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sábado, 20 de dezembro de 2014

O que o “The Colbert Report” ensinou-nos sobre a psicologia dos conservadores

18/12/2014, Leslie SavanThe Nation,
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na quitanda da Chica Véia, na Vila VuduSe fascistas sinceros toscos como, dentre outros, William Waack, Jô Soares e Renata Loprete e akelas “véias do Jô” fossem mais inteligentes, menos arrogantes, melhores profissionais e menos sinceros fascistas, saberiam que nem “noticiários” nem “programas de entrevistas” nem “jornalistas” enganam todos, todo o tempo. Os que mais e melhor enganam, contudo, são e sempre serão os que consigam manter-se a salvo da armadilha do fascismo sincero, profundo, denso, negro, viscoso, nojento, grudado como carne podre na alma deles e que se vê na cara, na voz – indisfarçável, que quanto mais eles tentam disfarçar, mais aparece, e que faz deles jornalistas & jornalismo nos quais nem a mãe deles confia(ria).

Colbert sabe fazer. E quando se vê um que sabe fazer (como farsa), vê-se com mais clareza o que os williamswaacks pensam que fazem (como tragédia) :-D)))))))

A cambada “jornalística” do mundo das ideias fora do lugar está decifrada.

Resta saber que utilidade terá o tal “jornalismo” no mundo das ideias cada uma no seu lugar, depois de passado o swell da ideologia [pano rápido].


Stephen Colbert
Ninguém supôs que Stephen Colbert, o personagemduraria tanto. Aquele tom moralista, direitista, autocomplacente, autoelogiativo, grandiloquente, metido a “ético” [cróóóóóóóóózes! O tom do Colbert, em programa cômico, é exatamente igual ao tom dos “jornalistas” do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão), querendo falar sério! :-D)))))) (NTs.)] um maneirismo que se aguentaria, no máximo, por um, dois anos.

Como o próprio Colbert disse na 2ª-feira (15/12/2014), a Michele Bachmann, que está saindo, aposentada: “O tempo voa, Michele, como voa! Não posso acreditar que você mantém essa empáfia de conservadora racista, já, por oito anos... Oito anos!”.

Mas já lá vão oito anos, e Colbert nunca parou de nos fazer lembrar que a política – sobretudo a política conservadora (para conservar) é puro espetáculo, não passa de um tipo de desempenho cênico.

Para esse último show, o Grim Reaper vai tirá-lo da bancada. É o que se sabe. Mas se deve agradecer pela longevidade do programa, pelo menos em parte, aos reinados muito mais longos de suas fontes de inspiração [“Papa Bear” Bill O’Reilly, claro, mas também Sean Hannity, Rush Limbaugh, Steve Doocy e a própria forma mentisda Fox News].

Também se pode agradecer por esses últimos nove anos à própria “coisa” que os tornava tão improváveis: como personagem, não só como mero crítico, da direita, Colbert guardava com ele uma raríssima chave que lhe permitia decifrar o enigma do conservadorismo moderno:Como é possível que essa gente continue a safar-se, fazendo sempre o que sempre fez? Por que tantos conservadores converteram-se em perfeitas cavalgaduras, racistas, militantes do ódio, negadores da ciência e da realidade? Os eleitores nem sempre concordam com aquelas políticas deles, mas... continuam a elegê-los. Por quê?

Nós progressistas batemos cabeça na parede contra a ausência total de lógica no que eles dizem e fazem, e frustrados, só fazemos berrar a única explicação que encontramos “São doidos... Esses caras são malucos... São LOUCOS!”.

Em vez de tentar usar a chave de fora para dentro da muralha – como mais críticos da direita deveriam também aprender a fazer, Colbert mete e gira a chave de dentro para fora da muralha, por falsa que seja a chave que ele encontrou e domina. Porque aprendeu a habitar o interior da cabeça dos conservadores servindo-se do seu personagem, Colbert conseguiu mostrar, quatro noites por semana, como funciona a psicologia da direita reacionária.

E foi assim que em seu último segmento “Inimigo Formidável” [Formidable Opponent, o Stephen direitista iradíssimo, furioso, indignado com tantas ‘calúnias’ disse que os EUA jamais torturaram. O Stephen mais moderado contra-argumentou que já não havia como desmentir. Que o Relatório do Senado comprova que sim, torturaram. Ao que o primeiro Stephen respondeu:

“Ah, mas eu não estou falando do país real! Estou falando da idéia de EUA. Aidéia de EUA nunca torturou ninguém. Por isso, meu amigo, é que escolhi viver aqui, na idéia de EUA”.

