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domingo, 3 de maio de 2015

Primeiro mês de guerra no Iêmen

28/4/2015, [*] Nikolai BobkinStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Iemenitas buscam sobreviventes nos escombros dos bombardeios sauditas
A guerra no Iêmen começou há um mês. O conflito muito provavelmente avançará para outros pontos no Oriente Médio. O confronto entre Arábia Saudita e Irã aprofunda-se. Apoiadores do Estado Islâmico criaram novo grupo chamado Soldados do Califado no Iêmen. O movimento de xiitas Ansarallah (que os sauditas chamam de “os houthis”) prepara-se para atacar a Arábia Saudita, em retaliação pela guerra contra o Iêmen.

Teerã compreende que os EUA puseram-se por trás da Arábia Saudita, incitando os sauditas a iniciarem a guerra. O Irã não cederá. No momento, Teerã está tomando como seu principal objetivo o fim do bloqueio do Iêmen, por mar e ar. O Ministério de Relações Exteriores do Irã convocou o chargé d’affaires saudita para oficializar o protesto de Teerã contra a interceptação de aviões iranianos, por aviões sauditas, no espaço aéreo do Iêmen, inclusive de um avião que levava ajuda humanitária a iemenitas feridos em guerra. Os diplomatas iranianos lembraram ao chargé d’affaires saudita que os voos iranianos para o Iêmen tinham todas as permissões necessárias para voar pela rota Omã-Iêmen e a ação era coordenada com as organizações humanitárias Cruz Vermelha e Crescente Vermelho.

Alto funcionário iraniano diz que o bloqueio saudita contra o Iêmen e a ação de impedir a entrega de ajuda humanitária que a República Islâmica enviava ao país devastado pela guerra não ficarão sem resposta.

Estamos considerando todas as opções para manter a ajuda ao povo do Iêmen, com entrega imediata de ajuda humanitária e transferência dos feridos, disse o Vice-Ministro iraniano de Relações Exteriores para Assuntos Árabes e Africanos, Hossein Amir-Abdollahian, dia 26/4/2015.

As observações de Amir-Abdollahian vieram depois que jatos sauditas interceptaram um avião iraniano que levava ajuda humanitária ao Iêmen e impediram que entrasse no espaço aéreo do Iêmen na 5ª-feira, dia 23/4/2015. Agora o Irã pode decidir que seus aviões de carga voarão com escoltas. E a medida pode rapidamente levar a confronto direto com os aviões sauditas.

O Irã ainda tem navios no Golfo de Aden. A 34ª flotilha (o destroier Alborz e o porta-helicópteros de combate Bushehr) substituiu a 33ª flotilha que permaneceu na região por 77 dias. O comandante da Marinha do Irã, almirante Habibollah Sayyari, disse que entre seus objetivos estão ações de combate à pirataria e para garantir a segurança de naves iranianas em alto mar.

Os navios iranianos Alborz e Bushehr navegam no Golfo de Aden em 26/4/2015
Um oficial saudita alertou os navios de guerra iranianos enviados para o Estreito de Bab El-Mandeb e o Golfo de Aden para que não entrem em águas do Iêmen.

Os navios iranianos têm direito de permanecer em águas internacionais, mas não serão autorizados a entrar em águas territoriais do Iêmen, disse o porta-voz das forças da coalizão anti-houthis liderada pelos sauditas, brigadeiro-general Ahmed Asiri, a jornalistas, em Riad.

O presidente do Irã, Hasan Rouhani criticou duramente a agressão saudita contra o Iêmen, destacando que Riad partiu para o ataque, porque não conseguiu realizar nenhum dos seus desejos para a região.

Destruir a infraestrutura de país empobrecido e matar crianças, mulheres e homens não faz sentido algum. Só demonstra que um país está totalmente desequilibrado. Não há outras interpretações possíveis – disse o presidente do Irã.

O Irã mantém navios na região desde 2008, em ação que está em perfeito acordo com a Resolução do Conselho de Segurança da ONU.

A Guerra no Iêmen já provocou aumento na disseminação do extremismo na região. O movimento dos jihadistas está em ascensão. Uma nova divisão do grupo Estado Islâmico recém anunciada, autodesignada como “Brigada Verde”, atacou os houthis. Apoiadores do Estado Islâmico intensificaram atividades em outros países do Oriente Médio.

A liderança do HAMAS declarou-se preocupada com o surgimento de grupos jihadistas em Gaza. O Estado Islâmico deseja ampliar sua presença naquela região. Cairo já estendeu o estado de emergência pela Península do Sinai, onde islamistas continuam a confrontar as forças do governo. 

O Estado Islâmico aproveita-se, para expandir-se no momento em que a agressão contra o Iêmen desestabilizou gravemente todo o Oriente Médio. É informação relevante para a Arábia Saudita. A ameaça terrorista tornou-se aguda. Pela primeira vez os terroristas ameaçam diretamente a própria existência da família real. Dia 21/4/2015 o Ministro saudita do Interior informou pelo seu website que forças de segurança estavam em alerta, depois de informes sobre ameaças a instalações de petróleo e shopping malls por todo o reino. O estado de emergência já foi declarado em várias áreas no sul do país.

