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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O negócio de Israel “vidas em troca de terra” é roubo. Puro e simples

4/9/2014, [*] Robert FiskThe Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na tendinha do Pirumole:
“Então Israel não é um país... É uma enorme quadrilha!”

Quanto Israel roubou de terras da Palestina
(clique na imagem para aumentar)
Visão de mundo? Israel rouba terras, os palestinos são roubados. Não há outra coisa para ver.

E assim mais uma fatia da terra palestina escorregou pelo ralo. Mais uns mil acres de terra palestina roubada pelo governo de Israel – porque... “apropriação” é roubo, não é? – e o mundo já apareceu com as desculpas de sempre.

Os norte-americanos acharam o roubo “contraproducente” para a paz, o que é reação bastante amena, se se considera o que os EUA diriam/fariam se o México roubasse 1.000 acres de terra do Texas e resolvesse construir casas ali para imigrantes mexicanos ilegais nos EUA.

Mas, não. Foi na “Palestina” (país inexistente, daí as aspas). E Israel conseguiu safar-se, terras roubadas e tudo, embora o roubo alcance agora escala inusitada – foi a maior quantidade de roubo de terra em 30 anos, desde que foi assinado o Acordo de Oslo em 1993.

O aperto de mão Rabin-Arafat, as promessas e trocas de territórios e retiradas militares, e a determinação de deixar tudo de importante (Jerusalém, refugiados, o direito de retorno) para o fim, até que todos confiassem tanto uns nos outros que a coisa seria facílima... não surpreende que o mundo tenha feito descer sobre os dois sua generosidade financeira.

O aperto-de-mão entre Rabin e Arafat

Mas esse mais recente roubo de terra não apenas reduz a “Palestina”: também mantém o círculo de concreto armado em torno de Jerusalém, para manter os palestinos bem distantes, tanto da capital que se espera que eles partilhem com israelenses, como de Belém.

Foi instrutivo saber que o conselho Etzion israelense-judeu considerou o roubo como castigo pelo assassinato de três adolescentes israelenses em junho.

O objetivo dos assassinatos dos três jovens foi semear o medo entre nós, interromper nossa vida diária e pôr em dúvida nosso direito [sic] à terra – anunciou o conselho Etzion. Nossa resposta é reforçar a colônia.

Deve ser a primeira vez que alguém “adquiriu” terras na “Palestina” sem usar desculpas sobre segurança ou direitos de nascimento – ou por decisão-autorização direta de Deus. Dessa vez, o motivo para roubar terra palestina foi declaradamente vingança. Assim se cria interessante precedente.

Se a vida de um israelense inocente – cruelmente ceifada – vale cerca de 330 acres de terra, a vida de um palestino inocente – também cruelmente ceifada – vale a mesma porção de terra.

E se metade, que seja, dos 2.200 palestinos mortos em Gaza mês passado – e esse é número conservador – fossem inocentes, nesse caso os palestinos hoje teriam direito assegurado a 330 mil acres de terra israelense; na realidade, muito mais. Mas por mais “contraproducente” que essa conta seja, com certeza os EUA não aprovariam. Israel rouba terra, palestinos perdem terra; é assim que funciona. É assim desde 1948, e assim continuará.

Mahmoud Abbas/2011
por Latuff
Jamais existirá ‘'Palestina'’ alguma, e o mais recente roubo de terra palestina é apenas mais um ponto acrescentado no livro dos padecimentos que os palestinos têm de ler, enquanto seus sonhos de terem estado seu se vão diluindo. Nabil Abu Rudeineh, porta-voz do “presidente” palestino Mahmoud Abbas, disse que o chefe dele e as forças moderadas na Palestina haviam sido “apunhalados pelas costas” pela decisão dos israelenses, o que é dizer pouco, praticamente nada. Abbas tem as costas completamente apunhaladas, de cima a baixo. E esperava o quê, da vida, quando escreveu um livro sobre as relações palestinos-israelenses no qual não escreveu nem uma única vez, uma, que fosse, a palavra “ocupação”?

