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quarta-feira, 9 de maio de 2012

A emergência das forças teocratas nos EUA


Idelber Avelar

09 de maio de 2012 
Por Idelber Avelar no Blog “Outro olhar


Num momento em que o Brasil atravessa uma assustadora onda teocrata, com níveis inéditos de violência homofóbica, uma enxurrada de projetos de lei inconstitucionais, em clara violação do Artigo 19 da Carta Magna, e sucessivas concessões do governo ao neopentecostalismo mais reacionário, vale a pena revisitar a ascensão recente da direita religiosa nos Estados Unidos. Trata-se de uma história bem diferente da brasileira, sem dúvida, mas talvez ela contenha alguma lição.

Das sete eleições presidenciais realizadas nos EUA entre 1980 e 2004, os Republicanos venceram cinco. A direita religiosa foi chave em cada uma dessas cinco vitórias. Mais importante ainda, a atuação do neoevangelismo e a recusa do Partido Democrata em combatê-lo de frente foram decisivas no movimento do centro político dos EUA na direção da direita.

Posições acerca de temas econômicos e culturais que, até os anos 70, teriam sido consideradas de um conservadorismo extremista passaram a transitar pelo discurso político como se fossem centristas e razoáveis.

A emergência de um discurso que, em termos latino-americanos ou europeus, chamaríamos de esquerda, era uma possibilidade nos EUA até aquele momento (à raiz da grande mobilização dos anos 60), mas ela foi soterrada com a eleição de Ronald Reagan em 1980 e só voltaria a dar sinais de vida trinta anos depois, com o Ocupar Wall Street.

De certa forma, a hegemonia Republicana não foi interrompida por Clinton ou Obama, na medida em que seus governos foram adaptações Democratas do programa Republicano (lembre-se, por exemplo, que foi Clinton quem desmantelou o sistema de bem-estar social e foi Obama quem legalizou o assassinato extra-judicial de cidadãos acusados de “terrorismo”). Muitos fatores contribuíram para essa longa hegemonia conservadora, mas a atuação da direita neopentecostal foi decisiva.

Somente a partir da eleição de Reagan se unifica o tripé reacionário que constituiria a nova face do Partido Republicano. Esses três segmentos do conservadorismo eram, até então, relativamente independentes entre si e nem todos possuíam vida partidária ativa. A partir da década de 1980, eles se unem e formam um bloco temível: falo daquilo que, nos EUA, chamamos de conservadores econômicos (defensores do “livre mercado” e do Estado mínimo, que passam por uma trajetória de aproximação crescente a um fundamentalismo à la Ayn Rand), os falcões da política externa (representantes da indústria bélica e proponentes de um destino manifesto dos EUA de controle sobre o resto do planeta) e os conservadores sociais, que se mobilizam em torno de bandeiras como a proibição do aborto e do casamento gay, o ensino de criacionismo nas escolas e a promoção de abstinência sexual. A direita neopentecostal é o grande motor deste último grupo, até o ponto em que o rótulo “conservadores sociais” se tornou, nos EUA, uma espécie de outro nome para os teocratas.

O apoio incondicional a Israel tem sido um dos eixos da aliança entre os três setores.

Pode parecer paradoxal à primeira vista, mas o sionismo mais extremista nos EUA não tem sua base na comunidade judaica, e sim no cristianismo neopentecostal. Os que mais se mobilizam na promoção e financiamento da colonização ilegal na Palestina são os chamados cristãos renascidos, que creem que aqueles que não se reconciliarem com Cristo na sua segunda vinda à Terra estão condenados ao inferno. Note-se que se trata de um ensinamento fundamentalmente antissemita. Mas a acusação de antissemitismo, claro, nunca é feita a esses grupos, já que seu apoio a Israel é incondicional. A “resolução” desse bizarro paradoxo se dá através da doutrina do chamado “dispensacionalismo”, que preconiza que o controle completo de toda a Palestina pelo estado de Israel é um prerrequisito para a segunda vinda do Messias.

Um dos equívocos mais comuns na compreensão dos teocratas ocidentais de hoje em dia é acreditar que eles são um mero resquício, uma sobrevivência medieval ou pré-moderna, fadada a desaparecer quando as sociedades se secularizarem por completo. Nada é mais falso. Trata-se de uma operação especificamente moderna, com raízes no colonialismo inglês do século XIX e muito ancorada nas novas tecnologias.

Pat Robertson, por exemplo, um dos principais líderes da direita religiosa dos EUA, construiu seu império como evangelista televisivo, começando com o estabelecimento do Christian Broadcasting Network (CBN), em 1960, uma intensa campanha para a compra de receptores de TV a cabo entre neopentecostais nos anos 60, a fundação do Canal da Família nos anos 70 e a explosão de programas de TV evangélicos nos anos 80.

Nessa mesma década, Robertson se consolidaria como arrecadador para os contras da Nicarágua e parceiro de Ronald Reagan na confecção da aliança que selou o pacto entre falcões da política externa, conservadores sociais e conservadores econômicos. Seria em 1983, justamente na convenção da Associação Nacional de Evangélicos, que Ronald Reagan faria o pronunciamento... 
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quinta-feira, 29 de março de 2012

Desarquivando o Brasil: O luto numa terra de cadáveres insepultos



Postado em 29/3/2012 – 00:48 h por Idelber Avelar


Convocada pela jornalista Niara de Oliveira, reúne-se a partir de ontem até o dia 02 de abril, em vários blogs, a 5ª Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR, um esforço de cobrança, reflexão e ativismo sobre os rumos da nossa memória como país. 

Nos termos da convocação: O objetivo dessa blogagem continua sendo a abertura dos arquivos secretos da ditadura militar, a investigação dos crimes e violações de direitos humanos cometidos pelo Estado brasileiro contra cidadãos, a localização dos corpos e restos mortais dos desaparecidos políticos, e a revisão da Lei da Anistia para que se possa processar e punir criminalmente os torturadores, além de responsabilizar o próprio Estado pelos crimes de tortura, assassinato e desaparecimento forçado no período entre 1964 e 1979. 

