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sexta-feira, 29 de maio de 2015

Dias antes da votação para expulsar Israel os EUA ordenam ataque contra a FIFA

27/5/2015, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
A situação na Cisjordânia é muito pior que o apartheid que se viu na África do Sul, porque os extremistas e direitistas israelenses querem “extinguir a Palestina” disse Rajoub.


Na década de 1960 a FIFA manteve a África do Sul suspensa durante décadas porque esta não respeitava as políticas de não discriminação da associação. Um mês depois do levante da juventude de Soweto, em 1976, a FIFA expulsou a África do Sul.

Edifício-sede da FIFA em Zurique

Hoje os EUA forçaram a polícia suíça a assaltar, encarcerar e extraditar seis funcionários da FIFA, por corrupção presumida. As prisões – com a presença com certeza preparada de jornalistas do New York Times no local – aconteceram pouco antes de uma votação na FIFA, para decidir sobre a expulsão de Israel, da organização.
Nesta próxima 6ª-feira (29/5/2015), a Federação Internacional de Futebol Association, FIFA, reúne-se em Zurique para celebrar seu 65º Congresso Mundial regular.
Um dos pontos da ordem do dia é discussão e votação de “suspensão ou expulsão de um membro”. Na mesma ordem do dia lê-se “Atualização sobre Israel e Palestina”.
A Associação de Futebol da Palestina solicitou votação nesse Congresso da FIFA para suspender Israel como membro da FIFA.
O grupo palestino opõe-se a que as equipes israelenses joguem na Cisjordânia. Além disso, afirma que Israel restringe os movimentos dos jogadores palestinos entre Cisjordânia e Gaza – e impede que participem em encontros internacionais.
Israel mantém a intimidação e entendo que não tenha direito de continuar a agir como dono da bola – disse, falando de Israel, o presidente da Associação de Futebol da Palestina, Jibril Rajoub.
Se os israelenses usam a questão da segurança, posso garantir que o problema de segurança deles é também meu problema de segurança. Estou disposto a fixar parâmetros para os problemas de segurança. Mas a segurança não deve ser usada (...) como se fosse ferramenta destinada a manter essas política israelenses racistas, de apartheid.
Rajoub declarou que a situação na Cisjordânia é muito pior que o apartheid que se viu na África do Sul, porque os extremistas e direitistas israelenses querem “extinguir a Palestina”. Na década de 1960, a FIFA manteve a África do Sul suspensa durante décadas, porque não respeitava as políticas de não discriminação da associação. Um mês depois do levante da juventude de Soweto, em 1976, a FIFA expulsou a África do Sul.
Não estou pedindo que a FIFA suspenda a associação israelense. Estou pedindo que ponha fim ao sofrimento dos jogadores palestinos – disse Rajoub. – Estou pedindo que se ponha fim aos agravos e humilhações que sofremos.
Para que Israel seja expulsa da FIFA são necessários votos de 75% dos 209 estados-membros da FIFA, e havia boa possibilidade de a expulsão ser aprovada.
FIFA - 65º Congresso (29/5/2015)
Havia, porque agora, como por acaso, como se nunca antes ninguém tivesse corrompido ou sido corrompido no mundo do futebol, o governo dos EUA ordenaram que a Polícia suíça assaltasse o hotel no qual se hospedam os mais altos funcionários da FIFA e prender alguns que estivessem por lá, sob acusações de corrupção. E mais: os EUA exigem que sejam extraditados para serem julgados em tribunal norte-americano.
Também por puro acaso, repórteres e fotógrafos do New York Times estavam ali, no salão daquele preciso hotel, às 6h da manhã, para que a cobertura do evento pudesse ser “notícia” dos primeiros jornais matinais, como escreve o mesmo NYT em artigo de hoje, 27/5/2015:
Coincidindo com a reunião de diretores da FIFA, órgão superior do futebol mundial, reuniram-se mais de uma dezena de agentes suíços da lei, que chegaram ao hotel Baur au Lac sem aviso. O hotel é estabelecimento de luxo, cinco estrelas, com vistas para os Alpes e o lago de Zurique. Dirigiram-se à recepção, recolheram as chaves e subiram as escadas até os apartamentos “selecionados”. (...)
