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quarta-feira, 25 de março de 2015

França: a extrema-direita constrói-se sobre a fraqueza da esquerda

22/3/2015, [*] Nikos Smyrnaios, Ephemeron, Grécia –
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

França - Eleições Regionais, 2015
Eleições regionais realizadas nesse domingo na França confirmaram que prossegue por lá o avanço da Frente Nacional, que começou em 2011, quando Marine Le Pen assumiu a liderança do partido. A presença dos fascistas no 2º turno da eleição presidencial de 2017 é agora altamente provável, o que pode levá-los à presidência do país.

O establishment político francês, ou seja, a direita, trouxe de volta Sarkozy. O resultado de um confronto hipotético Le Pen-Hollande-Sarkozy em 2017 é bastante incerto. A possibilidade de vitória da extrema direita no segundo maior país da União Europeia já não é irrealista.

Há duas razões principais que explicam esse pesadelo, mas é cenário provável. Por um lado, a estratégia eleitoral reconhecidamente bem-sucedida do partido de Le Pen. Por outro, o abandono, pelos socialistas, dos estratos pobres da sociedade; e a fragmentação da esquerda radical. Aconteceu na atmosfera insalubre circundante, na qual a islamofobia cresceu, insuflada por alguns dos veículos da mídia-empresa, o que piorou após o ataque terrorista contra Charlie Hebdo.

Marine Le Pen votando em 22/3/2015
Desde 2011, quando tomou as rédeas do partido fundado por seu pai, Marine Le Pen fez a Frente Nacional ganhar ares de partido “decente”, na consciência de grande parte da opinião pública – embora sem jamais ter exercido o poder nem jamais se ter manifestado como partido antissistema. Na verdade, a retórica de Marine Le Pen tem-se centrado na crítica ao governo de Sarkozy e do governo da União Europeia (partidos socialistas e UMP). E trabalha em dois eixos: explora a imagem de “trabalhadora francesa” e uma tal “insegurança cultural”, de que fala sempre.

A retórica social da Le Pen contém muitas bandeiras que são bandeiras tradicionais da esquerda, mas foram deixadas para trás: defesa dos trabalhadores, crítica aos bancos e ao capital, denúncia da hipocrisia social-democrata, a favor de a França sair da Eurozona, etc.). E com essa retórica, a Frente Nacional surgiu como o maior partido entre os eleitores da classe trabalhadora. Mesmo que essa retórica seja absolutamente hipócrita, pois o partido é partido do capital francês, é retórica particularmente eficaz com vistas a eleições.

Simultaneamente, Le Pen refinou o seu discurso racista. Já não inclui bandeiras antissemitas brutais de IIª Guerra Mundial, como faz seu pai. Agora, a filha fala de “incompatibilidade” entre “valores culturais europeus” e o Islã. Para Le Pen, mesmo que jamais o diga tão claramente, a grande “ameaça” que a Europa enfrenta é a conquista pacífica do Ocidente, por ondas de imigração em massa.

Certamente a maioria dos membros e simpatizantes da Frente Nacional, xenófobos e intolerantes, ainda estão em conflito com a maioria dos eleitores. É o que se comprova pela baixa recepção e pouca simpatia que os delírios racistas dos candidatos às eleições locais receberam nas redes sociais.

A fraqueza da esquerda radical

Jean-Luc Mélenchon do Parti de Gauche
Mas a esquerda radical aparece fragmentada e fraca. A dinâmica do candidato Mélenchon nas presidenciais de 2012 parece que evaporou. Há pelo menos três razões para isso:

(1) A competição eleitoral entre partidos de esquerda, que não favorece uma estratégia eleitoral comum, embora, nos discursos, todos concordem, teoricamente, sobre a importância de uma esquerda unida.
(2) Disputas políticas sérias que estão em curso em campos importantes: em torno da questão do Islã na França; da relação com a Rússia de Putin e sua posição sobre a guerra na Ucrânia; a ecologia radical, que contrasta com a abordagem tradicional de desenvolvimento, etc. O mais recente exemplo desse desentendimento político dentro da esquerda em toda a Europa é o modelo do partido SYRIZA e estimativas sobre a eleição.

