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quinta-feira, 10 de maio de 2012

França e Grécia: duas eleições e nada resolvido


8/5/2012, John Brown, Blog Iohannes Maurus - Juan Domingo Sánchez
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Juan Domingo Sanchez
(John Brown)

Dia 8 de maio aconteceram consultas eleitorais em dois países europeus, um dos grandes e fortes e outro, menor e marginal na partilha do poder no continente. No país grande, ouviram-se outra vez as solenes tolices da política representativa, com dois candidatos, um mais ridículo que o outro, falando em nome “dos franceses” e sem pejo de dizerem coisas como “os franceses querem”, “os franceses opinam” etc..

O país hexagonal é um dos antigos centros de poder na Europa. A crise campeia, mas, no momento, ainda não se vê ali o desastre social que já desgraça os países da Europa do Sul e, sobretudo, o menor e mais marginal deles, a Grécia. Por isso, ali é ainda possível brincar de democracia representativa, um jogo de espelhos entre a direita e a esquerda, no qual os diferentes componentes do poder do capital declaram dar maior importância ou ao Estado ou ao Mercado, ou à igualdade ou à liberdade para empreender.

Tudo dentro de uma esplêndida continuidade entre os dois polos de um sistema que, de modo algum é questionado nessas categorias que, afinal, são as categorias do próprio sistema. Quem suponha que algum sistema capitalista se autointerditará e reforçará o estado, ou que aumentará a igualdade jurídica entre os cidadãos ignora que o mercado geral, típico do capitalismo, é fruto da atividade do estado; e que a igualdade entre os contratantes é a condição básica para que haja mercados. Como Michel Foucault e Chomsky recordaram naquele debate memorável na televisão holandesa, em 1971 [1], “não se pode combater um regime a partir de seus próprios conceitos e valores”. Por isso, a esquerda representativa só representará, no melhor dos casos, uma classe operária que é parte do tecido do capitalismo, de seu específico modo de distribuir a riqueza. O papel dessa classe operária na luta de classes é pura mistificação; existe para ocultar os antagonismos que há por trás dos valores específicos do sistema capitalista, apresentados como valores “democráticos” ou “valores da República”, sempre com a voz enrouquecida de tanto proclamar mentiras.

No poderoso país hexagonal, o vencedor nas eleições presidenciais venceu por pequena margem; um dirigente do Partido Socialista que se apresentou com programa de crítica moderada às políticas de austeridade, anunciando sua disposição para mudar o pacto europeu de estabilidade. Em lugar da austeridade propõe “crescimento”. Hollande, provavelmente, logo dará marcha a ré nas promessas e voltará ao “realismo” responsável, aceitará a austeridade e os cortes, talvez em nome do crescimento. Na França ainda há espaço para mentir com algum êxito e, também, para cortar gastos públicos e salários.

Enquanto houver essa margem, prosseguirá o teatro cômico-macabro dos candidatos de direita e esquerda, com seus próceres “populistas” de direita e de esquerda, que metem, entre o estado e o mercado, um terceiro personagem da farsa: o povo.

Esse povo que irrompe como se fosse “o outro” em relação ao mercado, no discurso de esquerda de Mélenchon; ou como se fosse “o outro” em relação ao estado, no populismo semifascista da filha de Le Pen. Como se o povo não fosse a unificação, pelo estado e no estado, dos agentes dispersos do mercado.

Os populismos tampouco são qualquer tipo de saída para fora do labirinto de espelhos que é a política representativa, na qual, simplesmente, não há espaço “fora”, nenhum “além” da representação, que não seja a mera criminalidade “terrorista”; e, mesmo essa, é um “externo” mistificado, um falso exterior, absoluta e completamente desenhado pelo poder e a partir do poder.

É impossível qualquer “representação” da luta de classes. A luta de classes é irrepresentável. Só se podem representar os espelhos que reproduzem, ao infinito, a falsa oposição entre estado e mercado, entre povo da esquerda e povo guardião das essências nacionais.

Como na última cena do filme “A dama de Shangai” [dir. Orson Welles, 1946-7], os protagonistas disparam contra as próprias imagens, que veem num labirinto de espelhos, e cada um que dispara contra a própria imagem acaba por matar outro. O capitalismo modificado pelo liberalismo e convertido em liberal, derrota o capitalismo modificado pelo socialismo e convertido em socialista; ou vice-versa. Enquanto isso, se agita o coringa fascista, previamente alimentado com uma estudada xenofobia de estado, para que as opções majoritárias respeitáveis e nada “populistas” possam apresentar as políticas mais brutais como se fossem “um mal menor”... se comparadas ao que viria, se os fascistas vencessem. A existência de um bloco fascista permite aos partidos do regime serem, eles mesmos, fascistas... e acusar a extrema direita de fascismo. É o golpe do policial bonzinho/policial durão.

Também na Grécia houve eleições essa semana, mas com resultados e desenvolvimentos muito diferentes do que se viu na França.

A imprensa-empresa oficialista europeia apresentou os resultados das eleições gregas como se tivesse havido grande avanço da esquerda “radical” e retrocesso dos protagonistas do bipartidarismo helênico, os socialistas do PASOK e a direita do Nea Dimokratia.

De fato, o que aconteceu na Grécia foi muito mais grave: ali se viu que, a partir de um certo nível de representação, a própria representação democrática do capitalismo neoliberal torna-se impossível.

Os dois grandes partidos que defendem a austeridade e o pagamento da dívida, PASOK e Nea Dimokratia têm menos de 33% dos votos parlamentares: todas as demais forças representadas no Parlamento grego são, por sua vez, radicalmente hostis a essa política que está arruinando o país e empobrecendo as classes populares e as camadas médias.

Nada disso impediu o regime de fazer todo o possível para que não houvesse meio pelo qual os cidadãos gregos expressassem o próprio descontentamento: não houve qualquer consulta à população, por referendo, sobre as medidas de austeridade (Papandreu pagou com o próprio cargo, a simples sugestão); e, para impedir a manifestação eleitoral de posições minoritárias, elevou-se de 3% para 5% a porcentagem mínima de votos necessários para eleger deputados. Com isso, ficaram sem qualquer representação cerca de 19% dos eleitores – porcentagem maior de votos, que os votos dados ao partido mais votado, o Nea Dimokratia.

E não foi só: o número de cadeiras no Parlamento para o partido mais votado foi aumentado pouco antes das eleições, criando-se um ‘prêmio’ de mais 50; por isso, o partido Nea Dimokratia, que obteve dos eleitores 18,9% dos votos (só 2% mais que os votos da coalizão Syriza, de esquerda, que teve 16,8%), terá, graças ao generoso “presentão”, 108 deputados; contra apenas 52 da coalizão Syriza. A combinação do mínimo exigido de votos e o “prêmio” ao partido majoritário desfiguram portanto grotescamente a correlação de forças políticas representadas no Parlamento.

Esse autêntico golpe-de-mão legal, inventado para assegurar a “governabilidade”, chegou muito perto de dar certo e permitir um governo de “salvação nacional” formado só pelos partidos Nea Dimokratia e PASOK, dois partidos minoritários que defendem a política de austeridade e contra os quais os eleitores manifestaram-se em alto e bom som. Os resultados finais não permitiram essa solução, porque nem com a fraude legal eleitoral os partidos do Μνημονίο [/minmonío/, “memorando”] pró políticas de austeridade imposto à Grécia pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI – conseguiram chegar à maioria absoluta.

A austeridade, pois, tornou-se ingovernável, sob os parâmetros da democracia grega. E essa é a grande diferença que há entre Grécia e França.

Na Grécia, será praticamente impossível formar algum governo a partir dos resultados que saíram das urnas, porque, embora Syriza tenha alcançado excelente resultado, nem assim terá apoio suficiente. O Partido Comunista Grego, que já se recusou a formar listas eleitorais unificadas com os “socialdemocratas” da coalizão Syriza, porque os considera “europeístas”, tampouco aceitará qualquer outro tipo de coalizão pós-eleições.

Por sua vez, uma direita caricaturesca mas terrível, Χρυσή Αυγή [/crisí augí/, “Aurora Dourada”] já apresentou ao Parlamento projeto de uma política de denúncia das políticas para os migrantes; e de denúncia, também, da “Junta” (palavra hispânica, que se usa, na Grécia, para falar da ditadura dos “coronéis do memorando”). No atual momento, a função dessa formação é semelhante à de Marine Le Pen na França e de outras extremas-direitas: permitir a radicalização neoliberal e xenófoba dos partidos majoritários que modo que passem a apresentar o fascismo como “mal maior”, embora as milícias da extrema direita já estejam nas ruas, em combate contra os imigrados e futuros imigrados...

Na Grécia, as eleições previstas para garantir legitimidade para a dominação do capital financeiro, com implantação de medidas de austeridade e pagamento da dívida, não chegaram a bom termo e não deram o que deveriam ter dado. A austeridade e a dívida tampouco são representáveis, como também não há representação possível para a resistência da multidão em luta contra essas políticas. Os espelhos partiram-se definitivamente, embora ainda seja possível fazer algumas caretas contra esse grande coringa, de mil e uma utilidades, que é a extrema direita.

Nos próximos dias, tudo pode acontecer. Se não há maioria que apóie o plano de salvamento e as medidas de austeridade que o plano carrega, pode acontecer de todos os pagamentos das dívidas gregas serem suspensos; e podem-se suspender também os empréstimos que FMI e financeiras europeias devem fazer à Grécia. É possível também que o país tenha de sair da zona do euro, o que terá repercussões sobre os demais países fracos (Portugal, Espanha, Itália, Irlanda, etc.) e sobre toda a Eurozona.

A Grécia está hoje em situação que faz lembrar a da Alemanha nos anos 30s. As causas são semelhantes: a Alemanha de Weimar foi arruinada pelo pagamento de brutal dívida de guerra imposta pelos que venceram a Ia. Guerra Mundial. Na comissão de reparações de guerra, Keynes havia advertido sobre as consequências desastrosas que adviriam daquela política.

