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quinta-feira, 16 de junho de 2011

Nem amor nem revolução


Publicado em 15/06/2011 por Urariano Mota

Eu havia prometido não escrever nada sobre a telenovela “Amor e Revolução” enquanto o poeta  e ex-preso político Alípio Freire não me antecedesse. Isso porque ele foi um dos primeiros a perceber em que o folhetim do SBT ia dar. Mas não pude mais me conter, depois de ler isto na Folha de São Paulo:

“Silvio Santos reclama de ibope baixo e novela troca drama por humor
O dono do SBT, Silvio Santos, reclamou do baixo desempenho da novela ‘Amor e Revolução’ em reunião nesta terça-feira, no Complexo Anhanguera. Silvio fez a queixa diretamente ao autor da novela, Tiago Santiago, que se prontificou a efetuar várias mudanças.
A despeito da repercussão e polêmica que a novela desencadeou na internet, ‘Amor e Revolução’não passa de cinco pontos de média na Grande São Paulo. Cada ponto equivale a 58 mil domicílios assistindo à história, que se passa na ditadura militar.
Dentro de duas semanas a novela sofrerá uma guinada de 180 graus. Diálogos sobre política, personagens discursando para criar contextualização histórica, assuntos referentes a militares serão praticamente abolidos da história. Em seu lugar haverá mais cenas de humor, amor e outros relacionamentos.
Procurado pela reportagem nesta tarde, Santiago não quis comentar sobre a ‘bronca’ de Silvio Santos, mas confirmou que a novela terá algumas mudanças de rumo. ‘Nós de fato vimos várias pesquisas, e as pessoas à noite querem rir, se emocionar. Vamos acabar com o tema político mesmo’, admitiu Santiago, que acrescentou: ‘Nunca mais vou fazer novela sobre política’ ".

Comento rápido: talvez Sílvio Santos não tenha percebido, mas há muito “Amor e Revolução” faz humor involuntário. De militares que andam de farda na intimidade de suas casas, passando por presos torturados que metem bronca nos torturadores, sempre com uma língua fluente que nem toma conhecimento dos choques elétricos que levou, a novela tem mostrado na televisão uma ignorância de tempo, lugar e vidas de tal maneira, que até parece galhofa.    

Escrever em folhetim de televisão sobre a história tem sido  um fiasco, desde a minissérie JK na TV Globo. Se em JK os laços que prendiam Juscelino Kubitschek à realidade eram laços de fita, de chapéus, cenários e músicas de época, em “Amor e Revolução” a realidade são guerrilheiros e militares caricatos, que falam frases de cartilha, didáticas. Como as de um personagem que explicou num capítulo, por exemplo: “Dops. Dops é o nome com que é conhecido o Departamento de Ordem Política e Social. D-O-P-S: Dópis”...  

Salvava a novela até então, como uma cereja em um bolo amargo, os depoimentos. Depois das palhaçadas grosseiras do Ratinho antes, depois de penar a ver cenas, diálogos que os circos da periferia fazem com melhor arte, vinham os depoimentos reais, verdadeiros, de militantes que sobreviveram à tortura. Até então, podia-se dizer: pulem  a novela, vejam o depoimento. De fato, houve alguns deles que se aproximaram do sublime. Assim era. Mas a ressalva não durou muito.

Todo o prometido pela produção da telenovela, de que “para dar credibilidade à história e acontecimentos narrados na novela, seria exibido no fim de cada capítulo um depoimento de um guerrilheiro, artista, familia de desaparecidos que participou desse momento tão importante para a democracia no Brasil”, veio por água abaixo com os depoimentos de torturadores, de militares criminosos ainda sem julgamento no Brasil, mais adiante.

Dizer o que mais agora?

“O autor decidiu ainda que as personagens de Luciana Vendramini e Gisele Tigre (Marcela e Mariana) terminarão juntas --talvez com direito a casamento-- e que haverá mais cenas ‘lésbico-eróticas’ entre elas”, completa a notícia.

Aquela ilusão de que “Amor e Revolução” retomasse a história que não foi conhecida, porque ao povo seria dada a oportunidade de saber o drama e valor de uma geração violentada, cai por terra.  Quem tiver dúvida, anote a última: nos bastidores do SBT, a novela ganhou o apelido de "Sessão Privê", ou de sexo na tevê. Quem leu os próximos capítulos fala que virão cenas fortes e apelativas. Ou seja, nem amor nem revolução, ao fim.

Em Pneumotórax, Manuel Bandeira escreveu que, para um tuberculoso no começo do século vinte, o melhor a fazer era tocar um tango argentino. Para nós, que acreditamos no poder da arte, em 2011 podemos concluir: o melhor a fazer é voltar à liberdade da literatura. Ela saberá dizer o que as telenovelas não podem, por limitação de gênero, veículo, ibope e grana.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

domingo, 17 de abril de 2011

Um continente que se move

 

Publicado em 17/04/2011 – por Mário Augusto Jakobskind

As atenções na semana que passou estiveram voltadas para a América Latina, em especial Peru, Uruguai, Argentina e Brasil. No Peru, conforme indicavam as pesquisas ganhou no primeiro turno o candidate nacionalista Ollanta Humala (foto) com pouco mais de 31%  dos votos, seguido de Keiko Fujimori com cerca de 22% dos 20 milhões de eleitores.  

Os demais candidatos, dos vários segmentos da direita ficaram para trás,  e um deles, exatamente o que teve apoio da Embaixada dos Estados Unidos, Pedro Pablo Kuzynsky, que além de peruano tem a nacionalidade estadunidense, em sua primeira declaração após a derrota eleitoral acusou Humala de ter recebido financiamento do Presidente venezuelano Hugo Chávez na campanha. É o típico choro de derrotado. Kuzynsky naturalmente era também o preferido das multinacionais.

Keiko Fujimori, como se sabe, é filha do ex-Presidente Alberto Fujimori, condenado a 25 anos de prisão por violação dos direitos humanos e corrupção, e pretende indultar o pai e todos os implicados na justiça nos dez anos de mandato do referido. Além disso, há evidências fortes segundo as quais a candidata que disputará o segundo turno a 20 de junho próximo recebeu ajuda substancial de um grupo, conhecido como Paredes, mafioso e que se locupleta com o tráfico de drogas. Empreiteiras brasileiras como a Camargo Correa e a Queiroz Galvão também doaram dinheiros para a campanha de Keiko.


É possível que Keiko venha a ter o apoio de candidatos que a acusavam no primeiro turno. Afinal de contas, entre Keiko, que teria recebido 10 milhões de dólares do grupo mafioso que se apresenta como do setor mineiro, segundo as denúncias, e Ollanta Humala, a direita vai se alinhar com ela, por entender que poderá manter inalterado os esquemas de facilidades a grupos empresariais dos mais diversos setores, como aconteceu no governo do famigerado Fujimori.

A propósito, vale lembrar que quando Fujimori estava cai não cai quem saiu em sua defesa foi o ex-Presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso. É sempre bom lembrar este fato, pois a memória é curta e se depender da mídia de mercado jamais se voltará ao assunto.

Ollanta Humala realmente é o único fato novo da política peruana, porque promete mudar os rumos do Peru, não aceitando mais a receita neoliberal que estava inclusive sendo colocada em prática pelo atual Presidente, o social democrata Alan Garcia.

No Uruguai, o Senado, por 16 a 15 anulou a Lei da Caducidade, que concede anistia a torturadores e assassinos, civis e militares, da época da ditadura (1973 – 1984). Agora, a matéria será votada na Câmara dos Deputados, onde já tinha sido aprovada, mas como sofreu algumas emendas no Senado volta para aquela Casa Legislativa.

A direita uruguaia, representada em sua maioria pelos Partidos Nacional e Colorado, bem como por setores militares remanescentes da repressão, está furiosa e usa um argumento discutível, mas evita aprofundar o tema e citar uma definição jurídica. Alega que em dois plebiscitos o povo se manifestou a favor da manutenção da lei que protege quem violou direitos humanos. Mas silencia diante do fato de a Corte Suprema de Justiça já ter se manifestado em três ocasiões arguindo a inconstitucionalidade da Lei de Caducidade.

Até o próximo dia 20 de maio, como se espera, a Câmara dos Deputados já terá votado a matéria e, segundo os analistas, vai aprovar o fim da lei que protege os torturadores. Confirmando-se as previsões,  vai para a sanção do Presidente José Mujica, também um ex-preso político.

Dia 20 de maio é uma data emblemática, pois os uruguaios lembram sempre os desaparecidos e mortos no período ditatorial, que por sinal teve apoio dos generais de plantão brasileiros e de governos estadunidenses, conforme comprovam os arquivos implacáveis do Departamento de Estado norte-americano tornados públicos.

Na Argentina mais um ex-ditador, desta vez Reinaldo Bignone, foi condenado à prisão perpétua pela série de violações de direitos humanos cometidos durante o período em que mandavam e desmandavam no país vizinho, também com o apoio incondicional de Geisel e Figueiredo, os generais de plantão que comandavam de fato o Brasil naquele período.

No Brasil, militares sem comando e tropas lançaram um abaixo assinado, a ser encaminhado ao Ministério Público exigindo a suspensão da telenovela “Amor e Revolução”, que retrata os acontecimentos ocorridos após a derrubada do Presidente constitucional João Goulart. A censura à novela que está sendo mostrada no SBT foi pedida antes mesmo dela entrar no ar. Só isso dá bem a ideia de quem apoia este tipo de restrição à liberdade de expressão.

Claro que quem torturou presos políticos não gosta de rever o fato desabonador na TV. Temem serem reconhecidos em algum momento e mesmo pagarem pelo que fizeram. Devem ficar ainda mais raivosos quando ao final de cada capítulo ex-presos políticos contam para os telespectadores o que sofreram nas masmorras.

Estes militares que elaboraram o abaixo assinado não se emendam. Envergonham a instituição militar e se apegam a ela para evitar desdobramentos que podem se voltar contra os próprios.

A telenovela de Tiago Santiago é também um fato novo na TV brasileira, sem dúvida. Jornalões como a Folha de S. Paulo e O Globo acionaram seus escribas para malharem o trabalho inovador. A direção da Folha, que cedia carros para a repressão, ficou raivosa com o depoimento da jornalista Rose Nogueira, que quando foi presa e torturada trabalhava num dos jornais da família Frias e foi ignorada enquanto profissional. Perdeu o emprego por abandono do cargo, quando todos os jornalistas e os postes de São Paulo sabiam que ela estava presa e consequentemente não tinha como voltar ao trabalho.

Como no Tribunal de Nuremberg, é importante não se esquecer do que fizeram em matéria de hediondez, para evitar que fatos dessa natureza venham a se repetir.

Enviado por Direto da Redação