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sábado, 15 de outubro de 2011

Quando o apoio ao governo mede-se em votos

Argentina, 23/10/2011: eleições gerais

Raúl Kollmann
15/10/2011, Raúl Kollmann, Pagina 12, Buenos Aires
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Encerrado o prazo para publicações de pesquisas na Argentina, a pesquisa CEOP mostra que Cristina Kirchner (CFK) mantém ou supera o que alcançou nas primárias (14/8/2011). Em segundo lugar aparece Binner[1], mas a quase 40 pontos de distância.

Cristina Fernández de Kirchner entra na última semana da campanha eleitoral com importante vantagem de quase 40 pontos e com a perspectiva de superar os 50% de votos que já obteve nas primárias abertas, simultâneas e obrigatórias (PASO). 

A oito dias dos comícios, é quase certo que a presidenta conseguirá mais votos que nas primárias de 14 de agosto. Hermes Binner aparece em segundo, e parece difícil que Ricardo Alfonsín o ultrapasse, embora a Unión Cívica Radical (UCR, antiperonista, de Alfonsín) não esteja muito distanciada. Ficaram para trás Alberto Rodríguez Saá e o candidato mais atacado durante os últimos meses Eduardo Duhalde (foi vice-presidente de Menen). A eleição do próximo domingo confirmará a queda da Coalición Cívica que já se viu nas PASO. O contexto desse prognóstico é que a maioria valoriza a gestão do governo de Cristina Kirschner; entende que tem boas expectativas para o próximo ano; considera boa a situação da Argentina no quadro da crise global; e, além disso, a oposição não conseguiu mostrar nem força nem projetos alternativos.

Essas são as conclusões de pesquisa realizada pelo Centro de Estudios de Opinión Pública (CEOP), dirigido pelo sociólogo Roberto Bacman. Foram entrevistadas 1.230 pessoas em todo o país, em entrevistas pessoais, consideradas as proporções populacionais por idade, sexo e nível socioeconômico.

“Ainda há 7% de indecisos e seria precipitado apresentar diagnóstico definitivo sobre como votarão – disse Bacman. “Mas pode-se dizer, para começar, que a presidenta não terá menos votos que nas primárias e tudo indica que crescerá nos últimos dias de campanha. Mas temos de ver o que acontece nesses oito dias. Pode-se dizer também que a diferença para o segundo colocado será muito grande, tendência que se constata em todos os estratos sociais, embora o voto favorável a Cristina apareça muito alto entre os jovens, as mulheres e os mais pobres.”

A pesquisa investigou também as tendências para o segundo lugar. Para Bacman, Binner dificilmente perderá nesse segundo lugar, embora Alfonsín apareça com apenas um ponto percentual a menos, de votos. “Se se considera a franja de indecisos, diria que Binner chegou ao seu teto, mas também não vejo que Alfonsín consiga superá-lo. Se se consideram as primárias, é evidente que muitos votos de Alfonsín migraram para Binner. Diria que o Radicalismo está lutando, que modificou a campanha, que está mais concentrado na figura de Alfonsín, mais que na aliança com Francisco de Narváez. Mas Binner tem boa votação na Capital, Gran Buenos Aires, Santa Fe e Córdoba. Se isso se confirmar, ficará em segundo lugar. É indiscutível que Alfonsín foi afetado pelo mau resultado nas primárias PASO. Em troca, Binner partiu, de 2, 3 pontos em janeiro, para mais de 10 nas primárias, e posicionou-se como melhor candidato que Alfonsín. Os vasos comunicantes eleitorais fizeram com que muitos votos se transferissem, de Alfonsín a Binner.” 

Para o CEOP, outro candidato afetado pelo processo eleitoral foi Duhalde. “O voto anti-CFK esteve centrado em Duhalde – diz Bacman. – Por exemplo, o ex-presidente começou em 2º lugar na capital federal. Hoje, já perdeu esse lugar, para Binner. Entre os indecisos, Duhalde está fraco; Rodríguez Saá está melhor. Eu diria que os votos de Duhalde se dividiram: uma parte, inclusive, migrou para Cristina.”

“Percebe-se que não houve grande mudanças em relação às primárias, talvez se possa dizer, mesmo, que pouca coisa mudou mesmo desde antes das primárias – resume o sociólogo. – Por trás da intenção de voto, vê-se o efeito da estabilidade e inclusive de várias melhoras. Por exemplo, a presidenta tem excelente imagem positiva, mas o que chama a atenção é que, desde agosto, a opinião favorável não está ligada só à pessoa, mas, também, ao seu governo. Acho que essa percepção positiva influencia a percepção, pela maioria, de que o governo enfrentou bem as dificuldades, apesar da grave crise internacional que todos estão vendo.

Chama a atenção, nas últimas pesquisas, que muito mais gente, hoje, qualifica o governo como muito bom, do que os que o consideram ruim ou menos bom. E é preciso acrescentar também um elemento de mais longo prazo: muitos entrevistados declaram que melhorou sua qualidade de vida, durante o governo de Cristina. Todos esses traços contribuem para formar uma imagem positiva da presidenta.”

A pesquisa do CEOP mostra amplo apoio às políticas sociais do Governo, inclusive a bolsa universal por filho [orig. Asignación Universal por Hijo], a re-estatização dos fundos de pensão e aposentadorias [orig. Administradoras de fondos de jubilaciones y pensiones - AFJP] e, em vários setores, os programas Fútbol para Todos e a legalização do casamento de pessoas de mesmo sexo.

Evidentemente, com mais de 50% das intenções de voto, a presidenta CFK lidera em todas as camadas da população. Umas das mudanças que se observaram nos últimos tempos, é que Cristina aparece agora em primeiro também nas grandes cidades. Não foi assim em 2007 nem, e muito menos, em 2009. Agora, CFK vence na capital, em Córdoba e em Santa Fe, por exemplo. O voto dos jovens também pesa muito, o que é novidade, se se considera o início do governo do casal Kirchner.

“Minha opinião é que esse resultado também está sendo fortemente influenciado pela fraqueza da oposição, que não conseguiu oferecer plano alternativo. Os eleitores votam em quem se mostra competente para governar. Se a oposição tivesse candidato capaz de exibir realizações concretas no campo do bom governo, talvez conseguisse mobilizar a seu favor o voto anti-K. Mas os votos da oposição acabaram divididos entre todos os candidatos. 

Dado também que a oposição não oferece qualquer alternativa, a presidenta está conseguindo mobilizar a seu favor muitos mais votos do que os que poderia esperar do núcleo duro kirchnerista. CFK pode exibir governabilidade, capacidade de governar e projeto claro, contra uma oposição dividida e sem qualquer lucidez sobre o que quer e o que tenha a propor”, concluiu Bacman.




Nota dos tradutores
[1]   Hermes Juan Binner, Governador de Santa Fé, primeiro socialista eleito governador na história da Argentina e primeiro não peronista eleito em Santa Fe desde 1983.  

domingo, 10 de abril de 2011

Hoje é a vez dos peruanos

Voluntária trabalhava ontem em um
comitê eleitoral de Humala em Lima, Peru

10/4/2011, Carlos Noriega [de Lima], Página 12, Buenos Aires
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
  
Segundo todas as pesquisas, Humala, demonizado até a exaustão pelos jornais, televisões e jornalistas, é o favorito, mas não ganharia no primeiro turno e terá de disputar outra vez em junho contra Fujimori, Toledo ou Kuczynski.

A burguesia peruana está à beira de um ataque de nervos. Nas ruas dos bairros ricos respira-se o medo de uma vitória de Ollanta Humala, candidato das esquerdas, nas eleições presidenciais de hoje.

A grande dúvida é saber quem competirá com o candidato progressista no segundo turno. Na briga estão o ex-presidente Alejandro Toledo, que fez governo neoliberal entre 2001 e 2006, a deputada Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori (1990-2000) e o economista Pedro Pablo Kuczynski, candidato dos grandes grupos econômicos e favorito das classes alta e média-alta.
Os peruanos que hoje elegem o presidente e todos os 130 congressistas (congresso unicameral) são 19,850 milhões – incluídos os 754 mil que vivem no exterior e que também votam, dos quais 106.665 vivem na Argentina. Os 4.573 centros de votação abrem às 8h da manhã (10h na Argentina) e fecham às 16h.