Ante a impossibilidade de uma revolução (impossível, dentre outras coisas, por causa da profunda divisão das esquerdas e por causa do sectarismo do Partido Comunista Alemão), um cabo baixote, feio, ressentido e dado a gritarias, ridículo como os dirigentes do partido Crisí Augí, tomou o poder. O resto da história todos conhecem.

Nesse momento, só uma potente reação em escala europeia contra as políticas de austeridade pode evitar que a barbárie volte ao continente. A Europa terá de ser verdadeiro espaço de cooperação produtiva para a multidão, espaço de democracia e de liberdade, não mera agência de cobrança da odiosa dívida financeira gerida por uma oligarquia dedicada a fazer a gestão racista da imigração. Nem todos se podem permitir o luxo do gran guiñol “republicano” que a França está vivendo; em breve, de fato, já não será possível nem na França.

A Grécia aí está, a mostrar que a prática de usar a dívida para a dominação social não é coisa para a qual haja representação democrática. Para preservar a democracia, é urgente acabar com uma política econômica que, a cada dia, menos consegue esconder o que há nela de plena dominação política.

Mas preservar a democracia e por fim à política econômica para dominar não podem, por sua vez, ser feitos sob o marco dos estados nacionais: a nostalgia soberanista que foi representada no fascismo, e, em certa medida, também nos “populismos”, é hoje uma armadilha.

Problemas que há muito tempo já não são problemas nacionais só poderão ser resolvidos em escala europeia. Se nos fechamos, cada um em seu estado, encontraremos pela frente a violência capitalista cada vez mais brutal, e seremos cada vez mais incapazes de derrotá-la. Outra construção europeia é necessária e urgente. 

O 12M, 12 de Maio de 2012, será, por tudo isso, muito mais decisivo que as eleições de 6 de maio passado.




Nota dos tradutores
[1] O debate (texto em inglês) aconteceu em novembro de 1971, na Escola Superior de Tecnologia de Eindhoven (Holanda). Excerto, em português.  

sábado, 17 de março de 2012

"Anonymous", a grande rede e a rua: para uma convergência


15/3/2012,Giorgio Griziotti, Dario Lovaglio e Tiziana Terranova, Savoirs Communs  [1]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Há cerca de um ano, uma nova força de manifestação da multidão pela grande rede impôs-se à atenção do mundo inteiro, primeiro na batalha por Wikileaks, depois, a partir da Tunísia, nas revoltas árabes e nos movimentos 15M eOccupy.

Depois de um ano chave, grávido de ameaças e promessas, esses recém-nascidos da governança financeira, que nada sabem de um movimento global completamente novo e, conscientes da forte ameaça que é, contra eles, a comunicação horizontal entre as multidões, fazem pesar sua dominação e tentam retomar a iniciativa de ataque contra a liberdade na grande rede.

Primeiro, foi a tentativa de fazerem aprovar a lei SOPA, Stop Piracy Online Act, e o projeto PIPA, Protect Internet Protocol Act. Depois, veio o fechamento da página Megaupload nos EUA.

Hoje somos chamados para outro grande combate mundial, dessa vez contra o ACTA, Anti-Counterfeiting Trade Agreement [Tratado Comercial Antipirataria], tratado liberticida de defesa do copyright e de penalização da pirataria. 

Preparado em segredo pelos executivos de uma quarentena de países, sem qualquer debate público ou parlamentar, o ACTA, cujo relator francês, Kader Arif, abandonou o projeto (“Não participarei dessa palhaçada” – disse ele), já foi assinado por Obama, o qual, contudo, recusou-se a assinar a lei SOPA. 

O [Tratado] ACTA não será adotado na Europa, se não for aprovado no Parlamento Europeu. Manifestações na Polônia e em vários países, entre os quais a França, e as 2,5 milhões de assinaturas em desacordo levaram a Comissão Europeia a cercar-se de algumas cautelas. Pediu o parecer da Corte Europeia de Justiça, para determinar se o ACTA seria incompatível, de algum modo, com os princípios da União Europeia ou contrário ao espírito da proteção dos direitos humanos.

Reforçar os direitos de propriedade pelo copyright põe à vista um paradoxo: de um lado, o capital precisa desse reforço para preservar a ampliar sua posição em lucros, baseada na captura do “tempo cerebral disponível” [na captura da “mais-valia, do trabalho da multidão”, na formulação de Zizek, em “A revolta da burguesia assalariada”, 17/1/2012, (NTs)] e na propriedade dos dados informacionais; de outro lado, reforçar o copyright cria obstáculos à cooperação social, altamente produtiva porque não se faz a partir da divisão do trabalho, mas a partir do valor produzido pela circulação de fluxos de desejos, de percepções, de afetos. Essa circulação produz novas sedimentações de significados, produz o comum e produz comuns em quantidades vastíssimas, que excedem a capacidade do capital para capturá-los.