O que significa que voltamos ao velho joguinho. Abbas não pode negociar com ninguém a menos que fale pelo Hamás, tanto quanto pela Autoridade Palestina. Como Israel sabe. Como os EUA sabem. Como a União Europeia sabe. Mas cada vez que Abbas tenta construir governo de unidade nacional, todos nós nos pomos a guinchar que o Hamás é organização “terrorista”.

E Israel argumenta que não pode conversar com uma organização “terrorista” que exige a destruição de Israel – por mais que Israel costumasse conversar muito com Arafat e, naqueles dias, tenha ajudado o Hamás a construir mais mesquitas em Gaza e na Cisjordânia, para servirem como contrapeso ao Fatah e a todos os outros então “terroristas” lá de Beirute.

Mahmoud Abbas/2014
por Latuff
Claro, se Abbas fala só por ele mesmo, Israel então diz o que já disse: que se Abbas não fala por Gaza, Israel não tem com quem negociar. Mas... isso realmente ainda interessa? Todas as manchetes do mundo, sobre esse assunto, deveriam exibir uma tarja de luto: “Adeus, Palestina”.
____________________________


[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial. Estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabalhou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times onde trabalhou até 1988 substituindo o correspondente do jornal no Oriente Médio. Mudou para o The Independent em 1989- após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982; a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão.  
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro mais premiado do planeta. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Israel apara a grama

31/7/2014, [*] Mouin Rabbani, London Review of Books, vol. 36, n. 15, p. 8
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Ilustrações de Latuff - via web

Não alimente o criminoso
Em 2004, um ano antes de Israel retirar-se da Faixa de Gaza, Dov Weissglass, eminência parda de Ariel Sharon, explicou o objetivo da iniciativa, em entrevista ao jornal Haaretz:

O significado do plano de desengajamento é congelar o processo de paz (…) e quando se congela aquele processo, impede-se o estabelecimento de um estado palestino, e impede-se que se discuta a questão dos refugiados, as fronteiras e Jerusalém. Efetivamente, todo esse pacote chamado o estado palestino, com tudo que implica, foi removido por prazo indefinido, de nossa agenda. E isso tudo com (...) as bênçãos do presidente dos EUA e a ratificação das duas casas do Congresso (...). O desengajamento é, de fato, formol. Fornece a quantidade necessária de formol para que não haja processo político algum com os palestinos.

Em 2006, Weissglass era igualmente franco sobre a política de Israel para os 1,8 milhão de habitantes de Gaza:

A ideia é pôr os palestinos em regime de restrição de comida, não matá-los de fome.

Não falava metaforicamente: soube-se depois que o Ministério da Defesa de Israel havia feito pesquisa detalhada sobre como pôr em prática seu projeto, e chegou ao número limite de 2.279 calorias por pessoa por dia – cerca de 8% menos que cálculo anterior, porque a equipe de pesquisa havia esquecido, da primeira vez, de considerar os fatores “cultura e experiência”, no cálculo para determinar as “linhas vermelhas” nutricionais.

Não foi exercício acadêmico. Depois de aplicar uma política de integração entre 1967 e o final da década dos 1980s, a política israelense deu uma guinada no rumo da separação durante os levantes de 1987-93, e da fragmentação durante os anos de Oslo. Para a Faixa de Gaza, área do tamanho da Grande Glasgow, essas mudanças implicaram gradual rompimento e separação do mundo exterior, com a entrada e saída de pessoas e bens para dentro e para fora do território já cada vez mais difíceis.

   Povo Escolhido                       Povo Caçado
Os parafusos foram sendo arrochados cada vez mais durante o levante de 2000-5, e em 2007 afinal a Faixa de Gaza foi efetivamente fechada para o mundo. Todas as exportações foram proibidas e só 131 caminhões de comida e alguns produtos essenciais podiam entrar, por dia. Israel também controlava rigorosamente que produtos podiam e não podiam ser importados. Itens proibidos incluíam papel A4, chocolate, coentro, lápis de cera, geleia, macarrão, xampu, sapatos e cadeiras de rodas.

Em 2010, comentando essa degradação premeditada e sistemática do padrão de humanidade de uma população inteira, David Cameron disse que a Faixa de Gaza era um “campo de concentração de prisioneiros” e – pela primeira vez – não suavizou a avaliação acrescentando-lhe um comentário sobre o direito de os carrascos defenderem-se contra o “perigo” que seus prisioneiros e vítimas representariam.