Segundo as últimas pesquisas de ontem, às quais esse jornal teve acesso – a lei proíbe a publicação de pesquisas desde a 2ª-feira passada –, Humala consolida-se no 1º lugar com cerca de 30% dos votos, porcentagem praticamente idêntica aos 31% com que venceu o 1º turno em 2006. Na disputa pelo 2º lugar, onde até há alguns dias havia empate triplo, Keiko Fujimori conseguira vantagem, entre 2-5%, sobre Kuczynski e Toledo, que continuavam empatados. Mas é vantagem que nada garante.

Toledo e Kuczynski centraram a campanha, nos últimos dias, no esforço para apresentarem-se como melhor alternativa para “deter Humala” e evitar um segundo turno contra o candidato de esquerda, que temem por suas propostas para mudar o modelo econômico, e a filha do ditador condenado a 25 anos de cadeia por crimes de lesa humanidade e corrupção. Tanto fizeram entre si e contra Fujimori, que acabaram por deixar espaço para que Keiko Fujimori crescesse e se aproximasse do segundo turno, embora com pequena vantagem.

O partido do governo acabou sem candidato, quando a candidata virtual da situação, a ex-ministra da Economia Mercedes Aráoz, renunciou em janeiro, quando pesquisas mostraram que não teria mais que 3% dos votos. O presidente Alan García, com 70% de rejeição em todas as pesquisas, apoiou primeiro o ex-prefeito de Lima e direitista Luis Castañeda, enquanto seu nome apareceu no topo das pesquisas. Mas Castañeda desabou. Nos últimos dias, o secretário-geral do partido do governo pediu votos para Kuczynski, mas outros grupos do seu partido o desautorizaram. Toledo também procurou o apoio do partido do governo. Contudo, ante a impopularidade do governo, qualquer apoio oficial hoje pode ser abraço de afogado.

A campanha passou por várias fases. Luis Castañeda começou no 1º lugar, com folga. Sentia-se eleito. Mas logo começou a cair e hoje não tem qualquer possibilidade de ser eleito. Em janeiro, Toledo passou a liderar todas as pesquisas; para logo cair, tão depressa quanto subira. E Humala saltou de um distante 4º lugar, com cerca de 10% das preferências, onde permanecera por vários meses, para o primeiro lugar. Foi quando passou a ser furiosamente atacado pelos jornais, televisões e jornalistas. O ataque foi de tal modo violento que teve efeito contrário ao que os atacantes esperavam obter e Humala continuou ampliando a vantagem. Kuczynski, apoiado pelos jornais, televisões e jornalistas, ganhou terreno no último mês, sobretudo na classe alta e média alta que desertou da candidatura de Toledo e também se envolveu na disputa. No sobe e desce das pesquisas, Keiko Fujimori conservou sempre cerca de 20% dos votos – o chamado “voto fujimorista duro”.

Ollanta Humala, hoje o candidato favorito, capitalizou o descontentamento de amplos setores da população que não viram qualquer benefício do crescimento econômico do país. Propõe mudar o modelo econômico neoliberal, melhorar a redistribuição da riqueza, restaurar direitos trabalhistas, aumentar a participação do Estado em atividades estratégicas como energia e portos, e renegociar a relação com as multinacionais que exploram recursos naturais do país, fazendo com que paguem mais impostos, o que dará ao Estado maior capacidade para decidir sobre o uso daqueles recursos.

Keiko Fujimori é a continuidade do modelo neoliberal, imposto ao país pelo regime autoritário de seu pai, mas, como Humala, também se beneficia da ira de setores populares contra os políticos, que ainda veem Fujimori como o ‘não-político’ que, nos anos 90 tirou do poder os políticos tradicionais. Keiko Fujimori também tem apoios entre os pobres, que se beneficiaram do vasto clientelismo instaurado no Peru durante o governo de seu pai. Alejandro Toledo propõe-se a preservar o modelo político, mas garante que dará prioridade a programas sociais e a melhor redistribuição da riqueza. E Kuczynski é o homem do establishment econômico-financeiro.

domingo, 27 de março de 2011

Uma solução africana para a Líbia


25/3/2011, Página 12, Buenos Aires. Ar.
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Enquanto o francês Nicolás Sarkozy anunciava que França e Reino Unido preparavam uma "iniciativa" para resolver pela via “política e diplomática” a situação na Líbia, com autorização da ONU, o regime líbio anunciou sua disposição para “aplicar o mapa do caminho” [orig. Road Map] o plano apresentado pela União Africana (UA), que propõe imediata cessação das hostilidades e abertura de diálogo entre os líbios, como primeiro passo para uma “transição democrática”. Segundo autoridades líbias, morreram pelo menos 114 pessoas, com 445 feridos, desde o início dos bombardeios pela coalizão internacional.

“Estamos dispostos a aplicar o plano” proposto pela União Africana, inclusive “uma política que responda às aspirações do povo líbio de forma pacífica e democrática”, disseram os representantes do regime de Gadafi em reunão da UA em Adís Abeba, à qual não compareceu nenhum delegado dos “rebeldes”. Mas o que hoje se passa na Líbia é problema estritamente dos africanos e só pode ser resolvido pela União Africana” (24/3/2010, em: The African Union ad hoc High-Level Committee on Libya convenes its second meeting in Addis Abab).

Antes, o presidente francês havia garantido que a coalizão manterá o controle político de todas as operações, apesar de a coordenação das ações militares passar para a OTAN, como já anunciado há dois dias. O primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, afirmou que seu país aceitará que a OTAN dirija as operações contra a Líbia, em associação com a Liga Árabe e a União Africana, “para evitar que se cometam os mesmos erros já cometidos no Iraque e no Afeganistão”. 

Sarkozy, quem mais fortemente insistiu em que o CSONU aprovasse a intervenção militar no norte da África, anunciou que está prevista, para a reunião dos membros da coalizão que opera na Líbia marcada para 2ª-feira em Londres, a proposição de uma “via comum”.

“Haverá uma iniciativa franco-britânica para mostrar que a solução não é só militar, mas também política e diplomática” – disse o presidente francês em entrevista coletiva depois da reunião de chefes de estado e de governo da União Europeia, segundo informou a Agência EFE.

Na mesma coletiva, Sarkozy lembrou que a OTAN “não pode absorver” países não membros, como o Qatar e os Emiratos Árabes Unidos que participam do esforço internacional. “Não é possível. Faríamos um favor a Muammar Khadafi se disséssemos que é operação só da OTAN, que não há coalizão”, disse o presidente francês aos jornalistas. (...) Mas a França não convidou a Turquia para a reunião em Paris, que decidirá sobre os ataques à Líbia.

domingo, 13 de março de 2011

WikiLeaks: "Fucking" piqueteros!

Há matéria com esse EXCELENTE título em: Estos fucking piqueteros
Aqui, um dos telegramas lá comentados. 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu
NOTA DOS TRADUTORES:
Esse telegrama só interessa como PROVA DOCUMENTAL de que qualquer D. Eliane Cantanhêde e até a D. Danuza estão perfeitamente apetrechadas para serem embaixadoras dos EUA ATÉ NA ARGENTINA! 
É eles ressuscitarem Menen-lá e algum FHC-defunto, aqui... e muuuuuuuitos jornalistas brasileiros terão emprego GARANTIDO no Departamento de Estado de qualquer Hilária(o) por aí. GRANDE WIKILEAKS! É ler e ver:

WikiLeaks
Reference ID
Created
Released
Classification
Origin

Telegrama enviado da Embaixada dos EUA em Buenos Aires, Argentina, dia 5/5/2009
Parte CONFIDENCIAL do telegrama 09BUENOSAIRES526
O telegrama integral não está disponível.
Tradução de trabalho, não oficial, para anotação histórica. 


Cabeçalho aqui omitido.

ASSUNTO: Os piqueteros argentinos, principais atores das manifestações pró-Kirshner [e o embaixador, com saudades de Menen! Fucking EUA!]