Sauditas informaram deter 93 terroristas do ISIS
No fim de semana passado, policiais foram mortos em ataque do Estado Islâmico. As forças de segurança sauditas impediram um ataque terrorista que estava sendo preparado por afiliados do Estado Islâmico, informou um porta-voz do Ministério do Interior. A “operação terrorista” incluiria sete carros-bombas que explodiriam em diferentes pontos do reino; e Riad também anunciou que um dos suspeitos presos confessou ter matado dois oficiais de polícia num ponto de controle na capital saudita no início do mês corrente.

Grupos islamistas na Líbia, Argélia, Egito, Uzbequistão e Nigéria (o Boko Haram) puseram-se sob o comando do Estado Islâmico. O próximo país alvo é a Arábia Saudita. O Grande Muftida Arábia Saudita, Abdul-Aziz ibn Abdullah Al Shaykh, disse que os militantes do Estado Islâmico são os inimigos do Islã. E que Riad continua a combater contra os houthis no Iêmen.

Os rebeldes xiitas houthis no Iêmen ameaçaram atacar a Arábia Saudita se não forem suspensos os bombardeios no Iêmen. O grupo zaidista fez chegar a ameaça a Riad e exigiu que o diálogo político intermediado pela ONU seja retomado no Iêmen.

Os houthis “atacarão militarmente a Arábia Saudita, se não pararem os ataques aéreos contra o Iêmen” – disse Mohammed Bahiti, membro do movimento Ansarallah, ao canal de TV Al-Mayadeen. Bahiti destacou que os rebeldes houthis “não carecem de mísseis” para fazer o que dizem que farão, referência aos depósitos militares iemenitas destruídos nos ataques aéreos. Ele também rejeitou comentários de que a Operação Tempestade Decisiva, liderada pela Arábia Saudita, conseguira destruir as capacidades militares dos rebeldes houthis.

A Arábia Saudita é vulnerável à desestabilização das áreas habitadas pelos xiitas. Teerã diz que a luta interna entre os príncipes sauditas recomeçou e escalou. A crise interna interessa, sobretudo, aos interessados em derrubar o rei Salman.

A Arábia Saudita jamais conseguirá derrotar os houthis se não tiver coturnos em solo. Os aliados dos sauditas não dão sinal de qualquer disposição para oferecer tropas de chão à guerra dos sauditas no Iêmen. Qatar, Bahrain, os Emirados Árabes Unidos não têm capacidade para sustentar guerra de solo em grande escala. Não bastariam dois, três batalhões.

Estreito de Bab El-Mandeb e o Golfo de Aden
Esse primeiro mês de guerra no Iêmen mostrou que esses estados não têm qualquer desejo de envolver-se mais profundamente no conflito iemenita sob a bandeira do Reino Saudita. Egito, Turquia e Paquistão continuam a observar a situação, que vai degenerando. Não têm pressa alguma para iniciar confronto direto com o Irã. 

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[*] Nikolai Bobkin é Ph.D. em Ciências Militares, professor associado e pesquisador sênior no Center for Military-Political Studies, Institute of the U.S.A. & Canada. Colaborador especialista na revista online New Eastern Outlook. Escreve habitualmente para diversos sites e blogs tais como: Strategic Culture,Troubled Kashmir, Make Pakistan Better e muitos outros.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

EUA respondem com escalada no conflito no Iêmen

Nikolai Bobkin, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Consequências do bombardeio saudita em áreas civis em Sanaa, Iêmen
Os EUA estão expandindo sua participação nos eventos no Iêmen. Há notícias de que um porta-aviões norte-americano foi despachado para a costa do Iêmen dia 20/4/2015, para se juntar a outros navios americanos preparados para bloquear quaisquer carregamentos de armas que o Irã envie aos rebeldes xiitas “houthis” que lutam no país. O USS Theodore Roosevelt e seu navio-escolta, o USS Normandy, que transporta mísseis Cruisers teleguiados, deixaram o Golfo Pérsico dia 19/4/2015, em rota para o Mar da Arábia, para ajudar a impor o bloqueio. Os navios vão-se juntar à força naval de sete navios de guerra e três embarcações auxiliares implantados no Mar da Arábia, Golfo de Aden e estreito de Bab-el-Mandeb.

Formalmente, a missão visa a garantir que as rotas marítimas vitais da região permaneçam abertas e seguras. A declaração emitida pelo Centro de Relações Públicas do Comando das Forças Navais dos EUA enfatiza que os Estados Unidos continuam comprometidos com seus parceiros regionais e trabalham para manter a segurança no ambiente marítimo.

Mas o verdadeiro propósito do bloqueio naval é impedir o acesso de navios iranianos aos portos iemenitas e privar o movimento Ansarullah [“houthis”, para os sauditas] de qualquer ajuda que o Irã lhe envie.

A Arábia Saudita não está à altura da tarefa. E mais uma vez, lá estão os EUA postados como reforço, ao lado dos inimigos do Irã. Riad sente-se muito confortável sob a proteção dos EUA.

