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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

“Occupy Wall Street”: o movimento mais importante do mundo hoje

Naomi Klein

7/10/2011, Naomi Klein, Commondreams
Enviado pelo Coletivo da Vila Vudu


Foi uma honra, para mim, ter sido convidada a falar em Occupy Wall Street na 5ª-feira à noite. Dado que os amplificadores estão (infelizmente) proibidos, e o que eu disser terá de ser repetido por centenas de pessoas, para que outros possam ouvir (o chamado “microfone humano”), o que vou dizer na Liberty Plaza terá de ser bem curto. Sabendo disso, distribuo aqui a versão completa, mais longa, sem cortes, da minha fala.

Occupy Wall Street é a coisa mais importante do mundo hoje [1]

Eu amo vocês.

E eu não digo isso só para que centenas de pessoas gritem de volta “eu também te amo”, apesar de que isso é, obviamente, um bônus do microfone humano. Diga aos outros o que você gostaria que eles dissessem a você, só que bem mais alto.

Ontem, um dos oradores na manifestação dos trabalhadores disse: “Nós nos encontramos uns aos outros”. Esse sentimento captura a beleza do que está sendo criado aqui. Um espaço aberto (e uma ideia tão grande que não pode ser contida por espaço nenhum) para que todas as pessoas que querem um mundo melhor se encontrem umas às outras. Sentimos muita gratidão.

Se há uma coisa que sei, é que o 1% adora uma crise. Quando as pessoas estão desesperadas e em pânico, e ninguém parece saber o que fazer: eis aí o momento ideal para nos empurrar goela abaixo a lista de políticas pró-corporações: privatizar a educação e a seguridade social, cortar os serviços públicos, livrar-se dos últimos controles sobre o poder corporativo. Com a crise econômica, isso está acontecendo no mundo todo. 

Só existe uma coisa que pode bloquear essa tática e, felizmente, é algo bastante grande: os 99%. Esses 99% estão tomando as ruas, de Madison a Madri, para dizer: “Não. Nós não vamos pagar pela sua crise”.

Esse slogan começou na Itália em 2008. Ricocheteou para Grécia, França, Irlanda e finalmente chegou a esta milha quadrada onde a crise começou.

“Por que eles estão protestando?”, perguntam-se os confusos comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: “por que vocês demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam aparecer.” E, acima de tudo, o mundo diz: “bem-vindos”.

Muitos já estabeleceram paralelos entre o Ocupar Wall Street e os assim chamados protestos antiglobalização que conquistaram a atenção do mundo em Seattle, em 1999. Foi a última vez que um movimento descentralizado, global e juvenil fez mira direta no poder das corporações. Tenho orgulho de ter sido parte do que chamamos “o movimento dos movimentos”.

Mas também há diferenças importantes. Por exemplo, nós escolhemos as cúpulas como alvos: a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional, o G-8. As cúpulas são transitórias por natureza, só duram uma semana. Isso fazia com que nós fôssemos transitórios também. Aparecíamos, éramos manchete no mundo todo, depois desaparecíamos. E na histeria hiper-patriótica e nacionalista que se seguiu aos ataques de 11 de setembro, foi fácil nos varrer completamente, pelo menos na América do Norte.

O Ocupar Wall Street, por outro lado, escolheu um alvo fixo. E vocês não estabeleceram nenhuma data final para sua presença aqui. Isso é sábio. Só quando permanecemos podemos assentar raízes. Isso é fundamental. É um fato da era da informação que muitos movimentos surgem como lindas flores e morrem rapidamente. E isso ocorre porque eles não têm raízes. Não têm planos de longo prazo para se sustentar. Quando vem a tempestade, eles são alagados.

Ser horizontal e democrático é maravilhoso. Mas esses princípios são compatíveis com o trabalho duro de construir e instituições que sejam sólidas o suficiente para aguentar as tempestades que virão. Tenho muita fé que isso acontecerá.

Há outra coisa que este movimento está fazendo certo. Vocês se comprometeram com a não-violência. Vocês se recusaram a entregar à mídia as imagens de vitrines quebradas e brigas de rua que ela, mídia, tão desesperadamente deseja. E essa tremenda disciplina significou, uma e outra vez, que a história foi a brutalidade desgraçada e gratuita da polícia, da qual vimos mais exemplos na noite passada. Enquanto isso, o apoio a este movimento só cresce. Mais sabedoria.

Mas a grande diferença que uma década faz é que, em 1999, encarávamos o capitalismo no cume de um boom econômico alucinado. O desemprego era baixo, as ações subiam. A mídia estava bêbada com o dinheiro fácil. Naquela época, tudo era empreendimento, não fechamento.

Nós apontávamos que a desregulamentação por trás da loucura cobraria um preço. Que ela danificava os padrões laborais. Que ela danificava os padrões ambientais. Que as corporações eram mais fortes que os governos e que isso danificava nossas democracias. Mas, para ser honesta com vocês, enquanto os bons tempos estavam rolando, a luta contra um sistema econômico baseado na ganância era algo difícil de se vender, pelo menos nos países ricos.

Dez anos depois, parece que já não há países ricos. Só há um bando de gente rica. Gente que ficou rica saqueando a riqueza pública e esgotando os recursos naturais ao redor do mundo.

A questão é que hoje todos são capazes de ver que o sistema é profundamente injusto e está cada vez mais fora de controle. A cobiça sem limites detona a economia global. E está detonando o mundo natural também. Estamos sobrepescando nos nossos oceanos, poluindo nossas águas com fraturas hidráulicas e perfuração profunda, adotando as formas mais sujas de energia do planeta, como as areias betuminosas de Alberta.