1. (SBU) RESUMO. Depois de terem sido largamente cooptados pelo governo do ex-presidente Nestor Kirchner (NK), alguns grupos argentinos de protesto social – “piqueteros” – começaram a distanciar-se do governo da atual presidente Cristina Fernandez de Kirchner (CFK). Continuam a ser força considerável, mas não é claro o papel que tenham nas eleições para o Congresso em 2009, de meio de mandato. É possível que o governo tenha dado aos movimentos o suficiente para preservar seu apoio, mas não o suficiente para obter deles mobilização ativa. 

Esse telegrama analisa a história dos piqueteros e sua ligação com os governos Kirchner. Outro telegrama traçará o perfil dos principais líderes e examinará o papel e a posição de alguns dos grupos nas questões chaves.

2. (SBU) Como parte dos esforços atuais da Embaixada para atingir um amplo espectro da sociedade argentina, a Embaixada organizou recentemente uma série de encontros com os principais líderes piqueteros. Esse movimento social amorfo trouxe à tona as preocupações e demandas da grande classe baixa [orig. under-class] e também desempenhou papel na amplificação do poder político dos Kirchners, em parte mediante passeatas, bloqueios de estradas e ruas e boicotes. Para muitos argentinos, a condescendência do Governo Argentino com as táticas dos piqueteros, muitas vezes ilegais, sobretudo os bloqueios de estradas, é vista como estímulo a uma cultura de ilegalidade e intimidação.
FIM DO SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 

Quem são os piqueteros?

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3. (SBU) Há mais de uma década, a Argentina tem experienciado protestos organizados e ativismo social de movimentos chamados “piqueteros”, palavra que, literalmente, significa “picketers”.  Esses grupos, que primariamente representam cidadãos desempregados, recebem benefícios do governo nacional, a serem distribuídos entre os membros (150-200 pesos/mês, cerca de US$40-53), em troca de trabalharem de 20 a 40 horas semanais em trabalhos de assistência social. Segundo estatísticas oficiais de 2007, o plano de assistência familiar beneficiou 504.784 famílias, que inclui 1.766.744 crianças. Líderes piqueteros locais acreditam que o número real de beneficiados caiu, quando a economia argentina começou a recuperar-se da crise econômica pela qual passou em 2001. Estimam que apenas 800 mil argentinos beneficiam-se hoje desses programas, e não há estatísticas oficiais depois de 2007. 

4. (SBU) As organizações de piqueteros passaram a ganhar maior controle sobre os próprios fundos durante o governo do ex-presidente Fernando de la Rua's (1999-2001).  Planos de benefícios foram inicialmente pagos pelo governo federal, diretamente dos governos locais aos beneficiários. Mas no governo de De la Rua, 10% dos benefícios eram distribuídos diretamente através das organizações de piqueteros registradas. Segundo especialistas argentinos, De la Rua tentava limitar opiquetero power, exigindo que se registrassem para receber os benefícios. Mas, no processo de ‘legalizá-los’, deu aos grupos acesso direto e controle sobre seus programas de trabalho. Com algum controle financeiro, muitos grupos concentraram-se em preservar e ampliar os próprios fundos mediante negociação e protestos com os governos locais e federais.

5. (SBU) Hoje, há cerca de 60 diferentes organizações de piqueteros na Argentina, a maioria registrada nos subúrbios mais pobres de Buenos Aires. Segundo relatório de 2002 da UNDP, há pelo menos três tipos de grupos piqueteros: os que lutam por subsídios para emergências sociais; os que procuram atender necessidades coletivas das comunidades; e os que promovem a criação de micronegócios. Os cinco maiores são a Federation of Land and Housing (FTV), com 125 mil membros, dirigida pelo mais famoso dos piqueteros, Luis D’Elia, aliado de Kirchner; a Classicist and Combative Current (CCC), com 70 mil membros; o Integrated Movement of Retired and  Unemployed Persons (MIJD) com 60 mil membros; o Standing  Neighborhoods (Barrios de Pie) com 60 mil membros e o Worker Pole, com 25 mil membros. O MTD Evita é menor que os demais grupos, mas seu líder Emilio Persico, estridente apoiador dos Kirchners e ex-subprefeito de Buenos Aires no governo do ex-governador Felipe Sola, é quase sempre capaz de mobilizar cerca de 2.000 pessoas em manifestações pró-governo. 

Muitos desses grupos foram (e muitos ainda são) aliados da confederação (não oficial) de trabalhadores argentinos –  Argentine Workers Central (CTA). Grupospiqueteros de oposição são quase sempre mais à esquerda, mas os piqueteros pro-Kirchner, embora ainda esquerdistas e virulentamente antiamericanos, mostraram maior flexibilidade. 

Muitos grupos, independente da relação que mantenham com o governo Kirchner, são ligados ao governo, por causa dos subsídios que recebem. O MTD em La Matanza (importante distrito eleitoral nos arredores mais pobres da província de Buenos Aires) é exceção: recusaram qualquer tipo de ajuda financeira do governo.

Quais os objetivos dos piqueteros ?

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6. (SBU) Muitos líderes piqueteros aproximam-se de funcionários do governo com um único claro objetivo: conseguir mais subsídios, para ampliar o número de filiados. Se não são atendidos, põem-se a bloquear estradas e ruas e fazem manifestações de rua. Analistas locais observam que anos eleitorais, como agora, com eleições de meio de mandato marcadas para 28 de junho, são particularmente propícios aos piqueteros, porque interessa ao governo manter baixo o nível de conflito, para obter o maior número possível de votos. 

Os piqueteros e os Kirchners

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7. (SBU) O ex-presidente Nestor Kirchner (NK) viu no movimento piquetero um meio para mobilizar apoio para seu governo, na base eleitoral dos mais pobres. Conquistou o apoio de alguns grupos piqueteros quando liberou as manifestações de rua e incluiu mais de 50 líderes piqueteros nos governos nacional e locais. A atitude de NK contrasta fortemente com a ação policial contra as manifestações que aconteceram durante os governos dos ex-presidentes Fernando De la Rua (1999-2001) e Eduardo Duhalde (2002-2003). NK também abriu os cofres para obter a lealdade dos piqueteros, operação mediante a qual conquistou a cooperação de metade dos grupos piqueteros existentes (FTV, Barrios de Pie e MTD Evita) para que se manifestem a favor do governo ou mobilizem-se em apoio a seu governo. 

8. (SBU) Embora os piqueteros tenham alcançado maior reconhecimento oficial pelo governo nacional desde que os Kirchners chegaram ao poder pela primeira vez em 2003, parecem ter-se afastado do poder no governo da presidente Cristina  Fernandez de Kirchner (CFK). Piqueteros que antes apoiavam Nestor estão-se afastando de Cristina, e alguns já romperam completamente e abertamente cortejam outros partidos para as eleições de junho. Dos cindo principais grupospiqueteros, só a FTV [Frente Trabajo y Vivienda, “Frente pelo Trabalho e por Moradia”] permanece firmemente alinhada com os Kirchners. E também esse grupo parece vacilar. O líder Luis D' Elia disputa atualmente, com NK, para obter mais espaço na lista oficial de candidatos às eleições parlamentares de meio de mandato. 

Origens do movimento

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9. (SBU) O movimento dos piqueteros começou nos anos 1990s, quando a Argentina conheceu altos níveis de desemprego (18%) e muitas empresas estatais foram privatizadas. As primeiras manifestações de piqueteros aconteceram no final de 1996/início de 1997, por desempregados nas refinarias de petróleo em Salta e Neuquen. Os manifestantes bloquearam estradas, inclusive uma estrada federal e exigiram serem recontratados ou novos empregos. Os manifestantes recusaram-se a dispersar, até que o governador da província apresentou plano para criar novos empregos. Embora esses primeiros manifestantes não fossem ligados a partidos ou organizações sociais ou políticas, o sucesso daqueles movimento gerou um padrão de manifestações dos movimentos de ativismo social. As organizações sociais não só assumiram o nome “piquetero”, mas, também, adotaram as táticas dos ‘petroleiros’, trabalhadores dos sindicatos das refinarias de petróleo. Em pouco tempo a tática de bloquear estradas aumentou, na Argentina, de 27 bloqueios em 1997 na província de Buenos Aires, para um total de 7.269 protestos em 2005, segundo pesquisadores argentinos.  

