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domingo, 11 de março de 2012

Congratulações atrasadas: Obama, afinal, telefonou para Putin


11/3/2012, *MK Bhadrakumar, Indian Punchline Blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Será que este encontro se repetirá?
Quando você demora uma semana inteira para pegar seu telefone vermelho e digitar um número, você já disse muito. Sobretudo se for telefonema de congratulações. A nenhuma pressa diz ao interlocutor que você, de fato, não está explodindo de felicidade; que está apenas cumprindo regra de protocolo, comunicando-se com alguém com quem talvez seja forçado a negociar.

Não há dúvida de que o presidente Barack Obama dos EUA disse muito, ao deixar passar uma semana, até a última 6ª-feira, último dia de trabalho da semana, para só então telefonar a Vladimir Putin, presidente eleito da Rússia, e apresentar suas congratulações pela vitória nas eleições de 4/3/2012. Em resumo, Obama deixou bem claro que não tinha pressa, e, portanto, pouco interesse, naquela eleição; e fez questão de que Moscou entendesse o recado.

Os colegas ocidentais de Obama já haviam telefonado há muito tempo. Claro, o Departamento de Estado pronunciou-se imediatamente depois das eleições do dia 4. Curiosamente, o Departamento de Estado deu parabéns ao povo russo. O nome de Putin não é sequer mencionado na declaração. Washington deixou implícito que os interesses dos EUA orientarão sua política para a Rússia; que os homens não fazem diferença. Em seguida, o Departamento de Estado pôs a exigir investigações sobre irregularidades nas eleições – apesar de o resultado haver apontado “um vencedor claro, com maioria absoluta de votos”. Em resumo, Washington continua a dar “sermões” sobre o lento avanço, na Rússia, da democracia liberal à moda ocidental. 

Washington estava atenta à reação pública na Rússia. Afinal, deve ter-se convencido de que não haveria mesmo uma “revolução colorida” por lá. Até a mídia ocidental, que mostra atitude démodée, arcaica, de hostilidade à moda Guerra Fria, contra Putin, já admitiu, a contra gosto, que as manifestações anti-Putin estão cada dia mais esvaziadas. 

Assim, sendo, como se pode deduzir, Obama resolveu que teria de voltar ao batente. A manifestação da Casa Branca foi gélida, sem nem vestígio do calor que sempre se vê nessas ocasiões consideradas festivas, como eleições, no mundo da democracia. (Até o primeiro-ministro David Cameron, da Grã-Bretanha, foi mais pessoal e caloroso, apesar de as relações GB-Rússia atingirem temperaturas abaixo de zero.) 

A referência à “futura cooperação” à luz da admissão da Rússia como membro da Organização Mundial do Comércio [1] é interessante. Terá Obama prometido, pela enésima vez, que trabalhará para o cancelamento da emenda Jackson-Vanik de 1974 ao embargo comercial [2]? Agora, com a Rússia admitida como membro da OMC, aquela emenda é ainda mais insustentável.

Mais uma vez, as diferenças entre EUA e Rússia, sobre a Síria e sobre o escudo de mísseis de defesa vieram à tona. E há clara referência a “obstáculo a melhores relações”. Mas o Irã e o Afeganistão foram listados como áreas de cooperação. Humm. Pelo visto, o “reset” é bem seletivo. 

Putin visitará os EUA por ocasião do encontro do G-8, em maio, em Camp David. E a Rússia também foi convidada para a cúpula da OTAN em Chicago, em maio. Moscou respondeu que a decisão de ir ou não ir dependerá de avanços na discussão do escudo de mísseis. Mas a “declaração” oficial não fala do encontro da OTAN.

Apesar de Obama ter demorado tanto a saudar a eleição de Putin, os EUA serão um dos primeiros países que Putin visitará nas viagens ao exterior que fará depois de voltar ao Kremlin. Mas, será seu primeiro pouso? Meu palpite é que Putin dará seu recado, ele também, ao visitar algumas das ex-repúblicas soviéticas, antes de rumar para Camp David.

Para não deixar dúvidas: Obama deixou bem claro que a Rússia não é prioridade da política externa dos EUA. Moscou entendeu. Foi telefonema que vários outros também aguardavam. Gente, por exemplo, em Pequim, Teerã, Damasco e Islamabad.



Notas dos tradutores

[1] A Rússia só foi admitida como membro da OMC em dezembro do ano passado, “depois de 18 anos de negociações”. Mais sobre isso em: “Russia becomes WTO member after 18 years of talks”.

[2] É lei do Congresso, vigente nos EUA desde 1974, que restringia o comércio com a então União Soviética. Naquela ocasião, a lei foi aprovada para pressionar a URSS a permitir a emigração; continua vigente, agora contra a Rússia, e sempre foi um dos obstáculos à admissão da Rússia como membro da OMC (mais sobre isso, em: “U.S. Obama pledges end of Jackson-Vanik amendment for Russia”

*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

terça-feira, 6 de março de 2012

Tempos de duros testes para Putin


6/3/2012, *MK Bhadrakumar, Indian Punchline Blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

[De comentário acrescentado ao Blog]
“Os abutres ocidentais já começaram a questionar a legalidade da eleição de Putin, tentando criar a máxima agitação interna que consigam, na Rússia. A máquina de propaganda anti-Putin virá, avassaladora, usando “especialistas”, ONGs, embaixadores, qualquer um e todos”.
(Sobre as razões disso tudo, leia:


Vladimir Putin
Muito estranhamente, na onda de críticas do ocidente contra a legalidade e a legitimidade da eleição presidencial na Rússia, nenhuma autoridade atreveu-se a exigir a anulação das eleições. Só se fala sobre “irregularidades” [1] , sem que ninguém ponha em dúvida o resultado da eleição propriamente dito. Em resumo, embora a parte de cozinha esteja feita e os pratos já estejam à mesa, o cozido tem de ser deixado em fogo brando, para apurar.  

De fato, 10 Downing Street teve gesto extraordinariamente importante, ao apoiar a vitória eleitoral de Vladimir Putin como “um resultado decisivo”. [2] O primeiro-ministro britânico, logo depois, telefonou para Putin. Cameron disse que esperava trabalhar com o novo presidente russo “para superar os obstáculos que persistem nas relações GB-Rússia (que passam por momento de frio intenso) e construir “laços políticos e comerciais mais profundos”. [3]

O gesto dos britânicos afastou Londres dramaticamente dos protestos de rua em Moscou. Cameron com certeza tentou descobrir, com a máxima antecedência possível, o que andaria pela cabeça de Putin. (E depois, trocaria ideias com Barack Obama. Ver em: “Britain will work to mend Russia ties with Putin: David Cameron”).

Especificamente, Cameron discutiu a questão síria (e o mesmo fez a chanceler alemã Angela Merkel que também telefonou para Putin). A imprensa ocidental especula abertamente
[4] que agora, já livre da retórica de campanha, Putin poderia ser mais facilmente seduzido pela fúria ocidental a favor da “mudança de regime” em Damasco. Talvez funcionasse com outro. Não funcionará com Putin. 

As próximas semanas serão cruciais para definir o tempo da presidência de Putin. Embora o presidente Dmitry Medvedev permaneça formalmente no cargo ainda por três meses, já se verá o imprimatur de Putin em cada um e em todos os movimentos do Kremlin. 

O ocidente não dará trégua ao Kremlin, na questão dos protestos populares. O ocidente fareja que a autoridade e o poder de Putin estejam enfraquecidos, pelo menos em certa medida. Paradoxalmente, a eleição mostrou que Putin continua extraordinariamente popular, embora tenha deixado claro que ele não conseguirá governar a Rússia como antes. 

O desafio, para Putin, é conseguir criar algum equilíbrio estável, no contexto das incansáveis tentativas do ocidente para quebrar a unidade nacional. É muito provável que os protestos de rua convertam-se em problema diário, o que poderá empurrar o Kremlin, em futuro mais ou menos próximo, para os cornos de um grande dilema: ou passa a conviver com a turbulência social, ou traça limites claros intransponíveis. 