As acusações falam de corrupção generalizada na FIFA nas duas últimas décadas, dentre outras nas licitações para a realização das Copas do Mundo, e nos acordos para comercialização de produtos e exibição por televisão, segundo disseram três policiais que conhecem diretamente o caso. As acusações incluem fraude, extorsão e lavagem de dinheiro, e os policiais disseram que o alvo da ação eram os membros do poderoso Comitê Executivo da FIFA, que tem grande poder e promove o próprio negócio praticamente em segredo.
Embora nenhum, dos acusados seja cidadão norte-americano, não se sabe ainda que complexas manobras o Departamento de Justiça dos EUA terá de fazer, para explicar a “exigência” de que os acusados sejam julgados em território dos EUA:
A lei nos EUA dá ampla autoridade ao Departamento de Justiça para levar ao juiz casos contra estrangeiros que vivam no exterior, autoridade que os agentes da lei já usaram em várias ocasiões, em casos de terrorismo internacional. Esses casos podem depender que qualquer mínima conexão com os EUA, como usar um banco ou um provedor de serviços de Internet norte-americanos.
Há corrupção em marcha quando a FIFA decide celebrar o Campeonato do Mundo num ou noutro país? Eu nunca imaginei que havia jogos de azar no cassino! Há jogo em Casablanca? Estou chocado!
Rick: E por que querem fechar meu bar? Qual o motivo?
Capitán Renault: Muito me surpreende! Estou muito surpreendido por comprovar que aqui se joga! [Um crupier entrega a Renault um pacote de dinheiro]
Croupier: A sua parte, senhor.
Capitán Renault: Oh, muito obrigado.
Além do assalto ao hotel ordenado pelos EUA, os suíços vêm-se obrigados a também iniciar um procedimento penal em relação à votação que escolheu as sedes das Copas do Mundo 2018 e 2022 na Rússia e no Qatar. Os EUA perderam a chance de receber esses eventos, e os falcões norte-americanos, quando perdem, põem-se imediatamente a tentar melar o jogo e mudar o resultado.
Não que o pagamento de subornos para serem escolhidos como sede e organizadores de uma competição mundial seja evento totalmente inexistente e ignorado nos EUA. Mas parece que agora, em todos os casos em que forem derrotados, os EUA imediatamente se põem a “promover mudança de regime” na cúpula da organização que não tenha escolhido... os EUA.
Nos EUA é legal subornar políticos mediante o financiamento das campanhas eleitorais, em quantidades praticamente ilimitadas. [No Brasil também o SUBORNO foi legalizado! O Congresso votou lei hoje (27/5/2015) permitindo o financiamento PRIVADO de campanhas políticas, inclusive de PESSOAS JURÍDICAS –que NÃO votam, mas elegem (Nrc)].
A UEFA, via Platini, ROUBOU a Palestina em 2012
(charge por Latuff)
Nunca, em tempo algum, um banqueiro, um, que fosse, foi jamais acusado de prática fraudulenta massiva, nem na mais recente em Wall Street, que levou a economia mundial ao atoleiro em que está. O mundo sabe disso, e não gosta que esses EUA deem lições de moral.
A FIFA, que com certeza é corrupta, é também a alma do futebol mundial e entidade que organiza o campeonato esportivo que mobiliza mais público em todo o mundo. Se os EUA acreditam que invadir hotéis, em movimento em tudo semelhante e ataques terroristas, encontrará alguma solidariedade em todo o mundo, estão muito enganados.
Principalmente porque, dessa vez, o motivo do assalto ao hotel e aos dirigentes da FIFA, como se tivesse acontecido por acaso, já é bastante óbvio. Por exemplo, graças a Ashel Pfeffer, jornalista israelense, que se pavoneia, pelo Twitter:
 
[traduzido] “Anshel Pfeffer – Coitado do Jibril Rajoub. Parece que o truque dele não vai conseguir muita atenção da #FIFA”

Deixe-me adivinhar: será que todos já sabem que o esse foi, exatamente, o verdadeiro propósito do ataque à FIFA? #Israel?