Essa é evolução perigosa, que pode agravar a situação. A Casa Branca deu mais um passo irrefletido, apressado e temerário, na direção de aprofundar o apoio que dá à Arábia Saudita em seu confronto com o Irã. Por alguma razão, o governo dos EUA parece ter certeza de que as tensões regionais exacerbadas, como resultado do conflito no Iêmen, jamais ameaçarão o acordo nuclear com o Irã. Teerã pensa diferente.

MRE do Irã, Mohammad Javad Zarif
NYTimes - 20/4/2015
É tempo de os EUA e seus aliados escolherem entre cooperação e confrontação – como escreveu o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, em referência às negociações nucleares em curso, em coluna assinada no New York Times“Mensagem do Irã”, de ontem, 20/4/2015:

Chegamos a um acordo sobre os parâmetros para eliminar qualquer dúvida sobre a natureza exclusivamente pacífica do programa nuclear do Irã” – escreveu Zarif; o povo iraniano fez sua parte para facilitar um acordo; agora, a responsabilidade recai sobre os EUA e seus aliados, para levar o processo à conclusão que interessa a todos.

É hora de os EUA e seus aliados ocidentais escolherem entre cooperação e confrontação, entre negociações e arrogância, entre acordo e coerção – escreveu o ministro iraniano.

Depois de lançada a campanha aérea contra o Iêmen, diminuiu consideravelmente a intensidade dos ataques aéreos contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Com a unidade de combate USS Theodore Roosevelt deixando a posição original, o Pentágono realmente parou de lutar contra os militantes islâmicos do Estado, e passa agora a participar da operação contra os xiitas do movimento Ansarullah [“houthis”, para os sauditas]. Aquela unidade de combate naval era a principal força de ataque na operação contra o Estado Islâmico. A Casa Branca prevê que as tensões entre a Arábia Saudita e Irã entrem em escalada.

No Iraque, Riad adotou a política de incitar à violência grupos políticos, tribos e clãs, atiçando uns contra os outros, para assim empurrar o país para um atoleiro de caos e tumultos, depois que as forças norte-americanas partiram.

O presidente Obama diz que os Estados Unidos teriam “renovado nossas alianças da Europa para a Ásia”. Não há motivo algum para considerar que isso seja relevante no caso do Oriente Médio. Como antes, os Estados Unidos baseiam-se em alianças militares com Israel e Arábia Saudita. Nada faz crer que os progressos alcançados nas negociações nucleares com o Irã levarão a reduzirem-se as tensões, no que tenha a ver com outros problemas regionais. Nada há, à vista, que sugira normalização das relações EUA-Irã.

Iêmen: resultado do bombardeio Saudita em Saada
16/4/2015
No Iêmen, o governo dos EUA apoiam a operação militar contra os xiitas que controlam a maior parte do país e dão combate aos terroristas da Al Qaeda. É verdade que os Estados Unidos não põe coturnos em solo, como fazia no início do século. Mas a estratégia não mudou. Apenas que, agora, Washington terceirizou o trabalho sujo.

A perspectiva de algum excelente acordo nuclear com o Irã continua puramente hipotética. Dever-se-iam criar novas formas de cooperação regional, para que o acordo fosse ponto de virada no processo de produzir paz para o Oriente Médio. Os americanos acreditam que conseguiriam levar Teerã a esquecer os seus próprios interesses nacionais. O “ocidente” reluta em está relutante em levantar as sanções, porque sem elas perderia influência sobre Teerã. Todas as propostas e iniciativas do Irã para melhorar a segurança regional são recusadas sem sequer receberem qualquer consideração séria.

Dia 14/4/2015, o Conselho de Segurança da ONU impôs um embargo de armas contra os rebeldes do movimento Ansrarullah (“houthis”, para os sauditas e para a empresa-mídia em todo o mundo) e incluiu em sua lista negra, o nome do filho de um ex-presidente do Iêmen e atual líder dos “houthis”. A resolução insiste que os “houthis”, que têm base no noroeste do Iêmen, para que entreguem as áreas que tomaram, bem como suas armas, inclusive “sistemas de mísseis” (sic). Governos árabes declararam que a resolução teria sido “vitória diplomática”.

A resolução permite aumentar a pressão sobre o movimento Ansarullah. Mas a Rússia não está satisfeita com a tal resolução. De acordo com o Vice-Chanceler russo, Gennady Gatilov, é resolução tendenciosa, que condena muito enfaticamente os “houthis”. Para Moscou, a resolução não facilita nem promove as medidas necessárias para superar a crise no Iêmen. O texto não considerou as propostas da Rússia, não exige um cessar-fogo, não considera devidamente as consequências nem a urgência de declarar-se uma pausa para ajuda humanitária. E não fez adequada referência às sanções.

Ban Ki-Moon e Javad Zarif (E) 19/1/2014
De modo geral, o Irã fez eco à posição dos russos. O governo iraniano enviou carta ao Secretário-Geral da ONU, com propostas sobre a gestão da crise no Iêmen. O Ministro das Relações Exteriores do Irã, dia 17/4/2015, entregou carta ao Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, na qual os iranianos oferecem plano de paz de quatro pontos, para o Iêmen. O plano, que o chanceler Mohammad Javad Zarif anunciou no início deste mês, prega cessar-fogo imediato e fim de todos os ataques militares estrangeiros; assistência humanitária; retomada do amplo diálogo nacional e “estabelecimento de um governo inclusivo, de unidade nacional”.

