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sábado, 20 de agosto de 2011

Slavoj Žižek: Assaltantes de lojinhas do mundo, uni-vos!

Significado das revoltas na Inglaterra, Espanha, etc.

Slavoj Žižek
19/8/2011, Slavoj Žižek, London Review of Books, vol. 33, n, 16
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

A repetição, segundo Hegel, tem papel crucial na história: se alguma coisa acontece uma única vez, pode ser descartada como acidente, algo que poderia ter sido evitado se a situação tivesse sido conduzida de modo diferente; mas quando um mesmo evento repete-se, é sinal de que está em curso um processo histórico mais profundo. Quando Napoleão foi derrotado em Leipzig em 1813, pareceu má sorte; quando foi derrotado outra vez em Waterloo, ficou claro que seu tempo acabara. Vale o mesmo para a continuada crise financeira. Setembro de 2008 foi apresentado como anomalia que podia ser corrigida com melhores regulações e controles; hoje se acumulam sinais de quebradeira nas finanças e já é evidente que estamos lidando com fenômeno estrutural.

Dizem e repetem e repetem que atravessamos uma crise da dívida e que todos temos de partilhar a carga e apertar os cintos. Todos, exceto os (muito) ricos. Aumentar impostos sobre muito ricos é tabu: se se fizer isso, diz o mesmo argumento, os ricos não terão incentivo para investir, haverá menos empregos e todos sofreremos mais. A única salvação, nesses tempos duros, é os pobres ficarem cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. O que devem fazer os pobres? O que podem fazer?

Embora os tumultos de rua na Grã-Bretanha tenham sido desencadeados pela morte de Mark Duggan, todos concordam que manifestam mal-estar mais profundo – mas que tipo de mal-estar? Como quando se queimaram carros nos subúrbios de Paris em 2005, os agitadores de rua na Grã-Bretanha não tinham mensagem alguma a comunicar. (Há aí claro contraste com as manifestações massivas de estudantes em novembro de 2010, que também geraram violência. Os estudantes deixaram bem claro que rejeitavam as propostas de reformas na educação superior.) Por isso é difícil pensar sobre os agitadores de rua britânicos em termos marxistas, como uma instância da emergência do sujeito revolucionário; encaixam-se muito mais facilmente na noção hegeliana de “ralé”, “escória” [orig. “rabble”], espaços marginais organizados, que manifestam o próprio descontentamento mediante explosões “irracionais” de violência destrutiva – que Hegel chamava de “negatividade abstrata”.

Há uma velha história sobre um operário suspeito de roubo: todas as tardes, ao sair da fábrica, o carrinho-de-mão que ele empurra é cuidadosamente revistado. Os guardas nada encontram; o carrinho está sempre limpo. Até que a ficha cai: o operário roubava um carrinho-de-mão por dia. Os guardas não viam a mais visível verdade, exatamente como os jornalistas e especialistas e autoridades que comentaram os tumultos de rua. Dizem-nos que a desintegração dos regimes comunistas no início dos anos 1990s marcaram o fim da ideologia: o tempo dos projetos ideológicos em grande escala que culminaram em catástrofe totalitária está acabado; teríamos entrado numa nova era de política racional, pragmática. Se o lugar-comum de que vivemos numa era pós-ideológica é correto em algum sentido, pode-se ver nas recentes explosões de violência. Foi protesto de grau-zero, ação violenta sem demandas. Em sua tentativa desesperada para encontrar algum sentido nos tumultos, sociólogos e jornalistas deixaram passar sem qualquer registro o enigma que os tumultos nos impuseram.

Os que protestavam, oprimidos e socialmente excluídos de facto, não vivem risco de morrer de fome. Gente que sobrevive em condições materiais muito piores, sem falar das condições de opressão física e ideológica, tem conseguido organizar-se em forças políticas com agendas políticas claras. O fato de os agitadores não terem programa é, portanto, ele mesmo, fato que exige interpretação: diz muito sobre nossa pregação político-ideológica e sobre o tipo de sociedade em que vivemos – uma sociedade que celebra a escolha, mas na qual a única escolha possível é um consenso democrático obrigatório praticado como repetição sem pensamento [ing. a blind acting out]. 

Nenhuma oposição ao sistema consegue articular-se como alternativa realista, sequer como projeto utópico, e só consegue assumir a forma de explosão sem meta ou significado. O que significaria nossa tão celebrada liberdade para escolher, se a única escolha possível é jogar pelas regras ou a violência (auto) destrutiva?

Alain Badiou argumentou que vivemos num espaço social que cada dia mais é experienciado como “sem mundo” [orig, “worldless”]: nesse espaço, a única forma que o protesto pode assumir é a violência sem sentido. 

Talvez aí esteja um dos principais perigos do capitalismo: embora, porque é global, o capitalismo inclua todo o mundo, ele mantém uma constelação ideológica “sem mundo”, na qual as pessoas são privadas dos meios conhecidos para localizar o significado. A lição principal da globalização é que o capitalismo pode acomodar-se a todas as civilizações, cristã, hindu ou budista, do Ocidente e do Oriente: não há qualquer “visão de mundo capitalista”, nenhuma “civilização capitalista” propriamente dita. A dimensão global do capitalismo manifesta a verdade sem significado.

A primeira conclusão a ser extraída dos tumultos de rua, portanto, é que nenhuma das reações aos tumultos, seja a conservadora seja a liberal, é adequada. 

A reação conservadora era previsível: não há o que justifique tal vandalismo; é preciso usar os meios necessários para restaurar a ordem; para evitar que explosões como aquelas se repitam no futuro, precisamos, não de mais tolerância e ajuda social, mas de mais disciplina, mais trabalho duro e senso de responsabilidade. 

O que há de errado nessa narrativa não é só que ela ignora a situação social de desespero que empurra os jovens para explosões de violência, mas e, talvez mais importante, que ela ignora o modo como essas explosões são eco das próprias premissas ocultas da ideologia conservadora. Quando, nos anos 1990s, os Conservadores lançaram sua campanha de “de volta ao básico”, o complemento obsceno que aí havia foi bem claramente revelado por Norman Tebbitt: “O homem não é só animal social, também é animal territorial; é indispensável incluir em nossa agenda a necessidade de satisfazer esses instintos humanos básicos de tribalismo e de territorialidade”. Porque aquela “volta ao básico” tratava, realmente, disso: de soltar os bárbaros que vegetam por baixo de nossa sociedade burguesa aparentemente civilizada, satisfazendo os “instintos básicos” dos bárbaros. 

