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terça-feira, 14 de abril de 2015

Pepe Escobar: Cresce a guerra civil, decai o humanismo

10/4/2015, [*] Pepe EscobarAsia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

    
“…a olhadela
Por cima dos ombros, ao terror primitivo lançada.”
(trad. Ivan Junqueira [1])


Guerra Fria 2.0

São tempos tristes – e perigosos. Somos impotentes ante as perenes agonias no Oriente Médio ou o passo a passo rumo à Guerra Fria 2.0; ante as incontáveis ramificações da Guerra Longa do Pentágono ou a pauperização das classes médias no mundo ocidental. Impossível não sentir que está em curso uma guerra civil global. Mas pelo menos, em algumas quebradas obscuras do OTANstão, há uns poucos, dos melhores e mais brilhantes, que, em silêncio, pensam.

Num pequeno livro Stasis. La Guerra Civile come Paradigma Politico – baseado em dois seminários em Princeton e disponível em italiano e  francês,   mas ainda não em inglês, o mestre filósofo Giorgio Agamben identifica a guerra civil como o sinal fundamental de politização no Ocidente. A questão chave é se essa proposição foi modificada pelo mergulho de nossa civilização na dimensão da guerra civil global.

Stasis é o nome que tinha a guerra civil que provocou dificuldades dentro da antiga polisgrega. Hannah Arendt, em 1963, já estava conceitualizando a guerra civil global. Agamben argumenta que em termos históricos globais, a guerra civil está hoje representada pelo terrorismo.

Assim, se Foucault acertava ao qualificar a política moderna como “biopolítica”, diz Agamben:

(...) o terrorismo é a forma que a guerra civil assume, quando a vida se torna um jogo político.

Trata-se sempre do equilíbrio entre oikos (a família [a casa]) e polis (a cidade) como os gregos – sempre eles – o identificavam. Assim, quando a polis se autoapresenta sob a face reconfortante e segura de um(a) oikos, como na tão reconfortante imagem da “casa da Europa” que Bruxelas nos vende, ou no “mundo como espaço absoluto da administração econômica global”, diz Agamben:

(...) stasis, que não pode ser posta entre oikos e polis, torna-se o paradigma de qualquer conflito e assume a figura do terror.

Assim, terrorismo = guerra civil global. O passo seguinte, que Agamben não dá, nesse ensaio, afinal, curto – seria qualificar as tantas declinações de terrorismo; não só do tipo ISISISIL/Daesh, mas também o terrorismo de Estado, e a matança indiscriminada de civis pelo mundo, pelos nossos suspeitos imperiais e subimperiais de sempre.

O barbarismo começa em casa

Como o terrorismo é uma forma de barbarismo, outro ensaio curto – L’Europe a Deux Visages [A Europa tem duas caras] – do mestre sociólogo Edgar Morin, dá um passo adiante, ao nos conduzir por uma rápida mas muito ambiciosa antropologia do barbarismo humano.

O Barbarismo do Complexo Industrial-Militar
Para Morin, as ideias de Homo sapiensHomo faber e Homo economicus são insuficientes. Afinal, o Homo sapiens pode rapidamente se converter em Homo demens (basta ver o infinito arquivo político de delírio e demência, de Nero a Dick Cheney). O Homo faber pode também produzir coleção infindável de mitos. E o Homo economicus pode converter-se emHomo ludens, uma espécie de jogador que se diverte (exceto o Ministro Schauble, das Finanças da Alemanha).

A barbárie humana pertence, é claro, ao Homo demens; ávido produtor de delírios (o Califa Ibrahim do Daesh), de ódios (sauditas contra xiitas), de desprezo (dos ricos pelos despossuídos) e – os gregos, outra vez – de húbris (os tribunais e tribulações do Império do Caos). Para nem falar, como Morin nos faz lembrar, que a tecnologia introduz sua modalidade própria de barbarismo: o barbarismo do plano mais frio, glacial, do puro cálculo.

Morin nos mostra que a Europa pode não ter o monopólio do barbarismo, mas com certeza manifestou de modo mais duradouro, massivo e inovador todas as formas de barbarismo que a história conheceu. E Morin associa toda essa inovação à formação do moderno estado-nação europeu, na Espanha, França, Portugal, Inglaterra.