[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.


quinta-feira, 26 de março de 2015

Israel Vota pelo Apartheid – Caiu a fachada sionista liberal

22-23/3/2015, [*] Neve GordonAl-Jazeera (reproduzido em Counterpunch)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Popularidade de Netanyahu
Benjamin Netanyahu faz mágica. Ainda na 6ª-feira (20/3/2015), a maioria das pesquisas indicava que seu partido Likud conquistaria em torno de 21 cadeiras no Parlamento israelense, quatro cadeiras a menos que o Campo Sionista (Partido Labor, com nome novo) de Yitzhak (Bougie) Herzog. Revelações de corrupção na residência do primeiro-ministro, seguidas de relatório devastador sobre a crise imobiliária real, além do encolhimento da indústria, greves sindicais, previsões de economia fraca, impasse diplomático e crescente isolamento internacional, tudo parecia indicar que Netanyahu estaria de saída. Mas quando mais parecia que o Campo Sionista substituiria o campo nacionalista, o exímio marqueteiro de campanhas eleitorais começou a tirar seus coelhos da cartola.

Como se não bastasse a decisão de atropelar o governo Obama na questão das negociações com o Irã, Netanyahu pôs-se a martelar a favor da direita, dando a conhecer ao mundo  que os palestinos estariam condenados para sempre a jamais ter estado seu, dado que ele já não promoveria a criação de mais um estado árabe para cercar Israel. Apresentou o partido Likud como vítima de uma conspiração da “mídia” esquerdista para derrubar o governo da direita. E convenientemente não disse a ninguém que seu aliado Sheldon Adelson é o proprietário do jornal Yisrael Hayom, o jornal impresso de maior circulação em todo o país. Convidou seus eleitores a voltar para “casa”, prometendo dar conta de todas suas carências econômicas. E no próprio dia das eleições, aterrorizou os judeus com declarações de que os cidadãos palestinos de Israel estariam correndo às urnas em multidões, apresentando os palestinos, que votam em seus próprios candidatos, como se fossem mais uma ameaça existencial.

A poção envenenada de Netanyahu é feita com campanhas para gerar medo, muito ódio racista contra árabes e ódio militante contra a esquerda política. Pelo que agora se vê, muitos eleitores foram realmente envenenados. Em questão de poucos dias, Netanyahu conseguiu virar a favor dele votos suficientes para eleger mais dez candidatos do seu partido, canibalizando dois dos seus aliados da extrema direita: o partido de Avigdor Lieberman e o partido de Naftali Bennett. Graças à mágica-veneno de Netanyahu, o Likud saiu-se muito melhor do que esperava, e em coalizão com os partidos ultra-ortodoxos e um novo partido recém criado por um ex-ministro do Likud, o partido Kulanu (All of US), será muito provavelmente criado um bloco de extrema direita, com 67 dos 120 assentos com direito a voto (e isso ainda antes de se computarem os votos dos soldados, que em geral são de centro-direita).

A imprensa-empresa apoia o APARTHEID
Esse resultado é claro: o povo de Israel votou a favor do Apartheid.