Nos anos 1960s, Herbert Marcuse introduziu o conceito de “dessublimação repressiva”, para explicar a “revolução sexual”: os impulsos humanos podem ser dessublimados, ganhar rédea solta, e, mesmo assim, permanecer submetidos aos controles capitalistas – vide a indústria pornográfica [e as novelas e programas humorísticos da televisão brasileira (NTs)]. Nas ruas britânicas, durante os tumultos, o que se viu não foram homens reduzidos a “bestas”, mas a forma nua da “besta” produzida pela ideologia capitalista.

Por sua vez, os liberais de esquerda, não menos previsíveis, agarraram-se ao seu mantra sobre programas sociais e iniciativas de integração, as quais, negligenciadas, teriam privado a segunda e terceira gerações dos imigrantes de suas possibilidades econômicas e sociais: explosões de violência seriam o único meio que ainda têm para articular a insatisfação. Em vez de nos permitir embarcar indulgentemente em fantasias de vingança, devemos nos esforçar para entender as causas profundas dos atos de violência. Saberíamos nós o que significa ser jovem em área pobre racialmente “complexa”, ser considerado suspeito a priori nas batidas policiais, sempre agredido por policiais, não só desempregado, mas muitas vezes, inimpregável, sem esperanças de futuro? A implicação é que as próprias condições em que essas pessoas encontram-se tornariam inevitável que tomassem as ruas. 

O problema dessa narrativa é que só lista as condições objetivas dos tumultos. “Agitar”, “tumultuar” seria fazer uma declaração subjetiva, declarar implicitamente como alguém se relaciona com as próprias condições objetivas de vida.

Vivemos tempos cínicos. Não é difícil imaginar um agitador que, apanhado quando saqueava e incendiava uma loja e interrogado sobre suas razões, responda usando a linguagem dos sociólogos e assistentes sociais: que fale de menor mobilidade social, insegurança crescente, desintegração da autoridade paterna, carência de atenção materna na infância. Ele sabe, portanto o que faz, mas mesmo assim faz.

É perda de tempo ponderar qual dessas duas reações, a conservadora ou a liberal, é a pior: como Stálin diria, as duas são piores, e isso inclui o alerta que os dois lados dão, de que o real perigo dessas explosões está na previsível reação racista da “maioria silenciosa”. 

Uma das formas que essa reação assumiu em Londres foi a atividade “tribal” de comunidades locais (turcos, caribenhos, sikhs), que rapidamente organizaram unidades por “tribos” para vigiar suas propriedades. Os donos de lojas seriam uma pequena burguesia que defende sua propriedade contra um genuíno, embora violento, protesto contra o sistema? Ou seriam representantes da classe trabalhadora combatendo contra forças da desintegração social? Também nesse caso, deve-se rejeitar a ordem para escolher um dos lados. 

A verdade é que o conflito aconteceu entre dois pólos de oprimidos: os que tiveram sucesso e conseguiram operar dentro do sistema versus os frustrados demais para continuar tentando. A violência dos agitadores foi dirigida quase exclusivamente contra seus respectivos grupos. Os carros queimados e as lojas saqueadas não foram queimados e saqueadas em bairros ricos, mas nos próprios bairros onde vivem os incendiadores e saqueadores. Não há conflito entre diferentes partes da sociedade; o conflito é, no seu aspecto mais radical, entre sociedade e sociedade, entre os que têm tudo e os que nada têm, a perder; os que nada apostaram na própria comunidade e os que fizeram as mais altas apostas.

Zygmunt Bauman caracterizou os tumultos como “atos de consumidores defeituosos e não qualificados”: sobretudo, foi manifestação de um desejo consumista atuado [orig. enacted] quando incapaz de realizar-se do modo “certo” – mediante um ato de compra. Nessa medida, os tumultos também contêm um momento de protesto genuíno, sob a forma de resposta irônica à ideologia do consumo: “Vocês nos convocam para consumir e, simultaneamente, nos negam os meios para consumir do jeito “certo”. – Estamos consumindo, do único modo possível para nós!” 

Os tumultos são demonstração da força material da ideologia – excessiva, talvez, em tempos de ‘sociedade pós-ideológica’. De um ponto de vista ideológico, o problema dos tumultos não está na violência como tal, mas no fato de que a violência não é verdadeiramente autoafirmativa. São raiva e desespero impotentes mascarados como exibição de força: é inveja travestida de carnaval triunfante.

Os tumultos devem ser situados também em relação a outro tipo de violência que a maioria liberal percebe hoje como ameaça ao nosso modo de vida: os ataques terroristas e os suicidas-bomba. Nas duas instâncias, violência e contraviolência são apanhadas num círculo vicioso, as duas gerando as mesmas forças que tentam derrotar. Nos dois casos, estamos lidando com passages à l’acte [fr. no original] cegas, nas quais a violência é admissão implícita de impotência. A diferença é que, ao contrário dos tumultos na Grã-Bretanha ou em Paris, os ataques terroristas são postos a serviço de um significado – o Significado absoluto que a religião assegura.

Mas os levantes árabes não foram ato coletivo de resistência que rejeitaram a falsa alternativa entre violência autodestrutiva e fundamentalismo religioso? Infelizmente, o verão egípcio de 2011 será lembrado como o fim da revolução, quando seu potencial emancipatório foi sufocado. Os coveiros são o exército e os islâmicos. Os contornos do pacto entre o exército (que é o exército de Mubarak) e os islâmicos (que foram marginalizados durante os primeiros meses do levante, mas agora estão ganhando terreno) são cada dia mais claros: os islâmicos tolerarão os privilégios materiais do exército e, em troca, garantirão a hegemonia ideológica. Os perdedores serão os liberais pró-ocidente, fracos demais – apesar do dinheiro da CIA – para “promover a democracia”; e os verdadeiros agentes dos levantes da primavera, uma emergente esquerda secular que tentava montar uma rede de organizações da sociedade civil, a partir dos sindicatos e das feministas. 

A situação econômica em rápida deterioração, logo, mais cedo ou mais tarde, levará os pobres, grandes ausentes dos levantes da primavera árabe, às ruas. É bem provável que haja nova explosão, e a pergunta difícil para os sujeitos políticos egípcios é: quem dirigirá, com sucesso, a ira dos pobres? Quem traduzirá essa ira em termos de programa político: a nova esquerda secular ou os islâmicos?