Chamo a atenção especialmente para as
vinte e seis impressionantes postagens de Pádua Fernandes, que vão...==> Continue lendo

sábado, 17 de março de 2012

Biblioteca Latino-Americana: Xangô, o grande fodão [Changó, el gran putas], de Manuel Zapata Olivella


16 de março de 2012 às 5:28 
Idelber Avelar
Lembrado pelo pessoal da Vila Vudu

Como sabe quem tem acompanhado este blogue, a tag Biblioteca Latino-Americana é um cantinho reservado aqui na Fórum para uma coleção de notas introdutórias, breves resenhas que apresentam o leitor brasileiro a obras canônicas do pensamento hispano-americano.

Minha ideia até agora era ater-me à tradição ensaística do continente, mas meu contato, nas últimas semanas, com um romance genial e desconhecido no Brasil me fez mudar de ideia, inclusive porque se trata aqui de uma ficção na qual há tanto pensamento como nos ensaios mais ricos. 

Falo de Xangô, o grande fodão, livre tradução minha para Changó, el gran putas (1983), monumental obra do escritor e antropólogo afro-colombiano Manuel Zapata Olivella, já traduzida ao inglês mas da qual não há sequer notícia em português.

Manuel Zapata Olivella
Manuel Zapata Olivella nasceu em 1920 em Santa Cruz de Lorica, na província de Córdoba, a pouco mais de 20 km da Costa Caribe colombiana. Morreu em Bogotá em 2004. 

Não seria exagero propor que se trata do escritor e intelectual afrocolombiano mais destacado de todos os tempos. Respeitado e venerado na melhor tradição do preto véio, Zapata Olivella fez, cedo, sua morada em Cartagena de Índias, junto com Barranquilla um dos dois grandes polos urbanos da Colômbia Atlântica. Mas também viajou como poucos. 

No belíssimo documentário de Maria Adelaida López sobre sua vida e obra, aprendemos que ele queria ser veterinário, mas o pai o enviou à Universidade Nacional, em Bogotá, para estudar “o maior animal de todos” (seu pai, Antonio María Zapata, havia sido o primeiro negro graduado da Universidade de Cartagena). Curiosamente, depois... continue lendo

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

“Occupy Wall Street”: o movimento mais importante do mundo hoje

Naomi Klein

7/10/2011, Naomi Klein, Commondreams
Enviado pelo Coletivo da Vila Vudu


Foi uma honra, para mim, ter sido convidada a falar em Occupy Wall Street na 5ª-feira à noite. Dado que os amplificadores estão (infelizmente) proibidos, e o que eu disser terá de ser repetido por centenas de pessoas, para que outros possam ouvir (o chamado “microfone humano”), o que vou dizer na Liberty Plaza terá de ser bem curto. Sabendo disso, distribuo aqui a versão completa, mais longa, sem cortes, da minha fala.

Occupy Wall Street é a coisa mais importante do mundo hoje [1]

Eu amo vocês.

E eu não digo isso só para que centenas de pessoas gritem de volta “eu também te amo”, apesar de que isso é, obviamente, um bônus do microfone humano. Diga aos outros o que você gostaria que eles dissessem a você, só que bem mais alto.

Ontem, um dos oradores na manifestação dos trabalhadores disse: “Nós nos encontramos uns aos outros”. Esse sentimento captura a beleza do que está sendo criado aqui. Um espaço aberto (e uma ideia tão grande que não pode ser contida por espaço nenhum) para que todas as pessoas que querem um mundo melhor se encontrem umas às outras. Sentimos muita gratidão.

Se há uma coisa que sei, é que o 1% adora uma crise. Quando as pessoas estão desesperadas e em pânico, e ninguém parece saber o que fazer: eis aí o momento ideal para nos empurrar goela abaixo a lista de políticas pró-corporações: privatizar a educação e a seguridade social, cortar os serviços públicos, livrar-se dos últimos controles sobre o poder corporativo. Com a crise econômica, isso está acontecendo no mundo todo. 

Só existe uma coisa que pode bloquear essa tática e, felizmente, é algo bastante grande: os 99%. Esses 99% estão tomando as ruas, de Madison a Madri, para dizer: “Não. Nós não vamos pagar pela sua crise”.

Esse slogan começou na Itália em 2008. Ricocheteou para Grécia, França, Irlanda e finalmente chegou a esta milha quadrada onde a crise começou.

“Por que eles estão protestando?”, perguntam-se os confusos comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: “por que vocês demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam aparecer.” E, acima de tudo, o mundo diz: “bem-vindos”.

Muitos já estabeleceram paralelos entre o Ocupar Wall Street e os assim chamados protestos antiglobalização que conquistaram a atenção do mundo em Seattle, em 1999. Foi a última vez que um movimento descentralizado, global e juvenil fez mira direta no poder das corporações. Tenho orgulho de ter sido parte do que chamamos “o movimento dos movimentos”.

Mas também há diferenças importantes. Por exemplo, nós escolhemos as cúpulas como alvos: a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional, o G-8. As cúpulas são transitórias por natureza, só duram uma semana. Isso fazia com que nós fôssemos transitórios também. Aparecíamos, éramos manchete no mundo todo, depois desaparecíamos. E na histeria hiper-patriótica e nacionalista que se seguiu aos ataques de 11 de setembro, foi fácil nos varrer completamente, pelo menos na América do Norte.

O Ocupar Wall Street, por outro lado, escolheu um alvo fixo. E vocês não estabeleceram nenhuma data final para sua presença aqui. Isso é sábio. Só quando permanecemos podemos assentar raízes. Isso é fundamental. É um fato da era da informação que muitos movimentos surgem como lindas flores e morrem rapidamente. E isso ocorre porque eles não têm raízes. Não têm planos de longo prazo para se sustentar. Quando vem a tempestade, eles são alagados.

Ser horizontal e democrático é maravilhoso. Mas esses princípios são compatíveis com o trabalho duro de construir e instituições que sejam sólidas o suficiente para aguentar as tempestades que virão. Tenho muita fé que isso acontecerá.

