Mostrando postagens com marcador República Popular de Donetsk. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador República Popular de Donetsk. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Ucrânia não dialogará com as Repúblicas Populares de Donetsk (DPR) e Lugansk (LPR)


2/6/2015, [*] Colonel CassadSlavyangrad.org
Trad. ru. Gleb Bazov, ed. @GBabeuf – Trad. para port. pela Vila Vudu


Petro Poroshenko
O Presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko disse ao 8º Fórum de Kiev para Questões de Segurança que a Ucrânia não dialogará com representantes da autoproclamadas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk (ing. “DPR” e “LPR”, respectivamente). Disse, dentre outras coisas, que:

Temos de garantir eleições justas. E dialogaremos com o Donbass, mas com um Donbass diferente, com um Donbass ucraniano.

A mesma posição, mas em termos mais violentos, foi expressa no mesmo Fórum pelo primeiro-ministro Arseniy Yatsenyuk. Ele diz que está disposto a dialogar com representantes das Repúblicas

(...) mas só depois que estiverem atrás das grades. Por falar nisso, temos muitas celas vazia, acrescentou. 

Segundo Yatsenyuk, seu governo jamais negociará com os atuais representantes do Donbass.

Só nos comunicaremos com representantes legítimos dessa região, e queremos fazer eleições legítimas por lá – disse o primeiro-ministro.

Poroshenko também disse que não há qualquer tipo de conflito interno na Ucrânia.

Não temos conflitos internos, disse Poroshenko. Bem ao contrário, a Ucrânia está hoje mais unida do que nunca.

Farei todo o possível para garantir que nem algum idioma, nem alguma fé, nem questões de terra, nem a OTAN, nem qualquer outra questão dividam a Ucrânia, prometeu o presidente. A segunda língua nas escolas e universidades na Ucrânia deve ser o inglês, não o russo.

Ao mesmo tempo, pesquisas mostram que a atitude dos residentes na Ucrânia quanto à questão do status do idioma russo e a trajetória até a inclusão como membro da OTAN claramente divide o país entre Oeste e Leste. Segundo resultados de estudo feito em março, encomendado a várias empresas internacionais e à Ukrainian Rating, 70-80% dos residentes no sudeste da Ucrânia declaram o russo como sua língua nativa; e no oeste, 92-97% escolhem o ucraniano. Em Carcóvia, o russo é usado por 84% dos residentes; e em Ternopol, nenhum dos residentes entrevistados declarou o russo como sua língua nativa.

Arseniy Yatsenyuk
O status das línguas russas converteu-se em uma daquelas questões que dividiram o país há um ano e serviram como estopim para o conflito no Donbass, conflito o qual, desde então, se converteu em guerra civil em grande escala. Mas o presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, ao longo do ano, várias vezes repetiu que só o ucraniano terá status de língua nacional no país. Há vários dias, em cerimônia em homenagem aos vencedores do 15º Concurso Internacional P. Yatsyk de Idioma Ucraniano, Poroshenko mais uma vez repetiu que

(...) na Ucrânia houve, há e sempre haverá uma única língua nacional – a língua ucraniana minha e de vocês.

Antes, o ministro do Interior, Arsen Avakov, manifestou seu apoio ao fechamento completo da linha de demarcação em torno do território do Donbass controlado pelas Milícias.

Minhas posições são as seguintes: a linha de demarcação deve ser completamente fechada. Contra tudo e todos. É o meu ponto de vista radical – é também o que todos pensamos na Junta. Gente a pé e carros de passeio dirigidos por civis passam. Mas nenhum produto ou bem. Eles que consigam da Rússia os produtos de que precisam – disse Avakov em entrevista à agência de notícias Liga Business inform.

 Para ele, esse é o meio para derrotar o contrabando para dentro da zona de operação militar.

Querem vida independente? Querem amizade com a Rússia? A Federação Russa está aí, perto de vocês – pois fiquem amigos dela. Querem viver pela lei ucraniana? São ucranianos? OK. Nesse caso, Acordos de Minsk: e nossos guardas de fronteira assumem o controle da fronteira com a Rússia. E lidaremos com isso à nossa maneira – disse Arsen Avakov, ministro do Interior da Ucrânia

(Tass.ru).