A reação predominante na opinião pública ocidental ao pacto entre islâmicos e o exército no Egito será, sem dúvida, um show de cinismo: nos dirão que, como o caso do Irã (não árabe) mostrou claramente, levantes populares em países árabes sempre terminam em islamismo militante. Mubarak aparecerá como diabo muito menos perigoso – melhor ficar com diabo conhecido que lidar com forças de emancipação. Contra tal cinismo, é preciso permanecer incondicionalmente aliado ao núcleo radical-emancipatório do levante egípcio.

Mas é preciso evitar também o narcisismo da causa perdida: é muito fácil admirar a beleza sublime dos levantes condenados ao fracasso. 

Hoje, a esquerda enfrenta o problema da “negação determinada” [orig. “determinate negation”]: que nova ordem deve substituir a velha ordem, depois do levante, quando houver passado o sublime entusiasmo do primeiro momento? Nesse contexto, o manifesto dos Indignados da Espanha, lançado depois das manifestações em maio, é revelador. O primeiro traço que chama a atenção é o decidido tom apolítico: “Uns de nós consideram-se progressistas, outros conservadores. Uns são religiosos crentes, outros não. Uns têm ideologias claramente definidas, outros são apolíticos, mas todos estamos preocupados e zangados com o quadro político, econômico e social que vemos à nossa volta: corrupção de políticos, empresários, banqueiros, que nos deixam indefesos, sem voz.” Protestam em nome de “verdades inalienáveis que não vemos respeitadas em nossa sociedade: o direito a moradia, emprego, cultura, saúde, participação política, livre desenvolvimento pessoal, direitos do consumidor e a uma vida saudável e feliz”. Rejeitando a violência, clamam por uma “revolução ética”. “Em vez de pôr o dinheiro acima dos seres humanos, devemos pô-lo a nosso serviço. Somos pessoas, não produtos. Não sou o que compro, porque compro ou de quem compro.” 

Quem serão os agentes dessa revolução? Os Indignados espanhóis descartam todos os políticos, à esquerda e à direita, como corruptos e controlados pela ganância e pela sede de poder. Mesmo assim, o manifesto apresenta várias demandas, mas... dirigidas a quem? Não a eles mesmos: os Indignados (ainda) não declaram que ninguém mais fará por eles, que eles mesmos têm de ser a mudança que querem ver. 

E aí está a fragilidade fatal dos recentes protestos: manifestam uma raiva autêntica que não consegue transformar-se em programa de ação positiva para mudança sociopolítica. Manifestam um espírito de revolta, sem revolução.

A situação na Grécia parece mais promissora, provavelmente devido a uma tradição mais persistente de auto-organização progressista (que desapareceu na Espanha depois da queda do regime de Franco). Mas mesmo na Grécia o movimento de protesto padece das limitações da auto-organização: os que protestam estão mantendo um espaço de liberdade igualitária sem autoridade central, um espaço público no qual todos têm o mesmo tempo para falar etc.

Quando os manifestantes começaram a discutir o passo seguinte, como avançar além dos simples protestos, a maioria concluiu que não se precisava de novo partido e que não era o caso de tentar tomar o poder do estado; que o movimento faria pressão sobre os partidos políticos. Evidentemente, é muito pouco para forçar uma reorganização de toda a vida social. Para chegar lá, é indispensável um corpo forte, competente para tomar decisões rápidas e implementá-las com todo o rigor necessário.


Vídeo enviado por: Rédaction Tlaxcala via Vila Vudu em 30/ago/2011
Shoplifters Of The World Unite é título de uma canção do grupo The Smiths


quinta-feira, 30 de junho de 2011

Mensagem de “Anonymous” à população espanhola


Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu

Estamos num momento único de nossa história. O auge da tecnología contribuiu para uma taxa sem precedentes de prosperidade para o mundo, dotando-nos de uma rede global de comunicação constante; uma nova era saltos tecnológicos. Percorremos um longo caminho desde nossas raízes humildes. Agora somos pioneiros nas novas fronteiras digitais, ampliando nosso domínio do mundo quântico aos confins do espaço.

Mesmo assim, nosso mundo enfrenta crise. Pobreza, violência, corrupção ou ameaças à liberdade pessoal. Como em outros tempos de crise, as velhas histórias começaram a repetir-se. As meias verdades – desta vez repetidas todas as noites nos noticiários – ecoam pelos meios de comunicação: dizem-nos que o império é forte, que não é prudente mudar, que os negócios são resposta para tudo. Em tempos de incertezas, só fazem aumentar a confusão, para aproveitar-se de nossas inseguranças e de nossos medos. Tratam de nos manter divididos para benefício deles. A estratégia assume várias formas: esquerda e direita, cristãos e muçulmanos, brancos e pretos, santos e pecadores.

Mas está acontecendo algo que não se esperava. Começamos a contar, nós mesmos, uns aos outros, nossas próprias histórias. Compartilhamos nossas vidas, esperanças, sonhos e demônios. Cada segundo, dia após dia, os detalhes de nossas vidas nessa terra fluem pelo mundo. Começamos a entender as consequências de nossas ações e os erros dos velhos costumes. Começamos a questionar os velhos paradigmas que dizem que fomos feitos para consumir – não para criar -, que o mundo é à nossa semelhança, as guerras são inevitáveis e a pobreza sempre existirá. À medida que aprendemos mais sobre nossa espécie, uma verdade fundamental foi redescoberta: não somos tão diferentes quanto pode parecer. Todos os seres humanos têm forças, fraquezas e emoções profundas. Ansiamos pelo amor, pelo riso, temos medo da solidão e sonhamos com vida melhor.

¡Temos de acreditar numa vida melhor!

Você não pode continuar sentado no sofá, enquanto espera uma revolução. Você é a revolução. Cada vez que você escolhe não exercer seus direitos, que você se sega a ouvir, que você ignora o mundo que o rodeia, ou que você gasta um euro numa empresa que não paga salários justos, você contribui para a opressão humana. Mas você tem escolha. E você escolhe o caminho mais fácil. O velho caminho conhecido da submissão. Mas você pode escolher levantar, sair à rua e falar com seu vizinho, Vocês podem unir-se em novos fóruns para criar um caminho de mudança duradoura e verdadeira para a raça humana.