Agora é extremamente provável que volte à tona uma leva de leis antidemocráticas  que haviam sido engavetadas. Entre essas, as leis que monitoram e limitam o financiamento de ONGs de direitos humanos, restringem a liberdade de expressão, reduzem a autoridade da Suprema Corte, cancelam o status oficial da língua árabe e, claro, levam a votação a lei do estado-nação. Essa lei, originalmente proposta por um membro do Likud, define a judaicidade como padrão do estado em todas as instâncias, legal ou legislativa – na qual conflitam as definições de “estado judeu” e “estado democrático”. Significa que as leis que garantem direitos iguais a todos os cidadãos israelenses podem ser derrubadas, sob a alegação de que não respeitam o “estado judeu”. Além disso, essa lei reserva direitos comunitários só para judeus; nega portanto aos cidadãos palestinos qualquer tipo de identidade nacional.

Além da legislação antidemocrática, podemos esperar todo um desfile de políticas de discriminação. O novo governo provavelmente implementará alguma variação do Plano Prawer, que visa a realocar à força milhares de beduínos palestinos e tomar a terra que pertence a eles. Continuarão a jorrar bilhões de dólares nas colônias israelenses na Cisjordânia e nas colinas do Golan, e mais casas serão expropriadas em Jerusalém Leste. E provavelmente serão presos milhares de refugiados e trabalhadores migrantes “ilegais” que atualmente vivem e trabalham em cidades israelenses.

Mas, sim, os resultados dessas eleições trazem uma importante vantagem: afinal, as coisas estão postas às claras.

Agora, pelo menos, caiu a fachada sionista liberal, que camuflava a disposição de Israel para fazer avançar seu projeto colonial. O refrão israelense, de que não se poderia alcançar solução diplomática com os palestinos, porque os palestinos não teriam liderança, soará mais vazio, a cada dia. Finalmente, já se pode ver que pretender que Israel seria a única democracia no Oriente Médio é o que é: meia verdade. Israel só é democracia para judeus. Para palestinos, é regime repressor.

Apartheid em Israel
Deve-se também esperar pouca resistência contra o governo de extrema direita, porque o Campo Sionista de Herzog e o partido de Yair Lapid também são arabofóbicos e, portanto, pouco lutarão contra a substância racista do novo governo, embora talvez lutem contra o estilo direitista agora já desavergonhado de Netanyahu.

Afinal de contas, nos dias antes da eleição via-se um só pacote político, com enormes cartazes que mostravam foto de (Bibi) Netanyahu e seu adversário, representante oficial da extrema direita, Naftali Bennett, em que se lia que “Com Bibibennet continuaremos contra os palestinos por toda a eternidade”. A dupla deve ter esquecido o fato de que 20% dos cidadãos israelenses são palestinos.

Pois mesmo assim, durante essas eleições, um raio de esperança brilhou na escuridão. O esforço concentrado de quase todos os partidos judeus para excluir os cidadãos palestinos produziu um efeito não esperado. Criando uma frente unida, os palestinos conquistaram 14 cadeiras no Parlamento, 25% a mais do que jamais antes. Hoje, os palestinos já são a terceira maior força no Knesset.

Diferente de seus contrapartes noutros partidos, Ayman Odeh, que preside a nova Lista Árabes Unidos, é líder genuíno. Extremamente incisivo, é orador que muitas vezes se serve de muita ironia para ridicularizar seus detratores, ao mesmo tempo em que divulga incansavelmente sua visão igualitária do futuro. Num raro momento de sinceridade, uma conhecida jornalista comentarista israelense denunciou a atitude de Odeh, para ela uma grave ameaça: “É homem muito perigoso”, disse ela. “Ele projeta algo com que todos os israelenses podem relacionar-se”.