A atmosfera não dá conta de absorver a quantidade de carbono que lançamos nela, o que cria um aquecimento perigoso. A nova normalidade são os desastres em série: econômicos e ecológicos.

Estes são os fatos da realidade. Eles são tão nítidos, tão óbvios, que é muito mais fácil conectar-se com o público agora do que era em 1999, e daí construir o movimento rapidamente.

Sabemos, ou pelo menos pressentimos, que o mundo está de cabeça para baixo: nós nos comportamos como se o finito – os combustíveis fósseis e o espaço atmosférico que absorve suas emissões – não tivesse fim. E nos comportamos como se existissem limites inamovíveis e estritos para o que é, na realidade, abundante – os recursos financeiros para construir o tipo de sociedade de que precisamos.

A tarefa de nosso tempo é dar a volta nesse parafuso: apresentar o desafio à falsa tese da escassez. Insistir que temos como construir uma sociedade decente, inclusiva – e ao mesmo tempo respeitar os limites do que a Terra consegue aguentar.

A mudança climática significa que temos um prazo para fazer isso. Desta vez nosso movimento não pode se distrair, se dividir, se queimar ou ser levado pelos acontecimentos. Desta vez temos que dar certo. E não estou falando de regular os bancos e taxar os ricos, embora isso seja importante.

Estou falando de mudar os valores que governam nossa sociedade. Essa mudança é difícil de encaixar numa única reivindicação digerível para a mídia, e é difícil descobrir como realizá-la. Mas ela não é menos urgente por ser difícil.

É isso o que vejo acontecendo nesta praça. Na forma em que vocês se alimentam uns aos outros, se aquecem uns aos outros, compartilham informação livremente e fornecem assistência médica, aulas de meditação e treinamento na militância. O meu cartaz favorito aqui é o que diz “eu me importo com você”. Numa cultura que treina as pessoas para que evitem o olhar das outras, para dizer “deixe que morram”, esse cartaz é uma afirmação profundamente radical.

Algumas ideias finais. Nesta grande luta, eis aqui algumas coisas que não importam:

·        Nossas roupas.

·        Se apertamos as mãos ou fazemos sinais de paz.

·        Se podemos encaixar nossos sonhos de um mundo melhor numa manchete da mídia.

E eis aqui algumas coisas que, sim, importam:

·        Nossa coragem.

·        Nossa bússola moral.

·        Como tratamos uns aos outros.

Estamos encarando uma luta contra as forças econômicas e políticas mais poderosas do planeta. Isso é assustador. E na medida em que este movimento crescer, de força em força, ficará mais assustador. Estejam sempre conscientes de que haverá a tentação de adotar alvos menores – como, digamos, a pessoa sentada ao seu lado nesta reunião. Afinal de contas, essa será uma batalha mais fácil de ser vencida.

Não cedam a essa tentação. Não estou dizendo que vocês não devam apontar quando o outro fizer algo errado. Mas, desta vez, vamos nos tratar uns aos outros como pessoas que planejam trabalhar lado a lado durante muitos anos. Porque a tarefa que se apresenta para nós exige nada menos que isso.

Tratemos este momento lindo como a coisa mais importante do mundo. Porque ela é. De verdade, ela é. Mesmo.


Nota da Vila Vudu
[1] Discurso originalmente publicado no The Nation. Tradução para o português do Brasil, de Idelber Alvelar, da Revista Fórum.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Londres, 2011: Os saqueadores do dia contra os saqueadores da noite


Naomi Klein

16/8/2011, Naomi Klein, The Nation, EUA 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Leio comparações entre os tumultos em Londres e em outras cidades europeias – vitrines quebradas em Atenas, carros incendiados em Paris. E há paralelos, sem dúvida: uma fagulha lançada pela violência policial, um geração que se sente esquecida. Esses eventos foram marcados por destruição em massa, com poucos saques. 

Mas tem havido saques em massa em anos recentes e acho que temos de falar também deles. Houve em Bagdá, logo depois da invasão norte-americana – um frenesi de destruição e saques que esvaziou bibliotecas e museus. Também em fábricas. Em 2004, visitei uma fábrica de refrigeradores. Os trabalhadores haviam saqueado tudo que havia ali de aproveitável, empilharam e incendiaram. No armazém ainda havia uma escultura gigantesca de placas de metal retorcido.

Naquela ocasião, os noticiários entenderam que teria sido saque altamente político. Diziam que aquilo exatamente seria o que aconteceria sempre que um governo não é considerado legítimo pelos cidadãos. Depois de ter assistido durante tanto tempo ao espetáculo de Saddam e filhos roubarem o que conseguissem e de quem conseguissem roubar, os iraquianos comuns sentir-se-iam, então, merecedores do direito de também roubar um pouco. Mas Londres não é Bagdá e o primeiro-ministro britânico David Cameron não é Saddam. Assim sendo, nada haveria a aprender dos saques em Londres.

Mas há exemplos no mundo democrático. A Argentina, em 2001. A economia em queda livre e milhares de pessoas vivendo em periferias destruídas (que haviam sido prósperas zonas fabris, antes da era neoliberal) invadiram e saquearam supermercados de propriedade de empresas estrangeiras. Saíam empurrando carrinhos abarrotados dos produtos que perderam condições para comprar – roupas, aparelhos eletrônicos, carne. O governo implantou “estado de sítio” para restaurar a ordem; a população não gostou e derrubou o governo.

