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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Uri Avnery: “Um respeito decente às opiniões da humanidade”

18/10/2014, [*] Uri AvneryGush Shalom [Bloco da Paz], Israel
Decent Respect” [1]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Manifestante enrolado em bandeiras inglesa e palestina em frente ao Parlamento em Londres
Se o Parlamento britânico tivesse aprovado resolução a favor de ocupação israelense na Cisjordânia, a reação da imprensa israelense teria sido a seguinte:

Em atmosfera de grande entusiasmo, o Parlamento britânico aprovou por imensa maioria (274 votos a favor, meros 12 contra) uma moção pró-Israel... Mais da metade dos assentos estavam ocupados, quórum maior que o usual. Os inimigos de Israel esconderam-se e não se atreveram a votar contra.

Infelizmente, o Parlamento britânico aprovou essa semana uma resolução pró-palestinos, e a reação da imprensa israelense foi quase unanimemente a seguinte:

Metade da sala estava vazia (...) não se viam sinais de entusiasmo (...)exercício burocrático sem sentido (...) Apenas 274 membros votaram a favor da resolução, que não é obrigatória (...) Muitos membros nem se deram o trabalho de comparecer (...).

Mesmo assim, a imprensa de Israel noticiou longamente os procedimentos e os jornais publicaram vários artigos sobre o assunto. Verdadeira orgia de notícias, sobre ato desprezível, negligenciável, sem importância, insignificante, sem consequências, trivial, mínimo.

Manifestantes colocaram faixas em
frente ao Parlamento inglês
Um dia antes, 363 judeus cidadãos israelenses pediram que o Parlamento britânico aprovasse a resolução, que conclama o governo britânico a reconhecer o Estado da Palestina. Entre os signatários da petição havia um laureado do Prêmio Nobel, vários portadores da mais alta condecoração israelense civil, dois ex-ministros do Gabinete e quatro membros o Parlamento (entre os quais eu), diplomatas e um general.

A máquina oficial de propaganda israelense não entrou em ação. Sabendo que a resolução seria aprovada, tentaram esvaziar e encobrir o evento o mais possível. Ninguém conseguiu falar com o embaixador de Israel em Londres.

Terá sido, mesmo, evento insignificante? Em sentido procedimental estrito, sim, foi. Em sentido mais amplo, não foi, não, de modo algum. E para a liderança israelense, foi uma, dentre várias outras más notícias.

Poucos dias antes, notícias semelhantes chegaram da Suécia. O primeiro-ministro de esquerda recém eleito anunciou que seu governo está analisando a possibilidade de, em futuro próximo, reconhecer o Estado da Palestina.

A Suécia, como a Grã-Bretanha, sempre foi considerado país “pró-Israel”, que sempre votou lealmente contra quaisquer propostas de resolução “anti-Israel” aparecidas na ONU. Se essas importantes nações ocidentais estão reconsiderando as suas atitudes em relação à política de Israel... O que significa essa reconsideração?

Stefan Löfven é o novo Primeiro
Ministro da Suécia
Outro golpe inesperado veio do Sul. O ditador egípcio Abdel-Fatah al-Sisi, desautorizou a versão, cara à liderança israelense, de que os estados árabes “moderados” formariam como aliados de Israel contra os palestinos. Num discurso duro, al-Sisi avisou à sua recém descoberta alma-gêmea, Binyamin Netanyahu, que os estados árabes não cooperarão com Israel, enquanto não firmarmos a paz com um estado palestino.

Assim al-Sisi furou o balão recentemente inflado e posto a flutuar por Netanyahu – que os estados árabes pró-EUA, como Egito, Arábia Saudita, Jordânia, os Emirados, Kuwait e Qatar, se declarariam abertos aliados de Israel.

Na América do Sul, a opinião pública já mudou de campo e é hoje marcadamente contra Israel. O reconhecimento da Palestina está ganhando campo também em círculos oficiais. Até nos EUA, o apoio incondicional ao governo de Israel parece ir-se tornando cada vez menos unânime.

Que diabos está acontecendo?

O que está acontecendo é mudança profunda, como talvez uma deriva tectônica, na atitude pública em relação a Israel.

Soldados de Israel vigiam crianças feitas
prisioneiras na Palestina ocupada
Já há anos, Israel aparece na mídia mundial, principalmente, como o país que ocupa terras palestinas. Fotos jornalísticas de israelenses quase sempre mostram soldados pesadamente armados e blindados, sempre em confronto com palestinos que protestam e, não raro, crianças. Poucas dessas fotos têm efeito dramático imediato, mas o efeito cumulativo, incremental, não deve ser subestimado.

