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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Irã: a geração pós-islamista*

Pepe Escobar

17/2/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu  

O que aconteceu no Irã?

Não há dúvida de que a ditadura militar do mulariato – que reúne a facção do presidente Mahmud Ahmadinejad, o Supremo Líder aiatolá Ali Khamenei e seu círculo de clérigos e o complexo militar/business comandado pelo Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos [ing. Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC)] – seguiu minuto a minuto a extraordinária cadeia de eventos no Egito. 

E então, de repente, veem-se confrontados por um remix potencial da Praça Tahrir, bem ali, no quintal deles (Praça Azadi, em Teerã). 

O que fazer? Absolutamente impossível afrouxar a mão de ferro sobre as regras do próprio jogo deles; então, para lidar com protestos em casa, recorreram ao pacote usual de táticas – repressão e prisão preventiva, parando a um passo do banho de sangue. 

Isso significa que desde o início da semana passada, pelo menos 30 ativistas e jornalistas iranianos ouviram aquelas batidas sinistras na porta na calada da noite e, em seguida, “desapareceram”. Uma onda de mensagens de texto ameaçadoras alertou todos para que não participassem de manifestações de rua. A velocidade da internet foi reduzida e os programas de busca bloquearam as palavras “25 Bahman”, a data de 14 de fevereiro pelo calendário iraniano. 

Nessa 2ª-feira, hordas de policiais dos batalhões antitumulto e a milícia Bassiji em motocicletas, cada uma com dois motoqueiros armados de porretes, tomaram as ruas; uma orgia de gás lacrimogêneo e de balas recobertas com borracha; a imprensa estatal chamando os jovens manifestantes de “sedicionistas”, “espiões”, e “contrarrevolucionários” a serem esmagados; e pelo menos 1.500 presos mentidos na sinistra prisão de Evin, além de dois mortos já confirmados. Alguém sentiu a sombra do mubarakismo? 

O ex-Primeiro Ministro Hossein Mousavi é parte do establishment à moda antiga. Seu ramo de oposição quer reformas de dentro para fora – não revolução. Nesse aspecto, o Irã absolutamente não é o Egito. Mousavi foi esperto. Marcou uma marcha de solidariedade à Tunísia e Egito, para o mesmo dia em que o presidente da Turquia Abdullah Gul estava em visita a Teerã. 

Repressão linha dura comprometeria gravemente a reputação regional de Teerã com a rua árabe, o que beneficiaria a Turquia – sobretudo com Khamenei declarando que a Revolução Islâmica de 1979 foi fonte chave de inspiração para a Praça Tahrir. 

Com o que chegamos à questão chave de autorizar a manifestação a prosseguir. O governo declarou a manifestação ilegal. Mas então começaram rumores insistentes de que Gul pedira ao governo que emitisse uma autorização de última hora, permitindo a manifestação – pedido concedido. A agência central estatal de notícias confirmou. Mas em seguida o ministro do Interior Mahmoud Abbaszadeh Meshkini negou tudo. 

O caso é que, dessa vez, os manifestantes manifestaram-se diretamente contra o próprio Khamenei, não contra Ahmadinejad. O canto que mais se ouvia era “Mubarak, Ben Ali! Nobateh Seyyed Ali!” (“Mubarak, Ben Ali [da Tunísia]! Chegou a vez de Seyed Ali [Khamenei]!”) O segundo verso dizia “Khamenei haya kon! Mubarak ro negah kon!] (“Khamenei, envergonhe-se! Veja o que aconteceu a Mubarak!”) 

Estimativas do tamanho da multidão variam muito, de apenas algumas poucas centenas, que bem se pode caracterizar com rebelião de estudantes ricos do setor norte de Teerã, a não menos de 350 mil pessoas de todos as classes – nas palavras de um correspondente em Teerã de uma afiliada da rede de Rádio e Televisão Públicos dos EUA, Public Broadcasting Service, PBS-USA) –, que cobriria “um raio de cerca de meio 500-400m, dos lados da avenida Enghelab.” 

O que parece muito importante é que, pela primeira vez, setores dos bairros operários de Teerã participaram do protesto. O governo Ahmadinejad lançou vários subsídios – e os preços básicos estão subindo; o preço do tíquete de metrô em Teerã, por exemplo, está sendo quadruplicado. Muitos dos que votaram em Ahmadinejad em 2009 estão agora seriamente zangados. 