10. (SBU) O movimento tirou o nome dos protestos dos ‘petroleiros’, e o primeiro plano de subsídio para trabalhadores desempregados foi implementado no início dos anos 1990s. O ex-presidente Carlos Menem implementou o primeiro projeto de criar empregos em 1993, por causa do crescente desemprego gerado por suas políticas de privatização. Em 2002, o presidente Eduardo Duhalde,  respondendo ao desemprego que alcançava 33%, criou o “Plano para Chefes de Família Desempregados” (PJJHD), pelo qual dois milhões de chefes de família argentinos recebiam benefícios do governo em 2003, segundo historiadores argentinos dos movimentos sociais.  NK converteu esse PJJHD em três planos: um plano de ajuda às famílias, um plano de seguridade alimentar e um plano para desenvolvimento socioeconômico local.  

11. (C) COMENTÁRIO: Os argentinos, sem dúvida alguma, têm opiniões divergentes sobre os piqueteros Muitos dos mais pobres encontram nos movimentospiqueteros um ajuda mínima que garante a sobrevivência e instrumento legítimo de protesto político. Outros, sobretudo as classes média e alta, veem os piqueteroscomo agitadores sem causa, em alguns casos, nihilistas. No passado, foram arma poderosa nas mãos dos Kirchners, mas em contexto de muito menos tolerância, nas eleições de junho, a Victory Front parece pouco inclinada a mobilizar seus piqueteros (o que explica a recente rixa entre NK e D'Elia). As principais preocupações dos eleitores, como se constata em muitas pesquisas de opinião, são, hoje, a segurança e o alto número de crimes. Por seus piqueteros na rua, bloqueando estradas, e metendo medo nos eleitores, não parece ser tática eleitoral indicada no atual clima. [assina KELLY]

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Imagens de um massacre no reino do Bahrein

Há muita coisa em jogo no Bahrein. Esta é a primeira insurreição séria nos ricos estados do Golfo, mais perigosa para os sauditas que os islamistas que tomaram o centro de Meca há mais de 30 anos.

Por Robert Fisk, publicado na Carta Maior.

ARTIGO | 20 FEVEREIRO, 2011 - 01:01
Pessoal médico insiste em que até 60 cadáveres tinha sido retirados da Praça Pearl na quinta pela manhã e que a multidão viu a polícia carregar corpos em três caminhões refrigerados. Foto de malyousif, Flickr.
Pessoal médico insiste em que até 60 cadáveres tinha sido retirados da Praça Pearl na quinta
pela manhã e que a multidão viu a polícia carregar corpos em três caminhões refrigerados.
Foto de malyousif, Flickr.

“Massacre, é um massacre”, gritavam os médicos. Três mortos. Quatro mortos.

Um homem passou pela minha frente numa maca na sala de emergências, com o sangue a escorrer pelo piso, resultado de um ferimento de bala na perna. A poucos metros dali, seis enfermeiros lutavam pela vida de um homem pálido, barbudo, com sangue a sair do peito. “Tenho que levá-lo para a sala de cirurgia agora”, gritava um médico. “Não há tempo, ele está a morrendo!”

Outros estavam ainda mais perto da morte. Um pobre jovem – 18, 19 anos, talvez – tinha um terrível ferimento na cabeça, um buraco de bala na perna e sangue no peito. O médico ao seu lado voltou-se para mim, com as lágrimas a cair sobre o avental manchado de sangue. “Tem fragmentos de bala no cérebro e não consegui tirar os pedaços, os ossos do lado esquerdo do crânio estão totalmente destroçados. As suas artérias estão todas rompidas. Não posso ajudar”. O sangue caía como uma cascata no solo. Era doloroso, vergonhoso e indignante. As vítimas não estavam armadas, mas acompanhavam o cortejo voltando de um funeral. Muçulmanos xiitas mortos por seu próprio exército bahreini na tarde de sexta-feira.

Um maqueiro estava a regressar junto com milhares de homens e mulheres do funeral em Daih de um dos manifestantes mortos na Praça Pearl nas primeiras horas do dia anterior. “Decidimos caminhar até o hospital porque sabíamos que havia uma manifestação. Alguns de nós levávamos ramos como presentes de paz que queríamos dar aos soldados perto da praça, e estávamos gritando “paz, paz”. Não foi uma provocação – nada contra o governo. Mas os soldados começaram a disparar. Um deles disparou uma metralhadora de cima de um veículo blindado. Havia polícias, mas eles se foram quando os soldados começaram a disparar. Mas, sabe, o povo em Bahrein mudou. Não queriam sair correndo. Decidiram enfrentar as balas com os seus corpos”.

A manifestação no hospital havia atraído milhares de manifestantes xiitas – incluindo centenas de médicos e enfermeiras de toda a Manama, ainda com os seus aventais brancos, que exigiam a renúncia do ministro da Saúde de Bahrein, Faisal Mohamed al Homor, por não permitir que as ambulâncias recolhessem os mortos e feridos do ataque da polícia contra os manifestantes da Praça Pearl.

Mas a sua fúria tornou-se quase histeria ontem, quando trouxeram os primeiros feridos. Até cem médicos se aglomeraram nas salas de emergência, gritando e maldizendo o rei e o governo enquanto os paramédicos lutavam para empurrar as macas carregadas com as últimas vítimas através da multidão que gritava.

Um homem tinha um grande curativo no peito, mas o sangue já estava a manchar o seu torso, pingando da maca. “Ele tem balas no seu peito e agora há ar e sangue nos seus pulmões”, disse-me a enfermeira ao seu lado. “Creio que o perdemos”. Assim chegou ao centro médico de Sulmaniya a ira do exército de Bahrein e, imagino, a ira da família Al Khalifa, incluindo o rei.

O pessoal sentia que eles também eram vítimas. E tinham razão. Cinco ambulâncias enviadas para a rua – as vítimas de sexta-feira receberam os disparos em frente a uma estação de bombeiros, perto da Praça Pearl -, mas foram detidas pelo exército. Momentos mais tarde, o hospital descobriu que todos os seus celulares estavam fora do ar. Dentro do hospital havia um médico, Sadeq al Aberi, ferido pela polícia quando foi ajudar os feridos na manhã de quinta.

Sem medo jovens enfrentam a repressão
Os rumores corriam como um rastilho de pólvora em Bahrein e o pessoal médico insistia em que até 60 cadáveres tinha sido retirados da Praça Pearl na quinta pela manhã e que a multidão viu a polícia carregar corpos em três caminhões refrigerados. Um homem mostrou-me uma foto no seu celular na qual podia-se ver claramente os três caminhões estacionados atrás de vários veículos blindados do exército. Segundo outros manifestantes, os veículos, que tinham placas da Arábia Saudita, foram vistos mais tarde na estrada para aquele país. É fácil descartar essas histórias macabras, mas encontrei um homem – outro enfermeiro no hospital que trabalha para as Nações Unidas – que me disse que um colega estadunidense chamado “Jarrod” tinha filmado os corpos quando estavam sendo carregados nos caminhões, mas foi preso pela polícia e não foi mais visto.

Por que a família real do Bahrein permitiu que seus soldados abrissem fogo contra manifestantes pacíficos? Atacar civis com armas de fogo a menos de 24 horas das mortes anteriores parece um ato de loucura. Mas a pesada mão da Arábia Saudita pode não estar muito longe. Os sauditas temem que as manifestações em Manama e nas cidades do Bahrein acendam focos igualmente provocadores no leste de seu reino, onde uma significativa minoria xiita vive ao redor de Dhahran e outras cidades perto da fronteira com o Kuwait. O seu desejo de ver os xiitas de Bahrein sufocados tão rápido quanto possível ficou claro quinta-feira, na cúpula do Golfo, com todos os sheiks e príncipes concordando que não deveria haver uma revolução ao estilo egípcio num reino com uma maioria xiita de cerca de 70% e uma pequena minoria sunita que inclui a família real.

No entanto, a revolução do Egito está na boca de todos em Bahrein. Fora do hospital, gritavam: “O povo quer derrubar o ministro”, uma ligeira variação dos cantos dos egípcios que se libertaram de Mubarak, “O povo quer derrubar o governo”. E muitos na multidão disseram – como disseram os egípcios – que tinham perdido o medo das autoridades, da polícia e do exército.

