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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Miséria econômica (de “classe média”) & dominação (de classe dominante): Obama: O golpe ideológico da hora

28/1/2015, [*] Norman PollackCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Classe Média mundo afora...
Por que tentar agora uma discussão teórica do capitalismo, embora esquelética e fragmentada, quando tanta coisa acontece pelo mundo, a militarização da cultura dos EUA com reforço social para sua postura hegemonista – mais ameaçada do que nunca antes desde a IIª Guerra Mundial pelo crescimento de outras nações e respectivas economias políticas, no que se vai rapidamente tornando um sistema internacional multipolar? A pergunta quase se autorresponde.

Os EUA correm cada vez mais apertados, talvez já com medo, nada habituados a que alguém desafie seu domínio exclusivo unilateral sobre o tal sistema, apoiado em “amigos e aliados” servis e na FORÇA, real e de reserva, para implementar a suserania norte-americana.

Essa semana, foram Índia e Arábia Saudita: fazer a sintonia fina do Império, negociar e/ou renovar alianças militares, oferecer garantias de segurança-proteção, processo sem fim de pôr um dedo no buraco para fechar a represa, sendo o buraco, nesse caso, a aspiração das pessoas a uma vida livre de exploração, acordos comerciais enviesados e tortos, o cogumelo nuclear engordando sempre no céu e escurecendo todos os futuros.

Por que agora, outra vez? Talvez pela mais transparente das razões, o discurso Estado da União de Obama, com seu mais recente clichê de enganação: a chamada economia de classe média, para encobrir a diferença escandalosa entre ricos e pobres, para, assim, enrijecer a estrutura de classes nos EUA, com consequências mais antidemocráticas a cada dia.

Novos dados da distribuição de renda explicam o golpe, pelo menos em parte. Mas não explicam tudo, porque o poder cresce geometricamente quanto mais amplas sejam as fundações, e quanto mais seja dado por indiscutível e confirmado pelo povão (submisso, doutrinado, engambelado, acostumado).

Em nenhum lugar mais que nos EUA, com seus mentirosos clamores de democracia, de superação das classes, de guardião da paz do mundo e do estado de direito, o poder traz com ele mais falsa consciência, com a IDEOLOGIA que vem à tona na estabilização e aprofundamento do capitalismo.


Daí, a economia de classe média, que não passa de capitalismo de monopólio embrulhado em papel-de-seda para parecer política inclusiva de oportunidades feita conforme a receita: Todos somos capitalistas! Todos somos altruístas! Somos todos iguais – posto que todos somos norte-americanos.

O subterfúgio é velho como as montanhas – Tocqueville bebeu no mito, as modernas empresas de relações públicas/propaganda/publicidade vivem da coisa, desde então, e o Evangelho dos Ricos opera sem parar, executivos de empresas & bancos, glutões in extremis, varrendo a entrada.

Obama é talhado para nossos tempos, sujeito sem nenhum escrúpulo, agente avançado da plutocracia. Com seus predecessores a chicanería era óbvia; Clinton, o Democrata, mãos-nas-mãos com Bush, o Republicano, passo a passo na arena da desregulação, penetração no mercado do outro lado do mundo, e estímulo econômico de preparação para a guerra, solenemente pronunciado “segurança” e “defesa”.

Mas quem leva a taça é Obama, enterrando o processo de acumulação de riqueza nas platitudes do norte-americanismo, a mais modernosa economia de classe média.

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Herbert Marcuse em Razão e Revolução, [1] um dos trabalhos mais significativos da filosofia política do século XX, diz no Epílogo que a sobrevivência do capitalismo dependeria de ele absorver a própria negatividade, tarefa crítica para que fosse bem-sucedido, mas superior aos seus meios. Dito de modo mais simples, o capitalismo é suas contradições, não como alguma fórmula abstrata (para mim) de materialismo dialético, mas nos modos políticos e estruturais mais pão-com-manteiga, de comportamento sistêmico que leve à formação e à manutenção de um estado-classe no qual os trabalhadores em termos relativos, aproximam-se muito do exército industrial de reserva de Marx, via uma condição de subconsumo que o mantenha onde está, e o princípio da HIERARQUIA firmemente intacto no dia a dia.

Contradições que são como código, então, para normalizar a repressão. Mas... não! Pode-se chamar a coisa toda, mais simples, de “economia de classe média”.

Discuti recentemente nessas páginas aquele discurso, o golpe de Ben e Rebekah  [convidados de Michelle Obama para assistirem ao discurso na Casa Branca] para personificar e miniaturizar o capitalismo avançado, Todos & Todas sentados à mesa do café da manhã preparando a lista de compras do dia, enquanto Johnny sai para a escola – um conto de Megacapitalismo digno, como escrevi, de Goebbels.

Ben e Rebekah Erler com os 2 filhos
Mas voltemos à distribuição de renda, não com Kuznets, ou melhor, Gabriel Kolko de “Riqueza e Poder”, para contrabalançar o piegas social-democrata de Michael Harrington “A Outra América”.

Em vez disso, tomemos o artigo de Dionne Searcey e Robert Gebeloff no New York Times, Nos EUA, a classe média só encolhe, com mais gente saindo dela, do que ascendendo para ela (Jan. 26, 2015), como resposta informal à economia de classe média. Começam assim:

A classe média que o presidente Obama identificou em seu discurso do Estado da União semana passada, como o fundamento da economia norte-americana vem encolhendo já há quase meio século.

Nada mau para o The NYTimes, até aí.

Mas eles também desapontam, usando uma banda elástica de renda, de US$ 35 mil a US$ 100 mil, para definir a classe média, onde se encaixavam, no final dos anos 1960s, metade dos lares norte-americanos. Ninguém (exceto, claro, os que foram expulsos da “classe”) percebeu a mudança em curso, porque muitos mais estavam “ascendendo a ladeira econômica para as faixas mais altas”.