Sabendo perfeitamente o que acontecia na Praça Tahrir, o regime impediu que a mídia ocidental cobrisse os eventos. Muitos vídeos filmados por cidadãos, contudo, acabaram no YouTube. Quando não ignorou solenemente os protestos, a mídia iraniana carregou nos adjetivos, como a agência Fars, ligada aos guardas da IRGC, que descreveu os manifestantes como “monarquistas, hipócritas, rufiões e sedicionistas” que sequer se manifestaram claramente a favor dos levantes na Tunísia e Egito. 

Ora, quanto aos “sedicionistas”, só ocupar as ruas já foi uma vitória – considerando-se a repressão violenta que conheceram no verão de 2009. O problema é que ninguém sabia para onde ir, nem o que fazer, nem como coordenar os passos seguintes. 

Entra em cena o novo movimento Verde

Queiram ou não os ex-legalistas Mousavi, Mehdi Karrubi e o ex-presidente Mohammad Khatami qualquer mudança de regime, fato é que o que se conheceu como “movimento Verde” no Irã está agora dividido: há uma ala jovem, radical, que prega abertamente o fim da Velayat-e Faqih (governo pela jurisprudência). Isso pode significar revolução total – mais ou menos como os grupos jovens tinham em mente, nas três últimas semanas, na Praça Tahrir. 

O movimento Verde agora renascido não tem liderança – como no Egito. Ninguém sabe quanta gente o movimento reúne. Talvez o25 Bahman possa ser considerado o marco zero de algum verdadeiro movimento verde. Essencial é o que acontecer a seguir – porque ou os moderados ou os mais radicais podem ter chance de mostrar ao Oriente Médio e à opinião pública mundial o blefe do regime: como pode censurar, espancar e prender os filhos da terra, ao mesmo tempo em tanto louva a juventude revolucionária no Egito? 

Cabe ao novo movimento Verde provar que não é movimento de uma elite sectária à moda ocidental – ou influenciada pelo ocidente –, em luta contra uma República Islâmica que se autodescreve como manifestação da classe trabalhadora e dos pobres, na luta contra o imperialismo norte-americano/sionista. O novo movimento verde terá de mostrar que opera um corte muito amplo, que atravessa todas as diferenças de classe, de gênero, de religião, de campo e cidade, apoiada pelo interior do país e orientada – mesmo que sem liderança – sobretudo pelas mulheres, pelos estudantes e pelas classes trabalhadoras. 

Bancos iranianos, como Meli, Saderat e Melat Sepah estão com o caixa muito baixo. Uma corrida aos bancos apressaria o sucesso do novo movimento Verde. Ao mesmo tempo, devem mostrar como o segundo governo de Ahmadinejad, apoiado pelo Supremo Líder, atacou muito duramente os sindicatos, prendeu sindicalistas e reprimiu protestos de vários tipos, de motoristas de ônibus a cortadores de cana, a trabalhadores da indústria do petróleo e professores. 

Alterou leis trabalhistas contra o trabalho, e embarcou numa onda de privatizações que só serviu para redistribuir a riqueza iraniana para o establishment militar/de inteligência, e o Estado controlado pelo IRGC que há dentro do Estado. 

Nada menos do que isso bastará. Porque, agora, para o novo movimento Verde, o slogan, como no Egito, passou a ser “Queremos por abaixo o regime”. 

A geração pós-islamista 

Sempre útil, em situações críticas como essa, voltar-se para um dos principais especialistas ocidentais em Islã político: Olivier Roy, diretor do Programa Mediterrâneo do Instituto Universidade Europeia em Florença. 

Roy, escrevendo no Le Monde, é um dos raros especialistas que propõe que esteja em curso no Oriente Médio uma revolução pós-islamista. Essencialmente, pode ser tomada como uma refutação da fala de Khamenei: os jovens, analisando as conquistas da revolução islâmica no Irã, concluíram que não resolve os problemas objetivos de pobreza, corrupção, mentiras do poder e crescimento econômico medíocre. 

A geração pós-islamista é secular (separação entre política e religião); é pragmática; é não-ideológica; e é nacionalista (sem nacionalistas fanáticos). É pluralista e individualista. Rejeita ditaduras corruptas – e rejeita o islã como ideologia política – e anseia por democracia. Para eles, nem o panarabismo parece sedutor. Cultivam valores universais. 