Mas há mais uma importante razão:

(3) para a queda da esquerda radical na França: a impotência do movimento sindical e social, que não traduz a insatisfação dos cidadãos organizados no confronto com o governo. Isso explica, dentre outras coisas, o fracasso da liderança sindical (ver CGT) e a política de repressão rigorosa e muitas vezes violenta de manifestações e protestos, que recentemente resultou na morte de manifestante Rémi Fraisse, por granadas de efeito moral.

Nicolas Sarkozy
A gradual retomada do Estado francês por Sarkozy (Ministro da Ordem Pública e Presidente entre 2002 e 2012) e depois por Manuel Waltz (antes Ministro de Política Pública dos socialistas e agora Primeiro-Ministro) prossegue, sem qualquer abalo, desde depois do ataque a Charlie Hebdo: mobilização massiva de soldados para proteger a ordem, medidas extraordinárias de segurança, prisões arbitrárias... Os socialistas estão pavimentando o caminho para Marine Le Pen (ou Sarkozy). Provavelmente já é tarde demais para mudar qualquer coisa.
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[*] Nikos Smyrnaios (Nick Smyrna) Nasceu em Atenas, Grécia, em 1976; vive e trabalha na França desde 1995. Recebeu seu PhD em 2005 pela Universidade de Grenoble. Atualmente é professor sênior da Universidade de Toulouse onde leciona História, Sociologia, Cultura & Economia de Massa e Mídia Digital. Sua pesquisa centra-se em parâmetros socioeconômicos e questões políticas da internet. Atua intensamente no jornalismo online, mídia digital e o no uso político de sites de redes sociais. Anima seu blog Ephemeron publicando artigos em grego e francês, mas também em inglês.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Fraturas na Europa

●− França pivoteia-se para Putin,
●− Chipre oferece a Moscou uma base militar,
●− Alemanha−EUA racham por causa da Ucrânia

8/2/2015, [*] Tyler Durden, Zero Hedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Frank-Walter Steinmeier (E) e John Kerry
Depois do sumário, ontem, da imensa farsa em que se converteram as conversações “de paz” da Cúpula Minsk/Ucrânia, as várias partes envolvidas parecem estar-se separando, ainda mais rapidamente fraturadas hoje [domingo, 8/2/2015].

As manchetes sucedem-se rápidas e gordas, mas as mais acertadas parecem ser: Apesar de John Kerry persistir em surto de negação de qualquer separação entre Alemanha e EUA sobre os EUA fornecerem armas à Ucrânia, o Ministro alemão de Relações Exteriores Steinmeier denunciou a estratégia de Washington como “não apenas temerária, mas também contraproducente”.

Ainda mais significativo parece ser o continuado pivoteamento da França na direção dos russos...

Depois de François Hollande ter exigido maior autonomia para o leste da Ucrânia, também o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy veio a público em declarado apoio à Rússia (e especificamente contra os EUA): “somos parte de uma civilização comum com a Rússia” – e acrescentou que “os interesses dos norte-americanos com os russos não são os interesses de Europa e Rússia”. Até a OTAN parece ter desistido de qualquer esperança; as declarações de Stoltenberg mostram pouco otimismo; e a decisão de Chipre, de autorizar a Rússia a usar o solo cipriota para instalação de bases militares sugere que as coisas absolutamente não vão bem na “união” europeia.

Angela Merkel e François Hollande 
O Ministro alemão de Relações Exteriores repicou hoje, sobre a posição alemã de rejeitar entregas de armas à Ucrânia, em discurso no domingo...

● GABRIEL DIZ QUE ALEMANHA NUNCA APOIARÁ O FORNECIMENTO DE ARMAS À UCRÂNIA

● A EUROPA VÊ COMO MÁ IDEIA A ENTREGA DE ARMAS À UCRÂNIA: LAVROV

“Considero a ideia não apenas temerária, mas também contraproducente” disse o ministro Steinmeier na Conferência de Segurança de Munique. Steinmeier também reagiu contra as críticas de senadores e outras autoridades norte-americanas, no domingo, à posição da Alemanha sobre fornecimento de armas. A Casa Branca continua a falar sobre entregar armas à Ucrânia, em apoio ao governo de Kiev, no leste do país.