Nesse ponto, Searcey-Gebeloff ficam mais sérios (digo isso, porque estatísticas pré-2000 mostram quadro diferente, quando os níveis de renda são mais precisos, incluindo a proporção nos 2/10 inferiores de renda):

Mas desde 2000, a faixa de classe média continuou a diminuir nos EUA. A razão principal da diminuição é que mais gente passou a escorregar para faixas inferiores. Ao mesmo tempo, poucos e cada vez mais poucos dos que estavam nesse grupo enquadram-se na imagem tradicional de casal casado com filhos em casa, espaço preenchido cada vez mais por idosos.

E os autores admitem:

Mesmo assim, independente da renda, muitos norte-americanos identificam-se como “classe média”.

O termo é de tal modo amorfo, que políticos muitas vezes citam esse grupo ao introduzir propostas para as quais buscam apoio amplo. (E, ideia minha: nem pensar que Obama estaria usando o discurso do Estado da União para fazer a mais reles propaganda!) Mesmo nessa faixa de renda, “muitos norte-americanos que fazem mais que US$ 100 mil se autoconsideram de classe média”, especialmente “quem viva em regiões caras”, como a Costa do Nordeste e a Costa do Pacífico. Quase dá pena dos que estão na ou acima da faixa dos US$ 100 mil – mais uma vez: a minha; os jornalistas observam: “Contudo, as linhas estão traçadas, é claro que milhões estão lutando para não perder itens que a maioria dos especialistas consideram essenciais para uma vida de classe média”.

Diminuição da Classe Média nos EUA (1967-2013) 
As mudanças demográficas na composição da “classe média” são instrutivas. “A classe média passou por uma transformação, ao mesmo tempo em que encolhia” – escrevem eles. – Idosos trabalhando depois de se aposentarem caem aí; casais com filhos pequenos caem abaixo dessa faixa como a vemos hoje. Significa que “em anos recentes, o componente de mais rápido crescimento da nova classe média têm sido lares chefiados por pessoas com mais de 65 anos”, com as aposentadorias garantindo alguma proteção, “agora que norte-americanos idosos cada vez mais trabalham até bem depois da idade tradicional de aposentadoria”. Por outro lado “casais com crianças – a categoria que mais encolheu – são a categoria que também diminui mais rapidamente de toda a classe média”. Mulheres casadas na força de trabalho vêm impedindo que esse grupo caia ainda mais. “A mais recente recessão pôs fim a qualquer avanço mesmo nessa categoria em geral bem-sucedida. Sua porcentagem na classe média caiu três pontos percentuais, e o grupo que vive com menos de US$ 35 mil dólares/ano aumentou”.

Mas vai tudo bem no Mundo Todo Feito de Pirulitos de Obama.

Adiante, o comentário que enviei ao The New York Times, sobre o artigo de Searcey-Gebeloff:

Enquanto alguém falar de “classe média”, seja estatisticamente (a faixa de US$ 35 mil-US$ 100 mil é absurda) ou como tópico de narrativa, continuaremos a ser enganados, induzidos a pensar que a distribuição de renda é mais democrática do que é, e que o poder está distribuído mais equitativamente do que na verdade está.

A tal “classe média” de Obama não passa de bordão de Relações Públicas, truque deliberado para não deixar ver a realidade. O presidente apela às almas boas para que vejam os EUA em termos não estruturais de não classe, ocultando assim a concentração de riqueza e varrendo para baixo do tapete tudo que só faz aumentar a DESIGUALDADE.


Ao usar esse quadro de referências que, claro, foi predominante por décadas, The NY Times contribui para a visão de que pobreza e riqueza possam ser analisadas e discutidas em termos não sistêmicos. Mas... E se a desigualdade estiver inscrita nas fundações da sociedade norte-americana?

E o quanto, para o bem ou para o mal, têm a ver com o fracasso econômico demográfico, o gasto militar massivo, a guerra, a intervenção e o militarismo em geral?

Os EUA como nação dependemos do militarismo. Os números seriam ainda piores se não estivessem aí esses gastos e essas políticas militaristas. E nem se fala do empurrão artificial que a economia recebeu.

O discurso “Estado da União” de Obama foi solene farsa, em plena discussão séria sobre “em que pé estamos?”. O imposto para empresas que ele propõe é inferior ao que temos vigente hoje. A “desregulação” de Obama só faz promover a consolidação financeira de vários modos da acumulação de capital. Ponha na mesma conta a inflação, e o que se tem, seja por decisão política ou por consenso bipartidário, é muita gente lutando para não morrer.


Nota dos Tradutores
[1] HERBERT MARCUSE [1898-1979] (1941) Razão e RevoluçãoHegel e o surgimento da teoria social, Rio de Janeiro: Paz e Terra.
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[*] Norman Pollack é o autor de The Populist Response to Industrial America (Harvard) e The Just Polity (Illinois), Guggenheim Fellow e professor emérito de História na Michigan State University. Seu último livro, Eichmann on the Potomac, foi publicado por CounterPunch/AK Press, no outono de 2013.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A política de poder da expansão do capitalismo


29/9/2014, [*] Norman PollackCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O rótulo da KGB tem alto valor propagandístico na campanha de demonização de Putin, mas não há registro de que Putin algum dia tenha pessoalmente “ticado nome-sim nome-não”, numa lista de gente a ser assassinada por drones e ataques aéreos, como faz Obama em seu mundo cercado por bases militares.

E a KGB seria, por acaso, talvez, mais repressiva e mais assassina que a CIA ou Forças Especiais dos EUA, quando promovem “mudança de regime”? Ou mais invasiva, contra a privacidade dos cidadãos, que os programas de vigilância em massa da Agência de Segurança Nacional de Obama?