Tem-se repetido que a razão pela qual Israel sempre torna cada vez mais violento o seu regime de castigo coletivo seria derrubar o Hamás, que chegou ao poder em 2007, em Gaza. É só, uma mentira a mais. Remover o Hamás do poder é objetivo dos EUA e da União Europeia desde o dia em que o movimento venceu as eleições parlamentares de 2006; e os esforços combinados daquelas forças para derrubar o Hamás do poder ajudou a preparar o cenário para que Israel se dedicasse a aprofundar o cisma palestino.

A agenda de Israel é bem outra. Se quisesse pôr fim ao poder do Hamás, já o teria feita e até bem facilmente, sobretudo antes, enquanto o Hamás ainda consolidava seu controle sobre Gaza em 2007, a sem necessariamente reverter o desengajamento de 2005. Mas, não. Israel viu o cisma entre o Hamás e a Autoridade Palestina como uma oportunidade para aprofundar suas políticas de separação e fragmentação, e para aliviar a crescente pressão internacional para pôr fim a uma ocupação da Palestina que já durara meio século.

Os ataques massivos de Israel contra a Faixa de Gaza em 2008-9 (Operação Chumbo Derretido) e em 2012 (Operação Pilar de Defesa), além dos incontáveis ataques individuais entre uma grande guerra e outra, foram, nesse contexto, exercício para o que os militares israelenses chamaram de “aparar a grama”: enfraquecer o Hamás e ampliar os poderes “de contenção” de Israel. Como o Relatório Goldstone de 2009 e outras investigações demonstraram, às vezes em detalhes horrivelmente dolorosos, a “grama” é gente, pessoas, civis palestinos não combatentes, tomados como alvos humanos da artilharia indiscriminada dos israelenses.

Operação Chumbo Derretido (Cast Lead)
O atual ataque de Israel contra a Faixa de Gaza, que começou dia 6 de julho/2014, com invasão também por terra iniciada dez dias depois, é mais uma ação na mesma agenda. As condições foram consideradas maduras no final de abril. Negociações que se arrastavam há nove meses começaram a parar quando o governo israelense não cumpriu o compromisso de libertar vários palestinos mantidos encarcerados desde antes dos Acordos de Oslo de 1993; e pararam, mesmo, quando Netanyahu anunciou que não mais negociaria com Mahmoud Abbas, “porque” Abbas acabava de assinar acordo de reconciliação com o Hamás.

Nessa ocasião, em atitude em tudo diversa da “normal”, o Secretário de Estado dos EUA John Kerry explicitamente culpou Israel pelo rompimento das conversações. O enviado especial dos EUA, Martin Indyk, profissional lobbyista pró-Israel, também culpou o insaciável apetite de Israel por terras palestinas e pela expansão continuada das colônias, e demitiu-se.

O desafio lançado contra Netanyahu foi bem claro. Se até os norte-americanos já estão dizendo ao mundo que Israel não tem qualquer interesse em paz, os mais diretamente investidos num acordo com vistas a uma solução de Dois Estados – como a União Europeia, que já começou a excluir entidades israelenses ativas nos Territórios Palestinos Ocupados, de participação em acordos bilaterais – podem começar a pensar em novos meios para empurrar Israel de volta para dentro das fronteiras de 1967.

Negociações sobre coisa-alguma são planejadas para garantir cobertura política à odiosa política israelense de anexação. Agora que novamente fracassaram, o patrimônio estratégico que é a opinião pública norte-americana pode começar a perguntar-se por que o Congresso dos EUA é mais leal a Netanyahu que o Knesset israelense.

Kerry trabalhou a valer para conseguir acordo amplo: pegou praticamente todas as exigências de Israel e enfiou-as pela goela abaixo de Abbas. Pois mesmo assim Netanyahu continuava a reclamar. Além de se recusar a especificar futuras fronteiras israelenses-palestinas durante os nove meses de negociação, os líderes israelenses levantaram tais acusações contra Washington, tão violentas – de encorajar o extremismo, socorrer terroristas – que quase se poderia concluir que o Congresso dos EUA apoia o Hamás, não Israel! E ao custo de US$ 3 bilhões anuais.