São mais bem educados que os pais; têm acesso melhor à informação; ainda vivem em famílias nucleares; têm menor número de filhos; mas vastas legiões deles estão desempregados, ou vivem à margem da sociedade. O fato de que sejam conectados pela internet às redes sociais (“wired and networked”) permite que se organizem sem partidos políticos (que, aliás, são proibidos tanto no Egito quanto no Irã). 

Os regimes islamistas são ditaduras de facto; por isso, os jovens do novo movimento verde não são atraídos nem pelo Irã nem pela Arábia Saudita. Assim, os que protestam no Egito são muito semelhantes aos que protestaram contra Ahmadinejad em 2009, e contra o líder supremo na 2ª-feira passada. 

Para Roy, “uma revolta não faz revolução. O movimento não tem líderes, nem plataforma nem partidos políticos, o que faz sentido com a natureza do movimento, mas cria o problema de como institucionalizar a democracia.” 

Avalia como “não muito provável” que o fim de uma ditadura leve diretamente a alguma democracia liberal, “como Washington sonhou para o Iraque”. Poderia ter destacado também a diferença entre uma revolução pacífica, não-violenta (no Egito) e a ideia de que o cano de uma metralhadora a pudesse ser parteiro da democracia (como o ex-presidente George W Bush sonhava trazer à luz o Grande Oriente Médio). 

Além disso, também seria interessante comparar o fim da humilhação coletiva que os árabes sofrem há quase um século – sobretudo depois da invasão e estupro do Iraque, pelos EUA de Bush em 2003 –, em oposição aos orgulhosos persas que desafiam o império há três décadas e que, hoje, começam a sonhar com uma democracia de estilo ocidental. 

Roy observa que a Fraternidade Muçulmana não manifesta a busca, pela jovem geração pós-islamista, de outro modelo social e econômico: são conservadores em termos morais e praticamente neoliberais na economia. Os islamistas tornaram-se marginais aos movimentos sociais no Delta do Nilo. 

A esquerda – sindicatos militantes – está de volta. A Fraternidade Muçulmana pode ser importante, doravante, como vaca madrinha para tentar empurrar a direção das mudanças. Sobretudo porque as classes médias nas sociedades árabes são conservadoras – a maioria quer estabilidade política. E pode acontecer de uma Revolta Generacional, no fim, recusar-se a estruturar-se politicamente – mantendo-se para sempre ancorada nos protestos, sem querer assumir o trabalho pesado de conceber um novo regime, desde a primeira célula. 

O velho tesão da mudança à moda antiga 

O que nos leva de volta à reação de Washington ao que aconteceu no Irã – e está acontecendo em todo o arco Maghreb-Oriente Médio. 

Para Washington, é sempre aquela obsessão iraniana – e jamais se trata de legiões de Estados-clientes dos EUA, do Maghreb ao Oriente Médio. 

Houve repressão brutal de protestos também no Bahrain, monarquia absoluta – ninho que hospeda a 5ª Frota da Marinha dos EUA, com seus $580 milhões de gastos locais, sem contar as propriedades imobiliárias; no Iêmen – Estado fracassado, onde 40% dos 23 milhões de habitantes vivem com menos de 2 dólares por dia, e 35% sofrem de fome e desnutrição severas; e na Argélia, ditadura militar brutal. Para não falar do alegre rei Abdullah da Jordânia e sua Rainha “Youtube” Rania, monarquia absoluta com polícia secreta brutal, que vive de torturar líderes tribais e massas de palestinos que residem em território jordaniano. 

O Bahrain é absolutamente crucial. A teocracia xiita em Teerã obviamente encoraja os xiitas contra uma monarquia sunita, enquanto os sauditas estão literalmente pirados, temendo por suas províncias de maioria xiita, lá, lá, onde mora o petróleo. Tropas sauditas podem já ter sido estacionadas na estrada, 20 minutos de distância, que liga os dois países. E o Bahrain não é o Catar nem os Emirados Árabes Unidos – que podem fazer chover petrodólares para comprar qualquer silêncio, de qualquer um com veleidades políticas (seja como for, já começou a tentar). 