O novo desafio é o seguinte:

Uma revolução pacífica. Uma revolução das ideias. Uma revolução da arte. O século 21 como um século de iluminação. Um movimento global para criar uma nova era de tolerância, compreensão, empatia e respeito. Uma época de desenvolvimento tecnológico sem travas. De intercâmbio de ideias e de cooperação. De expressão artística e pessoal. Podemos optar por utilizar as novas tecnologías para uma mudança positiva e radical, ou deixar que sejam usadas contra nós. Podemos manter os canais de comunicação abertos e cavar novos túneis até os lugares onde a informação ainda é sigilosa e reservada. Ou podemos deixar que tudo se feche à nossa volta. À medida que avançamos, temos de reconhecer a necessidade de informação verdadeira e de um mundo verdadeiramente democrático e livre. Temos de lutar para mantener a Internet aberta como um fórum de ideias no qual todos se sintam iguais e tratem-se como iguais. Temos de defender nossa liberdade, contra os que só procuram nos controlar. Temos de lutar pelos que ainda não têm voz.

Dia 19 de junho começou a revolução global. Saia à rua e continue a contar suas histórias. Todos têm de ser ouvidos.

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Comentário enviado pelo Coletivo da Vila Vudu

Para ouvir ao som de “If you’re going to San Francisco”, Scottie McKenzie, junho de 1967 (também conhecida como “People in motion” [Gente em movimento],


Essa música foi ouvida e cantada em todo o planeta, mais vezes do que todas as mensagens do Anonymous, hoje.

É o mesmo que dizer que a mensagem dos Anonymous é ótima (só falta a virada da economia política).

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A #spanishrevolution explicada a um brasileiro

Por *Bernardo Gutiérrez

He hecho un texto matriz para prensa, blogosfera e medios informativos de Brasil, que iré adaptando según las necesidades. Lo cuelgo tal cual en portugués porque hay poco en esta lengua en la red. Podéis traducirlo gracias a nuestros comunes amigos Google Chrome y Google Language:



Escrevi este texto-matriz para a imprensa, blogsfera, e demais meios de informação brasileiros, que irei adaptando conforme a necessidade. Publico em português porque há poucos informes nessa língua na internet. Sempre se pode traduzí-lo ao espanhol ou inglês via Google Chrome e/ou Google Language: 
 


Muitos amigos brasileiros estão me perguntando sobre a #spanishrevolution. A imprensa mainstream brasileira publicou pouco e entendeu quase nada. Por isso, vou fazer um exercício muito simples para entender a chamada #spanishrevolution.

Imagine que uma ministra de Cultura (Ana Buarque do Holanda, por exemplo) aprova uma lei sobre direitos autorais da Internet que despreza licenças como Creative Commons, corta liberdades civis na rede e faz o jogo da indústria audiovisual.

Um grupo de ativistas digitais cria uma plataforma #navoteneles, pedindo para castigar os partidos que aprovaram a lei (imaginemos aqui, PT, PSDB e PMDB).

O grupo, indignado com os casos de corrupção, começa fazer “wikimapas” feitos em redes com os candidatos corruptos. Depois, milhares de grupos que lutam por causas diferentes entram na luta pedindo uma “democracia real” mais participativa e transparente e outro sistema econômico alternativo ao liberalismo.

A revolução #democraciareal estoura quando a policia despeja um grupo de pessoas que estavam acampadas na principal praça da capital do país.

As redes sociais espalham rapidamente a #brazilianrevolution e os cidadãos, altamente conectados, descentralizados e organizados, invadem as praças do país inteiro e discutem, no asfalto e na Internet, uma nova sociedade.

A campanha política em andamento para as eleições regionais fica paralizada e o mundo começa olhar para uma nova revolução digital de consequências imprevisíveis.

Entendeu agora o que aconteceu na Espanha e as ideias que se espalham pelo mundo?

Só falta temperar isso com uma crise econômica (internacional) e a explosão de uma gigantesca bolha imobiliária (espanhola) para completar a equação.

O fácil para a imprensa brasileira era falar que o alto desemprego da Espanha (por volta do 20%) provocou a revolta. É lógico: a crise e o desemprego influenciaram, mas o desemprego não foi o motivo principal, entre outras coisas porque ainda funciona o seguro desemprego.

O simples era comparar a #spanishrevolution às reviravoltas do mundo árabe. Só tem um ponto em comum, a importância das redes sociais no processo.

A Espanha tem democracia consolidada. As causas da revolta foram outras, várias, muitas. Os objetivos também são diferentes aos do mundo árabe.

92% dos jovens espanhóis usa Internet, doce pontos por cima do resto da Europa, segundo o próprio Estado. A Espanha lidera, também, o uso de banda larga nos celulares (19,5% da população, 6,9% na Europa). O cocktail se completa com uma elevadíssima porcentagem de jovens formados na universidade: 39% da população espanhola entre 25 e 34 anos tem formação superior (ano 2009), mais que a França ou outros países europeus. E muitos estão desempregados.

Chama minha atenção que a poderosa conta de @wikileaks no Twitter, a reportagem de Preseurop.

A revolta islandesa da Espanha, reparou na hora que um dos links mais importantes da #spanishrevolution vem do norte, da Islândia, o país que já teve o Índice de Desenvolvimento Humano (IDN) mais elevado do mundo e que afundou na tormentas dos mercados . De fato, uma das principais petições da #spanishrevolution é exigir do governo que não ajude mais ao sistema bancário que provocou a crise internacional. O link islandês-espanhol, a procura de alternativas a um mundo governado pelos mercados e as agências de rating, é tão claro que Hordur Torfason, o homem que fez o povo islandês reagir contra banqueiros e políticos, gravou um video para parabenizar o povo espanhol.

A juventude espanhola, é claro, admira o que aconteceu nos países árabes. Foi um exemplo para todos. Mas a #spanisrevolution é diferente. É um passo à frente. É claramente europeia. E sem pretendê-lo, se converteu na revolta digital mais avançada do mundo. Gerou o debate sobre a democracia. E pode ser fundamental para o mundo atingir um Sistema 2.0 verdadeiramente participativo. Um detalhe: a plataforma de ciberativismo Actuable.es, que nasceu no final de ano 2010, foi vital para evitar que o Governo despejasse a Puerta del Sol de Madri. Em menos de 24 horas, quando a Junta Elitoral proibiu o protesto, Actuable.es incentivou o envio de mais 150.000 mails para Alfredo Pérez Rubalcaba, ministro do Interior e evitou a represãao policial e um banho de sangue.

O suplemento do Estadão publicou na passada segunda-feira o melhor trabalho sobre o assunto na imprensa brasileira: Reiniciar o sistema. Esse é o foco. E nem todo o mundo entendeu.