Israel recebeu outro golpe dia 2/6/2014, quando tomou posse um novo governo da Autoridade Palestina, depois do acordo de reconciliação de abril entre os partidos Hamás e Fatah. O Hamás apoiou o novo governo apesar de não receber postos no Gabinete e de a composição e o programa do governo serem virtualmente idênticos aos do governo anterior.

Hamas e Fatah
Praticamente sem protesto dos islamistas, Abbas repetiu e proclamou que o governo aceitava as demandas do “Quarteto do Oriente Médio”: reconhecia Israel, renunciava à violência e aderia a acordos anteriores. Anunciou também que as forças de segurança na Cisjordânia continuariam a colaborar com Israel.

Quando Washington e Bruxelas sinalizaram a intenção de cooperar com o novo governo, todos os sinais de alarme dispararam em Israel.

O que Israel repetiu sempre, que os negociadores palestinos falam cada um só por si próprio – e que, por isso, nenhum acordo seria jamais cumprido – começara a perder sentido: a liderança palestina não apenas podia dizer que representa a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, como, também, conseguira cooptar o Hamás para que apoiasse um acordo negociado para Dois Estados, quase, praticamente, no contexto de Oslo. Sem demora, começariam as pressões sobre Israel para que negociasse a sério com Abbas. O formol começava a evaporar.

Nesse ponto, Netanyahu apropriou-se do desaparecimento, dia 12/6/2014, de três israelenses jovens na Cisjordânia, como um afogado agarra-se a uma boa salva-vidas.

Apesar das provas que recebeu das forças de segurança de Israel de que os três já estavam mortos, e não há até hoje prova alguma de que o Hamás tivesse tido qualquer envolvimento nesses eventos, Netanyahu imediatamente acusou diretamente o Hamás e, na sequência, lançou vasta campanha para “resgatar os reféns” em toda a Cisjordânia. Foi, de fato, operação de assalto e saque militar. Incluiu o assassinato de pelo menos seis palestinos, nenhum dos quais acusado de participação no desaparecimento dos três israelenses; prisões em massa, inclusive de deputados do Hamás e a recaptura de prisioneiros libertados em 2011; demolição de muitas casas e invasão e saque de outras; e variedade enorme de depredações do tipo que Israel elevou à posição de uma das belas artes ao longo de décadas de ocupação.

Netanyahu desencadeou festival de fogos de artifício demagógicos contra todos os palestinos; o sequestro seguido de assassinato – foi queimado vivo – de um jovem palestino em Jerusalém não pode ser e não será separado dessa mesma campanha de incitamento ao ódio.

Mahmoud Abbas e o massacre em Gaza
Por sua parte, Abbas falhou mais uma vez e não se opôs à operação israelense; até ordenou que suas forças de segurança continuassem a cooperar com Israel na caçada ao Hamás. O acordo de reconciliação foi posto sob grave pressão. Na noite de 6/7/2014, um ataque aéreo israelense resultou na morte de sete militantes do Hamás.

O Hamás respondeu com fogo sustentado de foguetes que invadiram o centro do território israelense; e escalaram novamente depois que Israel lançou campanha de massacre massivo.

Ao longo do último ano, o Hamás esteve sempre em posição precária: perdeu suas instalações em Damasco e o status preferencial de que gozava no Irã, efeito de o grupo ter-se recusado a declarar apoio ao regime sírio; e enfrentou níveis sem precedentes de hostilidade, pelo novo regime militar egípcio. A economia subterrânea dos túneis entre Egito e Gaza foi sistematicamente atacada pelos egípcios, e pela primeira vez desde que passou a controlar politicamente o território, em 2007, o Hamás não conseguiu pagar em dia os salários das dezenas de milhares de funcionários públicos. O acordo de reconciliação com o partido Fatah foi a tentativa de trocar o próprio programa político pela sobrevivência imediata: em troca de conceder a arena política a Abbas, o Hamás conservaria o governo da Faixa de Gaza, com seus funcionários incluídos na folha de pagamentos da Autoridade Palestina e a passagem de fronteira com o Egito reaberta.