É impossível assistir a esse tipo de personagem, que se ancora nessa franqueza sem véus, sem sentir alguma simpatia por ele e, claro, também pelo próprio conservadorismo.

Colbert expressou essa simpatia mostrando que, por baixo da afirmação de onipotência e certeza-sem-fim do personagem, há uma fraqueza, um fundo falso instável, enterrado em praticamente todos os bolsonaros e seus porta-vozes televisionais.

Enquanto não para o aplauso, Sininho continua. Se os acenos de concordância param, a força acaba. Se você para de correr na mesma direção em que vai a manada, você está morto, esmagado.

Todas as noites, o personagem Colbert blinda-se completamente para andar pelo fio reto e estreito onde o medo não existe. Quanto mais se faz de valentão, menos se vê que não passa de bebezão covarde. (Nisso o personagem mais próximo de Colbert seria Lawton Smalls, velho personagem direitista de Marc Maron que caía em lágrimas quando não conseguia salvar suas fantasias políticas); vídeo a seguir:


Vez ou outra, Colbert escondia-se sob a mesa, ou punha-se aos berros (porque temos de extinguir da face da Terra todos os ursos!) “Ursos”, como se sabe, significa “Rússia”, mas também o comercial de Reagan “Bear in the Woods, ou mesmo, “Papai Urso” [Bill O’Reilly]; vídeo a seguir:


Mas o mais provável é que o medo de ursos, em Colbert, fosse medo do medo em si, um terror irracional de algo que jamais vimos, com o que jamais cruzamos, como painéis da morte do Obamacare ou bandidos que saem do mato para receber armas que os EUA lhes enviamos. Será que levam para entregar lá a “Doçura”, a pistola que Stephen acaricia e que, tanto quanto se conhece é o único interesse amoroso sério da vida dele [como na de tantos bolsonaros, né-não?]. 

Mais frequentemente, porém, Colbert cavalga destemido sempre avante, sem retroceder, enunciando os maiores absurdos, sem tomar conhecimento de problemas e consequências. Era o traço “Inspetor Clouseau” de Colbert. É a impenetrável inocência do personagem e o coração do ator que combinam, me parece, para gerar tanta afeição, amor, de fato, por Colbert.

Sempre disse que aprecio Jon Stewart (e, sim, aprecio muito, muito, John Oliver), mas AMO Stephen. Rio tanto, tanto, que choro. Ao chorar, saio do plano “crítico” e me redimo.

Pensa-se em geral que Stewart faz a sátira política que bate mais forte. Mas Colbert, sob um fino véu de ficção, pode, sim, morder muito mais fundo. Colbert de fato é uma ameaça a O’Reilly – que dá sinais ativos de que não gosta dele –, e O’Reilly e Stewart apoiam-se mutuamente.

Colbert também faz coisas mais próximas do ativismo conservador que Stewart tanto despreza. Como quando Colbert depôs numa subcomissão de Justiça da Câmara de Representantes a favor de garantias para empregos de norte-americanos, em vez de proteção à mão de obra de imigrantes. Ou quando, num dos momentos mais brilhantes da comédia em todos os tempos, foi mestre de cerimônias do Jantar dos Correspondentes da Casa Branca em 2006; vídeo a seguir:


Ali, a um passo do presidente George W. Bush, Colbert, o personagem, disse:

Não somos assim tão diferentes, ele [o presidente] e eu. Chegamos lá. Não somos cérebros, a patrulhar nerds. Não somos da gangue do facticídio. [Apontando para o dono da Fox, presente: “Direitos autorais são meus! Se fizerem isso, processo a Fox!”]. Nós dois falamos com as tripas, certo, senhor presidente? A maior coisa sobre esse homem é que ele é firme. Você sabe o que ele defende. Acredita sempre na mesma coisa, na 4ª-feira, que acreditava na 2ª-feira, não importa o que aconteceu na 3ª-feira. Eventos mudam. Esse homem, nunca!

Mas Colbert mordeu ainda mais profundamente nos jornalistas presentes, os quais, como se soube depois, não acharam graça nenhuma:

Ao longo dos últimos cinco anos, vocês foram ótimos – a favor de cortar impostos que só ricos pagam, aquela inteligência toda sobre armas de destruição em massa, a favor do aquecimento global. Nós norte-americanos não queríamos saber, e vocês nos fizeram a gentileza de nada investigar e nada descobrir. Bons tempos aqueles... pelo menos foi o que vocês disseram.

Mas, escutem... Vamos acertar essas regras. As coisas funcionam do seguinte modo: o presidente decide. Eis o Decididor-em-chefe. O secretário de imprensa só anuncia aquelas decisões, e vocês, turma ‘da mídia’, só digitam aquelas decisões. Decidir, anunciar, digitar. É passar lá o corretor ortográfico e ir p’rá casa. Localizem a família de vocês. Façam sexo com a mulher de vocês. Escrevam aquele romance que vive chutando dentro da cabeça de vocês. Lembram? Aquele, sobre o intrépido jornalista em Washington que tem coragem de investigar. Sacomé... E vão ganhar a vida vendendo FICÇÃO.

Não se sabe se o Stephen Colbert de ficção diria alguma coisa desse tipo a convidados do The Late Show.Mas nunca se sabe. Já nos surpreendeu antes.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Eis como Karl Rove trabalha

13/5/2014, [*] George Zornick, The Nation
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Fato é que, se não existissem jornais, nem jornalistas nem jornalismos da imprensa-empresa do capital, como os conhecemos, não existiriam karlsroves. E assim, sem canalhas do tipo “jornalístico” e sem canalhas do tipo “marqueteiro... A democracia até que teria alguma chance de prestar, n’ é-não?
Dê uma chance à democracia! DESCONECTE-SE do falso jornalismo do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão)!

Karl Rove 
foto: Steve Helber
Se você leu o noticiário político na 3ª-feira (13/5/2014) nos EUA, com certeza você foi “informado” de que Karl Rove, ex-guru político de George W. Bush, sugeriu, numa conferência semana passada, que Hillary Clinton sofrera recentemente um “acidente vascular cerebral traumático”.

Rove imediatamente negou que tivesse dito o que disse; disse ao Washington Post horas mais tarde, no mesmo dia, que “é claro que ela não sofreu dano cerebral algum”.

Chris Cillizza
Mas a ideia de que a ex-primeira dama e possível candidata à presidência dos EUA tenha sido vítima de acidente vascular cerebral, já estava, sim, espalhada e implantada em todos os veículos da imprensa-empresa nos EUA. No mesmo Post, páginas adiante, já havia mais de mil palavras do sempre crédulo Chris Cillizza sobre a saúde da Clinton, a partir da frase de Rove. (Cillizza não está completamente convencido de que Rove tenha errado. De fato, começou a sentença com “deixando de lado o debate sobre o dano cerebral da candidata, que parece pura provocação...”).

Você pode até creditar na negativa de Rove – mas, para tanto, você terá de ignorar praticamente todos os dias de seu longo currículo “político”. Ao longo de décadas, Rove só fez pôr em circulação rumores pessoais sobre candidatos adversários de quem o estivesse pagando em cada campanha, sempre pondo os adversários sob luz adversa, na conversação social, ao mesmo tempo em que encobria as próprias pegadas e impressões digitais. De um ponto em diante, o boato passava a ser problema do candidato adversário, não mais do “jornalista’”que reproduzira a “notícia” que Rove criava, nem, e menos ainda, era problema de Rove. Esse truque aparece na página n. 1 de seu manual de truques “de marketing de campanha”.

Tome por exemplo o caso de Mark Kennedy, candidato dos Democratas à Suprema Corte do Alabama em 1994, e que apareceu recontada no livro de James Moore e Wayne Slater sobre Rove, The Architect [O arquiteto]. Rove estava trabalhando para Harold See, Republicano e professor na Faculdade de Direito, apoiado pelo Conselho Empresarial do Alabama.

Kennedy não era “o típico macho-do-Alabama, bebedor de cerveja, mascador de fumo, aquele tipo de cara que dirige a própria pick-up”. “É pequeno, bem vestido, bem educado, homem de família” – escrevem Moore e Slater. Traço central da campanha de Kennedy, era a organização que ele criara, privada, sem finalidades de lucro, para dar atendimento a crianças e famílias vítimas de abusos e de maus tratos.

Aparentemente, item perfeitamente “seguro” de currículo, a ser oferecido aos eleitores. Mas, como Moore e Slater anotam, Kennedy “não tinha nem ideia do que seria concorrer em eleições, contra Karl Rove”.  Eis o que aconteceu:

Mark Kennedy
De repente, não se sabe como, começou a circular pelas redes informais da Faculdade de Direito da Universidade de Alabama, e entre grupos e organizações de alunos, que Kennedy seria pedófilo. A campanha de difamação cresceu com eficácia perfeita e cruel, de dentro dos muros da faculdade de Direito, para as ruas, das ruas para as grandes cidades, das grandes cidades para as pequenas comunidades do Alabama, onde viviam e circulavam os alunos. [Um marqueteiro do comitê eleitoral de Kennedy] disse que ouvira aquelas mentiras de amigos, dentro da faculdade de Direito, e, quando estudou os números de pesquisa, percebeu que estavam funcionando. Mas, o que se poderia fazer?

Kennedy absolutamente não podia convocar uma conferência de imprensa, para anunciar que não era pedófilo – o que todos entenderam perfeitamente. Kennedy perdeu a eleição.

Rove é mestre na perversão de forçar os adversários a ter de dar conta de boatos que ferem a reputação pessoal, mesmo que, em primeiro lugar, sempre tenham sido boatos falsos, mentiras absolutamente criadas na própria cabeça do marqueteiro-jornalista. A lista de movimentos desse tipo é longuíssima. Aqui, apenas uma pequena amostra [No original, em inglês, tem uma terceira amostra cuja tradução é desnecessária (Nrc)] :

• Durante a campanha presidencial de 2000, quando Rove trabalhava para Bush, a campanha “passou a repetir amplamente o boato segundo o qual John McCain, torturado quando prisioneiro de guerra no Vietnã traíra os EUA sob interrogatório e recebera ferimentos que o tornavam mentalmente incapaz para operar como Senador dos EUA”.

Ann Richards
• Quando Bush concorria contra Ann Richards para o governo do Texas em 1994, circulou persistentemente o boato segundo o qual quem elegesse a governadora Richards “deveria estar preparado para conviver com gabinete formado exclusivamente de lésbicas”. Na sequência, um coordenador de campanha regional de Bush várias vezes criticou a candidata Richards por “nomear ativistas homossexuais assumidas” para o serviço público estadual. [...]

Agora, é sempre a mesma estratégia, refinada nos anos posteriores. (Observem os ecos entre o ataque contra a instabilidade mental de McCain, e, semana passada, a história sobre o acidente vascular cerebral que teria acometido a candidata Clinton).

Daqui em diante, é questão de tempo, até que algum jornalista pergunte a Clinton se ela sofreu ou não algum tipo de “dano cerebral”. Não importa qual seja, a resposta que ela dê reporá o assunto em circulação, e legiões de eleitores continuarão a “discutir” a “questão’ do “dano cerebral”. É e continuará a ser obra de Karl Rove, o homem – jornalista & marqueteiro de aluguel – que nunca, jamais, em toda a sua vida, recebeu um único, único, solitário voto, um, que fosse, em eleição democrática...
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[*] George Zornick cresceu em Buffalo, NY e bacharelou-se em Inglês na State University of New York na própria cidade onde viveu, Buffalo. Antes de juntar-se à equipe do The Nation foi reporter senior e blogueiro no sítio ThinkProgress.org. Trabalhou como pesquisador para Michael Moore no premiado documentário SICKO e foi produtor associado do Independent Film Channel. Seus artigos tem sido publicados também no The Los Angeles Times, Media Matters e The Buffalo News.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Irmãos Koch e ALEC: assalto selvagem contra a democracia


John Nichols

9/12/2011, John Nichols, The Nation
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu
Ver também
30/8/2010, “Os irmãos bilionários que comandam a guerra contra Obama”, Jane Mayer, The New Yorker

Os bilionários irmãos Charles e David Koch afinal chegaram “lá”, em 2011. Depois de décadas de sustentarem o Conselho Americano de Intercâmbio Legislativo [ing. American Legislative Exchange Council, ALEC], a colaboração entre corporações multinacionais e deputados e senadores conservadores, o projeto, afinal começou a dar os resultados buscados.

Pela primeira vez em décadas, os EUA estão assistindo ao persistente desmonte das leis, regulações, programas e práticas que se criaram para tornar real a promessa da democracia nos EUA.

Por isso, no sábado passado, grupos de direitos humanos e seus aliados manifestaram-se, em passeata, à frente do quartel-general dos irmãos Koch em New York, exigindo que se renovem os direitos dos eleitores nos EUA.

Para os irmãos Koch e seus iguais, quanto menos democracia, melhor. Financiam campanhas com milhões de dólares em cheques que ajudaram a eleger gente como o governador de Wisconsin, Scott Walker, e de Ohio, John Kasich. 

E o grupo ALEC não esconde seu projeto: publicou-o, bem claro num documento ambicioso, “Força Tarefa para Segurança Pública e Eleições” [ing. “Public Safety and Elections Task Force”] o qual, ao mesmo tempo em que aspira a remover todas as barreiras que impedem que o dinheiro das grandes empresas e de alguns bilionários influencie o resultado de eleições, trabalha também para esterilizar a principal arma dos norte-americanos que não são nem presidentes de empresas-gigantes nem bilionários: o voto.

Esse projeto violentíssimo, chocado na burocracia e em negociações clandestinas, apareceu em 2011, afinal, à vista de todos.

Por todo o país, e mais amplamente do que nunca antes, desde os últimos dias da resistência sulista contra a desagregação, os direitos de votar só fazem diminuir sistematicamente, e não crescem nem prosperam.

A ALEC vem organizando e promovendo o assalto, encorajando seus comparsas no Congresso dos EUA e nas Assembleias estaduais a aprovar leis de identificação de eleitores quem engessam o processo eleitoral, dentre outros ataques contra o direito de votar, em mais de 36 estados.

Dentre essas leis de engessamento, a lei “Identidade do Eleitor” [ing. “Voter ID”] que está forçando milhões de norte-americanos que não tenham carta de motorista e outros vários documentos de identificação a ter de comprar documentos de identidade, se quiserem aproximar-se das urnas de votação; e outra lei, que não passa de variação de um velho demônio: a taxa eleitoral.

“Estamos enfrentando o maior ataque legislativo coordenado contra os direitos do eleitor desde os dias de Jim Crow” – diz Benjamin Jealous, presidente da Associação Nacional para a Promoção dos Negros [ing. National Association for the Advancement of Colored People (Baltimore) (NAACP)]. “As leis de Identidade do Eleitor nada são além da reencarnação das taxas eleitorais e dos testes de alfabetização para “selecionar” eleitores; e a lei que impede que votem ex-condenados serve hoje ao mesmo objetivo a que servia quando foi criada, logo depois de aprovada a 15ª Emenda, que deu direito de voto aos ex-escravos: reduzir o número de eleitores negros.”

As leis de Identidade do Eleitor são só o começo do assalto aos direitos do eleitor nos EUA. Em vários estados, em 2011, deputados e governadores conservadores, que chegaram ao poder nas eleições de 2010 trabalham, por outros meios, para também restringir o acesso dos eleitores às urnas.

No Maine, foram extintos os programas de registro de eleitores nos dias de eleição, prática que sempre permitiu que novos eleitores comparecessem às zonas eleitorais, preenchessem um formulário simples e pudessem votar imediatamente.

No estado de Ohio, está limitado o direito tradicional de votação antecipada [o direito de, em vários casos, o eleitor votar na véspera ou dois ou três dias antes da data prevista para as eleições (NT)], o que, para muitas pessoas, torna dramaticamente difícil votar. Também em Ohio, acabou a possibilidade de votar no fim de semana, o que torna praticamente impossível que trabalhadores e trabalhadoras votem nos dias em que não trabalham. Criaram-se novas restrições ao voto de estudantes nas universidades, colégios e escolas técnicas onde estudem.

Em Wisconsin, chegou-se ao cúmulo de transferir a data das eleições primárias para o meio das férias de verão, quando a maioria dos estudantes estão em férias. Em alguns estados, o número de zonas eleitorais foi reduzido e as urnas concentradas em poucos locais, impedindo, na prática, que eleitores que não tenham carro consigam chegar aos locais de votação.

No estado de Wisconsin, depois que se implantaram as leis de Identificação do Eleitor e passou-se a exigir que os cidadãos tirassem cartas de motoristas, pagas, no Department of Motor Vehicles, ainda reduziram o número de postos de atendimento daquele departamento!

“Há quase um século, havia as leis Jim Crow, para desestimular o voto dos negros” – explica Wade Henderson, presidente do Conselho de Direitos Civis e Humanos. – “Hoje, as leis são diferentes, mas o objetivo é o mesmo: impedir que milhões de norte-americanos votem.”

Qualquer um que encare com seriedade o voto, as eleições e todo o processo eleitoral perceberá imediatamente o objetivo do projeto geral: não se trata apenas de tornar o voto cada vez mais difícil. Trata-se principalmente, de tornar ainda mais difícil para os eleitores eleger deputados, governadores, senadores e presidentes interessados em regular e taxar as grandes corporações, como as Indústrias Koch, e, simultaneamente, implantar programas que atendam as necessidades da grande maioria dos norte-americanos. “Hoje, como antes, trabalham para nos impedir de votar. Assim, tornam ainda mais difícil a nossa luta por outros direitos” – diz Mike Mulgrew, presidente da Confederação dos Professores. “Tudo de que mais precisamos está ameaçado, do direito a educação de boa qualidade ao direito de salários justos.” 

Com tudo isso em mente, o NAACP, o Conselho Nacional de la Raza, o Fundo de Defesa Legal e Educação dos Asiáticos-norte-americanos e várias organizações de liberdades e direitos civis, igrejas e sindicados, apóiam hoje a campanha “Em Defesa da Liberdade, pelo Direito de Votar”.

O Movimento será lançado no sábado, com uma manifestação que partirá do prédio onde funcionam os escritórios dos irmãos Koch, e marchará até a ONU. Na ONU, os vários grupos marcarão o Dia dos Direitos Humanos, exigindo o fim do ataque aos direitos de votar, nos EUA.

A escolha do prédio dos irmãos Koch, como ponto de partida da marcha não é simbólico: é prático. Há décadas, os irmãos Koch criaram e mantêm a fundação ALEC, que, hoje, está à frente do ataque ao direito de voto dos norte-americanos em vários estados, em todo o país.

Mas os eleitores começam a reagir vigorosamente. Em novembro, os eleitores do Maine aprovaram, por vasta margem de votos, a restauração do registro eleitoral no dia da eleição. Em outros estados, os direitos do eleitor já são questão central da política local. E agora, afinal, a contestação chega ao quartel-general dos irmãos Koch – e à ONU.

“Desde a fundação de nossa nação, os americanos sempre entenderam que o voto é ferramenta fundamental em sua busca por liberdade e oportunidades iguais para todos” – diz Lillian Rodríguez López, presidenta da Federação Hispânica. “Qualquer tentativa de minar o direito de votar, sobretudo quando o esforço é dirigido contra os grupos historicamente excluídos, tem de ser tratada como ataque direto aos ideias que criaram os EUA: democracia e igualdade. Por isso estamos em campo, e continuaremos a lutar pelos direitos de voto para todos os norte-americanos”.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

“Occupy Wall Street”: o movimento mais importante do mundo hoje

Naomi Klein

7/10/2011, Naomi Klein, Commondreams
Enviado pelo Coletivo da Vila Vudu


Foi uma honra, para mim, ter sido convidada a falar em Occupy Wall Street na 5ª-feira à noite. Dado que os amplificadores estão (infelizmente) proibidos, e o que eu disser terá de ser repetido por centenas de pessoas, para que outros possam ouvir (o chamado “microfone humano”), o que vou dizer na Liberty Plaza terá de ser bem curto. Sabendo disso, distribuo aqui a versão completa, mais longa, sem cortes, da minha fala.

Occupy Wall Street é a coisa mais importante do mundo hoje [1]

Eu amo vocês.

E eu não digo isso só para que centenas de pessoas gritem de volta “eu também te amo”, apesar de que isso é, obviamente, um bônus do microfone humano. Diga aos outros o que você gostaria que eles dissessem a você, só que bem mais alto.

Ontem, um dos oradores na manifestação dos trabalhadores disse: “Nós nos encontramos uns aos outros”. Esse sentimento captura a beleza do que está sendo criado aqui. Um espaço aberto (e uma ideia tão grande que não pode ser contida por espaço nenhum) para que todas as pessoas que querem um mundo melhor se encontrem umas às outras. Sentimos muita gratidão.

Se há uma coisa que sei, é que o 1% adora uma crise. Quando as pessoas estão desesperadas e em pânico, e ninguém parece saber o que fazer: eis aí o momento ideal para nos empurrar goela abaixo a lista de políticas pró-corporações: privatizar a educação e a seguridade social, cortar os serviços públicos, livrar-se dos últimos controles sobre o poder corporativo. Com a crise econômica, isso está acontecendo no mundo todo. 

Só existe uma coisa que pode bloquear essa tática e, felizmente, é algo bastante grande: os 99%. Esses 99% estão tomando as ruas, de Madison a Madri, para dizer: “Não. Nós não vamos pagar pela sua crise”.

Esse slogan começou na Itália em 2008. Ricocheteou para Grécia, França, Irlanda e finalmente chegou a esta milha quadrada onde a crise começou.

“Por que eles estão protestando?”, perguntam-se os confusos comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: “por que vocês demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam aparecer.” E, acima de tudo, o mundo diz: “bem-vindos”.

Muitos já estabeleceram paralelos entre o Ocupar Wall Street e os assim chamados protestos antiglobalização que conquistaram a atenção do mundo em Seattle, em 1999. Foi a última vez que um movimento descentralizado, global e juvenil fez mira direta no poder das corporações. Tenho orgulho de ter sido parte do que chamamos “o movimento dos movimentos”.

Mas também há diferenças importantes. Por exemplo, nós escolhemos as cúpulas como alvos: a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional, o G-8. As cúpulas são transitórias por natureza, só duram uma semana. Isso fazia com que nós fôssemos transitórios também. Aparecíamos, éramos manchete no mundo todo, depois desaparecíamos. E na histeria hiper-patriótica e nacionalista que se seguiu aos ataques de 11 de setembro, foi fácil nos varrer completamente, pelo menos na América do Norte.

O Ocupar Wall Street, por outro lado, escolheu um alvo fixo. E vocês não estabeleceram nenhuma data final para sua presença aqui. Isso é sábio. Só quando permanecemos podemos assentar raízes. Isso é fundamental. É um fato da era da informação que muitos movimentos surgem como lindas flores e morrem rapidamente. E isso ocorre porque eles não têm raízes. Não têm planos de longo prazo para se sustentar. Quando vem a tempestade, eles são alagados.

Ser horizontal e democrático é maravilhoso. Mas esses princípios são compatíveis com o trabalho duro de construir e instituições que sejam sólidas o suficiente para aguentar as tempestades que virão. Tenho muita fé que isso acontecerá.

Há outra coisa que este movimento está fazendo certo. Vocês se comprometeram com a não-violência. Vocês se recusaram a entregar à mídia as imagens de vitrines quebradas e brigas de rua que ela, mídia, tão desesperadamente deseja. E essa tremenda disciplina significou, uma e outra vez, que a história foi a brutalidade desgraçada e gratuita da polícia, da qual vimos mais exemplos na noite passada. Enquanto isso, o apoio a este movimento só cresce. Mais sabedoria.

Mas a grande diferença que uma década faz é que, em 1999, encarávamos o capitalismo no cume de um boom econômico alucinado. O desemprego era baixo, as ações subiam. A mídia estava bêbada com o dinheiro fácil. Naquela época, tudo era empreendimento, não fechamento.

Nós apontávamos que a desregulamentação por trás da loucura cobraria um preço. Que ela danificava os padrões laborais. Que ela danificava os padrões ambientais. Que as corporações eram mais fortes que os governos e que isso danificava nossas democracias. Mas, para ser honesta com vocês, enquanto os bons tempos estavam rolando, a luta contra um sistema econômico baseado na ganância era algo difícil de se vender, pelo menos nos países ricos.

Dez anos depois, parece que já não há países ricos. Só há um bando de gente rica. Gente que ficou rica saqueando a riqueza pública e esgotando os recursos naturais ao redor do mundo.

A questão é que hoje todos são capazes de ver que o sistema é profundamente injusto e está cada vez mais fora de controle. A cobiça sem limites detona a economia global. E está detonando o mundo natural também. Estamos sobrepescando nos nossos oceanos, poluindo nossas águas com fraturas hidráulicas e perfuração profunda, adotando as formas mais sujas de energia do planeta, como as areias betuminosas de Alberta.

A atmosfera não dá conta de absorver a quantidade de carbono que lançamos nela, o que cria um aquecimento perigoso. A nova normalidade são os desastres em série: econômicos e ecológicos.

Estes são os fatos da realidade. Eles são tão nítidos, tão óbvios, que é muito mais fácil conectar-se com o público agora do que era em 1999, e daí construir o movimento rapidamente.

Sabemos, ou pelo menos pressentimos, que o mundo está de cabeça para baixo: nós nos comportamos como se o finito – os combustíveis fósseis e o espaço atmosférico que absorve suas emissões – não tivesse fim. E nos comportamos como se existissem limites inamovíveis e estritos para o que é, na realidade, abundante – os recursos financeiros para construir o tipo de sociedade de que precisamos.

A tarefa de nosso tempo é dar a volta nesse parafuso: apresentar o desafio à falsa tese da escassez. Insistir que temos como construir uma sociedade decente, inclusiva – e ao mesmo tempo respeitar os limites do que a Terra consegue aguentar.

A mudança climática significa que temos um prazo para fazer isso. Desta vez nosso movimento não pode se distrair, se dividir, se queimar ou ser levado pelos acontecimentos. Desta vez temos que dar certo. E não estou falando de regular os bancos e taxar os ricos, embora isso seja importante.

Estou falando de mudar os valores que governam nossa sociedade. Essa mudança é difícil de encaixar numa única reivindicação digerível para a mídia, e é difícil descobrir como realizá-la. Mas ela não é menos urgente por ser difícil.

É isso o que vejo acontecendo nesta praça. Na forma em que vocês se alimentam uns aos outros, se aquecem uns aos outros, compartilham informação livremente e fornecem assistência médica, aulas de meditação e treinamento na militância. O meu cartaz favorito aqui é o que diz “eu me importo com você”. Numa cultura que treina as pessoas para que evitem o olhar das outras, para dizer “deixe que morram”, esse cartaz é uma afirmação profundamente radical.

Algumas ideias finais. Nesta grande luta, eis aqui algumas coisas que não importam:

·        Nossas roupas.

·        Se apertamos as mãos ou fazemos sinais de paz.

·        Se podemos encaixar nossos sonhos de um mundo melhor numa manchete da mídia.

E eis aqui algumas coisas que, sim, importam:

·        Nossa coragem.

·        Nossa bússola moral.

·        Como tratamos uns aos outros.

Estamos encarando uma luta contra as forças econômicas e políticas mais poderosas do planeta. Isso é assustador. E na medida em que este movimento crescer, de força em força, ficará mais assustador. Estejam sempre conscientes de que haverá a tentação de adotar alvos menores – como, digamos, a pessoa sentada ao seu lado nesta reunião. Afinal de contas, essa será uma batalha mais fácil de ser vencida.

Não cedam a essa tentação. Não estou dizendo que vocês não devam apontar quando o outro fizer algo errado. Mas, desta vez, vamos nos tratar uns aos outros como pessoas que planejam trabalhar lado a lado durante muitos anos. Porque a tarefa que se apresenta para nós exige nada menos que isso.

Tratemos este momento lindo como a coisa mais importante do mundo. Porque ela é. De verdade, ela é. Mesmo.


Nota da Vila Vudu
[1] Discurso originalmente publicado no The Nation. Tradução para o português do Brasil, de Idelber Alvelar, da Revista Fórum.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

WikiLeaks: Máquina de guerra econômica

1/12/2010, Laura Flanders, The Notion (Blog de The Nation)
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Laura Flanders
17 anos depois de a lei de Bill Clinton “Não pergunte/Não conte” – espécie de armário oficializado para os militares – logo será passado. Depois de o Senado votar o fim da lei, cidadãs norte-americanas lésbicas, cidadãos norte-americanos gays e cidadãos norte-americanos bissexuais terão vencido a batalha pelo direito de servir nas Forças Armadas sem esconder o que são e sem medo de perder o emprego.

As ações do Banco da América caíram 3% na 4ª.-feira, depois de Julian Assange ter dado indicações de que tem cerca de 5 gigabytes de documentos que revelam algumas toneladas de comportamento bancário ‘não ortodoxo’ – para dizer o mínimo.

“Todos sabem que o Banco da América fez aquisições horrendas, que assumiu toneladas de papéis podres. Se relataram tudo, e se esses relatórios vazaram, o mais provável é que o Banco da América esteja tecnicamente falido” – escreveu Barry Ritholtz, blogueiro especialista em finanças.

Mas já se sabe que houve muitos erros de administração e até fraude em Wall Street. O que, então, Assange pode ter sobre o banco, que ainda não se saiba. Dado que já se sabe que o Banco da América assaltou patrimônio dos EUA, o que poderia ainda perturbá-los, caso venha a público?

Barry Ritholtz
O mais provável, contudo, é que a questão seja não o futuro, depois dos vazamentos, mas o presente e o passado, antes dos vazamentos. Ritholtz observou que é possível que a máxima perturbação seja exatamente esse “sacudir a árvore e perturbar o status quo.” E o próprio Assange já escreveu muito sobre esse tema.

Em um de seus ensaios, Assange observa que “Quanto mais secreta, menos transparente e menos justa é uma organização, mais os vazamentos causam pânico e paranóia entre os responsáveis, os apoiadores e os encarregados do planejamento.”

A ser assim, estamos olhando para o lado errado se insistimos em só prestar atenção ao que seja feito depois dos vazamentos. Muito mais interessante é analisar os vazamentos como movimento que vise a resultado de longo prazo; como movimento que vise mais a revelar uma disfunção no coração das mais poderosas instituições contemporâneas e possivelmente a desestabilizá-las, gerando algum tipo de super-reação.

Julian Assange
Pensem nas manifestações pelos direitos civis que se organizaram em balcões de lanchonetes e que foram manifestações em que os cidadãos apenas ocupavam os espaços, sem qualquer movimento [os chamados “sit-ins”], atualizadas para o século 21.

Se o ciber-ataque de Assange contra os grandes bancos for, contra os bancos, o que foram as manifestações pelos direitos civis contra outras instituições, o que Wall Street usará como canhões d’água para “dispersar” os manifestantes? Talvez acabem, pelo medo e pelo excesso na reação, molhando só as próprias calças. Mal posso esperar para ver acontecer!