É imperativo que a comunidade internacional envolva-se mais efetivamente no trabalho de pôr fim aos absurdos ataques aéreos e de estabelecer-se um cessar-fogo, que permita que o povo do Iêmen receba assistência humanitária e médica, e que se restaurem a paz e a estabilidade no país mediante diálogo e reconciliação nacionais sem pré-condições – escreveu Zarif naquela carta.

De modo algum o Iêmen pode tornar-se trampolim para que a Arábia Saudita ataque o Irã. Se os americanos prestassem, pelo menos, alguma atenção ao plano do Irã para uma solução pacífica no Iêmen, não estariam hoje obrigados a dar conta de uma situação criada pelos seus “parceiros” árabes excessivamente agressivos.

  Barack Obama e Salman Al Saud, rei da Arábia Saudita
Os EUA devem olhar para o futuro, não para o passado. Os EUA têm feito mais mal que bem ao Oriente Médio. O presidente Obama gosta de repetir que, quando chegou ao poder, havia mais de 180 mil soldados dos EUA no Iraque e no Afeganistão, e que agora o número de soldados é inferior a 15 mil. Muito mais importante seria reconhecer que nenhum desses países conseguiu, até hoje, pôr fim a guerras civis.

Os EUA gastaram mais de 800 bilhões na “Operação Liberdade Duradoura”. A situação do Iraque não melhorou. Não há, à vista, qualquer possibilidade de normalização. No Iraque, os jihadistas do Estado Islâmico controlam um terço do território do país, além de grandes áreas também em território sírio. É bem real a ameaça de que se alastrem por toda a região os ataques daquele grupo terrorista.

Depois de terem desencadeado mais uma guerra agora no Iêmen, os EUA e seus aliados só fazem acrescentar gasolina ao fogaréu.

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[*] Nikolai Bobkin é Ph.D. em Ciências Militares, professor associado e pesquisador sênior no Center for Military-Political Studies, Institute of the U.S.A. & Canada. Colaborador especialista na revista online New Eastern Outlook. Escreve habitualmente para diversos sites e blogs tais como: Strategic CultureTroubled Kashmir, Make Pakistan Better e muitos outros.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Iêmen ou Irã: Quem está na mira dos EUA?

1/4/2015, [*] Nikolai BOBKINStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Os EUA bombardeiam Bagdá (ao vivo)
A situação no Oriente Médio só deteriorou desde a invasão dos EUA ao Iraque em 2003. Tudo o que aconteceu na região depois dali foi resultado da intervenção dos norte-americanos nos assuntos internos de países do Oriente Médio, seja Tunísia, Líbia, Egito, Síria ou Iêmen. Em entrevista à VICE News, o presidente Obama disse que:

(...) o crescimento do Estado Islâmico (EI, também chamado ISIS/ISIL) pode ser conectado diretamente à excursão dos EUA ao Iraque no governo Bush.

Duas coisas: uma, que o ISIL é desdobramento direto da Al-Qaeda no Iraque, que cresceu a partir de nossa invasão – disse Obama. Aí está exemplo de consequência não desejada. E é por isso que é preciso fazer mira, antes de atirar (????). Assista vídeo a seguir, em inglês:


Ao apoiar a operação contra o movimento dos houthis, os EUA correm, novamente, grave risco de novas “consequências não desejadas”. Não há dúvidas de que o movimento dos houthis é a única força no Iêmen capaz de fazer frente à Al-Qaeda na Península Arábica [orig. Al-Qaeda in the Arabian Peninsula (AQAP)] e ao Estado Islâmico. O presidente Hadi do Iêmen acaba de ser derrubado porque era acusado de manter laços muito estreitos com radicais sunitas conectados à AQAP e ao EI. No instante em que os houthis chegaram ao poder, militantes da AQAP juraram solidariedade ao Estado Islâmico e começaram a combater os houthis. Mais uma vez, Obama atira contra terroristas errados.

Os EUA têm apresentado o Irã como o maior mal que há no Oriente Médio, ainda que não haja nenhuma prova de qualquer ameaça terroristas partida do Irã. Mais que isso, Washington tem hoje de procurar meios para cooperar com Teerã na luta contra os jihadistasdo Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Mas no Iêmen os EUA já se aliaram aqueles mesmos terroristas, para tentar neutralizar a influência do Irã. Converter sua política exterior em lamentável teatro do absurdo já é rotina, nos EUA.

A Arábia Saudita afirma que a campanha aérea no Iêmen atende a pedido do governo sunita derrubado. Washington repete a mesma coisa.

Moscou exigiu fim imediato do massacre no Iêmen e protestou contra Washington, que não consegue ver a diferença entre os dois conflitos, no Iêmen e na Ucrânia. Os EUA apoiam o presidente fugitivo do Iêmen, mas não apoiaram o ex-presidente da Ucrânia, Yanukovich, que teve de deixar o país. Os EUA outra vez afundam-se na mesma velha política de dois padrões – em duas situações que poderiam ser negociadas, sem guerra.