A polícia e os soldados em relação aos quais agora expressam tamanho desgosto eram bastante visíveis ontem nas ruas de Manama, olhando com ressentimento desde seus veículos blindados azuis e tanques fabricados nos Estados Unidos. Parecia não haver armas britânicas à vista – ainda que estes sejam os primeiros dias de protesto e tenham aparecido blindados feitos na Rússia ao lado dos tanques M-60. No passado, as pequenas revoltas xiitas eram cruelmente reprimidas no Bahrein com a ajuda de um torturador jordaniano e um alto funcionário da inteligência, um ex-oficial da Divisão Especial Britânica.

Há muita coisa em jogo aqui. Esta é a primeira insurreição séria nos ricos estados do Golfo, mais perigosa para os sauditas que os islamistas que tomaram o centro de Meca há mais de 30 anos. A família de Al Khalifa sabe que os próximos dias serão muito perigosos para ela. Uma fonte confiável me disse que na quarta-feira à noite um membro da família Al Khalifa – que seria o príncipe herdeiro – manteve uma série de conversações telefónicas com um proeminente clérigo xiita, o líder do partido Wifaq, Ali Salman, que estava acampando na Praça Pearl. O príncipe aparentemente ofereceu uma série de reformas e mudanças no governo que pensou que o clérigo tinha aprovado. Mas os manifestantes permaneceram na praça. Exigiam a dissolução do Parlamento. E logo veio a polícia.

Nas primeiras horas da tarde, cerca de 3 mil pessoas concentraram-se em apoio à família real e muitas bandeiras nacionais apareceram nas janelas de automóveis. Esta pode ser a capa da imprensa bahreini neste sábado, mas não terminará com o levante xiita. E o caos da noite no maior hospital de Manama – o sangue a escorrer dos feridos, os gritos pedindo ajuda nas macas, os médicos que nunca tinham visto tantos feridos à bala; um deles simplesmente sacudiu a cabeça incrédulo quando uma mulher teve um ataque ao lado de um homem empapado em sangue – somente irritou ainda mais os xiitas desta nação.

Um médico que disse chamar-se Hussein deteve-me quando saía da sala de emergência porque queria explicar-me a sua revolta. “Os israelitas fazem esse tipo de coisa com os palestinos, mas aqui são árabes que disparam contra árabes”, bradou em meio à gritaria. “É o governo bahreiní que faz isso com seu próprio povo. Estive no Egito há duas semanas, trabalhando no hospital Qasr el Aini, mas as coisas aqui estão muito piores”.

19/02/2011
(*) Publicado originalmente no The Independent (Inglaterra)
Especial para Página/12(Argentina).

Tradução de Katarina Peixoto.

Extraído do Esquerda.net Lembrado pelo Gílson Sampaio

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

“Esquerda fez opção pela democracia na América Latina”

Em entrevista à Carta Maior, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz um balanço de oito anos de governo, aponta as conquistas e mudanças que esse período trouxe para o Brasil e para a América Latina e fala sobre o aprendizado que teve neste período a frente da presidência da República. Entre outros assuntos, aborda também a relação com os meios de comunicação e destaca o compromisso assumido pela esquerda na América Latina: "A esquerda fez uma opção pela democracia. "quem dá golpe não é a esquerda. Não foi ninguém de esquerda que deu o golpe em Honduras".

Em entrevista concedida à Carta Maior e aos jornais Página/12 (Argentina) e La Jornada (México), na manhã desta quinta-feira, em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um balanço de seus oito anos de governo e as mudanças que esse período trouxe para o país e para a América Latina. Na conversa, entre outros assuntos, o presidente fala sobre o aprendizado que teve neste período - Quando você está no governo, você não pensa, você não acha e você não acredita; você faz ou não faz. E o governo é um eterno tomar de posição – sobre a relação com os meios de comunicação – Se dependesse da imprensa eu teria 10% de aprovação, ou menos – e sobre o compromisso assumido pela esquerda na América Latina: A esquerda, na América Latina, fez uma opção pela democracia, e está chegando ao poder em vários países pela via da democracia. E quem dá golpe não é a esquerda. Não foi ninguém de esquerda que deu o golpe em Honduras.

Participaram da entrevista, o sociólogo e colunista da Carta Maior, Emir Sader, e os jornalistas Martín Granovsky, do Página/12 (Argentina), e Carmen Lira, do La Jornada. A Carta Maior publica a íntegra dessa conversa. Aqui está a primeira parte.

Emir Sader: A primeira questão é sobre o que o seu desempenho na Presidência lhe ensinou? Quais foram os aprendizados, as mudanças? O que o Lula de 2003 tem de diferente do Lula de hoje. E o que o Lula de 2010 tem de diferente em relação ao de 2003?

Presidente Lula: Eu penso, Emir, que na Presidência primeiro a gente aprende a governar. Quando você chega à Presidência da República, você se depara com a tua convivência de muitos anos de oposição em que você vai para um debate, você vai para uma reunião e você diz aos teus interlocutores “eu penso, eu acho, eu acredito”. Quando você está no governo, você não pensa, você não acha e você não acredita; você faz ou não faz. E o governo é um eterno tomar de posição. Você aprende a ter mais tolerância e você aprende a consolidar a tua prática democrática, porque a convivência política na adversidade é um ensinamento estupendo para quem acredita na democracia como um valor incomensurável na arte de fazer política. E isso a gente só aprende exercitando todo santo dia. Eu não acredito que tenha uma universidade capaz de ensinar alguém a fazer política, a tomar decisão. Você pode teorizar, mas entre a teoria e a prática tem uma diferença enorme no dia a dia. E eu penso que esse é o aprendizado. Por exemplo, no segundo mandato meu, todo mundo sabe que eu tinha medo do segundo mandato. Eu tinha medo do esgotamento, eu tinha medo da chatice, eu tinha medo de que você vai repetir a mesmice.

Quando nós criamos o PAC, na verdade nós fizemos um transplante de todos os órgãos vitais do governo e fizemos um governo novo, muito mais produtivo, muito mais eficaz, muito mais atuante, e as coisas estão acontecendo. Eu acho que isso, para mim, foi um aprendizado estupendo e que eu não quero desaprender nesse tempo em que eu vou deixar a Presidência. Eu preciso continuar aprendendo porque passar pela Presidência, enfrentar as adversidades que nós enfrentamos, e chegar ao final do mandato na situação que nós estamos chegando, eu penso que o exercício da democracia foi praticado intensamente.

Foram 72 conferências nacionais sobre todos os temas, de Segurança Pública a Comunicação, de portador de deficiência a GLTB [LGBT], e todas as políticas deliberadas por nós são resultado dessas conferências. Portanto, o povo participou ativamente das decisões e das políticas públicas do governo. Então, essa é a mudança fundamental, além do que, quando eu cheguei em 2003, a gente gastava R$ 1 bilhão por ano no Ministério dos Transportes, por ano, e hoje nós gastamos R$ 1,6 bilhão por mês. Ou seja, aprendemos a gastar e aprendemos a fazer obras.

Houve essa mudança no mesmo ministério?

Presidente Lula: No mesmo ministério. Hoje, nós gastamos 1,6 bilhão por mês, pagamos, contratamos, coisa que a gente só fazia 1 bilhão por ano. Nós tínhamos 380 bilhões de crédito para o Brasil inteiro. Hoje, nós temos 1,6 trilhão de crédito. Olha, o dia que a imprensa brasileira resolver divulgar a revolução que aconteceu no Brasil, o povo vai se dar conta porque é que o governo aparece com 80% de aprovação nas pesquisas. Não é o Lula, é o governo que aparece com 80% de aprovação no oitavo ano de mandato. Qual é o fenômeno? Porque não depende da imprensa. Se dependesse da imprensa, eu teria 10, menos 10 de aprovação. Eu estaria devendo pontos. Ou seja, qual é o fenômeno? O fenômeno é que as coisas estão chegando na mão do povo. O povo está recebendo os benefícios, o povo está vendo as coisas acontecerem. E quem não falou não fez parte da história nesse período. Eu acho que essa foi a grande mudança que eu vejo de 2003 para 2010.