Vladimir Putin, segundo a imprensa-empresa "ocidental"
Vale tudo, para demonizar Putin, mesmo se, como hoje, a acusação é que ele viveria cercado de oligarcas – o que é muito mais a própria cara dos EUA, se se olhasse no espelho. Não preciso nem quero discutir ou explicar os negócios da plutocracia local que modelaram a economia russa pós-soviética. Sinceramente, a visão distópica de Jeffrey Sachs, que manda rasgar o socialismo em farrapos, é pior que só ideia infeliz; a aceitação operacional que essa visão recebe na Rússia é trair um Mundo Socialista que, depois da morte de Stálin, poderia ter feito avançar a democratização de largas porções da economia política internacional e mordido porção considerável do poder e do desempenho econômico dos EUA. Em vez disso, parece estar acontecendo o exato inverso.

Agora a Rússia, depois, sem demora a China, entram na alça de mira para serem politicamente enfraquecidas e na sequência politicamente desmembradas e/ou empurradas para o retrocesso econômico, porque a militarização pelos EUA do capital monopolista não tolerará oposição em sua estrutura recém definida de rivalidades intracapitalistas.

Putin e Li romperam a conexão histórica com Marx. Por isso eu, valha o que valer, quero se que veja em Rússia e China versão abastardada do capitalismo de Estado, não alguma espécie de clara opção pelo socialismo democrático. Os bilionários, os palácios de veraneio na Côte d’Azur, os condomínios que são cidades completamente privatizadas na Belgravia, arrastam aqueles países para o nível mais norte-americano de consumismo e desigualdade estrutural.

Mesmo assim, enfatizo aqui a Rússia, porque há uma diferença: Putin não saiu por aí armado para conquistar o mundo; uma Rússia estável numa ordem internacional igualmente estável parece bastar, e mantém dentro de limites estreitos quaisquer aspirações à hegemonia, se houver.

Com Putin, nada há da retórica grandiloquente de Obama sobre salvar o mundo para a liberdade e a democracia; nada de orçamento militar que estrangula a sobrevivência do país e que, parece que por projeto, já destruiu a rede de proteção social; e nada, tampouco, com Putin, da expansão drástica da modernização nuclear, para tornar letal todo o estoque de armas e aperfeiçoar os meios para transporte e detonação das armas. Putin é líder mundial muito mais circunspecto que Obama e seus predecessores.

O rótulo da KGB tem alto valor propagandístico na campanha de demonização de Putin, mas não há registro de que Putin algum dia tenha pessoalmente “ticado nome-sim nome-não”, numa lista de gente a ser assassinada por drones e ataques aéreos, como no mundo cercado por bases militares em que reina Obama.

E a KGB seria, por acaso, talvez, mais repressiva e mais assassina que a CIA ou Forças Especiais dos EUA, promovendo mudança de regime? Ou mais invasiva, contra a privacidade dos cidadãos, que os programas de vigilância em massa da Agência de Segurança Nacional de Obama?

Vladimir Putin - agente da KGB
Mas, sim, oligarcas são detestáveis, não importa a nacionalidade. E o The New York Times publicou artigo assinado por Steven Lee Myers, Jo Becker e Jim Yardley, intitulado Bancos Privados Alimentam Fortunas no Círculo Íntimo de Putin  (ing., 28/9/2014), que lança luz sobre a ascensão de Putin ao poder e – embora os EUA insistam em ignorar o assunto e não se veja nenhuma referência ao tema na imprensa-empresa de “informação” − mesmo que seja item que muito contribuiria para demonizar Putin – lança luz também sobre os custos sociais destrutivos da PRIVATIZAÇÃO de recursos do Estado.

Quando a Rússia põe-se sistematicamente a seguir os EUA, causa dano grave ao próprio potencial e realidade humanista. Paradoxalmente, a Velha Guerra Fria refletia diferenças ideológicas; mas a Nova Guerra Fria está parcialmente apagando aquelas diferenças, embora, sim, esteja subindo as apostas, porque dentro do capitalismo esconde-se hoje besta muito mais feroz do que a que se conhecia antes de 1917 e da Revolução Bolchevique: a da competição sem trégua pela supremacia planetária.

De diferente hoje, também, que a Rússia não dá sinais de estar disposta, no governo de Putin, a entrar no jogo; como se invertesse, para parafrasear, o mote de Stálin: “capitalismo num só país”. Quanto a Obama, por que parar às portas da Rússia?

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A matéria do NYT  “denuncia” a ação do Bank Rossiya que teria apoiado Putin e agora recebeu sanções dos EUA. A matéria não é importante [mais do mesmo incansável “denuncismo” de um tipo de jornalismo que visaria a construir mercados & consumidores “éticos” (NTs)], nem confiável. [Interessantes, só, os comentários de Pollack (NTs)].

Obama é mais capitalista, que nacionalista: quando favorece JPMorgan, Chase, Boeing, etc., não mistura, embora possa deliberadamente jogar um/uma contra o/a outro/a, o banco, o banqueiro ou a empresa, e a nação. Porque a nação, para Obama, é secundária ante os interesses dos grupos que o apoiam (razão pela qual as comunidades militar e de inteligência são consideradas ferramentas indispensáveis).  

[E, adiante:] Mas os jornalistas do NYT não informam que várias das tais atividades pouco recomendáveis no Banco Rossiya aconteceram em abril, depois de as sanções já terem sido declaradas; o banco reagiu contra o regime de sanções, muito mais do que “recompensou empresários amigos”. Seja como for, o Bank Rossiya – se se desconta a retórica incendiária dos jornalistas – contribuiu para converter em bilionários “vários apoiadores de Putin, cuja influência sobre setores estratégicos da economia auxiliaram Putin a manter-se firmemente agarrado ao poder”. Parece ser verdade que, sim, a amizade com Putin alterou a distribuição da riqueza, mesmo que Putin, pessoalmente, não se tenha beneficiado.