Um serviço diplomático verdadeiramente ativo já teria alertado seu governo há muito tempo. Mas o serviço diplomático de Israel está terrivelmente desmoralizado. Chefiado por Avigdor Lieberman, leão-de-chácara peso pesado, brutamontes tido por semifascista por muitos de seus colegas pelo mundo, todo o corpo diplomático israelense está aterrorizado. E prefere manter-se calado.

Esse processo alcançou um ponto máximo com a recente guerra de Israel contra Gaza. Não foi basicamente diferente das duas guerras de Gaza que a precederam nem faz muito tempo, mas por alguma razão teve impacto muito mais forte.

Durante um mês e meio, dia após dia, as pessoas em todo o mundo foram bombardeadas com imagem de cadáveres, seres humanos, mortos, feridos, crianças dilaceradas, mães desesperadas, prédios de apartamentos destruídos, hospitais e escolas destruídos, massas de refugiados sem-teto. Graças à Cúpula de Ferro [Iron Dome], não se viram prédios israelenses destruídos, nem qualquer civil israelense morto.

Corajoso soldado de Israel se defende de
ataque de mulher e filhos palestinos
Qualquer pessoa comum decente, seja em Estocolmo ou Seattle ou Cingapura, não pode ser exposta a sequência continuada daquelas imagens horríveis sem ser afetada – primeiro inconscientemente, depois conscientemente. A imagem do “israelense” vai mudando na mente, lenta, quase imperceptivelmente. O bravo pioneiro que enfrenta os selvagens que o cercam vai mudando, até mostrar um feio animal que aterroriza população indefesa.

Por que os israelenses não se dão conta disso? Porque Nós Estamos Sempre Certos.

Já se disse: o principal perigo da propaganda, de qualquer propaganda, é que a primeira vítima é o próprio propagandista. A propaganda convence o propagandista, muito mais que seu público-alvo. Se você torce um fato e o repete cem vezes, você se condena a acreditar na sua própria invenção.

Considerem a ideia de que nós seríamos obrigados a bombardear instalações da ONU na Faixa de Gaza, “porque” o Hamás as utilizaria para lançar foguetes contra nossas cidades e vilas. Jardins de infância, escolas, hospitais e mesquitas foram atacados por artilharia, aviões,drones e barcos de guerra de Israel. 99% dos israelenses acreditam que foi necessário. E ficaram muito chocados quando o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, que visitou Gaza essa semana, declarou que todos esses ataques sempre foram totalmente inadmissíveis.

Será que o Secretário-Geral não foi informado de que o exército de Israel é o Exército Mais Moral do Mundo?!

Outra ideia é a de que aqueles prédios seriam usados pelo Hamás para esconder armas.

A violência de Israel contra
crianças palestinas é lendária
Alguém, com a minha idade (91 anos), nos recordou esta semana, pelo Haaretz, que os israelenses fizemos exatamente o mesmo, em nossa luta contra o governo britânico na Palestina e atacantes árabes: nossas armas eram escondidas em jardins de infância, escolas, hospitais e sinagogas. Em alguns desses pontos há placas, hoje, como orgulhosos memoriais, para que ninguém esqueça o que fizemos.

Aos olhos dos israelenses médios, a matança e a vasta destruição durante a recente campanha foi completamente justificada. Ele já é quase incapaz de compreender a indignação planetária. E por falta de qualquer outro motivo, atribui tudo ao antissemitismo.

Depois de uma das guerras do Líbano (esqueci qual delas), recebi uma mensagem estranha: um general do exército me convidava para dar uma palestra para os oficiais sob comando dele, sobre o impacto da guerra na imprensa mundial. (Provavelmente, queria impressionar os comandados com sua atitude ilustrada).

Eu disse aos oficiais que o campo de batalhas está hoje completamente mudado, que as guerras modernas são combatidas sob o fogo da imprensa mundial, que os soldados, hoje, têm de ser capazes de considerar essa evidência quando planejam e quando combatem. Todos ouviram respeitosamente e fizeram-me perguntas pertinentes, mas duvido que tenham realmente absorvido a lição.

Ser soldado é profissão como qualquer outra. Qualquer profissional, seja ele/ela advogado ou varredor de rua, adota um conjunto de atitudes adequadas àquela profissão.