Será essa “ameaça” capaz de deter a iminente avalanche de novas leis de Apartheid em Israel? Sinceramente, duvido.
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[*] Neve Gordon é judeu, residente em Israel, nasceu nos EUA em 15/6/1965) é professor de Política e Governo na Universidade Ben-Gurion do Negev, onde leciona sobre questões relacionadas com o conflito israelense-palestino e direitos humanos. Pertencente à terceira geração de Israel, Gordon fez o serviço militar em uma unidade de paraquedistas tendo sofrido ferimentos graves na ação em Rosh Hanikra; como resultado ele tem uma deficiência motora de 42%. Durante a Primeira Intifada atuou como diretor dos Médicos pelos Direitos Humanos em Israel. É membro ativo da Ta’ayush, uma parceria entre árabes e judeus. Identifica-se como membro do campo da paz israelense e descreve Israel como um Estado de “apartheid” e apoia o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções contra Israel.
Gordon recebeu seu doutorado na Universidade de Notre Dame (EUA) em 1999, e tem sido professor visitante na University of Califórnia - Berkeley, University of Michigan e na Universidade de Brown.
Seus artigos são usualmente publicados no LA Times, The Washington Post, The Nation, The Guardian, Haaretz,The Jerusalem Post, The Chicago Tribune, Boston Globe, In These Times, The National Catholic Reporter, Al Jazeera, The Chronicle of Higher Education e CounterPunch.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Plano Prawer: o rosto moderno da limpeza étnica na Palestina

[*] María Landi, animadora do blog Palestina en el corazón
Ver/ler mais sobre o Plano Prawer em: Prawer Plan to displace Bedouin
Traduzido e enviado por Baby Siqueira Abrão (6/12/2013)


O governo mais ultradireitista da história de Israel conseguiu o que os líderes palestinos não foram capazes de fazer nas últimas décadas: unir todo o povo palestino, hoje dividido entre o Estado israelense, a Faixa de Gaza, os territórios ocupados da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental (anexada ilegalmente em 1967), e a diáspora.

Crianças e jovens beduínos ativistas gritam slogans durante um protesto contra o Plano Prawer do governo israelense, na estrada 31 perto de Hura, Israel, no Day of Rage, em 30/11/2013. (clique na imagem para aumentar)
No sábado, dia 30/11/2013, os palestinos organizaram o Terceiro Dia de Fúria, jornada de protesto contra o Plano Prawer que se estendeu do mar Mediterrâneo ao rio Jordão. Levando o sobrenome do parlamentar israelense que o elaborou, o plano pretende destruir 36 aldeias beduínas “não reconhecidas” por Israel no deserto do Negev (Naqab, em árabe) para construir, em suas terras, colônias para a população judia. Para isso, cerca de 70 mil beduínos serão retirados à força de sua terra ancestral, e 800 mil dunams [1] dela serão confiscados por Israel.

Calcula-se que em Israel haja mais de 150 aldeias árabes “não reconhecidas” pelo Estado sionista nas regiões do Naqab e da Galileia. Essas aldeias são consideradas ilegais pelo governo, não figuram nos mapas e não contam com água corrente, eletricidade, telefone, arruamento, escolas e centros de saúde. As comunidades beduínas (cujos habitantes têm cidadania israelense) constituem cerca de 30% da população do Naqab, mas suas aldeias ocupam apenas 2,5% do território.

Antes da criação do Estado de Israel, os beduínos deslocavam-se livremente pelo deserto; agora, dois terços da região foram designados pelas autoridades israelenses como “campos de treinamento militar”, inacessíveis à população beduína. Mas a verdade, conhecida por todos, é que grupos de colonos judeus aguardam ansiosamente que os habitantes nativos sejam retirados daquelas terras, para instalar-se nos povoados modernos e cômodos que Israel construirá para eles em território beduíno.  

O governo israelense pretende apresentar o Plano Prawer [2] como uma ação “humanitária”, que oferecerá moradia adequada, serviços públicos e “um futuro melhor para as crianças” beduínas do Naqab/Negev, permitindo-lhes “integrar-se à estrutura de um Estado moderno ao mesmo tempo que conservam suas tradições”. A realidade, porém, é que nenhuma das comunidades afetadas foi consultada, nem está de acordo com o plano. E têm bons motivos para isso: além de perder suas terras, serão realocadas em sete assentamentos superpovoados e pobres, nos quais outros grupos beduínos foram concentrados há anos (por isso há quem trace um paralelo entre o plano e as reservas indígenas dos Estados Unidos).