Tenho de usar o mesmo velho clichê – os dois padrões aí estão, bem evidentes – e nos nunca desejamos nenhum dos desenvolvimentos, nem na Ucrânia nem o que se vê hoje no Iêmen, disse o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, em conferência de imprensa durante sua recente visita à Guatemala, dia 27/3/2015.

Rodrigo Vielmann (D), Vice-MRE da Guatemala e o MRE da Rússia, Sergey Lavrov (27-3-2015)
A reação atrasada dos EUA à mudança no poder no Iêmen mostra que a decisão de Washington, de apoiar o ataque contra o Iêmen foi motivada por sua política de oposição sistemática ao Irã.

Barack Obama foi eleito para o segundo mandato para fortalecer a posição internacional dos EUA, especialmente no mundo islâmico, quando ainda buscava um lugar na história. A principal missão a completar no Oriente Médio é pôr fim ao “dossiê nuclear iraniano” e normalizar as relações com o Irã, se possível. Há 35 anos, desde Jimmy Carter, nenhum presidente dos EUA conseguiu tal façanha. Dificilmente será Obama o homem que conseguirá. Os obstáculos que há contra um acordo nuclear com o Irã não estão só na obstinação com que o Irã defende seu programa nuclear, nem na posição que o Congresso assumiu.

A decisão de imiscuir-se também na guerra contra o Iêmen foi tomada sob influência do establishment norte-americano que entende que é imprescindível impedir que o Irã converta-se em algum tipo de liderança regional. Na visão de Washington, a guerra contra os xiitas iemenitas que seriam apoiados por Teerã é guerra para mostrar à República Islâmica que lhe falta força militar para dominar o Oriente Médio. Não foi difícil para os EUA encontrar alguém a quem repassar a tarefa.

A Arábia Saudita considera o Irã como rival que ameaça suas posições. O Egito jamais tolerou a Revolução Islâmica e sempre foi hostil ao Irã. Os vizinhos Estados do Golfo sempre tiveram medo de o estado persa vir a ser protegido pelos EUA. Marrocos e Jordânia entraram na guerra “para fazer companhia” e agradar a Washington.

Dia 28/3/2015 terminou uma reunião de árabes, que juraram derrotar os rebeldes xiitas apoiados pelo Irã no Iêmen e revelaram que já se organiza uma força conjunta árabe de intervenção, o que oferece cenário para um confronto potencialmente perigoso entre estados árabes aliados dos EUA, e Teerã, em disputa pela influência na região.

Reunião da Liga Árabe em 28/3/2015
Resolução daquela reunião diz que a nova força árabe conjunta de defesa será acionada a pedido de qualquer nação árabe que enfrente ameaça à sua segurança nacional; também será usada para combater grupos terroristas. O responsável pelos preparativos é o Secretário-Geral da Liga Árabe, Nabil Elaraby. Os representantes da Liga Árabe vão-se reunir novamente dentro de um mês e terão mais três meses de trabalho até definirem todos os detalhes, a serem aprovados pelo Conselho de Defesa Conjunta da Liga Árabe. Desde a guerra contra Israel, os árabes não conseguiam coordenar-se tão firmemente entre eles mesmos.

A Turquia uniu-se à coalizão de árabes contra o Irã. O presidente Tayyip Erdogan disse que Teerã tem de revisar sua posição nos conflitos que castigam Síria, Iraque e Iêmen. Segundo o presidente da Turquia, “o Irã tenta dominar toda a região” e “deve retirar seus exércitos do Iêmen, Síria e Iraque”.

Em recente conferência de imprensa, o presidente da Turquia disse que:

(...) o Irã tenta dominar toda a região. Pode-se admitir tal coisa? Já começa a nos incomodar, a Arábia Saudita e os países do Golfo. Não é absolutamente tolerável, e o Irã tem de rever isso.

Disse também que:

(...) o conflito no Iêmen evoluiu para uma luta sectária. E que o Irã tem de retirar-se de lá. O Irã tem de mudar suas posições. Tem de retirar quaisquer forças militares que tenha no Iêmen, na Síria e no Iraque, e respeitar a integridade territorial desses países – Erdogan prosseguiu.

As palavras do presidente turco desencadearam uma onda de indignação no Irã.

Recep Erdogan na reunião da Liga Árabe em 28/3/2015

Os eventos no Iêmen podem desencadear crise séria nas relações entre o Irã e seus vizinhos árabes. O Paquistão já se uniu à coalizão árabe e promete total apoio à guerra liderada pela Arábia Saudita (e EUA) contra os xiitas iemenitas.

A operação militar leva o nome de “Operação Tempestade Decisiva”. De fato, toda a região parece atingida por vasta tempestade. O momento de lançar a operação não foi escolhido por acaso. O Irã está a um passo de obter um acordo sobre seu programa nuclear, o que encerrará o dossiê. Há boas chances de as conversações com o grupo P5+1 chegarem a bom termo.

Os inimigos do Irã na região compreenderam que o confronto entre Teerã e o ocidente pode estar chegando ao fim. Poucos realmente acreditam que o Irã tenha intenção de se tornar potência nuclear. A ameaça jamais se mediu pelo número de centrífugas, mas, isso sim, pelo número de países nos quais o Irã tem forte influência. A solução diplomática da questão nuclear iraniana mudará toda a situação no Oriente Médio. O Iêmen não é periférico, no sistema de segurança regional.

O país está localizado na principal rota marítima da Europa para a Ásia, entre todas as rotas que atravessam o Mar Vermelho. Quantidades gigantescas de petróleo são transportadas diariamente pelo Canal de Suez para o Mediterrâneo, da Arábia Saudita para a Ásia. Bab-el-Mandeb é um estreito localizado entre o Iêmen na Península Arábica, e Djibouti e Eritrea no Chifre da África.

A agência norte-americana de informação sobre energia [orig. US Energy Information Administration (EIA)] definou sete gargalos considerados críticos como itens de segurança energética, por causa do alto volume de petróleo e outros fluidos transportados através de pequenos estreitos. O estreito de Bab-el-Mandeb é um deles.

E o Irã também controla outro gargalo crucialmente importante – o estreito de Ormuz. O ocidente analisa as probabilidades de um governo xiita chegar ao poder no Iêmen, a partir do ponto de vista de sua segurança no campo da energia. Quem controle o Iêmen pode bloquear o Golfo Persa e impedir os navios petroleiros de alcançar o Canal de Suez – o que deixaria a Europa sem petróleo.

A força naval saudita informou que já assumiu o controle sobre todos os portos do Iêmen, os quais já estão bloqueados, enquanto prosseguem os ataques aéreos sauditas contra o Iêmen. Parece que Riad planeja ficar.

A guerra no Iêmen é desafio lançado a Teerã, esforço para forçar o país a tomar medidas retaliatórias. É verdade que o Irã não está esperando o fim do conflito no Iêmen e já se movimentou para estabelecer contatos governo a governo com a liderança dos houthis. Foi como um reconhecimento de facto, pela República Islâmica, de que os houthis são o verdadeiro governo no Iêmen.
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[*] Nikolai Bobkin é Ph.D. em Ciências Militares, professor associado e pesquisador sênior no Center for Military-Political Studies, Institute of the U.S.A. & Canada. Colaborador especialista na revista online New Eastern Outlook. Escreve habitualmente para diversos sites e blogs tais como: Strategic Culture,Troubled Kashmir, Make Pakistan Better e muitos outros.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Obama em Varsóvia: O presidente dos EUA, executará a Ucrânia, já condenada à morte

Obama falando como autista ou doido

5/6/2014, [*] Nikolai BOBKIN, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama e Petro Poroshenko (Varsóvia, Polônia em 4/6/2014)
O presidente dos EUA está em viagem pela Europa. O itinerário inclui Polônia, Bélgica e França. O foco da agenda é a Ucrânia. Os EUA facilitaram o golpe armado encenado em Kiev e festejaram a tomada do poder pelos nacionalistas. Na verdade, os EUA assinaram a sentença de morte da Ucrânia. O governo faz o que pode para fortalecer a posição do novo governo ucraniano. Obama não esperou nem a posse: já se encontrou com Poroshenko durante visita a Varsóvia.

Obama estava reunido com o presidente eleito, no momento em que a aviação ucraniana bombardeava áreas urbanas populosas no leste do país. Na conversa com seu contraparte ucraniano, Obama disse:

Estou entusiasmado ante as oportunidades. Creio que o povo ucraniano escolheu bem, ao eleger alguém com talento para liderar os ucranianos nesse período difícil. E os EUA estão absolutamente comprometidos com apoiar o povo ucraniano e suas justas aspirações, não só nos próximos dias e semanas, mas também nos anos que virão, porque confiamos que a Ucrânia pode, de fato, ser democracia viva e potente, com laços fortes com a Europa e laços fortes com a Rússia. Mas só poderá acontecer se nós apoiarmos claramente a Ucrânia, durante esse tempo difícil.

As palavras de Obama sobre os ucranianos terem “escolhido bem” ao escolherem Poroshenko não são só elogio ao eleito: são também “autorização” para que prossiga a guerra civil e o banho de sangue, duas coisas que servem muito bem aos interesses dos EUA.

Óculos para visão noturna
Em Varsóvia, o presidente dos EUA apoiou a política de usar força contra a oposição ucraniana. É difícil conceber que alguém fale sobre a unificação da Ucrânia, quando o Donbass está cercado por arame farpado, mas... Sim, sim, Obama e Poroshenko falaram exatamente sobre tal “tema”. Por exemplo: o presidente dos EUA disse que a ajuda militar dos EUA pode incluir óculos para visão noturna. Não que seja grande contribuição vinda de uma superpotência excepcional, mas é item realmente indispensável, porque, sem óculos para visão noturna, é impossível matar civis à noite, certo? Como Obama disse em Varsóvia, os EUA estão prontos a oferecer u’a mão amiga para ajudar a repelir “a agressão russa” na Ucrânia.

Segundo ele, os EUA respeitam seus compromissos internacionais com os parceiros do Leste Europeu. O presidente Obama até já pediu ao Congresso mais um pacote de segurança, de (mais) um bilhão de dólares. A ajuda, destinada principalmente a aliados da OTAN, será usada em manobras militares em terra, mar e ar, e em missões de treinamento por toda a Europa, com ênfase no leste. Mais pessoal norte-americano será movimentado pelo velho continente. “Uma presença persistente dos EUA em ar, terra e mar na região, especialmente na Europa Central e do Leste, é manifestação necessária e adequada de apoio a aliados” – lê-se numa declaração da Casa Branca sobre o pedido do novo bilhão de dólares ao Congresso. Geórgia, Moldávia e Ucrânia estão entre os que receberão partes significativas da “ajuda”.

Derek Chollet
“A presença naval no Báltico e no Mar Negro será ampliada. Os EUA planejam prover um pacote de segurança à Ucrânia”, disse Derek Chollet, Secretário-Assistente de Defesa para Assuntos de Segurança Internacional dos EUA. Os dois lados discutiram a ajuda, inclusive os US $18 milhões para a segurança, disse o funcionário do Pentágono em briefing para jornalistas em Kiev. Essa ajuda visará, dentre outras coisas a dar suficiente eficácia às Forças Armadas Ucranianas. Chollet disse também que “a ajuda dos EUA foi baseada no que a Ucrânia pediu e inclui vários itens, além de armas. Os ucranianos enviaram longa lista do que precisam, e os EUA e parceiros próximos (França, Grã-Bretanha e Polônia) trabalharão para satisfazer as necessidades” – disse ele.

Como essas migalhas caídas da mesa do banquete dos patrões conseguirão arrancar o país de profunda crise em curso? Ninguém sabe.

É preciso encarar os fatos. A economia ucraniana está em ruínas. Essa situação foi criada com a “assistência” dos parceiros de além mar.

Desde a revolução “Laranja” apoiada os EUA em 2004, o PIB da Ucrânia caiu duas vezes em nível comparável ao de muitos países em desenvolvimento. Em 2004, era de $312 bilhões, ou igual ao PIB da Arábia Saudita e Bélgica. Em 2013, caiu para $175 bilhões, comparável ao do Vietnã e apenas um pouco superior ao PIB de Angola. A queda da economia da Ucrânia não causou qualquer dificuldade à Rússia; no mesmo período, o PIB russo multiplicou-se por 1,5. 

As ameaças de Yushenko, fantoche dos EUA, de que pararia de “alimentar a Rússia” jamais produziram qualquer efeito. Há apenas cinco anos, a Ucrânia era o quinto maior produtor mundial de grãos. A Rússia era o 11º. Ano passado, a Rússia já estava em 3º lugar, com a Ucrânia despencada para o 14º lugar. Durante esses anos, os preços dos grãos aumentaram 150%. Fácil entender o muito que a Ucrânia tem a pagar pela amizade que os EUA lhe dedicam...

Depois da reunião com Poroshenko, o presidente Obama disse que:

Discutimos seus planos econômicos e a importância de erradicar a corrupção, aumentando a transparência e criando novos modelos de crescimento econômico. Discutimos questões de energia – para assegurar que a Ucrânia passe a ser economia eficiente no uso da energia, mas, simultaneamente, deixe de depender exclusivamente de fontes russas de energia. Fiquei profundamente impressionado por sua visão [de Poroshenko], em parte devida à sua experiência como empresário, que compreende bem o que é preciso para ajudar a Ucrânia a crescer e ser efetiva.

Mas... de que “dependência” fala Obama, no momento em que cresce a indignação na Europa porque Kiev reluta a quitar a dívida de gás super subsidiado que tem a pagar à Rússia. Ninguém paga US$ 268,5 por mil metros cúbicos, nem a Alemanha, nem qualquer outro estado europeu. Todos estão habituados a pagar US$ 400-500, com pequena variação, dependendo das condições de momento.

Alguns gasodutos da Rússia que abastecem a Europa e a Ucrânia
Europeus e a russa Gazprom absolutamente não entendem que estado é esse cujo governo não quer pagar pelo gás que recebe a preço baratíssimo... mas obriga o povo a suportar o ônus de não ter gás! Kiev parece não perceber que a Europa não a apoiará.

Em sua primeira reunião mais demorada com o presidente eleito da Ucrânia, Petro Poroshenko, Obama disse que:

Nossa capacidade para modelar a opinião mundial ajudou a isolar completamente a Rússia. Por causa da liderança dos EUA, o mundo imediatamente condenou as ações russas.

[É fala de autista. Difícil acreditar que tenha dito tal coisa NTs]. E mais difícil ainda entender o que teria levado o presidente dos EUA a crer que a Rússia esteja isolada. Hoje, tudo isso parece sonho, ou delírio, sem qualquer contato com a realidade.

Os fatos apontam em direção oposta. A empresa-imprensa ocidental está chocada ante o amplo apoio com que o presidente Putin conta na Europa.

Pesquisa de opinião realizada pelo canal N-TV da televisão alemã chegou ao surpreendente resultado segundo o qual 89% de seus telespectadores apoiavam as políticas de Vladimir Putin, presidente da Rússia, para a Ucrânia. A maioria dos entrevistados responderam “sim” à seguinte pergunta: “Você compreende e aprova as políticas de Putin?” O resultado foi tão contrário ao que os entrevistadores esperavam, que a pesquisa foi retirada no mesmo dia da página da N-TV. Era tarde, porque muita gente já havia fotografado a tela e distribuído as fotos em páginas e pelas redes sociais. Veja imagem abaixo:

Pesquisa na Alemanha: "Você compreende e aprova as políticas de Putin? "

Uma dessas imagens, postada na página Facebook de Christophe Hoerstel, de Potsdam, mostra que 89% dos entrevistados responderam um claro “sim”; 11% responderam “não”; e não havia outras opções de resposta.

Christophe Hoerstel
Pesquisa do Wall Street Journal mostrou exatamente os mesmos resultados. Dizia que europeus letrados opõem-se firmemente a sanções contra a Rússia. Na mesma edição, o jornal mostrava que os índices de aprovação do governo Obama alcançavam recordes negativos históricos em pesquisas feitas nos EUA. Números sempre crescentes de norte-americanos rejeitam a posição de Obama na questão ucraniana.

Será que Poroshenko sabe disso? Ao destacar a importância de sua visita a Varsóvia, a imprensa-empresa ucraniana apresentou-o como “diplomata muito experiente”, provavelmente por causa da rica experiência que adquiriu quando foi ministro de Relações Exteriores. Poroshenko ocupou esse cargo por exatos TRÊS DIAS: de 9 a 12 de outubro de 2009.

Poroshenko é comerciante e empresário. Para ele a Ucrânia é e sempre será lugar de onde extrair lucros. Mas Obama ficou impressionadíssimo por seus planos (“Fiquei profundamente impressionado por sua visão, em parte por causa de sua experiência como empresário, que compreende tudo o que é necessário para ajudar a Ucrânia a crescer e ser efetiva”). Não surpreende ninguém!

Hunter Biden
Hunter Biden, filho do vice-presidente dos EUA,  Joe Biden, acaba de ser contratado para a diretoria da empresa Burisma Holdings, maior produtor privado de gás da Ucrânia. O grupo tem interesse no leste da Ucrânia, onde se alastra a guerra civil, depois do golpe em Kiev. Biden aconselhará sobre “transparência, governança privada e responsabilidade, expansão internacional e outras prioridades” para assim “contribuir para a economia e beneficiar o povo da Ucrânia”. Aleksander Kwasniewski, ex-presidente da Polônia de 1995 a 2005 também participa da mesma diretoria. É uma espécie de leva-e-traz entre Washington e Kiev.

Como se vê facilmente, todos os pré-requisitos para que a Ucrânia seja convertida em colônia do “ocidente” estarão criados em pouco tempo.

A primeira reunião entre Obama e Poroshenko gerou quantidades consideráveis de retórica anti-Rússia. Nas palavras de Obama:

É importante para a comunidade internacional posicionar-se firmemente a favor dos esforços de Petro para negociar com os russos um processo pelo qual a Rússia deixe de financiar e apoiar separatistas armados em território soberano da Ucrânia, e que uma comunidade internacional unida deixe claro que há violação da lei internacional e que ela insiste em apoiar esses princípios, com consequências contra a Rússia no caso de o Sr. Putin não aproveitar a oportunidade para desenvolver melhor relacionamento com seus vizinhos – e essa tem de ser parte de nossa missão ao longo dos próximos vários dias.

Na conferência com a imprensa, o presidente dos EUA disse que não tem interesse em ameaçar a Rússia, mas que a Rússia tem de respeitar a soberania da Ucrânia, conter os combatentes separatistas e trabalhar junto com Poroshenko.

Se a Rússia não obedecer mais sanções já estão preparadas. O Sr. Putin tem uma escolha a fazerdisse Obama – é o que lhe direi se o encontrar publicamente. E é o que já lhe disse privadamente.

Obama disse que:

(...) oferecerá a Poroshenko o apoio dos EUA para a economia ucraniana, para garantir que superem o inverno, no caso de Moscou fechar as torneiras do fornecimento de gás, em ação de retaliação pela falta de pagamento (sic).

Washington reconheceu que:

(...) a Rússia teve relacionamento histórico com a Ucrânia e tinha interesses legítimos sobre o que acontecesse nas suas fronteiras – disse Obama. Mas nós também acreditamos que os princípios de integridade territorial e soberania têm de ser respeitados. Preparamos custos econômicos a serem cobrados da Rússia, que podem aumentar se, de fato, continuarmos a ver a Rússia ativamente desestabilizando um de seus vizinhos do modo como já vimos recentemente.

Solicitado a comentar se o tópico Ucrânia seria discutido, Peskov, porta-voz de Vladimir Putin presidente da Rússia, disse que o presidente Putin estava disposto a discutir quaisquer temas. No contexto das celebrações que marcam os 70 anos do desembarque das tropas aliadas na Normadia, Putin “manterá inúmeros contatos, como eles dizem, em pé” – disse Peskov. Mas não há nada marcado, de qualquer reunião entre o presidente da Rússia Vladimir Putin e Petro Poroshenko. “Não, ninguém está trabalhando nisso” – Peskov disse à Interfax.


[*] Nikolai Bobkin é Ph.D. em Ciências Militares, professor associado e pesquisador sênior no Center for Military-Political Studies, Institute of the U.S.A. & Canada. Colaborador especialista na revista online New Eastern Outlook. Escreve habitualmente para diversos sites e blogs tais como:Strategic Culture, Troubled Kashmir, Make Pakistan Better e muitos outros.