As duas principais forças políticas espanholas, Partido Socialista Operário Espanhol (no poder) e o direitista Partido Popular (PP), depois das eleições regionais do passado domingo, fizeram de conta que nada aconteceu. Se a abstenção (pessoas que não votaram) fosse uma força política, teria sido a grande vencedora, com 33% dos votos.

O Partido Popular, que foi o grande ganhador, só foi votado por 24% do eleitorado. Por exemplo, em Madri, só 1 em cada 3 votantes deu a sua confiança ao Partido Popular, mas governará com maioria. Em Barcelona, o escândalo foi maior. 47% dos votantes ficou em casa (ou seja, muitos do gigantesco acampamento da Plaza de Catalunya, no centro de Barcelona). E a Convergència i Unió (CiU), nacionalistas conservadores, vão governar a cidade com um 14% dos votos.

A #spanishrevolution quer uma lei eleitoral mais justa, mais representativa. Quer uma lei de transparência das contas públicas. Quer criar um espaço para participação constante da política nacional, regional e local. Quer fazer um redesenho profundo da democracia. Mas, por enquanto, ninguém parece ter entendido o recado. E os protestos continuam. E as praças estão ainda cheias de pessoas. E já tem iniciativas, como “Madrid toma los barrios”  para expandir o debate e participação nos bairros, praças e ruas das cidades.

Existem causas, motivos e condições para uma #brazilianrevolution? Os mesmos motivos que lá e , suponho, que outros.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Espanha, apesar da crise, ainda é um dos mais elevados do mundo.

O Brasil, apesar do crescimento econômico, tem alguns motivos para uma #brazilianrevolution: uma nova ministra de Cultura, Ana Buarque de Holanda, que não respeitou a herança de cultura livre do Governo Lula; altos níveis de corrupção (muitos mais que lá); democracia pouco participativa; um rumo econômico focado no macro e não no micro (agronegócio, exportação, grandes obras); sérios problemas ambientais; inflação; uma especulação imobiliária crescente que vai rumo ao da bolha que estourou na Espanha; desigualdade; violência…

Além disso, o Brasil tem um ativismo admirável. Foi onde nasceu o Fórum Social Mundial e o orçamento participativo. Lá cresceu o apoio de governos ao software livre e licenças como o Creative Commons. O Brasil foi e é importantíssimo na luta pela cultura livre e os direitos civis na Internet, uma referência internacional. O ciberativismo brasileiro, até agora, era mais forte que o espanhol, que só estourou depois da crise, quando o país inteiro saiu da mordomia da prosperidade. Os brasileiros, conseguiram encaminhar uma lei de “ficha limpa”. O Brasil é dos países mais ativos em redes sociais e tem a terceira maior penetração de Twitter do mundo (23%).

Não serei eu, um estrangeiro, quem vai inventar uma #brazilianrevolution, um movimento além das esquerdas e direitas, um movimento que lute pela liberdade, pela transparência e pela democracia 2.0.

Isso corresponde ao meu querido povo brasileiro. Mas pense bem: Existiriam causas, motivos e condições para uma #brazilianrevolution?

Democracia Real Brasil no Facebook.  

*Bernardo Gutiérrez é espanhol, jornalista, escritor e consultor de mídia. Mora em São Paulo. Seus trabalhos aparecem em La Vanguardia (Barcelona), Esquire (Madri), Expresso (Lisboa), Tage Spiegel (Berlim) ou National Geographic Brasil, entre muitos outros.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Sobre os acontecimentos na Espanha

24.Mai.11 :: Colaboradores

Miguel Urbano Rodrigues
As grandes mobilizações de “indignados” assumem como denúncia central a ausência de democracia autêntica. Neste início do século XXI, no contexto de uma gravíssima crise mundial de civilização, o capitalismo, em fase senil, cola o rótulo de democracia representativa a ditaduras da burguesia de fachada democrática.

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Puerta del Sol
Os acontecimentos da Espanha, pelo seu significado, estão a polarizar a atenção da Europa e de milhões de pessoas noutros continentes. Em Washington, Berlim, Paris e Londres, o acampamento da Puerta del Sol, inicialmente encarado como iniciativa folclórica de jovens pequeno burgueses frustrados, gera agora preocupação.

Quando o chamado Movimento M-15 alastrou a dezenas de cidades do país e nas capitais europeias centenas de pessoas se manifestaram frente às embaixadas espanholas, a indiferença evoluiu para um sentimento de temor.
Porquê?

O protesto espanhol insere-se na crise global de civilização que a humanidade enfrenta, cujas raízes arrancam da crise estrutural de um sistema de opressão: o capitalismo.

Seria um erro concluir que os jovens que criaram o Movimento «Democracia Real Ya » são revolucionários e o seu objetivo é a destruição do regime. O M-15 atraiu gente muito diferente. Alguns nem sequer rejeitam a obsoleta e corrupta monarquia bourbônica. Mas rapidamente a contestação popular excedeu as previsões. O Movimento, após a repressão do primeiro dia, foi olhado quase com benevolência pelo PP e pelo PSOE os dois grandes partidos da burguesia. Mas, ao assumir proporções torrenciais, o protesto adquiriu os contornos de uma condenação do regime na qual as massas emergiam como sujeito histórico.

Na Puerta del Sol começaram a ouvir-se brados inesperados: «No al FMI »; «No a la farsa electoral»; «PSOE y PP, la misma gente!»; «No a las guerras de los EEUU!». Soou até a palavra «Revolução!»
Daí o medo.

Os jovens de Madrid sabem o que não querem, mas a grande maioria não tem uma ideia minimamente clara sobre o que fazer e como atuar. As reivindicações aprovadas a 20 de Maio, na Assembleia do acampamento, são moderadas, algumas ingênuas. Espontaneísta, o M-15 não acampa no centro de Madrid em função de uma estratégia de Poder.

Quando aquilo principiou, o que unia a multidão heterogênea de jovens pouco mais era que a recusa da caricatura de democracia. Terá sido uma surpresa para o pequeno núcleo inicial a adesão maciça de adultos, de desempregados, de reformados. Foi ainda numa atmosfera de confusão que surgiram as primeiras lideranças embrionárias, os porta-vozes do acampamento.

Jovens entrevistados pela imprensa internacional manifestaram espanto ao tomar conhecimento da repercussão internacional da iniciativa e das concentrações de solidariedade em cidades espanholas e europeias.