Na Argentina, o episódio ficou conhecido como El Saqueo – o saque [1]. É exemplo politicamente significativo, porque a palavra aplica-se, na Argentina, também ao que as elites do país fizeram, ao vender patrimônio da nação à guisa de “privatizar”, em negócios de corrupção flagrante e enviando para o exterior o produto das “privatizações”, para, em seguida, cobrar do povo obediência a um brutal pacote de “austeridade”. Os argentinos entenderam que o saque dos supermercados jamais teria acontecido sem o saque anterior, muito maior, do próprio país; e que os reais gângsteres estavam no governo.

Mas a Inglaterra não é a América Latina e, na Inglaterra, não há tumultos políticos – ou, pelo menos, é o que nunca se cansam de repetir. Os jovens que devastaram ruas em Londres são crianças sem lei, que se aproveitam de uma situação, para roubar o que não lhes pertence. E a sociedade britânica, diz-nos Cameron, tem ojeriza a esse tipo de gente mal comportada.

Disse, e com ar sério. Como se os “resgates” massivos dos bancos jamais tivessem acontecido, seguidos imediatamente do pagamento de escandalosos bônus recordes aos altos executivos. Depois, as reuniões de emergência do G-8 e do G-20, mas quais os líderes decidiram, coletivamente, nada fazer para punir os banqueiros por esse ou aquele crime, além de também nada fazer para impedir que crises semelhantes voltem a acontecer. Em vez disso, cada um daqueles líderes nacionais voltou aos seus respectivos países para impor sacrifícios ainda maiores aos mais vulneráveis. Como? A receita é sempre a mesma: despedir trabalhadores do setor público, fazer dos professores bodes expiatórios, cancelar acordos previamente firmados com sindicatos, aumentar as mensalidades escolares, promover rápida privatização de patrimônio público e reduzir aposentadorias e pensões. – Cada um que prepare a mistura específica para o país onde viva. E quem lá está, na televisão, pontificando sobre a necessidade de abrir mãos desses “benefícios”? Os banqueiros e gerentes de empresas de hedge-fund, claro.

É o Saqueo global, tempo de saques imensos! Alimentados por um sentido patológico de “direitos adquiridos” pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. Aí, afinal, um medo compreensível.

Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saqueos são contagiosos.

Os Conservadores acertam quando dizem que os tumultos nada têm a ver com os cortes. Mas, sim, têm muito a ver com os cortados que os cortes cortaram.

Presos  longe, numa subclasse que infla dia a dia e sem as vias de escape que antes havia – um emprego no sindicato, educação barata e de boa qualidade – eles estão sendo descartados. Os cortes são um sinal: dizem a todos os setores da sociedade que os pobres estão fixados onde estão – como dizem também aos imigrantes e refugiados impedidos de ultrapassar fronteiras nacionais cada dia mais militarizadas e fechadas.

A resposta de David Cameron às agitações de rua é tornar literal e completo o descarte dos mais pobres: fim dos abrigos públicos, ameaças de censura e corte das ferramentas de comunicação social e penas de prisão absolutamente inadmissíveis; uma mulher foi condenada a cinco meses de cadeia, por ter recebido um short roubado [e hoje, 17/8/2011, dois homens foram condenados a quatro anos de prisão, por incitarem tumultos pela internet, apesar de não se ter provado que sua “incitação” levou a alguma consequência (NTs, com informações de Guardian em: Facebook cases trigger criticism of “disproportionate” riot sentences). Mais uma vez a mensagem é clara contra os pobres que incomodam: sumam. E sumam em silêncio.

Na reunião “de austeridade” do G-20 em Toronto, os protestos viraram tumultos e vários carros da polícia foram incendiados. Nada que se compare a Londres 2011, mas o suficiente para deixar-nos, os canadenses, muito chocados. A grande discussão naquela ocasião era que o governo havia consumido $675 milhões de dólares na “segurança” da reunião (e ninguém conseguia sequer impedir o incêndio de carros da polícia). Naquele momento, muitos dissemos que o novo e caríssimo novo armamento que a polícia havia comprado – canhões de água, canhões de som, granadas de gás lacrimogêneo e munição revestida de borracha – não havia sido comprado para ser usado contra os manifestantes nas ruas; que, no longo prazo, aquele equipamento seria usado para disciplinar os pobres que, na nova era de ‘austeridade’, seriam empurrados para a perigosa posição de pouco terem a perder.

Isso, precisamente, é o que David Cameron absolutamente não entende: é impossível cortar orçamentos militares ou policiais, no mesmo momento em que você corta todos os gastos públicos. Porque, se o estado rouba os cidadãos, tirando deles o pouco que ainda têm, pensando em proteger os interesses dos que acumulam muito mais do que qualquer ser humano precisa para viver, é claro que deve esperar o troco ou, pelo menos, deve esperar resistência – seja a resistência de protestos organizados, seja a resistência das ondas de saques. Não é propriamente problema político: é problema matemático, físico.



Nota dos tradutores
[1] Ver, sobre esse período, Memoria del Saqueo, filme de Fernando “Pino” Solanas, Argentina, 2004. Pode ser baixado livremente.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Palestra/Documentário baseado no livro “The Shock Doctrine” de Naomi Klein

Já tentou entender como o mundo chegou ao que hoje vivemos?

Naomi Klein
O documentário está dividido em 6 partes que mostram causas e efeitos capitalismo neoliberal e imperialista na exploração fria e calculada em sua geopolítica de dominação.

Morte aos terroristas dos EUA e seus aliados que espalham
morte, dor e desgraças por todos os quadrantes do mundo.