Há outra coisa que este movimento está fazendo certo. Vocês se comprometeram com a não-violência. Vocês se recusaram a entregar à mídia as imagens de vitrines quebradas e brigas de rua que ela, mídia, tão desesperadamente deseja. E essa tremenda disciplina significou, uma e outra vez, que a história foi a brutalidade desgraçada e gratuita da polícia, da qual vimos mais exemplos na noite passada. Enquanto isso, o apoio a este movimento só cresce. Mais sabedoria.

Mas a grande diferença que uma década faz é que, em 1999, encarávamos o capitalismo no cume de um boom econômico alucinado. O desemprego era baixo, as ações subiam. A mídia estava bêbada com o dinheiro fácil. Naquela época, tudo era empreendimento, não fechamento.

Nós apontávamos que a desregulamentação por trás da loucura cobraria um preço. Que ela danificava os padrões laborais. Que ela danificava os padrões ambientais. Que as corporações eram mais fortes que os governos e que isso danificava nossas democracias. Mas, para ser honesta com vocês, enquanto os bons tempos estavam rolando, a luta contra um sistema econômico baseado na ganância era algo difícil de se vender, pelo menos nos países ricos.

Dez anos depois, parece que já não há países ricos. Só há um bando de gente rica. Gente que ficou rica saqueando a riqueza pública e esgotando os recursos naturais ao redor do mundo.

A questão é que hoje todos são capazes de ver que o sistema é profundamente injusto e está cada vez mais fora de controle. A cobiça sem limites detona a economia global. E está detonando o mundo natural também. Estamos sobrepescando nos nossos oceanos, poluindo nossas águas com fraturas hidráulicas e perfuração profunda, adotando as formas mais sujas de energia do planeta, como as areias betuminosas de Alberta.

A atmosfera não dá conta de absorver a quantidade de carbono que lançamos nela, o que cria um aquecimento perigoso. A nova normalidade são os desastres em série: econômicos e ecológicos.

Estes são os fatos da realidade. Eles são tão nítidos, tão óbvios, que é muito mais fácil conectar-se com o público agora do que era em 1999, e daí construir o movimento rapidamente.

Sabemos, ou pelo menos pressentimos, que o mundo está de cabeça para baixo: nós nos comportamos como se o finito – os combustíveis fósseis e o espaço atmosférico que absorve suas emissões – não tivesse fim. E nos comportamos como se existissem limites inamovíveis e estritos para o que é, na realidade, abundante – os recursos financeiros para construir o tipo de sociedade de que precisamos.

A tarefa de nosso tempo é dar a volta nesse parafuso: apresentar o desafio à falsa tese da escassez. Insistir que temos como construir uma sociedade decente, inclusiva – e ao mesmo tempo respeitar os limites do que a Terra consegue aguentar.

A mudança climática significa que temos um prazo para fazer isso. Desta vez nosso movimento não pode se distrair, se dividir, se queimar ou ser levado pelos acontecimentos. Desta vez temos que dar certo. E não estou falando de regular os bancos e taxar os ricos, embora isso seja importante.

Estou falando de mudar os valores que governam nossa sociedade. Essa mudança é difícil de encaixar numa única reivindicação digerível para a mídia, e é difícil descobrir como realizá-la. Mas ela não é menos urgente por ser difícil.

É isso o que vejo acontecendo nesta praça. Na forma em que vocês se alimentam uns aos outros, se aquecem uns aos outros, compartilham informação livremente e fornecem assistência médica, aulas de meditação e treinamento na militância. O meu cartaz favorito aqui é o que diz “eu me importo com você”. Numa cultura que treina as pessoas para que evitem o olhar das outras, para dizer “deixe que morram”, esse cartaz é uma afirmação profundamente radical.

Algumas ideias finais. Nesta grande luta, eis aqui algumas coisas que não importam:

·        Nossas roupas.

·        Se apertamos as mãos ou fazemos sinais de paz.

·        Se podemos encaixar nossos sonhos de um mundo melhor numa manchete da mídia.

E eis aqui algumas coisas que, sim, importam:

·        Nossa coragem.

·        Nossa bússola moral.

·        Como tratamos uns aos outros.

Estamos encarando uma luta contra as forças econômicas e políticas mais poderosas do planeta. Isso é assustador. E na medida em que este movimento crescer, de força em força, ficará mais assustador. Estejam sempre conscientes de que haverá a tentação de adotar alvos menores – como, digamos, a pessoa sentada ao seu lado nesta reunião. Afinal de contas, essa será uma batalha mais fácil de ser vencida.

Não cedam a essa tentação. Não estou dizendo que vocês não devam apontar quando o outro fizer algo errado. Mas, desta vez, vamos nos tratar uns aos outros como pessoas que planejam trabalhar lado a lado durante muitos anos. Porque a tarefa que se apresenta para nós exige nada menos que isso.

Tratemos este momento lindo como a coisa mais importante do mundo. Porque ela é. De verdade, ela é. Mesmo.


Nota da Vila Vudu
[1] Discurso originalmente publicado no The Nation. Tradução para o português do Brasil, de Idelber Alvelar, da Revista Fórum.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Algumas notas sobre a tradução do termo “settlement” no contexto da ocupação israelense

05 de outubro de 2011 às 10:10
Israeli settlement of Har Homa constructed on village land of Beit Sahour (image from whypalestine blog)
Colônia exclusiva para judeus Har Homa, construída ilegalmente na aldeia de Beit Sahour, a leste de Belém; daqui.

Faz umas duas semanas, rolou lá no Viomundo um enorme balacobaco a propósito da tradução da Vila Vudu de um texto do israelense Uri Avnery, ferrenho opositor da política de ocupação levada a cabo pelo seu governo sobre os territórios palestinos. O texto de Avnery, intitulado “Dogs of War” [Cães de Guerra], denuncia as manobras israelenses para reprimir a mobilização palestina que vem ocorrendo no bojo do pedido de reconhecimento do “estado” palestino à ONU. Os cães de guarda a que se refere o texto de Avnery são os quase 500.000 colonos judeus ilegais que continuam ocupando terras palestinas na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.

Num determinado momento do texto, Avnery diz: Their task is to protect the settlements and attack Palestinians. They are settler-dogs, or, rather, dog-settlers. Tradução da Vila Vudu: A tarefa deles é proteger os colonos judeus e atacar os palestinos. São cães colonos judeus ou, melhor, colonos judeus cães. A inserção da palavra “judeu” junto à palavra “cães” foi tomada pelo jornalista Bernardo Kucinski para atribuir conteúdo antissemita à tradução da Vila Vudu. Essa inserção – que é, em outros contextos, um recurso legítimo para que o leitor de língua portuguesa entenda o que significa “colono” dentro da realidade da ocupação israelense—ecoava, argumentou o jornalista, utilizações antissemitas do termo “cães” para referenciar judeus. Caia Fittipaldi, respondendo em nome da Vila Vudu, deu razão parcial ao jornalista, mas elencou uma série de argumentos pra defender os princípios que regem as traduções do coletivo. Esses argumentos, no meu modo de ver, ficaram sem resposta. Sobre todos os crimes denunciados por Avnery, um judeu fundador do estado de Israel e combatente na guerra de 1948, Kucinski, evidentemente,  não disse nada.

Este post não é pra entrar na pendenga, inclusive porque, à luz da própria entrevista de Kucinski ao Viomundo, não há muito mais o que dizer acerca de suas declarações sobre 1948. Depois de repetir a propaganda oficial israelense de que o fato gerador do exílio palestino foi a invasão de seis exércitos de países árabes que não aceitaram o plano de partilha proposta pela ONU em 1947, Kucinski declara: não conheço Finkelstein nem Pappé. Fazer afirmações sobre o que aconteceu em 1948 para, na frase seguinte, confessar desconhecer Pappé e Finkelstein é como dizer o que foi o futebol paulista nos anos 60 e logo depois declarar não saber quem foram Pelé e Ademir da Guia. É como pontificar sobre o que é a antropologia para, em seguida, declarar desconhecer Franz Boas e Claude Lévi-Strauss. Sobre isso, nada a acrescentar além do baile de argumentos oferecido pelos próprios leitores do Viomundo, em especial por Pedro Germano Leal.

O objetivo aqui é só reforçar uma escolha da equipe de tradutores da Vila Vudu que também é a minha, ao traduzir textos sobre o assunto: formar língua de chegada de tal forma que não se obscureça aquilo que é compreendido por qualquer leitor do original que possua o mínimo contexto. Em particular, há tempos venho me batendo sobre a tradução da palavra settlement, que aparece na mídia brasileira traduzida doce, inofensivamente como assentamentos, assim, sem mais. Eu sempre o traduzi como assentamentos colonizadores. O pessoal da Vila Vudu opta por colônias exclusivas para judeus. Considero a tradução da Vila Vudu melhor que a minha e passarei a adotá-la daqui em diante.

Um brasileiro que leia assentamentos provavelmente pensará em assentamentos rurais (uma das primeiras associações que vêm à mente, claro, é o MST) ou espaços precários e provisórios.

É uma forma de traduzir “literalmente” que esconde, em vez de revelar, o sentido presente no original.

As colônias ilegais israelenses são fortalezas ilegais, brutalmente armadas, exclusivas para judeus, invariavelmente construídas em território mais elevado e fonte de constantes agressões contra palestinos.

Além de serem ilegais segundo a legislação internacional, as colônias exclusivas para judeus na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental são, em grande parte, habitadas por fanáticos religiosos que defendem seu direito sobre a terra com base na Bíblia.

Os colonos ilegalmente situados nessas fortalezas desfrutam de estradas exclusivas, proteção do exército (há uma enorme teia de relações entre os colonos e a hierarquia do exército de ocupação), virtual monopólio sobre a escassa água da região e total impunidade em seus crimes de agressão, assassinato e tortura contra palestinos.

Eles possuem completa liberdade de trânsito em terras palestinas e não são submetidos às humilhações dos postos de controle que picotam todo o território ocupado.

Em alguns lugares, como Hebrom, a construção de colônias sobre as casas e lojas palestinas permite que os colonos, por exemplo, despejem suas fezes e urina sobre os palestinos, obrigando-os a viver enclausurados em lonas protetoras.

A distinção entre “judeu” e “israelense” não se aplica aqui: não há árabes israelenses nos assentamentos colonizadores.

Portanto, nesta polêmica, estou com a Vila Vudu: na próxima vez que encontrar o termo “assentamentos” na mídia brasileira, lembre-se de perguntar ao seu jornal ou revista favorita o que a palavra revela e o que ela esconde.


Idelber Avelar é colunista da “Revista Fórum  - Outro mundo em debate”.
Professor of Spanish and Portuguese
Tulane University
New Orleans, LA 70118

Texto enviado pelo autor e publicado inicialmente na Revista Fórum

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Resenha de “Crítica cheia de graça” - José Ramos Tinhorão



Esta compilação de trabalhos do pesquisador José Ramos Tinhorão traz quinze artigos sobre artistas ou gêneros da música popular (dois deles inéditos, posto que censurados pela ditadura), duas belas entrevistas (uma com João da Baiana, publicada em 1971 na Veja, e uma inédita, com o pioneiro radialista Ademar Casé, também destinada à revista e vetada por um dos editores), uma série de breves textos sobre a história das gafieiras, publicados em 1965 no Diário Carioca, e um apêndice que contém uma sátira sobre o Gênesis e dois breves ensaios sobre o século XVIII francês. 

Excetuando-se esta última parte, o volume reitera o perfil já conhecido dos leitores de Tinhorão: um erudito autodidata, feroz na defesa do nacionalismo musical e das expressões culturais das classes populares, inimigo declarado do que ele percebe como o estrangeirismo da bossa nova e a falta de autenticidade das elites brasileiras. 

Seja nos ataques a Realce, de Gilberto Gil, ao violão de João Gilberto e ao piano de Johnny Alf, ou na celebração do calango mineiro, da cantoria e das obras de Patativa do Assaré, Martinho da Vila, Geraldo Vandré e mesmo de Chico Buarque (elogiado num artigo cujo título afirma que Chico “é mesmo o melhor”), não há grandes surpresas neste volume para aqueles que acompanham a trajetória de Tinhorão.

Daí não se segue que o livro seja desprovido de interesse. 

A compilação oferece um ótimo panorama do que foi a atividade crítica de Tinhorão da década de 60 a princípios dos anos 80, especialmente no Jornal do Brasil. São todos eles textos breves, de duas a três páginas. 

É sintomático que os dois artigos censurados pela ditadura tenham sido aqueles dedicados a Chico Buarque de Hollanda, vítima preferencial das tesouras dos militares, e aos artistas negros brasileiros. 

No texto intitulado “Por que artista crioulo tem sempre que ser engraçado?”, Tinhorão toca numa manifestação bem particular do racismo brasileiro. Citando como exemplos os Originais do Samba, Jair Rodrigues e Martinho da Vila, Tinhorão propõe que “tocar seu instrumento fazendo piruetas ou cantar rindo” se transformou em requisito para que o artista negro aceda ao primeiro plano nos palcos. Trata-se da conversão forçada da figura do artista negro em peça exótica ou engraçada. A observação me parece perfeita, e é inclusive verificável em outras áreas da indústria do entretenimento. 

Na televisão e no cinema, atestam a afirmação de Tinhorão as trajetórias de figuras como Mussum e Grande Otelo. 

No entanto, como frequentemente é o caso com Tinhorão, há distinções taxativas que não parecem resistir a um exame dos fatos. 

Terá sido somente nos anos 60, como ele afirma, que surgiu a “necessidade de usar a linha de cor de uma maneira mais rigorosa”? Terão sido os programas de televisão dos anos 50 caracterizados pela avaliação dos dotes dos artistas “de um ponto de vista de absoluta igualdade”, como afirma o autor? Conhecendo-se a história do racismo brasileiro — do qual não esteve imune, por exemplo, Jackson do Pandeiro, que debutou na TV nos anos 50 –parece-me difícil seguir Tinhorão numa distinção cronológica tão taxativa, que pressupõe que os primeiros programas de televisão no Brasil tenham se mantido, de alguma forma, intocados pelo racismo.

Nem mesmo os muitos desafetos e críticos que Tinhorão ganhou ao longo dos anos lhe costumam negar um mérito, que também a mim parece indiscutível: seus dotes de pesquisador erudito e conhecedor profundo da história da música brasileira. 

Quando trata de música popular, especialmente dos gêneros e artistas nos quais reconhece valor, Tinhorão sabe do que fala. Isso é ponto pacífico. 

Este volume traz duas manifestações especiais destes dotes, um excepcional artigo sobre o calango mineiro e um breve estudo sobre as origens da música urbana. 

No texto sobre o calango, publicado em 1981 no Jornal do Brasil, Tinhorão nota que sequer a edição de 1975 do Novo Dicionário Aurélio registrava o vocábulo “calango” na acepção de canto e dança. Tinhorão oferece uma bela introdução a essa dança mineira e fluminense “em ritmo quaternário, dois por quatro, par enlaçado e sem complicações coreográficas”, em cuja forma cantada “o solista diz quadrinhas e o coro repete o refrão”. Tinhorão vai além e demonstra como o calango é uma via de contato entre Minas Gerais e o Nordeste, sendo nada menos que a “versão mineira da embolada do coco nordestino”. 

Por influência ou não desse artigo, a segunda edição do Aurélio, de 1986, já incluía os termos “calango”, “calanguear”, “calangueado” e “calangueiro”, em suas acepções musicais.

No texto sobre as origens da música urbana, “A música urbana nasce com a canção de amor”, Tinhorão rende tributo aos músicos de escola e de capela, que seguiram a tradição dos trovadores palacianos dos séculos XIV e XV. 

Segundo Tinhorão, eles “encaminhavam-se através do virtuosismo contrapontístico na direção do canto polifônico e coral, os tocadores do povo, sucessores dos jograis e artistas de rua medievais, passavam a transformar em cantigas autônomas as partes líricas dos denominados ‘romances velhos’ , herdeiros da cantoria cavaleiresca quase recitada das canções de gesta” (p. 74).

Trechos como este nos fazem sentir saudades da época em que os jornais tinham colunistas de música capazes de eruditas exposições históricas perfeitamente compreensíveis por qualquer leitor regular não-especializado. Nesse caso, tratava-se de um estudo sobre as origens amorosas medievais da canção urbana, que aparecia numa coluna regular do impresso, em forma de um breve texto de três laudas.

A dica de Tinhorão acerca das origens trovadoras da canção urbana abre um canal de diálogo entre estudos de música popular e de literatura acerca de um período histórico sobre cujos estudos não costuma haver grande diálogo: a Idade Média e a primeira Era Moderna. 

Nem as Faculdades de Letras costumam tocar na parte musical das cantigas medievais de amor, de amigo, de escárnio e de maldizer, nem as Faculdades de Música incluem, em geral, profissionais especializados no texto poético. 

Com sua erudição de pesquisador autodidata, Tinhorão foi dos que melhor abriram caminhos de pesquisa como este, inexplorado devido à sobreespecialização na universidade. 

Tinhorão argumenta que a popularização das chamadas guitarras (as violas simplificadas em Portugal de 1500) foi chave para a transformação da cantilena baseada quase que somente na musicalidade das próprias palavras em canto melódico acompanhado. Eis aí a manifestação por excelência da música brasileira popular urbana, a canção, filha de um processo de democratização do espaço da cidade: a música saía do espaço circunscrito das produções da Igreja e entrava no terreno da experiência coletiva da polis. Seria como mediadora da relação amorosa, mostra o autor, que essa forma, a canção, sentaria raízes na pólis pela primeira vez.