DE TUNIS A MADRID

O protesto dos «indignados» de Espanha foi obviamente inspirado pelo modelo da Tunísia e do Egito. Na época da comunicação instantânea, as redes sociais permitiram que em tempo rapidíssimo os apelos à concentração popular na Puerta del Sol fossem atendidos por milhares de jovens. A praça madrilena foi a Tahrir egípcia.

Tal como ocorrera no Norte de África, a exigência de «democracia» funcionou como motor da mobilização popular.

Mas enquanto nas rebeliões contra Ben Ali e Hosni Mubarak as massas reivindicavam liberdades, eleições livres, um parlamento tradicional, destruição de aparelhos repressivos, o fim de ditaduras ferozes e a sua substituição por regimes representativos similares aos da União Europeia, na Espanha a «democracia real ya» reclamada pelos «indignados» partia dialeticamente da recusa do figurino pelo qual se batiam os africanos.

O que para os árabes era ambição e sonho aparece hoje a muitos dos acampados da Puerta del Sol como caricatura da democracia, rosto de um regime cuja prática nega os valores e princípios que invoca, que concentra a riqueza numa ínfima minoria e promove o desemprego, amplia a desigualdade social.

Enquanto a burguesia tunisiana e egípcia se solidarizava com os rebeldes que se manifestavam contra Ali e Mubarak e o imperialismo rompia com os seus aliados da véspera, a burguesia espanhola, os partidos tradicionais e os poderosos da União Europeia condenavam os «indignados» peninsulares, identificando neles arruaceiros de um novo tipo.

Merece reflexão a dualidade antagônica da posição assumida pelo imperialismo americano. Na Casa Branca, o presidente Obama compreendeu que as reivindicações dos rebeldes da Tunísia e do Egipto não colidiam com a sua estratégia para a Região e, agindo com rapidez e eficácia, estimulou e aplaudiu nesses países a instalação de Governos de transição ditos democráticos, sob a tutela de personalidades militares e civis que, com poucas excepções, tinham servido as ditaduras eliminadas. Na Líbia, bombardeia Tripoli ; no Golfo, pede à Arábia Saudita que afogue em sangue rebeliões incômodas como a do Bahrein, sede da V Esquadra da US Navy.

O imperialismo encara, naturalmente, com desconfiança e apreensão o alastramento do protesto inorgânico dos jovens «indignados». Obama e o Pentágono interrogam-se sobre as consequências imprevisíveis de um movimento que condena com dureza o envolvimento da Espanha nas guerras asiáticas dos EUA.

ADESÕES INTERNACIONAIS

A direita arrasou o PSOE nas eleições municipais de domingo. Os acampados da Puerta del Sol reagiram com indiferença aparente aos resultados. «Eles não nos representam», declararam porta vozes do M-15, sublinhando que na engrenagem do poder, o PSOE e o PP, embora com discursos, histórias , percursos e bases sociais diferentes, praticam no governo políticas neoliberais muito semelhantes, e políticas externas caracterizadas pela submissão às exigências dos EUA e de Bruxelas.

Significativamente, o espaço e o tempo que os media espanhóis dedicaram durante a última semana aos «indignados» diminuíram drasticamente desde sábado. O tema quase desapareceu das primeiras páginas dos grandes jornais e do programa dos canais de televisão. A vitória do PP e o avanço das Autonomias monopolizaram a atenção de políticos, analistas e jornalistas do sistema.

Oposta é a atitude assumida pela maioria dos intelectuais progressistas. Na Espanha e também na América Latina, personalidades de prestigio, em artigos e entrevistas publicados em revistas Web de informação alternativa como Resumen Latino Americano e Rebelión e outras, expressam a sua solidariedade com os jovens do M-15 e refletem sobre o significado e as consequências da contestação.

Cito alguns exemplos expressivos.

O filósofo e escritor marxista Santiago Alba Rico, num artigo intitulado «La Qasba en Madrid» sublinhou que a Espanha «não é uma democracia». E acrescenta, realista: «Não haverá uma revolução em Espanha. Mas uma surpresa, um milagre, uma tormenta, uma consciência nas trevas, um gesto de dignidade na apatia, um ato de coragem na anuência, uma afirmação anti-publicitária de juventude, um grito coletivo de democracia na Europa, não é já um pouco uma revolução?»

Carlos Taibo, professor da Universidade Autônoma de Madrid, esteve na Puerta del Sol levando solidariedade, e dirigindo-se aos acampados disse ao saudá-los: «Os que aqui estamos somos, obviamente, pessoas muito diferentes. Temos na cabeça projetos e ideais diferentes. Mas conseguimos, apesar disso, chegar a acordo quanto a um punhado de ideias básicas». E, parafraseando Santiago Alba Rico, afirmou: «Aquilo a que na Espanha chamam democracia, não o é!».

O escritor italiano Carlo Frabetti escreveu: «Desde o protesto dos Goya de 2003 que não se conseguira um aproveitamento tão eficaz de contestação interna do sistema e a sua expressão cultural do espetáculo».

Atilio Borón, um sociólogo marxista argentino de prestígio internacional, dedica aos jovens acampados um artigo entusiástico intitulado «Os indignados e a Comuna de Paris». Lembra que aquilo que a democracia de Moncloa propõe para enfrentar a «crise é o despotismo do mercado, irreconciliável com qualquer projeto democrático». E, cedendo a um impulso romântico, conclui o artigo com estas palavras: «Se persistirem (os indignados) na sua luta poderão derrotar a prepotência do capital e, eventualmente, iniciar uma nova etapa na história não só da Espanha, mas da Europa».

Angeles Maestro, a destacada dirigente de «Corriente Roja», da Espanha, mais realista, salienta que os acampamentos em dezenas de cidades espanholas «têm um conteúdo anticapitalista» e neles ondula «uma multidão de bandeiras republicanas». Enfatiza o descrédito da montagem eleitoral e afirma que «As mobilizações maciças que se iniciaram em numerosas cidades do estado espanhol a 15 de Maio e que tiveram continuidade em acampamentos, assembleias e convocatórias para novas manifestações expressam o alto nível de indignação e raiva de uma juventude que não tem qualquer esperança de chegar a ter os direitos básicos que a Constituição pomposamente proclama: direito ao trabalho, à habitação, à educação e saúde publica de qualidade, a uma pensão digna, etc.».