O caso mais danoso aconteceu na Espanha. Nas áreas islâmicas – Al Andalus – havia muita tolerância com cristãos e judeus; e na zona cristã, tolerância com muçulmanos e judeus, até 1492.

E o que aconteceu em 1492?

Não apenas o descobrimento da América e o início da conquista do Novo Mundo. Esse ano marca também a conquista de Granada, último bastião muçulmano na Espanha; e pouco depois veio o decreto que ordenava que judeus e muçulmanos escolhessem entre conversão e expulsão. Essa invenção europeia – a nação – foi construída desde o primeiro momento sobre um alicerce de purificação religiosa.

Sim, mas, pelo menos, o Ocidente foi também abençoado pelo Renascimento – que gestou o humanismo europeu. Para Morin há duas explicações divergentes para a essência do humanismo. Uma exalta a tradição judaico-cristã. A outra trata da Grécia Antiga – porque é no pensamento grego que o espírito e a racionalidade humanos afirmam a própria autonomia. Pode-se argumentar que aquele humanismo desenvolveu uma mensagem grega, revitalizada na Itália do Renascimento. Alguns minutos de contemplação frente à Primavera de Botticelli no [museu] Uffizzi devem bastar, como comprovação da teoria.

Primavera de Botticelli
Auschwitz = Hiroshima

Morin também nos lembra que:

(...) na cidade democrática de Atenas, a deusa Atenas não governa: ela protege.
 O verdadeiro significado de democracia é que:

(...) cidadãos responsáveis têm nas mãos o governo da cidade.

Difícil encaixar Merkel, Cameron, Hollande ou o novo capo da Casa de Saud nessa definição.

Morin também nos lembra de que, paralelamente enquanto se desenvolvia, o barbarismo europeu sempre tratou O Outro – pensem no Sul Global – como bárbaro, em vez de celebrar alguma diferença e de ver nele uma oportunidade de mútuo enriquecimento pelo conhecimento e pelas relações humanas.

Há exceções, claro. E nós, na nossa miserável condição atual, ainda podemos promover as lições de Spinoza – para quem a razão é soberana; não “uma razão fria, glacial, mas uma profunda razão compassiva”. Spinoza foi espírito independente, como Montaigne – outro de nossos modelos inspiradores.

Hiroshima e Auschwitz - Memorial em Hiroshima
Morin é implacável; se Auschwitz foi um supremo barbarismo, Hiroshima também foi . Para ele, corretamente, Bruxelas é uma “tecnoburocracia europeia”; insiste que:

(...) a Turquia é “potência europeia”, especialmente depois da queda de Bizâncio; e carinhosamente observa que “a cultura russa trouxe sensibilidade e profundidade humana à cultura europeia”, dado que “a Rússia também é europeia”.

Tente explicar isso aos promotores da Guerra Fria 2.0.

Quer dizer que nem tudo está perdido, embora tenhamos de admitir que há barbarismo também nosso. Morin nos diz que pensar seriamente sobre o barbarismo é contribuir para regenerar o humanismo. Mesmo sob sítio, mesmo sob o aegis de uma guerra civil global, temos de resistir com nossos corações e mentes.

No pasarán.
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Nota dos tradutores
[1] ELIOT T. S. Poesia. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981 (Coleção Poiesis).
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro  Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

domingo, 29 de março de 2015

Deputados dos EUA aprovam armar a Ucrânia por 348-48 votos , RÚSSIA avisa que “ajuda letal fará explodir tudo”

25/3/2015, [*] Tyler DurdenZero Hedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Câmara dos Representantes dos EUA
Ontem (24/3/2015), em votação que escapou por baixo do radar, a Câmara de Representantes dos EUA aprovou resolução em que exige que Obama envie ajuda letal à Ucrânia, fornecendo armamento ofensivo, não exclusivamente “defensivo” ao exército ucraniano – a mesma Ucrânia insolvente, em crise de hiperinflação e que, com nível de confiabilidade zero para crédito (padrão Caa3/CC), iniciou preparativos, na semana passada, para emitir bônus da dívida soberana com os EUA como seus avalistas – o que equivale a algo como os EUA terem comprado a Ucrânia. Os EUA também compraram o Egito, quando era governado por regime da Fraternidade Muçulmana, fantoche dos EUA, antes de o citado regime e fantoche ser deposto por golpe do exército local.