“É possível que insistamos tanto porque conhecemos bem a região”, disse Steinmeier.

Mas para John Kerry... nada disso! Tudo vai esplendorosamente bem... E ele nega qualquer divergência entre Europa e EUA na política para a Rússia.

O Secretário de Estado John Kerry negou, nesse domingo, qualquer divisão entre EUA e Europa sobre como lidar com a Rússia, no momento em que a Alemanha anunciava outra reunião de alto nível organizada para controlar a crise na Ucrânia.

Kerry disse em conferência de segurança a Munique que “posso assegurar a todos que não há qualquer divisão, não há ruptura alguma” entre Washington e seus aliados europeus, em torno da crise na Ucrânia.


“Estamos unidos, estamos trabalhando em íntima união” – disse Kerry à conferência, depois de reuniões com seus contrapartes francês e alemão. “Todos concordamos com que esse desafio não terminará pelo uso de força militar. Estamos unidos em nossa diplomacia”.

Mas talvez mais significativo seja o visível continuado pivoteamento da França na direção da Rússia... Depois de François Hollande ter exigido maior autonomia para o leste da Ucrânia, o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy saiu também em aparente apoio à Rússia (e especificamente contra os EUA).

“Somos parte de uma civilização comum com a Rússia,” disse Sarkozy, falando no sábado num congresso da União para um Partido do Movimento Popular (UMP), presidido pelo ex-presidente da França.

“Os interesses dos norte-americanos com os russos não são os interesses de Europa e Rússia”, disse Sarkozy, acrescentando que “não queremos o renascimento de uma Guerra Fria entre Europa e Rússia”.

“A Crimeia escolheu a Rússia e não há por que culpá-la por isso” – disse Sarkozy, destacando que “temos de encontrar os meios para criar uma força de manutenção da paz que proteja os falantes de russo dentro da Ucrânia”.

Nicolas Sakozy
E como se não bastasse, Chipre se une ao bloco da separação, oferecendo-se para assinar, dia 25/2/2015, um acordo de cooperação militar que dará à Rússia o direito de usar bases militares implantadas em solo cipriota...

A base aérea que os aviões russos usarão localiza-se a cerca de 40km de distância da base aérea militar britânica soberana em Akrotiri, no litoral sul de Chipre, e que dá suporte a operações da OTAN nas regiões do Oriente Próximo e Oriente Médio.

Parece que até a OTAN já sabe que não haverá “acordo de paz”...

●– STOLTENBERG: “IMPOSSÍVEL GARANTIR” QUE SAIRÁ DE MINSK ALGUM CESSAR-FOGO

Mas ainda há esperanças... como espera o vice-chanceler alemão...

GABRIEL DA ALEMANHA DIZ-SE “CAUTELOSAMENTE OTIMISTA” SOBRE A CÚPULA DE MINSK

e EXIGE...

– PUTIN TEM DE ACEITAR A “MÃO ESTENDIDA” DA UNIÃO EUROPEIA, diz GABRIEL

mas em seguida afina...

A UNIÃO EUROPEIA BUSCA RENOVADA PARCERIA PÓS-CRISE COM A RÚSSIA: GABRIEL

Logo todos veremos no que dará tudo isso:

RÚSSIA ANUNCIA REUNIÕES DIAS 9-10 DE FEVEREIRO de 2015 SOBRE A UCRÂNIA, PARA PREPARAR A CÚPULA DE MINSK.



[*] Tyler Durden é o apelido de numerosos blogueiros que comentam no Zero Hedge. O nome foi copiado de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta). 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo – A praga que recai sobre o praguejador

7/1/2015, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A simples ideia de que aqueles insultos não seriam insultos já é, nela mesma, preconceituosa e insultante, porque declara que uma cultura  a que santificou a liberdade de manifestação como direito absoluto  seria superior a todas as outras. Essa ideia liberal é indecente, obscena.

Polícia e ambulância chegam...
12 pessoas, inclusive dois policiais, foram mortos na França, quando desconhecidos mascarados e armados atacaram hoje a redação de Charlie Hebdo, revista satírica.

Em Sanaa, Iêmen, morreram hoje cerca de 40 pessoas, num ataque à bomba contra uma fila de candidatos que esperavam para inscrever-se para um emprego na polícia. Esses 40 mortos e muitos feridos no ataque absolutamente não merecerão tantas manchetes e “noticiário” quanto os mortos de Paris.

O vídeo (no fim do parágrafo) do ataque em Paris mostra os atacantes vestidos em uniformes negros, e agindo como se tivessem, no mínimo, algum treinamento militar.


Usaram armas automáticas e, segundo a polícia, um lançador de foguetes. Pelo menos dois dos atacantes continuam foragidos. Ainda não se conhecem os motivos dos atacantes, mas entendo que o que se lê abaixo é mais provável que a hipótese de um ataque sob falsa bandeira.

Em 2011, a revista Charlie Hebdo foi uma das que publicou caricaturas de Maomé, tentativa estúpida, insultante, de apresentar o Profeta e todos os muçulmanos como terroristas. Em 2012, a mesma revista continuou a campanha, e mostrou o Profeta sem roupas, como um gnomo em busca de atenção.

Diferente dos “liberais” norte-americanos, a maior parte do mundo não entende que o direito à livre manifestação do pensamento seja direito absoluto. Assim como gritar “fogo” num teatro lotado, insultar a fé religiosa de outras pessoas também gera alta probabilidade de desgraça, em praticamente todo o mundo.

A simples ideia de que aqueles insultos não seriam insultos já é, ela mesma, preconceituosa e insultante, porque declara que uma cultura – a que santificou a liberdade de manifestação como direito absoluto – seria superior a todas as outras. Essa ideia liberal é indecente, obscena.

Que a sátira de Charlie Hebdo tenha sido indecente e insultante não justifica o ataque e os assassinatos, mas explica uma possível motivação dos atacantes. É profundamente errado matar pessoas pelo que digam. Mas também é profundamente errado insultar crenças diferentes das de cada um de nós, mesmo que os insultos se façam em nome do culto (fanatizado?) à “liberdade de manifestação”.

Nicolas Sarkozy (E) e François Hollande
Supõe-se que os atacantes em Paris sejam militantes que se apresentam como muçulmanos que lutam pela própria fé. O estado francês – governado, ao que parece, agora, pelos presidentes Sarkozy e Hollande – armou e treinou e apoiou outros atacantes, sob os mesmos pretextos, em ataques contra o povo e o governo da Líbia e da Síria.

Na Síria, combatentes jihadistas do Estado Islâmico e da Frente al-Nusra estão usando mísseis antitanques fornecidos a eles pelos EUA. Um regimento alemão de defesa aérea está protegendo hoje os acampamentos daqueles jihadistas na Turquia, preservando-os contra avanços do governo sírio.

Ao mesmo tempo em que apoia jihadistas na Síria, a França agora está deslocando um porta-aviões para o Golfo Persa para atacar o Estado Islâmico no Iraque. Aí, sim, pode estar o real motivo do ataque em Paris.

Os fundamentalistas foram saudados como heróis por políticos “ocidentais” quando atacaram civis em Trípoli e em Aleppo. Quando atacam em países “aliados” dos “interesses ocidentais” ou dentro de países “ocidentais”, os mesmos ataques e atacantes são vistos como hostis e usados para justificar mais um passo na direção da extrema direita, da guerra ou de governos cada vez mais totalitários.

A menos que se levantem para lutar por políticas menos enlouquecidas, menos agressivas, os cidadãos comuns, que ficam no meio do fogo cruzado, sempre serão os que mais perdem nessa guerra.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Hollande está nu

16/1/2013, [*] Jean-Luc Mélenchon, Le Blog de Mélenchon
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

François Hollande
Não se deve subestimar a amplidão da virada que François Hollande operou em sua conferência de imprensa. [1] Continua a ser, sim, o mesmo homem que descrevi em meu livro En quête de gauche, [2] o percurso ideológico desde 1983. Desconhecido àquela época, seus primeiros tribunos na imprensa o davam como alinhado dessa corrente “democrata”, nascida nos EUA, que, na sequência, escalou a escadaria liberal.