No evento, a troca que o Hamás esperava ver realizada não aconteceu; e, segundo Nathan Thrall do International Crisis Group, “a vida em Gaza piorou”. “A escalada real”, Thrall escreveu, “é resultado direto de Israel e o Ocidente terem-se oposto à implementação do acordo de reconciliação entre os palestinos, de abril de 2014”. Ou, dito de outro modo: os que, dentro do Hamás, viram a crise como uma oportunidade para pôr fim ao governo de Weissglass, passaram a controlar o partido. Até agora, parecem ter com eles a maioria da população – porque preferem morrer sob fogo dos F-16, do que morrer mergulhados em formol.

Ante o coral de uivos hipócritas – que dessa vez incluem os guinchos de um acovardado Cameron – sobre um “direito de autodefesa” que caberia a Israel, e ante a absoluta negação aos palestinos do mesmo direito, com muita frequência se deixa passar sem ver o ponto fundamental: que o ataque israelense contra os palestinos é ilegítimo.

Como argumentou com muita pertinência o advogado Noura Erakat, “Israel não tem qualquer direito de autodefesa, nos termos da lei internacional, contra território palestino ocupado”. O argumento de Israel, de que já não estaria ocupando a Faixa de Gaza, foi descartado por Lisa Hajjar, da Universidade da Califórnia, como uma autoemitida “licença para matar”.

Netanyahu e o massacre em Gaza
Mais uma vez, Israel está “aparando a grama” em total impunidade, assassinando civis não combatentes e destruindo infraestrutura civil. Dada a afirmativa repetida dos israelenses de que usam as armas mais precisas disponíveis e miram atentamente os alvos, é impossível não concluir que os assassinatos são deliberadamente mirados.

Segundo agências da ONU, mais de ¾ dos mais de 260 palestinos mortos até agora são civis, e mais de ¼ desses são crianças. A maioria foi “mirada’ e morta dentro das próprias casas: não podem ser apresentados como “dano colateral”, seja qual for a definição dessa expressão. Claro que os militantes palestinos miram cruelmente os centros israelenses mais populosos, embora seus ataques só tenham produzido uma única morte: um israelense que oferecia doces a soldados que pulverizavam a Faixa de Gaza. 

A ONG Human Rights Watch criticou os dois lados, sim. Mas só acusou os palestinos por crimes de guerra...


[*] Mouin Rabbani nasceu na Holanda. Recebeu seu Bacharelado em História e Relações Internacionais pela Universidade de Tufts, em 1986; Mestrado em Estudos Contemporâneos árabes na Universidade de Georgetown. Foi analista político para assuntos do Oriente Médio no International Crisis Group, Diretor do Centro de Pesquisa Palestino−Americano, Diretor de Projetos da Associação de Municípios Países Baixos; Editor Geral voluntário do anuário Al Haq. Rabbani é atualmente um membro sênior do Instituto de Estudos da Palestina, co-editor de Jadaliyya, e editor colaborador do Middle East Report. Rabbani publicou em vários veículos, incluindo Third World Quarterly, Journal of Palestine Studies, The Nation, Foreign Policy, London Review of Books, e The Hill . Suas opiniões e análises tem sido citados por vários meios de comunicação internacionais, como o The New York Times, The Guardian, Reuters, Haaretz, The Washington Post, e Al Jazeera. É ardente defensor da solução de Estado Único para Israel-Palestina.

sábado, 8 de março de 2014

Ucrânia... e Netanyahu ganha tempo

E Deus abençoe Putin

8/3/2014, [*] Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz], Israel
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Netanyahu por Latuff/2012
BINYAMIN NETANYAHU é ótimo em discursos, especialmente para judeus, neoconservadores e outros, que pulam e aplaudem furiosamente qualquer coisa que ele diga, inclusive que amanhã o sol nascerá a oeste.

A questão é: e ele presta para alguma outra coisa?