Entretecido nesse quadro, está um teste para a capacidade de Putin: conseguir fazer avançar a reforma política, contra interesses de uma oposição muito profundamente plantada dentro do sistema. Contexto de turbulência política, além da agitação social, não é exatamente o melhor quadro no qual fazer avançar o ambicioso plano político de Putin, para regenerar a economia russa. 

Por outro lado, a estagnação da economia alimenta a apatia e o ressentimento sociais, os quais, por sua vez, alimentam o desentendimento político. Bom será se os preços do petróleo permanecerem altos [5], porque haverá como dar vida a investimentos sociais e gastos com finalidade social. 

Em resumo, o xis da disputa geoestratégica que se entrevê entre a Rússia e o ocidente está assumindo hoje ares de discordância [6] sobre o que sejam a prática e o exercício da democracia. (Muitos dos russos que protestam sinceramente ainda não se deram conta disso.) Mas Putin já enfrentou tempos muito mais difíceis – por exemplo, quando Boris Yeltsin reinava absoluto sobre tudo.

Se Putin firmar-se no poder em Moscou, será bom para as relações Índia-Rússia. Motivo pelo qual me surpreendeu não ter visto o nome do primeiro-ministro da Índia entre os estadistas do planeta que felicitaram Putin.

_________________________

Observações dos tradutores:

Foi difícil encontrar as notícias, mas encontramos e, devidamente reeditadas para convertê-las em jornalismo decente, excluindo delas o fedor udenista dos textos da Agência Estado, sabe-se que:

Dilma Roussef
(1) A presidente Dilma Rousseff, por telefone, parabenizou Putin pela vitória nas eleições no último domingo, quando foi eleito com 63,81% dos votos; no mesmo telefonema, convidou o presidente eleito da Rússia, Vladimir Putin, para comparecer à conferência Rio+20, que ocorrerá no Rio de Janeiro entre os dias 20 e 22 de junho. Putin não pôde garantir a presença, mas convidou Dilma para visitar a Rússia, convite aceito pela presidente. [6/3/2012, da Agência Estado, em: “O Diário de Maringá: Dilma parabeniza Putin e o convida para a Rio+20”.
 A matéria acima que teve de ser reeditada porque, a acreditar na Agência Estado, a notícia importante aí não seria nem a eleição de Putin nem o telefonema da presidenta Dilma, mas uns “protestos contra a legitimidade da eleição”. Exatamente como o embaixador Bhadrakumar anota e comenta acima, “estranhamente” a Agência Estado também não exige que se anulem as eleições na Rússia.
Ufa! Que alívio!

(2) O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também parabenizou Putin pela eleição. Em carta, enviada do hospital onde convalesce, o ex-presidente Lula diz que:

Luiz Inácio Lula da Silva
“Fico feliz ao ver que terá continuidade seu trabalho em conjunto com o atual presidente Dmitri Medvedev, com quem também tive ótimas relações. Essa união de forças é salutar para o equilíbrio na equação da política mundial. Uma Rússia forte e soberana é de significativa importância para o mundo multipolar e multilateral que emerge no limiar do século XXI”.

Lula também diz a Putin também que:

“... sob sua liderança, a Rússia continuará a trilhar o caminho de sucessos que vem alcançando nos planos interno e internacional” e que “a sólida parceria com o Brasil será aprofundada, intensificando o denso diálogo político que logramos consolidar nos últimos anos”.
(Diário de Maringá)

Matéria também da Agência Estado e que TAMBÉM TEVE DE SER REESCRITA, pra evitar-se o risco de nós “noticiarmos” aqui, repetindo as sandices da Agência Estado, que repete sandices de agências norte-americanas, segundo as quais o ex-presidente Lula teria cometido um incompreensível e tresloucado gesto de cumprimentar um russo eleito presidente, que NÃO ERA o candidato preferido da Agência Estado nem dos EUA, da Hilária, dos Mesquitas, dos Frias, dos Civitas, etc. etc. etc. [risos, risos, risos] 

A Agência Estado é RIDÍCULA e são ridículos também tooooodos os jornalistas e jornais que copiam-colam, como se fossem notícias, o besteirol da Agência Estado.



Notas dos tradutores

[1] 5/3/2012, Boston News, “US notes fraud charges in Russian vote”

[2]5/3/2012, The Independent, “Vladimir Putin victory “a decisive result” says No 10”

[3]5/3/2012, The Independent, “Vladimir Putin victory “a decisive result” says No 10”

[4]5/3/2012, Washington Post, “Germany hopes for Russian rethink on Syria after election, but Moscow appears unmoved”

[5] 5/3/2012, Financial Times, em: “Oil prices: the key to Putin’s future”
[6] 4/3/2012, Financial Times, em: “The reawakening of Russian politics”

 
*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

Pepe Escobar - “Agora, é encarar [1]: o Czar voltou”


5/3/2012, Pepe Escobar, Al-Jazeera (de Bangkok, Tailândia)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
O Czar chegou às lágrimas – improvável remake de Moscou contra 007 (From Russia with love, 1967). A Igreja Russa Ortodoxa – que apoiou firmemente sua campanha – estava contentíssima. As lágrimas do Czar rolaram, em teoria, em homenagem aos cidadãos daquele “grande país”, aos quais ele quer garantir “vida decente”. Ele está de volta –, como uma vingança; o mais gentil, o mais doce Putinator.

A tarefa que terá pela frente é gigantesca. Seu modelo vertical de soberania democrática – concebida pelo ex-conselheiro Vladislav Surkov [2] – já começa a beliscar. Tem de simultaneamente combater a corrupção horrenda, dobrar a burocracia e disciplinar as oligarquias centrais e locais.

Tem de enfrentar a drenagem ininterrupta de cérebros russos: até aqui, mais de dois milhões de russos já partiram.

Vladimir Putin
Tem de maximizar os lucros de espantosos $1,5 trilhão das exportações de petróleo, desde que chegou ao poder pela primeira vez, em março de 2000. E que ainda não bastam para melhorar substancialmente a infraestrutura russa.

Recordo vivamente março de 2000 em Moscou: ninguém sabia, sequer, se o Czar teria competência para erguer a Rússia, depois dos pantanosos anos de Yeltsin e dependência de Washington; ou se, ao contrário, deixar-se-ia arrastar como um fantoche.  

E ninguém nem de longe imaginava que ele rebentaria a banca, com o hoje lendário discurso de fevereiro 2007 em Munique [3] – quando denunciou claramente a obsessão bélica do governo Bush e declarou o fim do velho mundo unipolar.

Washington enlouqueceu de fúria. Afinal, a nova estratégia recém projetada acabava de pôr a Rússia no papel de, no máximo, um vassalo confiável. E, de repente, a Rússia surgia em cenário global, com política internacional própria e autônoma. A Rússia voltava a modelar a própria influência sobre os ‘-stãos’ da Ásia Central. Os BRICSs Rússia e China começaram a se reaproximar, justamente quando os EUA supunham que a Rússia aceitaria sem qualquer protesto o escudo antimísseis da OTAN e lá ficaria, sem protestar, cumprindo a missão de “conter” a China.

Não surpreende que as elites de Washington – e seus hagiógrafos nas redes Time Warner, News Corporation e New York Times – continuem boquiabertas até hoje, mal conseguindo disfarçar o estupor.

Foi Putin quem, praticamente sozinho, reorganizou na Rússia a empresa-superpotência no campo da energia controlada pelo estado, a Gazprom – maior exportadora mundial de gás natural e segunda maior mundial de exportação de petróleo, atrás só da Arábia Saudita.  

Agora, o desafio é oferecer “vida decente” a cada russo e a todos os russos. Segundo o Sberbank, maior banco de empréstimos da Rússia, o Czar terá despesas da ordem de nada menos que $170 bilhões anuais, ao longo dos seis anos de mandato. Orçamento muito apertado, considerando-se as despesas necessárias para organizar a Olimpíada de Inverno de 2014 e a Copa do Mundo de 2018.

E ainda mais apertado, se que considera que a fuga de capitais que saíram da Rússia em 2011 alcançou espantosos $84 bilhões. O Czar quer muito reverter esse movimento e tornar a Rússia atraente para o capital estrangeiro – fazendo-a saltar de um triste 120º lugar, para, pelo menos, o 20º.

O mundo segundo Putin

Não há qualquer tipo de conspiração. A essência da visão de mundo de Putin está claramente exposta em “Is Putin’s Russia keeping up with a changing world?”, 1/3/2012 (em inglês).

Nada de guerra contra o Irã. Nada de bombardeio “humanitário”. Nada de predominância de “instrumentos ilegais de poder soft” (um novo conceito, útil para esmagar as chamadas “revoluções coloridas”). O pilar central da ordem mundial continua a ser “o princípio, consagrado na história, da soberania do Estado”. Contem essa às Três Graças da R2P (“responsabilidade de proteger”) – Clinton, Rice e Power.

Será crucial que haja maior coordenação geopolítica entre os países BRICSs – as principais potências emergentes, que produzem mais de 25% (e aumentando) do PIB global. Para Putin, os BRICSs são “os mais eloquentes símbolos de transferência, de uma ordem mundial unipolar, para uma ordem mundial mais justa” [4].

Putin vê a Rússia aberta para negociar com todos. Jamais economicamente autárquica, a Rússia está mais que pronta para “aproveitar o vento chinês, que venha inflar as velas de nossa economia”. 

Indiferente ao Oriente Médio Expandido de Washington – que, para o Pentágono, cobriria da África Ocidental até Xinjiang na China – Putin focar-se-á na Eurásia, que inclui toda a China, o sul da Ásia Central, o Irã e o sudoeste asiático (também chamado Oriente Médio). A Índia com certeza gosta da ideia – porque um relacionamento íntimo com Moscou serve de contrapeso ao eixo sino-paquistanês; e para Moscou, uma Índia mais assertiva na Ásia Central serve de contrapeso à China.

O mais importante: esqueçam para sempre o “reset” Clinton-Lavrov, de março de 2009, das relações EUA-Rússia da Guerra Fria. Não por acaso, a palavra escrita no botão que os dois apertaram foi traduzida para o russo como “repetir”, não como “reiniciar”!

As eleições russas em números 

Washington e a OTAN – obcecadas com mísseis de defesa – logo sentirão a plena força do Putinator. Embora Putin admita que talvez houvesse sinceridade na ideia de Obama, de um “reset”, os resultados, para ele, foram zero: “Deu em nada, quanto ao plano dos mísseis de defesa”. Por isso, os EUA dedicam-se a comprar “invulnerabilidade total” com seus mísseis de defesa, e nada garante completamente que, um dia, a Rússia não vire alvo. Assumindo que haja um Obama II, será preciso dar reset no reset.

Tomara que você viva tempos interessantes [5]

Chris Hutchins, biógrafo da princesa Diana e do bilionário Roman Abramovich, proprietário do Chelsea e autor de um novo livro, Putin [6], cuja pesquisa exigiu-lhe seis anos de trabalho, jura que o Czar é “o político mais interessante que há hoje no cenário mundial”.

Fãs do carnavalesco Silvio “Bunga Bunga” Berlusconi – amigão de Putin – talvez discordem. Mesmo assim o Czar pode realmente personificar o último “homem-sem-qualidades” [o último “herói-sem-nenhum-caráter” (NTs)], sempre mudando de pele e cheio de expedientes e recursos, tão demonizado no ocidente – mas não no oriente. Chamem o Dr. Freud – e culpem os medos que o ocidente padece do próprio declínio. Diferente disso, a autoconfiança do Putinator é infatigável, na crítica sem refinamento, mas implacável, da ilimitada hipocrisia do ocidente.  

Poucas elites anglo-norte-americanas – diferentes das alemãs, com as quais Putin firmará uma parceria estratégica – reconhecerão em Putin sequer o mérito de lutar sem descanso para posicionar a Rússia no mundo multipolar emergente.

Seu motto de antes – “estabilidade” – funcionou tão bem, que a maioria dos russos jamais se sentiram tão estáveis como durante seu governo, desde o colapso da União Soviética. Agora, é quase como se um odor à Rosa Luxemburgo flutuasse no ar. Reforma ou revolução?

Esqueçam qualquer revolução colorida na Rússia. Haverá reformas. Mas nos termos do Putinator.




Notas dos tradutores
[1] Orig. Get over it. É título de canção de Amy Winehouse  e, ali, significa aproximadamente “superar [vício ou mania]”. Também pode ser traduzido por “resolver, encontrar solução”, como em “It took us a long time to get over the problems with the computer system”. E há outras possibilidades.

[3] Vladimir Putin, “Discurso à 43ª Conferência sobre Políticas de Segurança”, Munich, Alemanha, 2/10/2007. (em inglês). Aqui, alguns excertos traduzidos:

“A Rússia – nós – recebemos incansáveis aulas de democracia. Mas, por alguma razão, nossos ‘professores’ recusam-se a aprender sobre democracia... Um estado, e, sim, claro, mais que todos, os EUA todos os dias ultrapassam suas fronteiras nacionais de todos os modos imagináveis. Vê-se na economia, na política, na cultura, em políticas educacionais que os EUA impõem a todo o planeta. Quem quer isso? Quem vive feliz nesse mundo falsamente multipolar? (...) 
Quem poderia viver feliz e em segurança, se a lei internacional é usada como muralha para proteger só eles e sempre eles? E é claro que política internacional desse tipo só faz estimular uma corrida armamentista. (...) 
Creio que seja óbvio para todos que a expansão da OTAN nada tem a ver com a modernização da Aliança em si, com com qualquer intenção de aumentar a segurança da Europa. Ao contrário, é grave provocação, que compromete o nível indispensável de confiança mútua. E temos todo o direito de perguntar: contra quem se orienta toda essa expansão? E que fim levaram as garantias e promessas que ouvimos de nossos parceiros ocidentais, depois da dissolução do Pacto de Varsóvia? Onde andarão hoje aquelas declarações? Ninguém lembra delas! Mas permito-me relembrar os presentes do que então se disse. Cito, por exemplo, o que disse o secretário-gera da OTAN, Sr. Woerner, em Bruxelas, dias 17/5/1990: “o fato de que estamos dispostos a não plantar um exército da OTAN fora de território alemão é firme garantia de segurança para a União Soviética”. Sim mas... e onde está a garantia?”

[4] Vladimir Putin, “Russia and the changing world”, 27/2/2012, Ria Novosti, Moscou, (em inglês).

[5] Orig. “May you live in interesting times”é frase frequentemente apresentada como uma espécie de “praga” chinesa, que seria atualização de antigo provérbio chinês. Variantes da mesma “praga” seriam “Tomara que você atraia a atenção dos poderosos” e “Tomara que você encontre o que tanto procura” , inclusive uma versão segundo a qual a frase teria nascido em 1939, em American Society of International Law Proceedings, vol. 33 .

[6] Lançado na Rússia e na Inglaterra essa semana. Ver na Amazon.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Sangue de Gaddafi nas mãos de Obama?


16/12/2011,* MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Putin
Semana passada ofereci humilde conselho no sentido de que todos “apertem os cintos”, agora que Vladimir Putin pôs o pé na estrada, em campanha eleitoral[1]. Talvez pela primeira vez na história da Rússia haverá eleições que respeitarão todos os trâmites e circunvoluções da democracia. Inclusive as circunvoluções que todo o planeta associa às eleições nos EUA. 

Acho que Putin se dedicará a mostrar que não é direito reservado aos políticos dos EUA dizerem o que lhes dê na telha (ou na telha dos ‘marketeiros’ e ‘estrategistas’ de campanha), na caça aos votos dos eleitores, desinibindo-se de qualquer limitação do ofício público. 

Ora, ora... Parece que Putin já começou a disparar faíscas, se algo se pode deduzir do que já disse (espero que não sobrem faíscas para o nosso primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh). 

McCain
Putin já despachou o senador John McCain de volta para os tempos primevos da guerra do Vietnã, quando, como piloto, ganhava a vida bombardeando aldeias vietnamitas – comparando-o a, digamos, Lady MacBeth, que não conseguia lavar as manchas de sangue das próprias mãos, nem com todas as águas dos oceanos do mundo. 

Mas, mais importante que isso, Putin já repôs em circulação no mundo a notícia de que o governo de Barack Obama planejou e executou o crime de assassinato de Muammar Gaddafi, governante líbio. O potencial explosivo dessa acusação em todo o mundo árabe e muçulmano é de tal ordem, que o Pentágono reagiu em poucas horas. 

A Casa Branca deve ter concluído, no instante em que ouviu o que Putin disse, que a Rússia tem evidências de inteligência muito confiáveis nas quais Putin está amparado para aquela acusação – e que poriam Obama na pouco digna posição de mandante de assassinato. 

O Pentágono respondeu resposta pífia: que os EUA não têm soldados em campo naquela área. Nem Putin disse que tinham, ora essa! Putin disse que Gaddafi foi assassinado num ataque de um avião-robô, um drone. Quem falou de “soldados em campo”?!

Claro, nada que leve Obama às barras do Tribunal Internacional de Haia como criminoso de guerra, como se fosse um Slobodan Milosovich. Nem Putin se interessa por isso.

Gennady Zyuganov
O que já se pode ver bem claramente, é que Putin não permitirá que os EUA encenem a farsa que encenaram na eleição presidencial de 1996, quando o líder comunista Gennady Zyuganov teria derrotado Boris Yeltsin, não fosse o vastíssimo apoio que os EUA deram a Yeltsin e valeu-lhe a reeleição, apesar de Yeltsin já ser, então, muito impopular na Rússia.

Por falar nisso, há um interessante capítulo sobre esse episódio no livro The Russia Hand: A Memoir of Presidential Diplomacy  [2] [A Mão Russa: uma memória de diplomacia presidencial] de Strobe Talbott  [3], no qual está narrada toda a ação do governo Clinton para, literalmente, salvar Yeltsin das garras da derrota eleitoral, o que foi feito com a participação de especialistas, que reformataram a estratégia de sua campanha eleitoral. Imaginem só! Que rumo teria tido a política mundial, se um comunista tivesse sido eleito presidente russo em 1996, em eleições “livres e limpas”? 

Hoje, como em 1996, as apostas estão altíssimas, para os EUA. Putin presidente da Rússia é pensamento extremamente desconcertante para Washington, no momento em que os EUA jogam cartada derradeira, em ritmo de defender sua última fronteira, para restabelecer a hegemonia ocidental sobre o Oriente Médio, e quando ninguém pode ter qualquer certeza quanto ao futuro da “operação” Pacífico Asiático.

Washington fará tudo que puder para derrotar ou, no mínimo, para enfraquecer muito, a candidatura de Putin. Nas barricadas, Obama precisa até da ajuda do abençoadamente feliz e risonho veterano piloto McCain.



Notas dos tradutores
[1]  11/12/2011, “Acabou a ‘revolução colorida’ na Rússia”, MK Bhadrakumar 
[2] TALBOTT, Strobe, The Russia Hand: A Memoir of Presidential Diplomacy, New York: Random House, 2002, sem tradução para o português [NTs]. Lê-se resenha interessante do livro (em inglês). 
[3] Vice-Secretário de Estado no governo Clinton.

*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.