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Enviado por Raul Longo

sexta-feira, 29 de abril de 2011

A Doutrina do Choque - A Ascensão do Capitalismo de Desastre

Filme-documentário baseado no livro-denúncia “A Doutrina do Choque - A Ascensão do Capitalismo de Desastre”, da pesquisadora e ativista política Naomi Klein.


A Doutrina do Choque (The Shock Doctrine) - [legendado em português, completo]



Naomi Klein
É imperativo difundir este vídeo. Ponham nos vossos blogs, murais, mandem o link por mail, façam download. Primeiro caiu a Grécia, depois caiu a Irlanda, Portugal acabou de cair e a seguir é a Espanha. Para entender qual é o verdadeiro objetivo da consequência da entrada do FMI, é essencial ver este filme.



Este vídeo foi enviado por Beatrice e postado inicialmente por Diário Gauche

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

No “capitalismo de desastre”, a democracia já nasce acorrentada

Naomi Klein

13/2/2011, Naomi Klein - Democracy born in chains
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

A inspiradora revolta popular que derrubou Hosni Mubarak é apenas a primeira etapa da luta dos egípcios por liberdade. Como outros movimentos pró-democracia aprenderam pela via mais difícil, pode acontecer de o povo perder muito – e por muito tempo – nos meses e anos chaves da transição entre regimes. 
No livro “A doutrina do choque” [Doutrina do Choque. A ascensão do capitalismo de desastre. Orig. The Shock Doctrine, ed. brasileira, Rio de Janeiro: Nova Fronteira], investiguei o caso da África do Sul pós-apartheid, quando se sacrificaram demandas cruciais por justiça econômica, em nome de uma transição política suave.

Aqui, traduzidas, as duas epígrafes e trechos do capítulo “A liberdade controlada, na África do Sul”, desse livro.

Desmond Tutu
“Reconciliação significa que os que viveram muito tempo no lado avesso da história têm de poder ver que há alguma diferença entre repressão e liberdade. E, para esses, liberdade se traduz em água limpa para beber, eletricidade, casa decente e emprego, para poder mandar os filhos à escola e ter acesso a atendimento médio. Quero dizer: de que adiantou alguma transição suave, se a qualidade de vida daquelas pessoas não melhorou? Se a vida das pessoas não melhora, até o voto se torna inútil”.
(Arcebispo Desmond Tutu, presidente da Comissão Sul-Africana de Verdade e Reconciliação, 4/11/2001, “South Africa; Tutu Says Poverty, Aids Could Destabilise Nation,” AllAfrica.com). 

“Antes de transferir o poder, o Partido Nacionalista quer emascular o poder. Está tentando negociar uma transição na qual entregará o direito de o país conduzir a transição, em troca de impedir que os negros venham a controlá-la”. (Allister Sparks, jornalista sul-africano, em MURRAY, Martin, 1994, The Revolution Deferred, Londres: Verso, p. 12). 

Em janeiro de 1990, Nelson Mandela, aos 71 anos, sentou em sua cela de prisão para escrever uma nota aos seus apoiadores. A nota visava a encerrar o debate que se arrastava pelos 27 anos de sua prisão, a maior parte dos quais na prisão de Robben Island, ao largo da costa de Cape Town, e que haviam distanciado muito o líder e as transformações econômicas pelas quais passara o estado de apartheid da África do Sul. A nota, de duas linhas, encerrou o debate e pouco ajudou: “A nacionalização das minas, dos bancos e das indústrias monopolistas sempre foi a política do Congresso Nacional Africano. Nenhuma mudança ou alteração nas nossas políticas nesse campo são admissíveis. Apoiamos completamente e encorajamos o empoderamento da economia dos negros, mas é inegável que, em nossa situação, não podemos ceder o controle de alguns setores da economia pelo estado” (“ANC Leader Affirms Support for State Control of Industry”, 26/1/1990, Times(Londres). 
Allister Sparks

A história não havia acabado, como Fukuyama dissera. Na África do Sul, a maior economia do continente africano, muitos ainda acreditavam que a liberdade incluía necessariamente o direito de exigir e redistribuir os ganhos mal havidos dos opressores.

Essa crença sempre formara a base da política do Congresso Sul-Africano (CSA) ao longo de 35 anos, desde que foi explicitada na “Carta da Liberdade” [orig. Freedom Charter], de declaração de princípios do CSA. A história da redação desse documento é folclore na África do Sul, e não sem razão. O processo começou em 1955, quando o partido despachou 50 mil voluntários pelas cidades e vilas do país. 

A tarefa desses voluntários era recolher “demandas de liberdade” da população, descobrir como viam um mundo pós-apartheid, no qual todos os sul-africanos tivessem direitos iguais. As demandas foram recolhidas, escritas em pedaços de papel: “Dar terra a todos os que não têm terra”. “Salários suficientes para viver e menores jornadas de trabalho”. “Educação gratuita e obrigatória, independente de cor, raça ou nacionalidade”. “Direito de morar e andar livremente” e muitas mais. 

Quando as demandas voltaram aos organizadores, o CNA sintetizou-as num documento final, oficialmente aprovado dia 26/5/1955, no Congresso do Povo, realizado em Kliptown, numa “buffer zone”, construída para proteger os moradores brancos de Johannesburg, dos ataques das massas de Soweto. Apenas 300 delegados – negros, indianos, “coloured” e poucos brancos – reuniram-se num descampado, para votar os conteúdos do documento. Segundo o relato de Nelson Mandela dessa reunião histórica em Kliptown, “o documento foi lido em voz alta, item a item, para os presentes, em inglês, sesotho e xhosa. A cada item lido, a multidão aprovava aos gritos de “Afrika!’” e “Mayibuye!” (MANDELA, Nelson, A Long Walk to Freedom: The Autobiography of Nelson Mandela, 1994, New York: Little, Brown and Company, p. 150). A primeira, desafiadora demanda, da “Carta da Liberdade” dizia: “O povo governará!”

Em meados dos anos 50, esse sonho estava décadas longe de ser realizado. No segundo dia do Congresso, a reunião foi violentamente atacada pela polícia, que acusou os delegados de “conspirar para a traição”. 

Nelson Mandela
Mandela confirmou, depois de 27 anos de prisão, na nota de duas linhas escrita de sua cela: ele ainda acreditava que, sem redistribuição não haveria liberdade. Com vários países então “em transição”, a declaração tinha implicações enormes. Se Mandela liderasse o CNA ao poder e nacionalizasse os bancos e as minas, estaria criado um precedente que tornaria ainda mais difícil para os economistas de Chicago impedir que o mesmo acontecesse em outros países (classificados como “relíquias do passado”) seriam capazes de sanar as mais profundas desigualdades. (...)

Dia 11/2/1990, duas semanas depois de redigir aquela nota, Mandela deixou a prisão, livre, recebido como santo ressurreto, se algum dia houve algum, em todo o mundo. As cidades sul-africanas explodiram em festa. E renovou-se a convicção de que nada deteria a luta pela libertação. 

Diferente do movimento na Europa Oriental, o da África do Sul não foi derrotado: foi colhido de roldão. Mandela, por sua vez, foi vítima de caso épico de choque de cultura, e tomou os microfones e câmeras como se fossem “novo tipo de armamento desenvolvido enquanto estive preso.” [1]

O mundo era definitivamente diferente do que Mandela deixara, 27 anos antes. Quando Mandela foi preso, em 1962, uma onda do nacionalismo de Terceiro Mundo varria o continente africano; agora, o continente estava destroçado pela guerra. Enquanto permaneceu preso, revoluções socialistas nasceram e morreram: Che Guevara foi morto na Bolívia em 1967; Salvador Allende, no golpe de estado de 1973; Samora Machel, herói da libertação e presidente de Moçambique, morreu num misterioso desastre aéreo em 1986. O final dos anos 80s e o início dos 90s conheceram a queda do Muro de Berlim, a repressão na Praça Tiananmen e o colapso do comunismo. Entre todas essas mudanças, havia pouco tempo para entendê-las: imediatamente depois de sair da prisão, Mandela tinha um povo a conduzir rumo à liberdade, ao mesmo tempo em que evitava uma guerra civil e um colapso econômico – dois casos que pareciam indicar diferentes possibilidades. 
Naomi Klein na TV

(...) Se havia terceira via entre o comunismo e o capitalismo – um modo de democratizar o país e redistribuir riqueza ao mesmo tempo – a África do Sul, sob a orientação do CNA parecia estar excepcionalmente bem localizada para converter em realidade esse sonho sempre buscado. Não só pela avalanche de admiração e de apoio a Mandela, mas também pelos traços específicos que a luta anti-apartheid assumira nos anos anteriores. 

Nos anos 80s, a luta anti-apartheid convertera-se em movimento de massas verdadeiramente global, e a arma que os ativistas mais utilizaram foi o boicote de empresas – tanto contra produtos produzidos na África do Sul, quanto contra produtos e empresas internacionais que comerciavam com o estado de apartheid. (...) Mas a campanha tinha também um componente moral: muitos consumidores criam firmemente que empresas que se beneficiassem da legislação racista mereciam ser castigadas também no plano financeiro. 

Só por isso, o CNA teve a excepcional oportunidade de rejeitar a ortodoxia do livre-mercado daqueles dias. Dado que já se criara o consenso segundo o qual as empresas eram também responsáveis pelos crimes do apartheid, o cenário estava preparado para que Mandela explicasse por que setores chaves da economia sul-africana tinham de ser nacionalizados, exatamente como a Carta da Liberdade exigia.

Poderia ter usado o mesmo argumento para explicar por que a dívida interna acumulada durante o apartheid era peso ilegítimo, pelo qual nenhum novo governo, democraticamente eleito, deveria ser obrigado a pagar. Haveria ultraje e ranger de dentes do FMI, do Tesouro dos EUA e da União Europeia ante comportamento tão indisciplinado, mas Mandela, por sua vez era santo ressurreto – e contaria com enorme apoio popular mundial. 

Jamais saberemos quais daquelas duas forças teriam prevalecido. Nos anos que passaram entre a nota que Mandela escreveu ainda da prisão e as eleições do CNA de 1994, quando foi eleito presidente, algo aconteceu que convenceu a hierarquia do partido de que não poderia usar o prestígio dos movimentos de base para exigir e redistribuir a riqueza que o apartheid roubara ao país.

E, em vez de buscar um ponto médio entre a Califórnia (para os brancos) e o Congo (para os negros), o CNA adotou políticas que fizeram aumentar tanto as desigualdades e os crimes, que a África do Sul é, hoje, alguma coisa semelhante ao ponto médio entre Beverly Hills e Bagdá. Hoje, o país é como um testamento vivo do que acontece quando a reforma econômica é impedida pela transformação política. Politicamente, os sul-africanos têm direito de votar, há liberdades civis e a maioria governa. Mas, economicamente, a África do Sul já ultrapassou o Brasil e é hoje a sociedade mais desigual do mundo

Aconteceu que, quando o novo governo tentava tornar realidade os sonhos da Carta da Liberdade, descobriu que o poder não vivia na África do Sul. (...)

Redistribuir a terra? Impossível – no último minuto, os negociadores concordaram em acrescentar um artigo, na nova Constituição, que protege a propriedade privada, tornando virtualmente impossível qualquer reforma agrária. Criar empregos para milhões de desempregados? Impossível – centenas de fábricas estavam a ponto de fechar, porque o CNA já era membro do GATT, precursor da Organização Internacional de Comércio, que impede subsídios a fábricas de automóveis e à indústria têxtil. Distribuir gratuitamente drogas anti-AIDS nas vilas e cidades, onde a doença se alastra com aterrorizante velocidade? Impossível – a distribuição gratuita viola direitos de propriedade intelectual da Organização Mundial de Comércio, da qual o CNA tornou-se membro, sem qualquer discussão pública, como continuação natural dos compromisso com o GATT. Dinheiro para construir mais casas e melhores casas para os pobres e levar luz elétrica às favelas? Desculpe, mas o orçamento está sendo devorado pelo serviço da dívida massiva, reconhecida silenciosamente pelo governo do apartheid. Imprimir moeda? Contem essa ao Banco Central da era do apartheid. Água gratuita para todos? Pouco provável. O Banco Mundial, com seu vasto contingente de economistas, pesquisadores e especialistas já instalados no país (um autoproclamado “banco de conhecimento”) já construiu parcerias com o setor privado; as parcerias, de fato, já, são norma. Querem controlar a moeda, protegê-la contra a especulação? Impossível. Violaria o acordo para empréstimo de $850 milhões, com o FMI, convenientemente firmado pouco antes das eleições. Querem aumentar o salário mínimo, para diminuir o fosso criado pelos salários do apartheid? Nem pensar: o acordo com o FMI torna obrigatório o arrocho salarial (HORTON, Mark, “Role of Fiscal Policy in Stabilization and Poverty Alleviation,” in Post-Apartheid South Africa: The First Ten Years, ed. Michael Nowak and Luca Antonio Ricci, Washington DC: International Monetary Fund, 2005, p. 84). 

E que ninguém nem pense em ignorar esses compromissos – qualquer mudança será tomada como evidência de que o país é perigosamente pouco confiável, de que não está comprometido com “reformas”, de que não é sistema “baseado em regras confiáveis”. E atitudes diferentes levarão a crises monetárias, cortes nos programas de ajuda e fuga de capitais. Em resumo, a África do Sul estava livre, mas simultaneamente fora capturada; cada sigla de que os jornais não paravam de falar era como um fio da rede que prendera e paralisara todos os braços do novo governo. (...)

Ativista há décadas, da luta anti-apartheid, Rassool Snyman, descreveu a armadilha em termos bem claros. “Jamais nos concederam qualquer liberdade. Aconteceu apenas que tiraram a corrente do nosso pescoço e a prenderam nos nossos pés”. Yasmin Sooka, importante ativista sul-africana de direitos humanos, contou-me que, na transição “só o business falava. ‘Ficamos com a propriedade e vocês [o CNA] governa. Vocês terão poder político, vocês farão a fachada do governo, mas o poder estará noutro lugar”.

Foi um processo de infantilização – em que a mídia-empresa tem papel decisivo –, comum nos países ditos “em transição”. Há novos governos e até recebem as chaves da casa, mas não recebem a combinação do cofre.” (...)

Conversei sobre a transição com William Gumede, ativista de terceira geração do CNA, que, como líder do movimento estudantil durante a transição, esteve nas ruas, naqueles anos de tumultos. “Todos ficaram de olho nas negociações políticas – ele recorda, sobre as conversações Klerk–Mandela. “E sempre que o povo achava que as coisas não iam bem, havia protestos de massa. Mas quando os negociadores econômicos falavam, as pessoas entendiam que fossem relatórios técnicos; ninguém entendia e ninguém se interessava”. Essa percepção, disse ele, era estimulada por Mbeki [que comandou o governo de transição, antes de Mandela ser eleito], que apresentava as reuniões como “administrativas”, de pouco interesse para as massas (como também se fez no Chile, quando se construía uma “democracia tecnificada”). Resultado disso, disse-me ele, entre frustrado e furioso, “Não vimos! Não vimos a verdadeira transição!”

Gumede diz que a maioria das pessoas “comuns” simplesmente assumiu que, fossem quais fossem os compromissos necessários para chegar ao poder, para governar, seria fácil, depois, desfazê-los, depois, quando o partido CNA estivesse de fato governando. “Íamos ser governo. Depois, acertaríamos tudo” – disse ele.

O que os ativistas do CNA não entenderam naquele momento foi que aquelas reuniões “de transição” estavam alterando a própria natureza da democracia; que, ao final da transição, a democracia estaria tão alterada – as malhas da teia se apertariam de tal modo sobre a África do Sul – que, de fato, nem haveria ‘depois da transição’, nem, de fato, qualquer transição.

Gumede continua: “Eu estava focado na política – na ação de massas, passava os dias em Bisho [local onde houve confronto massivo entre manifestantes e a polícia], gritava “Fora! Fora!”. Mas a luta real não estava ali – a luta real estava sendo conduzida pelos economistas. Até hoje me sinto mal, quando penso naquela ingenuidade. Eu era politicamente maduro, o suficiente para saber que nada se decide na praça. Como pode ter acontecido de eu não ter visto?” (...)

A “terapia de choque”, nas transições políticas

A terapia de choque sempre é manobra do mercado – parte de uma teoria subjacente. A terapia de choque adora os momentos de emoção, quando o preço das ações dispara, quase sempre depois de oferta pública de ações, do anúncio de alguma grande fusão ou contratação de algum novo executivo-celebridade. Quando os economistas exigem que um país aplique algum pacote de terapia de choque, o conselho baseia-se, pelo menos em parte, na tentativa de imitar esse tipo de grande evento ‘de mercado’ e disparar o estouro da manada –, com a diferença que, nas transições políticas, não se trata de vender ações de algum patrimônio individual, mas de vender um país. O resultado almejado é “Comprem papéis da Argentina!” “Comprem papéis da Bolívia!”. Abordagem mais cuidadosa, mais lenta, pode ser menos brutal, mas priva o mercado dessas emoções radicais e das ‘bolhas’, durante as quais o mercado faz dinheiro e ganha posições.

A terapia de choque sempre é uma aposta, e na África do Sul não funcionou: Mbeki não conseguiu atrair investimentos de longo prazo para o país. Só obteve dinheiro de especulação, que acelerou ainda mais a desvalorização da moeda. (...)

A Comissão de Reconciliação e Verdade da África do Sul é frequentemente citada como modelo de “processo de paz” bem sucedido, exportada para outras zonas de conflito como do Sri Lanka ao Afeganistão. Mas muitos dos diretamente envolvidos no processo ainda carregam dúvidas profundas. 

Ao divulgar o relatório final em março de 2003, o presidente da Comissão, bispo Desmond Tutu, mostrou aos jornalistas, de fato, um processo de paz ainda inconcluso. 

“Alguém pode explicar” – disse ele – “que um negro sul-africano acorde hoje, quase dez anos depois da igualdade e da liberdade, ainda num gueto miserável? Vai trabalhar muito longe de casa, quase sempre numa mansão, num palácio, onde só vivem brancos e ele trabalha para brancos. E ao final do dia, volta para o gueto, onde muitas vezes não tem água nem comida? Não entendo por que essas pessoas não saem às ruas para protestar: “A paz que se dane! Tutu que vá p’rô inferno! A Comissão da Verdade que vá p’rô inferno!” [continua, no livro, em português, e na página de Naomi Klein, em inglês]


NOTA DOS TRADUTORES: A íntegra do capítulo pode ser lido, em inglês, em Democracy born in chains, republicado pela autora, em sua página na internet, semana passada. 

O livro Doutrina do Choque. A ascensão do capitalismo de desastre, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, pode ser comprado pela página Buscapé. 

Há matéria sobre o livro, em português, em Carta Maior, 14/5/2010, em: O capitalismo de desastre é uma resposta à crise. Como sempre acontece, os analistas brasileiros leem Naomi Klein, sempre, como militante do altermundismo, sempre ativa nos Fóruns Sociais Mundiais e nas causas do ambientalismo, o que ela é também, mas não só. 

A professora entrevistada em Carta Maior e seus entrevistadores não fogem a essa escrita. Na entrevista sobre o livro, exemplarmente, a analista só é perguntada e só analisa os casos em que o “capitalismo de desastre” atuou em desastres, literalmente naturais (em New Orleans & Katrina, por exemplo). 

Todo o capítulo sobre o desastre da transição política na África do Sul, e a operação ativíssima, ali, do “capitalismo de desastre”, do qual aqui se leem excertos, não é sequer lembrado.

Pelo visto, as massas árabes nas ruas ainda terão de arrastar os jornalistas e especialistas ocidentais para fora de suas tradicionais zonas de conforto, antes que se leiam análises realmente fortes e estimulantes sobre a Grande Revolta Árabe de 2011.



Nota de tradução
[1] A maioria simples, nas eleições já havia sido de fato adiada, desde 1999. Até então, o poder executivo era partilhado entre os partidos políticos que recebessem mais de 5% dos votos. Entrevista não publicada com Nelson Mandela, feita pelo cineasta Ben Cashdan, 2001. In MARAIS, Hein, 2001, South Africa: Limits to Change: The Political Economy of Transition, Cape Town: University of Cape Town Press, pp. 91–92.


quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Temos de defender Assange!

15/12/2010, John Pilger, New Statesman –
Traduzido pelo coletivo da Vila Vudu

“Guardiões dos direitos da mulher” na imprensa de esquerda britânica apressaram-se em condenar o fundador de WikiLeaks. De fato, a cada passo de seus contatos com nosso sistema judicial, os direitos humanos básicos de Assange foram desrespeitados.

Há quarenta anos, um livro intitulado The Greening of America [O rejuvenescer da América] fez furor. Na capa, lia-se: “Há uma revolução a caminho. Não será como as revoluções do passado. Virá do indivíduo.” Naquele momento, eu trabalhava como correspondente nos EUA e lembro que o autor, jovem intelectual de Yale, Charles Reich, foi elevado, do dia para a noite, à categoria de guru. Sua mensagem era que a ação política fracassara e só a “cultura” e a introspecção poderiam mudar o mundo. A coisa misturou-se a uma insidiosa campanha de Relações Públicas das grandes corporações orientada para afastar o capitalismo ocidental do senso de liberdade inspirado nos movimentos pelos direitos civis e contra a guerra. Os novos eufemismos da propaganda passaram a ser pós-modernismo, consumismo e “eu-ismo”. 

O ego era então o zeitgeist [al. espírito do tempo]. Impulsionado pelas forças do lucro e da mídia, a busca da consciência individual arrasou o espírito da justiça social e do internacionalismo. Proclamou-se a nova divindade; o pessoal era o político.

Em 1995, Reich publicou Opposing the System, no qual desdisse praticamente tudo que escrevera em The Greening of America. “Não haverá alívio nem para a insegurança econômica nem para o fracasso humano”, escreveu então, “até que reconheçamos que forças econômicas descontroladas criam conflito, não bem-estar (...)”. Dessa vez, não houve filas nas livrarias. Em tempos de neoliberalismo econômico, Reich estava em descompasso com o individualismo rampante da nova elite política e cultural do ocidente.

Falsas militantes 

O renascimento do militarismo no ocidente e a busca por uma nova “ameaça” depois do fim da Guerra Fria decorreram da desorientação política dos que, vinte anos antes, teriam constituído oposição veemente. E afinal, dia 11/9/2001, foram finalmente silenciados, e muitos foram cooptados para a “guerra ao terror”. A invasão do Afeganistão em outubro de 2001 teve apoio de lideranças feministas, especialmente nos EUA, onde Hillary Clinton e outras falsas militantes do feminismo fizeram do tratamento às mulheres afegãs pretexto para atacar o país e provocar a morte de pelo menos 20 mil pessoas, além de dar renovado alento aos Talibãs. A evidência de que os senhores-da-guerra apoiados pelos EUA eram tão violentos quanto os Talibãs não foi considerada argumento capaz de contraditar tão elevadas disposições. O espírito do tempo – os anos da despolitização “pessoal” e do obnubilamento do verdadeiro radicalismo – havia funcionado. Nove anos depois, a consequência é o desastre no Afeganistão.

Parece que a lição precisa ser outra vez aprendida, se se vê a fúria com que um grupo de feministas midiáticas atira-se contra Julian Assange e WikiLeaks – a “Wikiblokesphere”, como diz Libby Brooks no Guardian de 9/12 [ No one gains from this “rape-rape” defence of Julian Assange]. Do Times ao New Statesman, muitas feministas tem-se comprometido no ataque contra Assange, a partir das acusações incompetentes, contraditórias, caóticas da justiça sueca.

Dia 9/12, o Guardian publicou longa entrevista feita por Amelia Gentleman com Claes Borgström, apresentado como “altamente respeitado advogado sueco”[ Julian Assange rape Allegations: treatment of woman “unfair and absurd”]. De fato, Borgström é sobretudo poderoso membro do Partido Social Democrático. Só interveio no caso Assange quando a Procuradora sênior de Stockholm desconsiderou a acusação de “estupro” por “absoluta falta de provas”. No artigo de Gentleman para o Guardian, uma fonte anônima assopra aos leitores que “o comportamento com as mulheres (...) vai acabar criando problemas para Assange”. O boato foi levado por Brooks ao jornal, no mesmo dia. Ken Loach, eu e outros “da esquerda” estamos “lado a lado” acompanhando os odiadores de mulheres e “teóricos da conspiração”. Para o inferno a investigação jornalística. Reinam a ignorância e o preconceito.

O advogado australiano James Catlin, que defendeu Assange em outubro, diz que as duas mulheres disseram aos procuradores que haviam concordado com fazer sexo com Assange. Depois do “crime”, uma das mulheres ofereceu uma festa em homenagem a Assange. Quando Borgström foi perguntado sobre por que defendia as mulheres, dado que ambas desmentiram a acusação de estupro, ele respondeu: “Elas não são advogadas”. 

Catlin descreve o sistema judicial sueco como “caixa de piadas”. Assange e seus advogados pediram, durante três meses, às autoridades suecas, que lhes fosse permitido ler o processo. Nada conseguiram até dia 18/11, quando receberam o primeiro documento – em idioma sueco, o que contraria a lei europeia.

Ameaça nada velada 

Até agora, Assange ainda não foi formalmente acusado de coisa alguma. Jamais foi “fugitivo”. Pediu e obteve autorização para deixar a Suécia e a polícia britânica sempre soube de seu endereço, desde o instante em que pisou em solo britânico. Nada disso impediu que um juiz inglês o prendesse dia 7/12, ignorando sete dispositivos legais, e o mandasse para uma “solitária” na prisão Wandsworth.

Em todos esses passos, os direitos humanos básicos de Assange foram desrespeitados. O covarde governo australiano, que tem a obrigação legal de proteger e apoiar seus cidadãos, ameaçou confiscar seu passaporte. Em manifestações públicas, a primeira-ministra Julia Gillard, cancelou vergonhosamente até a presunção de inocência, base do sistema jurídico em todo o mundo e também na Austrália. O ministro australiano de Relações Exteriores deveria ter convocado os dois embaixadores, da Suécia e dos EUA, para alertá-los oficialmente sobre a violência contra os direitos humanos de Assange – dentre outros, Assange é vítima no crime de incitamento ao homicídio.

Diferentes desses, multidões de cidadãos decentes reuniram-se em manifestações a favor de Assange: nem são odiadores de mulheres, nem “cães pit-bulls da internet” – expressão de Libby Brooks [e do Sr. Clóvis Rossi, na Folha de S.Paulo, mas nesse caso usada em geral, contra todos os que discordem dele pela internet, não apenas contra os que defendem Assange] para designar os que defendem valores diferentes dos defendidos por Charles Reich. 

Noutro campo, das feministas de respeito, Naomi Klein escreveu pelo Twitter:

“Rape is being used in the #Assange prosecution in the same way that women’s freedom was used to invade Afghanistan. Wake up! #wikilieaks” / [“O estupro está sendo usado na acusação contra Assange exatamente como a liberdade da mulher foi usada para invadir o Afeganistão. Acordem!”