O pai de Bibi, ultra direitista, disse uma vez sobre o filho que ele não servia para primeiro-ministro, mas daria bom ministro de Relações Exteriores. Quis dizer que Binyamin não tem a profundidade de entendimento necessária para conduzir a nação, mas que vende muito bem qualquer política concebida por líder que preste.

(Faz lembrar o que Abba Eban disse de David Ben-Gurion: “Ele explica muito bem. Depois que se diz a ele o que explicar”).

Essa semana, Netanyahu foi convocado a Washington. Tinha de aprovar o novo “quadro” de John Kerry para algum acordo, o qual serviria de base para o reinício de negociações de paz que, até agora, nunca deram em nada.

Na véspera da reunião, o presidente Barack Obama deu uma entrevista a jornalista judeu, e culpou Netanyahu pelo congelamento do “processo de paz” – como se, algum dia, tivesse havido algum processo de paz.

Mahmoud Abbas
Latuff/2011
Netanyahu chegou lá com a mala vazia – quero dizer, com a mala cheia de slogans vazios. A liderança israelense muito se esforçara para alcançar a paz, mas a coisa não avança, tudo culpa dos palestinos. A culpa é de Mahmoud Abbas, porque se recusa a reconhecer Israel como estado-nação do povo judeu. O quê… hmm… E sobre as colônias, que cresceram muito ao longo desse ano?

Por que os palestinos teriam de negociar negociações sem fim, se, ao mesmo tempo, o governo israelense rouba mais e mais terra, exatamente a terra que estaria sendo negociada? (Como dizem os palestinos, argumento clássico: “Negociamos sobre dividir a pizza, e, enquanto isso, Israel está comendo a pizza”).  

Obama se obrigou a confrontar Netanyahu, o AIPAC e seus congressionais servis.

Estava a ponto de torcer o braço de Netanyahu até ele gritar “titio” – sendo “titio” o tal “quadro” de Kerry, o qual, hoje, já está tão aguado que mais parece um manifesto sionista. Kerry é louco por alguma “realização”, não importa o que ele “realize”.

Netanyahu, à cata de alguma coisa para impedir o massacre, já estava pronto para, como sempre, pôr-se a gritar “Irã! Irã! Irã” – quando aconteceu algo imprevisto.

NAPOLEÃO, em frase famosa, bradava: “Me deem generais pé-quente!”. Teria adorado o general Bibi.

Porque, justamente quando se aproximava de ter de enfrentar um Obama que parecia revigorado, houve uma explosão que sacudiu o mundo.

A Ucrânia.

Foi como os tiros que ecoaram em Sarajevo, cem anos atrás.

A tranquilidade internacional foi repentinamente destruída. A possibilidade de grande guerra estava no ar.

A visita de Netanyahu a Washington sumiu do noticiário. Obama, às voltas com crise histórica, só queria livrar-se dele, quanto mais depressa, melhor. Em vez da admoestação severa que havia planejado, só rápidas frases ocas. Todos os maravilhosos discursos que Netanyahu preparara lá ficaram, não discursados. Sequer seu discurso triunfalista de sempre no AIPAC despertou qualquer interesse.

Tudo por causa dos eventos em Kiev.

AGORA, já se escreveram inumeráveis artigos sobre a crise. O que não falta são paralelos históricos.

Embora “ucrânia” signifique “terra de fronteira”, o país sempre esteve no cento dos eventos europeus. Coitados dos meninos e meninas das escolas ucranianas! As mudanças na história do país deles foram frequentes e sempre extremas. Em ocasiões diferentes, a Ucrânia foi potência europeia, depois território depauperado e exaurido, depois extremamente rica (o “cesto de pão da Europa”), depois abjetamente pobre, atacada pelos vizinhos que capturavam o povo local como escravos ou atacavam os vizinhos para ganhar território.

As línguas faladas na Ucrânia, por região
(clique no mapa para aumentar)
A relação entre Ucrânia e Rússia é ainda mais complexa. Num certo sentido, a Ucrânia é o coração da cultura, da religião e da ortografia russa. Kiev foi muito mais importante que Moscou, antes desta tornar-se a pedra central do imperialismo moscovita.