De Tony Blair a Gerhard Schröder, o que se viu foi um descaminho, em toda a social-democracia europeia, do qual Hollande foi instrumento na França. Esse descaminho avançou até a total decadência, com a capitulação de Papandréou na Grécia ante o assalto da finança, mas também com os governos de grande coalizão de repetição na Alemanha e em vários países europeus. Sim: na conferência de imprensa anterior, em novembro de 2012, já se podia ver a paisagem mental da conversão pública de Hollande à “política da oferta”, característica do pensamento econômico da direita. Mas os jornalistas têm razão, quando dizem que, agora, Hollande escancarou tudo.

Foi a virada à direita mais violenta de um governo suposto de esquerda, desde Guy Molet, eleito para fazer a paz na Argélia, e que mandou para lá um contingente de guerra. Hollande foi eleito para virar a página de Sarkozy e fazer guerra à grande finança. Disso, já não se vê nem traços. Ao contrário. Um jornalista forçou-o a confessar. “Que diferença há entre sua política e a política de Sarkozy?” Da própria boca de Hollande, a diferença seria que Hollande faria o que Sarkozy fora incapaz de fazer em matéria de política econômica de direita! Dito de outro modo, visto cá de nossas galerias, Hollande se orgulha de ser pior que Nicolas Sarkozy.

Nos números, também é pura verdade. Fillon cortou 15 bilhões de gastos públicos. Hollande cortou três vezes mais. Quanto à “guerra à finança”... é a caricatura do dito de Charles Pasqua, segundo o qual “promessas só conquistam quem acredite nelas”. Não é surpresa para nós, militantes políticos, cidadãos esclarecidos. No fundo, sempre soubemos no que acreditar.

Mas às vezes, esses nossos saberes nos enganam: supomos que todos sabem o que nós sabemos e subestimamos os efeitos da desmoralização coletiva dos que descobrem a realidade, sobretudo quando não há nenhum desejo de conhecer a realidade. E subestimamos o quanto de autoridade podem tem personagens como François Hollande, simples efeito do cargo, sobre o espírito público. Quando Hollande recita, repetindo, o catecismo liberal sem nada demonstrar, usando, como se fossem provas, o que não passa de refrãos ideológicos aprendidos de nossos adversários, ele conforta a ideologia dominante e todos os preconceitos de nossos tempos de obscurantismo. Por isso, em seguida, nós é que temos de pagar, e pagar muito caro. Esse movimento provoca simultaneamente doses iguais de resignação e de conformismo.


A pressão midiática e as circunstâncias forçaram que o motoqueiro mascarado aparecesse sem disfarces. Acredito que tanto no Partido Socialista como na nossa esquerda, há muitos que teriam preferido que a ambiguidade continuasse, para facilitar os pequenos “negócios”. Mas a pressão de circunstâncias privadas impôs que Hollande adotasse postura clara, para assim tentar desmentir sua reputação de duplicidade doentia, permanente e universal. Os jornalistas o apanharam assado “ao ponto”.

Assim, conseguiram total clareza, pela qual, tenho certeza, teriam de esperar muito, sem nada obter desse falastrão, interessado em continuar a enganar todo mundo. Ah, sim, é verdade: no fundo, nada mudou. Mas nem por isso tudo continua exatamente como antes.

Houve um salto qualitativo: o novo pacto econômico-blá-blá-blá dá mais 15 bilhões ao MEDEF [Mouvement des Entreprises de France / Movimento das Empresas Francesas, a maior união patronal francesa]. No total, os dois últimos planos blá-blá-blá injetaram 35 bilhões de dinheiro novo no MEDEF, arrancados integralmente do consumo da população! Isso, quanto aos fatos & números.

Ao assumir publicamente sua virada neoliberal, François Hollande atravessa também um limite simbólico. Na vida pública, sobretudo quando fala o monarca republicano, as palavras são fronteiras, tanto quanto são passarelas sobre o real. A conferência de imprensa de Hollande pôs ponto final à “especificidade” do Partido Socialista dentro da social-democracia mundial e europeia. E não foi só isso.

O golpe de força ideológico vai virar golpe de força político. Ao votar um voto de confiança [3] no “pacto de solidariedade” que Hollande propôs aos empresários franceses, a “esquerda do Partido Socialista” o os Verdes validarão a brutal fórmula produtivista e antissocial que resume tudo, no plano da filosofia política: “a oferta cria a demanda”. [4] Hollande vai fazer o Parlamento engolir mais e mais presentes para o patronato, mais e mais Acordos Nacionais Interprofissionais [Accord National Interprofessionnel, ANI], mais e mais 66 anos para aposentadoria, mais e mais... mais e mais... Conheço bem essa goela de jiboia e a arte deles para tudo engolir, ao mesmo tempo em que falam mal do cardápio, mas... comem, assim mesmo!

Toda a esquerda representada no Parlamento está encurralada contra o muro. Assim se verá a sinceridade desses flautistas! A doutrina é essa. Mas é preciso considerar um detalhe.

Hollande aceita o rótulo de “social-democrata”.

É uma usurpação a mais. Há, é claro, razões de fundo que têm a ver com a paisagem e a história da esquerda francesa. A social-democracia é um modo de organização da esquerda, na qual o partido e o sindicato aparecem intimamente ligados. São ligados não só na ação, mas pelas estruturas e pela história. E tanto faz se o partido criou o sindicato, ou o sindicato criou o partido. É exatamente assim em todos os países do norte da Europa e na Inglaterra. Mas nada disso jamais existiu na França. Em minha opinião, melhor que assim seja. Mas... assim sendo, o que seria, afinal, essa social-democracia à moda Hollande na qual o sindicato e o partido dão-se as costas? A resposta é simples: a social-democracia de Hollande não existe.

Por pior que seja, a social-democracia é um modo pelo qual os avanços incorporam as relações de força entre as forças sociais, e incorporam a negociação, para chegar a acordos e compromissos. Mas no “sistema” Hollande não se vê nem traço de incorporação de relações de força, de negociação, nem de qualquer acordo e compromisso típicos da social-democracia que se conhecia. Hollande dá presentes “secos” aos acionistas. Nenhuma contrapartida, de tão calculados e fechados e firmes que são os presentes; nada se exige do grande patronato, em troca.

Onde está o espaço de “negociação”? Trata-se de concessão já previamente decidida, unilateral e sem condições, como se viu no caso dos Acordos Nacionais Interprofissionais, da aposentadoria aos 66 anos e hoje? Onde está a relação de forças, se o governo define as concessões, antes de começar a discussão? Não há.

A ideia social-democrata é “partilhar os frutos do crescimento”. Não passa de lamentável ilusão produtivista, sim, que supõe um mundo em crescimento permanente, sem limite, num mundo limitado. Mas, pelo menos, aspira-se a partilhar alguma riqueza. Na França de Hollande, não, não se partilha coisa alguma. São 15 milhões dados de um lado, e, do outro lado, no melhor dos casos, promessas de “criação de empregos”.

Ainda que essas promessas se convertessem em fatos, e disso não se vê nem o menor sinal, que tipo de troca é essa? Entrega-se a riqueza a alguns, em troca de os outros terem o “direito” de produzir cada vez mais riquezas que serão repartidas sempre com a mesma desigualdade! E qual o conteúdo desses empregos “garantidos como contrapartida”? São empregos socialmente degradados, de baixo salário, para possibilitar que o governo pague os 15 bilhões “de presente”. Empregos com menor poder de compra, porque a “economia” de gasto público é feita à custa de mais despesas para as famílias.

E eis aí Hollande, fingindo indignar-se contra os que veem em suas políticas, o prosseguimento dos presentes à grande finança! Só ele não vê que praticamente toda essa catarata de dinheiro dado ao grande patronato não se converte em investimento: praticamente todo esse dinheiro é repartido lá mesmo, como dividendos. Tudo isso está comprovado nos números.

O que Hollande faz é social-liberalismo.

A palavra não é boa, mas descreve, pelo menos aproximadamente, a nova matriz onde se somam, dia a dia, a prioridade dada ao mercado, a livre concorrência (só falsamente europeia) e “os valores” societários, mas associais, das classes médias superiores urbanas. Essa é a linha “democrática” em curso, depois dos anos 1980s, na Internacional socialista.

Depois do início da ofensiva “democrática” na França, o perigo é que já não há esquerda política em nosso país, como há na Itália, laboratório de ponta da nova orientação do movimento social-democrata.

A criação de nossa Frente de Esquerda [Front de Gauche] fechou, precisamente, o avanço dessa via. Daí o empenho com que os solfériniens [membros do Partido Socialista, assim chamados porque têm sede na Rue de Solférino 10, Paris (NTs) [5]] se dedicam a combater por todos os meios (e basta isso; meus leitores estão bem avisados para sempre interpretar essa afirmação, conforme as circunstâncias da hora).

O que interessa é que, não, não se trata de “gueguerra” [orig. gue-guerre, “bate-boca”, “guerra de gagos”] nem de discussão fútil [fr. “bisbille”], como dizem “críticos” e comentaristas tolos ou rendidos. Na Frente de Esquerda não temos qualquer problema pessoal com ninguém. Pessoalmente, não sinto nem ciúmes nem frustração.

Sobre se a Frente de Esquerda votará ou não com o Partido Socialista (na votação do voto de confiança no pacto de responsabilidade que Hollande pediu ao empresariado francês, no discurso de final de ano. [6] E Mélenchon não quer saber de pacto com Hollande)

Mas há um pesado problema de orientação nessa discussão. Esse é um debate estratégico de fundo. A independência política da Frente de Esquerda em relação ao Partido Socialista é para nós questão fundacional, que ultrapassa em muito as tolices sobre “unificar a esquerda” e outras bobagens semelhantes que os socialistas franceses usam como boia salva-vidas.

Que alguns setores do Partido Comunista Francês (PCF) assumam sua orientação, e que aprovem o pacto, se acharem útil, com os socialistas, e desde o primeiro turno. É direito deles. Tem de ser respeitado como tal.

Mas que não tentem envolver outras forças que se integram no nosso movimento, em suas escolhas. Também temos direitos, que também têm de ser respeitados. Não queremos ser envolvidos em nenhuma aliança com o Partido Socialista. Não seremos envolvidos.

Ao contrário: é preciso trabalhar, como sigla sem compromisso com o PS, para formar uma oposição de esquerda; e votar contra, na votação do pacto de responsabilidade (que Hollande quer firmar com os empresários [6]) pode ser o ponto de partida. Essa oposição de esquerda não se pode resumir à Frente de Esquerda. Tampouco pode ser efeito de encontros e de “convergências” com setores mais bem nutridos do PS, cuja audácia política só vai até a guerra “midiática” inócua, sem consequências práticas.

Todos os que se diziam “mais úteis fora, que dentro” do PS, acreditassem ou não no que diziam, estão agora ante uma escolha: ou as palavras, ou os atos. Os que votaram conosco e quiseram dar uma chance governamental à nossa ecologia política saibam que chegaram à fronteira entre comprometer-se e renegar.
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Notas de rodapé

[1] 14/1/2013, François Hollande, conferência de imprensa. Vídeo a seguir:


[2] MELENCHON, Jean-Luc, En quête de gauche, Paris: Balland, 2007.


[4] Sobre isso, ver: Lei de Say


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[*] Jean-Luc Mélenchon (Tânger-Marrocos, 19 de agosto de 1951) é um político francês, atual líder da Frente de Esquerda da França (Front de Gauche). Foi educado no Lycée Pierre-Corneille em Rouen (Normandia). Seu pai trabalhava nos serviços postais, e sua mãe, de origem espanhola, era professora de escola primária. Cresceu no Marrocos, até que sua família se mudou para a França em 1962. Obteve licenciatura em Filosofia pela Universidade de Franche-Comté, e tendo ganho as CAPES (qualificação de ensino profissional), tornou-professor antes de entrar para a política. Foi senador da França em 2 períodos (2004–2010) e (1986–1995) pelo Partido Socialista Francês e candidato pela Frente de Esquerda, derrotado nas eleições presidenciais de 2012.