Disputa entre duas alas do capitalismo

Essa contradição está no cerne da batalha interna que se trava entre duas alas do capitalismo:

(a) a ala dos capitalistas históricos, os “que estão no poder” [orig. incumbent], como disse Yochai Benkler [3], constituída dos grandes conglomerados do entertainement, para os quais o copyright é vital; e
(b) a ala das grandes empresas de Web 2.0, chamada, por Mackenzie Wark  [4], de “a classe vetorial”, que se alimenta, realmente, da grande produção comum.

Segue-se disso, que as leis SOPA e PIPA são, por um lado, defendidas pelas majors e pelas cariátides das mídias verticais, como as grandes empresas que ainda mantêm impérios jornalísticos, como os Murdoch & Cia. [5]; e, de outro lado, são combatidas pelos Google, Facebook, Ebay, Amazon e até pela convertida de última hora, a Microsoft; esses, de fato, não passam de falsas virgens, cujo objetivo nada tem a ver com alguma liberdade de manifestação na rede, mas com a construção e demarcação de gigantescos e muito rendáveis feudos (áreas privadas de caça?), como diz, com  precisão, Infofreeflow [6]. 

Não podemos, portanto, concordar com o que diz Manuel Castells em entrevista recente, que “Google é mais aliada que inimiga” [7], porque é simplesmente “um negócio, não uma ideologia”. Há contradição em termos, se se fala de uma das primeiras capitalizações mundiais; e o que dizer, depois disso, da estratificação étnica praticada em seu célebre campus, Googleplex, no qual os trabalhadores têm faixas de cores diferentes, diferentes direitos de acesso e diferentes proibições para a socialização?

Em termos mais gerais, o debate sobre a internet depois do fechamento da página Megaupload pelo FBI, reforçado pela decisão, da empresa Twitter, de implantar regime de autocensura, que faz o jogo dos poderes constituídos, está marcado por duas tendências: de um lado, os entusiastas da rede, que veem em Megaupload um veículo importante, graças aos seus traços de horizontalidade e de liberdade para a troca de informações. De outro lado, os que criticam um capitalismo especificamente digital, baseado na captura e na exploração de dados.

O conceito “capitalismo digital” sugeriria a separação entre um capitalismo em rede e um outro capitalismo, “material”, separação na qual o primeiro seria marcado por um conflito dialético entre o parasitismo e a cooperação social; e o segundo, por outro conflito, entre o empresário e o operário.

Em todas essas, o capitalismo não faz distinção entre a produção imaterial e a produção material – o que é válido para empresas de computação, como Amazon ou Apple. O capitalismo digital não é uma esfera em si, para retomar a crítica tradicional ao capitalismo cognitivo, cuja definição exclui a dimensão material da produção e da exploração, tese defendida no artigo de Wu Ming sobre Fétichisme de la marchandise digitale et exploitation cachée : les cas Amazon et Apple  [8] (O fetichismo da mercadoria digital e exploração oculta: os casos de Amazon e Apple). As condições de trabalho nas empresas digitais – vida carregada de stress e depressões, e número alarmante de suicídios – indicam claramente que o que se produz nos armazéns da Amazon e nas fábricas de smartphones da chinesa Foxconn não é diferente, no fundo, dos implacáveis métodos de “ou aumenta a produção ou cai fora”, que forçam à competitividade até a última gota de sangue nos arranha-céus de La Défense [9].

Mesmo no setor das tecnologias digitais da informação e da comunicação, veem-se grandes investidores e investimentos, que vão das imensas, embora ocultadas e antiecológicas servers farms da empresa Google [10] e da Cloud Computing, até a oferta de novas redes (4G), e que, todos, utilizam as mesmas práticas possíveis de redução de custos e de discriminação do trabalho assalariado. A massiva deslocalização de fábricas na direção da Índia e de outros países onde os salários são menores e, também, a recente lei francesa que precariza e torna expulsáveis os jovens imigrados recém formados nas Faculdades de Engenharia privadas e pagas a preço de ouro, são provas desse processo.

O capitalismo digital está também fortemente implicado na governança global do capitalismo rentista. Esse capitalismo opera num continuum de produção e de circulação que, ao mesmo tempo, intensifica os ritmos da exploração e da proletarização do trabalho assalariado e se apropria de grande parte do trabalho livre produzido com os dispositivos (PCs, smartphones e tablets) não raras vezes comprados a prestações. Tudo isso força a utilização de meio de pagamento obrigatório (empresas iTunes, Ebay/Paypal, Amazon Oneclick) e empurra muitos compradores para as garras do endividamento e da exploração financeira.

Sem negar a existência da exploração da produção material, sobretudo nas fábricas e escritórios, queremos chamar a atenção para a evidência de que a grande rede é o atrator que catalisa e reorganiza o conjunto das configurações produtivas além de qualquer divisão ficcional entre trabalho material e imaterial, real e virtual, ou entre mídias verticais e horizontais. A grande rede, de fato, não é constituída só dos fluxos de dados, programação ou desenvolvimento e instalação de programas; também é constituída das infraestruturas, servidores, laptops, smartphones e outros tablets; e, como consequência implícita, a grande rede também é exposta à invasão pervasiva desses dispositivos.