∗∗∗


Junta de Kiev 
Não é difícil perceber que essa posição, nos termos em que está sendo adotada pela Junta, impede todas as tentativas de chegar a algum acordo com os EUA em relação à Ucrânia. Depois do fracasso das conversações diretas entre Federação Russa e EUA (com visitas de Kerry e Nuland à Rússia), a Junta deliberadamente adotou a posição mais dura possível, o que demonstra o absurdo de todas as esperanças de que os Acordos de Minsk sejam cumpridos (ainda que os dois lados continuem a afirmar que tudo está de acordo com o que o acordo determina).

Essencialmente, como já disse várias vezes antes, a própria lógica dos conflitos torna impossível que o Donbass volte a ser parte do estado ucraniano. Essa é a raiz das declarações dos EUA sobre “a posição agressiva do Kremlin” e dos atuais “tempos difíceis e importantes”. É cada dia mais difícil encobrir com manobras diplomáticas a guerra que eclode e alastra-se, ou o conflito que não para de devorar vidas e equipamento, sob mantras do tipo “acordos de Minsk” e a inócua contagem do número de bombardeios ucranianos.

A simples verdade é que o Donbass nunca mais voltará a submeter-se à autoridade do atual governo de Kiev. O ponto depois do qual deixou de haver volta possível foi o verão de 2014. O que gente como Bolotov, Strelkov, Mozgovoy, Bezler e outros fizeram naquele momento foi mais do que suficiente para aprofundar de tal modo o cisma, que, nas tentativas para remendá-lo, arruinaram-se todas as esperanças dos “pró-unitaristas”, “planejadores espertos” e outros, de que o Donbass possa, seja como for, voltar a integrar o estado ucraniano.

Claro que nada disso aconteceu com a “ajuda” dos EUA e da Junta, porque todas as construções lógicas do tema do retorno do Donbass sempre partiram do pressuposto de que seria possível algum acordo com os EUA.

Nem os líderes russos escaparam completamente dessas ilusões, e fizeram vastas concessões, sempre na esperança de baixar o tom do conflito. Não deu certo. Os EUA estão indubitavelmente e bem claramente decididos a infligir, seja como for, de um modo ou de outro, alguma derrota à Federação Russa.

Poroshenko e os EUA
A Junta é instrumento dessa política dos EUA e, se se analisa o comportamento desse instrumento, pode-se ver em que direção os EUA desejam empurrar a guerra: aos russos na Ucrânia foi atribuído o papel de untermensch [al., “subumano”, “povo inferior”, todos os “não arianos, conforme a terminologia racial nazista contemporânea”] [1].

Eis por que a guerra continuará, e as Repúblicas Populares de Donetsk e de Lugansk estão destinadas a continuar como formações não reconhecidas de estado, que não podem voltar à Ucrânia, e que a Rússia não integrará ao seu território. Mas o Donbass nunca mais voltará a ser ucraniano.

Se Poroshenko dialogará ou não com Plotnitskiy e Zakharchenko é detalhe que pouco tem a ver com esse fato.


P.S. Por falar nisso: todos que, vez ou outra, reclamam que eu use a palavra “Junta” para falar do regime de Kiev vejam aí que, agora, até o ministro do Interior já reconheceu que sim, que não passam, eles mesmos, de uma Junta.

_______________________________________________

Nota dos tradutores

[1] Untermensch – alemão para subumano; plural: Untermenschen) é termo da ideologia  racista  nazi  usada para descrever “povos inferiores”, especialmente “as massas do Leste”, isto é, judeus, ciganos, polacos, sérvios, outros povos eslavos como russos e bielorrussos, e quaisquer outros não enquadrados na raça ariana (ou seja, germanos/nórdicos), de acordo com a terminologia racial nazista contemporânea.
__________________________________________


[*] Este blog é uma tradução fiel para Inglês colonelcassad − blog russo incrível sobre a guerra na Ucrânia. A guerra na Ucrânia é o resultado de uma insurreição armada contra o regime fascista em Kiev e as tentativas posteriores do regime para suprimi-lo. Se você não entender por que o regime atual na Ucrânia é fascista, então por favor leia este artigo primeiro. O conteúdo das traduções publicadas neste site pode ser repassado. Seria ótimo se você pudesse adicionar um link para o artigo fonte de onde você pegou o texto se você repassar este artigo.

terça-feira, 31 de março de 2015

Pepe Escobar no Donbass: Uivo em Donetsk

30/3/2015, [*] Pepe EscobarAsia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Soldados da RPD escoltam prisioneiros de guerra do exército da Ucrânia pelo centro de Donetsk (24/8/2014)
Estou chegando da República Popular em luta de Donetsk. Volto, pois, à esplêndida arrogância e insolência do OTANstão.