Na Guerra da Crimeia dos anos 1850s, a Rússia lutou valentemente contra uma coalizão de Grã-Bretanha, França, o Império Otomano e a Sardenha, mas perdeu a guerra. A guerra eclodiu por causa de direitos cristãos em Jerusalém, e incluiu longo sítio de Sebastopol. O mundo lembra a Carga da Brigada Ligeira. [1] Uma britânica, de nome Florence Nightingale, criou a primeira organização para atender feridos no campo de batalha.

Durante minha vida, Stálin assassinou milhões de ucranianos, que morreram de fome. Resultado disso, muitos ucranianos festejaram a chegada da Wehrmacht alemã, em 1941, como libertadores. Poderia ter sido o início de uma bela amizade, mas, infelizmente, Hitler estava decidido a erradicar os ucranianos Untermenschen [subumanos], para integrar a Ucrânia ao Lebensraum [espaço vital] alemão.

A Crimeia sofreu horrivelmente. O povo tártaro, que governara a península no passado, foi deportado para a Ásia Central; décadas depois, foram autorizados a voltar. Hoje são pequena minoria, aparentemente indecisa quanto às suas lealdades.

A RELAÇÃO entre a Ucrânia e os judeus não é menos complicada.

Shlomo Sand
Alguns autores judeus, como Arthur Koestler e Shlomo Sand, creem que o império Khazar, que governou a Crimeia e territórios vizinhos há mil anos, converteu-se ao judaísmo, e que muitos judeus asquenazes descendem dos khazares. A ser verdade, todos em Israel seríamos ucranianos (muitos dos primeiros sionistas, sim, eram ucranianos).

Quando a Ucrânia foi parte do extenso império polonês, muitos nobres poloneses se apossaram de vastas propriedades ali. Empregaram judeus na administração dos negócios. Daí que os camponeses ucranianos tenham passado a ver todos os judeus como agentes dos que os oprimiam e exploravam; e o antissemitismo tornou-se parte da cultura nacional da Ucrânia.

Como aprendemos na escola, a cada salto da história ucraniana, os judeus eram massacrados. O nome de inúmeros heróis do folclore ucraniano, de líderes e de rebeldes reverenciados na terra natal, são, na consciência dos judeus, associados a terríveis pogroms.

Bohdan Khmelnytsky
Cossack Hetman (líder) Bohdan Khmelnytsky, que libertou a Ucrânia do jugo polonês e é considerado pelos ucranianos o pai da nação, foi um dos mais terríveis assassinos em massa na história dos judeus. Symon Petliura, que liderou os ucranianos na guerra contra os bolcheviques depois da 1ª Guerra Mundial, foi assassinado por um vingador de judeus.

Em Israel, alguns dos imigrantes mais velhos terão dificuldade para decidir quem odeiam mais: os ucranianos ou os russos (ou, os poloneses, não se pode esquecer). 

As pessoas, pelo mundo, acham difícil escolher seu lado.

Os fanáticos da Guerra Fria, não; escolhem facilmente – ou odeiam os EUA ou odeiam a Rússia, por questão de hábito.

Quanto a mim, quanto mais analiso a situação, mais inseguro me sinto. Essa não é situação de ou branco ou preto.

A primeira simpatia vai para os rebeldes da praça Maidan (Maidan é palavra árabe, que significa “praça da cidade”. Estranho que tenha chegado a Kiev. Provavelmente, via Istambul).

Queriam unir-se ao ocidente, ter independência e democracia. O que há de errado nisso?

Nada, exceto que aqueles rebeldes apareceram aliados a estranhos companheiros de cama: neonazistas em uniformes nazistas, saudando à Hitler e gritando slogans antissemitas. Não, nada atraentes. O encorajamento que recebem de aliados ocidentais, incluídos os odiosos neoconservadores norte-americanos, é impalatável.

Vladimir Putin
Por sua vez, Vladimir Putin tampouco é muito sedutor. É o velho imperialismo russo, tudo outra vez.

O slogan dos russos – temos de proteger os falantes de russo em país vizinho – é horrivelmente bem conhecido. Foi o que Adolf Hitler disse em 1938, para proteger os alemães Sudeten dos monstros tchecos.