Generais pensam com realismo: quantos soldados para tal tarefa, quantos canhões. O que é necessário para quebrar a resistência do inimigo? Como reduzir ao mínimo as nossas baixas?

Generais não pensam sobre fotos no New York Times.

Na campanha de Gaza, nem as crianças foram mortas nem as casas foram destruídas arbitrariamente: tudo teve uma razão militar. É preciso matar pessoas, para reduzir o perigo de morte a que nossos soldados estão expostos. (Melhor cem palestinos mortos, que um soldado israelense). As pessoas têm de viver aterrorizadas, para que se voltem contra o Hamás. Bairros inteiros têm de ser destruídos para que os soldados israelenses consigam avançar e, também, para ensinar à população uma lição da qual se lembrará durante anos, o que ajudará a adiar a próxima guerra.

Tudo isso faz perfeito sentido militar para um general. Ele está lutando uma guerra, santo Deus, e não pode perder tempo com considerações não militares. Como o impacto sobre a opinião pública mundial. Seja como for, depois do Holocausto...

O que o general pensa, Israel pensa.

Manifestações anti-Israel e pro-Gaza
ocorreram no mundo inteiro
Israel não é uma ditadura militar. O general al-Sisi pode até ser o melhor amigo de Netanyahu, mas Netanyahu não é general. Israel gosta de fazer negócios, principalmente negócios com armas, com militares ditadores em todo o mundo, mas em Israel, propriamente dita, até os militares obedecem ao governo civil eleito.

Sim, mas...

Mas o Estado de Israel nasceu de uma guerra duríssima, o resultado da qual absolutamente não era garantido naquele momento. O exército era então, e é até hoje, o centro da vida nacional de Israel. Pode-se dizer que o exército é o único elemento realmente unificador na sociedade israelense. É onde homens e mulheres, asquenazes e orientais, religiosos e seculares (exceto os ortodoxos), ricos e pobres, tradicionais e imigrantes recém-chegados reúnem-se e são doutrinados pelo mesmo espírito.

A maioria dos judeus israelenses são ex-soldados. A maioria dos oficiais, que deixam o exército com pouco mais de 40 anos, espalham-se pela elite administrativa, econômica, política e acadêmica do país. Resultado disso, a mentalidade militar é dominante em Israel.

Assim sendo, os israelenses são quase incapazes de compreender a função que tem a opinião pública mundial. O que querem de nós aqueles suecos, britânicos e japoneses? Será que pensam que gostamos de matar crianças, destruir lares? (Como disse Golda Meir: “Podemos perdoar os árabes por matar nossas crianças, mas nunca os perdoaremos por nos obrigar a matar as crianças deles”).

Os fundadores de Israel eram muito conscientes da opinião pública mundial. É verdade que David Ben-Gurion declarou certa vez que “pouco importa o que os goyim dizem, o que importa é o que os judeus fazem”, mas na vida real Ben-Gurion era muito consciente da necessidade de convencer a opinião pública mundial. Assim também o seu adversário, o líder dos sionistas de direita Vladimir Jabotinsky, que disse uma vez a Menachem Begin que, se fosse dar atenção à consciência do mundo, acabaria “pulando no [rio] Vistula”.

A opinião pública mundial é importante. Mais que isso, é vital. A resolução que o Parlamento britânico aprovou pode não ser obrigatória, mas manifesta a opinião pública, a qual, mais cedo ou mais tarde, decidirá sobre a ação de seus governos na compra de armas, nas resoluções do Conselho de Segurança, nas decisões da União Europeia, numa direção ou em outra. Como disse Thomas Jefferson, “Se o povo decide e lidera, mais cedo ou mais tarde os líderes seguirão o povo”. O mesmo Jefferson também recomendou “um respeito decente às opiniões da humanidade”.



Nota dos tradutores

[1] Expressão que aparece no 1º parágrafo da “Declaração de Independência dos 13 estados unidos da América”, lida ante o Congresso, no dia 4/7/1776 [aqui traduzido]:

Quando, no curso de eventos humanos, torna-se necessário para um povo dissolver os laços políticos que o tenham ligado a outro povo, e assumir, dentre as potências da Terra, o status separado e igual ao qual o capacitam as Leis da Natureza e o Deus da Natureza, um respeito decente às opiniões da humanidade exige que declarem as causas que levam aquele povo à separação.