Muita gente – no Donbass, em Moscou e agora na Europa – quis saber o que mais me abalou em toda a visita.

Poderia começar parafraseando Allen Ginsberg em Uivo – “Vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura”.

Mas eram os anos da Guerra Fria, meados dos anos 1950s. Agora estamos na Guerra Fria 2.0 do início do século XXI.

Assim sendo, o que vi foram os horrendos efeitos colaterais das piores cabeças da minha geração – e de mais uma geração subsequente – corroídas pela loucura (da guerra).

Vi refugiados no lado russo da fronteira, a maioria famílias da nossa classe média europeia, cujos filhos, quando entraram pela primeira vez no abrigo antibombas, corriam para baixo das mesas, quando ouviam barulho de avião no céu.

Vi o Dylan de Donetsk encolhido em seu quarto numa antiga moradia de veteranos convertida em abrigo para refugiados, que, para enfrentar a tristeza e a desesperança, canta cantos de amor e heroísmo.

O Dylan de Donetsk
Vi famílias inteiras amontoadas em abrigos antibombas completamente decorados da era soviética, assustados demais para sair à rua durante o dia, traumatizados pelos bombardeios orquestrados pelas “operações antiterroristas” de Kiev.

Abrigo antibombas ainda da era soviética
Vi uma cidade moderna, industrial, de muito trabalho esvaziada pela metade, no mínimo, e parcialmente destruída, mas nem por isso curvada, ainda capaz de sobreviver das próprias entranhas e do próprio talento, com pequena ajuda dos comboios humanitários russos.

Vi belas moças conversando ao pé da estátua de Lênin numa praça central, lamentando que só tivessem, para ir, festinhas familiares nas casas umas das outras, porque a vida noturna morreu e “estamos em guerra”.

Moças de Donetsk junto à estátua de Lênin
Vi praticamente todo o bairro de Oktyabrski próximo ao aeroporto bombardeado como Grozny e praticamente deserto, exceto por algumas poucas babushkas solitárias e sem ter para onde ir, orgulhosas demais para abandonar as fotos de família de heróis da IIª Guerra Mundial.

Bairro de Oktyabrski bombardeado até virar ruína
Vi postos policiais de controle, como se estivesse em Bagdá na “avançada” de Petraeus.

Vi o principal médico traumatologista no principal hospital de Donetsk confirmar que não houve nenhuma ajuda da Cruz Vermelha nem qualquer ajuda humanitária internacional para o povo de Donetsk.

Hospital de Oktyabrski (ao fundo) bombardeado
Vi Stanislava, das melhores e mais experientes atiradoras de precisão da República Popular de Donetsk, encarregada de nossa segurança, chorar ao depor uma flor no local de batalha feroz, na qual o grupo dela esteve sob fogo pesado, 20 soldados gravemente feridos e um morto, e ela foi ferida por estilhaços, mas sobreviveu.

Vi igrejas ortodoxas completamente destruídas pelas bombas de Kiev.

Vi a bandeira russa ainda no topo de um prédio anti-Maidan, que é agora a Casa do Governo da República Popular de Donetsk (RPD).

Vi a fulgurante arena do Donbass, casa do time Shaktar Donetsk e como OVNI numa cidade em ruínas, vazia, sem vivalma nas arquibancadas.

Vi a estação de trens de Donetsk, bombardeada pelos bandidos de Kiev.

Vi um mendigo sem-teto gritando “Robert Plant!” e “Jimmy Page!” e quando descobri que ele continuava apaixonado por Led Zeppelin e guardava os vinis.

Vi uma pilha de livros jamais derrotados ou rendidos por trás do vidro quebrado de janelas bombardeadas em Oktyabrski.

Vi os túmulos recentes onde a República Popular de Donetsk enterra os heróis de sua resistência.