Vivemos aqui desde muito antes da criação do Estado de Israel. Sentimos que a democracia e a justiça de Israel não se aplicam a nós - declarou Maqbul Saraya, 70 anos, à rede Al-Jazira

Rechaço local e internacional

Nos países árabes vizinhos e em várias nações da Europa, além de Turquia, Túnis, Coreia do Sul, Kuwait, Canadá e Estados Unidos também houve manifestações de solidariedade aos palestinos no dia 30, para denunciar o que se considera a operação sionista de limpeza étnica de maior envergadura desde a Nakba (catástrofe) de 1948. O Parlamento europeu, o Comitê contra a Discriminação Racial da ONU (CERD) e outros organismos intergovernamentais pediram a Israel que cancele o projeto, que se transformará em lei no final do ano. Organizações e redes internacionais como Anistia Internacional, Vozes Judias pela Paz, Avaaz, entidades palestinas e algumas israelenses também criticaram o plano e lançaram campanhas pedindo sua anulação. Mais de 50 intelectuais e artistas britânicos (entre eles Ken Loach, Mike Leigh e Peter Gabriel) publicaram uma carta no jornal The Guardian, qualificando o objetivo de Israel de desarraigar a população beduína como “deslocamento forçado de palestinos/as de seu lugar e de sua terra, discriminação e apartheid”.

Três jovens beduínos presos e algemados durante uma batida policial na estrada principal na cidade de Hura, durante o protesto contra o Plano Prawer no Day of Rage de 30/11/2013. (clique na imagem para aumentar)
Nos territórios ocupados, houve protestos em Gaza, Ramala, Jerusalém, Hebron, Nablus. Mas talvez as imagens mais eloquentes, e que tiveram maior difusão [3], tenham sido as das localidades que se encontram dentro das fronteiras de Israel – onde a repressão teve o mesmo excesso de violência imposto à Cisjordânia: gás lacrimogêneo, granadas de som, canhões de água química tóxica, surras com porretes e pontapés dos policiais, e dezenas de prisões.

Ao ver a profusão de bandeiras palestinas nas ruas, praças e postes públicos, e de rostos envoltos em kuffies, aqueles que não estão familiarizados com a geografia do país acham difícil entender que as fotos de Yaffa ou Haifa (cidades costeiras que eram joias da Palestina antes de 1948 e que ainda contam com uma grande população palestina) foram tiradas dentro de Israel.

Isso também vale para a manifestação na aldeia beduína de Hura, uma das afetadas pelo Plano Prawer: as imagens podiam ser do vale do rio Jordão ou das colinas do sul de Hebron, territórios palestinos ocupados e submetidos às mesmas políticas de deslocamento forçado da população nativa, obrigada a entregar suas terras a colonos judeus. A paisagem e o povo que a habita são os mesmos; o poder que os oprime, também.

Em resposta à jornada de protesto, o ministro israelense de Relações Exteriores, Avigdor Lieberman (um colono fanático e ultranacionalista – ironicamente emigrado da Moldávia – que defende abertamente a anexação da Cisjordânia e de Gaza, com a expulsão da população palestina e a aniquilação da que vive em Gaza) fez uma de suas habituais declarações de racismo explícito:

Estamos lutando pelo território nacional do povo judeu, e há aqueles que querem deliberadamente roubar essa terra e controlá-la à força. [4]

O sionismo como ele é

Talvez o maior “mérito” do Plano Prawer, além de unir a população palestina de todos os setores políticos e geográficos, tenha sido colocar em evidência, mais que todas as políticas israelenses, a natureza e o programa do projeto sionista: a expansão demográfica e territorial judaica, a contenção demográfica e o despejo da população palestina nativa. O objetivo último dessas políticas, perfeitamente articuladas em ambos os lados da Linha Verde, a fronteira internacional – não reconhecida por Israel – é consolidar um regime que muitos cientistas sociais (como o geógrafo israelense Oren Yiftachel [5]) qualificam de etnocracia. [6].

Manifestantes contra o Plano Prawer no Day of Rage fora da cidade de Hura, Negev em 30/11/2013 (clique na imagem para aumentar).
Ao mesmo tempo, essas políticas revelam a falácia de analisar o conflito sob o paradigma de “dois Estados” ou das “fronteiras de 1967”. A realidade é de um único Estado, que, ao se definir como judeu, exige, para preservar sua “pureza” étnico-religiosa, eliminar de todas as maneiras possíveis a ameaça demográfica que a população não judia constitui. Essas maneiras incluem não apenas o roubo de terras, a colonização, a limpeza étnica e o apartheid dos palestinos, mas também a expulsão em massa dos imigrantes africanos. [7].

Esse Estado não reconhece outras fronteiras senão a totalidade da “terra de Israel” bíblica [8] e não está disposto a cedê-la a seus habitantes não judeus. Não estiveram dispostos os primeiros líderes sionistas, nem estão os atuais. Tudo o mais – incluída a indústria do processo de paz – é discurso para consumo da mídia ocidental.

Não menos importante, ou mais, é a questão da integridade do povo palestino. Realidades como o Plano Prawer mostram a omissão implicada na redução da questão palestina aos mais de 4 milhões que hoje vivem em Cisjordânia e Gaza – em menos de 20% de seu território original. Tão injusto como excluir de qualquer solução os 6 milhões de refugiados/as dispersos pelo mundo é esquecer o 1,5 milhão de palestinas/os que vivem dentro de Israel (20% da população), expostos a mais de 55 leis de apartheid e a políticas de exclusão e deslocamento em consequência do afã ilimitado da judaização. Enquanto não mudar a natureza do regime colonial e racista de Israel, não haverá paz justa nem duradoura – nem democracia – naquela terra desgarrada.


Notas de rodapé
[1] Um dunam equivale a 1 mil metros quadrados.
[2] Um vídeo de propaganda foi colocado nos sítios web das embaixadas israelenses no mundo: .
[3] Ver, por exemplo, o sítio do coletivo fotográfico Activestills.org:
[5] Etnocracia. Políticas de tierra e identidad en Israel/Palestina (Bósforo, Madrid. 2011).
[6] Há cientistas que discordam dessa abordagem, por considerar que os judeus não constituem uma etnia, nem um povo, e sim uma comunidade religiosa. A esse respeito, ver A invenção do povo judeu, de Schlomo Sand (São Paulo, Benvirá, 2011). (N. da T.)
[7] Os imigrantes africanos, em sua maioria, são judeus. Mas são negros, e os sionistas querem um país de população branca, como provaram as declarações de autoridades israelenses quando da expulsão de milhares de negros africanos em 2012, e como prova a lei aprovada no final de novembro de 2013, destinada a retirar de Israel uma população estimada em 60 mil africanos. (N. da T.)
[8] A Israel bíblica é contestada pela arqueologia, pela antropologia e pela história. Ver, a respeito, A Bíblia não tinha razão, dos arqueólogos israelenses Israel Finkelstein e Neil Ascher Silberman (São Paulo, Girafa, 2003); de Schlomo Sand, A invenção do povo judeu (cit.) e The Invention of the Land of Israel [A invenção da terra de Israel] (Londres, Verso, 2012); de Keith W. Whitelam, The Invention of Ancient Israel; the silencing of Palestinian history [A invenção da antiga Israel; o silenciar da história Palestina]. [N. da T.]
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[*] María Landi é pseudônimo de uma ativista latino-americana de direitos humanos, solidária com a causa palestina.