Dado que não se vê qualquer choque entre esses dois capitalismos, mas um processo de reconfiguração que se organiza em torno da hegemonia das finanças, da informação e da circulação, parece bem claro que o único modo de alterar a situação presente passa pela auto-organização do trabalho vivo das multidões no território e nas redes.

ANONYMOUS e OCCUPY

Dentre os exemplos de auto-organização da multidão em rede que emergiram há alguns anos, a experiência dos Anonymous parece-nos absolutamente crucial. Esse grupo está no centro da grande reação-resposta ao fechamento da página Megaupload e da mobilização contra o tratado ACTA. Sem aspirar a refazer toda a história do grupo em poucas linhas, os Anonymous nasceram praticamente com a campanha contra a seita da Cientologia e afirmaram-se com o apoio que dão a Wikileaks, quando atacaram diretamente as plataformas nevrálgicas de pagamento online, como Visa, Mastercard, Paypal, que haviam bloqueado, por iniciativa das próprias empresas, e sem qualquer justificativa legal, todas as doações a WikiLeaks. [11]

Interessante destacar o quanto a ação dos Anonymous e de seus hackers ativos na grande rede é cada vez mais claramente complementar e integrada aos movimentos Occupy e 15M e, simultaneamente, surge como alternativa às plataformas empresariais de comunicação social como Facebook ou Twitter. Além da osmose e das evidentes diferenças de contexto e modo de ação entre as grandes instâncias do movimento global, já emergem semelhanças marcantes no campo dos princípios e das modalidades de organização.

A infraestrutura técnica na qual se trava o debate público provocado e feito pelos Anonymous é o IRC (Internet Relay Chat), a primeira modalidade surgida de comunicação instantânea (chat) por Internet, que permite o diálogo simultâneo de grupos de pessoas, em “salas de bate-papo” chamadas ali “canais”. A topologia da rede IRC, como escreveu Dmytri Kleiner [12], preserva os princípios da comunicação entre usuários (peer to peer, P2P), em oposição à configuração atual de tipo cliente/servidor das plataformas de rede social [orig. social networking] baseadas na rede.

Os Anonymous criaram e utilizam vários canais autônomos, como lugares de debates públicos e para outras atividades de fundo humorístico (“só pelo sarro”, Lulz, LoL, \o/) ou consagrados a discussões sobre o social. Os canais de debate têm função semelhante à das assembleias dos movimentos Occupy e 15M, e nos três casos a coordenação das discussões é não hierárquica.

Como lembrado em artigo recente [13], há um código ético de funcionamento dos Anonymous, segundo o qual nem a liderança, nem a celebridade, em nenhum caso, são fim em si. Os Anonymous oferecem o que Mike Wesch [14] definiu como “uma crítica virulenta contra o culto pós-moderno da celebridade, do individualismo e do conceito de identidade”. Tudo isso se manifesta, em primeiro lugar, na recusa a identificarem-se por nome e sobrenome civis, identificação que, em geral, define o modelo político-econômico de plataformas como Facebook. O anonimato, nesse caso, permite adotar, no ambiente eletrônico, o mesmo tipo de andamento e de procedimentos adotado nas assembleias do movimento 15M, para evitar comportamentos egocêntricos; e favorece a que se insista sempre em buscar, escrupulosa e incansavelmente, o consenso possível caso a caso.

Os canais IRC, onde se constituem as várias facções dos Anonymous, são abertos ao público, mas os Anons exigem um mínimo de competências técnicas e de conhecimento do ambiente, para entrar ou para tornar-se administrador (ops) de operações. Os Ops têm a tarefa de manter a ordem e podem excluir pessoas que desrespeitem as regras culturais e decisões vigentes: no canal Anonops, por exemplo, é proibido fazer apologia da violência e discutir com a mídia. Os Ops podem participar do debate, mas não determinam os planos de ação nem as operações (raids) dos Anonymous.

Como no movimento dos Indignados, também nos Anonymous são as pessoas que mais trabalham que acabam por ser investidas de alguma autoridade; mas não são liberadas para exercer influência específica. As regras são mais rígidas para os contatos com o exterior: um Anon que se recuse a participar das ações diretas, de tipo “Negação Distribuída de Serviço” (DDoS) [15], e que fale com jornalistas, corre risco de expulsão. Entre os Indignados, todos podem falar aos veículos verticais de comunicação de massa (rádios, jornais, revistas e televisões) sobre o movimento, mas sempre, exclusivamente, em seu próprio nome: ninguém pode apresentar-se como representante ou porta-voz do movimento.

Se se considera essa convergência real, pode-se esperar que, no futuro, as barreiras técnicas que ainda separam essas instâncias do movimento da multidão venham a diluir-se; hoje, carregamos dispositivos conectados cada dia mais potentes, que permitem que nosso corpo, nosso espírito, nossa inteligência interajam com as redes. As vidas (do grego bios) estão hoje mais socialmente integradas, de modo mais intenso e contínuo, pela internet portátil, mediante várias redes e milhões de aplicações. Esse é um novo paradigma, que definimos como “bio-hipermidiático” [16].

É nossa impressão hoje, nosso sentimento, que a bio-hipermídia será um meio chave que permitirá integrar ainda mais significativamente os movimentos da rua e que se manifestam em rede.



Notas dos tradutores

[1] A página-rede Savoirscommuns.org nasceu em fevereiro de 2011, durante a Reunião Transnacional de Paris, sobre a constituição da rede KLF (Knowledge Liberation Front / Frente para a Libertação do Conhecimento) e ao tempo dos levantes no Mediterrâneo. Essa página-rede visa a ser mais um dos vários espaços de expressão da multidão de trabalhadores precários, estudantes, assalariados, migrantes, que se queiram reapropriar da riqueza que produzimos juntos. O espaço de nossa ação política é transnacional, porque nossas lutas comuns travam-se contra o sistema mundial da dívida, contra as políticas de austeridade e contra a precariedade. Por essa razão, recusamos a captura de nossa vida pelo endividamento perpétuo e pela arrogância da finança e dos financistas globais e seus bancos, suas empresas de seguro, seus fundos de pensão (de Savoirs Communs, “Quem somos”).  
[2] Publicado originalmente em italiano, por Uninomade.org; em inglês na página Opendemocracy.net; em francês noLe MondeDiplo.com. Traduzido do italiano ao francês por Giorgio Griziotti. Traduzido do francês ao português do Brasil pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, de: “Netwar 2.0 : Vers une convergence de la rue et du réseau” (recebido por e-mail).
[3] Em: Yochai_Benkler.






[9] “La Défense” é “a Wall Street de Paris”. O bairro está localizado no extremo oeste de Paris. É o maior centro empresarial desenvolvido na Europa. 
[10] “Google Platform” - Os conjuntos de milhares de computadores onde opera o “cérebro” computacional da empresa Google, sempre cercado de sigilo máximo. 

[11] Sobre os Anonymous, ver “Anonymous: A ética da ação digital direta”, 27/1/2012. A partir daquela página, pode-se ler também vários artigos publicados pelo blog redecastorphoto, sobre os Anonymous.

[12] Em: NetWork Cultures, “The Telekommunist Manifesto”  

[13] 6/4/2011, MediaCommons, Biella Coleman em: “Anonymous: From the Lulz to Collective Action”

[14] Em: Michael_Wesch


[16] 11/5/2011, André Steidel e Giorgio Griziotti, Savoirs Communs em: “Production du commun, réseaux et bio-hypermedia”

domingo, 15 de janeiro de 2012

Jacques Rancière: “Criticar a sociedade é culpar as vítimas”


15/1/2012, Entrevista de Jacques Rancière, Paula Corroto, Publico, Espanha
(Dica da Prof. Ivana Bentes, pelo Twitter)
Traduzidoe enviadopelo Coletivo da Vila Vudu

Rancière, em dezembro de 2010, em visita à Universidade Complutense
(foto Gabriel Pecot)
Discípulo de Louis Althusser, Jacques Rancière (Argel, 1940) é dos filósofos contemporâneos que mais refletiu sobre a ideologia, a luta de classes e a igualdade. Participou do Maio de 68 e, com Louis Althusser, escreveu Para ler “O Capital” (1955).

Agora, a editora Clave Intelectual (Espanha) acaba de publicar Momentos políticos, seleção dos artigos que escreveu entre 1977 e 2009, nos quais analisa questões diversas, como a guerra do Iraque, a contrarrevolução intelectual que transformou a sociedade e a situação das ideias comunistas. Rancière concedeu essa entrevista por e-mail (traduzida do francês ao espanhol por Marisa Pérez Colina).

Estamos vivendo “um momento político” na Europa? Como o senhor descreveria esse momento?

“Na Europa, todos os governos estão aplicando o mesmo programa de destruição do público”

Preferiria dizer que estão postas as condições para um momento assim, na medida em que estamos numa situação em que se vê mais evidente, a cada dia, que os estados nacionais atuam só como intermediários, para impor aos povos as vontades de um poder interestatal, o qual, por sua vez depende estreitamente dos poderes financeiros. 

Mais ou menos em todas as partes da Europa, os governos – das direitas e das esquerdas – aplicam o mesmo programa de destruição sistemática de todas as formas de solidariedade e proteção social que garantiam um mínimo de igualdade no tecido social. Mais ou menos em todas as partes, portanto, revela-se a brutal oposição entre uma pequena oligarquia de políticos e financistas, e a massa do povo submetida a uma precariedade sistemática e despossuída de qualquer poder para decidir – como se viu espetacularmente claro no caso do referendo previsto e imediatamente anulado na Grécia. Portanto estão dadas, sem dúvida, as condições de um momento político, quer dizer, de um cenário de manifestação do povo ante os aparelhos de dominação.

Mas para que esse momento exista, não basta que haja uma circunstância: ainda assim é necessário que aquela circunstância seja vista e identificada por forças capazes de convertê-la em demonstração, ao mesmo tempo intelectual e material, e de converter a demonstração em palanque capaz de alterar o equilíbrio de forças, modificando a própria paisagem do perceptível e do pensável.

O que o senhor pensa do caso espanhol?

A Europa apresenta situações muito diferentes. A Espanha é, com certeza, o país no qual a primeira condição cumpriu-se de forma mais evidente: o Movimento 15-M já expôs, manifestada muito claramente, a distância entre um poder real do povo e algumas instituições chamadas democráticas, mas de fato já completamente entregues à oligarquia financeira internacional. 

Resta a segunda condição: a capacidade para transformar um movimento de protesto em força autônoma, não só independente do sistema estatal e representativo, mas também que seja capaz de arrancar a direção da vida pública das mãos daquele sistema. Na maior parte dos países europeus estamos ainda distantes da primeira condição.

“Para que a política renasça, é preciso que haja organizações coletivas com objetivos e meios” 

Os movimentos 15-M e Occupy Wall Street são política?

Não há dúvida de que esses movimentos respondem à ideia mais fundamental da política: a política como o poder próprio dos que por nenhuma razão são destinados ao exercício do poder; a política como manifestação de uma capacidade que qualquer um tem. E esses movimentos materializaram esse poder de modo que está de acordo com essa ideia fundamental: afirmando o poder do povo mediante a subversão da distribuição normal dos espaços. 

Normalmente, há espaços como as ruas, destinados à circulação de indivíduos e de bens; e há espaços públicos, como os parlamentos ou os ministérios, destinados à vida pública e onde se discutem assuntos gerais. A política sempre se manifesta quando há distorção nessa lógica.

O que se deveria fazer com os partidos atuais?

“Os que hoje se manifestam já não têm nenhum horizonte que dê validade ao seu combate. São só indignados” 

Os partidos políticos que conhecemos hoje são aparelhos destinados exclusivamente a tomar o poder. Qualquer renascimento da política exige que haja coletivos que escapem à lógica de tomar o poder, que definam seus objetivos e seus meios de ação independentes das agendas dos Estados. Ser independente das agendas dos Estados não significa desinteressar-se delas, como se as agendas dos Estados não existissem. Ser independente significa construir uma dinâmica própria, espaços de discussão e outras formas de circulação da informação, motivos e formas de ação dirigidos, em primeiro lutar, ao desenvolvimento de um poder autônomo de pensar e de atuar.

Em maio de 68, discutiam-se as ideias de Marx. Mas não parece haver filósofos no 15-M ou em OWS.

Até onde sei, os dois movimentos interessam-se pela filosofia. E é preciso lembrar a ordem que os ocupantes da Sorbonne, em maio de 68, deram a um filósofo que acorrera, em apoio à causa dos estudantes: “Sartre, seja breve”.

Quando uma inteligência coletiva afirma-se no movimento, é hora de prescindir de heróis filosóficos que se ponham a dar explicações ou fornecer palavras-de-ordem. Não se trata, de fato, de presença ou ausência de filósofos. Trata-se de haver ou de não haver no movimento uma visão do mundo que estruture naturalmente a ação coletiva. Em maio de 68, embora o movimento não tivesse a forma canônica da política marxista, a explicação marxista do mundo funcionava como horizonte do movimento: embora não fossem marxistas, os militantes de maio-68 situavam sua ação sob o marco de uma visão da história na qual o sistema capitalista teria de desaparecer sob os golpes de seu inimigo, a classe operária organizada. 

Os manifestantes de hoje não têm nem chão nem horizonte que deem validade histórica à sua luta. São, em primeiro lugar, indignados, gente que rejeita a ordem existente, sem que se possam considerar agentes de um processo histórico. E isso é denunciado por alguns, que se aproveitam, interessadamente, e denunciam seu idealismo ou seu moralismo.

“A democracia não é um forma de Estado. É um poder do povo, em tensão permanente com o Estado” 

O senhor escreveu que, nos últimos 30 anos, vivemos uma contrarrevolução. Essa situação mudou com os recentes movimentos populares?

Com certeza, alguma coisa mudou desde a Primavera Árabe e os movimentos dos indignados. Interrompeu-se a lógica da resignação e a necessidade histórica, pregada pelos nossos governos e defendida pela opinião dos intelectuais. 

Desde o colapso do sistema soviético, o discurso intelectual sempre contribuiu para apoiar, hipocritamente, os esforços dos poderes estatais e financeiros para quebrar as estruturas coletivas que resistiam ao poder do mercado. Esse discurso acabou por impor a ideia de que a rebelião seria não só inútil, como também prejudicial. 

Seja qual for o futuro dos movimentos recentes, eles, pelo menos, já puseram sob suspeita essa fatalidade pressuposta. 

Os movimentos já fizeram ver que não somos obrigados a vê-los como crise das nossas sociedades, mas como momento extremo da ofensiva destinada a impor em todas as partes da vida as formas mais brutais de exploração; e que é possível, para os 99%, fazer ouvir a sua própria voz contra aquela ofensiva.

O que podemos fazer para recuperar os valores democráticos? 

“O poder dos cidadãos é o poder de agir por eles mesmos, de ter força autônoma”

Para começar, é preciso decidir o que entendemos por democracia. Na Europa nos habituamos a identificar democracia e o sistema de dupla mão entre as instituições representativas e as instituições do livre mercado. 

Hoje, esse idílio já é coisa do passado: o livre mercado se mostra cada vez mais como força de constrição que transforma as instituições representativas em simples agentes da vontade do mercado e reduz a liberdade de eleição dos cidadãos às variantes de uma mesma lógica fundamental. 

Nesta situação, ou bem denunciamos a própria ideia de democracia como uma ilusão, ou bem repensamos completamente o que significa democracia, no sentido forte do termo. A democracia não é, para começar, uma forma de Estado. É, em primeiro lugar, a realidade de um poder do povo, que não pode jamais coincidir com uma forma de Estado. Sempre haverá tensão entre a democracia como exercício de um poder compartido para pensar e agir, e o Estado, cujo princípio é apropriar-se desse poder. Evidentemente, os estados justificam essa apropriação, argumentando com a complexidade dos problemas, com a necessidade de pensar no longo prazo, etc. Mas, para dizer a verdade, os políticos estão sempre muito mais presos ao presente.

Recuperar os valores da democracia é, em primeiro lugar, reafirmar a existência de uma capacidade para julgar e decidir, que é capacidade de todos, contra essa monopolização. É também reafirmar a necessidade de que essa capacidade exerça-se mediante instituições próprias, distintas das instituições do Estado. A primeira virtude democrática é essa virtude de confiar na capacidade de todos e de qualquer um.

No prólogo de seu livro, o senhor critica políticos e intelectuais. Mas qual é a responsabilidade dos cidadãos na situação atual e na crise econômica?

Para caracterizar os fenômenos do nosso tempo é preciso, em primeiro lugar, considerar o conceito de crise. 

Fala-se de crise da sociedade, de crise da democracia, etc. Assim se consegue culpar as vítimas, pela situação atual. 

Ora, a situação que vivemos hoje não é resultado de alguma doença da civilização! É resultado da violência com que os senhores do mundo dirigem hoje a ofensiva contra todos os povos. O grande erro dos cidadãos é o de sempre: deixar-se roubar, deixar-se despossuir do poder que os cidadãos têm.

Mas o poder dos cidadãos é, sobretudo, o poder para agir por eles mesmos, o poder para constituir-se em força autônoma. A cidadania não é uma prerrogativa que nos adviria de estarmos contados no censo populacional ou de estarmos alistados como eleitores num país. A cidadania é, sobretudo, uma prática que não pode ser delegada. Por tanto, é preciso opor claramente essa prática, esse exercício da ação cidadã, contra os discursos moralizantes que se ouvem por todos os lados, e que dizem que os cidadãos seriam responsáveis pela crise da democracia.

Esses discursos lastimam o desinteresse dos cidadãos pela vida pública e culpam os cidadãos pela deriva individualista dos consumidores. Esses supostos ‘chamamentos’ dos cidadãos ‘à responsabilidade’ só têm, de fato, um efeito: conseguem culpar os cidadãos, para prendê-los mais facilmente no jogo institucional que consiste apenas em selecionar, dentre os membros da classe dirigente, os que aceitem que lhes roubem a potência para agir.

“A cultura não tem qualquer papel particular como entidade global” 

O senhor também é apaixonado por cinema e literatura. Quais as consequências da crise, para a cultura? 

A situação atual é uma crise dos valores do comum, na qual o poder do capital sobre a sociedade manifesta-se no individualismo consumista. Nesse quadro, a cultura é, ao mesmo tempo, tanto o tecido da experiência do comum, que é ameaçado, invadido pelos valores mercantis, como é, também, a instância encarregada de remediar os efeitos dessa invasão, de opor as exigências da autonomia da arte, contra a estetização comercial. Ou de voltar a tecer as esfarrapadas redes do vínculo social.

Do meu ponto de vista, o poder capitalista exerce-se, em primeiro lugar, de cima para baixo, mediante políticas estatais que, sob o pretexto de lutar contra o egoísmo dos trabalhadores privilegiados e dos democratas individualistas, impõe, em nome da crise, um programa de submissão de todos os aspectos da vida comum às leis do mercado. 

Resultado disso é que hoje já não há qualquer papel que se possa atribuir à cultura como entidade global. O cenário está hoje dominado, em grande medida, pelas celebrações culturais oficiais e por discursos pressupostos “críticos”, mas todos, de fato, submetidos à lógica oficial.