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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Pepe Escobar: “O quebra-cabeças das sanções EUA-UE-Rússia”

17/9/2014, [*] Pepe EscobarRT, Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Bandeiras dos "loucos por sanções"
(foto: Dominique Faget)
Façam os russos o que fizerem, ninguém nem pensa: a solução é aplicar sanções, sanções e mais sanções. Agora, lá nos vamos outra vez... O mais recente pacote de sanções, do Tesouro dos EUA & União Europeia, ataca bancos, a indústria de energia e a indústria de defesa russos.

As atuais sanções são mesquinhas. São imundas. Não há eufemismo que mascare o que são as sanções contra a Rússia; são, de fato, uma declaração de guerra econômica.

O Sberbank, maior banco russo não terá acesso a capitais ocidentais para financiamentos de longo prazo, inclusive a qualquer tipo de empréstimo com prazo superior a 30 dias. E as atuais sanções contra empréstimos de 90 dias que afetam seis outros grandes bancos russos – de um pacote anterior de sanções – passam a aplicar-se também a partir de 30 dias.

No front da energia, o que EUA-UE querem é pôr fim aos novos projetos russos de exploração na Sibéria e no Ártico, impedindo as empresas do Grande Petróleo ocidentais de vender equipamento e tecnologia para projetos de exploração de gás de xisto no oceano, em águas profundas.

Significa que Exxon e Shell, por exemplo, estão com suas operações congeladas em cinco projetos com empresas gigantes de petróleo/gás/gasodutos russas: Gazprom, Gazprom Neft, Lukoil, Surgutneftegaz e Rosneft.

Ninguém jamais perdeu dinheiro apostando na imbecilidade dos “altos funcionários dos EUA” de sempre – que hoje se dedicam a “comentar” o mais recente pacote de sanções, como “instrumento” para “forçar Moscou a respeitar a lei internacional e a soberania do estado”. Qualquer passar de olhos, rápido que seja, sobre os registros históricos relacionados ao tal “instrumento” já provoca convulsões de gargalhadas.

E há também o subsecretário para Terrorismo e Inteligência Financeira do Tesouro dos EUA, David Cohen, que só faz insistir que o pacote “isola” ainda mais a Rússia do sistema financeiro global.

Membros do Parlamento Europeu aplaudem de pé, durante votação do acordo entre Ucrânia e União Europeia, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, dia 16/9/2014
(foto: Vincent Kessler)

O pacote também foi descrito pela imprensa-empresa ocidental como capaz de “irritar ainda mais os mercados financeiros, já super sensíveis”. Ora! Nenhum mercado deu qualquer sinal de “irritação”. Na Rússia, as ações das empresas sancionadas subiram de valor. Nos EUA, as ações das empresas de energia despencaram. Tradução taquigráfica: os mercados “irritados” e “super sensíveis” interpretaram o novo pacote de sanções como mais um gol-contra, de Washington e Bruxelas.

A Eurásia distancia-se

Quanto a “isolar” a Rússia, as empresas estão impedidas de se aproximar, na novilíngua de Washington-Wall Street, “de importantes fontes de financiamento denominadas em dólar”. Dito eufemisticamente, não podem nem chegar perto de “capital ocidental” – e quem fala de capital ocidental fala de dólar e euro. Quem acompanha os grandes movimentos que se vão sobrepondo em direção a um mundo multipolar, já sabe que a Rússia já não precisa de dólares norte-americanos e de euros.

Moscou pode usar essas moedas para comprar-trocar por bens e serviços nos EUA e na União Europeia. Mas, mesmo esses bens e serviços, podem ser comprados em outros pontos do mundo. Para tanto, você não precisa de “capital ocidental” – com Moscou fazendo avançar rapidamente o uso das respectivas moedas nacionais com outros parceiros comerciais. A gangue atlanticista assume que Moscou precisaria de bens e serviços dos EUA e UE, muito mais do que EUA e UE precisariam de bens e serviços da Rússia. Não passa de falácia.

A Rússia pode vender seus abundantes recursos de energia em qualquer moeda exceto dólares norte-americanos e euros. A Rússia pode comprar da Ásia e da América do Sul todas as roupas de que precisa. No front eletrônico e de alta tecnologia, praticamente tudo já é fabricado, mesmo, na China.

Crucialmente, será muito excitante assistir à União Europeia – que ainda não tem política comum de energia para todo o bloco – forçada a negociar com fornecedores alternativos. Azerbaijão, Turcomenistão e Qatar, por grande número de razões complexas – que vão de gás em quantidade insuficiente para vender, à ausência de gasodutos – não entram nessa dança.

O governo Obama, por sua vez, simplesmente não permitirá que a União Europeia ponha-se a importar energia do Irã a partir de, pode-se dizer, amanhã cedo. Mesmo que o acordo nuclear hoje cambaleante venha a ser assinado antes do final de 2014 – e presumivelmente abra o caminho para o fim das sanções contra o Irã.

Os mercados ditos “irracionais” nada têm de irracionais: os mercados estão vendo o que realmente está acontecendo. Mercados são movidos pela busca de lucro máximo, derivado darealpolitik.

Entrementes, Moscou ainda nem contragolpeou. E pode ser contragolpe letal – que vise exportadores para a Rússia e mesmo consumidores de energia russa. Na sequência, a União Europeia retaliará. E a Rússia contrarretaliará. É exatamente o que Washington quer: guerra econômica/comercial que devaste e rache a Eurásia.

Barack Obama
(foto: Gary Cameron)
Sobre aqueles US$ 20 trilhões…

No front político, Ucrânia e União Europeia já concordaram, inicialmente, em “adiar o Acordo de Associação com a União Europeia para o final de 2016”.

O tal acordo é absolutamente irrealizável; fizeram, agora, o mesmo que Yanukovich havia feito em novembro passado, porque sabia que Kiev não podia perder praticamente todo o comércio que a liga a Ucrânia à Rússia, em “troca” de um muito vago “livre comércio” com a União Europeia. O acordo para “adiar” o acordo foi, de fato, supervisionado por aquela indescritível insuperável mediocridade que atende pelo nome de José Manuel Barroso, presidente em final de mandato da Comissão Europeia.

Mas foi quando o Parlamento Europeu, em sessão plenária em Estrasburgo, correu a ratificar o Acordo de Associação da Ucrânia, no mesmo momento em que o presidente Petro Poroshenko submetia o documento ao Parlamento ucraniano. Não significa que o Acordo passa(ria) a ser imediatamente vigente. A “integração” econômica com a União Europeia – fórmula eufemística para a invasão de mão-única, da Ucrânia, por produtos da União Europeia – só começará em janeiro de 2016. E não há como uma União Europeia detonada pela crise vir a incorporar a Ucrânia, antes daquela data, ou jamais, seja quando for.

Na 5ª-feira (18/9/2014), Poroshenko reúne-se com patrão dele, o presidente Barack Obama dos EUA, e falará em sessão conjunta do Congresso dos EUA. Preparem-se para um choque de retórica contra o “império do mal” de dimensões intergalácticas.

Mas será no sábado, em Berlim que a coisa real começa a desdobrar-se: negociações de energia entre Rússia, União Europeia e Ucrânia. Desnecessário repetir: Moscou tem todas as cartas decisivas.

A dívida-monstro de Washington já está chegando aos US$ 20 trilhões – e não para de aumentar. Com crise-monstro se aproximando como tsunami vindo do inferno, não surpreende que Washington tenha tido de recorrer à tática diversionista perfeita: o retorno do “império do mal”. É a escola Marvel Comics de política, tuuuuuuuuuuuudo outra vez.

A Rússia tem enorme reserva de capital estrangeiro – e pode atravessar a tempestade. A Alemanha – principal economia da União Europeia – por sua vez, já começou a sofrer. O crescimento ali já é negativo (-0,2%). O vento histérico das sanções está soprando precisamente nessa direção – desencaminhando ainda mais as economias europeias. E ninguém tem qualquer esperança de que a UE tenha colhões para enfrentar Washington. Não naquela Bruxelas infestada de vassalos.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Pepe Escobar − “Ucrânia: O jogo de espera”

13/5/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Assim sendo, eis a mensagem-chave dos referendos: REJEITAMOS a junta neoliberal neofascista de Kiev-OTAN. É “governo” ilegal, de putschistas. NÃO SOMOS SEPARATISTAS PRÓ-RÚSSIA. Não queremos nos separar da Ucrânia. Queremos uma Ucrânia federalizada, unificada e civilizada, com províncias autônomas.

E a suástica adentra ao Parlamento do Banderastão!
Tudo o que há para ver em matéria de mediocridade, nas elites políticas medíocres que supostamente representariam os “valores” da civilização ocidental, apareceu bem claro, à vista de todos, na reação daquelas elites aos referendos em Donetsk e Lugansk.

Os referendos podem ter sido coisa de última hora; podem ter sido organizados na correria; aconteceram no meio de uma guerra civil de facto; e, além do mais, foram realizados sob fogo – fogo, aliás, fartamente fornecido pela junta neofascista neoliberal da OTAN, a qual conseguiu inclusive assassinar alguns votantes em Mariupol. Processo imperfeito? Sim. Mas absolutamente perfeito em termos do que mostrou de um movimento de massas a favor do autogoverno e da independência política em relação a Kiev.

Jen Psaki - Porta-voz
Depto de Estado
Foi democracia direta em ação; não surpreende que o Departamento de Estado dos EUA tenha odiado tudo; e que tenha decidido vingar-se (QUE VERGONHA! Shame on you, US!).

O comparecimento foi gigante. A vitória do voto pela independência, indiscutível. Transparência, também, total: votação à vista de todos, em urnas de vidro, com monitores para acompanhar cada passo do processo, jornalistas ocidentais dos principais veículos alemães, mas também da Kyodo News Agency ou do Washington Post.

O que teria de vir depois que a República Popular de Donetsk se autoproclamou estado soberano e pediu que Moscou considere a integração do país à Federação Russa, não é a secessão, nem guerra civil generalizada, mas uma negociação.

Ficou perfeitamente claro, a partir da reação ponderada, equilibrada, do Kremlin:

Moscou respeita o desejo do povo de Donetsk e Lugansk e espera que a realização prática da decisão alcançada nos referendos seja feita de maneira civilizada.

O tom de cautela refletiu-se também no pedido, que o Kremlin encaminhou, para que a Organização de Segurança e Cooperação da Europa (OSCE), ajude a construir a negociação.

Oleksandr Turchynov
Pois mais uma vez, há prova concreta de que a junta neoliberal neofascista da OTAN não quer negociar coisa alguma. Palhaço, rei da farsa, o presidente “interino” Oleksandr Turchynov rotulou  que o exercício da democracia direta teria sido aquela “farsa que os terroristas chamam de referendo”. E Washington e Bruxelas decidiram que os referendos teriam sido “ilegais”.

E tudo isso depois do massacre de Odessa; depois do surgimento de paramilitares neonazistas travestidos como soldados de uma “Guarda Nacional” (que os sabujos da imprensa-empresa norte-americana chamam de “nacionalistas ucranianos”); dúzias de agentes da CIA e do FBI agindo em território estrangeiro; mais de 300 dos inevitáveis mercenários da empresa Academi – ex-Blackwater. E o que mais esperar, se o atual secretário de Segurança Nacional ucraniano é o neonazista Andriy Parubiy, ex-comandante das “forças de defesa” de Maidan, e chefe de torcida de Stepan Bandera, colaborador dos nazistas na IIª Guerra Mundial?!

Ex-Ucrânia com o  Banderastão (em vermelho)
O Banderastão – com seu remix dos esquadrões da morte à moda América Central dos anos 1980s – não reconhece referendos: prefere queimar vivos os “insetos” russos étnicos que se atrevam a ocupar prédios.

Assim sendo, eis a mensagem-chave dos referendos: REJEITAMOS a junta neoliberal neofascista de Kiev-OTAN. É ‘governo’ ilegal, de putschistas. NÃO SOMOS SEPARATISTAS PRÓ-RÚSSIA. Não queremos nos separar da Ucrânia. Queremos uma Ucrânia federalizada, unificada e civilizada, com províncias autônomas.

“Dever/Responsabilidade de Proteger”, R2P? Alguém se interessa?