A resolução foi aprovada com apoio dos dois partidos, por 348 a 48 votos.

Segundo DW, a medida exige que Obama forneça “sistemas letais de armas defensivas” que capacitarão a Ucrânia a defender seu território contra “a agressão não provocada e continuada da Federação Russa”.

Políticas dessa ordem não devem ser de um só partido, disse o deputado Democrata Eliot Engel, principal propositor da resolução. Por isso todos nos erguemos hoje, Democratas e Republicanos, de fato, como americanos, para dizer que quando basta, basta, na Ucrânia.

Engel, Democrata de New York, resolveu que sabe mais que toda a Europa qual a melhor opção para o povo ucraniano. Que a Europa e, especialmente, que sabe mais que a Alemanha, que não se cansa de repetir que rejeita qualquer movimento para fornecer armas ocidentais ao exército ucraniano. Engel alertou que a Rússia, no governo do presidente Putin, converteu-se

(...) numa clara ameaça a meio século de envolvimento dos EUA num investimento numa Europa una, livre e em paz. Uma Europa na qual as fronteiras não sejam modificadas à força.

E prosseguiu:

A guerra na Ucrânia já fez milhares de mortos, dezenas de milhares de feridos, um milhão de desabrigados e já começou a ameaçar a estabilidade europeia de depois da Guerra Fria.

Muito estranho! Talvez o Departamento de Estado dos EUA devessem ter pensado melhor, então, há um ano, quando Victoria Nuland conspirava em busca do meio mais rápido e efetivo para pôr no poder em Kiev o seu amigo-fantoche “Yats” e derrubar o presidente eleito, num golpe integralmente patrocinado pelos EUA.

Vale a pena dar uma olhada nos “doadores patrocinadores da carreira política” do Republicano Engel, porque ali se encontra alguma explicação para a tenacidade com que se empenha em iniciar mais um conflito armado e em escalar o que o próprio Engel define como uma guerra fria dentro de uma guerra morna.

Eliot Engel - doadores de campanha
Assim sendo, o que fará Obama? Vale relembrar que o presidente tem dado sinais de preferir amplamente cair fora dessa, e deixar que a Europa assuma a dianteira no quesito se e quando escalar a guerra civil por procuração que os EUA combatem na Ucrânia. A verdade é que a resolução aprovada pelos Representantes põe ainda mais pressão sobre o governo Obama, que tem dito repetidas vezes que considerava a possibilidade de enviar ajuda letal (sic) à Ucrânia. Mas Obama até agora ainda não se atreveu a puxar o gatilho.

Há vários meses, o comandante do Estado-Maior das Forças Conjuntas dos EUA, general Martin Dempsey, disse que “consideramos, sim, absolutamente” fornecer “ajuda letal”, sentimentos que foram logo ecoados pelo Secretário de Defesa, Ashton Carter, que disse que ele também estava “inclinado” na mesma direção.

As opções de Obama podem ser ainda mais limitadas, depois que o principal comandante militar da OTAN, general Philip Breedlove, disse no domingo que o ocidente deve “considerar todas as nossas armas” para ajudar a Ucrânia, inclusive enviar armas defensivas para áreas ocupadas por rebeldes pró-Rússia.

Por enquanto o presidente está adiando qualquer decisão, porque, segundo o Departamento de Estado, a Casa Branca espera para ver se funcionará o cessar-fogo decidido no Acordo Minsk-2, antes de decidir se enviará ajuda letal.

Ironicamente, o maior obstáculo à imediata declaração de uma Guerra Mundial III pode ser a própria Hillary Clinton em pessoa. Revelou-se recentemente que a ex-Secretária de Estado – atualmente envolvida num escândalo de e-mails que ela ocultou aos próprios órgãos de controle do governo dos EUA – recebeu doações muito generosas para a Fundação dos Clintons: as mais generosas das quais lhe vieram precisamente... da Ucrânia!

Doadores estrangeiros para Fundação Clinton
Considerando as notícias da semana passada de uma perigosa guerra fria que ruge entre a mulher que é o braço direito de Obama, Valerie Jarrett, e os Clintons, é talvez muito provável que Obama, cuja política externa é perfeito e abismal fracasso, e cujas “realizações” no além-mar só podem ser descritas como completo desastre, não tenha vontade alguma de envolver-se na Ucrânia. Não tanto, provavelmente, para evitar que a guerra fria com a Rússia vire quente, mas, muito mais, para manter um elemento de pressão e chantagem contra Hillary, no momento que ela desafia a favorita de Obama, a populista Elizabeth Warren.

Assim se vê mais uma vez que, no que tenha a ver com política externa, o presidente dos EUA não passa de figurante, e quem realmente toma todas as decisões é o complexo militar-industrial. Assim sendo, embora Obama possa adiar um pouco o envio de armas, ele acabará por receber tapinhas nas costas, que lhe dará a doce e gentil tribo cujos nomes se leem na tabela abaixo, que com certeza logo exigirá ação em troca dos milhões com que enriquecem os lobbies e as campanhas eleitorais

Doadores do complexo industrial militar
Claro que o passo seguinte a ser “noticiado” já está redigido:

(...) mandar armas para o governo de Kiev não significará qualquer envolvimento dos EUA numa nova guerra – já disse o supracitado Eliot Engel, que apresentou o projeto de resolução já aprovado. O povo ucraniano não quer saber de soldados norte-americanos – disse Engel. – Só querem as armas.

Lindo. E se a Ucrânia só quer armas, o complexo industrial norte-americano só quer vendê-las!

Assim sendo, a única questão é como a Rússia responderá a essa escalada: segundo RT,

(...) a decisão de Washington de fornecer munição e armas fará “explodir tudo, no leste da Ucrânia” e a Rússia será forçada a responder “apropriadamente” – disse o Vice-Ministro de Relações Exteriores, Sergey Ryabkov, nos últimos dias de fevereiro.

Seria o maior golpe contra os acordos de Minsk e faria explodir tudo – segundo a agência TASS, citando Ryabkov.

Em outras palavras, esqueçam ações e bônus – pensem só nos pacotes monetários que o Banco Central lançará de paraquedas sobre algumas cabeças, só por causa dessa Guerra Mundial III.
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[*] Tyler Durden é o apelido de numerosos blogueiros que comentam no Zero Hedge. O nome foi copiado de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta).

terça-feira, 1 de julho de 2014

Uma nova Guerra Fria e os EUA se vingam MENTINDO... Novamente!

29/6/ 2014, [*] Paul C RobertsInstitute for Political Economy
Traduzido por  Mberublue


Discurso de Churchill (5/3/1946) "A Cortina de Ferro" (em inglês)

Para o complexo industrial-militar e de segurança dos Estados Unidos, a Guerra Fria foi por décadas uma fonte de muito dinheiro, desde 5/3/1946, quando do discurso de Churchill em Fulton, Missouri, ao estabelecer a “Cortina de Ferro”, até o final dos anos 80, quando Reagan e Gorbachev decretaram o fim da Guerra Fria. Durante esta, os estadunidenses ouviram falar ad nauseam sobre as “Nações Cativas”. As nações cativas seriam os Estados Bálticos e o bloco soviético, normalmente chamado, de forma resumida, de “Europa Oriental”.

Complexo Industrial-Militar dos EUA
Seriam estes países nações cativas porque suas políticas externas eram impostas por Moscou, da mesma forma que outras nações também cativas como Reino Unido, Europa Ocidental, Canadá, México, Colômbia, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Coréia do Sul, Taiwan, as Filipinas, a Geórgia e a Ucrânia, têm suas políticas externas impostas atualmente por Washington. Pretende ainda Washington expandir as suas próprias nações cativas cooptando o Azerbaijão, que formava antigamente parte da Ásia Central Soviética, Vietnam, Tailândia e Indonésia.

No transcorrer da Guerra Fria, os Estados Unidos tinham a Europa Ocidental e a Grã Bretanha como países soberanos e independentes. Fossem eles independentes ou não, certamente hoje não são. Estamos já há sete décadas passadas desde o final da Segunda Guerra Mundial e as tropas dos Estados Unidos ainda ocupam a Alemanha. Nenhum dos governos europeus tem coragem de propor qualquer coisa que seja diferente do que propõe o Departamento de Estado dos EUA.

Não muito tempo atrás, houve rumores e conversações tanto na Alemanha quanto no Reino Unido sobre sair da União Europeia, mas Washington entrou na conversa e declarou que estes países deveriam cessar tais assertivas porque não era do interesse de Washington que qualquer país saísse da União Europeia. A conversa cessou imediatamente. O reino Unido e a Alemanha são tão abjetamente vassalos de Washington que nenhum deles pode sequer fazer publicamente suposições sobre o próprio futuro.

Baltasar Garzón
Quando Baltasar Garzón, um juiz espanhol com autoridade judicial para investigação tentou indiciar membros do regime de George W. Bush por violação de leis internacionais por torturar detentos, foi imediatamente derrubado.

No livro Modern Britain (“guia” anedótico para entender a atual Inglaterra - NT), Stephane Aderca escreve que o Reino Unido está tão orgulhoso de poder ser um “parceiro júnior” dos Estados Unidos, que o governo britânico aderiu a um acordo unilateral dos EUA, um tratado de extradição sob o qual basta que Washington faça uma mera declaração de “razoável suspeita” para que obtenha a extradição de pessoas do Reino Unido, mas este tem que demonstrar “causa provável” para a recíproca. Ser um “parceiro júnior” de Washington, relata Aderca, é uma espécie de compensação emocional para as elites britânicas, dando-lhes a sensação de que são importantes.

Sob as regras da União Soviética, a grande entidade que precedeu a Rússia atual, as nações cativas tinham performance econômica fraca. Sob as regras de Washington, estas mesmas nações cativas têm desempenho medíocre por causa da pilhagem promovida por Wall Street e o FMI.

Como disse Giuseppe di Lampedusa, “As coisas têm grande chance de serem sempre as mesmas.”


O saque promovido contra a Europa por Wall Street e que recaiu sobre a Grécia, Itália, Espanha, Portugal, Irlanda e Ucrânia, está agora centrada na França e na Grã Bretanha. As autoridades americanas estão exigindo do maior banco francês a quantia de 10 bilhões de dólares americanos sob a acusação forjada de que o banco estaria financiando comércio com o Irã, como se fosse problema de Washington com quem um banco francês resolve fazer negócios ou financiamentos. Apesar da total subserviência da Grã Bretanha para com Washington o Procurador Geral do Estado de Nova Iorque instaurou um processo civil de fraude contra o Barclays Bank.

Provavelmente são corretas as acusações assacadas contra o Barclays PLC. Mas como a maioria do bancos americanos, provavelmente tão culpados como o Barclays não foram acusados de nada, a acusação dos Estados Unidos contra o Barclays siginifica que os grandes fundos de pensões e mutuais devem abandonar o banco, porque poderiam ser acusados posteriormente de negligência, caso mantivessem as contas em um banco acusado de fraude civil.

Claro que o resultado dessas acusações contra bancos estrangeiros feitas pelos Estados Unidos não poderia ser outro. Acontece então que bancos como o Morgan Stanley e Citigroup ganham vantagem competitiva, e acabam por açambarcar o mercado desses valores em seus próprios dark pools (mercado privado que negocia valores mobiliários, mas fora do alcance dos investidores comuns, do público em geral. Quando há liquidez nestes mercados ocultos ao público, é chamada de dark pool liquidity. O nome significa que esse tipo de comércio é escondido do público em geral, como se estivesse mergulhado em uma piscina de água turva[NT]).

Esquema "Dark Pool" Liquidity 
Então, o que isso tudo significa? Certa e claramente, estamos presenciando o uso da lei dos Estados Unidos para criar hegemonia financeira para as instituições estadunidenses. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos (sic) teve provas por cinco anos da participação do Citigroup na fixação da taxa de juros LIBOR, mas nem chegou perto de sequer pensar em uma acusação.

Os governos comprados e já pagos dos estados europeus fantoches dos EUA são tão corruptos que os líderes permitem que Washington mantenha o controle sobre seus países, para o avanço da hegemonia financeira, política e econômica dos EUA.

Em seu próprio benefício, Washington está organizando o mundo contra a Rússia e a China. Em 27/6/2014, os estados fantoches de Washington que compreendem a União Europeia deram à Rússia um ultimato. Salta aos olhos o absurdo desse ultimato. Militarmente, os fantoches de Washington são inofensivos. A Rússia pode exterminar a Europa em alguns minutos. Daí, nós temos a situação esquisita em que o mais fraco dá um ultimato ao mais forte.

Cameron, um dos poodles europeus de Obama

A União Europeia, em obediência às ordens de Washington, disse para a Rússia que acabe com a oposição ao governo fantoche dos EUA em Kiev, no sul e no leste da Ucrânia. Mas, como qualquer pessoa com um mínimo de instrução sabe, incluindo a Casa Branca, Downing Street nº 10 (residência oficial e gabinete do Primeiro Ministro Britânico, funcionando como sede do governo – [NT]), Merkel e Hollande, a Rússia não é responsável pelas agitações separatistas no leste e sul da Ucrânia. Estes territórios sempre foram parte da Rússia e somente foram adicionados à República Soviética da Ucrânia pelo Partido Comunista Soviético quando a Ucrânia e a Rússia faziam ambas parte de um mesmo país.

Agora, esses russos querem voltar a fazer parte da Rússia porque foram ameaçados pelo governo fantoche instalado pelos EUA em Kiev. Washington está determinado a forçar Putin a uma ação militar, a qual pode ser usada para justificar ainda mais sanções, e nesse intento não quer resolver a situação, e sim piorá-la.

Hollande - Draghi -Merkel (Marionetes dos EUA)
O que será que Putin fará? Ele tem 72 horas para se submeter a um ultimato de uma coleção de países marionetes que ele pode destruir a qualquer momento, ou prejudicar seriamente somente com a interrupção do fluxo de gás natural da Rússia para a Europa.

Historicamente, esse tipo de desafio estúpido ao poder pode resultar em más consequências. Mas Putin é um humanista a favor da paz. Ele não desistirá voluntariamente de sua estratégia de mostrar à Europa que as provocações não vêm da Rússia e sim dos EUA. A esperança de Putin e da Rússia, é que a Europa eventualmente compreenda que está sendo usada de forma vil por Washington.

Os EUA financia centenas de ONGs na Rússia, escondidas atrás de vários disfarces, como por exemplo, “direitos humanos”, e Washington pode liberar esses ONGs contra Putin à vontade, como já fez nos protestos conta a eleição de Putin. As quintas colunas de Washington acusaram Putin de ter roubado as eleições, mesmo após várias pesquisas mostrarem que Putin foi o vencedor claro e indiscutível das eleições.

 Brzezinski e Wolfowitz
Em 1991, os russos ficaram, em sua maior parte, muito contentes em se libertar do comunismo e olharam para o ocidente como um aliado para a construção de uma sociedade civil baseada na boa vontade. Esse foi o erro da Rússia. Como as doutrinas de Brzezinski e Wolfowitz deixam bem claro, a Rússia é o inimigo cujo crescimento e influência devem ser combatidos a qualquer custo.

O dilema de Putin é que ele está preso entre o profundo desejo de chegar a um acordo com a Europa e o desejo desta e dos EUA de demonizar e isolar a Rússia.

Putin corre o risco de que seu desejo de acordo seja explorado por Washington e apresentado à União Europeia como sinais de fraqueza e falta de coragem. Os EUA estão dizendo a seus vassalos europeus que o recuo de Putin ante as pressões da Europa comprometerão seu status na Rússia e no momento certo Washington liberará suas centenas de ONGs para levar Putin à ruína.

Foi o que aconteceu na Ucrânia. Com Putin trocado por um russo submisso e muito bem recompensado, apenas a China permanecerá como um obstáculo para a hegemonia dos Estados Unidos no mundo.
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[*] Paul Craig Roberts (nascido em 3/4/1939) é um economista norte-americano, colunista do  Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week eScripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.