[*] Uri Avnery nasceu em Beckum, Alemanha, em 10/9/1023 (91 anos) com o nome de Helmut Ostermann, Avnery e família emigraram para a Palestina em 1933, fugindo do nazismo. Em 1938, ele se juntou ao grupo paramilitar sionista Irgun. Abandonou o grupo Irgun em 1942 após se decepcionar com suas táticas. Em 1947, Avnery deu início ao seu pequeno grupo, Eretz Yisrael Hatze'ira (“Jovem Terra de Israel”) que publicava o jornal Ma'avak ("Luta"). Em 1947 ele propôs a união dos países da “região semítica”: Palestina, Transjordânia, Líbano, Síria e Iraque.
Durante a guerra árabe-israelense de 1948, Avnery lutou no front sul na Brigada Givati como comandante de um batalhão. Ferido, foi dispensado no verão de 1949.
Durante as décadas de 1950 e 1960 Avnery foi, em conjunto com Shalom Cohen, editor da revista semanalHaOlam HaZeh ("Esse Mundo"). Em 1965 Avnery criou um partido político que tinha o mesmo nome que sua revista HaOlam HaZeh – Koah Hadash. No mesmo ano, foi eleito para o KnessetDepois fundou o partido político Meri, que não conseguiu garantir lugares nas eleições de 1973. Ele voltou ao Knesset como membro do partido de esquerda de Israel, após as eleições de 1977, mas não foi reeleito em 1981. Mais tarde se envolveu com a Chapa Progressista pela Paz.
Avnery encontrou-se com Yasser Arafat em 3 de julho de 1982, durante o cerco de Beirute. Foi possivelmente a primeira vez que um israelense teve um encontro pessoal com Arafat.
Posteriormente, Avnery passou ao ativismo e fundou o movimento Gush Shalom (em hebraico: גוש שלום,Bloco da Paz) em 1993. Ele é adepto do secularismo e se opõe firmemente à influência ortodoxa na vida política.
Atualmente Avnery colabora com os sites jornalísticos CounterPunchInformation Clearing HouseLew Rockwell e The Exception Magazine

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Robert Fisk: “A história por trás de Gaza, que os israelenses não contam”

9/7/2014, [*] Robert Fisk, The Independent
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ataque aéreo de Israel sobre com bombas de fósforo branco (proibidas pela
Convenção de Genebra) (8/7/2014)
OK, só nessa tarde, o escore de dois dias de mortes é 40 mortos palestinos e nenhum morto israelense. Passemos agora à história de Gaza de que ninguém falará nas próximas horas.

É terra. A questão é terra. Os israelenses de Sderot estão recebendo tiros de rojões dos palestinos de Gaza, e agora os palestinos estão sendo bombardeados com bombas de fósforo e bombas de fragmentação pelos israelenses. É. Mas e como e por que, para início de conversa, há hoje 1 milhão e meio de palestinos apertados naquela estreita Faixa de Gaza?

As famílias deles, sim, viveram ali, não eles, no que hoje há quem chame de Israel. E foram expulsas – e tiveram de fugir para não serem todos mortos – quando foi inventado o estado de Israel.

E – aqui, talvez, melhor respirar fundo antes de ler – o povo que vivia em Sederot no início de 1948 não eram israelenses, mas árabes palestinos. A vila palestina chamava-se Huj. Nunca foram inimigos de Israel. Dois anos antes de 1948, os árabes de Huj até deram abrigo e esconderam ali terroristas judeus do Haganah, perseguidos pelo exército britânico. Mas quando o exército israelense voltou a Huj, dia 31/5/1948, expulsaram todos os árabes das vilas... para a Faixa de Gaza! Tornaram-se refugiados. David Ben Gurion (primeiro primeiro-ministro de Israel) chamou a expulsão de “ação injusta e injustificada”). Pior, impossível. Os palestinos de Huj, hoje Sderot, nunca mais puderam voltar à terra deles.

Israel pratica GENOCÍDIO bombardeando áreas densamente povoadas em Gaza
E hoje, bem mais de 6 mil descendentes dos palestinos de Huj – atual Sderot – vivem na miséria de Gaza, entre os “terroristas” que Israel mente que estaria caçando, e os quais continuam a atirar contra o que foi Huj.

A história do direito de autodefesa de Israel, é a história de sempre. Hoje, foi repetida e a ouvimos mais uma vez. E se a população de Londres estivesse sendo atacada como o povo de Israel? Não responderia? Ora bolas, sim. Mas não há mais de um milhão de ex-moradores de Londres expulsos de suas casas e metidos em campos de refugiados, logo ali, numas poucas milhas quadradas cercadas, perto de Hastings!

A última vez em que se usou esse falso argumento foi em 2008, quando Israel invadiu Gaza e assassinou pelo menos 1.100 palestinos (escore: 1.100 mortos palestinos, a 13 mortos israelenses). E se Dublin fosse atacada por foguetes – perguntou então o embaixador israelense? Mas nos anos 1970s, a cidade britânica de Crossmaglen no norte da Irlanda estava sendo atacada por foguetes da República da Irlanda – nem por isso a Real Força Aérea britânica pôs-se a bombardear Dublin, em retaliação, matando mulheres e crianças irlandesas.

No Canadá em 2008, apoiadores de Israel repetiram esse argumento fraudulento: e se o povo de Vancouver ou Toronto ou Montreal fosse atacado com foguetes lançados dos subúrbios de suas próprias cidades? Como se sentiriam? Não. Os canadenses nunca expulsaram para campos de refugiados os habitantes originais dos bairros onde hoje vivem.

Como se vê desde Israel o bombardeio de áreas civis e densamente povoadas em Gaza
...

Passemos então para a Cisjordânia. Primeiro, Benjamin Netanyahu disse que não negociaria com o “presidente” palestino Mahmoud Abbas, porque Abbas não representava também o Hamás. Depois, quando Abbas formou um governo de unidade, Netanyahu disse que não negociaria com Abbas, porque “unificara” seu governo com o “terrorista” Hamas. Agora, está dizendo que só falará com Abbas se romper com o Hamas – quando, então, rompido, Abbas não representará o Hamas...

Uri Avnery
Enquanto isto, o grande filósofo da esquerda israelense, Uri Avnery – 90 anos e, felizmente, cheio de energia – ataca a mais recente obsessão de seu país: a ameaça de que o ISIS mova-se para oeste, lá do seu “califado” iraquiano-sírio, e aporte à margem leste do rio Jordão.

“E Netanyahu disse”, segundo Avnery, que “se não forem detidos por uma guarnição permanente de Israel no local (no rio Jordão), logo mostrarão a cara nos portões de Telavive”. A verdade, claro, é que a força aérea de Israel esmagaria qualquer “ISIS”, no momento em que começasse a cruzar a fronteira da Jordânia, vindo do Iraque ou da Síria.

A importância da “guarnição permanente”, contudo, é que se Israel mantém seu exército na Jordânia (para proteger Israel contra o ISIS), um futuro estado “palestino” não terá fronteiras e ficará como enclave dentro de Israel, cercado por território israelense por todos os lados. “Em tudo semelhante aos bantustões sul-africanos” – diz Avnery.

Em outras palavras: nenhum estado “viável” da Palestina jamais existirá. Afinal, o ISIS não é a mesma coisa que o Hamás? É claro que não é.

Mark Regev
Mas Mark Regev, porta-voz de Netanyahu, diz que é! Regev disse à Al Jazeera que o Hamás seria “organização terrorista extremista não muito diferente do ISIS no Iraque, do Hezbollah no Líbano, do Boko Haram…” Sandices. O Hezbollah é exército xiita que está lutando dentro da Síria contra os terroristas do ISIS. E Boko Haram – a milhares de quilômetros de Israel – não ameaça Telavive.

Vocês entenderam o “espírito” da fala de Regev. Os palestinos de Gaza – e esqueçam as 6 mil famílias palestinas cujas famílias foram expulsas pelos sionistas das terras onde hoje está Sederot – são aliados das dezenas de milhares de islamistas que ameaçam Maliki de Bagdá, Assad de Damasco ou o presidente Goodluck Jonathan em Abuja.

Sim, mas... Se o ISIS está a caminho para tomar a Cisjordânia, por que o governo sionista de Israel continua a construir colônias ali?! Colônias ilegais, em terra árabe, para civis israelenses... na trilha do ISIS?! Como assim?!

Nada do que se vê hoje na Palestina tem a ver com o assassinato de três israelenses na Cisjordânia ocupada, nem com o assassinato de um palestino na Jerusalém Leste ocupada. Tampouco tem algo a ver com a prisão de militantes e políticos do Hamas na Cisjordânia. E nem o que se vê hoje na Palestina tem algo a ver com foguetes. Tudo, ali, sempre, é disputa por terra dos árabes.