Vi o topo da colina em Saur-mogila que a resistência da RPD perdeu e depois reconquistou, e aquela solitária bandeira vermelha-branca-azul que lá tremula ao vento.

Alto da colina em Saur-mogila
Vi o Super-homem erguendo-se da destruição em Saur-mogila – a estátua tombada num monumento aos heróis da IIª Guerra Mundial, que 70 anos atrás combatia o fascismo e agora foi ferido, mas não destruído, por fascistas.

Estátua do super-homem erguendo-se da destruição, em Saur-mogila
Vi o caldeirão de Debaltsevo ao longe, e pude ver, na geografia, como as táticas da RPD cercaram e esmagaram os desmoralizados combatentes de Kiev.

Vi os militares da RPD em manobras ao lado da estrada, de Donetsk a Lugansk.

Vi o Ministro de Relações Exteriores da RPD, esperançoso de que haja solução política, em vez de guerra, e admitindo que ele, pessoalmente, sonha com uma RPD como nação independente.

Vi dois comandantes cossacos casca grossíssima, que me disseram, numa fazenda de criação de cavalos na terra santa dos cossacos, que a verdadeira guerra ainda nem começou.

Não pude ver o aeroporto de Donetsk totalmente destruído, porque os militares da RPD estavam muito preocupados com nossa segurança e não concordaram com nos dar autorização para aquela área, porque o aeroporto ainda está sendo bombardeado – como desafio contra Minsk-2; mas vi a destruição e a pilha de cadáveres de soldados do exército ucraniano no telefone celular de um combatente sérvio da resistência na RPD.

Não vi – nem os observadores internacionais da Organização para Segurança e Cooperação na Europa tampouco viram – as colunas e mais colunas de tanques e soldados russos que o “Dr. Fantástico” atualmente de plantão na OTAN, o general Breedlove, digo, Breed-ódio, vê todos os dias em seus sonhos alucinados de “Rússia-invadiu-Ucrânia”, que se repetem sem parar.

E não vi a arrogância, a ignorância, a pouca-vergonha e as mentiras que distorcem todas as caras manicuradas em Kiev, Washington e Bruxelas, que só fazem repetir, e repetir, e repetir, que toda a população do Donbass, babushkas e crianças traumatizadas incluídas, não passariam de “terroristas”.

Afinal, são a “civilização” ocidental – covardes bem equipados que não se atrevem nem a mostrar as suas caras sujas, ao povo do Donbass. Esse então é o meu presente para eles.

Um uivo de raiva e meu ilimitado desprezo.
___________________________________________________

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Ucrânia: Guerra em Kiev e p’rá lá de Kiev?

22/1/2015, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ônibus atacado pelos "ukies" em Donetsk
no Distrito de Leninsky - 13 mortos
Hoje, finalmente, o governo ucraniano admitiu, três dias depois de ter acontecido, que perdeu posições e o controle sobre o aeroporto de Donetsk. Aquelas posições no aeroporto davam cobertura às posições controladas pela artilharia ucraniana no noroeste de Donetsk. Aquelas posições de artilharia estavam  bombardeando a cidade, que os federalistas controlam; e os federalistas atacaram o aeroporto, para deslocá-las de lá.

Segundo estatísticas fornecidas a VICE News pelo necrotério, registraram-se 157 mortos em Donetsk desde o início de janeiro, 119 das quais nas duas últimas semanas.

Demorou para que os federalistas finalmente conseguissem ocupar todo o aeroporto. Vários contra-ataques pelo exército ucraniano foram repelidos, e as forças contra-atacantes foram destruídas.

Partes do aeroporto foram controlados durante meses pelos radicais “voluntários” do Partido Setor Direita (Pravy Sektor), que agora formam a “Guarda Nacional” da Ucrânia. O 3º nome na lista eleitoral do Partido foi capturado pelos federalistas, e o líder daqueles radicais, Dmytro Yarosh, foi ferido quando inspecionada a posição dos neonazistas no aeroporto.

Tem havido combates não decisivos mais ao sul, perto de Mariupol, e luta no nordeste, perto de Lugansk, com os federalistas obtendo alguns pequenos avanços. Mas o mapa geral não mudou muito nos últimos meses.

