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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Colhidos sempre na armadilha dos seus repetidos erros (Os EUA não aprendem com a história)

[*] Conflicts Forum, Comentário Semanal 14/11/2014 (publicado dia 18/11/2014)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Kennedy e assessores na crise dos mísseis de Cuba
William Polk, veterano comentarista da política exterior dos EUA, que foi um dos três membros da Equipe de Gerenciamento de Crise, durante o impasse entre o presidente Kennedy dos EUA e Khrushchev, da Rússia, na chamada Crise dos Mísseis em Cuba, alerta agora que os EUA estamos andando diretamente no rumo de outro daqueles momentos de extremo perigo (pode-se dizer apocalípticos), em que as tensões crescem descontroladamente – na direção de guerra real.

E ele diz que as próprias dinâmicas que impelem os EUA em direção ao conflito de hoje são, precisamente as mesmas de antes (durante a crise dos mísseis em Cuba: a inabilidade para perceber como o “outro” percebe os EUA; a recusa a reconhecer a verdade do “outro” e o relato “do outro”, da história – ou a inabilidade até para perceber que pode haver outra “verdade” por aí pelo mundo, seja onde for, diferente da “verdade” dos EUA.

Em resumo, os norte-americanos assumem como autoevidente que o povo russo pense e compreenda exatamente do mesmo modo como os norte-americanos pensam e compreendem. E os russos hoje só podem estar necessariamente errados, porque, se não estivessem errados, como seria possível que não pensassem nem compreendessem as coisas como os norte-americanos pensam e compreendem, quer dizer: “racionalmente”? E se os russos agem de modo contrário ao que os norte-americanos creem que devessem agir – não é porque vejam as coisas de outro modo; é porque são beligerantes.

O que mais chama a atenção no que Polk escreveu sobre “lições que os EUA não aprenderam” é que também um ex-alto funcionário russo acaba de nos dizer exatamente a mesma coisa (que os EUA parecemos estar repetindo o mesmo perigoso padrão que levou à Crise dos Mísseis russos em Cuba).

William R. Polk
William Polk escreve:

Meses antes de a crise [1962] cair sobre nós, fiz um tour pela Turquia. Ali visitei uma base da Força Aérea dos EUA, onde 12 bombardeiros de combate estavam em “alerta máximo”. Daqueles, dois já estavam no estágio posterior de alerta, com motores ligados e com os pilotos já sentados nos respectivos cockpits. Prontos para decolar, cada um daqueles aviões estava armado com uma bomba de um megaton, e programado para voar para um alvo na União Soviética. Perto dali, no Mar Negro, em Samsun, vi pelo radar aviões de um esquadrão da Real Força Aérea britânica que estavam testando as defesas aéreas dos soviéticos na Crimeia. E adiante, na Anatolia, em locações supostamente secretas, um grupo de mísseis “Jupiter” dos EUA estava já mirado, armado e pronto para ser disparado.

Aquelas armas eram defensivas ou de ataque? Quero dizer, eram ameaça montada contra a União Soviética; ou defesa do “Mundo Livre”? Meus colegas no governo dos EUA entendiam que fossem armas de defesa. Eram parte de nosso sistema de “contenção”. Montamos tudo aquilo para nos proteger, não como ameaça contra os russos.

Os russos pensavam de modo completamente diferente. E, como resposta ao que viam, decidiram estacionar alguns dos mísseis deles em Cuba. Os estrategistas soviéticos acreditavam que, ao criar equilíbrio contra os nossos mísseis postos junto à fronteira deles, os mísseis deles também seriam defensivos; assim como os nossos, nas fronteiras deles, nos pareciam defensivos. Os EUA pensamos de outro modo. Para nós, o movimento dos russos, de pôr mísseis junto às fronteiras dos EUA, sempre seria inquestionavelmente ofensivo. E por pouco não fomos à guerra, para obrigar os russos a remover de Cuba aqueles mísseis.

Até que “poucos minutos antes da meia-noite” voltamos a pensar racionalmente: recolhemos nossos Jupiters, e os russos removeram os mísseis que eles haviam instalado em Cuba.

A primeira lição a ser aprendida dessa quase catástrofe é sempre tentar compreender o ponto de vista do adversário. Como escrevi alguns meses antes da Crise dos Mísseis Russos em Cuba, os russos tinham um ponto: os mísseis que mantínhamos na Turquia eram obsoletos. Dependiam de propulsão por combustível líquido. Esse tipo de combustível demora vários minutos para entrar em ignição. Para que tivessem alguma utilidade, seria preciso dispará-los antes que mísseis ou bombardeios soviéticos os destruíssem em terra. Isso, por sua vez, significava que só serviam como armas para “primeiro ataque”. E, por definição, qualquer primeiro ataque é sempre “ofensivo”.

Insisti para que os retirássemos com urgência da Turquia. Não foram retirados. Os militares norte-americanos entendiam que aqueles mísseis seriam parte essencial de nossa defesa estratégica. E os mísseis lá ficaram, até que os russos puseram os seus mísseis em Cuba. Então, sim, os EUA retiramos os mísseis. Só os retiramos quando os russos retiraram os deles. Assim, em certo sentido, a Crise dos Mísseis foi um toma-lá-dá-cá. Em minha opinião, não há meio mais idiota de pôr em perigo a sobrevivência da humanidade!

União Europeia
Foi assim naquele momento – e é assim hoje: Qual é a percepção que EUA e União Europeia têm sobre o que estão tentando fazer na Ucrânia? Estão tentando criar uma Ucrânia orientada pelo ocidente, integrada, próspera, territorialmente una, segura e democrática.

Muitos europeus veem esse objetivo como – simplesmente – reflexo do impulso gravitacional “civilizacional” da União Europeia. Os russos pensam de outro modo.

Os russos sabem bem dos profundos cismas que dividem a Ucrânia, de ódios antigos. Pensam que o ocidente está usando essas velhas animosidades para criar uma plataforma ofensiva mediante a qual o ocidente tentará enfraquecer a Rússia. Então a liderança russa reage: aumenta a segurança em torno da histórica base naval russa em águas temperadas; e reage com força no Donbass, contra um governo de Kiev hostil. E volta a mesma pergunta: a reação russa foi ofensiva ou defensiva?

Para a Rússia, os seus próprios movimentos são defensivos (de fato, são existencialmente defensivos).

O ocidente vê as coisas de outro modo: vê os movimentos dos russos como ameaça contra toda a ordem europeia do pós-guerra, nada menos que isso. Então, o ocidente posicionou seus “mísseis” junto à fronteira russa. Mas nessa nova modalidade de guerra, não se trata literalmente de bombas, como as que William Polk viu na Turquia, já na pista e com turbinas ligadas; trata-se agora dos “bombardeiros” do Tesouro dos EUA, carregados com bombas de nêutrons financeiros: as tais sanções, pensadas para causar dano aos lucros futuros que a Rússia poderia auferir da venda dos hidrocarbonos. Para o ocidente, é ação de “contenção”, ato “correcional”, que levará a Rússia a “arrepender-se” do “mau comportamento” de antes.

Para os russos, é absolutamente outra coisa: para os russos, é movimento de ataque; é guerra. Guerra contra o presidente Putin e guerra contra a própria Rússia.

A Rússia, portanto, reage conforme sua percepção, defensivamente: e cria um sistema paralelo de finanças, comércio e câmbio, com a China.

O ocidente não entende assim, e o preço do petróleo cai em quase 1/3. Para o ocidente, não passa de reação técnica ante condições de mercado. Os russos, relembrando o modo como a Arábia Saudita operou para derrubar o preço do petróleo em 1986, o que empurrou a União Soviética para a implosão financeira, pensam de outro modo.

Queda de preço do petróleo provocada pela Arábia Saudita sob comando dos EUA
Os russos relembram o passado e sabem que entraram num túnel em escalada que pode, sim, levar à guerra. Pode ser guerra “a quente”, ou nova modalidade de “guerra” comandada pelo Tesouro dos EUA.

Assim sendo, quais as lições da Crise dos Mísseis Russos em Cuba que poderiam nos guiar dessa vez, quando Kiev já teve suas eleições, e o Donbass, suas contraeleições; quando Kiev ostenta suas forças armadas reequipadas; e o Donbass, as suas milícias rearmadas e reabastecidas?

A primeira lição que William Polk extrai disso tudo é que – diferente, ao contrário da narrativa convencional – os EUA não obrigaram Khrushchev a recolher seus mísseis, graças a alguma potente exibição de força. A verdade é que os EUA silenciosamente removeram seus mísseis Júpiter da Turquia; depois disso, a URSS retirou os seus mísseis de Cuba.

Absolutamente não foi – ao contrário do que reza o folclore – um caso de a URSS ter-se recolhido sob pressão.

Na verdade, depois da crise, quando os eventos foram postos em perspectiva, analisados como se fossem um jogo, para deles extraírem-se as lições que houvesse, os oficiais norte-americanos compreenderam que – se Kennedy tivesse insistido na escalada (em vez de iniciar a desescalada) – os EUA e a Rússia teriam entrado em guerra: a mais devastadora guerra nuclear.

Por quê? Porque quando se analisaram friamente os eventos, ficou comprovado que a teoria da “contenção” baseava-se em pressupostos antropomórficos viciosos.

Estados não “pensam” como se fossem indivíduos: há neles uma comunidade com história diversificada tecida de incontáveis fios, que reflete uma variedade de saberes e práticas e tradições comunitárias. O Estado não age necessariamente como um indivíduo agiria, especialmente se o tal “indivíduo” for concebido como “racionalista” avesso a risco e maximizador de utilidades. Em vez disso, Polk e seus colegas concluíram que estavam tendo de lidar com lideranças-com-comando [orig. ruling leaderships]. E essas lideranças, por uma vasta variedade de fatores psicológicos e competitivos, podem simplesmente concluir que não podem pagar o custo de “ser o primeiro a piscar” – e custe o que custar, sejam quais forem os riscos.

O sonho dos NEOCONS
O resumo final de tudo isso é o perigo que advém de assumir (falsamente) que, dado que todos partilhamos basicamente os mesmos órgãos sensoriais, todos percebermos o mundo de modo semelhante. A “realidade” é escorregadia demais para que as coisas sejam assim. O que para um parece leitura evidente de uma situação, e atos racionais e defensivos, pode deslizar, na percepção do “outro”, até alcançar o polo extremo oposto: e aparecer como pura agressão. O tema básico de William Polk é que todos devemos nos manter atentos a o quão rapidamente o que é “defensivo” gera o que é “agressivo” em nossas políticas exteriores.

Não que esse importante, profundo conselho tenha qualquer chance de encontrar ouvidos receptivos em Washington nesse momento. 

Num artigo do Financial Times, o editor de The National Interest observa que os líderes Republicanos, no rescaldo de suas impressionantes vitórias nas eleições de meio de mandado, parecem agora exultantes ante a possibilidade, para eles já ao alcance da mão, de obterem uma vingança. Os neoconservadores pressionaram muito o presidente Obama no quesito “fraqueza” da política exterior, durante toda a campanha. Agora, estão tomando suas “vitórias arrasadoras” como se legitimassem aquela dureza de linha dura conservadora doentia.

Claro que Obama ainda tem todo o restante do mandato, e pode usá-lo para retroceder e des-escalar – mas não há dúvidas de que, se o fizer, terá de remar contra correntes muito fortes.

No ocidente, a narrativa Republicana de política exterior fracassada por causa da fraqueza do presidente será vista como “coisa da política” e reflexo do ir e vir eleitoral.

Mas os russos e grande parte do Oriente Médio já estão pensando de modo bem diferente (ver, sobre o que os Republicanos dizem hoje, artigo de Rahada Dragham em Al Arabiya: A última chance de Obama reconquistar a credibilidade perdida, ing.). Já percebem que, seja quem for o próximo presidente (e possivelmente também o presidente Obama, sob novas pressões domésticas) será mais agressivo contra a Rússia, o Irã e o governo da Síria. Esses personagens não verão o resultado da eleição como simples “coisa da política”, mas como promessa de escalada na violência.

Bases militares NUCLEARES dos EUA na Europa
É possível evitar a escalada da violência? É possível que os “mísseis Júpiter” e os “mísseis russos em Cuba” sejam desarmados e retirados de onde estiverem? Há solução assim tão “simples”? Ora... Mas o que desejam exatamente os “mísseis defensivos” da Rússia? Aí a coisa aparece bem clara: os russos querem Ucrânia neutra, não alinhada; acordos geoeconômicos não excludentes, que não tentem pôr os russos na posição de vizinho condenado a mendigar; descentralização da autoridade de Kiev, para as regiões; a volta do idioma russo como língua oficial; e fim do subsídio russo ao gás consumido na Ucrânia.

Quanto à Europa, o não alinhamento da Ucrânia, por ele só, jamais foi visto como algo antieuropeu. Basta que a Europa retire seus “mísseis do alinhamento UE e OTAN”, em troca de a Rússia retirar seus “mísseis da militarização das milícias”. Não seria difícil para qualquer diplomata competente, se a questão fosse só a Ucrânia. Infelizmente não é (como nunca foi).

A “guerra” dos EUA contra a Rússia tem tanto a ver com a autopercepção, nos EUA, de seu próprio declínio, quanto tem a ver com a Ucrânia – e esse é problema psicológico muitíssimo mais profundo, razão pela qual as tensões com a Rússia parecem condenadas à escalada. O conflito entre EUA e Rússia só se agravará – a menos que algum líder norte-americano consiga gerir esses sintomas coletivos de ansiedade, os quais, também no nível individual, sempre têm muito a ver com como somos percebidos pelos outros. Essas ansiedades, sejam individuais ou coletivas, como nos ensinam os psicólogos, quase sempre se manifestam inconscientemente pela linguagem ou comportamento de agressão (o que, provavelmente, foi o que emergiu durante as eleições de meio de mandato).

Infelizmente, administrar a percepção que os norte-americanos têm deles mesmos não foi, até hoje, o forte de Obama. É verdade que Obama tentou mudar a “pegada” física que os EUA estão deixando sobre o mundo, refletir um mundo em mutação (e, nisso, teve algum sucesso). Mas, ao mesmo tempo, Obama abraçou a retórica de promoção do “excepcionalismo” e da “indispensabilidade” dos EUA. É o mesmo que dizer que apesar de ter tentado cuidar do aspecto prático da mudança, Obama, ao mesmo tempo, não apenas negligenciou a luta contra a resistência à mudança psicológica necessária, mas, de fato, obrou para reforçar a resistência contra aquela mudança psicológica necessária (para continuar a usar esse tipo de linguagem).

Evidentemente, qualquer ajuste real a um novo papel da nação norte-americana no mundo exige ação pelos dois lados: pelo lado da preparação psicológica e pelo lado da implementação prática do ajuste e da mudança.


[*] Alastair Crooke, às vezes erroneamente referido como Alistair Crooke, (nascido em 1950) é um diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, uma organização que defende o engajamento entre o Islã político e o Ocidente. Anteriormente, foi figura proeminente, tanto da Inteligência Britânica (MI6) como da diplomacia da União Europeia como conselheiro para assuntos do Oriente Médio de Javier Solana (1997-2003), no cargo de High Representative for Common Foreign and Security Policy da União Europeia. Foi ácido crítico da violência e saques militares contra os territórios palestinos e movimentos islâmicos de 2000-2003. Esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade, em Belém. Foi membro do Comitê Mitchell sobre as causas da Segunda Intifada, em 2000. Manteve encontros clandestinos com a liderança do Hamas em junho de 2002. É defensor ativo do engajamento do Hamas no processo de paz na Palestina, a quem ele se referiu como “Combatentes da Resistência".
Crooke estudou na University of St Andrews (1968–1972) do qual ele obteve um mestrado em Política e Economia. Seu livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolutionfornece informações sobre o que ele chama de “revolução islâmica” no Oriente Médio, ajudando a oferecer insights estratégicos sobre as origens e a lógica de grupos islâmicos que adotaram resistência militar como uma tática, incluindo Hamas e Hezbollah. Seguindo a essência da Revolução islâmica desde as suas origens no Egito, através de Najaf, Líbano, Irã e da Revolução Iraniana até os dias de hoje, desbloqueando algumas das questões mais espinhosas que cercam estabilidade na atual paisagem do Oriente Médio


[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás de narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Pepe Escobar: — E os EUA? Jogando roleta russa?

18/11/2014, [*] Pepe Escobar (pelo Facebook)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Roleta russa
Vivemos tempos sombrios. Estive trocando e-mails sérios com algumas das minhas fontes profundas – o pessoal que realmente SABE, mas não tem de exibir sabedorias. Estão todos profundamente preocupados. Aí vai o que me escreveu um deles, nova-iorquino. É análise semelhante à que já fizeram, publicamente, dentre outros, os professores Stephen Cohen, Noam Chomsky e Paul Craig Roberts. Escreverei em breve sobre isso.

O ataque de propaganda contra Putin, que o “declarou” igual a Hitler, é ataque de tal violência, tão grave, que é preciso considerar que, doravante, os russos já não acreditem em nada, absolutamente nada, que os EUA lhes digam ou prometam.

Não consigo acreditar que nós mesmos nos tenhamos posto em tal situação, só para proteger ladrões ucranianos, dos quais Putin saberia livrar-se e livrar a Ucrânia, pode-se dizer, sem dificuldade; e, na sequência, cometemos a estupidez arrogante de pôr, na presidência, um dos principais ladrões que havia por lá. Mas isso, agora, já é história.

O que é certo é que o que se conhece como “destruição mútua garantida” (em ing. MAD [lit. louco(a)], de Mutually Assured Destruction) já não é fator de contenção da guerra atômica, porque os dois lados usarão armas atômicas no instante em que qualquer deles concluir que o opositor obteve vantagem decisiva e as usará. A “destruição mútua garantida” como fator de equilibração e mútua contenção já acabou. 

Obama e seus neocons
Pode soar extremo e exagerado – mas é a perfeita extensão lógica do que Putin disse em sua já famosa entrevista à rede alemã ARD de televisão, em Vladivostok, semana passada: o Ocidente está provocando a Rússia para uma Nova Guerra Fria. Concordo integralmente com essa análise.

Putin listou fatos reais, “em campo”:

O número de bases militares dos EUA está aumentando. A Rússia tem bases militares espalhadas pelo mundo? Não. A OTAN e os EUA têm bases militares por todo o planeta, inclusive em regiões próximas de nossas fronteiras, e o número dessas bases só cresce. E recentemente decidiram deslocar também forças de Operações Especiais para bem perto de nossas fronteiras. O senhor [entrevistador] falou também de exercícios, voos, movimentos de navios e tal. Tudo isso está acontecendo de fato? Sim, está.

Na mesma entrevista, Putin disse à coalizão dos vassalos-fantoches sem-noção da União Europeia que a Rússia pode facilmente e legalmente derrubar o castelo de cartas chamado Ucrânia: basta que Moscou exija o pagamento do dinheiro que a Ucrânia lhe deve. Disse também, claramente, que Moscou não permitirá que Kiev destrua/ esmague/ detone o Donbass e promova ali “limpeza étnica”.

Assim, portanto, é claro que está acionada a lógica da escalada. A União Europeia é piada: o que interessa aos EUA é a OTAN. E não se vê nem qualquer mínimo indício de que os EUA tenham alguma vontade de des-escalar.



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Seu novo livro, Empire of Chaos, acaba de ser publicado pela Nimble Books.

sábado, 21 de junho de 2014

Washington toca os tambores de guerra

17/6/2014, [*] Paul Craig RobertsInstitute for Political Economy
Traduzido por mberublue


A IIIa. Guerra Mundial será NUCLEAR
Gostaria muito de ter apenas boas novas para apresentar a meus leitores, ou pelo menos uma singela boa notícia. Infelizmente as boas novas não mais são uma característica da política dos Estados Unidos e simplesmente não podem ser encontradas em palavras ou atos originários de Washington ou das capitais de seus estados vassalos na Europa. O mundo ocidental entregou-se totalmente ao mal.

Eric Zuesse
Eric Zuesse, em seu artigo publicado pelo Op-Ed News, apóia meu relato sobre as evidências de que Washington se prepara para um primeiro ataque nuclear contra a Rússia.

A doutrina de guerra dos Estados Unidos mudou. As armas nucleares até há pouco tempo restringiam-se a uma força retaliatória, mas mudaram de patamar e avançaram para um ataque nuclear preventivo.

Washington abandonou o tratado Anti Mísseis Balísticos (ABM, sigla em inglês - NT) com a Rússia e desenvolveu e implantou um escudo ABM. Ao mesmo tempo, a vergonhosa máquina de propaganda política e de mentiras está demonizando a Rússia e seu presidente, como forma de preparar a população dos Estados Unidos e se seus estados vassalos para a guerra contra a Rússia.

Os neoconservadores convenceram o governo dos Estados Unidos de que as armas nucleares estratégicas da Rússia estão defasadas e em más condições e que são atualmente um alvo fixo para o ataque. Esta falsa crença tem base em informações ultrapassadas, velhas de uma década, como o argumento apresentado em The Rise of US Nuclear Primacy(O avanço da supremacia nuclear dos Estados Unidos – NT) escrito por Keir A. Lieber e Daryl G. Press em abril de 2006 como tema de “Foreign Affairs”, uma publicação do Conselho de Relações Exteriores, organização das elites americanas.

Steven Starr
Independentemente das condições das forças nucleares russas, o sucesso de um primeiro ataque nuclear de Washington e o grau de proteção proporcionado pelo escudo ABM de Washington contra a retaliação, o artigo postado por Steven Starr The Lethality of Nuclear Weapons (A letalidade das armas nucleares - NT), deixa bem claro que não há vencedores em uma guerra nuclear. Todos morrem.

Em um artigo publicado em dezembro de 2008, no “Physics Today”, três cientistas atmosféricos (ou cientistas espaciais) assinalaram que apesar da redução dos arsenais nucleares que o Tratado de Redução Estratégica Defensiva (SORT, sigla em inglês – NT) esperava alcançar, de 70.000 ogivas (nucleares) em 1986 para alguma coisa entre 1.700/2.200 ogivas pelo final de 2012, não se reduziu a ameaça que a guerra nuclear representa para a vida na Terra. Os autores concluem que, somando-se aos efeitos diretos das explosões nucleares, que causariam a morte de centenas de milhões de seres humanos, “os efeitos indiretos provavelmente provocariam a eliminação da maioria da população humana”. A obliteração estratosférica causada pelas tempestades que as explosões provocam resultaria em um inverno nuclear e colapso agrícola. Aqueles que não perecessem pelas explosões e pela radiação, morreriam de fome.

Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev compreenderam isso. Infelizmente, nenhum de seus sucessores no governo dos Estados Unidos o fez. No que concerne ao governo em Washington, só morreriam os outros, não “o povo excepcional”. (O acordo SORT aparentemente falhou. De acordo com o Stockholm International Peace Research Institute – SIPRI os nove países com poder nuclear possuem ainda um total de 16.300 armas nucleares).

Potência total de todas as bombas explodidas durante a IIª Guerra Mundial
Potência total das Bombas Nucleares em Alerta Total, hoje.
Potência total da armas nucleares disponíveis por Rússia e EUA, hoje
É um fato que Washington tem políticos influentes que pensam, incorretamente, que a guerra nuclear pode ser ganha e que a consideram como um meio de prevenção contra o crescimento da Rússia e da China, assim como forma de manter controlada a hegemonia de Washington sobre o mundo. O governo americano no poder, partidos à parte, é uma grande ameaça à vida na Terra. Os governos europeus, embora se considerem civilizados na realidade não o são, por permitir a busca de Washington por hegemonia. Essa busca é o motivo da ameaça de extinção da vida no planeta. A ideologia que atribui aos Estados Unidos o direito à supremacia pela sua categoria de “excepcional, indispensável país” é uma imensa ameaça ao mundo.

A destruição, total ou parcial de sete países pelo ocidente no século XXI, com o apoio da “civilização ocidental” e da mídia do ocidente, prova de maneira irrevogável que a liderança do mundo ocidental não tem moral, consciência ou compaixão humana. Agora que os EUA se armaram com a falsa doutrina da “primazia nuclear”, a perspectiva para a humanidade é realmente sombria.

Washington começou a seguir na direção da Terceira Guerra Mundial e os europeus parecem estar a bordo. Recentemente, em novembro de 2012, o Secretário da OTAN, “general” Rasmussen, disse que a OTAN não considerava a Rússia como um inimigo. Agora, que os idiotas na Casa Branca e seus vassalos europeus convenceram a Rússia de que o ocidente é um inimigo, Rasmussen declarou que “temos que nos adaptar ao fato de que a Rússia nos considera agora como seus adversários” para reforçar o exército da Ucrânia e de toda a Europa central e oriental. No último mês, Alexander Vershbow, antigo embaixador dos Estados Unidos para a Rússia e atualmente Secretário Geral adjunto da OTAN declarou que a Rússia é um inimigo e disse que os pagadores de impostos dos Estados Unidos e da Europa precisam se esforçar pela modernização militar “não apenas da Ucrânia, mas também da Moldávia, Geórgia, Armênia, Azerbaijão”. É possível que estes apelos por mais gastos militares sejam apenas o funcionamento normal de agentes do complexo exército/segurança dos Estados Unidos. Tendo perdido a “guerra ao terror” no Iraque e no Afeganistão, Washington precisa substituí-la e começou a ressuscitar a Guerra Fria.

Arsenal Nuclear - Número de ogivas ativas por país
Provavelmente, tudo seja apenas uma isca da indústria de armamentos, e parte de Washington vê isso. Acontece que os neoconservadores são muito mais ambiciosos. Eles já não querem apenas mais lucros para o complexo exército/segurança. Sua meta é a hegemonia dos EUA sobre o mundo, o que significa ações irresponsáveis como a ameaça estratégica que o regime de Obama, com a cumplicidade de seus vassalos europeus impõe à Rússia na Ucrânia.

Desde o último outono, o governo dos Estados Unidos tenta cravar os dentes na Ucrânia, culpando a Rússia pelas consequências das ações de Washington e demonizando Putin, exatamente como foi feito contra Gaddafi, Saddam Hussein, Assad, o Talibã e o Irã. A mídia prostituta (presstitute no original – NT) e as capitais europeias têm feito coro às mentiras e à propaganda política repetindo tudo infinitamente. Por conseqüência, a atitude pública dos Estados Unidos em relação à Rússia mudou fortemente para conotações negativas.

O que pensarão a Rússia e a China a respeito? A Rússia assistiu a OTAN ser colocada em suas fronteiras, a violação dos acordos Reagan-Garbochev. A Rússia assistiu os Estados Unidos abandonarem o tratado ABM e desenvolver um escudo “star wars”. (Se o escudo vai funcionar ou não é irrelevante. Seu objetivo é convencer os políticos e o público de que os norte americanos estão a salvo). A Rússia assistiu os EUA mudarem sua doutrina sobre armas nucleares de “armas de dissuasão” para “primeiro ataque preventivo”. Agora, a Rússia ouve todo santo dia um monte de mentiras do ocidente e assiste o massacre perpetrado pelos vassalos de Washington em Kiev contra civis na Ucrânia russa, chamados de “terroristas” por Washington, através de armas de fósforo branco, sem um pio de protesto do ocidente.

Intensos ataques aéreos e de artilharia contra casas e apartamentos na Ucrânia russa aconteceram no 25º aniversário da Praça Tiananmen, enquanto Washington e seus fantoches condenavam a China por um evento que não aconteceu. Como sabemos atualmente, não houve massacre algum na Praça Tiananmen. Foi apenas mais uma mentira dos EUA, como o incidente do Golfo de Tonquim, as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, o uso por Assad de armas químicas, as armas nucleares iranianas, etc.. É uma coisa espantosa que o mundo ainda acredite nas falsas realidades criadas pelas mentiras de Washington.

Matrix
Matrix, o filme, é uma descrição exata da vida no ocidente. A população acredita numa falsa realidade criada por seus dirigentes. Um punhado de seres humanos escapou da falsa existência e luta para trazer a humanidade de volta à realidade. Eles resgataram Neo, o “número um”, que acreditam corretamente ter poder para libertar os seres humanos da falsa realidade onde vivem. Morpheus, o líder dos rebeldes, explica a Neo:

A Matrix é um sistema, Neo. É o nosso inimigo. Mas quando você está dentro do sistema e olha em volta, o que você vê? Homens de negócios, professores, advogados, carpinteiros. É a consciência verdadeira dessas pessoas que lutamos para libertar. Mas até que tenhamos sucesso, esse povo ainda é uma parte do sistema e eles nos olham como seus inimigos. Você precisa entender que a maioria dessas pessoas ainda não está pronta para ser livre. E muitos deles estão tão acostumados, tão completamente dependentes do sistema, que eles lutarão para protegê-lo.

Experimento isso toda a vez em que escrevo uma coluna. Protestos dos determinados a não serem desplugados chegam através de emails e naqueles sites que expõem os autores à difamação pelos trolls do governo em seções de comentários. Não creia na realidade real, insistem eles, creia na realidade irreal.

A Matrix engloba ainda parte da população russa e chinesa, especialmente aqueles educados no ocidente e aqueles suscetíveis à propaganda política ocidental, mas a grande maioria da população desses países sabe a diferença entre mentira e verdade. O grande problema para Washington é que a propaganda política que prevalece sobre o povo ocidental não prepondera sobre os governantes da Rússia e da China.

Bases dos EUA no Mar do Sul da China
Como você pensa que reage a China quando Washington declara que o Mar do Sul da China é área de interesse nacional dos Estados Unidos, coloca 60 por cento de sua vasta frota no Pacífico e constrói novas bases aéreas e navais nas Filipinas e no Vietnã?

Acho que tudo o que Washington pretende, de verdade, é fazer os pagadores de impostos manterem vivo o complexo forças armadas/segurança, que lava parte do dinheiro desses pagadores de impostos e o faz retornar como contribuição de campanhas políticas. Podem a Rússia e a China correr o risco de ver as palavras e atos dos EUA nessa linha limitada?

Até agora, os russos e somente os russos (e chineses) se mantiveram sensatos. Lavrov, o Ministro de Relações Exteriores da Rússia disse:

Neste estágio, temos que proporcionar a nossos parceiros a oportunidade de se acalmar. Vamos ver o que acontece em seguida. Se as acusações absolutamente infundadas contra a Rússia continuarem, se houver novas tentativas de nos pressionar por meio de poder econômico, então será tempo de reavaliar a situação.

Se os imbecis na Casa Branca, as putas da mídia de Washington e os vassalos europeus convencerem a Rússia de que a guerra é provável, a guerra será provável. Já que não há qualquer perspectiva de que a OTAN seja capaz de montar uma força que ameace a Rússia que seja pelo menos aproximadamente do tamanho e com o poder de destruição da invasão alemã de 1941, que reuniu a maior força de invasão já conhecida, a guerra será nuclear, o que significa nada mais nada menos que o fim de todos nós.

Guerra Nuclear - o dia seguinte
Não se esqueça disso, quando os EUA e suas prostitutas da mídia continuarem a tocar seus tambores de guerra. Tenha em mente ainda que a história prova, ao longo do tempo, sem qualquer sombra de dúvida, que tudo o que Washington e a mídia prostituta (presstitute no original – NT) lhe diz é mentira e segue uma agenda não declarada. Você não arrumará a situação votando em republicanos no lugar de democratas ou vice versa.

Thomas Jefferson nos contou qual é a solução desse enigma: “A árvore da liberdade precisa ser renovada de vez em quando com o sangue dos patriotas. É seu adubo natural”.

Há poucos patriotas nos EUA, mas abundam os tiranos.


[*] Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.