Para lidar com tudo isso, Washington – que não está absolutamente à vontade ante esse Egito revolucionário – parece ter desenvolvido uma nova narrativa. O regime do Irã é “o mal” total; Mubarak era “estável” e relativamente OK. 

A secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton imediatamente acusou o “horrível” governo iraniano de “hipocrisia”; e imediatamente enunciou que deseja que “o movimento Verde e o bravo povo que ocupa as ruas das cidades do Irã colham a mesma oportunidade que viram seus contrapartes egípcios colherem, semana passada”. 

É a mesma Clinton que apoiou inicialmente o “estável” Mubarak contra a rua egípcia? E já que está tão empenhada, por que não aproveita e deseja também que os bravos povos do Bahrain, Arábia Saudita, Marrocos, Argélia, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Catar e Líbia “colham a mesma oportunidade que viram seus contrapartes egípcios colherem, semana passada”?! 

Alguém deve levar Olivier Roy imediatamente a Washington, para que Washington aprenda uma ou duas coisinhas sobre a geração pós-islamista. 

Observação de tradução


*A palavra “islamista” , várias vezes mencionada no texto, não aparece ainda nos dicionários brasileiros, mas já é usada em todo o mundo, em várias línguas, sempre que é preciso demarcar a diferença que há entre “apoiar movimentos políticos inspirados na religião islâmica” e “praticar ou seguir ou pregar a própria religião islâmica”. Em inglês, diz-se “islamist”, no primeiro caso; e “islamic”, no segundo. Em francês, diz-se “islamiste” e “islamique”, na mesma oposição. O fato de a palavra “islamista” não estar ainda dicionarizada em português do Brasil não tem importância alguma para nenhum efeito de “correção” ou de revisão; a palavra deve ser mantida quando for usada nas nossas traduções, mesmo sem estar “oficializada” nos dicionários. Edição nova que se faça dos dicionários de língua portuguesa do Brasil, das duas uma: ou incluirá a nova palavra, ou repetirá os erros de repetição conservadora dos dicionaristas e gramáticos conservadores autoritários.


quarta-feira, 16 de junho de 2010

"No Irã, o golpe "Verde" de Mousavi foi derrotado"

17/6/2010, Ismael Hossein-zadeh, Asia Times Online – Traduzido por Caia Fittipaldi

Ismael Hossein-zadeh, autor de The Political Economy of US Militarism (Palgrave-Macmillan 2007), é professor de Economia na Drake University, Des Moines, Iowa.


Um ano depois de eleito em eleições furiosamente contestadas, o presidente Mahmud Ahmadinejad do Irã pisa hoje terreno político mais firme do que jamais antes, em todo seu mandato. Depois de enfrentar e derrotar incansáveis tentativas de golpes para desestabilizá-lo, coordenados de dentro e de fora do Irã, o governo de Ahmadinejad é hoje mais confiante em casa e muito mais respeitado além fronteiras.


Em escala mais ampla, a República Islâmica do Irã é hoje muito mais forte e mais estável – apesar da infatigável campanha de demonização contra Ahmadinejad e o Irã, pelas forças da dominação global e seus frustrados aliados.


Até no plano econômico, com todas as pressões por sanções, sabotagem política e guerra psicológica, o Irã parece ter sobrevivido à procela muito mais facilmente do que esperavam muitos. No Relatório de maio-2010 sobre o Irã, o FMI registra que o desemprego e a inflação, embora ainda altos, já entraram em curva de arrefecimento.


O relatório anota que “Nos dois últimos anos (...) a inflação manteve-se em 25,4 e 10,3% respectivamente; mas em 2010, pela primeira vez, a inflação não ultrapassará os 8,5%.” O FMI prevê também que as reservas iranianas em moeda estrangeira aumentarão em US$5 bi e “em 2010 alcançarão 88,5 bilhões de dólares”. A saudável acumulação de moeda estrangeira aparece em espantoso contraste com os cofres vazios e as dívidas internas gigantescas de vários países, em todo o mundo.


O Irã é exemplo excepcionalmente bem sucedido de programas para estender ao interior do país as redes de transporte, comunicação e energia elétrica; para assegurar saúde e educação gratuitos e universais para os mais pobres; e para efetivamente reduzir a pobreza e a desigualdade. Como já destaquei em outro artigo:


O Irã acumulou consideráveis progressos na pesquisa científica e em produção de know-how tecnológico. Nem as opressivas sanções econômicas impostas pelo imperialismo norte-americano e seus aliados impediram o Irã de dar andamento aos seus projetos de desenvolvimento e industrialização. De fato, as sanções e boicotes econômicos do imperialismo foram como bênçãos disfarçadas: exatamente porque houve sanções e boicotes, o país teve de tornar-se autossuficiente em várias áreas de tecnologia de ponta.

Por exemplo, o Irã é autossuficiente na produção de eletrodomésticos em geral (aparelhos de TV, lavadoras e secadoras, refrigeradores, máquinas de lavar louça e outros itens desse tipo), tecidos, produtos de couro, produtos farmacêuticos e agrícolas, alimentos processados, refrigerantes (também na produção de açúcar refinado e óleo vegetal). O país também avançou muito na produção de aço, produtos de cobre, papel, produtos de borracha, equipamentos de telecomunicações, cimento e maquinaria industrial. O Irã tem hoje o maior estoque de robôs para operação industrial de todo o Oeste da Ásia.

Particularmente impressionante é o progresso que o Irã obteve na produção de automóveis e veículos motorizados. Hoje, o Irã exporta veículos motorizados, inclusive tratores e máquinas agrícolas. (...) Outro campo em que se pode ver o avanço da produção tecnológica iraniana é a produção de inúmeros tipos de armas. A indústria de defesa do Irã deu passos gigantescos nos últimos 25 anos. Desde 1992, a DIO (Defense Industries Organization) do Irã produz seus próprios tanques, carros transporte, mísseis teleguiados, sistemas de radar, barcos e submarinos militares e um modelo de avião de combate (...). Em 2006, o Irã exportou armas para 57 países, inclusive para países membros da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) [1].


Na arena internacional dos desafios geopolíticos e diplomáticos, também, o Irã marcou recentemente vários tentos importantes e ganhou importantes novos aliados. O recente acordo Irã-Brasil-Turquia sobre troca de combustível nuclear provou a boa intenção do Irã, que também aspira a reduzir as tensões internacionais; e também ajudou a demonstrar que os EUA e seus aliados não buscam qualquer via pacífica, o que ficou bem claro quando aqueles países ignoraram aquele importante acordo.


Assim também, a oposição dos EUA ao clamor internacional, que exige que Israel seja acusado e processado pelos crimes cometidos contra a Flotilha da Liberdade, expõe ainda mais claramente a atitude arrogante e unilateralista das políticas externas dos EUA e seus aliados. Essa exposição dá ainda mais legitimidade e credibilidade aos argumentos do Irã contra as provocações dos EUA. O Irã talvez seja o único país no Oriente Médio que comanda e determina suas políticas econômicas e militares, além dos encaminhamentos propriamente políticos, sem depender de conselheiros, ‘orientações’ e ordens de outras potências estrangeiras. Aí está uma independência que muitos povos e outros países da região (e em todo o mundo) aspiram a ter, sem ter ainda alcançado.


Ao mesmo tempo em que o prestígio político de Ahmadinejad, e o status geopolítico e econômico do Irã, parecem ter aumentado muito desde a reeleição em junho de 2009, a fortuna política de seus principais opositores – Mir Hossein Mousavi, Akbar Hashemi Rafsanjani, Mehdi Karroubi e Mohammad Khatami – declinou significativamente. O movimento “Verde” (nome tirado das revoluções ‘coloridas’ provocadas por inspiração do ocidente em várias das ex-repúblicas soviéticas, como Georgia e Ucrânia) está em processo final de desintegração. Rafsanjani, “padrinho” dos Verdes, está tão desacreditado e enfraquecido em termos políticos, que foi obrigado a engolir o orgulho e anseios de independência e já prestou homenagens ao Aiatolá Ali Khamenei, que reconheceu como líder inconteste.


Mousavi, principal opositor de Ahmadinejad, também está marginalizado e viu evaporar-se a influência que tinha há um ano. As declarações políticas que vez ou outra aparecem em seu website, Kalemeh [2], são ridicularizadas, por banais ou ocas, e não só pelos que apoiam o governo ou o presidente Ahmadinejad, mas também por ex-apoiadores.


A desintegração do movimento “Verde” e o declínio do prestígio político daquelas figuras têm sido atribuídos à intervenção do governo, a qual, embora tenha acontecido várias vezes, não é o principal fator do processo que se vê hoje.

Para começar, o movimento “Verde” fez campanha presidencial desonesta, nada ética. O candidato, Mousavi, concorreu à presidência, mas recusou-se a submeter-se à vontade da maioria depois de conhecidos os resultados. Muitos analistas viram, naquela campanha, mais uma tentativa de golpe do que campanha eleitoral; ou, em termos mais precisos, uma tentativa de golpe por golpistas “midiáticos” e “internéticos” civis - que só por esse traço difere dos tradicionais golpes militares – muito mais do que campanha eleitoral democrática legítima.


Isso explica por que Mousavi declarou vitória antes mesmo de as eleições estarem encerradas. Também explica por que disse que as eleições teriam sido fraudadas, no momento em que teve certeza de que havia perdido nas urnas eleitorais.


Inicialmente, muitos iranianos acreditaram que Mousavi teria provas a apresentar de alguma fraude eleitoral, que justificariam suas declarações. Por isso, nos dias imediatamente depois das eleições, seguiram o comando de Mousavi e ocuparam as ruas, indignados. Adiante, quando se demonstrou que as notícias de fraude eleitoral eram notícias plantadas, muitos deixaram o barco de Mousavi, inclusive seus apoiadores de mais peso político. E o movimento “Verde” esvaziou-se.

O professor Mohammad Marandi da Universidade de Teerã destaca que quando Mousavi “efetivamente aceitou o apoio da mídia em idioma persa controlada pela oposição, apoiada pelo ocidente, muitos mais iranianos decepcionaram-se. Muitos até sentiram-se ofendidos. (...) Não há dúvida de que hoje há muita gente definitivamente zangada com o movimento “Verde” e com o papel que, naquela campanha, desempenharam vários governos ocidentais, que ofereceram apoio financeiro e outras modalidades de apoio. (...) Nenhum dos meus colegas de universidade que votaram em Mousavi voltariam a votar nele, depois do que já se sabe que ele fez depois das eleições. Não estou dizendo que tenham passado a apoiar o presidente Ahmadinejad, nem que Mousavi não tenha seguidores, mas só lhe restou, como base de apoio, uma pequena minoria.”[3]


Mousavi poderia ter salvado alguma dignidade se tivesse desculpado. Em vez disso, insistiu em desmentir todas as provas, e continuou a repetir que houvera fraude nas eleições, sem jamais provar coisa alguma. A favor da validade das eleições, houve relatório detalhado dos resultados eleitorais, e avaliações feitas e divulgadas por prestigiosas organizações de pesquisa, várias delas empresas norte-americanas, que comprovaram a autenticidade dos relatórios eleitorais oficiais.[4]


Mais do que ter conduzido campanha desonesta e de calúnias, Mousavi culpou o presidente Ahmadinejad por várias das dificuldades econômicas que o país enfrentava e por relações diplomáticas que seriam “caóticas”. Com isso, agiu como se não visse, ou como se lhe interessasse ocultar, as pressões terríveis que o Irã enfrenta – pressões econômicas, políticas e militares – impostas ao país pelos EUA e seus aliados, e que não começaram com o governo de Ahmadinejad, mas imediatamente depois da revolução de 1979, revolução que arrancou do poder o regime do Xá, protegido pelos EUA.


Mousavi chamou a diplomacia de Ahmadinejad de “aventurosa” e “confrontacional”[5]. Mousavi e seus assessores de campanha eleitoral culparam o governo de Ahmadinejad e o presidente, pessoalmente, por todas as pressões hostis, militares e econômicas que, de fato, sempre vieram de fora, muito mais do que de dentro, do Irã. Por isso, pregavam “compreensão” e “acomodação” com os EUA e seus aliados... Presumivelmente também com Israel, na esperança de que, por essa via, o Irã alcançaria estabilidade política e econômica.


Contudo, como já observei em artigo já citado aqui,


O imperialismo dos EUA mostrou sua mais violenta hostilidade contra o Irã durante a presidência de Muhammad Khatami (1997-2005) – o qual, sim, buscou vigorosamente uma via de amizade com os EUA. Enquanto Khatami promovia seu “diálogo de civilizações” e dava passos conciliatórios na direção dos EUA, inclusive plena cooperação para derrubar o regime dos Talibã no vizinhos Afeganistão... George W Bush inventou seu “eixo do mal” e lá meteu o Irã! Essa demonização ultrajante foi a partir dali usada como instrumento de propaganda para justificar o que já se chamava “mudança de regime” no Irã.[6]


Em face dos gestos conciliatórios de Khatami em relação aos EUA, muitos iranianos sentiram-se muito gravemente ofendidos, ultrajados, pela atitude de Bush, que viram como provocação injusta e inadmissível. Naquele momento começou-se, no Irã, a questionar a sabedoria e o acerto da política de Khatami, de tentar aplacar o imperialismo norte-americano. Pela mesma razão, começou-se também a interpretar como ou injusto, ou como mal-intencionado, o movimento de Mousavi, que tentava culpar Ahmadinejad pela demonização cruel do Irã. Não surpreendentemente, muitos iranianos, e muitos ex-apoiadores ou simpatizantes de Mousavi, em pouco tempo já questionavam a honestidade e a integridade de sua campanha.


De início, a campanha de Mousavi beneficiou-se da impressão de que promovia valores democráticos e liberdades individuais. Contudo, a alardeada defesa da democracia rapidamente mostrou-se falsa, ou sem substrato consistente, na exata medida em que Mousavi, acintosamente, desconsiderava o resultado de eleições em que a maioria dos eleitores já manifestara seu voto a favor de Ahmadinejad. Não bastasse isso, tornou-se muito evidente, também, que a agenda econômica neoliberal de Mousavi não passava de vagas declarações sobre liberdades individuais e direitos humanos que não incluíam qualquer atenção a direitos humanos básicos como comida e moradia, ou o direito a saúde e educação públicas de boa qualidade.


O discurso de Mousavi, sempre estreito, abstrato e muito visivelmente manipulado para finalidades de propaganda faz lembrar os dos líderes de outras revoluções ‘coloridas’ – por exemplo, o de Mikheil Saakashvili na Georgia e de Viktor Yushchenko na Ucrânia. Tivesse sido bem-sucedido em sua revolução “Verde”, as promessas de democracia, em pouco tempo, teriam sido desmascaradas, como a dos demais líderes ‘coloridos’ na Georgia e na Ucrânia – ambos derrubados do governo pelo povo georgiano e ucraniano.


Fator muito importante, que teve papel crucial no declínio do movimento “Verde”, foi seu caráter de classe, a incapacidade para atrair as massas médias e pobres e os trabalhadores em geral. Não é segredo para ninguém que os “Verdes” são majoritariamente, embora não exclusivamente, saídos dos círculos da elite rica e escolarizada da sociedade iraniana.


Mousavi obviamente sabe de tudo isso, quando fala da urgente necessidade de ampliar suas bases de apoio para além das classes média e alta. Mas interesses e alianças de classe não são coisas que se possam rearranjar facilmente, mediante simples manifestação de interesse ou rearranjo de palavras. De fato, essa ampliação não depende de Mousavi, pessoa. Os interesses reais e os traços de classe de seu movimento estão inscritos no caráter e na dinâmica de sua campanha e do movimento “Verde”.


Depois de viver 31 anos em atmosfera de revolução continuada, os iranianos nada têm de ingênuos e converteram-se em astutos analistas e observadores dos arranjos políticos. Não foi difícil para os iranianos reconhecer o tom de “amigo do mercado” e a natureza neoliberal da agenda econômica de Mousavi, a partir dos discursos da campanha eleitoral, quando Mousavi muito falava dos investimentos sociais em saúde e educação como “dispêndios” ou “gastos inúteis”, que descrevia como “desperdício de recursos para estimular a falta de empreendedorismo e a preguiça.”


A crítica que a sociedade iraniana construiu hoje contra Mousavi e outros arquitetos da revolução “Verde” não deve ser vista como defesa de Ahmadinejad, ou do governo iraniano em geral. Tampouco há aí qualquer resistência a considerar o contraditório e os discursos de oposição. De fato, a crítica que a sociedade iraniana construiu hoje – a partir do que aprendeu do movimento-golpe dos “Verdes” – é, isso sim, uma crítica contra todos os políticos oportunistas e mal-intencionados, de que os “Verdes” de Moussavi são bom exemplo; não é alguma crítica a uma determinada oposição, num certo momento.


É evidentemente verdade que criticar por princípios democráticos é indispensável ao progresso e ao aprimoramento da democracia. Também é óbvio que há muito o que criticar em Ahmadinejad e na República Islâmica, em vários campos. Mousavi e outros chefes “Verdes” poderiam ter desempenhado importante papel na luta a favor das liberdades individuais e dos ideiais democráticos no Irã. Mas, para isso, teriam de não ter começado por tentar derrubar um governo legal e democraticamente eleito pelos iranianos.


Ao desrespeitar as urnas, e ao tentar a aventura ensandecida de tentar implantar como verdade a mentira de que as eleições haviam sido fraudadas, ao recorrer à violência e à provocação contra governo eleito, ao manter-se sempre distante dos movimentos de base iranianos, ao aceitar o apoio de políticos de reputação duvidosa e com interesses mais próximos dos EUA do que do Irã, e, principalmente, por ter tentado culpar Ahmadinejad pela violência da pressão imperialista-sionista contra o Irã, os “Verdes” perderam a credibilidade indispensável para quem quisesse vir a ser força de oposição construtiva. Sobretudo, é o currículo político, sem sabor ou brilho, que explica o fracasso do movimento “Verde”, no Irã.

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NOTAS

[1] Ismael Hossein-zadeh, "Reflecting on Iran's Presidential Election”, Middle East Online, 21/8/2009.
[2] Ver, para conhecer, por exemplo, http://khordaad88.com/?p=1623, com matéria (em inglês) de 2/6/2010.

Interessante comparar a entrevista de Mousavi que lá se lê hoje, e a entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao jornal El País de Madrid, publicada no Brasil, traduzida, em Folha Online, 16/6/2010, em Nas duas entrevistas, o entrevistado fala como se tivesse algum tipo de direito "divino" ou de legitimidade "natural" – quando, de fato, nem votos têm! – para desqualificar governos e presidentes eleitos democraticamente.

Nos dois casos, há visível interesse em atacar a figura do presidente eleito: FHC e Moussavi não discutem propostas, ideias, projetos – que eles não têm; ambos atacam diretamente o presidente eleito.

Nos dois casos, vê-se o mesmo subjornalismo que desgraça os pobres de todo o planeta a fazer o sujo serviço de dar voz a esses discursos golpistas e de golpismos, de ex-presidentes ou candidatos já derrotados em eleições legítimas e, hoje, sem votos.

Quem precisa do ‘jornalismo’ dessa ‘mídia’ que, hoje, só existe para fazer campanha eleitoral antecipada e ilegal... disfarçada de jornalismo... e igualzinha, aliás, em todo o mundo?! (NT).

[3] Seyed Mohammad Marandi, “Green Movement Defeated” [Movimento Verde derrotado], inside IRAN.org, 15/2/2010.

[4] Para resultados desagregados, por estado, por cidade, por urna, ver dados do Ministério do Interior do Irã; para várias análises dos resultados eleitorais, ver, por exemplo: (1) "Analysis of Multiple Polls Finds Little Evidence Iranian Public Sees Government as Illegitimate," pesquisa extensiva cujo relatório foi publicado em World Public Opinion, do Programa de Políticas Internacionais (Atitudes) da Universidade de Maryland; (2) "Post-Election Poll in Iran Shows Little Change in Anti-Regime Minority," de Alvin Richman; (3) "Did Mahmud Ahmadinejad Steal the 2009 Iran Election?" de Eric Brill; (4) "Visualizations and Analysis of the 2009 Iranian Election," de Thomas Lotze; (5) "A Rejoinder to the Chatham House Report on Iran's 2009 Presidential Election Offering a New Analysis on the Result," Reza Esfandiari e Yousef Bozorgmehr.

[5] Mais um traço que aproxima, impressionantemente, os discursos dos golpistas “Verdes” de Mousavi em Teerã, ano passado e dos golpistas udenistas uspeanos sociólogos serristas... de São Paulo, em 2010! (NT).

[6] Ismael Hossein-zadeh, "Reflecting on Iran's Presidential Election," Middle East Online, 21/8/2009.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Iran's Greens deserted