Mas Putin tem alguma boa lógica a seu favor. Sebastopol – cenário de sítios heroicos, tanto na Guerra da Crimeia como na IIª Guerra Mundial, é essencial para as forças navais russas. A associação com a Ucrânia é parte importante das aspirações que a Rússia tem como potência mundial. 

Operador de sangue frio, calculista, tipo raro, hoje, no planeta, Putin usa as cartas fortes que tem, mas é cuidadoso e não se expõe a riscos. Está administrando a crise com astúcia, usando as óbvias vantagens da Rússia. A Europa precisa de seu gás e de seu petróleo; Putin precisa dos capitais e do comércio da Europa. A Rússia tem papel de liderança na questão síria e na questão do Irã. Os EUA, de repente, parecem simples transeunte.

Assumo que, ao final, os dois lados farão concessões. A Rússia manterá influência sobre a próxima liderança ucraniana. Os dois lados proclamarão vitória.

(Por falar nisso, a todos aqui que ainda acreditam na “Solução de Um Estado”: o que se vê na Ucrânia é mais um estado multicultural que se parte em pedaços) .

E O QUE TUDO ISSO tem a ver com Netanyahu?

Ele ganhou tempo, alguns meses ou anos, sem nenhum passo em direção a qualquer paz. E, entrementes, ele pode continuar a ocupar e construir colônias em ritmo frenético.

É a tradicional estratégia sionista: o tempo é tudo. Cada adiamento é oportunidade para criar mais “fatos em campo”. Deus abençoe Putin. As preces de Netanyahu foram atendidas.



[*] Uri Avnery nasceu em Beckum, Alemanha, em 10/9/1023 com o nome de Helmut Ostermann, Avnery e família emigraram para a Palestina em 1933, fugindo do nazismo. Em 1938, ele se juntou ao grupo paramilitar sionista Irgun. Abandonou o grupo Irgun em 1942 após se decepcionar com suas táticas. Em 1947, Avnery deu início ao seu pequeno grupo, Eretz Yisrael Hatze'ira (“Jovem Terra de Israel”) que publicava o jornal Ma'avak ("Luta"). Em 1947 ele propôs a união dos países da “região semítica”: Palestina, Transjordânia, Líbano, Síria e Iraque.
Durante a guerra árabe-israelense de 1948, Avnery lutou no fronte sul na Brigada Givati como comandante de um batalhão. Ferido, foi dispensado no verão de 1949.
Durante as décadas de 1950 e 1960 Avnery foi, em conjunto com Shalom Cohen, editor da revista semanal HaOlam HaZeh ("Esse Mundo"). Em 1965 Avnery criou um partido político que tinha o mesmo nome que sua revista HaOlam HaZeh – Koah Hadash. No mesmo ano, foi eleito para o Knesset. Depois fundou o partido político Meri, que não conseguiu garantir lugares nas eleições de 1973. Ele voltou ao Knesset como membro do partido de esquerda de Israel, após as eleições de 1977, mas não foi reeleito em 1981. Mais tarde se envolveu com a Chapa Progressista pela Paz.
Avnery encontrou-se com Yasser Arafat em 3 de julho de 1982, durante o cerco de Beirute. Foi possivelmente a primeira vez que um israelense teve um encontro pessoal com Arafat.
Posteriormente, Avnery passou ao ativismo e fundou o movimento Gush Shalom (em hebraico: גוש שלום, Bloco da Paz) em 1993. Ele é adepto do secularismo e se opõe firmemente à influência ortodoxa na vida política.
Atualmente Avnery colabora com os sites jornalísticos CounterPunch, Information Clearing House, Lew Rockwell e The Exception Magazine.
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Nota dos tradutores

[1] A Carga da Brigada Ligeira foi poema de Tennyson no século 19; filme em 1936; refilmagem em 1968 e também novela de rádio produzida pela BBC – British Broadcasting Corporation em 2002 e sabe-se lá o que mais foi! Famosa foi mesmo a Batalha de Balaclava em 1834, entre os Impérios Britânico e Russo.
Notavelmente foi tema de rock punk do Iron Maiden, em gravação de 1983, “The Trooper”, do álbum Piece of Mind que pode ser ouvido a seguir: