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quarta-feira, 25 de março de 2015

França: a extrema-direita constrói-se sobre a fraqueza da esquerda

22/3/2015, [*] Nikos Smyrnaios, Ephemeron, Grécia –
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

França - Eleições Regionais, 2015
Eleições regionais realizadas nesse domingo na França confirmaram que prossegue por lá o avanço da Frente Nacional, que começou em 2011, quando Marine Le Pen assumiu a liderança do partido. A presença dos fascistas no 2º turno da eleição presidencial de 2017 é agora altamente provável, o que pode levá-los à presidência do país.

O establishment político francês, ou seja, a direita, trouxe de volta Sarkozy. O resultado de um confronto hipotético Le Pen-Hollande-Sarkozy em 2017 é bastante incerto. A possibilidade de vitória da extrema direita no segundo maior país da União Europeia já não é irrealista.

Há duas razões principais que explicam esse pesadelo, mas é cenário provável. Por um lado, a estratégia eleitoral reconhecidamente bem-sucedida do partido de Le Pen. Por outro, o abandono, pelos socialistas, dos estratos pobres da sociedade; e a fragmentação da esquerda radical. Aconteceu na atmosfera insalubre circundante, na qual a islamofobia cresceu, insuflada por alguns dos veículos da mídia-empresa, o que piorou após o ataque terrorista contra Charlie Hebdo.

Marine Le Pen votando em 22/3/2015
Desde 2011, quando tomou as rédeas do partido fundado por seu pai, Marine Le Pen fez a Frente Nacional ganhar ares de partido “decente”, na consciência de grande parte da opinião pública – embora sem jamais ter exercido o poder nem jamais se ter manifestado como partido antissistema. Na verdade, a retórica de Marine Le Pen tem-se centrado na crítica ao governo de Sarkozy e do governo da União Europeia (partidos socialistas e UMP). E trabalha em dois eixos: explora a imagem de “trabalhadora francesa” e uma tal “insegurança cultural”, de que fala sempre.

A retórica social da Le Pen contém muitas bandeiras que são bandeiras tradicionais da esquerda, mas foram deixadas para trás: defesa dos trabalhadores, crítica aos bancos e ao capital, denúncia da hipocrisia social-democrata, a favor de a França sair da Eurozona, etc.). E com essa retórica, a Frente Nacional surgiu como o maior partido entre os eleitores da classe trabalhadora. Mesmo que essa retórica seja absolutamente hipócrita, pois o partido é partido do capital francês, é retórica particularmente eficaz com vistas a eleições.

Simultaneamente, Le Pen refinou o seu discurso racista. Já não inclui bandeiras antissemitas brutais de IIª Guerra Mundial, como faz seu pai. Agora, a filha fala de “incompatibilidade” entre “valores culturais europeus” e o Islã. Para Le Pen, mesmo que jamais o diga tão claramente, a grande “ameaça” que a Europa enfrenta é a conquista pacífica do Ocidente, por ondas de imigração em massa.

Certamente a maioria dos membros e simpatizantes da Frente Nacional, xenófobos e intolerantes, ainda estão em conflito com a maioria dos eleitores. É o que se comprova pela baixa recepção e pouca simpatia que os delírios racistas dos candidatos às eleições locais receberam nas redes sociais.

A fraqueza da esquerda radical

Jean-Luc Mélenchon do Parti de Gauche
Mas a esquerda radical aparece fragmentada e fraca. A dinâmica do candidato Mélenchon nas presidenciais de 2012 parece que evaporou. Há pelo menos três razões para isso:

(1) A competição eleitoral entre partidos de esquerda, que não favorece uma estratégia eleitoral comum, embora, nos discursos, todos concordem, teoricamente, sobre a importância de uma esquerda unida.
(2) Disputas políticas sérias que estão em curso em campos importantes: em torno da questão do Islã na França; da relação com a Rússia de Putin e sua posição sobre a guerra na Ucrânia; a ecologia radical, que contrasta com a abordagem tradicional de desenvolvimento, etc. O mais recente exemplo desse desentendimento político dentro da esquerda em toda a Europa é o modelo do partido SYRIZA e estimativas sobre a eleição.

Mas há mais uma importante razão:

(3) para a queda da esquerda radical na França: a impotência do movimento sindical e social, que não traduz a insatisfação dos cidadãos organizados no confronto com o governo. Isso explica, dentre outras coisas, o fracasso da liderança sindical (ver CGT) e a política de repressão rigorosa e muitas vezes violenta de manifestações e protestos, que recentemente resultou na morte de manifestante Rémi Fraisse, por granadas de efeito moral.

Nicolas Sarkozy
A gradual retomada do Estado francês por Sarkozy (Ministro da Ordem Pública e Presidente entre 2002 e 2012) e depois por Manuel Waltz (antes Ministro de Política Pública dos socialistas e agora Primeiro-Ministro) prossegue, sem qualquer abalo, desde depois do ataque a Charlie Hebdo: mobilização massiva de soldados para proteger a ordem, medidas extraordinárias de segurança, prisões arbitrárias... Os socialistas estão pavimentando o caminho para Marine Le Pen (ou Sarkozy). Provavelmente já é tarde demais para mudar qualquer coisa.
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[*] Nikos Smyrnaios (Nick Smyrna) Nasceu em Atenas, Grécia, em 1976; vive e trabalha na França desde 1995. Recebeu seu PhD em 2005 pela Universidade de Grenoble. Atualmente é professor sênior da Universidade de Toulouse onde leciona História, Sociologia, Cultura & Economia de Massa e Mídia Digital. Sua pesquisa centra-se em parâmetros socioeconômicos e questões políticas da internet. Atua intensamente no jornalismo online, mídia digital e o no uso político de sites de redes sociais. Anima seu blog Ephemeron publicando artigos em grego e francês, mas também em inglês.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Marine Le Pen “legitimada”

20/1/2015, Joseph Kishore e Alex LantierWorld Socialist Website
Traduzido por mberublue


A lição básica das experiências dos anos 1930s, é que a luta contra o fascismo deve ser travada e sempre será travada como guerra contra o sistema capitalista e suas representações políticas.


Marine Le Pen - The New York Times
A campanha internacional para “legitimar” os políticos fascistóides da Frente Nacional (FN) francesa alcançou um novo estágio nesta segunda-feira (19/1/2015) com a publicação no jornal The New York Times de um artigo assinado pela líder do partido, Marine Le Pen, sobre o tiroteio na sede do jornal satírico Charlie Hebdo. [1]

Ao franquear suas portas para Le Pen, o jornal, degradado pilar do liberalismo americano, sinaliza que significativas partes da classe dominante americana consideram que as ideias da líder fascista são parte fundamental do debate público sobre assunto. O The Times ainda tomou a medida de incluir uma tradução simultânea em francês, assegurando-se de que a coluna receba a maior divulgação possível também na França.

Le Pen está sendo promovida, como parte de um esforço comum empreendido pela elite da classe dominante, no desenvolvimento de uma corrida anti-islâmica para confrontar ao mesmo tempo a oposição anti-imperialista no Oriente Médio e os distúrbios sociais em casa. As charges anti-islâmicas do Charlie Hebdo foram proclamadas pomposamente como símbolos da democracia, e neste instante Le Pen representa nada menos que alguém para “salvar a pátria”.

Os argumentos chauvinistas de Le Pen no The Times (sob a manchete “Chamar essa ameaça de ameaça”) foram claramente inspirados no arsenal ideológico dos EUA em sua “Guerra ao Terror”. A França, “terra dos direitos humanos e da liberdade, foi atacada em seu próprio solo por uma ideologia totalitária: o fundamentalismo islâmico” – escreveu ela.

Não à Mesquita - Front National
Em seguida, Le Pen clama pelo desmantelamento efetivo das liberdades e dos direitos humanos na França, a fim de mover uma guerra contra os mais de cinco milhões de muçulmanos que fazem parte do povo francês, propondo nada menos que “uma política restritiva à imigração”, novas medidas para retirar deste povo a cidadania, e uma luta contra o “comunitarismo e estilos de vida que estariam em desacordo” com as tradições francesas.

Enquanto providencia uma plataforma política para Marine Le Pen, o The Times não se preocupa minimamente em informar a seus leitores o pedigree político da francesa. A Frente Nacional foi formada em 1972 por antigos apoiadores do regime colaboracionista de Vichy, que efetivamente apoiou os nazistas na Segunda Guerra Mundial, e por defensores do brutal domínio francês na Argélia.

A Frente Nacional é conhecida por seu ativo racismo antimuçulmano e antissemita, seu nacionalismo virulento e seus ataques, por capangas violentos, a oponentes políticos. Como justificativa para a decisão de publicar a coluna de Le Pen, os editores do The Timesargumentam que, gostando-se dela ou não, Le Pen não pode ser ignorada. Os defensores do jornal provavelmente argumentarão, que, dada a Le Pen uma plataforma, ela na realidade estará se expondo.

Não passa de rematado absurdo.

A verdade é que Le Pen está sendo deliberadamente “legitimada” pelo The Times, assim como foi “legitimada” também pelo presidente francês, François Hollande, que, ao convidar Le Pen para o palácio Eliseu, logo após o tiroteio fatídico no jornal satírico Charlie Hebdo, deu a ela e à Frente Nacional uma estatura política que, antes, nunca haviam tido.


A promoção de Le Pen faz parte de um notável crescimento, no plano internacional, de organizações de caráter fascista e de extrema direita. No último ano, os EUA e a Alemanha trabalharam em conjunto com os partidos [de fascistas ucranianos] Setor Direita (Pravy Sektor e Svoboda) – organizações que celebram como heróis os nazistas ucranianos que colaboraram com os nazistas alemães durante a Segunda Guerra Mundial – para derrubar o governo eleito e pró-Rússia de Viktor Yanukovich. A movimentação foi apresentada, em termos políticos, como se fossem esforços em direção à democracia.

Jörg Baberowski
Na Alemanha, a classe dominante está em movimentação para livrar o país de todas e quaisquer restrições impostas ao militarismo germânico logo após o final da Segunda Guerra Mundial, e trabalha ainda para minimizar e justificar os crimes cometidos no passado. Jorg Baberowski, um dos principais historiadores da Universidade Humboldt de Berlim recentemente argumentou que “Hitler não era cruel”; e que sairia ganhando, se se comparassem suas ações e as de Stalin ou outros líderes soviéticas.

A Chanceler Angela Merkel referiu-se em um discurso recente, à necessidade de que os cristãos “fortaleçam sua identidade” e “falem sempre com mais confiança sobre seus valores cristãos” – um indisfarçado encorajamento dos sentimentos antimuçulmanos, calculado para reforçar ainda mais e também para “legitimar” a agitação racista do movimento PEGIDA, de extrema direita, na Alemanha.

Parece que as vozes dos nazistas devam ser consideradas, ao mesmo tempo em que aumenta o prestígio e a influência da aristocracia corporativa financeira. Ao mesmo tempo em que veio à luz a coluna de Le Pen no New York Times, Le Pen destacou-se também em fulgurante entrevista ao Wall Street Journal. Coerente com os cálculos da classe dominante o jornal esclareceu que

(...) se há algum tempo a senhora Le Pen não passava de uma espécie de aberração política, hoje ganhou proeminência na medida em que os problemas da França – uma economia moribunda e uma população muçulmana não assimilável – tornaram-se mais e mais agudos e aparentemente sem solução possível nas mãos da classe política tradicional.

Neste ponto, o jornal se refere ao fato de que, devido à demorada crise econômica, o establishment político está profundamente desacreditado na França, tanto interna como internacionalmente. No esforço para criar apoio ao seu domínio, a elite financeira está buscando apoio na pequena burguesia, da qual busca mobilizar algumas porções dessa classe baseada em extremado nacionalismo.

Ao mesmo tempo, as forças de extrema direita estão explorando as condições de colapso da “esquerda” apresentando-se como a principal força de oposição.

Hitler é eleito Chanceler da Alemanha em 1933
A lógica dos desenvolvimentos segue caminho previamente traçado. As políticas contemporâneas parecem assumir cada vez mais as características dos anos 1930s, quando as elites dominantes na Europa se voltaram para os partidos fascistas, na tentativa de defender seu domínio. Hoje, a promoção e pseudo-legitimação de pessoas como Marine Le Pen fazem parte de um esforço mais amplo, que busca usar o racismo antimuçulmano como apoio para operações imperialistas no exterior e desculpa para o ataque aos direitos democráticos em casa. As classes dominantes na França, Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e outros poderes imperialistas estão conspirando e iniciando novas guerras no Oriente Médio e no Norte da África.

Quem “salvará” as elites europeias?

Internamente, a classe dominante a cada dia mais se preocupa com o crescimento de oposição social na classe trabalhadora. Nesta semana, na reunião de bilionários no fórum econômico mundial de Davos, um relatório mostrou que em 2016 os 1% mais ricos da população mundial deterão mais riqueza que todos os demais 99% restantes. Os 80 indivíduos mais ricos terão mais riqueza que a metade mais pobre da população do planeta Terra (cerca de 3,5 bilhões de pessoas – 3.500.000.000 de pessoas). Estas condições são insustentáveis. A oposição das massas é inevitável.

Juntamente com uma campanha asquerosa contra a população imigrante, a classe dominante está apoiando e pseudo-legitimando movimentos fascistas e chauvinistas, para direcioná-los contra as classes trabalhadoras como um todo.

A lição básica das experiências dos anos 1930s, é que a luta contra o fascismo deve ser travada e será travada como guerra contra o sistema capitalista e suas representações políticas.


Nota dos revisores

[1] A Folha de S.Paulo, cujo jornalismo-de-fascistização-do-Brasil, hoje, é a vergonha de várias gerações de jornalistas em todo o mundo, publicou, uma “entrevista por e-mail” com Marine Le Pen, DEZ DIAS ANTES DE O NYT dar voz àquela pervertida, em que ela diz precisamente as mesmas barbaridades fascistas que, quase duas semanas depois, o NYT e o WST consagrariam para o mundo.
SANTO DEUS! Em matéria de fascismo ativo, a FSP dá de dez no NYT! [Nota dos revisores]

sábado, 10 de janeiro de 2015

Massacre em Paris: 11/9 à francesa?

9/1/2015, [*] Franco VielmaMission Verdad, Caracas
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A comoção, gerada pelo assassinato da equipe do veículo francês de propaganda Charlie Hebdo, é exatamente o resultado que buscavam os que teledirigiram e executaram a matança. O evento não deve ser diminuído, tem de ser analisado em plena comoção, porque sinaliza o rumo de possíveis outras situações novas. Sobre isso há várias considerações, a saber:

– Deve-se absolutamente repudiar o massacre e, isso, sem maiores discussões. Não há heroísmo em assassinar civis desarmados, nem houve estoicismo naquele massacre. O móvel do crime (se é que as tais caricaturas satíricas de Maomé são o verdadeiro móvel!) não tem qualquer relação com as lutas reais e necessárias do povo oprimido no Oriente Médio. Crime por intolerância religiosa sempre é expressão de fanatismo.

●− Repudiar esse crime não implica ser islamofóbico. Não é preciso ser antissemita para ser pró-palestinos (só para dar um exemplo). A religião islamista é a que tem maior número de seguidores praticantes em todo o mundo, e 99% dos seguidores dessa fé são pessoas pacíficas que não apoiam nem toleram a violência fundamentalista. É preciso não confundir as coisas.

Muitos dos que apoiamos e defendemos a causa palestina fora do mundo árabe, seguramente somos cristãos ou ateus, e entendemos que a Intifada palestina, mesmo que inclua palavras de ordem “em nome de Alá”, é a luta para restabelecer o direito que os palestinos têm ao próprio território com dignidade; e pelo fim do genocídio obrado pelos sionistas. Ser pró-palestinos absolutamente não nos converte em antissemitas ou antijudeus.

Por isso há o risco de que, por técnicas da propaganda ocidental para ‘vender’ o caso do massacre em Paris, reproduzam-se a islamofobia, a discriminação, a estigmatização e outras perversões que tanto se reproduziram nas sociedades ocidentais a partir do 11/9 de Nova York. É muito importante não confundir as coisas, nesses tempos em que os monstros que o ocidente criou causam desastres sem fim no Oriente Médio, em tempos de “Estado Islâmico” dedicado a empurrar Iraque e Síria para califatos medievais.

O problema não é o Islã, nem o genocídio no mundo árabe. O problema está nas condições que reproduzem o fundamentalismo. Em seus patrocinadores e promotores. Nos interessados em criar inimigos públicos, para justificar aventuras militares, ocupações e ataques militares contra povos e países.


●− Charlie Hebdo durante anos serviu-se da sátira política, às vezes engraçada, às vezes excessivamente violenta, às vezes muito pretensiosa-arrogante. A revista não publicou críticas só ao fundamentalismo islamista, ou piadas sobre Maomé: aqueles jornalistas também riram da questão étnica, não raras vezes com ofensas contra quem, dentro do Islã, nunca apoiou ou apoiaria qualquer violência. Charlie Hebdo tornou-se especialista em consistente agressão simbólica, sempre teledirigida não contra um pequeno grupo de fanáticos islamistas, mas contra todo o mundo islâmico – que, dentro da comunidade francesa, é minoria étnica que cresceu como grupo marginalizado, resultado das guerras, ocupações e crises no mundo árabe, no Magreb e na África subsahariana, onde as maiorias são islâmicas.

Aqueles jornalistas empregaram recursos como estereótipos e islamofobia para vender seu produto jornalístico dito “satírico”, que sempre irritou muitos.

Mas, sim, também fizeram piadas de outros temas: criticaram a esquerda liberal francesa, a esquerda marxista, os neoliberais, os sociais-democratas... Em resumo, constituíram-se como meio de propaganda cuja única militância política clara foi a sátira por ela mesma (se tal coisa existir!). Mas aquele estilo editorial absolutamente jamais justificaria qualquer assassinato. É absurdo discutir se, por fazerem o que faziam, se justificaria o assassinato.

Na guerra de ideias, palavras e pinceis são armas, e só a consistência de um discurso novo é capaz de derrubar o discurso antagônico velho. Propaganda se combate com propaganda, mesmo que vez ou outra seja ofensiva, dura, ácida.

Em pleno século XXI, marcado pela guerra de informação e opinião, só os fundamentalistas cogitariam de trazer de volta armas medievais. Por mais reacionário, ofensivo, racista, colonialista, homofóbico e intolerante que seja o jornalismo de Charlie Hebdo, tem de ser combatido com jornalismo de democratização, não a tiros.

●− Charlie Hebdo é veículo de propaganda animado por um grupo de ateus, pressupostos esquerdófilos ditos “radicais”, , anarquistas e nihilistas. Não é veículo típico da imprensa liberal, embora a imprensa liberal sirva-se hoje da desgraça que se abateu sobreCH para fazer sensacionalismo e autopropaganda enganosa.

Os jornalistas e veículos que tanto se indignaram com o assassinato dos jornalistas de CH calam-se acanalhadamente ante o assassinato continuado de jornalistas no México e na Colômbia. A postura dos jornalistas e veículos na França, hoje, não é confiável. Não faz sentido.

Há em curso uma campanha pelos meios e redes sociais na França, que cria e mantém um estado tal, de comoção nacional, que não se via há anos... porque aconteceu um ato terrorista em plena Europa. E o frenesi midiático não deixa espaço algum para que se reflita sobre as questões realmente importantes, de fundo.

O problema está nas condições que reproduzem o fundamentalismo. Nos que patrocinam o fundamentalismo. Nos interessados em criar “inimigos públicos” para assim justificar aventuras militares, ocupações, invasões, genocídio.

Na França, ganhou espaço nos últimos anos a direita chauvinista, inimiga furiosa dos imigrantes. Claramente marcados pelo racismo, pela islamofobia e pela estigmatização dos imigrantes (declarados “peso demasiado” para uma França em crise), a liderança de alguns nomes vai ganhando corpo. Situação como a que se vê em Paris hoje só gera condições favoráveis para aqueles grupos poderosos, à sombra de gente como Jean-Marie Le Pen e a filha, Marine Le Pen, os quais, se servindo do partido da Frente Nacional, têm possibilidades de galgar o poder político na França.

Marine Le Pen: “Eu não sou de extrema direita”
Como se diz, “De tronco caído, alguns fazem lenha”. Hoje, a campanha “Eu sou Charlie” com epicentro na França, mas já extensiva a vários países, converteu-se em boa oportunidade política para todas as facções do chauvinismo. Os cadáveres dos jornalistas assassinados de Charlie Hebdo, já estão convertidos em andor e porta-bandeira da politiquice direitista.

●− Esses crimes de intolerância contra Charlie Hebdo (mas, repito, ainda não se sabe se a verdadeira causa dos crimes é religiosa ou ideológica), são pequena mostra das consequências – atenção: das consequências – da longa e sistemática ocupação militar e do continuado genocídio, pelo Ocidente, no Oriente Médio.

São consequência também de vasta coleção de políticas de Estado intolerantes, sem dúvida alguma, que o Estado francês manteve durante os anos recentes contra a população de origem árabe, magrebina, quase todos islâmicos. A conhecida proibição imposta às mulheres islâmicas na França, de vestirem a burka (que mulheres islâmicas usam por vontade própria), a repressão policial seletiva e uma política de intolerância e chauvinismo sustentados pelo mesmo Estado francês, são catalisadores desses e de outros atos de intolerância executados por agentes armados.

Basta cruzar o Mediterrâneo, e ali está a Argélia ainda sob ocupação francesa, e, fazendo-se de cega para essa evidência, a imprensa-empresa torna invisível o fato de que o Ocidente mantém ativa uma cruzada contra o Oriente Médio, e que o colonialismo e o militarismo continuam ativos.

E o que a França poderia esperar, se insiste em armar os jihadistas que mantêm a guerra na Síria?

As cruzadas de nosso tempo, de exércitos regulares e mercenários no Oriente Médio, dos McDonald's, das indústrias culturais e do saque continuado de recursos, só poderiam gerar, como geram, ódio e cada vez mais ódio. Quando o ódio é recíproco, a espiral se reproduz.

Por questões semânticas e, às vezes, por artes de nossos pessoais desvios políticos, não chamamos de “terroristas” os norte-americanos e europeus que violam e assassinam civis inocentes no Oriente Médio. Acontece quase diariamente e não é “notícia” nem gera qualquer indignação “jornalística”. Charlie Hebdo é notícia. Não os massacrados, na Síria, por exércitos mercenários.Charlie Hebdo é notícia, não os assassinados pela colaboração dos franceses para os “bombardeios humanitários” contra a Líbia. Por quê? Porque estamos em meio a uma guerra de propaganda pelos veículos que se espera que ofereçam jornalismo, com ativa manipulação da opinião pública global.


●− Quem foi responsável pelos fatos em Paris?Até o momento em que essa nota foi redigida, sabe-se que os três autores materiais são franceses de origem árabe, dois dos quais são irmãos. Chérif Kouachi, um dos irmãos suspeitos de ter praticado o atentado em Paris já estivera preso, acusado de trabalhar numa rede de recrutamento de jihadistas em Paris, para enviá-los ao Iraque, na primeira metade dos anos 2000. Tanto ele como seu irmão Said Kouachi haviam estado sob vigilância dos serviços secretos franceses. É ‘informação’ que gera muitas perguntas: e... trabalhavam, talvez, para alguma organização na França? Se Chérif Kouachi recrutava jovens para metê-los no jihadismo no Iraque... para quem trabalhava? Para o Estado Islâmico?

Se o Estado Islâmico é hoje a mais poderosa organização jihadista, que foi criada pelo Ocidente e que se foi consolidando durante anos, precisamente no Iraque... Não estaríamos nós, agora, ante um dos efeitos diretos da política belicista e mercenária do Ocidente no Oriente Médio? Essa pergunta pode chegar, de fato, a ser escabrosa: se o Estado Islâmico trabalha para o Ocidente... parece pelo menos possível que Chérif Kouachi ainda trabalhe para o jihadismo e o Estado Islâmico e, portanto... que trabalhe para o Ocidente. E com que objetivo?

●− O caricaturista holandês Ruben L. Oppenheimer, na leitura que deu ao evento na França, insinuou uma relação entre o atentado em Paris e os ataques de 11/9 em Nova York, com uma vinheta em que um avião se aproxima de dois lápis desenhados como se fossem as Torres Gêmeas. É muito provável que o ataque contra Charlie Hebdo seja usado pelos agentes do poder na França, Europa e Estados Unidos, como foi usada a comoção pública do 11/9 em Nova York para criar massa crítica de suporte a novas cruzadas no Oriente Médio – a política belicista do Ocidente naquela parte do mundo –, e, consequentemente, a continuada reprodução das causas, que, no longo prazo inflaram as condições de ódio e intolerância já vigentes.

Não nos compete descobrir se foi ataque sob falsa bandeira, evento de provocação para gerar comoção e criar apoio popular para a política de Hollande/Sarkozy, que querem continuar a apoiar a OTAN no Oriente Médio.

Até há cinco anos, a França estava afastada da OTAN. E o reingresso na organização, obra de Nicolás Sarkozy, ainda não conta, até hoje, com apoio dos eleitores franceses, porque, numa economia debilitada desde 2008, com orçamento apertado e submetido a repetidos cortes, aumentar o gasto dos militares, para financiar aventuras dos EUA e da OTAN é coisa contra a qual o público francês sempre reagiu empenhadamente.

Por outro lado, na França, durante os últimos anos, aumentou muito a propaganda belicista do governo para o Oriente Médio pelos veículos da imprensa-empresa. Todos os veículos estão cheios de ‘analistas’ dedicados a conduzir a opinião pública: reina o mais total sensacionalismo, o repetido recurso à “ameaça invisível” islamista, propaganda concentrada contra a “ditadura” de Bashar al Assad na Síria, a repetição incansável do “risco” de um ataque do Estado Islâmico em Paris – tudo isso aumentou muito, depois de o governo francês ter optado por participar na invasão de mercenários contra a Líbia – precisamente o evento que marcou a volta da França para a OTAN.

Toda essa propaganda articulada só tem um objetivo imediatamente identificável: unir toda a sociedade francesa e europeia, toda ela, na política estratégica da OTAN, que se mobiliza mais uma vez consistentemente contra todo o Oriente Médio, em várias guerras por recursos, por posicionamento geoestratégico e para tentar submeter todas as nações ainda dissidentes da ‘ordem unida’ política emanada de EUA-UE.

Sem dúvida, estamos no preâmbulo de outro capítulo da agenda global definida a partir da GGaT, Guerra Global ao Terror, decretada por George W. Bush. Parafraseando Shakespeare: “Há algo de podre em Paris”. E não falamos do material editorial deCharlie Hebdo, nem dos cadáveres de jornalistas mortos. A bocarra do poder político europeu fede. Algo está sendo cozinhado ali. E cheira muito mal.


[*] Franco Vielma, é jornalista e animador de um talk show de rádio na Venezuela. Sociólogo, anarcosocialista libertário, poeta, músico, blogueiro amador, conferencista e escritor.

domingo, 7 de setembro de 2014

Paul Craig Roberts: “O ocidente pavimenta com mentiras a estrada para a guerra”

5/9/2014, [*] Paul Craig RobertsInstitute for Political Economy
Traduzido por mberublue

Vladimir Putin e Sergey Lavrov
Declarações oficiais do governo russo indicam que o presidente e o ministro do exterior continuam a confiar na boa vontade de seus “parceiros ocidentais” para o desenvolvimento de uma solução diplomática razoável para o problema ucraniano causado por Washington.

Não apenas não existe qualquer evidência de boa vontade nas capitais ocidentais como as medidas hostis contra a Rússia seguem aumentando. Além disso, essas medidas hostis aumentam mesmo quando se torna claro que seus efeitos são desastrosos para a Europa.

Por exemplo: o presidente socialista da França resolveu seguir caninamente as ordens de Washington e se recusou a entregar para a Rússia navios que está construindo sob contrato. As notícias sobre o assunto são tão mal relatadas que não dão conta se a Rússia já pagou pelo navio ou se o pagamento ainda está à espera de complementação. Se a Rússia ainda não pagou, então a falha na entrega causará danos apenas para quem financiou a construção do navio. Se a Rússia já pagou, então o imbecil presidente francês colocou a França em flagrante violação de contrato e sob a lei internacional o país estará sujeito a pesadas sanções financeiras.

Porta-helicópteros Classe Mistral encomendados pela Rússia à França ( e não entregues)
Não está claro como isso prejudicaria a Rússia. São as forças estratégicas nucleares da Rússia que o ocidente tem que temer, não porta-helicópteros. A lição que Hollande está dando para a Rússia é a seguinte: não faça negócios com a França ou qualquer outro país da OTAN.

A Rússia pode simplesmente colocar de imediato a violação contratual em julgamento. No caso a França deverá sofrer sanções com penalidades cujo valor pode exceder o próprio valor do contrato, ou então o ocidente estará provando que em suas mãos a lei internacional não passa de um amontoado de palavras sem sentido. Se eu fosse a Rússia desistiria tranquilamente dos navios porta-helicópteros apenas para deixar estabelecido esse ponto.

Atualmente a França tem apenas um líder: Marine Le Pen, (da direitona mais braba, Nrc) a qual, embora seu apoio tenha crescido exponencialmente, não está no poder. Le Pen disse que a atitude subserviente de Hollande para com Obama “acarretará um custo enorme para a França: a perda de milhões de horas trabalhadas e uma multa entre 5 a 10 bilhões de euros” (nessas de contar prejuízo a direitona braba é especialista (Nrc).

Hollande tenta justificar sua submissão abjeta aos EUA com uma mentira:

As ações da Rússia no leste da Ucrânia transgridem princípios fundamentais da Segurança Europeia.

Comporte-se, Rússia, ou então...
Definitivamente certos caras não
aprenderam NADA com a História
Ocorre exatamente o oposto. São as ações estúpidas de Hollande, Merkel e Cameron que colocam em perigo a Segurança Europeia ao permitir que os EUA continuem com a sua rota de guerra contra a Rússia.

Tomando-se por base as reportagens (pelo que elas valem), os EUA e seus fantoches da União Europeia estão preparando mais sanções contra a Rússia. Levando-se em conta a incompetência crônica de Washington e Bruxelas, é incerto quem será mais prejudicado com tais sanções, se Rússia ou Europa. O que importa é que a Rússia nada fez para merecer que as sanções lhe sejam impostas.

As sanções baseiam-se na mentira dos EUA afirmando que, nas palavras de Obama (03 de setembro) “forças russas de combate, com armas russas e tanques russos” instalaram-se no leste ucraniano. Conforme relato do Professor Michel Chossudowsky no Global Research, observadores da OSCE (Organization for Security ond Cooperation in Europe – Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) “não houve registro de tropas, munição ou armas que tenham cruzado a fronteira entra a Rússia e a Ucrânia nas últimas duas semanas”.

As passagens seguintes são relatos do Professor Chossudovsky baseadas nas conclusões da OSCE:

Michel Chossudovsky
A missão de observação da OSCE está instalada nos postos de controle russos de Gukovo e Donetsk a pedido do governo russo. A decisão foi tomada em acordo consensual por todos os 57 Estados que participam da OSCE, muitos dos quais se encontram representados na Cúpula da OTAN em Gales.

O relato da OSCE contradiz as declarações do regime de Kiev e de seus padrinhos EUA e OTAN. Confirma que as acusações que se referem ao fluxo de tanques russos não passam de uma mentira deliberada.

A OTAN deu apoio para as declarações de Obama, baseadas em imagens falsas de satélite (28 de agosto ode 2014) as quais supostamente mostrariam forças russas engajadas em operações de combate no interior do território soberano da Ucrânia. Estas declarações foram refutadas detalhadamente por relatos da missão de monitoramento da OSCE estacionada nas fronteiras entre a Rússia e a Ucrânia. Os relatórios da OTAN que se basearam nas fotos de satélite construíram uma evidência falsa.

Note-se como importante que a OSCE monitoriza cuidadosamente os movimentos através da fronteira, movimentos estes que consistem na maioria em refugiados.

Tal como no Iraque, Afeganistão e Líbia, atacados com base em mentiras evidentes e Síria e Irã, que estão na mira de outros ataques também suportados em mentiras transparentes, as sanções contra a Rússia igualmente se apoiam apenas em mentiras descaradas.

De acordo com o UK Telegraph as novas sanções proibirão que todas as companhias estatais russas de defesa ou petrolíferas façam captação de recursos nos mercados europeus de capital. Em outras palavras qualquer empresa petrolífera em operação na Rússia também pode ser excluída desse mercado. Ninguém ficará imune.

Uma das possíveis respostas russas a tal sanção pode ser o confisco de qualquer empresa ocidental em operação na Rússia como forma de compensação para o eventual prejuízo causado pelas sanções infligidas ao país.

Outra resposta pode ser voltar-se para a China na busca por financiamento.

Ainda outra pode ser o financiamento próprio para a indústria de energia e defesa. Se os Estados Unidos podem imprimir dinheiro para manter quatro ou cinco megabancos à tona, a Rússia pode muito bem imprimir dinheiro para financiar suas necessidades.


A lição que Washington está proporcionando para grande parte do mundo é que um país tem que estar completamente louco para fizer negócios com o ocidente. O ocidente usa os negócios de forma hegemônica para punir, explorar e saquear. É incompreensível que depois de tantas lições amargas ainda existam países que recorrem ao FMI para empréstimos. É impossível não ter consciência atualmente que os empréstimos do FMI tem dois propósitos: o saque do país pelo ocidente e a subordinação do país à política hegemônica ocidental. Pois mesmo assim, governantes imbecis ainda candidatam-se para os empréstimos do FMI.

Toda a escalada da situação ucraniana é trabalho dos Estados Unidos, União Europeia e Kiev. Aparentemente, Washington interpreta a resposta moderada da Rússia como se o governo russo estivesse intimidado. Mas, quando Putin tem todas as cartas na mão, pode destruir a Europa simplesmente desligando a torneira do fluxo de gás natural e pode reincorporar a Ucrânia inteira de volta para a Rússia em apenas duas semanas ou menos, como pode os EUA vir a impor seja o que for?

Será que a Rússia está tão desesperada para fazer parte do ocidente que sucumbirá, transformando-se em apenas mais um dos Estados fantoches de Washington?

Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.