Carmen Lira/La Jornada: O senhor acabou de mencionar uma coisa muito interessante para os mexicanos. Fizemos coisas que algum dia a imprensa vai divulgar. Não foi divulgado através do governo?

Presidente Lula: Olha, aqui no Brasil, há um debate muito interessante. E eu tenho notado que não é um debate do Brasil. Eu tenho notado que na Argentina tem o mesmo debate, e que nos países da América Latina há o mesmo debate. E eu tenho notado até o Obama que, quando tomou posse, disse que a Fox não agia como um meio de comunicação, mas como um partido político. Bem, eu converso com muitos dirigentes do mundo inteiro. Todo mundo reclama. Eu não reclamo muito da imprensa porque eu acho que eu cheguei onde cheguei por causa da imprensa. Ela contribuiu muito para que eu chegasse onde cheguei. Portanto, eu sou um defensor juramentado da liberdade de expressão e da democracia. Agora, tem gente que confunde a democracia, a liberdade de comunicação com atitudes extemporâneas. E eu não sei se é uma coisa mundial... que não há notícias boas.. não vendem jornal, talvez o que venda jornal seja só escândalo...

Veja, eu vou terminar o meu mandato sem nunca ter almoçado com nenhum dono de jornal, nenhum dono de televisão, nenhum dono de revista, durante o meu mandato. Mantive com eles uma relação democrática, respeitosa, entendendo o papel deles e querendo que eles entendessem o meu papel. Acho que muitas vezes o povo sabe das coisas boas que acontecem neste país porque nós divulgamos, em publicidade do governo, porque a internet divulga, os blogs divulgam, o blog do Planalto divulga....Mas às vezes, se dependesse de determinados meios de comunicação, eles simplesmente não falam a respeito do assunto. Alguns até dizem “olha, nós não temos interesse em fazer essa cobertura oficial, de inauguração de coisa”. Sabe, não têm interesse. Pode ser verdade...

O dado concreto é que eu acho que se o povo fosse melhor informado, o povo saberia de mais coisas e o povo poderia fazer juízo de valor melhor, sobre as coisas. Então, para mim, a arte da democracia é essa, é as pessoas terem segurança na qualidade da informação, na lisura da informação e na neutralidade da informação. Quem acompanha a política brasileira nesse momento vai perceber que seria muito mais fácil que alguns meios de comunicação assumissem, categoricamente, o seu compromisso partidário. E aí, a gente ficaria sabendo quem é quem, mas não é assim que funciona no Brasil. Parece tudo independente, mas é só ver as manchetes que a independência termina onde começa.

Esse é um processo de aprendizado, ou seja, nós temos muito pouco tempo de democracia, se vocês compreenderem, nós estamos vivendo neste instante o maior período de democracia contínua do Brasil, seja a partir da Constituição de 88, seja a partir da eleição do presidente Sarney. São vinte e poucos anos, portanto, é uma democracia muito incipiente, que está muito fortalecida e com instituições sólidas. Aqui, nós fizemos um impeachment e não aconteceu nada com o país. Aqui se elegeu um metalúrgico e nós estamos percebendo um avanço geral na América Latina e eu acho que isso vai consolidando a democracia independentemente dos saudosistas que sempre disseram que um metalúrgico não poderia chegar no andar de cima, que um índio não poderia chegar no andar de cima, que um negro não poderia chegar no andar de cima, que uma mulher não podia chegar no andar de cima. Nós estamos quebrando esses tabus, e estamos mostrando algo que precisa ser valorizado: a esquerda, na América Latina, fez uma opção pela democracia, e está chegando ao poder em vários países pela via da democracia. E quem dá golpe não é a esquerda. Não foi ninguém de esquerda que deu o golpe em Honduras. Então, as pessoas precisam saber que se a informação fluir corretamente, ela facilita a vida das pessoas na tomada de decisões.

E eu penso que no Brasil nós vamos aprendendo, nós vamos aprendendo e vamos construindo a nossa democracia, e eu, sinceramente, não... eu sou um homem que não tem o direito de reclamar, porque eu vou terminar o meu mandato, certamente com a maior aprovação que um governo já terminou. Tem gente que não começa com o que eu vou terminar. Então, eu tenho que agradecer ao povo brasileiro, agradecer à democracia brasileira e, por que não dizer, agradecer à imprensa, porque o comportamento dela, pró ou contra, foi formando um juízo de valor. Eu tenho uma tese que vale para a imprensa e que vale para o nosso comportamento cotidiano: se você é, todos os dias, favorável ao governo, você perde credibilidade. Mas se você, todos os dias é contra, você perde credibilidade. Ou seja, os dois extremos, quando se encontram, o resultado é burrice. Então, você tem que falar as coisas boas do governo quando elas acontecem, para te dar credibilidade para falar das coisas ruins quando elas acontecem e ter a mesma credibilidade. Eu acho que é isso que dá desenvoltura à consolidação da liberdade de comunicação no país. É o compromisso com a verdade, somente a verdade e nada mais que a verdade, doa a quem doer.

Martín Granovsky: Presidente, me desculpe, mas eu não falo português. Eu me lembro que na campanha de 2002, o mercado não entendia a necessidade de que os brasileiros tivessem que ter três refeições diárias. Esse era um dos principais objetivos do seu governo. Após dois governos, esse objetivo foi cumprido?

Presidente Lula: Olha, eu penso que nós conseguimos fazer uma revolução nesses dois mandatos, nesses oito anos de governo. Primeiro, uma coisa que aconteceu no Brasil: você tirar 27 milhões de pessoas do estágio de miséria absoluta e, ao mesmo tempo você levar 36 milhões de pessoas para a classe média brasileira não é pouca coisa. Gerar 15 milhões de empregos...

Martín Granovsky: Trinta e seis é quase uma Argentina.

Presidente Lula: É, quase uma Argentina. Criamos 15 milhões de empregos em oito anos. Ao mesmo tempo, fizemos programas que atendam à parte mais pobre da população, programas simples, mas programas objetivos, como o programa Bolsa Família, como o programa Luz para Todos, como o programa PPA, que é um programa de compra de alimentos, um programa para a Agricultura Familiar.

Essas são tomadas de decisões de políticas públicas que não estavam previstas no cenário político nacional. E eu acho que o povo brasileiro vive hoje mais feliz, vive melhor, e nós temos que ter consciência de que ainda falta muita coisa para fazer no Brasil, muita, mas muita coisa para fazer no Brasil. Eu espero que a companheira Dilma possa, nos próximos tempos, concluir o trabalho que nós começamos e que provamos que era possível ser feito no Brasil, e fizemos com muita força e, eu diria, com muita eficácia. Eu não quero ser presunçoso, mas eu acho que nós fizemos, do ponto de vista de política social, uma revolução aqui no Brasil, que ainda falta ser concluída. Tem muita coisa para fazer ainda, porque você não consegue desmontar todo o aparato de exclusão de 500 anos em oito anos. Mas nós temos uma base extraordinária, e eu acho que essa experiência precisa ser disseminada para outros países.

Porque algumas coisas são sagradas para nós. Você combinar crescimento econômico com inflação baixa, por exemplo. No Brasil, isso era impossível de acontecer. Você combinar aumento real dos salários e manter a inflação controlada, isso era impossível de acontecer no Brasil. Você manter uma política de exportação crescente e, ao mesmo tempo, uma política de fortalecimento do mercado interno brasileiro. Isso era impossível de acontecer!

Então, veja, todas essas coisas, todas essas coisas demonstram um grau de estabilidade nas políticas que nós fizemos, que se tiverem mais quatro ou mais oito anos de sequência nós certamente, dentro de pouco tempo, seremos a quinta economia do mundo, porque as condições estão colocadas.