Para os que conhecem a trajetória de Tinhorão e já se acostumaram com suas posições sobre o que é música autenticamente nacional e o que é macaqueamento da cultura estrangeira, este volume traz bastante material: críticas ao “brinquedo musical” de João Gilberto, ataques ao americanismo de Johnny Alf, torpedos contra Realce, de Gilberto Gil, como pausterização de música pop estadunidense, interessante contraposição entre um nissei cantando sertanejo (autêntico, posto que homenageia a colônia japonesa via referência à guarânia paraguaia) e um brasileiro cantando rock (inautêntico, posto que padece a condição de vítima da indústria cultural e do imperialismo). 

Essas posições são taxativas linhas divisórias nos debates sobre música brasileira popular contemporâneos e não seria incorreto sugerir que Tinhorão passou a representar o segmento neles minoritário. 

Cada volume publicado por ele, mesmo que sem novidades no que se refere a esse antagonismo tão conhecido, renova o que deve ser sempre ressaltado: o fato de que a notável solvência de sua pesquisa permanece, incólume, independente do dogmatismo que se possa apontar em suas dicotomias valorativas. 

A extrema qualidade desse trabalho se manifesta em Crítica cheia de graça também no elogio ao disco Cantoria (emblemático, para Tinhorão, da criatividade da arte popular), no estudo dedicado ao cantador pernambucano Oliveira de Panelas (em disco produzido por Zé Ramalho) e no artigo sobre a poesia de Patativa do Assaré. 

São momentos cintilantes de jornalismo musical da melhor qualidade, com conhecimento de causa e paixão pelo objeto de estudo.

Esta é a razão pela qual os melhores momentos deste livro sejam aqueles em que Tinhorão deixa seu objeto falar por si: as entrevistas com João da Baiana e Ademar Casé. Em especial o comovente depoimento do velho sambista “de Ogum e de Xangô” já seria suficiente para saudar esta publicação como indispensável para os estudiosos de música brasileira popular. Mas há muito mais e, como dito acima, três ítens são inéditos, dois deles censurados pela ditadura e um terceiro pela própria editoria da revista. Não é o dado menos revelador desta oportuna publicação.

Extraído do Blog Outro Olhar do Idelber Avelar

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Carta aberta ao governador Tarso Genro, do Rio Grande do Sul

De: Vila Vudu, São Paulo
Em: 10/5/2011 
Sancione a “Lei da Língua” do Deputado Raul Carrion, Governador!

Imagine-se que Newton (o dos Principia) recebesse, um belo dia, uma carta de um dos professores da Igreja do século 17, que lhe dissessem que “não se atreva!” [a escrever leis sobre os céus], porque só Deus é autoridade para escrever leis sobre os céus. 

O absurdo seria o mesmo, se um gnomo, um dia, escrevesse à presidenta Dilma e lhe dissesse que “não se atreva!” [a escrever leis sobre a Floresta Amazônica], porque só os gnomos são autoridade para escrever leis sobre florestas. 

Esses exemplos caricatos são úteis, porque fazem aparecer o absurdo evidente: primeiro, porque em todos os casos, nas sociedades humanas, sempre há e sempre haverá quem se interesse por legislar sobre o mundo social. Evidentemente, quem se interesse por legislar sobre línguas, tem e deve ter perfeito direito democrático de fazê-lo. A ideia de que “não se atreva a legislar” sobre isso ou aquilo é doideira – quando não é o liberalismo conservador mais leviano e arrogante – ou de professores de igrejas e igrejinhas, ou de gnomos. 

Em segundo lugar, também é perfeito absurdo pretender que “não se legisla sobre língua”. 

A língua é construto social, só existe inteira dentro da sociedade da qual é parte constitutiva e potência constituinte. Assim, a língua está sujeita, como todos os construtos sociais e potências constituintes, às vicissitudes em função das quais a humanidade se faz leis. 

Portanto, pode-se definir como direito inalienável das sociedades (1) legislar sobre o que bem entenderem; e (2) legislar sobre língua, se uma ou outra sociedade entender que alguma lei sobre língua é necessária ou útil. 

O argumento de que não se poderia legislar sobre língua, porque a língua “é viva”, como escreveu o professor Idelber Avelar em “Carta aberta ao Governador Tarso Genro” (adiante, cortada-colada para referência) é tão completamente absurdo quanto pretender que não se poderia legislar sobre a preservação da Floresta Amazônica. A Floresta Amazônica e todos os seres que nela e dela vivem, afinal, são tão perfeita e absolutamente “vivos” quanto qualquer língua e seus falantes. Ou que não se poderia legislar sobre a preservação de tartarugas e golfinhos, sob o argumento segundo o qual, de tão “vivos” que são, poderiam ser deixados entregues às forças... da seleção natural. 

O argumento segundo o qual a vida é viva e, por isso, poderia ser deixada, rendida, à “natureza”, é tão epistemologicamente e historicamente e linguisticamente ridículo, que quase nem se vê o quanto é reacionário. É perfeita, rematada – e muito reacionária – bobagem. 

Verdade, mesmo, é que já se legislou, com efeito muito produtivo, até sobre língua dita “morta”: Israel fez exatamente isso, com extraordinário, sensacional sucesso, ao fazer do hebraico dado como língua morta, a língua vivíssima que hoje já é primeira língua de milhões de falantes. O que Israel fez fê-lo por lei e não teria feito sem leis (aliadas a muito bom saber lingüístico, claro, de lingüistas que JAMAIS diriam que “não se legisla sobre língua” – o mantra tolo, a asnice oficial, de parte significativa da patética ‘linguística’ brasileira). 

Verdade é que, exatamente ao contrário do que nunca se cansam de repetir alguns linguistas brasileiros, o mundo está cheio de “leis sobre línguas”, sempre requisitadas pelas sociedades como instrumento necessário. 

Há milhares – sim, senhor! Milhares – de leis sobre língua, produzidas em todo o planeta, exatamente em 318 países, reunidas, por exemplo, na página “L’Amenagement Linguistique dans le Monde”, mantida pela Université Laval, do Canadá, na Internet. Essa página é gigantesca, e os interessados encontram lá leis sobre línguas, para todos os gostos. 

Assim se dá por provado que, sim, se legisla sobre língua. E que se pode legislar muito democrática e muito legitimamente sobre língua –, exatamente o contrário do que ensina o prof. Idelber Avelar, dentre outros ‘inteligentíssimos’ ou metidos a.

As leis de língua podem ser abordadas a partir de uma posição política e, também, a partir de uma posição científica. Nos dois casos, claro, a discussão pode ser complexa, mas a evidência de que uma discussão seja complexa jamais foi argumento democraticamente válido para fugir da discussão e pretender ‘resolver’ a questão por argumentos de autoridade.

Um caso de lei de língua abordada por posição política clara pode ser lindamente exemplificada pelo discurso dos guerrilheiros angolanos que, um dia, souberam que havia em discussão no Brasil uma lei apresentada como “de preservação da língua portuguesa do Brasil”. Aqueles atormentados guerrilheiros angolanos correram a se manifestar contra a tal lei. 

Rejeitavam a lei que lhes parecia reacionária, e, claro, pediram outras leis, que mais lhes interessavam. Disseram que: 

[Guerrilheiros de Angola, em 1979] “Não, não, de jeito nenhum! Essa lei é inadmissível! Se a língua portuguesa for muito protegida, estamos é danados, nós, de vez! Cá em Angola, só os ricos falam português. Os pobres falam mais de cem línguas nativas, e esse, aliás, é um dos motivos pelos quais pouco se entendem entre si e absolutamente não se entendem com os ricos. E os vendedores planetários de armas só falam inglês. 

Então, por favor, quem quiser ajudar Angola, que escreva logo uma lei que obrigue as escolas a ensinar todas as línguas a todos os pobres: o português dos ricos, faz favor, para todos; e o inglês dos comerciantes de armas, no mínimo, só para nós, para que eles nos engambelem menos facilmente. Sendo possível, ok, que ensinem inglês para todos. E além dessas duas línguas, e também para todos, e para que não se percam as línguas tradicionais que já estão por um fio, e nas quais os pobres somos criados – que ensinem também línguas tribais, todas, para todos. 

Sendo possível, escrevam também uma lei que obrigue as escolas a alfabetizar as crianças nas línguas de suas respectivas tribos. Onde e quando as línguas tradicionais tribais não conheçam a escrita, chamem linguistas competentes que construam grafias. A grafia, afinal, sempre é artificial e sempre aparece muito depois da língua falada. Os tais linguistas que trabalhem e façam serviço útil aos pobres, afinal, prá variar!”

Outro bom exemplo de lei de língua, também proposta como ativa militância política democrática e de resistência cultural e política, é o que se vê no Brasil, no município de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas. 

Ali, em 2002, escreveu-se, votou-se e aprovou-se muito democraticamente – belo trabalho das comunidades indígenas locais e do Instituto de Investigação e Desenvolvimento de Políticas Lingüísticas (Ipol) a pedido da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) – uma lei que co-oficializa as línguas Nheengatu, Tukano e Baniwa: a lei municipal 145/2002, aprovada no dia 22/11/2002, proposta pelo vereador indígena Camico Baniwa. Por essa lei, tornaram-se “línguas co-oficiais”, naquele município, as línguas ali faladas. As populações indígenas ganharam o direito de ter seus filhos alfabetizados nas suas línguas tradicionais e em português. As placas de rua são obrigatoriamente apresentadas nos dois (e mais) idiomas locais. 

E há, na cidade, jornais absolutamente diferentes, um para cada idioma ali co-oficial. 
É muito mais do que há, por exemplo, em São Paulo, uma das mais pujantes metrópoles do planeta, mas onde, desgraçadamente, tooooodos os jornais e noticiários de televisão são absolutamente idênticos (e identicamente desdemocráticos e desdemocratizatórios).

A lei de língua de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, Brasil, como se vê, é lei que foi requisitada e conquistada por uma comunidade social humana vivíssima, e lei perfeitamente democrática.

A possibilidade de legislar-se sobre língua, apresentada e defendida como “posição científica”, também se comprova em magníficos trabalhos no campo da lingüística séria – em muito diferente da lingüística leviana e pretensiosa que se ensina no Brasil.  

Há sólidos trabalhos de lingüística, com declarado conteúdo político, que fortemente recomendam que os países defendam por lei, seus idiomas locais ou nacionais, no caso de que os sintam cultural ou politicamente (ou, até, militarmente!) ameaçados. Nesses casos, fala-se de “políticas linguísticas de democratização e preservação de idiomas que se sintam ameaçados”. 

O exemplo mais famoso desses estudos, no mundo – embora continue perfeitamente ignorado na ridícula linguística brasileira –, é o trabalho do Professor Robert Phillipson, dinamarquês, exposto em seu livro, de 1992, Linguistic Imperialism (sem tradução para o português, apesar de ser item obrigatório de bibliografia especializada em universidades de todo o planeta). 

Bom resumo do seu pensamento atualizado encontra-se na conferência que o prof. Phillipson fez no simpósio “DUO IV Dialogue under occupation”, Washington DC, 2-4/6/2010, “Americanisation and Englishisation as processes of global occupation” [“Americanização e anglicização como processos de ocupação global”] (em , PDF, em inglês). No resumo dessa conferência, escreveu o prof. Phillipson, ano passado:

“Os que defendem o idioma inglês como universalmente válido, aí incluída a atual moda na lingüística aplicada, de analisar o inglês como “língua franca”, veem o inglês como lingua nullius [língua de ninguém], separada das forças que comandam sua expansão política. A integração da educação superior na Europa, está sendo coagida a seguir um único padrão, segundo o qual “internacionalização” seria sinônimo de “formação em inglês”. Alguns países europeus, contudo, já começam a construir políticas para o idioma de modo a assegurar que o inglês seja mantido como língua assessória. Linguistas críticos, que lutam a favor de maior justiça social, já trabalham para demonstram como a ocupação, física e mental, está sendo legitimada, além de militarmente, também pelo idioma; e que é possível construir políticas linguísticas de resistência local.”

E é nesse contexto de resistência política e cultural – resistência democrática e legítima, que nada tem de xenófoba, resistência tão legítima quanto é legítima a luta dos indígenas do município de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, que visam à preservação de seu idioma histórico e cultural tradicional – que se inscreve o projeto de lei 156/2009, de autoria do Deputado Raul Carrion (PCdoB).

Esse projeto de lei, que aguarda – e conta com – a sanção do governador Tarso Genro, “institui a obrigatoriedade da tradução de expressões ou palavras estrangeiras para a língua portuguesa, em todo documento, material informativo, propaganda, publicidade ou meio de comunicação através da palavra escrita no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul”, e foi aprovado dia 19 de abril pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. 

Diferente do prof. Idelber Avelar, que ouve cantar vozes “modernas” na oposição a essa lei, nós só ouvimos, na oposição a essa lei de resistência política também pelo idioma, as  vozes do mais lamentável conservadorismo arrogante, mal disfarçado sob véus ‘linguísticos’, e de uma tão duvidosa e suspeita quanto só autoproclamada “esquerda”. 

É “meio irresistível dar algumas risadas”, na escrita enrolada do professor Idelber Avelar, não, evidentemente, da lei, mas dos saberes autoproclamados do professor Idelber, que se apresenta como alguém que conheceria “algo acerca de como funciona o idioma”. 

A nenhum dos indígenas do Alto Amazonas, que lutaram muito para ver protegidas por lei as suas línguas históricas tradicionais e venceram sua luta, jamais ocorreu apresentar-se ao mundo como alguém que conhecesse “algo acerca de como funciona o idioma”. Aquelas pessoas, os indígenas falantes e os lingüistas empenhados que trabalharam para construir e fazer aprovar aquela lei, apresentaram-se ao mundo e à luta, no máximo, como falantes política e democraticamente empenhados numa duríssima, dificílima, luta política. Não há melhor saber do que esse, em matéria de “como funciona o idioma”. 

E esse bom saber reivindicou a proteção da própria língua. É o que conta. O resto, como ensinou Mao Tse Tung, “só a luta ensina” (e, como samba, não se aprende na escola nem em cursos de lingüística no Brasil).

Esperamos pois, governador Tarso Genro, que o senhor sancione a lei recém aprovada. Com isso, o Rio Grande do Sul estará na vanguarda nacional da luta pela preservação da língua portuguesa do Brasil, orgulhosamente posto ao lado dos valentes indígenas de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas. 

Com essa lei aprovada, sancionada e vigente, o Rio Grande do Sul estará também na vanguarda nacional da luta de resistência contra o imperialismo lingüístico. Até no Department of International Language Studies and Computational Linguistics da Universidade de Copenhagen, Dinamarca, haverá muita gente que saberá nos aplaudir. Os mesmos, precisamente, que aplaudiram os indígenas de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas. E, isso, ainda sem dizer que os indígenas de São Gabriel da Cachoeira também muito aplaudirão o governo democrático do Rio Grande do Sul. O que mais se poderia desejar, em matéria de legitimação democrática?

E a “esquerda” que riu da lei do Deputado Carrion, que ria. (O que mais, cá entre nós, se poderia esperar dessa “esquerda” já completamente endireitada?! Eles que vão rindo... Eles e o galaico-português metido a ‘erudito’ e só reacionário, lá deles!)

Assina: COLETIVO DE TRADUTORES VILA VUDU
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PARA REFERÊNCIA:

Excelentíssimo Governador Tarso Genro:

Eu e uma legião de eleitores de esquerda fomos surpreendidos, no dia 19 de abril, com a aprovação, pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, do projeto de lei 156/2009, de autoria do Deputado Raul Carrion (PCdoB), que “institui a obrigatoriedade da tradução de expressões ou palavras estrangeiras para a língua portuguesa, em todo documento, material informativo, propaganda, publicidade ou meio de comunicação através da palavra escrita no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul”.

Foi o estranho dia em que a direita representou a voz da sensatez. Apesar de que, felizmente, não está claro que o Sr. sancionará essa nociva e inútil lei, o Sr. condenou as chacotas e declarou que só as pessoas “muito caipiras” podem se opor às tentativas de defesa do vernáculo. Começo esta carta aberta atendendo o seu pedido de que a matéria seja tratada com seriedade, embora, que fique dito, para quem conhece algo acerca de como funciona o idioma, é meio irresistível dar algumas risadas de uma lei como esta. Noto, no entanto, minha discordância com seu uso do termo “caipira”. Em seu sentido pejorativo—que eu costumo evitar, aliás–, “caipira” é, segundo Houaiss, o “acanhado, pouco sociável”, enfim, justamente aquele que constrói cercas em volta de si mesmo. Caipiras são, portanto, os defensores da lei.

Tenho esperança de que o Sr. consultará alguns dos extraordinários profissionais do Instituto de Letras da UFRGS ou da Faculdade de Letras da PUC/RS — duas instituições de ponta, que estão entre as melhores do Brasil, tanto em literatura como em Linguística — antes de sancionar essa sandice. Sim, porque de sandice se trata.

A Linguística, como qualquer outra disciplina, possui diversas correntes e debates internos. Mas há um postulado do qual nenhum linguista discordaria: a língua é organismo vivo, em constante transformação. O dicionário é só uma sistematização pontual — um recorte — da coleção de vocábulos utilizados pelos falantes da língua em determinado momento. Essa coleção vai mudando, com a queda em desuso de algumas palavras e a incorporação de outras. É um processo natural da língua. Nele, os chamados estrangeirismos aparecerão sempre. Especialmente num mundo globalizado, eles são inevitáveis e, acima de tudo, não reguláveis por decreto, ainda mais um decreto estadual. Os próprios mecanismos internos da língua se encarregam de incorporar alguns, expelir outros, aportuguesar outros. Aliás, se formos ser rigorosos e eliminar todos os estrangeirismos, terminaremos onde? No tupi-guarani ou na passagem da vulgata latina ao galaico-português?