O exército ucraniano continua a recrutar e, com a ajuda de alguns membros da OTAN, está reunindo maiores forças. Duvido muito que tenham a motivação, o treinamento, equipamento ou comando indispensáveis para serem bem sucedidos em combate. Vovó não vai dar certo. Os soldados do lado oposto já se comprovaram melhores, em vários aspectos. Apesar de repetidas “declarações” do governo ucraniano, segundo as quais mil, 2 mil ou 9 mil soldados regulares e centenas de tanques russos estariam combatendo ao lado dos federalistas, nenhum desses foi jamais documentado.

Loja bombardeada pelos "ukies" em Donetsk
O exército ucraniano não pode vencer uma guerra contra os federalistas apoiados pela Rússia. O governo ucraniano está quebrado, e não acha quem o “resgate”. Por que tanto insiste em tentar fazer guerra?

Minha impressão é que os EUA continuam a empurrar o governo ucraniano para que mantenha seus inúteis esforços, para invalidar e tornar nulo qualquer acordo de cessar-fogo, liderado pela Europa, com a Rússia, e, assim, manter vigentes as sanções contra a Rússia. Guerra Fria 2.0 com ‘procuradores’ em guerra na Ucrânia é o plano dos EUA para impedir que a Rússia desafie a posição global de ‘eu-só-eu-e-mais-eu’, dos EUA.

Todo o conflito parece basear-se em planos de mais longo prazo:

Soldados norte-americanos serão deslocados para a Ucrânia nessa primavera, para começar a treinar quatro companhias da Guarda Nacional Ucraniana, disse o comandante do Exército dos EUA na Europa, tenente-general Ben Hodges, durante visita a Kiev na 4ª-feira (21/1/2015).

Mas o número de soldados que será deslocado para a Área de treinamento de Yavoriv, próxima da cidade de L'viv — a cerca de 100km da fronteira da Polônia – ainda não foi fixado.

Hmmmm. A Guarda Nacional Ucraniana é constituída principalmente de unidades fascistas, responsáveis pelas matanças na Praça Maidan, que levaram ao golpe contra o governo eleito na Ucrânia. É a capital ucraniana ocidental dos fascistas ucranianos. Por que militares dos EUA treinariam aquelas unidades perto de Lviv, quando o exército ucraniano regular está tão óbvia e visivelmente carecendo de treinamento?! Por que treiná-los na próxima primavera se o conflito, com um pouco de boa vontade dos dois lados, pode estar resolvido em um, dois meses?

 Zakharchenko tuitou a destruição das baterias
"ukies" que bombardeavam áreas civis em Donetsk

(clique na imagem para aumentar) 
A experiência ensina que sempre que os EUA anunciam oficialmente que iniciarão treinamento em tal mês e em tal lugar, já está em andamento algum treinamento completamente não oficial e muitas vezes clandestino.

Tenho zero dúvidas de que forças especiais dos EUA, provavelmente disfarçadas como “empresários fornecedores [de qualquer coisa] contratados”, já estão treinando unidades ucranianas semi-irregulares. Uma vez que a guerra convencional não parece ajudar a causa do governo ucraniano, aquelas unidades provavelmente estarão sendo preparadas para guerra ainda mais suja.

Há, de fato, sinais de que já há ação de comandos locais de “guerrilha” [orig. partisan warfare] contra os federalistas. Hoje, foram disparados morteiros em áreas civis de Donetsk, que atingiram um ônibus e mataram 13 pessoas. Diferentes dos morteiros da artilharia regular, esses morteiros são armas de curto alcance. Os que os dispararam estavam dentro de área predominantemente federalista, mas não fortemente controlada. Escrevendo de Donestk, Alec Luhn, do The Guardian, tuitou hoje:

Comandos locais de guerrilha? Batalhão Dnipro-1 diz que comandos locais na região de Lugansk explodiram um trem carregado de carvão para a Rússia.

Se estiver acontecendo o que desconfio que esteja, e essas unidades semirregulares do governo ucraniano estiverem fazendo guerra-de-guerrilhas em regiões controladas pelos federalistas, então a resposta óbvia dos federalistas será despachar unidades semelhantes para áreas controladas pelo governo ucraniano. Significa guerra em Kiev e p’rá lá de Kiev.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como“Whisky Bar ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

domingo, 24 de agosto de 2014

O povo das repúblicas do leste da Ucrânia, entre milícias e oligarcas

16/8/2014, [*] Boris Kagarlitsky, de Moscou − International Journal of Socialist Renewal, Austrália
Traduzido do russo para inglês por Renfrey Clarke
Traduzido para português pelo pessoal da Vila Vudu


Contexto: Assim sendo, o que pode estar em preparação para a Ucrânia? Parece perfeitamente razoável que a Rússia deseje fim imediato do ataque militar contra os "separatistas" no leste da Ucrânia. E Washington não tem feito outra coisa além de ordenar que Kiev ataque sem descanso. Mas isso pode estar começando a mudar.

Se acontecer, Rússia e Alemanha ganharão espaço para respirar e enfiar por aquele território uma trilha de paz, que Putin e Merkel podem estar refinando lá entre os dois. Até aqui, Washington não faz outra coisa além de minar qualquer tentativa nascente de diálogo intraucraniano. Mas esse tipo de "rejeicionismo" pode também já não ser sustentável, se a Alemanha decidir jogar todo seu peso a favor do processo que leve ao diálogo.

Em resumo, se estamos interpretando corretamente os sinais, é possível que já se ouçam os primeiros tambores da retirada do Tio Sam. O conhecido estrategista russo Boris Kagarlitsky publicou coluna, em seu estilo caracteristicamente de provocação, em que dá várias pistas sobre a trama inacreditavelmente complexa das manobras em curso no leste da Ucrânia [adiante, traduzido] (...). Seja como for, o Kremlin ainda não precisou jogar todos os seus trunfos.
22/8/2014, A guerra pela Ucrânia pode estar chegando ao fim, MK Bhadrakumar, em inglês.

Ucrânia e as repúblicas de Novorússia
(em vermelho)
A guerra entre o governo da Ucrânia e as repúblicas da Novorrússia está gradualmente assumindo o caráter de impasse de posição. Os recursos dos dois lados estão exauridos, e as reservas para combate estão no fim. Para as repúblicas populares, que se autodefendem contra forças militares muito superiores do governo de Kiev, o princípio segundo o qual “governos têm de vencer; para uma insurreição, já basta não perder” opera com força total.

A situação econômica que se deteriora na Ucrânia, a crescente desmoralização dos apoiadores do regime de Kiev e o desenvolvimento gradual de um movimento partisan de resistência em território controlado pelo governo são fatores que, juntos, inauguram uma nova fase numa guerra civil que, claramente, se estenderá para bem além dos limites do sudeste.

Os meados do mês de agosto assistiram ao acentuado fracasso da mais recente ofensiva pelo exército do governo de Kiev (mais provavelmente, a última ofensiva na campanha de verão de Kiev). É significativo que, durante a ofensiva anterior, a imprensa-empresa ocidental dominante, que só faz sonegar aos seus consumidores qualquer informação real sobre a guerra, pôs-se repentinamente a publicar matérias sobre sucessos do exército do governo em Kiev. Como já ocorrera antes, depois das previsões otimistas, veio o silêncio.

O fracasso da segunda ofensiva seguiu exatamente o mesmo cenário que a primeira: as forças atacantes tiveram interrompido o contato com suas bases e acabaram cercadas. As vitórias ‘de noticiário’ viraram catástrofe no mundo real. Não há como vencer guerras no espaço informacional, se você está apanhando em terra firme.

Parece haver todas as razões para falar de prospectivas positivas para os povos das repúblicas da Novorrússia. Mas, nos bastidores de vitórias militares, desenrola-se uma crise política e administrativa que cria novos perigos, os quais, se não são maiores que os associados a ataque por forças militares, não são por isso menos graves.

Coronel Igor Strelkov
Ao longo de várias semanas, toda a liderança das repúblicas de Donetsk e Lugansk foi efetivamente trocada. O desenvolvimento mais inesperado e de mais impacto foi o afastamento do líder militar das milícias, Igor Strelkov. Na melhor tradição dos soviéticos, o anúncio veio vazado em termos de “transferência para outro serviço”. A decisão foi tomada num momento em que Strelkov estava em Moscou, longe de suas tropas.

A remoção de Strelkov, afastado de seu posto, é evidente ato de vingança, por aquelas forças dentro do Kremlin às quais o comandante das milícias populares infligiu uma séria derrota política no início de julho. As unidades de milícias, depois de campanha heroica de dois meses na defesa de Slavyansk, rompeu o círculo de forças ucranianas e avançou para Donetsk, onde figuras políticas ligadas ao Kremlin já planejavam a rendição da cidade ao governo em Kiev. A chegada das milícias foi seguida de um expurgo radical nas estruturas de poder. Ninguém reprimiu os conspiradores, mas todos foram forçados, um depois do outro, a assinar cartas de renúncia. Na sequência, deixaram a cidade sem excessivo alarido, alguns tomando o rumo de Moscou; outros, de Kiev. Aconteceu assim, contra um pano de fundo de crescente radicalização política dentro do movimento da resistência.

Boris Litvinov
Em agosto, foi publicada uma carta conjunta de soldados combatentes e comandantes das milícias da resistência, exigindo que o slogan “repúblicas sociais” que estava sendo proclamado em Donetsk e Lugansk fosse implantado em todos os seus efeitos reais; que a propriedade dos oligarcas tinha de ser nacionalizada e que eram urgentes inúmeras reformas a serem implantadas na defesa dos direitos dos trabalhadores. Quem assumiu o posto de presidente do Soviete Supremo foi Boris Litvinov, comunista que rompeu com a liderança oficial do Partido. Aprovou-se legislação que revertia a privatização-comercialização do atendimento à saúde que havia sido iniciada pelos líderes anteriores; e fizeram-se repetidas, embora várias vezes excessivamente tímidas, tentativas na direção da des-privatização.

Por sua parte, especialistas políticos próximos do Kremlin desencadearam campanha contra Strelkov na imprensa-empresa de massa russa. A amargura dos burocratas em Moscou e de seus assistentes para propaganda é compreensível: enquanto permaneciam no abrigo aconchegante de seus escritórios, traçando planos e tecendo intrigas, o povo, na vanguarda dos eventos, ia fazendo história sem consultá-los.

Paradoxalmente, foi Strelkov quem mais fez para estimular a radicalização do processo, apesar de suas simpatias pela monarquia pré-revolucionária e nostalgia do império russo. O líder das milícias não tem fama só pela honestidade e abertura-transparência (basta lembrar os relatos detalhados que distribuiu das próprias dificuldades e fracassos, que contrastam fortemente com a propaganda distribuída por Moscou e Kiev). Os instintos políticos de Strelkov o levaram, em grande medida apesar de suas próprias tendências ideológicas, a apoiar mudanças sociais e políticas. Ele e seus aliados destacaram repetidas vezes que não permitiriam que a Novorússia fosse convertida numa segunda edição de uma Ucrânia pré-Maidan – opondo-se assim diretamente à estratégia de parte do Kremlin, que queria obter exatamente isso.

Diferente de outros líderes de Donetsk e Lugansk que viajaram inúmeras vezes a Moscou para suplicar ajuda (na maioria dos casos sem qualquer sucesso), o comandante das milícias sempre podia ser localizado na linha de combate, com seus homens. Essa atitude, como a prática mostrou, foi mais segura para ele no campo político do que nos corredores do poder em Moscou.

Não se sabe como Strelkov foi atraído para Moscou e o que lhe fizeram para obrigá-lo a assinar a renúncia “voluntária” (se é que assinou alguma coisa semelhante a isso). É possível que tenha sido ameaçado com suspensão total do fornecimento de suprimentos russos para os territórios liberados da Novorússia. Em grau considerável, essa dependência das novas repúblicas populares, de recursos que lhe chegavam de fora, é resultado de gerência mal feita pelo pessoal que o próprio Strelkov demitiu de seus postos em julho e início de agosto: não conseguiram, ou recusaram-se a fazê-lo, organizar a economia na retaguarda, para garantir distribuição normal de recursos. Em agosto, já se configurava uma situação na qual as repúblicas estavam ameaçadas de desastre, a menos que carregamentos de comida e munição fossem trazidos da Rússia. Muito provavelmente, esse fator foi usado pelos intrigantes dentro do Kremlin, para se livrarem de Strelkov.

Oleg Tsarev
De um modo ou de outro, as forças conservadoras tiveram sua vingança e o comandante militar de Donetsk foi removido. Há quem suspeite de elos com os oligarcas indicados para postos chaves. Em Moscou, durante os últimos dias, o político ucraniano Oleg Tsarev, que não representa ninguém e foi expulso de Donetsk pelos combatentes das milícias da resistência, desfraldou uma “nova bandeira da Novorússia”. Sabe-se lá por que, era versão, de cabeça para baixo, da velha bandeira imperial; e foi obviamente pensada para ‘'neutralizar'’ a bandeira, vermelho-escuro com uma cruz de Santo André, sob a qual as milícias estão combatendo.

A imprensa-empresa russa já está noticiando abertamente um acordo que teria sido feito entre os burocratas de Moscou e o oligarca ucraniano Rinat Akhmetov. Nas melhores tradições do ancien régime, a burocracia do Kremlin decidiu sacrificar os territórios libertados e entregá-los ao novo vassalo, em troca de seus serviços como mediador nas relações futuras com Kiev e, depois, também com o ocidente. Ao mesmo tempo, contatos estão sendo revividos entre diplomatas russos e ucranianos, e estão em curso acaloradas discussões sobre o destino final do sudeste. Depois do fracasso da mais recente ofensiva, e ante crescentes dificuldades internas, Kiev pode muito bem estar pronta para assinar um acordo.

Rinat Akhmetov
A única coisa que os autores desse cenário não levaram em consideração é o pensamento do povo da Novorrússia e Ucrânia, nem o estado de espírito dos residentes em Donetsk e a lógica geral de um processo revolucionário para o qual a sociedade russa está sendo levada gradualmente. Os combatentes das milícias da resistência que, sob bombardeio, estão construindo um novo estado, já não mais aceitarão permanecer como agentes dóceis de decisões tomadas longe dali – as quais, não importa onde sejam tomadas, se em Moscou ou em Kiev, são decisões alheias aos próprios interesses locais.

Na Novorússia, as simpatias idealistas com uma Rússia abstrata, que caracterizaram os primeiros meses do levante, estão agora cedendo lugar a uma crescente irritação contra os burocratas do Kremlin, que estão sendo acusados de traição e sabotagem pelos apoiadores das repúblicas populares.

O mesmo estado de espírito alastra-se também, como avalanche, dentro da própria Rússia. Quanto a Igor Strelkov, um novo grupo de comandantes de campo está assumindo o lugar dele, aceitando-o, em vários sentidos, como exemplo, mas diferentes de Strelkov, porque se posicionam com mais radicalismo, mais à esquerda.

Mediante intrigas, chantagem e manipulação, o “aparelho” pode, talvez, conseguir alguns sucessos táticos, e a remoção de uma ou outra figura de liderança. Mas não conseguirá deter a crise revolucionária cujo desenvolvimento está agora ganhando impulso.
__________________________

[*] Boris Yuliyevich Kagarlitsky (em russo: Борис Юльевич Кагарлицкий, 29 de agosto de 1958, Moscou) é um teórico marxista e sociólogo russo. É o coordenador do projeto Crise Global do Transnational Institute e diretor do Instituto sobre la Globalización y Movimientos Sociales  (IGSO) de Moscou.

Livros publicados
  • The Thinking Reed: Intellectuals and the Soviet State from 1917 to the Present (1988)
  • The Dialectic of Change (1989)
  • Farewell Perestroika: A Soviet Chronicle (1990)
  • Disintegration of the Monolith (1993)
  • Square Wheels: How Russian Democracy Got Derailed (1994)
  • The Mirage of Modernization (1995)
  • Restoration in Russia (1995)
  • Globalization and Its Discontents: The Rise of Postmodern Socialisms (1996, com Roger Burbach e Orlando Nuñez)
  • New RealismNew BarbarismSocialist Theory in the Era of Globalization 
  • The Twilight of Globalization: Property, State and Capitalism (1999)
  • The Return of Radicalism: Reshaping the Left Institutions (2000)
  • Russia under Yeltsin and Putin: Neo-liberal Autocracy (2002)
  • The Politics of Empire: Globalisation in Crisis (2004, co-editado com Alan Freeman)
  • The Revolt of the Middle Class (2006)
  • Empire of the Periphery: Russia and the World System (2008)