E eu acho que isso tudo foi feito a partir da relação que nós estabelecemos com a sociedade. Eu tinha uma preocupação, antes de ser Presidente, que era a de definir qual seria a relação do estado com a sociedade e qual seria a relação do governo com a sociedade. Nós levamos algum tempo para que a parcela mais pobre da população, os trabalhadores organizados, começassem a ver, no exercício da Presidência, alguém deles. Hoje, milhões de brasileiros quando me vêem, eles me vêem com um deles que chegou lá, e isso deu mais credibilidade e dá mais possibilidade de a gente fazer mais coisas, e também mais irritação aos nossos adversários. Como os nossos adversários estão fragilizados nos seus partidos, utilizam de alguns meios de comunicação para fazer a grande oposição ao governo, e nós, ao invés de ficarmos nervosos, temos que ficar felizes, porque isso faz parte do processo democrático.

"Acabou o tempo em que a “casa grande” dizia o que a “senzala” tinha que fazer, acabou".


Eu digo sempre, acho que é importante dizer isso agora e não esperar outro momento, para dizer. Eu digo sempre que eu, às vezes, tenho a impressão de que tinha gente que tentava me provocar para que eu tentasse tomar uma atitude mais ríspida contra qualquer meio de comunicação, que eu tentasse fazer intervenção... E quanto mais eles me batiam, mais democracia; e quanto mais batiam, mais liberdade de expressão, até todo mundo perceber que só tem um juiz: é o leitor, o telespectador e o ouvinte. São eles que nos julgam. Ele só vai ler o que ele quiser ler e sabe interpretar, só vai assistir àquilo que assistir e sabe interpretar, e ele não quer mais intermediário, ele não quer mais o tal do formador de opinião pública. O cidadão coloca uma gravata, vai à televisão, dá uma entrevista e se autodenomina formador de opinião pública e acha que todo mundo vai segui-lo. Aí, você tem o presidente de uma Central Única, aqui no Brasil, que representa milhões de trabalhadores, esse não é formador. Então, essas coisas foram caindo por terra. O povo brasileiro não quer intermediário. Ele quer falar pela sua boca, enxergar pelos seus olhos e tomar decisões pela sua consciência. Acabou o tempo em que a “casa grande” dizia o que a “senzala” tinha que fazer, acabou.

"Na hora em que o povo for bem informado, todo mundo vai estar bem informado"
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O povo brasileiro não tem possibilidade de ouvir os seus discursos, nem de ler. Só quem vai a um ato, então a imprensa fica um pouco de intermediária. Além de ser Presidente da República, tem a popularidade que tem. Só quem tem a chance de ir a um comício ou a um ato de governo tem a possibilidade de ouvi-lor. O senhor não acharia que seria necessário ter espaços em que o Presidente da República prestasse contas, falasse? Isso não é uma censura, uma limitação à liberdade de expressão, que a pessoa que é eleita e reeleita não possa... que seja às 3h da manhã do sábado, mas que diga: “Bom, na TV tal, o Presidente da República vai falar o que ele acha”. O senhor não acha que esse espaço é uma coisa que falta à democracia?

Presidente Lula: Olhe, eu temo por uma coisa oficial. Isso termina não tendo credibilidade. Pode até ter credibilidade durante um tempo, mas depois perde a credibilidade. Veja, eu tenho um programa de rádio de cinco minutos, toda segunda-feira, que eu já acho tempo para caramba. Eu gravo todo domingo à noite, e não é impositivo, ou seja, transmite quem quiser transmitir. Nós temos a NBR, que é uma televisão do governo, que ela divulga na íntegra as coisas que os governos faz, todo discurso meu é transmitido na íntegra, de onde eu estiver, de qualquer parte do mundo e do país. E ela é bem assistida por um grupo de pessoas que acompanham o governo.

E tem a TV pública que nós estamos construindo ainda, está em um processo de fortalecimento. Nós não queremos que a TV pública seja vista como um canal para transmitir atividades do Presidente. Nós não queremos, porque ninguém aguenta isso todos os dias. Acho que os meios de comunicação, todos eles, na hora em que todos nós tivermos compromisso com a verdade, nós estaremos contemplados. Na hora em que o povo for bem informado, todo mundo vai estar bem informado. Eu não acho que o Estado deva ter uma coisa oficial para transmitir. Acho que o Estado tem que ter uma TV pública que tenha uma programação de qualidade, competitiva no conteúdo, na forma. E acho que o Estado não deve nem competir com as privadas na questão de financiamento. O que o Estado precisa primar é, primeiro, pela pluralidade de informações, porque é isso que vai dar credibilidade ao Estado; e, ao mesmo tempo, pela seriedade das informações. A TV pública não tem que dizer que o presidente Lula está de terno branco ou de terno preto; que o Lula é bom de bola ou se ele é ruim de bola. Se tiver esse compromisso, pode ser que um presidente ou outro não goste, mas a democracia agradecerá.

Você sabe que eu primo muito a democracia, Emir, porque eu não sei se eu chegaria à Presidência se não fosse a democracia. Eu vejo, por exemplo, aquela foto do primeiro governo da Revolução Russa, você não tem um metalúrgico ali, na direção. E assim, normalmente, em várias revoluções, a direção é toda de classe média, intelectual... o peão está lá para trabalhar, tem pouca gente. Aí, aqui nós conseguimos democraticamente criar um partido com a maioria de trabalhadores, chegar à Presidência da República, em 20 anos. Eu lembro da primeira reunião que eu fiz, em junho de 1990, quando nós convocamos em São Paulo, no Hotel Danúbio, a primeira reunião da esquerda da América Latina. Por que, por que, hein?

Emir Sader: Oitenta...

Presidente Lula: Noventa. Eu tinha saído derrotado da eleição de [19]89, mas tinha saído fortalecido. Porque, em [19]82, eu fui candidato a governador de São Paulo, e eu fui o quarto colocado; eu tive 1.25 milhão de votos. E eu fiquei arrasado, eu me senti o mais insignificante dos seres humanos de ter tido só 1,25 milhão de votos. E o meu partido já tinha uma propaganda que era uma loucura, não poderia aparecer a gente falando na televisão. Aparecia uma voz dizendo o seguinte: “Luiz Inácio Lula da Silva: ex-tintureiro, ex-alfaiate, ex-engraxate, ex-torneiro mecânico, ex-sindicalista, ex-preso político. Um brasileiro igualzinho a você”. Aí, tinha outro que aparecia o seguinte: “Altino Dantas: filho de general, condenado a 96 anos de cadeia”. “Athos Magno: sequestrou o avião...” Ou seja, parecia mais um prontuário policial... boletim de ocorrência do que uma campanha política.

E eu, então, fiquei muito triste porque eu perdi para o Montoro. Aí, certa vez, eu fui a Cuba e, conversando com o Fidel, ele falou: “Ô Lula, você já se deu conta em que lugar do mundo um operário teve 1,25 milhão de votos? Não tem isso, Lula! Então, você tem que achar estupenda essa votação que você teve!”. E aí eu passei a achar que a minha derrota foi uma vitória. Então, em [19]89, eu tive 40 e poucos por cento dos votos no segundo turno, e eu achei que era possível a gente consolidar a democracia na América Latina. Então, convocamos todos os partidos de esquerda. Da Argentina vieram quatro ou cinco, da República Dominicana, dez ou 12, porque tinha grupos de esquerda de dois, de três... Eles não conversavam entre eles. Eu brinco sempre que a única coisa que unificava aquela esquerda ali era o Maradona, porque a Argentina estava na Copa do Mundo. E o que aconteceu? Nós tiramos o fórum de São Paulo, passamos a nos reunir e hoje todos os partidos chegaram ao poder.

Durante um encontro em El Salvador, eu não quis receber o Chávez. Não queríamos que ele participasse do fórum porque era golpista, na época. Então, hoje, você pega a América Latina, todo mundo que participou do Fórum de São Paulo chegou ao poder pela via do voto. Então, eu acho isso extraordinário. As pessoas aprenderam. Como é que um índio chegava ao poder na Bolívia se não fosse a participação popular? Eu acho que essa é a revolução: você pega Mandela na África do Sul, Evo Morales na Bolívia, Lula aqui no Brasil e Obama nos Estados Unidos. Não é pouca coisa os americanos votarem num negro para presidente. Primeiro houve uma revolução no partido Democrata, com a vitória dele sobre uma loira dos olhos azuis. Nada contra mulheres com os olhos azuis, porque a minha tem! E depois ganhar junto ao povo americano. Então, o Obama é um presidente que ele não precisa fazer muita coisa. Ele só tem que ter a ousadia que o povo americano teve ao votar nele. Só isso. Então, eu penso que a democracia está a todo vapor na nossa querida América Latina.

O senhor não caiu na provocação de parte dos meios de comunicação distorcendo a informação ou escondendo informação. Mas eu, observando de fora, me parece que são muito poucas as informações sobre o que o governo faz, o que considero uma obrigação jornalística. Esse tipo de comportamento seria uma marca do que é chamado por alguns de imprensa golpista no Brasil?

Presidente Lula: Eu não uso a palavra golpismo. Agora, para entender é preciso acompanhar a imprensa brasileira e ver o que tentaram fazer em 2005. A elite brasileira, em [19]54, levou Getúlio a se matar. É importante lembrar que eles diziam que Juscelino não podia ser presidente, não podia ser candidato, se fosse candidato não podia ganhar, se ganhasse, não podia tomar posse e se tomasse posse, não podia governar. Era isso que eles falavam do Juscelino em [19] 55, era isso! Essa mesma elite é a elite de hoje, às vezes, não representada pelos mais velhos, mas pelos mais novos, que herdaram não apenas o patrimônio, mas, às vezes, o mesmo comportamento e a consciência política. Esse é um dado, esse é um dado objetivo. Depois levaram João Goulart a renunciar, defenderam o golpe militar.

Bem, quando eu chego à Presidência, pensaram duas coisas: “Bom, vamos respeitar a democracia e vamos deixar o operário chegar lá”. O operário chegou, e eles torciam, acreditavam piamente que eu iria ser um fracasso total e absoluto, e que a esquerda e seu operário metalúrgico iriam sucumbir na incapacidade de governar o país. Era esse o pensamento. O que aconteceu? O operário deu certo e começou a fazer mais do que eles, e aí eles se quedaram nerviosos.

Bem, eu tenho um comportamento que vem desde o movimento sindical. A democracia, para mim, não é meia palavra. A democracia é uma palavra inteira, só que alguns entendem por democracia apenas o direito do povo gritar que está com fome, e eu entendo por democracia, não o direito de gritar, mas o direito de comer. Essa é a diferença fundamental, essa é a diferença fundamental. Democracia, para mim, é permitir o direito à conquista, e não permitir apenas o direito ao protesto. Então, esse é um tema delicado, é um tema delicado, é um tema nervoso.

Nós fizemos uma conferência de Comunicação aqui no Brasil, uma grande conferência de Comunicação. Participaram alguns donos de meios de comunicação, participou o pessoal da telefonia, participou tudo que é gente de movimento social, participaram os blogueiros, muita gente participou. Agora, alguns não quiseram participar, alguns não quiseram participar. Eu não vou ficar me queixando, aqui, mas você poderia acompanhar. Primeiro, o Emir deveria te convidar para fazer uma palestra aos donos de jornais para você poder dizer o que você disse aqui, que eles têm obrigação de informar. Aqui eles não acham que têm obrigação de informar. Muitas vezes têm obrigação de desinformar.

Pega as revistas e os jornais e veja o que fizeram nesses últimos tempos. Eu duvido que tenha havido um presidente que tenha tratado a democracia com a importância que eu tratei, porque eu sei o quanto ela é importante para mim. Mas alguns compreendem diferente, eu acho normal, acho... também isso é da democracia. Mas é importante compreender o que aconteceu no Brasil. O povo brasileiro levantou a cabeça, a autoestima num nível muito extraordinário, e eu penso que só vai melhorar. Quando a gente percebe que quanto mais pluralismo a gente tiver, quanto mais opções a gente tiver, mais bem informado o povo será, porque aí o povo tem uma cesta de informações.

Daí porque eu acho importante a revolução da internet, que muita gente ainda não compreende ou não quer compreender. Mas, hoje, tudo depois da internet está velho, tudo. Está tudo velho, porque a internet é tempo real, ou seja, eu acabo de dar uma entrevista coletiva, eu venho à minha sala, em 30 segundos, eu ligo lá, já estão todas as notícias no mundo inteiro. Não sei como é que o mundo vai sobreviver a essa avalanche de possibilidade de informações que a sociedade tem. As pessoas interagem, as pessoas interagem, as pessoas respondem, as pessoas criticam, as pessoas se sentem co-feitoras da notícia, então eu acho isso extraordinário.

O senhor mencionou o que ocorreu com Getúlio Vargas e responsabilizou as elites por muitos dos golpes de Estado cometidos e muitas das barbaridades que foram cometidas na América Latina. Há alguns dias, Noam Chomsky disse que o neoliberalismo e as transnacionais estão provocando maior destruição que a conquista colonial, e houve quem o tenha contestado...Mas ele insistiu...

Presidente Lula: Quem contestou?

Intelectuais o contestaram, entre eles gente da direita. Mas, de novo, surgiu essa questão das elites. O senhor alguma vez já desenvolveu isso, com relação às elites da América Latina e seus problemas de crescimento e de alcançar a democracia?

Presidente Lula: Apenas uma coisa para que a gente não cometa injustiça. É preciso diferenciar também que dentro da elite há vários setores. Você tem empresários brasileiros que são empresários de alta qualidade, empresários com uma forte visão nacional, com uma visão desenvolvimentista. Quando eu falo, eu falo da elite política, aqueles que decidem o destino do país. E na América Latina, nós tivemos uma mentalidade colonizada, até poucos dias. Até poucos dias, na Argentina, os governantes ficavam discutindo quem era mais amigo dos Estados Unidos, ou quem era mais amigo da Europa; aqui no Brasil, a mesma coisa. Vamos ser francos: depois do pequeno período Duhalde, com a entrada do Kirchner e da Cristina, você pode ter discordância – e é legítimo ter discordância –mas houve uma mudança na Argentina, com a visão dela do mundo de mais independência, de mais soberania. O mesmo aconteceu no Brasil, na Venezuela, no Equador, ou seja, está acontecendo no mundo.

"Eu nunca aceitei a idéia de ficar sentado sobre nossos erros, apenas criticando o imperialismo".

Então, o que eu acho? Eu nunca aceitei a idéia de ficar sentado sobre nossos erros, apenas criticando o imperialismo. “Ah, nós somos pobres por causa do imperialismo americano; nós estamos doentes por causa do imperialismo americano; não aconteceu por causa do imperialismo americano”. Isso é meia verdade. A outra verdade é que a elite política de cada país é que se subordinou quando não precisaria ser subordinada. Então, é mais fácil a gente ficar criticando os outros em vez de olhar os nossos defeitos.

Eu acho uma vergonha aquele muro do México e dos Estados Unidos. Acho uma vergonha, depois de toda a glorificação da derrubada do Muro de Berlim, a gente ter o muro do México e o muro de Israel. Acho muito feio para a humanidade. Eu acho que o único muro que nós deveríamos assimilar era a Muralha da China, que virou uma coisa turística. Os demais são muros segregadores, e ninguém fala nada, ninguém fala nada. Você não vê fotografia do muro separando o México dos Estados Unidos, nos meios de comunicação.

Acho isso grave. Acho que a gente não pode ficar jogando a culpa nos outros. Nós temos que saber o seguinte: onde nós falhamos, enquanto elite política, enquanto elite intelectual, enquanto povo, onde é que nós falhamos? Na construção da nossa imagem, da nossa personalidade, da nossa riqueza. Então, eu acho que essa é a discussão que nós precisamos fazer. Porque é muito fácil, por exemplo, o Chávez falar que a Venezuela era pobre por causa dos ianques, que estavam explorando lá, a PDVSA. Não, a Venezuela era pobre porque muita gente da elite da Venezuela se beneficiava com o comportamento dos americanos. Então, eu acho que essas coisas precisam ser ditas de forma muito categórica. Não foram os ianques que levaram a Bolívia ao empobrecimento. Eles podem ter feito políticas para a Bolívia, adotadas pela elite política da Bolívia, que levou o povo da Bolívia àquele empobrecimento. O que eu quero dizer é que a gente não pode apenas criticar os de fora sem compreender os serviçais de dentro.


extraído de Carta Maior
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Urariano