Bank Rossiya
Como paradigma do desenvolvimento capitalista, porém, lá está a transformação, de socialismo burocrático para capitalismo de Estado, com ou sem o papel de vanguarda entregue ao círculo presumido íntimo de Putin. (Bem provavelmente, o mesmo conjunto geral de dinâmicas históricas também se aplica à China, de Mao a Li; mas o capitalismo clientelista parece estar mais claramente identificado na China que na Rússia).

Se a Rússia tivesse conseguido fazer uma transformação pacífica depois do fim da União Soviética, em mundo no qual o capitalismo não tivesse sido veículo para dominação internacional, talvez – só talvez! – o resultado poderia ter sido uma economia mais genuinamente mista, depilada de bilionários e de favoritos do governo.

Não aconteceu. Na matéria do NYT [se se varrem os não-ditos e subentendidos de propaganda], os jornalistas acertam, no essencial geral, quando escrevem que:

Putin chegou ao poder prometendo eliminar, “como classe”, os oligarcas que haviam acumulado fortunas descomunais – e, para o modo de pensar do novo presidente, excessiva parcela de poder político – durante o governo do predecessor de Putin, Boris N. Yeltsin, no caos pós-comunista dos anos 1990s. Em vez disso, o que se viu foi o surgimento de uma nova classe de magnatas, homens de sombrias origens soviéticas que devem a Putin a vasta riqueza que acumularam e que, em troca, lhe garantem total fidelidade política.

Lamentavelmente, bancos sempre serão bancos. O Bank Rossiya (como disse Willie Sutton: “roubo bancos porque é lá que está o dinheiro”), é resultado do talento para o empreendedorismo, de gente como Yuri Kovalchuk, presidente e maior acionista, “físico por formação acadêmica, às vezes chamado “o Rupert Murdoch da Rússia”, pelo papel que teve na coordenação e arquitetura dos interesses do seu banco, na “mídia'’. Recorre também a “sombrias estruturas corporativas”, como empresas em paraísos fiscais, como as Ilhas Virgem britânicas. Quanto aos acionistas, foi gratificante ver na lista o nome de Sergei Roldugin, violoncelista que usou seu investimento no banco para converter um palácio do século XIX em São Petersburgo, em “casa da música e academia para formação de músicos clássicos” (o exemplo-propaganda vai aqui, grátis).

Não se discute o clientelismo – o NYT cita vários exemplos, além de enorme quantidade de oligarcas conhecidos associados ao banco. “Conexões de negócios”, escrevem os jornalistas do NYT, “tornaram-se conexões profundamente pessoais” [também com] “Putin, que, com sete empresários, muitos dos quais acionistas do Bank Rossiya, formaram [em 1996, o que os jornalistas não esclarecem], uma cooperativa de casas de verão, dachas, chamada Ozero [“lago”], no nordeste de São Petersburgo”.  

Dashas Ozero, S. Petersburgo (Google Earth)
(clique na imagem para aumentar)
Mas... e tudo isso será, como esbravejam os críticos, “cleptocracia legalizada”? A discussão seria longa e desinteressante e inconclusiva. Para reduzir ao que importa, basta dizer que o fator pessoal aparece bem separado das considerações de Estado, na cabeça de Putin.

Um daqueles oligarcas, Gennady Timchenko, que negocia petróleo e investe no Bank Rossiya (e que está hoje sob sanções impostas pelos EUA), explicou que:

(...) nunca lhe ocorreria questionar o presidente da Rússia sobre suas políticas na Ucrânia, fosse qual fosse o custo delas para empresas como as suas. “Seria impossível”, disse ele ao NYT, referindo-se ao presidente da Rússia formalmente pelo primeiro nome e nome do pai. Vladimir Vladimirovich age com vistas a defender os interesses da Rússia, sempre, em qualquer situação. Ponto. Parágrafo. Não faz concessões. Nem jamais passaria por nossa “cabeça discutir essas coisas”.

Essa fala é extremamente importante.

O capitalismo de estado não é necessariamente a interpenetração de empreendimentos, empresas, empresários e governo, que tantas vezes apresentei em artigos para CounterPunch em que examinava as dinâmicas estruturais que estão levando os EUA para a fase fascista do capitalismo avançado.

Ainda que Vladimir Vladimirovich não seja exatamente Tolstoy reencarnado, mesmo assim vê-se, em Putin, que o capitalismo na Rússia é mais russo, que nua-e-cruamente capitalista.

Os EUA sempre foram e permanecem puristamente capitalistas, impondo as mais repressivas políticas domésticas (vigilância massiva, clima de hostilidade contra os trabalhadores, o trabalhismo e o trabalho, vasta disparidade na distribuição da riqueza) e também as mais violentas políticas externas (guerra, intervenção, luta pela hegemonia) para tentar dar sustentabilidade ao capitalismo purista dos EUA. Essa é diferença muito grande entre Rússia e EUA, com os EUA declarando intolerável que a Rússia, talvez hoje ainda mais que sob a forma soviética, coloque outros fatores acima e por cima do capitalismo como os EUA o praticam: como sistema integralmente agressivo-expansivo, sem parar ante nenhum obstáculo em seu avanço global.

Foi fácil opor-se e condenar o socialismo. É menos fácil opor-se e condenar essa formação política nacionalista-capitalista que se vê hoje na Rússia de Putin, porque a simples existência dessa formação dentro do capitalismo já obriga a ver outras potencialidades, dentre as quais, que, mesmo no capitalismo, há meios para garantir melhor atenção e melhores condições de vida para os próprios cidadãos, do que o que se vê hoje nos EUA.


Oligarcas do círculo íntimo de Putin
(print screen recortado do NYTimes)

Na sequência, reproduzo meu “Comentário” ao artigo do NYT, mesma data:

Excelente documentação. Mas análise efetivamente e realmente comparativa mostra o quê? Que o capitalismo de empresários-cupinchas (oficialmente chamado “capitalismo clientelista”) está vivo e em ótimas condições tanto na Rússia como no Ocidente. Criticar o ocidente pelos mesmos mal-feitos soa estranho, porque os mesmos pressupostos valem igualmente para EUA e Rússia. Os EUA vivem hoje a fingir as mesmas puras convicções de algum anticomunismo, como na Primeira Guerra Fria (não há como negar que já estamos na Segunda), quando, na verdade os EUA invejam muito o sucesso capitalista da Rússia.

Os EUA atacam Putin como a raposa ataca uvas que não pode alcançar. O que foi o ‘resgate’ dos bancos norte-americanos “grandes demais para quebrar”, se não o capitalismo mais clientelista? O que é o íntimo relacionamento entre o Pentágono e as grandes empresas do complexo industrial da Defesa, se não o capitalismo mais clientelista? Não é preciso que algum líder, no caso Putin, ou exiba ou não exiba ele, pessoalmente, a doença. O capitalismo clientelista pode ser e é SISTÊMICO, nos EUA. E Obama mantém-se passivo e deixa aumentar a enorme clivagem, que só cresce, nos EUA, na distribuição da riqueza.

Putin pode dizer e comprovar que não enriqueceu no capitalismo clientelista de empresários-banqueiros-cupinchas e, na verdade, aceito sem dificuldade seu argumento de que suas políticas são motivadas por considerações geopolíticas e geoestratégicas, não por o que deseje um ou outro banqueiro ou oligarca.

Os EUA e Obama podem dizer o mesmo? Como poderiam, se não fazem outra coisa além de obrar servilmente a favor dos interesses de empresários e empresas norte-americanas por todo o planeta, armados até os dentes e matando sem parar, especialmente, hoje, no Oriente Médio?

O negócio das sanções chega a ser engraçado: folha de parreira que nem esconde o plano ambicioso dos EUA para conter, isolar e enfraquecer a Rússia – na sequência, como já disse, atacarão a China – com os EUA cada vez mais desesperados para recuperarem o trono na estrutura global.   

Com a ascensão de Rússia e China, os EUA que tratem de aprender a partilhar o poder. Será isso, ou o colapso.
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[*] Norman Pollack é o autor de The Populist Response to Industrial America  (Harvard) e The Just Polity (Illinois), Guggenheim Fellow e professor emérito de História na Michigan State University. Seu último livro, Eichmann on the Potomac, foi publicado por CounterPunch/AK Press, no outono de 2013.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Obama Procurado! Acusar a China por ciberespionagem é arrogância doentia

22/5/2014, [*] Norman Pollack, Information Clearing House
Traduzido por mberublue

Edward Snowden - O Alertador (por Zapiro)
É como se o que Edward Snowden revelou nunca tivesse sido revelado, ou como se os EUA não tivessem cometido aqueles crimes de espionagem. Pois A.G (Eric) Holder, Advogado-Geral dos EUA, do alto da pompa e majestade do cargo, declarou que a China estaria empenhada em espionagem econômica criminosa contra os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, o Departamento de Justiça distribuiu cartazes de “Procurados”, fotos e nomes de cinco oficiais do exército chinês: o Departamento de Justiça quer julgá-los na Pensilvânia por ciberataques contra corporações dos EUA e o Sindicato dos Metalúrgicos. 

O que aconteceria se o Tribunal Criminal Internacional distribuísse cartaz de “Procurado!” com a cara de Barak Obama – procurado para ser julgado por crimes de guerra, incluídos aí as intervenções, mudanças brutais de regimes e governos, e os assassinatos? E também a Organização Mundial de Comércio (mas já é vassala rasteira dos Estados Unidos), bem poderia mandar prender BO por exatamente a mesma acusação que Holder faz contra a China. Em termos simétricos, é como se um tribunal de Pequim emitisse intimações, juntamente com cartazes de “Procurados” para cinco membros do OTNS (Obama Team National Security [Equipe de Obama para a Segurança Nacional]), por exemplo: Clapper, Rice, Comey, Brennan e Dempsey... A chance de os EUA concordem com eventual pedido para extraditar essa sua camarilha de cinco é a mesma de a China concordar com a extradição dos cinco acusados pelos EUA, em que pese serem oficiais de menor escalão que os da camarilha dos EUA na elaboração e/ou execução de qualquer política. 

Os cinco acusados parecem ter sido selecionados aleatoriamente, a menos que os EUA tenham invadido computadores chineses ou infiltrado informantes (ou ambos) no Exército de Libertação Popular – PLA Unit61398 [Sobre o que supostamente seria, acesse o “link” (NTs)] Pois é aí que está o xis da questão!

Eric Holder
por Paul Szep
Holder, o Advogado-Geral, não pode estar falando sério sobre a possibilidade de a China “obedecer” suas ordens, ao anunciar, conforme reportagem de Spencer Ackerman a Jonathan Kaiman no jornal The Guardian, dia 20/5, que:

(...) o governo dos Estados Unidos, pela primeira vez na história, tentará trazer agentes de um governo estrangeiro ao seu território, para que respondam a acusações de infiltração em redes de computadores norte-americanos com o fim de roubar dados que beneficiariam os competidores comerciais dos EUA.

Nada pode(ria) soar mais ridículo. Imprimir e distribuir cartazes à moda “Velho Oeste”, com “procura-se” e fotos dos chineses, e banners trombeteando acusações tampouco pode ser ação a sério. Mais parece provocação (mal) calibrada contra o governo chinês, como “tática” para administrar o avanço do confronto, tangenciando a estratégia da administração Obama para o Pacífico, sobre o envolvimento de forças militares, neste momento inicial de uma futura guerra total.

No formato apresentado por Holder e pelo Departamento de Justiça dos EUA, a ciberguerra é farsa. 

Holder e o Departamento de Justiça dos EUA estão fazendo de tudo para ajudar aos militares norte-americanos que se aproximam cada vez mais de um conflito militar limitado, que pode vir a se tornar nuclear. Obama encorajou o rearmamento do Japão e apoiou pretensões japonesas sobre umas poucas ilhas rochosas, em sua turnê “Pacific Rim” pela Ásia. Combinou manobras conjuntas com as Filipinas. Assim como os cartazes de “Procurados”, todas essas são manobras de provocação, com o fito de atrair a China para a órbita do Poder Militar dos Estados Unidos – como já está sendo feito na Ucrânia, onde os EUA querem atrair a Rússia a um confronto contra as forças somadas de EUA, OTAN e União Europeia. Assistam o vídeo a seguir legendado em inglês:


Obama, pois, está usando o pretexto da ciberespionagem, que pode ser apresentada também por seus objetivos governamentais, militares e econômicos, e assunto no qual o exército e as comunidades de inteligência americanas são mestres consumados, como motivo falso para intervenção armada, ou pelo menos como oportunidade para abalar e tentar enfraquecer a China.  

O problema é que os EUA montaram virados para os fundos do cavalo, não para a cabeça: é truque estúpido de qualquer perspectiva que se olhe, é desastroso, é temerário, é imbecil. 

As acusações de guerra cibernética contra a China feitas por Holder: “a gama de segredos comerciais (...) roubados é grande e exige resposta agressiva”, só pode ser compreendida em um contexto que leve em consideração a geopolítica dos EUA em base global –, e na qual a China substitui a Rússia como inimigo de primeira grandeza. Por isso “exige-se” resposta intensa, sintetizada em elementos econômicos e militares, que possibilite/ possibilitaria isolar, conter e limitar drasticamente o poder da China. O pivoteamento de Obama para a Ásia, talvez hoje o único movimento visível-transparente em todo o governo dos EUA, é estratégia multifacetada, para antagonizar deliberadamente a China, levando em seu bojo movimentos para um reajuste estrutural global que garantiria que os EUA retomassem a supremacia inconteste do mundo. 

Eu sou especial! Sim, nós sabemos
É caminho que aparece bem claro, se se observam as alianças militares firmadas no recente tour do presidente Obama à Ásia, e também no incentivo para o rearmamento do exército japonês, a estimulação do conflito entre as Coreias do Norte e do Sul. Combinado com esse caminho, temos ainda a Parceria Trans-Pacífico [orig. TPP (TransPacific Partnership)], em que não se trata só de invadir mercados mas, também, de militarizá-los, identificada estreitamente que está às dimensões militares dessa política. 

Apesar das acusações inventadas por Holder, os líderes chineses, da mesma forma que Putin na Ucrânia, parecem manter a calma, atitude que parece confirmar uma maior identificação, no longo prazo, com uma política unificada que atenda aos interesses das duas nações (o que se confirmou com a tão esperada assinatura de um contrato da Gazprom para fornecimento de gás natural para a China por trinta anos, durante a visita de dois dias de Putin a Xangai).

O antagonismo dos EUA contra a China tem facilitado reações em grande escala. É olhar e ver: já provocou a união entre China e Rússia, depois de décadas de conflito político e ideológico entre Stalin e Mao. Assim, se tornou possível uma das coisas que os EUA mais temem, a saber: um bloco eurasiano que torne plausível a criação de um centro de poder independente, em claro desafio à dominação unilateral dos Estados Unidos, e que prepare o terreno para o surgimento do que tenho chamado de “um sistema mundial de poder multipolar”.

É evidente que só os cinco cartazes de “Procurados” não têm o poder de gerar todos os resultados acima descritos; a dinâmica dessa confrontação já era longamente esperada, dada a realidade das fortes mudanças de desempenho e das políticas econômicas, e mais, dada a metamorfose da arquitetura do desenvolvimento econômico e da industrialização do Terceiro Mundo e as dificuldades para identificar o surgimento de poderes significativos no próprio campo (Brasil, Índia, etc.).

Em sua arrogância gigante e pelas próprias ações, os EUA determinaram a hora da mudança. De que outra forma poderia a China, por exemplo, ser tão bem-sucedida na África e na América Latina, no investimento e extração de recursos naturais, e no próprio comércio?

Cartazes distribuídos pelo Depto de Justiça dos EUA via FBI
Os cartazes de “Procurados” apenas simbolizam a percepção obtusa que os EUA têm do mundo, tão lerdos, sempre, que se deixam repetidamente ultrapassar.

Daí, a vontade de brigar. Putin e Xi Jinping estão cuidando dos próprios negócios (trocadilho infame, mas bem adequado, como se viu no “acordo do gás”) – o que enfureceu e enlouqueceu Obama, o Congresso e os militares, troika de espertalhões acostumados a empregar pressões financeiras e comerciais, intervenções, intimidações, e que ainda têm de reserva presença militar brutalmente atemorizante em todo o mundo. 

Só que, hoje, essas bobagens já não bastam para preparar o caminho que levaria ao sucesso do unilateralismo. Em resposta às afirmações e provocações geopolíticas dos EUA pelo mundo a fora, Putin e Xi Jinping agem com calma e ponderadamente e parecem estar conseguindo aprovação para suas ações entre os líderes mundiais. É duro de engolir para os EUA, que não querem aceitar – sequer querem ver o que está acontecendo. Em vez de ver, os EUA tentam aplicar um velho, obscuro, não catalogado princípio psicológico que eles mesmos inventaram: exibir o unilateralismo dos EUA como se fosse “natural”, óbvio; e, sacudindo essa “bandeira”, mostrar a coisa como profecia que se autorrealiza, como se, quanto maior a só ostentação de força e potência fingidas, mais respeito a fantasia geraria...

O problema é que essa psicologia de sofá está apoiada num arsenal nuclear imenso, o que ajuda a entender a arrogância com que os EUA acusam a China de praticarem ciberespionagem (crime, aliás, que já rendeu medalha de ouro à Agência de Segurança Nacional dos EUA, e cujas práticas exigem que se invente novo ramo da matemática só para calcular a escala e o alcance dos crimes. E, tudo, apenas para sabotar, ouvir, distribuir vírus). E tudo, ah!, sim! em nome da segurança nacional dos EUA e do “contraterrorismo” idem. 

