobreviventes de ataques por drones e/ou quem vive em áreas constantemente sobrevoadas por drones (por exemplo, no Paquistão e nos territórios palestinos ocupados por Israel) frequentemente se queixam do som que os drones emitem, em sobrevoo, que é tormento ininterrupto, e que mantém as crianças em estado de pânico dia e noite. Como verbo (ing.), to drone tem significado bem próximo de “vadiar”, andar à toa.
A palavra drone também é usada, em inglês, para designar os robôs aéreos armados, comandados à distância, por controle remoto, que os EUA (mas não só) usam atualmente em invasão por ar em territórios palestinos, no Paquistão e, provavelmente, em outros lugares. O drone é a arma de eleição para os assassinatos premeditados [“targeted killing”] de indivíduos cujos nomes apareçam na “lista de matar” que, às 3as-feiras, o presidente Obama examina na Casa Branca, com assessores, para definir seus alvos.
Nessa acepção, usa-se a palavra drone para designar “veículos aéreos armados comandados por pilotos que operam um joystick, de controle remoto, de uma base da CIA no deserto de Nevada”.
Os drones são hoje produzidos, predominantemente, pelas empresas Lockheed Martin, Boeing, Raytheon e Northrup Grumman.
[Informações da Wikipedia e outras fontes].

[2] Orig. hang five. É uma posição, sobre a prancha de surf, em que o surfista agarra-se à cabeça da prancha com cinco dedos. Aqui, oferecemos uma tentativa de tradução. Correções e comentários são bem-vindos.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista político do blog Tom Dispatch e correspondente das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Prossegue a farsa do Acordo “Estado das Tropas” (SOFA) no Afeganistão

13/10/2013, Moon of Alabama –
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
John Kerry e Hamid Karzai em 12/10/2013
O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, esteve no Afeganistão, para convencer o presidente afegão, Hamid Karzai, a assinar um Acordo “Estado das Tropas” [orig. Status of Force Agreement (SOFA)] que permita que tropas dos EUA permaneçam no país depois do fim da retirada, em 2014. Apesar de a longa reunião ter sido apresentada como um sucesso, a questão central absolutamente não está resolvida:
Essa noite alcançamos um certo tipo de acordo – disse Karzai através de um intérprete. – Os EUA não mais comandarão operações. Providenciamos uma garantia escrita da segurança do povo afegão. E obtivemos uma clara definição de invasão.
Kerry e Karzai conseguiram romper um impasse nas negociações durante dois dias de conversações intensivas na capital afegã, com o prazo final de 31/10 já se aproximando, para que os EUA consigam manter soldados em solo afegão, depois da retirada das forças de combate em 2014. (...)
A questão que se destaca é a da jurisdição – disse Kerry numa conferência de imprensa, à noite, ao lado de Karzai. Somos forçados a declarar que, se a questão da jurisdição não puder ser resolvida, infelizmente não poderá haver acordo de segurança bilateral.
Loya Jirga é uma reunião dos chefes das várias comunidades da sociedade afegã
Os EUA querem que o Afeganistão dê imunidade aos seus soldados e que quaisquer crimes de que venham a ser acusados sejam processados e julgados em tribunais norte-americanos. Karzai não pode aceitar tal exigência. Ele convocará uma assembleia, Loya Jirga, para decidir e também pedirá que o Parlamento se manifeste sobre a questão. Implica que os EUA terão de pagar muitas e caras propinas, para obter o resultado que deseja. Mas ainda que pague e o resultado das votações lhe seja favorável – o que duvido que venha a ser – nem assim se superará o problema das hostilidades contra os norte-americanos.
Mulá Omar, lider Talibã
Em sua mensagem do Eid, Mulá Omar, líder dos Talibã, alertou contra os riscos de o governo de Karzai aceitar a exigência dos EUA:
O governo de Kabul e os invasores, não satisfeitos com criar confusão no plano doméstico afegão, estão também marginalizando o país nos planos regional e global, assinando entre eles acordos coloniais e, assim, criando cada dia mais razões para que a guerra continue. Por tudo isso, os invasores e seus aliados devem compreender que o acordo estratégico terá graves consequências para eles. Por mais que produzam esses documentos carimbados por uma falsa Loya Jirga, eles jamais serão aceitáveis para os afegãos.
Ao longo da história, os reais representantes e as Loya Jirgas afegãs jamais assinaram documentos de escravização. Portanto, os que assinem esse [acordo] não podem ser considerados Loya Jirga representativa do país. Suas decisões não são aceitáveis. Os invasores devem saber que suas bases limitadoras jamais serão aceitas. A atual Jihad continuará contra eles, ainda com mais ímpeto.
Militares (Rangers) dos EUA mortos quando atacavam uma residência no Afeganistão
Essa resistência prometida ainda parece forte e, de fato, parece ainda mais forte que antes. Há uma semana, no que parece ter sido emboscada bem organizada, quatro Rangers dos EUA, considerados forças de elite, foram mortos, e 13 ficaram feridos, num raid contra uma casa:
Um regimento de Rangers, que incluía 36 soldados e uma unidade canina estava tentando capturar alvo considerado de alto valor em Panjwai no sul do Afeganistão. Quando os soldados chegaram à casa, segundo informaram oficiais militares dos EUA, a unidade apresentou-se com o chamado típico, exigindo que todos os que lá estivessem saíssem da casa.
Apareceu um homem. Notícias do local sugerem que o homem ajoelhou-se e ergueu a camisa, para mostrar aos soldados que não estava usando colete-de-explosivos.
Vários Rangers aproximaram-se do homem para começar a interrogá-lo. Nesse instante, saiu da casa uma mulher vestindo um colete de suicida e se autodetonou, matando instantaneamente vários membros da unidade, com o cachorro, e ferindo outros.
...
Unidades médicas, especialistas em explosivos e outras unidades aproximaram-se para ajudar os feridos. E 13 dispositivos explosivos improvisados [ing. Improvised Explosive Devices, IEDs] foram detonados, matando e ferindo mais soldados dos EUA.
Havia ali 13 bombas de fabricação doméstica, além de uma suicida-bomba, à espera do ataque pelos Rangers norte-americanos. Houve grave falha de inteligência, ou os soldados não teriam sido apanhados naquela armadilha tão cuidadosamente montada. O que se vê mais uma vez é que o inimigo dos EUA no Afeganistão ainda consegue ter a iniciativa e continua com capacidade para infligir baixas significativas. 
Trabalhador afegão passa pela guarda do local onde se realizava a reunião Kerry-Karzai 
Qualquer vestígio de coturnos norte-americanos no solo afegão sempre estará sob ameaça constante. Mais um soldado dos EUA foi morto hoje, no 15º ataque de soldados afegãos contra soldados norte-americanos, só esse ano. 
Que importância teria o Afeganistão, para que o governo Obama tanto insista nessa continuada participação dos EUA na guerra? Depois de 12 anos inteiros, não se viu sucesso algum no Afeganistão, apesar das centenas de bilhões gastos ali. Por que continuar por mais tempo, se os custos são tão imensos?