Quanto ao futuro do Movimento, adverte como revolucionaria experiente: «Nos processos sociais não há atalhos. Se é um fato que a fagúlha da espontaneidade está sempre presente e serve para desencadear as mobilizações, somente o avanço da organização é a medida da acumulação de forças; e sem acumulação de forças as lutas leva-as o vento.»

AMANHÃ INCERTO

Esperanza Aguirre, a reeleita prefeita de Madrid, não esconde a sua hostilidade aos acampados. Se dela dependesse, declarou, ordenaria à Policia que expulsasse da Puerta del Sol os acampados. A repressão inicial foi esclarecedora da sua posição. Mas carece de poderes para recorrer à força.
Qual o desfecho do protesto dos «indignados»?
Por ora é imprevisível.
Vai persistir, transformando-se em desafio ao Poder?

Uma Assembleia, improvisada e tumultuosa como as anteriores, decidiu manter o acampamento até ao próximo domingo. Durante a semana os ativistas irão aos bairros. Depois se verá.

Em Barcelona e noutras cidades, as concentrações de protesto também não se dissolveram, mas os próprios organizadores admitem que o número de participantes diminua nos próximos dias.

Repito: os jovens «indignados» sentem dificuldade em definir um rumo para a luta que iniciaram. A maioria talvez não tenha consciência da complexidade do desafio lançado ao Poder.

Volto a citar Angeles Maestro: «O processo de confluência múltipla em torno a um programa comum somente poderá abrir caminho se criar raízes nas lutas operárias e populares. Em outras palavras, se a construção do referente político beber a seiva na luta de classes e demonstrar a sua utilidade para abordar um longo processo de acumulação de forças».

A consciência demonstrada pelos «indignados» de Madrid de que a «democracia representativa» é uma ficção no Estado Espanhol deve, porém, ser saudada como acontecimento importante no âmbito das lutas de massa europeias e não ignorada, subestimada ou mesmo criticada com sobranceria em atitudes irresponsáveis por alguns dirigentes de partidos de esquerda da União Europeia.

Não compartilho a euforia prematura de Atilio Boron, mas julgo oportuno reafirmar que a Espanha não é exceção na Europa. Não há democracia autêntica sem participação decisiva do povo. Na União Europeia um sistema mediático perverso e desinformador esconde a realidade. Os regimes existentes nos 27 diferenciam-se muito. Mas existe um denominador comum: a ausência de uma democracia autêntica. Neste início do século XXI, no contexto de uma gravíssima crise mundial de civilização, o capitalismo, em fase senil, cola o rótulo da democracia representativa a ditaduras da burguesia de fachada democrática.

Vila Nova de Gaia, 23 de Maio de 2011.

terça-feira, 24 de maio de 2011

A primavera árabe conquista a Iberia

Pepe Escobar

25/5/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

But to live outside the law you must be honest [para viver fora da lei, é preciso ser honesto] Bob Dylan, “Absolutely Sweet Marie” [1]

“Ninguém espera a #spanishrevolution”. É um dos signos na icônica – e ocupada – praça Puerta del Sol em Madri: Monty Python revistos para a era do Twitter.

“Estava em Paris em maio de 68 e estou muito emocionado. 72 anos”. É um dos signos na icônica – e ocupada – Praça Catalunya em Barcelona: as barricadas revistas como protesto pacífico à Gandhi.

Os excitantes ventos norte-africanos da grande revolta/primavera árabe de 2011 cruzaram o Mediterrâneo e atingiram a Ibéria com força. Numa rebelião social sem precedentes, a Geração Y [2] na Espanha protesta forte contra – dentre outras coisas – a terrível crise econômica; o desemprego em massa, que alcança espantosos 45% entre os de menos de 30 anos; e contra o encarquilhado sistema político espanhol que trata o cidadão como mero consumidor.

Esse movimento de cidadãos produz manifestos que recebem cinco adesões por segundo. Pode ser acompanhado pelo Twitter (#spanishrevolution); ao vivo da Puerta del Sol pela Soltv.tv . Sentem-se as reverberações por toda a Espanha e pelo mundo, de Los Angeles a Sydney. Uma mini-Revolução Francesa começou na Bastilha em Paris. Os italianos planejam suas revoluções de Roma e Milão a Florença e Bari.

Indignados do mundo uni-vos 
Eles chamam-se “los indignados” – “os indignados”, “the outraged”. Puerta del Sol é a Praça Tahrir, território autossuficiente, com grupos de trabalho, clínica móvel de primeiros socorros, voluntários cuidando do que tenha de ser feito, desde varrer a rua até manter a conexão e um bom sinal de Internet. O Movimento 15 de maio – “M-15” como é conhecido na Espanha – nasceu como manifestação de universitários, que espontaneamente se converteu em manifestação de rua, pacífica, construída para “contaminar” a Espanha via Facebook e Twitter e, assim operar como ponte social crucial entre o Norte da África e a Europa.

No começo, eram só 40 pessoas. Agora são dezenas de milhares em mais de 50 cidades da Espanha – e aumentando. Em pouco tempo, podem ser milhões. O mais importante: tudo foi feito sem apoio de qualquer partido político, sindicato ou jornal-empresa ‘de comunicação’ (na Espanha, já totalmente expostos ao ridículo, pelo poder político). É evento extraordinário, em país que não tem aparecido nas manchetes por ações de resistência ou pelo poder de organizações civis.

Os indignados são pacifistas, apolíticos e altruístas. Não são desempregados, alguma “juventude sem futuro” – o fenômeno é intergeneracional, em transversal que passa atravessa todas as classes. Esse “basta!” contra a Espanha inerte – como se lê num cartaz: “Franceses e gregos lutam. Os espanhóis são campeões de futebol” – implica rejeição profunda aos abismos imensos que separam os políticos e a população, exatamente como no resto da Europa (veem-se bandeiras da Grécia, da Islândia e do Egito, lado a lado).

Os indignados querem que os cidadãos recuperem a voz – como numa democracia participativa de associações de bairro; e reivindicam para os imigranes o direito de votar. Na prática, querem reformar a legislação eleitoral espanhola; querem participar da construção dos orçamentos públicos; querem reforma fiscal e política; querem mais impostos para os mais ricos; querem aumento no salário mínimo; e querem mais controle sobre os movimentos de bancos e do capitalismo financeiro.

No início desse ano, houve protestos massivos de estudantes em Londres, contra o aumento das anuidades nas universidades. O potencial de protesto é gigante em toda a Europa. Na Europa Mediterrânea, a falta de perspectivas é total – da Geração Y aos mais de 30% de diplomados desempregados. Embora o contexto seja muito diferente – no norte da África luta-se contra ditaduras –, a Primavera Árabe mostrou aos jovens europeus que cidadãos mobilizados têm boa chance na luta por justiça social.

A esquerda espanhola tentou cooptar o movimento. O primeiro-ministro Jose Luis Rodrํguez Zapatero – sobrevivendo por enquanto às graves escoriações que sofreu nas eleições do domingo passado, que o M-15 evidentemente boicotou – disse que se devia prestar atenção a eles. A direita, claro, prefere abordagem à moda Hosni Mubarak e “exigiu” que o ministério do Interior interviesse à moda medieval – como fez o ex-presidente do Egito. A imprensa de direita acusa os indignados de serem comunistas, antissistema, guerrilheiros urbanos e estarem ligados aos separatistas bascos do ETA. Só faltaram as conexões com a al-Qaeda.

Os indignados responderam que não são contra o sistema: “o sistema é que é contra nós”. No manifesto original condenam todos os políticos, sem salvar nenhum, e toda a mídia-empresa, como “aliados do capital financeiro”; e todos os que provocaram a crise econômica e agora lucram com ela. 
O J’Accuse dos indignados inclui o Fundo Monetário Internacional (FNI), a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a União Europeia, as agências de avaliação de riscos e o Banco Mundial.

A economia espanhola está de fato sob controle do FMI. Seja ou não grande reformador, fato é que o FMI presidido pelo hoje detonado Dominique Strauss-Kahn provocou grave devastação social em toda a Espanha, na Grécia e em Portugal. Além dos 45% de desempregados abaixo dos 30 anos na Espanha, as aposentadorias e salários foram reduzidos em 15%. O FMI comanda o processo pelo qual todas as economias do sul da Europa só avançam, em resumo, na recessão.

É como se o Movimento 15-M tivesse recebido o sopro vital diretamente daquela famosa lição de Rosa Luxemburgo, marxista polonesa – segundo a qual o capitalismo é incompatível, em seus antagonismos, com a verdadeira democracia [3]. Os dados mostram que é exatamente o que está acontecendo, tanto no norte industrializado quanto no sul global. 

O novo 1968 

Assim sendo, tudo isso vai muito além de revolta de estudantes. É uma revolta que põe a nu uma profunda crise ética que convulsiona sociedades inteiras. E vai além, também da economia: é movimento que questiona seriamente o lugar dos seres humanos num mundo de capitalismo turbinado.

Não surpreende que os baby boomers [4] – os pais da Geração Y – recordem o grande filósofo alemão Herbert Marcuse. Se se vê essa lufada de ar fresco na paisagem social e econômica asfixiante da Espanha e de grandes partes da Europa, é impossível não lembrar de Marcuse numa conferência em Vancouver em 1969, quando falou sobre uma rebelião estudantil mundial.

Naquele dia, Marcuse lembrou que a mesma pergunta – Por que as revoltas estudantis, por toda parte? – fora feita também ao filósofo do existencialismo francês Jean-Paul Sartre. E Sartre disse que a resposta era simples e não exigia raciocínio sofisticado: os jovens rebelam-se porque estão asfixiados. Marcuse sempre repetiu que essa seria a melhor explicação para aquele grito rebelde, que denunciava a crise estrutural do capitalismo.

Marcuse foi analista muito agudo da degradação da cultura como forma de repressão, e da necessidade de haver uma elite crítica capaz de destruir o ópio totalitário da cultura de consumo (los indignados desempenham também esse papel).

Marcuse identificou o 1968 francês e norte-americano como protesto total contra males específicos, mas ao mesmo tempo como protesto contra um sistema total de valores, um sistema total de objetivos. Os jovens não querem continuar a ter de aguentar a cultura da sociedade estabelecida; não refutam só as condições econômicas e as instituições políticas, mas todo um sistema global apodrecido de valores.
Em 1968, eram realistas: pediam o impossível. Hoje, se lê num dos cartazes: “Se vocês não nos deixam sonhar, não os deixamos dormir”.  

Bob Dylan faz 70 anos na 3ª-feira, 24/5. In Bob We Trust. Ele jamais dirá, mas, no fundo do coração & mente, sabe de onde vêm los indignados. Em “Absolutely Sweet Marie”, escreveu que “para viver fora da lei é preciso ser honesto”. Los indignados não poderiam ser mais honestos: recusam-se a viver sob leis que os matam, como matam tantos de nós.

Por tudo isso, é muito bom estar metido no centro de Madri, em banzo de Cairo blues [5],outra vez.




Notas de tradução

[1] Letra, original do álbum “Blonde On Blonde”, lançado dia 16/5/1966) e traduzida, e a canção cantada.
[2] Também chamada “Geração do Milênio” ou “Geração da Internet”: os nascidos depois dos 1980 (para alguns, depois de meados da década dos 1970), até a década dos 1990s.

[3] O livro é “Reforma ou revolução”, 1900. Pode ser lido em português de Portugal, grátis. É leitura muito oportuna, nesses tempos em que tanto se fala de “controle social” sobre tudo – até sobre a imprensa-empresa! – como se fosse solução para todos os males. Em discussão com alguém que bem poderia ser qualquer dos “ongo-éticos” da “democratização da cumunicação”, Rosa Luxemburgo escreve: “Nessa perspectiva, o “controlo social”, tal como é apresentado por CL, aparece sobre outra focagem. O que hoje é a acção de "controlo social” – a legislação sindical, o controlo das sociedades por ações etc., – não tem, de fato, nenhuma relação com uma participação no direito de propriedade, com uma “propriedade suprema” da sociedade. A sua função não é limitar a propriedade capitalista, mas, pelo contrário, protegê-la. Ou ainda – economicamente falando – não constitui um ataque à exploração capitalista, mas uma tentativa de a normalizar. Quando B. põe a questão de saber se esta ou aquela lei de proteção aos operários é mais ou menos socialista, podemos responder-lhe que a melhor das leis de proteção operária tem mais ou menos tanto socialismo como as disposições municipais de limpeza das ruas e o acendimento dos bicos de gás – que também revelam o “controle social”.   
[4] Nascidos entre 1946 e 1964. Literalmente, os nascidos no período da explosão demográfica que o mundo conheceu depois da II Guerra Mundial .

[5] Cairo blues, 1929, pode ser ouvida, cantada pelo autor Henry Spalding. A Cairo da música é Cairo, Illinois, EUA .