Supostas "vítimas" da espionagem chinesa...
Sobre a audácia dos movimentos do Advogado-Geral Holder, o The Guardian pergunta:

(...) mesmo considerando que durante todo este tempo houve suspeitas de que o governo chinês patrocinaria o roubo de dados corporativos, durante anos, jamais, antes, os EUA acusaram formalmente quem quer que fosse, nem na China nem em outro governo. Por que, então, agora?

Suponho que o declínio dos EUA, ainda inconscientemente (não apenas globalmente, em termos de poder, mas também internamente, com a redução da capacidade industrial de base, desmoronamento da infraestrutura, paralisia e impotência para resolver qualquer tipo de problema, causadas por políticas pensadas para criar e manter uma subclasse de subserviência urbana degradada e alienada, definindo assim a fragmentação das relações sociais e do humor nacional) esteja forçando o imperialismo militar a uma ação de tipo “agora ou nunca!”. No caso da China, com o deslocamento da Rússia como principal adversário de uma Guerra Fria recarregada, a mentalidade de Washington é “malhar enquanto o ferro está quente”; nesse caso, o ferro são os grupos de porta-aviões e bombardeiros de longo alcance já posicionados, acompanhados de movimentos de tropas da Austrália, Filipinas, Japão, Malásia e talvez em outros lugares, seja lá onde se possa pensar em aumentar o cerco, para posterior tomada de posse. 

A modéstia, bem como a justiça e a imparcialidade, não têm lugar nos cálculos da guerra cibernética, e os EUA estão eles mesmos conduzindo sua própria espionagem econômica. Como escreveram Ackerman e Kaiman:

(...) os documentos revelados por Edward Snowden mostram que a NSA teve como alvo a empresa petrolífera brasileira Petrobras, mesmo que a NSA insista, através de seu Departamento de Defesa, que “nunca esteve engajada em espionagem econômica de qualquer forma, incluso cibernética” – como se lia no Washington Post.

O importante é que já foram vistos a fazer o que dizem que não fazem; não tem importância alguma que Pentágono e Agência de Segurança Nacional contradigam os próprios documentos. O que se vê é o esforço para fazer a espionagem econômica aparecer como se fosse “diferente” de outras espionagens e crimes e, assim sendo, como se isso a legitimasse: crime é a espionagem militar e de inteligência e só no caso de os espionados serem os EUA. Mas se os EUA são os espiões, nesse caso, não há crime! 

Nos ciberataques dos Estados Unidos contra as instalações nucleares iranianas, o recrutamento pelo FBI de grupos de hackers para uma vasta soma de atividades ilegais, e com o apoio especial do FBI, aí, não há crime. E ainda nem falamos do oceano de vigilância em que a vítima atacada é o próprio povo dos EUA. Crime, só e sempre quando são os chineses...

A verdade é clara: dado que os EUA repudiam todos os dias todas as liberdades civis, já não têm como acusar os chineses sem, simultaneamente, chamar atenção para os próprios crimes dos EUA. Na conferência para a imprensa, na 2ª-feira, 12/5/2014, Holder caiu no velho clichê: “todas as nações recolhem inteligência”... mas inventa uma exceção para a espionagem econômica, como espécie diferente de espionagem; o que converteria o “caso chinês” em “caso diferente dos outros”.

Chang Wanquan, Ministro da Defesa da China
E tantas fez, o Advogado-Geral dos EUA, que o governo chinês, por seu Ministro da Defesa, jogou as acusações, de volta, na cara dos EUA, já na 3ª-feira, 13/5/2014:

A China exige que os Estados Unidos deem explicação clara sobre os roubos que têm cometido pela internet (mediante escutas e monitoramento ilegal de vários tipos de atividades) e que ponha fim imediatamente a suas práticas criminosas.

Outras nações atacadas não são tão diretas. As relações sino-americanas estão evidentemente despencando ladeira abaixo. (Os Estados Unidos sentem-se feridos no próprio sentimento? Improvável. Os EUA são impermeáveis ao insulto, e ainda mais a pedidos para que interrompam qualquer “atividade” – seja bombardeio maciço em áreas de selva, ou demonstrações de “choque e terror” em áreas urbanas).

A visita de Putin à China nos dois últimos dias, aplacando as tensões entre aquelas duas potências, tornou ainda mais íngreme e escorregadia a ladeira pela qual despencam as relações sino-americanas. Simultaneamente, torna ainda mais perigoso o sempre potencialmente mortífero staff militar dos EUA e suas reações. 

Artigo de Jane Perlez no NYT China e Rússia firmam acordo de gás para 30 anos, de 21/5/2014, resume na sentença de abertura a imagem da mudança da paisagem política mundial.

China e Rússia assinaram acordo de 400 bilhões de dólares nesta quarta feira, o que dá a Moscou um megamercado para seu principal produto de exportação, reunindo e aproximando as duas poderosas nações, apesar de sua acidentada história de alianças e rivalidades, para tentar deter a grande influência mundial dos EUA e da União Europeia.

Para o Times, foi desenvolvimento infeliz... Mas para o resto do mundo, fora da órbita dos EUA, foi bem-vinda lufada de ar respirável. 

China e Rússia fazem acordos comerciais com exclusão do US$ dos contratos
O que deve ser dito, além das óbvias consequências da reaproximação, tanto para o incremento da capacidade industrial da China quanto para que se satisfaçam pelo menos parte de suas necessidades energéticas, é que afinal se pôs um chão sólido sobre o qual pode agora pisar o eventual bloco comercial da Eurásia. Ainda mais importante que isso, a Rússia tornou-se menos dependente da Europa como mercado para o seu principal produto, energia. Jogo de ganha-ganha para que se configure um mundo de poder multipolar. 

Perlez observa acuradamente que o episódio da Ucrânia levou a Rússia e a China e se aproximarem e a se unirem.

O impulso que faltava para que se concluísse o acordo da venda do gás entre Rússia e China, cujas conversações já duravam uma década, foi o fato de que a Europa, principal mercado de energia de Moscou, impôs sanções à Rússia e buscava formas de reduzir sua dependência da energia russa. Nessas circunstâncias, o presidente Putin teve de buscar com urgência meios que lhe permitissem reduzir a dependência da Rússia, do mercado europeu, como principal consumidor de seu principal produto.

Muda o jogo também em relação ao tamanho e estímulo ao projeto que exige

(...) a construção de oleogasodutos e outras infraestruturas que custarão dezenas de bilhões de dólares em investimento.

Strobe Talbott
Aqui da minha casa, posso até ouvir o ranger de dentes de elites/espertalhões da política americana, como Strobe Talbott, presidente da Brookings e presidente do Conselho Consultivo para Política Externa de Kerry, dizendo:

(...) a cunha sino-soviética que havia entre os dois países e que os levou à beira de um conflito nuclear nos anos 60 foi dramaticamente sanada.

Fato é que nos EUA os dois lados já lamentaram o unilateralismo exagerado dos Estados Unidos, suas ações no Iraque, etc.. Agora, Xi Jinping já sabe também sobre o pivoteamento para o Pacífico como principal estratégica de Obama, com planos para “enviar recursos” militares para a região, contexto no qual a China visualizou o rearmamento japonês. Agora, como escreve Perlez,

(...) o golpe de linha dura no dito “roubo cibernético” fez com que China e Rússia se juntassem, tornando a própria união plausível e real. 

É reação esperável, em momento em que o poder hegemônico dá sinais de que a tática de dividir-para-conquistar não mais funciona; o unilateralismo norte-americano foi exposto, nu, quer dizer, sozinho no seu mister de dominação. Só. Cada vez mais magoado. Com normas já obsoletas, como se uma espécie de determinismo lógico definisse suas construções mentais, e o bipartidarismo no exterior fosse “igualzinho” ao da política doméstica nos EUA! 

Keith Bradsher
Os cartazes de “Procurados” são profundamente ofensivos para a China. São, portanto, mais uma palha no fogo de provocação de uma possível guerra global. Não interessa aos EUA, é contraproducente, não é inteligente e não é recomendável. Bradsher novamente, e já com medo da retaliação que talvez venha, depois dos ataques dos EUA contra a China:

Se a China começar a retaliar contra as empresas que se esforçam para seguir as regras de livre comércio [escreve um think-tank que existe para defender empresas norte-americanas em Hong Kong], como a acusação sugere que estaria fazendo, essa ação permitiria à China criar um sistema de comércio no qual a China teria mais liberdade para empreender suas próprias políticas.

Ah! É exatamente o que o paradigma norte-americano proíbe para o resto do mundo! 

Assim, aparece aí o primeiro momento de um (mais um!) impasse histórico: a guerra cibernética tornando-se um joguete nas mãos das forças em ação. Como responderiam os EUA, a nação que os ultrapassasse em investimento e produção industrial, deixando-os para trás? 

Sob o governo Obama, e para os candidatos dos dois maiores partidos, a resposta não é boa, nem para aquelas nações, nem para a humanidade, para o mundo, nem, sequer, para nós mesmos, o povo dos EUA. 

Meu comentário ao New York Times sobre o artigo de Keith Bradsher, na mesma data:

Como resposta, é absurda. Os EUA não fazem outra coisa além de espionar massivamente até os próprios cidadãos, plantaram aparelhos de escuta contra líderes estrangeiros, e, como revelou recentemente o NYT, os EUA se servem do FBI para recrutar informantes que tenham capacidade para ciberataques. WAAL! É pior que o sujo falando do mal lavado! Os EUA merecem o lugar de honra, o mais alto do pódio, na corrida pela hipocrisia, no que tenha a ver com ciberespionagem. Depois do desplante de inventar uma diferença muito safada para “justificar” as próprias atividades criminosas, os EUA assumem a posição de que só teriam espionado o mundo inteiro à caça de informações militares, políticas e econômicas... O que seria “fundamentalmente diferente” e “menos ofensivo” que espionar contra as liberdades civis e para ganhar vantagem comercial

Os EUA são medalha de ouro da hipocrisia universal!.

Espionagem é espionagem. Ponto. Só nos Estados Unidos alguém se atreveria a escrever que “vantagem comercial” seria crime pior que “reunir” (e continua a reunir!) informações militares, políticas e de inteligência econômica.

Disso tudo se depreende com certeza o seguinte: os EUA já percebem claramente o próprio DECLÍNIO com potência política-econômica-ideológica. Assim sendo, tenta voltar-se para o aumento de ações MILITARES, tentando desesperadamente manter – e é causa perdida nesse novo mundo multipolar – sua velha hegemonia global unilateral. 

Por que, em vez de se envolver em guerras, intervenções, mudanças violentas de regime e golpes (Ucrânia), etc., os EUA não podem viver simplesmente, calmamente, como cidadão global? 

Será efeito de uma histórica tendência – inserida no DNA da nação – para a xenofobia, para a conquista violenta, para o racismo, tudo combinado com certo fetichismo para a tecnologia? 

Edward Snowden merece um lugar no alto do Monte Rushmore, entre os heróis fundadores dos EUA. Obama, Holder, Clapper, Brennan, não merecem confiança nem para montar um acampamento na base.


[*] Norman Pollack é o autor de The Populist Response to Industrial America(Harvard) e The Just Polity(Illinois), Guggenheim Fellow e professor emérito de história na Michigan State University. Seu novo livro, Eichmann on the Potomac, foi publicado por CounterPunch/AK Press, no outono de 2013.