[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial. Estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabalhou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times onde trabalhou até 1988  substituindo o correspondente do jornal no Oriente Médio. Mudou para o The Independent em 1989- após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982; a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão. 
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro britânico mais premiado do planeta. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.

sábado, 8 de março de 2014

Ucrânia... e Netanyahu ganha tempo

E Deus abençoe Putin

8/3/2014, [*] Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz], Israel
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Netanyahu por Latuff/2012
BINYAMIN NETANYAHU é ótimo em discursos, especialmente para judeus, neoconservadores e outros, que pulam e aplaudem furiosamente qualquer coisa que ele diga, inclusive que amanhã o sol nascerá a oeste.

A questão é: e ele presta para alguma outra coisa?

O pai de Bibi, ultra direitista, disse uma vez sobre o filho que ele não servia para primeiro-ministro, mas daria bom ministro de Relações Exteriores. Quis dizer que Binyamin não tem a profundidade de entendimento necessária para conduzir a nação, mas que vende muito bem qualquer política concebida por líder que preste.

(Faz lembrar o que Abba Eban disse de David Ben-Gurion: “Ele explica muito bem. Depois que se diz a ele o que explicar”).

Essa semana, Netanyahu foi convocado a Washington. Tinha de aprovar o novo “quadro” de John Kerry para algum acordo, o qual serviria de base para o reinício de negociações de paz que, até agora, nunca deram em nada.

Na véspera da reunião, o presidente Barack Obama deu uma entrevista a jornalista judeu, e culpou Netanyahu pelo congelamento do “processo de paz” – como se, algum dia, tivesse havido algum processo de paz.

Mahmoud Abbas
Latuff/2011
Netanyahu chegou lá com a mala vazia – quero dizer, com a mala cheia de slogans vazios. A liderança israelense muito se esforçara para alcançar a paz, mas a coisa não avança, tudo culpa dos palestinos. A culpa é de Mahmoud Abbas, porque se recusa a reconhecer Israel como estado-nação do povo judeu. O quê… hmm… E sobre as colônias, que cresceram muito ao longo desse ano?

Por que os palestinos teriam de negociar negociações sem fim, se, ao mesmo tempo, o governo israelense rouba mais e mais terra, exatamente a terra que estaria sendo negociada? (Como dizem os palestinos, argumento clássico: “Negociamos sobre dividir a pizza, e, enquanto isso, Israel está comendo a pizza”).  

Obama se obrigou a confrontar Netanyahu, o AIPAC e seus congressionais servis.

Estava a ponto de torcer o braço de Netanyahu até ele gritar “titio” – sendo “titio” o tal “quadro” de Kerry, o qual, hoje, já está tão aguado que mais parece um manifesto sionista. Kerry é louco por alguma “realização”, não importa o que ele “realize”.

Netanyahu, à cata de alguma coisa para impedir o massacre, já estava pronto para, como sempre, pôr-se a gritar “Irã! Irã! Irã” – quando aconteceu algo imprevisto.

NAPOLEÃO, em frase famosa, bradava: “Me deem generais pé-quente!”. Teria adorado o general Bibi.

Porque, justamente quando se aproximava de ter de enfrentar um Obama que parecia revigorado, houve uma explosão que sacudiu o mundo.

A Ucrânia.

Foi como os tiros que ecoaram em Sarajevo, cem anos atrás.

A tranquilidade internacional foi repentinamente destruída. A possibilidade de grande guerra estava no ar.

A visita de Netanyahu a Washington sumiu do noticiário. Obama, às voltas com crise histórica, só queria livrar-se dele, quanto mais depressa, melhor. Em vez da admoestação severa que havia planejado, só rápidas frases ocas. Todos os maravilhosos discursos que Netanyahu preparara lá ficaram, não discursados. Sequer seu discurso triunfalista de sempre no AIPAC despertou qualquer interesse.

Tudo por causa dos eventos em Kiev.

AGORA, já se escreveram inumeráveis artigos sobre a crise. O que não falta são paralelos históricos.

Embora “ucrânia” signifique “terra de fronteira”, o país sempre esteve no cento dos eventos europeus. Coitados dos meninos e meninas das escolas ucranianas! As mudanças na história do país deles foram frequentes e sempre extremas. Em ocasiões diferentes, a Ucrânia foi potência europeia, depois território depauperado e exaurido, depois extremamente rica (o “cesto de pão da Europa”), depois abjetamente pobre, atacada pelos vizinhos que capturavam o povo local como escravos ou atacavam os vizinhos para ganhar território.

As línguas faladas na Ucrânia, por região
(clique no mapa para aumentar)
A relação entre Ucrânia e Rússia é ainda mais complexa. Num certo sentido, a Ucrânia é o coração da cultura, da religião e da ortografia russa. Kiev foi muito mais importante que Moscou, antes desta tornar-se a pedra central do imperialismo moscovita.

Na Guerra da Crimeia dos anos 1850s, a Rússia lutou valentemente contra uma coalizão de Grã-Bretanha, França, o Império Otomano e a Sardenha, mas perdeu a guerra. A guerra eclodiu por causa de direitos cristãos em Jerusalém, e incluiu longo sítio de Sebastopol. O mundo lembra a Carga da Brigada Ligeira. [1] Uma britânica, de nome Florence Nightingale, criou a primeira organização para atender feridos no campo de batalha.

Durante minha vida, Stálin assassinou milhões de ucranianos, que morreram de fome. Resultado disso, muitos ucranianos festejaram a chegada da Wehrmacht alemã, em 1941, como libertadores. Poderia ter sido o início de uma bela amizade, mas, infelizmente, Hitler estava decidido a erradicar os ucranianos Untermenschen [subumanos], para integrar a Ucrânia ao Lebensraum [espaço vital] alemão.

A Crimeia sofreu horrivelmente. O povo tártaro, que governara a península no passado, foi deportado para a Ásia Central; décadas depois, foram autorizados a voltar. Hoje são pequena minoria, aparentemente indecisa quanto às suas lealdades.

A RELAÇÃO entre a Ucrânia e os judeus não é menos complicada.

Shlomo Sand
Alguns autores judeus, como Arthur Koestler e Shlomo Sand, creem que o império Khazar, que governou a Crimeia e territórios vizinhos há mil anos, converteu-se ao judaísmo, e que muitos judeus asquenazes descendem dos khazares. A ser verdade, todos em Israel seríamos ucranianos (muitos dos primeiros sionistas, sim, eram ucranianos).

Quando a Ucrânia foi parte do extenso império polonês, muitos nobres poloneses se apossaram de vastas propriedades ali. Empregaram judeus na administração dos negócios. Daí que os camponeses ucranianos tenham passado a ver todos os judeus como agentes dos que os oprimiam e exploravam; e o antissemitismo tornou-se parte da cultura nacional da Ucrânia.

Como aprendemos na escola, a cada salto da história ucraniana, os judeus eram massacrados. O nome de inúmeros heróis do folclore ucraniano, de líderes e de rebeldes reverenciados na terra natal, são, na consciência dos judeus, associados a terríveis pogroms.

Bohdan Khmelnytsky
Cossack Hetman (líder) Bohdan Khmelnytsky, que libertou a Ucrânia do jugo polonês e é considerado pelos ucranianos o pai da nação, foi um dos mais terríveis assassinos em massa na história dos judeus. Symon Petliura, que liderou os ucranianos na guerra contra os bolcheviques depois da 1ª Guerra Mundial, foi assassinado por um vingador de judeus.

Em Israel, alguns dos imigrantes mais velhos terão dificuldade para decidir quem odeiam mais: os ucranianos ou os russos (ou, os poloneses, não se pode esquecer). 

As pessoas, pelo mundo, acham difícil escolher seu lado.

Os fanáticos da Guerra Fria, não; escolhem facilmente – ou odeiam os EUA ou odeiam a Rússia, por questão de hábito.

Quanto a mim, quanto mais analiso a situação, mais inseguro me sinto. Essa não é situação de ou branco ou preto.

A primeira simpatia vai para os rebeldes da praça Maidan (Maidan é palavra árabe, que significa “praça da cidade”. Estranho que tenha chegado a Kiev. Provavelmente, via Istambul).

Queriam unir-se ao ocidente, ter independência e democracia. O que há de errado nisso?

Nada, exceto que aqueles rebeldes apareceram aliados a estranhos companheiros de cama: neonazistas em uniformes nazistas, saudando à Hitler e gritando slogans antissemitas. Não, nada atraentes. O encorajamento que recebem de aliados ocidentais, incluídos os odiosos neoconservadores norte-americanos, é impalatável.

Vladimir Putin
Por sua vez, Vladimir Putin tampouco é muito sedutor. É o velho imperialismo russo, tudo outra vez.

O slogan dos russos – temos de proteger os falantes de russo em país vizinho – é horrivelmente bem conhecido. Foi o que Adolf Hitler disse em 1938, para proteger os alemães Sudeten dos monstros tchecos.

Mas Putin tem alguma boa lógica a seu favor. Sebastopol – cenário de sítios heroicos, tanto na Guerra da Crimeia como na IIª Guerra Mundial, é essencial para as forças navais russas. A associação com a Ucrânia é parte importante das aspirações que a Rússia tem como potência mundial. 

Operador de sangue frio, calculista, tipo raro, hoje, no planeta, Putin usa as cartas fortes que tem, mas é cuidadoso e não se expõe a riscos. Está administrando a crise com astúcia, usando as óbvias vantagens da Rússia. A Europa precisa de seu gás e de seu petróleo; Putin precisa dos capitais e do comércio da Europa. A Rússia tem papel de liderança na questão síria e na questão do Irã. Os EUA, de repente, parecem simples transeunte.

Assumo que, ao final, os dois lados farão concessões. A Rússia manterá influência sobre a próxima liderança ucraniana. Os dois lados proclamarão vitória.

(Por falar nisso, a todos aqui que ainda acreditam na “Solução de Um Estado”: o que se vê na Ucrânia é mais um estado multicultural que se parte em pedaços) .

E O QUE TUDO ISSO tem a ver com Netanyahu?

Ele ganhou tempo, alguns meses ou anos, sem nenhum passo em direção a qualquer paz. E, entrementes, ele pode continuar a ocupar e construir colônias em ritmo frenético.

É a tradicional estratégia sionista: o tempo é tudo. Cada adiamento é oportunidade para criar mais “fatos em campo”. Deus abençoe Putin. As preces de Netanyahu foram atendidas.



[*] Uri Avnery nasceu em Beckum, Alemanha, em 10/9/1023 com o nome de Helmut Ostermann, Avnery e família emigraram para a Palestina em 1933, fugindo do nazismo. Em 1938, ele se juntou ao grupo paramilitar sionista Irgun. Abandonou o grupo Irgun em 1942 após se decepcionar com suas táticas. Em 1947, Avnery deu início ao seu pequeno grupo, Eretz Yisrael Hatze'ira (“Jovem Terra de Israel”) que publicava o jornal Ma'avak ("Luta"). Em 1947 ele propôs a união dos países da “região semítica”: Palestina, Transjordânia, Líbano, Síria e Iraque.
Durante a guerra árabe-israelense de 1948, Avnery lutou no fronte sul na Brigada Givati como comandante de um batalhão. Ferido, foi dispensado no verão de 1949.
Durante as décadas de 1950 e 1960 Avnery foi, em conjunto com Shalom Cohen, editor da revista semanal HaOlam HaZeh ("Esse Mundo"). Em 1965 Avnery criou um partido político que tinha o mesmo nome que sua revista HaOlam HaZeh – Koah Hadash. No mesmo ano, foi eleito para o Knesset. Depois fundou o partido político Meri, que não conseguiu garantir lugares nas eleições de 1973. Ele voltou ao Knesset como membro do partido de esquerda de Israel, após as eleições de 1977, mas não foi reeleito em 1981. Mais tarde se envolveu com a Chapa Progressista pela Paz.
Avnery encontrou-se com Yasser Arafat em 3 de julho de 1982, durante o cerco de Beirute. Foi possivelmente a primeira vez que um israelense teve um encontro pessoal com Arafat.
Posteriormente, Avnery passou ao ativismo e fundou o movimento Gush Shalom (em hebraico: גוש שלום, Bloco da Paz) em 1993. Ele é adepto do secularismo e se opõe firmemente à influência ortodoxa na vida política.
Atualmente Avnery colabora com os sites jornalísticos CounterPunch, Information Clearing House, Lew Rockwell e The Exception Magazine.
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Nota dos tradutores

[1] A Carga da Brigada Ligeira foi poema de Tennyson no século 19; filme em 1936; refilmagem em 1968 e também novela de rádio produzida pela BBC – British Broadcasting Corporation em 2002 e sabe-se lá o que mais foi! Famosa foi mesmo a Batalha de Balaclava em 1834, entre os Impérios Britânico e Russo.
Notavelmente foi tema de rock punk do Iron Maiden, em gravação de 1983, “The Trooper”, do álbum Piece of Mind que pode ser ouvido a seguir: