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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Hezbollah e o complô contra Gaddafi

“Só o Hezbollah sai com honra dessa saga sórdida”

Charles Glass
25/10/2011, Charles Glass, London Review of Books, Blogs 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Os líbios de Benghazi celebravam a vitória sobre Gaddafi ontem, no mesmo dia que marcou o 28º aniversário de outro evento de grandes proporções na história do Oriente Médio. 

Num domingo, dia 23/10/1983, às 6h22, um homem-bomba invadiu, com um caminhão carregado de explosivos, o acampamento dos Marine norte-americanos no Aeroporto de Beirute. O caminhão foi explodido naquele acampamento, no que especialistas do FBI que examinaram o local descreveram, depois, como a maior explosão com explosivos convencionais de toda a história. Morreram 252 norte-americanos entre militares e servidores civis. Ataque semelhante, também em Beirute, naquela manhã, matou 58 soldados franceses. Não há qualquer dúvida de que o nascente movimento Hezbollah foi responsável pelos dois ataques.

Os autores daquele ataque a militares dos EUA e da França, que levou os dois exércitos a deixarem o Líbano meses depois, muito provavelmente estão festejando o fim de Muammar Gaddafi talvez mais que os falantes líderes em Paris e Washington. Gaddafi, que em diferentes momentos tanto acolheu quanto rejeitou governantes britânicos, franceses, norte-americanos e árabes, nunca se entendeu com o Hezbollah. 

As raízes dessa animosidade são político-religiosas. Em agosto de 1978, Gaddafi recebeu festivamente o líder dos xiitas libaneses, Imã Musa Sadr, e dois colegas, que chegaram em visita oficial a Trípoli. Sadr era uma força a favor da reconciliação dos libaneses e, para pôr fim às disputas internas no Líbano, fez longa greve de fome. Tinha aliados cristãos e muçulmanos, num momento em que Gaddafi apoiava a aliança de muçulmanos de esquerda libaneses e palestinos. Pouco tempo depois de ter-se encontrado com Gaddafi, o Imã Sadr desapareceu. Nunca mais foi visto. Oficiais líbios garantiram que teria voado de Trípoli para Roma, viagem da qual não há notícia; como tampouco há notícia de que o Imã Sadr tenha desembarcado em Roma. Desde então, a questão de saber o que aconteceu a ele e aos clérigos que o acompanhavam dominou as relações entre as comunidades xiitas do Líbano e da Líbia. O Hezbollah foi dos poucos movimentos da resistência contra a ocupação israelense no sul do Líbano que sempre recusou qualquer ajuda que viesse de Gaddafi.

Há incontáveis versões sobre o que teria acontecido ao Imã Sadr. Nenhuma delas jamais foi confirmada. Ano passado, seu filho Sadreddine disse à Agência National News em Beirute que seu pai e os dois colegas que o acompanhavam estariam vivos, presos numa prisão líbia. Pouco depois, Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah anunciou, em comunicado oficial, que “o Imã Sadr e os dois clérigos que o acompanhavam estão presos na Líbia e devem ser libertados”. Sadreddine Sadr jamais revelou suas fontes, mas, no início de 2011, nas primeiras escaramuças da guerra na Líbia, uma figura da oposição líbia disse que Sadr continuava preso na Líbia. Até agora, não se encontrou nenhum sinal do imã, que teria (ou tem) hoje 83 anos, nas prisões já abertas pelo Conselho Nacional de Transição.

A oposição do Hezbollah ao governo de Gaddafi criou dificuldades para o movimento libanês com seus apoiadores em Damasco, cujo regime baathista mantinha boas relações com o governo da Líbia de Gaddafi. E também pôs o Hezbollah, nos últimos meses, no campo dos apoiadores da ação da OTAN na Líbia. Com a aprovação decisiva do Hezbollah (que é parte, hoje, do governo libanês), o Líbano votou a favor da Resolução da ONU que aprovou a implantação de uma zona de exclusão aérea na Líbia, dia 15 de março. Sem a intervenção da OTAN, o levante de Benghazi contra Gaddafi dificilmente teria conseguido ser bem-sucedido. Se é verdade que Gaddafi foi deposto porque lutava contra a oposição de Benghazi, é verdade também que o desaparecimento de um clérigo libanês xiita também contribuiu para o desenlace.

O Hezbollah manteve inalterada a oposição a Gaddafi mesmo quando EUA, França e Inglaterra o reintroduziram festivamente na comunidade internacional, compraram o petróleo que ele tinha para vender e venderam-lhe armas. Nenhuma tortura, nenhuma violência, nenhuma ditadura líbia pareceu pouco recomendável aos olhos ocidentais, enquanto o petróleo líbio estivesse assegurado; o excelente petróleo líbio, com baixo conteúdo de enxofre e tão próximo da Europa, é o mais cobiçado dentre todos os países da OPEP. 

Gaddafi tinha 28 anos, era capitão do exército (depois, foi promovido a coronel) e comandou 8.000 soldados líbios que tomaram o poder na Líbia, em setembro de 1969, em golpe sem derramamento de sangue. 

Em novembro do mesmo ano, dia 20/11/1969, Henry Kissinger, então presidente-assistente da Comissão de Negócios do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, recebeu o seguinte memorando interno, top secret, assinado por Robert Behr e Harold Saunders, assessores do mesmo conselho:

“Nossa [dos EUA] atual estratégia é buscar estabelecer relações satisfatórias com o novo governo líbio. A recomposição de nossa balança de pagamentos e a segurança dos investimentos norte-americanos em petróleo são considerados nossos interesses prioritários. Queremos conservar nossas instalações militares, mas sem que isso ameace nosso retorno econômico.”[1]

Os EUA alertaram Gaddafi sobre tentativa de golpe de estado, pouco depois, que o novo governante sufocou. Mas a gratidão aos EUA durou pouco. Gaddafi imediatamente depois forçou os EUA e o Reino Unido a abandonarem as bases militares que mantinham no país e aumentou a taxa da Líbia nos negócios do petróleo – e, com esses lucros, construiu tanto a infraestrutura e o desenvolvimento da Líbia, quanto a estrutura de corrupção do estado que, agora, o Conselho Nacional de Transição está herdando. 

Quando Tony Blair tirou Gaddafi das sombras, depois do atentado em Lockerbie, os EUA passaram a entregar prisioneiros à Líbia para sessões especiais de interrogatório e tortura.

Só o Hezbollah sai com honra dessa saga sórdida.



Nota dos tradutores
[1] “Memorandum From Robert Behr and Harold Saunders of the National Security Council Staff to the President's Assistant for National Security Affairs (Kissinger), Washington, 20/11/1969. In National Archives, Nixon Presidential Materials, NSC Files, NSC Institutional Files (H-Files), Caixa H-71, WSAG Meeting, Libya and Lebanon, 11/24/69. Top Secret. Sent for information.” Atachados, mas não impressos, os anexos do documento enviado ao Conselho de Segurança Nacional, [em inglês].

domingo, 23 de outubro de 2011

OTAN e mídia de mercado estão vibrando

Kadafi vive

Publicado em 21/10/2011 por *Mario Augusto Jakobskind

Muammar Kadafi morreu em combate. Foi coerente, porque desde o início da guerra civil incentivada pelo Ocidente dizia que resistiria até a morte. A mídia de mercado, juntamente com dirigentes de países integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ficaram exultantes. Criticam Kadafi por ter resistido.   

A mídia tupiniquim para variar fez das suas. Para ficar em alguns veículos, os âncoras da CBN, uma das primeiras emissoras a informar a morte/assassinato, vibraram com o acontecimento e não escondiam nos comentários. O Globo também não escondeu sua euforia nos editoriais e no próprio noticiário. Os demais veículos impressos e eletrônicos repetiram a dose.   

Até a presidenta Dilma Rousseff, mesmo afirmando que não se deve comemorar a morte de Muammar Kadafi, escorregou ao afirmar que a Líbia está em fase de transição para a democracia. Não está, até porque vem logo a pergunta: que democracia é esta que surge através de pesados bombardeios diários durante cerca de sete meses? Isso nada mais é do que democracia armada da OTAN.

Os opositores do antigo regime líbio queriam preparar um show midiático exibindo um troféu ao estilo Saddam Hussein, mas não conseguiram. O que está fazendo agora o Conselho Nacional de Transição é tentar de todas as formas convencer a opinião pública mundial que Kadafi estava escondido numa tubulação de esgoto e pedia para não o matarem.

Aí surge a primeira contradição entre os que derrotaram Kadafi. Dirigentes europeus, como o Ministro do Exterior francês Allan Juppée, revelaram logo de saída que a OTAN tinha atingido um comboio onde estava Kadafi fugindo de Sirte, a sua cidade natal. Confirmaram então o bombardeio, que o Conselho Nacional de Transição tentou esconder.

Falta ainda esclarecer o que fizeram os “democratas” da nova Líbia com o corpo do dirigente deposto.  As imagens apresentadas nada esclarecem e foram feitas mais com o objetivo de evitar que a verdade aparecesse, ou seja, de que o fim de Kadafi foi lutando, diferente do acontecido no Iraque com Saddam Hussein. A ONU pediu uma investigação sobre as circunstâncias em que ocorreu o confronto que o levou a morte.

A TV Al Jazzeera e a CNN entraram no jogo dando crédito às versões que tentavam a todo custo ridicularizar Kadafi e evitar a versão verdadeira. Os opositores de Kadafi, que seriam pé de chinelo se não fosse a OTAN, pegaram o corpo do dirigente deposto e o levaram para um frigorífico em Misrata,onde ele estava sendo objeto de curiosidade de líbios que o fotografavam.

Vamos aguardar para ver como Kadafi será enterrado, pois seu túmulo sendo localizado poderá se tornar um local de peregrinação de cidadãos líbios inconformados com o processo de recolonização que está sofrendo o país norte africano, mas que a mídia de mercado tenta a todo custo esconder.

Valem algumas perguntas que o tempo responderá com maior precisão. Empresas de que países ocidentais vão lucrar com a reconstrução da Líbia, cuja infraestrutura foi severamente afetada com os bombardeios da OTAN? Até o Brasil já se ofereceu para esta empreitada, mas antes os países que destruíram terão prioridade. 

O petróleo deverá ficar sob controle não mais do Estado líbio, mas totalmente em poder das transnacionais do setor, que conseguirão muito mais concessões do que já tinham conseguido na Era Kadafi?

O Pentágono não vai querer abrir mão do Africom (Comando Militar dos EUA para a África), incrivelmente com sede em Stuttgart, na Alemanha, para se instalar na Líbia, área estratégica para o controle do continente africano? Por sinal, o economista egípcio Samir Amin considerou esse detalhe como o motivador do surgimento dos rebeldes em Benghazi e o apoio dos EUA a esses grupos.  

Dirigentes da OTAN anunciaram o fim das operações militares no próximo dia 30 de outubro, mas isso não significará que a Líbia estará livre da influência dos países que a bombardearam. Claro que não.  

Maiores detalhes sobre esses e outros fatos relacionados com os acontecimentos mencionados podem ser encontrados no livro Líbia, Barrados na Fronteira – o que não saiu na mídia sobre a invasão na Líbia, que será lançado no próximo dia 11 de novembro, na sede da ABI, rua Araújo Porto Alegre 71, as 18,30, com um debate.

Quando, com o passar do tempo, se analisar os acontecimentos na Líbia, um dos destaques caberá à cobertura midiática. Para analistas independentes que acompanharam a guerra civil, a mídia deixou até de ser mídia para se tornar protagonista da guerra, a própria guerra, manipulando imagens e fazendo o jogo de um dos lados, exatamente o dos opositores de Kadafi. Assim foi, por exemplo, a cobertura da Al Jazzeera, o canal estatal do Catar, que colocou imagens de grupos rebeldes de forma a parecer que eles tivessem grande apoio popular, o que nunca aconteceu ao longo de todos os meses.

Com a morte/assassinato de Kadafi estão surgindo analistas de áreas acadêmicas dos mais diversos quadrantes prevendo o futuro da Líbia. Na mídia de mercado de um modo geral falam que agora a Líbia conhecerá a democracia e coisas do gênero. Vamos ver.

Mas, em suma, guardem o que está sendo dito pelos analistas de sempre e aguardem as próximas semanas e meses para constatar quem erra ou acerta mais. Eis um exercício recomendável para as escolas universitárias de comunicação, claro, se houver interesse de que na formação dos futuros jornalistas o espírito crítico fique aguçado, como requer o jornalismo propriamente dito. 

*Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE

Enviado por Direto da Redação
Imagem inserida por redecastorphoto

sábado, 22 de outubro de 2011

Alvo de “targeted assassination” e pré-condenado à morte pelos EUA-OTAN?

Falam os advogados de Seif-al-Islam Gaddafi

Franklin Lamb
22/10/2011, Franklin Lamb, Al-Manar Líbano  
e em Counterpunch 

Tarde da noite, anteontem, dia 20/10/2011, o escritório da secretária de Estado e a Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA e a Embaixada da Líbia em Washington, DC, receberam comunicado, por fax, de uma firma internacional de advogados, cujos profissionais preparam-se para embarcar para a Líbia. 

Esses advogados, cujos serviços foram contratados por amigos da família Gaddafi, têm a tarefa de defender Seif-al-Islam no processo iniciado dia 26/6/2011 na Corte Criminal Internacional e, também, agora, em todas as ações penais que o governo do Conselho Nacional de Transição inicie contra ele, na Líbia.

Seif-al-Islam
Foram alertados por apoiadores de Gaddafi na Líbia e em países vizinhos, para várias evidências de que o Conselho Nacional de Transição, controlado pela OTAN, já tem planos para assassinar Seif-al-Islam, antes que ele possa fazer qualquer contato com a imprensa internacional e seus apoiadores, consequência de, dia 29/8/2011, seu pai tê-lo nomeado seu representante oficial. Seif, antes, já anunciara seus planos para candidatar-se em eleições futuras, que seriam organizadas. Pesquisas informais de opinião mostraram que teria mais de 70% dos votos, se se candidatasse, ainda que as eleições se realizassem já com o país controlado pela OTAN.

Participo do grupo que fez contato com aquela empresa de advogados que já trabalham, agora, para salvar a vida de Seif-al-Islam. A seguir, um trecho do documento entregue anteontem em Washington:

“Exigimos que nosso cliente, Seif al Islam al Gaddafi, passe imediatamente a receber proteção, mesmo que venha a ser preso e que, se estiver ferido, receba tratamento adequado, a ser supervisionado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha, até que tenhamos contato pessoal com ele e haja tempo para que tomemos as providências indispensáveis para assegurar-lhe tratamento médico, proteção e perfeitas condições de segurança.

Insistimos que nosso cliente não poderá ser interrogado ou questionado de nenhum modo por ninguém, incluídas as autoridades do atual governo líbio, ou por investigadores da Corte Criminal Internacional, enquanto não tiver mantido contato legal e oficial com seus advogados e, no caso de estar ferido, antes que se recupere dos ferimentos.

Seif-al-Islam tem pleno direito de ser protegido, em cumprimento a normas internacionais. 

Exigimos que o Conselho de Segurança da ONU e organizações de Direitos Humanos em todo o mundo tomem todas as medidas legais indispensáveis para proteger e preservar a vida e a integridade física de nosso cliente.
Latuff
Respeitosamente solicitamos que a Corte Criminal Internacional assuma total responsabilidade sobre os restos mortais de Muammar e Mutassim Gadhafi, e que providencie para que sejam feitos todos os exames necroscópicos necessários, cujos laudos técnicos servirão como base legal para as medidas judiciais de acusação contra os responsáveis por essas duas execuções, as quais, como sugerem todos os indícios, foram execuções extra-judiciais. 

Informações obtidas por familiares e amigos de nosso cliente não deixam dúvidas de que a OTAN já ordenou seu assassinato. Há fortes motivos para crer que a OTAN planejou e já trabalha para executar planos para assassinar nosso cliente; esse assassinato visa a impedir que a OTAN seja exposta às medidas legais cabíveis, em processos nos quais seja acusada de práticas que, hoje, já são de conhecimento internacional, em muitos casos com testemunhos oculares de fontes confiáveis, além de elementos probatórios físicos e conclusivos, de feitos constatados ao longo dos últimos seis meses, durante os quais a OTAN atuou como exército agressor contra a Líbia e sua população civil.

Estamos concluindo os trâmites para apresentar à Corte Criminal Internacional nosso pedido formal de proteção para nossos clientes. Saif-al-Islam deve ser transferido para santuário de proteção, fora do território líbio, para evitar que seja assassinado como seu pai.

Já trabalhamos também para acusar formalmente os governos da Líbia e dos EUA, além da OTAN, pelo assassinato brutal do pai e do irmão de nosso cliente e por qualquer tipo de agressão que tenha sido ou venha a ser feita diretamente a Seif al Islam.

Assim também, trabalhamos para demonstrar ao Tribunal Criminal Internacional que, depois de aprovada a Resolução de 17/3/2011, no Conselho de Segurança da ONU, a OTAN várias vezes atacou alvos civis, com mais de 9.000 ataques aéreos, já como parte de sua campanha para assassinar o coronel Gaddafi e seus auxiliares e conselheiros mais próximos.

Demonstraremos também ao Tribunal Criminal Internacional que a OTAN várias vezes delegou a terceiros a missão de assassinar Moammar Gadhafi e que seus assassinos, no crime afinal perpetrado dia 20/10/2011, sabiam que havia uma grande recompensa em dinheiro para quem o assassinasse. Na verdade, os oito meses de continuada destruição da Líbia, comandada por oficiais da OTAN e vários líderes ocidentais, sempre visou, sobretudo, a silenciar o governante líbio, afinal assassinado.”

Gaddafi foi um dos grandes, talvez o maior, financiadores da campanha eleitoral do presidente Nicholas Sarkozy da França e guardava informações sobre seus contatos com outros líderes ocidentais, informações que, se divulgadas, seriam desastrosas para mais de uma importante carreira política. 

Os próximos dias serão um importante teste para a comunidade internacional, até saber-se se a lei internacional “vale para a OTAN e seus estados membros, e para a Líbia. Do resultado do que aconteça nos próximos dias, depende a evolução da situação na Líbia – que poderá afundar ainda mais em longa guerra civil, complicada excepcionalmente, segundo notícias recentes, por milícias armadas de mais de seis países africanos que se organizam para reunir-se em território líbio, para tentar proteger a população civil, na Líbia que foi criminosamente destruída pela OTAN.

Pepe Escobar: “A OTAN sempre quis Gaddafi morto, desde o início”

21/10/2011,Common Dreams (com entrevista ao vivo)
Transcrição traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


Gaddafi foi tratado como herói pelo ocidente, até, de repente, começar a ser apresentado como vilão. Vários têm tentado explicar por que as potências ocidentais mudaram tão drasticamente de opinião. Aqui, conversamos com Pepe Escobar, correspondente de Asia Times, que nos ajuda a entender o que aconteceu e o que o futuro reserva aos líbios.

Apresentadora. Todos sabemos que as coisas mudam, mas agora interessa entender por que mudam. E há a questão da “guerra humanitária”, vendida ao mundo por líderes ocidentais. Para conversar conosco, temos hoje Pepe Escobar, que nos fala diretamente de São Paulo, Brasil.

Pepe, o que você tem a nos dizer sobre o relacionamento entre Gaddafi e o ocidente, nas últimas décadas? O petróleo da Líbia não secou. Então, na sua opinião, o que mudou, para que Gaddafi passasse, de herói, a vilão?

Pepe Escobar. Os negócios do petróleo mudaram, na última década e, também, muito importante [para a imagem de Gaddafi “herói”], a colaboração que Gaddafi deu à Guerra ao Terror. Do ponto de vista dos EUA, Gaddafi foi o aliado perfeito. Mas de repente, ano passado, em outubro de 2010, Gaddafi assinou um protocolo com a França. Entrou em contato com a inteligência francesa, e eles organizaram um golpe, que começaria em Benghazi e seria depois transferido para a Tripolitânia. Aí é que a guerra começou, ano passado, em outubro de 2010. 

Apresentadora. Você disse que, por muitos anos, Gaddafi foi o aliado perfeito dos EUA. Mas houve denúncias de violações de direitos humanos, na Líbia e em 2002, milhares de pessoas foram massacradas, na Líbia, por gente de Gaddafi. Mas, nem por isso, alguém cortou relações com Gaddafi. Não entendo. Por que você diz que ele foi o aliado perfeito, por tanto tempo?

Pepe Escobar. É que... A hipocrisia, de fato, reverbera, digamos, pelas galáxias. O fato é que, enquanto os negócios do petróleo estiveram lá, mesmo que estivessem com os italianos, não com os britânicos, mesmo que estivessem com os chineses, não com os americanos, a coisa se manteve, porque Gaddafi continuava fazendo negócios com empresas ocidentais e estrangeiras. E enquanto Gaddafi colaborou com a Guerra ao Terror, incluindo o atual comandante militar, hoje, em Trípoli, Abdel Ackim Belhaj, que foi capturado pelos americanos, foi mandado para Guantánamo e, depois, foi mandado para a Líbia! Esteve preso na Líbia por quatro anos! E, depois, foi solto por Saif-al-Islam, em pessoa. Saif dizia, não, temos que ter algum tipo de reconciliação nesse país. Quero dizer, até outubro do ano passado, nada havia de errado com Gaddafi. Basta lembrar: Tony Blair andando pelo deserto com Gaddafi, Berlusconi beijou a mão de Gaddafi. Há muitas imagens que contam toda essa história. O problema é: para os britânicos e para os franceses (não esqueça: esse é o pessoal que redigiu a Resolução n. 1.973 da ONU)... britânicos e franceses queriam maior penetração, mais negócios. Sobretudo, queriam que a OTAN tivesse uma cabeça de praia no norte da África. Esse é o grande quadro, a grande questão estratégica. Os americanos também queriam tudo isso, porque queriam uma base para o Africom, Comando dos EUA na África, na África. A Líbia seria perfeita para isso. E a OTAN queria o Mediterrâneo como “lago da OTAN”. Com Gaddafi lá, independente, tudo isso se tornava impossível. Essa é a história que não veremos contada nos próximos dias, porque as pessoas estão comemorando que esse sujeito já se foi [mostra uma garrafinha com imagem de Gaddafi], esse também já se foi [mostra garrafinha com imagem de Saddam Hussein], e esse grandão aqui [mostra um garrafão com a imagem de Osama bin Laden – “Comprei essas garrafinhas na Rússia”] também já se foi.  Quero dizer, os grandes bichos-papões já se foram... Sobrou quem, para ser o bicho-papão? Quem poderia ser o próximo bicho-papão? O Irã. Vimos, ano passado, aquele armação de mexicanos na “Operação Velozes e Furiosos”. É um sem fim de cenas da mesma “Longa Guerra”, do ponto de vista do Pentágono, denominação deles, não minha. E, do ponto de vista da OTAN, “queremos controlar o Mediterrâneo”. É isso. A próxima parada é a Síria.

Apresentadora. Vamos falar especificamente, da Líbia, a partir de março. Desde que se começou a falar da Líbia, o presidente Obama começou a falar, dentre outros líderes ocidentais, que os líbios precisam de nossa ajuda, temos de ajudá-los, “ajuda humanitária”, sem coturnos em solo, todas essas coisas de que o primeiro-ministro Putin tem falado. Quem deu a autorização para mudar a missão na Líbia? Diziam, no início, que Gaddafi não nos interessa, só nos interessa proteger os líbios, e, de repente, “Gaddafi tem de sair”. Agora, Gaddafi está morto. Notícias recentes dizem que foi morto num ataque de drones [aviões-robôs pilotados à distância] dos EUA. Foi planejado? Estava planejado assim desde o começo, ou alguma coisa mudou durante o processo?

Pepe Escobar. Sempre esteve planejado. Era esse o plano da OTAN, desde o início. Se se acompanha a história, se se acompanha o que a OTAN diz há seis, sete meses, vê-se que a única coisa que a OTAN desejava era derrubar Gaddafi. 

Apresentadora. Mas jamais disseram isso. Por que não?

Pepe Escobar. [risos] Ora... Em realpolitik as coisas não funcionam assim, às claras. Sempre há outra narrativa, uma narrativa visível, outra encoberta. Nesse caso, a narrativa visível foi a “responsabilidade de proteger civis”, R2P, e uma zona aérea de exclusão sobre a Líbia. É exatamente o que está escrito na Resolução da ONU. Por que os países BRIC abstiveram-se na votação que aprovou essa Resolução? Brasil, Índia, Rússia e China, os quatro principais BRIC, abstiveram-se de votar. Por quê? Porque aqueles diplomatas, estudando o texto daquela Resolução n. 1.973 da ONU, logo concluíram que se tratava de autorização sem limite, sem definição, para fazerem o que quisessem, sem prazo para acabar. E que poderia virar “mudança de regime” no instante em que resolvessem. E assim aconteceu, como muitos sabiam que aconteceria. Todo mundo sabia! A Alemanha sabia que seria “mudança de regime”. A OTAN sempre disse, desde o início “queremos capturar Gaddafi”. Hillary Clinton disse, há dois dias, a estudantes da Universidade de Trípoli “queremos Gaddafi capturado ou morto”. O plano sempre foi esse. E, além do plano, na conquista de Trípoli, os rebeldes tiveram sorte. Fizeram um movimento de pinça, combatentes treinados no Qatar e nos Emirados Árabes Unidos, e combatentes treinados nas montanhas berberes, no sudoeste, fizeram um movimento de pinça e ocuparam Trípoli. E a Brigada Khamis sumiu! Seria a brigada chave, como aconteceu no Iraque em 2003, mas sumiram, não resistiram, ainda não se sabe por quê. E os rebeldes ocuparam Trípoli. 

Apresentadora. Lembro de eles dizerem que seriam semanas, não meses. O que é outro problema. Para encerrar, em poucas palavras, por favor: e o futuro? O que acontecerá na Líbia, daqui em diante?

Pepe Escobar. Guerra civil. Não há dúvida. Não há outra possibilidade. Há um mês, escrevi que haveria duas guerras civis, os leais a Gaddafi contra o governo central e os islamistas contra o governo central. Agora já se vê que será uma única guerra civil: todos os que ficaram de fora do atual arranjo, e é muita gente na Tripolitânia, gente que desconfiará do Conselho Nacional de Transição até ver que espécie de regime implantarão lá – e que absolutamente não (ênfase) será uma democracia, porque já estão divididos entre eles mesmos... E Trípoli já está sendo tomada por milícias. E se os islamistas forem deixados de fora, eles vão começar uma guerra de guerrilhas, como fizeram contra o governo de Hamid Karzai (sic. O certo parece ser “como fizeram contra o governo de Gaddafi” [NTs]). É a fórmula para longa guerra civil, por anos adiante.

Apresentadora. Como já se vê o que está acontecendo no Egito, você não vê motivos para ser otimista também na Líbia.

Pepe Escobar. Não, nenhum. Fico muito triste, pelo povo líbio.

A agenda da OTAN para a Líbia: Sempre Gaddafi, do começo ao fim

Vijay Prashad


21/10/2011, Vijay Prashad, Counterpunch, ed. fim de semana, 21-23/10/2011
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na Vila Vudu:
Artigo interessante, sim, pra ser lido com calma, sem demasiada adesão identitária às “posições” já enunciadas de cada um. 
O argumento tende um pouco para o lado liberal fanado de querer “democracia” -- tendência que sempre irrita, se se sabe que a democracia liberal não é e jamais será democrática. 
Mas o autor é sensível às entrelinhas, aos interstícios aos entretempos. E isso é estimulante. "Gostei, traduzi" (de mesagem do tradutor). Aí vai.

Numa estrada poeirenta nos arredores de Sirte, um comboio tenta deixar o campo de batalha. Um avião da OTAN atira e atinge os carros. Os feridos tentam salvar-se. Caminhões carregados de combatentes armados rumam para a cena. Encontram os feridos e, entre eles, está o trunfo mais procurado: Muammar Gaddafi ensanguentado tenta escapar e é capturado. E então, foi jogado entre os combatentes. É fácil imaginar a excitação. Imagens de um telefone celular acompanham os momentos seguintes. Gaddafi bastante ferido é jogado de um lado para outro e metido num carro e, então, as imagens saem de foco. As imagens seguintes já mostram o cadáver de Gaddafi. Tem um buraco de bala no lado da cabeça.

Essas imagens quase imediatamente chegaram ao Youtube. Estavam nas televisões e nos jornais. Seria impossível não as ter visto.

3ª Convenção de Genebra (art. 13): “Prisioneiros de guerra têm de ser protegidos em todas as circunstâncias, particularmente contra atos de violência ou intimidação e contra insultos e curiosidade públicos”. 

4ª Convenção de Genebra (art. 27): “Prisioneiros sob guarda têm direito, em todas as circunstâncias, a respeito à pessoa, à honra, aos direitos de suas famílias, a respeito a suas convicções religiosas, seus hábitos e costumes. Em todos os casos devem ser tratados com humanidade e devem ser protegidos especialmente contra todos os atos de violência ou ameaças ou insultos ou a curiosidade pública”. 

Um dos elementos ideológicos importantes durante os primeiros dias da guerra na Líbia foi obter o mandado de prisão contra Gaddafi e seu grupo, expedido pelo seletivamente zeloso procurador chefe da Corte Internacional de Justiça, Luis Moreno Ocampo. Houve várias matérias de imprensa denunciando violência excessiva nos termos usados por Moreno Ocampo e Ban Ki-Moon, que falaram em genocídio. Ninguém exigiu qualquer exame pericial de qualquer “prova”. [De fato, houve avaliação pericial, mas feita pelas organizações Anistia Internacional e Human Rights Watch, que desqualificou completamente as acusações de Ocampo [Coordenador de Área/Junta de Comando do Estado-Maior (ing. Area Coordinator/Joint Chiefs of Staff)] (AC/JSC).]

Cerimonialmente, a OTAN declarou que ajudaria o Tribunal Criminal Internacional a executar o mandato de prisão (os EUA, alma mater da OTAN, não é membro do Tribunal Criminal Internacional). Essa declaração logo encontrou eco no Conselho Nacional de Transição, instrumento político da OTAN em Benghazi.

A “intervenção humanitária” foi justificada, em nome de alegadas ou potenciais violações das Convenções de Genebra. O grand finale da intervenção viola diretamente aquelas mesmas Convenções.

Seria muito inconveniente pôr Gaddafi no banco dos réus em julgamento público. Gaddafi há muito tempo abandonara sua herança revolucionária (1969-1988) e pelo menos desde 2003 cedera à Guerra ao Terror comandada pelos EUA (mas, de fato, essa já era sua posição desde o final dos anos 1990s). As prisões de Gaddafi foram importante centro de tortura no arquipélago de buracos negros usados pela CIA, pela inteligência europeia e pelo estado de segurança egípcio. Que histórias Gaddafi contaria, se lhe fosse dada a palavra em tribunal legal? Que histórias Saddam Hussein teria a contar, se lhe fosse dada a palavra em tribunal legal? Saddam Hussein, pelo menos, teve direito a julgamento, embora em tribunal mais de exceção, que de justiça.

Nem esse simulacro de justiça, para Gaddafi. Como disse Naeem Mohaiemen, “Mortos não falam. Não precisam ser julgados. Não dizem quem foram seus cúmplices nem que os ajudou a manter-se no poder. Todos os segredos morrem com eles”.

Gaddafi está morto. É hora de lembrar que lidamos com pelo menos dois Gaddafis. O primeiro Gaddafi derrubou monarquia omissa e corrupta em 1969, e pôs-se a trabalhar para transformar a Líbia, seguindo uma via de empenhado desenvolvimento nacional. Houve algumas idiossincrasias, como as ideias de Gaddafi sobre democracia, que nunca produziram instituições de alguma utilidade. Gaddafi tinha a excepcional habilidade de centralizar o poder, em nome da descentralização. Seja como for, o Gaddafi da libertação nacional com certeza converteu grandes parcelas da renda nacional em benefícios que geraram vida melhor para o povo líbio. Graças às duas décadas dessas políticas, o povo líbio entrou no século 21 com altos índices em indicadores de desenvolvimento humano. O petróleo ajudou, mas outras nações são ricas em petróleo (como a Nigéria), e o povo padece grave miséria, sem acesso a bens ou desenvolvimentos sociais.

Em 1988, o primeiro Gaddafi metamorfoseou-se no segundo Gaddafi, que pôs de lado a luta antiimperialista e passou a colaborar com o imperialismo, e que descartou o desenvolvimento nacional e abraçou a via da privatização neoliberal (conto essa história em Arab Spring, Libyan Winter, no prelo, a ser publicado pela editora AK Press, na primavera de 2012). Esse segundo Gaddafi descartou o trabalho para construir bem-estar para a população; assim, descartou o aspecto de seu governo que o povo admirava. Dos anos 1990s em diante, o regime de Gaddafi só ofereceu às massas a ilusão de riqueza social e a ilusão de democracia. As massas queriam mais, e essa foi a causa do longo processo de agitação civil que se iniciou nos primeiros anos da década dos 1990s (simultaneamente, com a Guerra Civil na Argélia), teve um pico nos anos 1995-96 e depois, outra vez, em 2006. Foi tempo suficiente para que os vários elementos rebeldes se encontrassem.

A nova liderança de Trípoli foi incubada dentro do regime de Gaddafi. Seu filho, Saif al-Islam era visto como o principal neoliberal reformista, e cercou-se de gente cujo projeto nacional era ver a Líbia convertida numa Dubai, maior. Puseram-se a trabalhar em volta de 2006, mas logo se decepcionaram com a taxa de progresso; e muitos (entre os quais Mahmud Jibril, atual primeiro-ministro do Conselho Nacional de Transição) várias vezes ameaçaram renunciar. Quando uma insurgência eclodiu, em Benghazi, essa claque correu a unir-se aos “rebeldes” e, em março, assumiram a liderança da insurgência, que permanece até hoje nas mesmas mãos.

O que, afinal, há quem celebre nas ruas de Benghazi, Trípoli e outras cidades? Ninguém duvide: há júbilo por o Gaddafi de 1988-2011 já não estar no poder. Interessa à OTAN e à claque de Jibril garantir que esse auto-da-fé da libertação nacional antiimperialista de 1969-1988 esteja liquidado, e que a era neoliberal que a Líbia conheceu seja esquecida... para que possa renascer, nova, como se, antes, jamais tivesse sido tentada. 

O truque será o seguinte: navegar entre as vastas porções da população que quer participar da vida política na nova sociedade (movimento que Gaddafi bloqueou e que Jibril tentará canalizar a seu favor) e uma pequena porção da população, à qual interessa prosseguir pela agenda neoliberal (que Gaddafi tentou facilitar, mas não conseguiu, por causa das objeções de seus “homens das tendas”). A nova Líbia nascerá dos interstícios dessas duas interpretações.

O modo como Gaddafi morreu é uma sinédoque (a parte, pelo todo) de toda a guerra. As bombas da OTAN detiveram o comboio e, sem elas, é provável que Gaddafi chegasse ao seu próximo abrigo. A revolta na Líbia talvez tivesse sucesso sem a OTAN. Mas, com a OTAN, algumas opções políticas tiveram de ser abandonadas. Agora, os estados-membros da OTAN estão alinhados para reclamar a parte que lhes cabe do butim. Mas são polidos demais, à maneira dos liberais europeus, para reivindicar publicamente essa recompensa, em termos de toma-lá-dá-cá. Por isso dizem o que dizem: que é guerra líbia e os líbios decidirão o que fazer. Esse é o espaço no qual as novas estruturas de poder na Líbia que ainda valorizem a soberania devem afirmar-se. Em pouco tempo, a brecha que hoje há para que se manifestem estará fechada, depois de os acordos comerciais estarem assinados e já confiscados os recursos naturais e a autonomia da Líbia, todos já então cooptados na agenda dos estados da OTAN.

Será possível? Hillary Clinton pregou publicamente um assassinato?!

21/10/2011, Quoriana, Blog Leonor en Líbia (de Trípoli)  
Artigo publicado em Russia Today, editado por Mathaba (A Resistência Líbia),


Hillary Clinton ao natural...
Assista a seguir as imagens da recepção pública a Gaddafi no Mali, em 22/9/2010


A principal coordenadora da guerra contra a Líbia, Hillary Clinton, andou pela África pregando abertamente o assassinato de Muammar Gaddafi, movimento sem dúvida muito impopular na África e em todo o mundo, como mostram os muitos comentários de leitores. 

Em reunião com o Conselho Nacional de Transição, dos “rebeldes” da OTAN, na 3ª-feira, a secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton disse que Washington queria ver o comandante líbio Muammar Gaddafi “capturado ou morto”[1].

Em comentário à declaração de Clinton que clamou por mais sangue, o professor Paul Sheldon Foote, da California State University, explicou que o governo de Obama realmente crê que esse assassinato seria justificável[2]:

“Os loucos por guerra que há no governo Obama dirão que Gaddafi foi ditador e, portanto, seria lícito assassiná-lo. Não esqueçam quem é Hillary Clinton. Em 2008, candidata à presidência, ela ameaçou matar todos os iranianos, homens, mulheres e crianças, e fazer do Irã uma cesta de lixo”.

Para Foote, por trás da visita surpresa de Clinton à Líbia estava o desejo dos EUA de incluir-se entre os “vitoriosos”, para receber também os louros do chamado “sucesso” da OTAN na Líbia.

“Além de terem dito que assassinaram Bin Laden, querem dizer, agora que se inicia a campanha de reeleição de Obama, que conseguiram uma grande ‘vitória’ na Líbia” – disse o professor, falando da California.

E continuou: 

“Ainda há muitos combates na Líbia e praticamente tudo que todos ouvimos em todas as televisões e jornais é falso. Estamos ouvindo uma narrativa de propaganda, sobre o que realmente se passa na Líbia”.

Keith Harmon Snow, jornalista investigativo independente e correspondente de guerra, diz que o assassinato de Gaddafi foi um “target assassination” [assassinato predefinido, premeditado] e que é ilegal. Disse também que não se pode ter qualquer dúvida de que havia uma agenda oculta por trás da visita aparentemente espontânea, de Hillary Clinton, à Líbia.

“Por que Clinton foi à Líbia? Evidentemente, para dar a impressão, ao público dos EUA, que a Líbia estaria sob controle absoluto dos EUA. Para encobrir as atrocidades e exibir um rosto branco, limpo, sorridente, para esconder a morte e a destruição”.

Seja como for, a julgar pelos comentários, são poucos os que veem Hillary Clinton como rosto limpo. O comentário típico, mais frequente, em inúmeras páginas panafricanas na Internet, é hostil à figura de Clinton e ao que foi fazer na Líbia. Por exemplo, o que aí se vê (inglês corrigido):

“É, Hillary Clinton teve a ousadia de clamar pelo assassinato de um herói da África. Agora, ela que espere para ver quem morre antes, ela ou Gaddafi. Ela pediu. Gaddafi não é Saddam Hussein nem Osama Bin Laden. Gaddafi é herói dos africanos e nosso líder. Sei que ela é um monstro, como Samantha Powell nos disse. Mas, dessa vez, ela foi longe demais. Ela que comece a contar seus dias. A Ummah muçulmana africana já a condenou. Já há uma fatwa. Os africanos nunca a perdoarão. Ela não está vendo o movimento de protesto que está crescendo no Mali”.

O internauta referiu-se ao Mali (“Marcha em apoio a Gaddafi no Mali, nesta 6ª-feira”, com imagens do Mali, ontem, 6ª-feira lá), mas há inúmeros outros movimentos já crescendo em outros pontos da África, nenhum deles noticiado. Não apenas os cidadãos da África estão manifestando sua indignação em postados e em manifestações de massa, como também já há publicações europeias da grande imprensa, que adotaram discurso de resposta veemente (como a publicação russa coletiva, Pravda.ru) contra Clinton.

Em artigo intitulado “A Bruxa Má do Ocidente parte para a Líbia”, Lisa Karpov, que escreve dos EUA, pergunta:

“Será que essa senhora não tem cérebro? Será que não percebe que o que ela diz contra Gaddafi é o mesmo que milhões de pessoas, em todo o mundo, dizem dela e de suas falanges de guerra, imundas, genocidas?”[3]

COMENTÁRIO DO BLOG: A apologia do crime que Hillary Clinton fez na Líbia passará à história. Falou como se não existissem outros direitos humanos, no mundo, além dos direitos dela.



Notas dos tradutores

[1] 21/10/2011, Mathaba, “O leão da África está morto”
[2] Entrevista pela televisão Russia Today