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quinta-feira, 26 de março de 2015

Israel Vota pelo Apartheid – Caiu a fachada sionista liberal

22-23/3/2015, [*] Neve GordonAl-Jazeera (reproduzido em Counterpunch)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Popularidade de Netanyahu
Benjamin Netanyahu faz mágica. Ainda na 6ª-feira (20/3/2015), a maioria das pesquisas indicava que seu partido Likud conquistaria em torno de 21 cadeiras no Parlamento israelense, quatro cadeiras a menos que o Campo Sionista (Partido Labor, com nome novo) de Yitzhak (Bougie) Herzog. Revelações de corrupção na residência do primeiro-ministro, seguidas de relatório devastador sobre a crise imobiliária real, além do encolhimento da indústria, greves sindicais, previsões de economia fraca, impasse diplomático e crescente isolamento internacional, tudo parecia indicar que Netanyahu estaria de saída. Mas quando mais parecia que o Campo Sionista substituiria o campo nacionalista, o exímio marqueteiro de campanhas eleitorais começou a tirar seus coelhos da cartola.

Como se não bastasse a decisão de atropelar o governo Obama na questão das negociações com o Irã, Netanyahu pôs-se a martelar a favor da direita, dando a conhecer ao mundo  que os palestinos estariam condenados para sempre a jamais ter estado seu, dado que ele já não promoveria a criação de mais um estado árabe para cercar Israel. Apresentou o partido Likud como vítima de uma conspiração da “mídia” esquerdista para derrubar o governo da direita. E convenientemente não disse a ninguém que seu aliado Sheldon Adelson é o proprietário do jornal Yisrael Hayom, o jornal impresso de maior circulação em todo o país. Convidou seus eleitores a voltar para “casa”, prometendo dar conta de todas suas carências econômicas. E no próprio dia das eleições, aterrorizou os judeus com declarações de que os cidadãos palestinos de Israel estariam correndo às urnas em multidões, apresentando os palestinos, que votam em seus próprios candidatos, como se fossem mais uma ameaça existencial.

A poção envenenada de Netanyahu é feita com campanhas para gerar medo, muito ódio racista contra árabes e ódio militante contra a esquerda política. Pelo que agora se vê, muitos eleitores foram realmente envenenados. Em questão de poucos dias, Netanyahu conseguiu virar a favor dele votos suficientes para eleger mais dez candidatos do seu partido, canibalizando dois dos seus aliados da extrema direita: o partido de Avigdor Lieberman e o partido de Naftali Bennett. Graças à mágica-veneno de Netanyahu, o Likud saiu-se muito melhor do que esperava, e em coalizão com os partidos ultra-ortodoxos e um novo partido recém criado por um ex-ministro do Likud, o partido Kulanu (All of US), será muito provavelmente criado um bloco de extrema direita, com 67 dos 120 assentos com direito a voto (e isso ainda antes de se computarem os votos dos soldados, que em geral são de centro-direita).

A imprensa-empresa apoia o APARTHEID
Esse resultado é claro: o povo de Israel votou a favor do Apartheid.

Agora é extremamente provável que volte à tona uma leva de leis antidemocráticas  que haviam sido engavetadas. Entre essas, as leis que monitoram e limitam o financiamento de ONGs de direitos humanos, restringem a liberdade de expressão, reduzem a autoridade da Suprema Corte, cancelam o status oficial da língua árabe e, claro, levam a votação a lei do estado-nação. Essa lei, originalmente proposta por um membro do Likud, define a judaicidade como padrão do estado em todas as instâncias, legal ou legislativa – na qual conflitam as definições de “estado judeu” e “estado democrático”. Significa que as leis que garantem direitos iguais a todos os cidadãos israelenses podem ser derrubadas, sob a alegação de que não respeitam o “estado judeu”. Além disso, essa lei reserva direitos comunitários só para judeus; nega portanto aos cidadãos palestinos qualquer tipo de identidade nacional.

Além da legislação antidemocrática, podemos esperar todo um desfile de políticas de discriminação. O novo governo provavelmente implementará alguma variação do Plano Prawer, que visa a realocar à força milhares de beduínos palestinos e tomar a terra que pertence a eles. Continuarão a jorrar bilhões de dólares nas colônias israelenses na Cisjordânia e nas colinas do Golan, e mais casas serão expropriadas em Jerusalém Leste. E provavelmente serão presos milhares de refugiados e trabalhadores migrantes “ilegais” que atualmente vivem e trabalham em cidades israelenses.

Mas, sim, os resultados dessas eleições trazem uma importante vantagem: afinal, as coisas estão postas às claras.

Agora, pelo menos, caiu a fachada sionista liberal, que camuflava a disposição de Israel para fazer avançar seu projeto colonial. O refrão israelense, de que não se poderia alcançar solução diplomática com os palestinos, porque os palestinos não teriam liderança, soará mais vazio, a cada dia. Finalmente, já se pode ver que pretender que Israel seria a única democracia no Oriente Médio é o que é: meia verdade. Israel só é democracia para judeus. Para palestinos, é regime repressor.

Apartheid em Israel
Deve-se também esperar pouca resistência contra o governo de extrema direita, porque o Campo Sionista de Herzog e o partido de Yair Lapid também são arabofóbicos e, portanto, pouco lutarão contra a substância racista do novo governo, embora talvez lutem contra o estilo direitista agora já desavergonhado de Netanyahu.

Afinal de contas, nos dias antes da eleição via-se um só pacote político, com enormes cartazes que mostravam foto de (Bibi) Netanyahu e seu adversário, representante oficial da extrema direita, Naftali Bennett, em que se lia que “Com Bibibennet continuaremos contra os palestinos por toda a eternidade”. A dupla deve ter esquecido o fato de que 20% dos cidadãos israelenses são palestinos.

Pois mesmo assim, durante essas eleições, um raio de esperança brilhou na escuridão. O esforço concentrado de quase todos os partidos judeus para excluir os cidadãos palestinos produziu um efeito não esperado. Criando uma frente unida, os palestinos conquistaram 14 cadeiras no Parlamento, 25% a mais do que jamais antes. Hoje, os palestinos já são a terceira maior força no Knesset.

Diferente de seus contrapartes noutros partidos, Ayman Odeh, que preside a nova Lista Árabes Unidos, é líder genuíno. Extremamente incisivo, é orador que muitas vezes se serve de muita ironia para ridicularizar seus detratores, ao mesmo tempo em que divulga incansavelmente sua visão igualitária do futuro. Num raro momento de sinceridade, uma conhecida jornalista comentarista israelense denunciou a atitude de Odeh, para ela uma grave ameaça: “É homem muito perigoso”, disse ela. “Ele projeta algo com que todos os israelenses podem relacionar-se”.

Será essa “ameaça” capaz de deter a iminente avalanche de novas leis de Apartheid em Israel? Sinceramente, duvido.
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[*] Neve Gordon é judeu, residente em Israel, nasceu nos EUA em 15/6/1965) é professor de Política e Governo na Universidade Ben-Gurion do Negev, onde leciona sobre questões relacionadas com o conflito israelense-palestino e direitos humanos. Pertencente à terceira geração de Israel, Gordon fez o serviço militar em uma unidade de paraquedistas tendo sofrido ferimentos graves na ação em Rosh Hanikra; como resultado ele tem uma deficiência motora de 42%. Durante a Primeira Intifada atuou como diretor dos Médicos pelos Direitos Humanos em Israel. É membro ativo da Ta’ayush, uma parceria entre árabes e judeus. Identifica-se como membro do campo da paz israelense e descreve Israel como um Estado de “apartheid” e apoia o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções contra Israel.
Gordon recebeu seu doutorado na Universidade de Notre Dame (EUA) em 1999, e tem sido professor visitante na University of Califórnia - Berkeley, University of Michigan e na Universidade de Brown.
Seus artigos são usualmente publicados no LA Times, The Washington Post, The Nation, The Guardian, Haaretz,The Jerusalem Post, The Chicago Tribune, Boston Globe, In These Times, The National Catholic Reporter, Al Jazeera, The Chronicle of Higher Education e CounterPunch.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Judith Butler: nova vítima do “lobby” israelense na Alemanha


17/9/2012, Ludwig Watzal, Palestine Chronicle
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Leia também:
7/4/2012, redecastorphoto, Baby Siqueira Abrão em: O poema que desmascarou Israel


Ludwig Watzal
Campanhas de difamação contra pessoas que não obedeçam a pauta estreita, “politicamente correta”, e respectiva retórica, no que tenham a ver com expor as repetidas violações de direitos humanos e a opressão brutal, por Israel, do povo palestino, são rotina na ação do lobby israelense pró-sionistas na Alemanha.

A mais recente vítima do lobby israelense pró-sionistas na Alemanha é Judith Butler, professora do Departamento de Retórica e Literatura Comparada e co-diretora do Programa de Teoria Crítica na Universidade da California, Berkeley. Butler também é militante ativa da luta contra preconceito de gênero, pelos direitos humanos, contra a guerra, e participa do movimento Voz Judaica pela Paz. Esse ano, recebeu o Prêmio Adorno, da cidade de Frankfurt, distribuído a cada três anos, no valor de 50 mil euros.

Judith Butler
Por que Judith Butler foi massacrada? Seu “crime” é incluir o Hamás e o Hezbollah como parte ativa da esquerda global, e apoiar a campanha BDS (Boicote, Desinvestimento, Sanções) contra o consumo de produtos israelenses provenientes dos Territórios Palestinos Ocupados. Imediatamente depois de divulgada a notícia de que lhe fora conferido o Prêmio Adorno, abriram-se contra ela as portas do inferno.

A procissão de detratores foi chefiada pelo Secretário Geral do Conselho dos Judeus na Alemanha, Stephan Kramer; ao seu lado apareceram imediatamente o embaixador de Israel na Alemanha, seguido dos suspeitos de sempre.

Kramer acusou Butler de ser “odiadora confessa de Israel” e “cúmplice” do Movimento BDS, apesar da abordagem nuançada de Butler sobre a campanha BDS; classificar o Hamás e o Hezbollah como parte da esquerda global ignoraria a visão de mundo fundamentalista arcaica dos dois grupos, sobretudo contra as mulheres. Mas Kramer não rotulou a crítica que Butler construiu contra a política de governo de Israel como “antissemitismo”. A controvérsia em torno do Prêmio Adorno revelou a tensão existente dentro do judaísmo entre a ética universalista e as tendências nacionalistas, autoritárias, do sionismo.

Neve Gordon
Na furiosa campanha movida contra ela, Butler manteve-se inabalável. Recebeu apoio, dentre outros intelectuais alemães, do professor Micha Brumlik da Universidade de Frankfurt e do professor Neve Gordon da Universidade Ben-Gurion em Beer-Sheva. Gordon escreveu:

A bem orquestrada caça às bruxas, iniciada pelos autoproclamados “Intelectuais pela Paz no Oriente Médio” contra Judith Butler é sórdida tentativa – baseada em mentiras e meias verdades – para silenciar uma vigorosa crítica contra a política de abuso de direitos que Israel pratica nos Territórios Ocupados.

Campanhas de difamação promovidas pelo “Lobby  sraelense” na Alemanha acontecem periodicamente. Antes da atual campanha contra Butler, houve a campanha contra Gunter Grass, prêmio Nobel, que se atreveu – no poema “O que tem de ser dito” [ing. What has to be Said  [1]] ” – a sugerir que o governo israelense é maior ameaça à paz mundial que o Irã. Embora o Conselho dos Judeus na Alemanha tenha iniciado a campanha, as calúnias foram publicadas em toda a grande imprensa alemã, com a única exceção do semanário “der Freitag” de Jakob Augstein.

Há dois anos, a famosa advogada e militante da defesa de direitos humanos Felicia Langer, que vive na Alemanha, foi também massacrada pelo “lobby israelense” e seus infames apoiadores, imediatamente depois de receber a prestigiada medalha da “Ordem do Mérito de Primeira Classe da República Federal da Alemanha”. Alguns caluniadores não se envergonharam sequer de tentar chantagear o presidente da Alemanha, ameaçando-o de devolver as próprias medalhas, no caso de o presidente não cancelar a condecoração de Langer.

Dra. Ghada Karmi
O modo como as instituições alemãs e seus representantes tratam os professores palestinos é exemplificado pelo caso da conhecida professora britânico-palestina Dra. Ghada Karmi da Universidade de Exeter. Em fevereiro de 2012, a professora Karmi foi convidada para falar sobre a Palestina, numa conferência na Universidade de Bremen. No último minuto, o convite foi cancelado, e a universidade declarou que as ideias da professora não seriam “adequadas”. Depois se descobriu que um aluno dos cursos de pós-graduação, israelense, havia protestado contra a conferência ter convidado a professora Karmi, que teria ideias “antissemitas”. As mesmas acusações infundadas foram feitas contra o professor Ilan Pappé, judeu israelense, para impedi-lo de falar em público na Alemanha.

O pior aconteceu, no caso da professora Karmi, quando ela participava de uma conferência, dias 8-9/6/2012 na Universidade Livre de Berlim, organizada pelo Research College da mesma universidade em colaboração com o Conselho Alemão de Relações Internacionais. Nas palavras da professora Karmi:

O que aconteceu ali foi deprimente manifestação da hipocrisia alemã diante dos israelenses presentes e mal disfarçado incômodo com a minha presença, como se lamentassem a autorização para que se ouvisse uma voz palestina.

A professora Karmi foi apresentada à conferência por um representante do Conselho Alemão de Relações Internacionais, como alguém que, segundo “alguns israelenses” é “terrorista palestina”. O público não protestou nem a universidade pediu desculpas à professora. Se algum representante do Conselho Alemão de Relações Internacionais se atrevesse a apresentar algum professor israelense como alguém que segundo “alguns palestinos” é “terrorista israelense”, sua carreira acadêmica estaria imediatamente terminada.

Essas campanhas de difamação são retrato claro da desoladora paisagem política na Alemanha, hoje.



Nota dos tradutores

sexta-feira, 30 de julho de 2010

A lição dos Nazis

sexta-feira, 30 de Julho de 2010

Israel continua a própria atividade na frente interna.


Não há só os Palestinos, há também os Beduínos, povo pacifico que goza da nacionalidade israelense.


Mas não são Israelenses no verdadeiro sentido do termo, não são os Israelenses desejados pelo governo de Tel Avive; e isso é suficiente para que sejam tratados como não-cidadãos, privados dos próprios rebanhos, até das próprias casas.

Os Hebreus foram alvo de limpeza étnica na Alemanha nazi entre 1941 e 1945. E ainda hoje choram cada vez que é citada a Shoa.

Agora, demonstram de ter aprendido a lição e não hesitam a transformar-se de vítimas em carnífices.


E o mundo ocidental? Prontos também a chorar os horrores do passado cada vez que alguém lembrar a Shoa, os Países do Ocidente ultrapassam de forma leve e despreocupada os horrores do presente.


Eis o relato de Neve Gordon, um israelense, publicado nas páginas do The Guardian.
E a seguir o vídeo com as principais fases da destruição da aldeia.

Limpeza étnica em Israel

O desmantelamento duma aldeia beduína pela polícia israelita, mostra até que ponto o Estado pode ir para atingir a meta de judeização da região de Negev. A polícia israelense demoliu a aldeia beduína de Al-Arakib desmantelando cerca de 45 casas em apenas três horas.


Enquanto eu estava no carro em direção a Al-Arakib, uma aldeia beduína pouco mais de 10 minutos de Beer Sheva, um ameaçador comboio de tratores estava de retorno à cidade. Logo tomada a estrada de terra para a aldeia, vi uma dúzia de caminhões com policiais fortemente armados prontos para partir. Aparentemente, a missão estava cumprida.



As consequências da destruição foram visíveis imediatamente. Antes notei que as galinhas e os gansos corriam livres perto de uma casa demolida, então vi uma outra casa e outra ainda, todas reduzidas a escombros. As crianças estavam à procura de um local com sombra para fugir do sol escaldante do deserto, enquanto atrás deles uma nuvem de fumaça negra subia do feno em chamas. Não havia ovinos, caprinos e bovinos, confiscados provavelmente pela polícia.


Um grupo de beduínos estava no topo duma pequena colina a falar do que se tinha passado desde as primeiras horas da madrugada, cercados por árvores desenraizadas deitadas no chão. Uma aldeia inteira de 40-45 casas foi completamente destruída em menos de três horas.


Imediatamente tive um deja vu: caminhar no meio dos escombros duma vila destruída nos arredores da cidade libanesa de Sidon. Há mais do que 25 anos, durante o meu serviço como para-quedista em Israel. A diferença é que os residentes no Líbano tinham fugido muito antes da chegada do meu pelotão, e nós simplesmente atravessamos os escombros. Havia algo de surreal naquele evento, que durante anos impediu-me de compreender plenamente a sua importância. Na época, parecia caminhar na lua.


Hoje, imediatamente, senti o impacto da destruição. Talvez porque as 300 pessoas que viviam em Al-Arakib, incluindo crianças, estavam sentadas nos escombros e ansiedade deles era evidente, talvez porque a aldeia está localizada a 10 minutos da minha casa, em Beer Sheva, e aqui passo para ir para Tel Aviv ou Jerusalém, ou talvez porque os beduínos são cidadãos de Israel e de repente eu percebi até onde o Estado está preparado para ir visando tornar "Israel" a região de Negev; o que eu tinha presenciado foi um verdadeiro ato de limpeza étnica .


Diz-se que a próxima intifada será a dos beduínos. Há 155 mil beduínos no Negev, e mais de metade vivem em aldeias ilegais, sem eletricidade ou água corrente. Não sei o que eles poderiam fazer, mas deixar 300 pessoas sem abrigo, das quais 200 são crianças, Israel está semeando a discórdia no futuro.


http://www.youtube.com/watch?v=bvD-2BsPAQU&feature=player_embedded


Fonte: The Guardian via ComeDonChisciotte

Traduzido, editado e comentado por Informação Incorrecta