O Império do Caos deseja – e o que mais desejaria? – caos e mais caos. Agora, o Império do Caos está apoiando descaradamente o “emprego do exército contra o próprio povo”; foi frase e ação absolutamente verboten – castigáveis com bombas da OTAN, ou ataques de jihadistas armados pela OTAN – na Líbia e na Síria. Mas agora, na Ucrânia, é perfeitamente normal.

Samantha Power
Na Líbia e na Síria – tentaram três vezes na ONU –  seria pretexto perfeito para R2P [Responsabilidade/dever de Proteger]. Mas na Ucrânia, agora, os “terroristas” – até a terminologia é a mesma dos idos de Dábliu-Bush – são a própria população; e os “mocinhos” são milicianos neonazistas de Kiev armados com correntes e metralhadoras.

A embaixadora dos EUA à ONU e chefe da torcida pró “R2P”, Samantha Power ultrapassou todos os níveis prévios de loucura-desatino, quando declarou que:  

(...) o massacre de civis pela junta neonazista da OTAN teria sido “razoável” e “proporcional”, acrescentando que “qualquer dos nossos países” teria feito o mesmo, ante tal nível de ameaça.

Berlin, por sua vez, tenta seguir a via diplomática, embora haja clara divisão entre os Atlanticistas linha dura e os capitães de indústria alemães – que já perceberam que Washington não terá meias medidas, e está decidida a destruir a sinergia econômica russo-alemã. O Império do Caos visa a erguer um muro entre aquelas duas metades, que se manifestaria, na prática, numa “invasão” russa. É verdade que Moscou poderia facilmente dar uma “de Samantha” e invocar o Dever/Responsabilidade de Proteger russos e russófonos na Ucrânia. Mas Putin é mestre de xadrez e absolutamente não cometerá a estupidez de inventar um novo Afeganistão bem ali, em suas fronteiras do oeste.

Quanto a Berlin, só a economia interessa. A Alemanha crescerá, no máximo, 1,9% em 2014. Com 6.200 empresas alemãs na Rússia e mais de 300 mil empregos alemães dependendo do comércio recíproco, as sanções à moda dos EUA são muito contraproducentes, embora a russofobia e a histeria da Guerra Fria 2.0 continue rampante, em certo sentido.

Vladimir Putin escrevendo...
Paris, por exemplo, já entendeu o recado. O contrato de US$1,66 bilhão, para vender dois porta-helicópteros classe Mistral à Rússia prosseguirá vigente, depois que diplomatas franceses admitiram que o cancelamento – em termos de penalidades e postos de trabalho cancelados – feriria muito mais gravemente a França, que a Rússia.

Há cerca de um mês, dia 10/4/2014, Putin escreveu carta crucialmente importante a 18 chefes de estado (cinco deles fora da União Europeia), cujos países importam gás russo através da Ucrânia. Foi mais do que claríssimo: Moscou não pode continuar a financiar sozinha toda a economia ucraniana, já praticamente em bancarrota. Entre descontos e mais descontos, e perdoando multas e mais multas, desde 2009 Moscou subsidia Kiev, uma conta que já alcança espantosíssimos US$35,4 bilhões. Os europeus, Putin escreveu, também têm de pôr dinheiro sobre a mesa.

José Manuel Barroso
Aquela espetacular, invencível nulidade & presidente da Comissão Europeia, Jose Manuel Barroso, embora concorde que algum diálogo seria necessário, respondeu que a nova “regra” que a Gazprom estaria “implantando”, de só liberar gás para ser bombeado pela Ucrânia se o pedido for pago antecipadamente, era “preocupante”. Como se qualquer grande empresa europeia de energia estivesse disposta a perdoar credores que não paguem as contas!

Uma Ucrânia neutra, finlandizada, poria fim, com sentido positivo, à atual confusão. É questão, só, de esperar que a junta neofascista neoliberal da OTAN acabe de fracassar, e que vá prô inferno.



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Pepe Escobar: “Luta livre/vale-tudo – e é EUA vs Europa”


17/5/2013, Pepe Escobar (de Paris), Asia Times Online - The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ver também:  
12/3/2013, redecastorphoto, em: Pepe Escobar : “A Queda da Casa da Europa”


Amantes do turboneoliberalismo, rejubilem – e levem suas garrafas de Moet para os assentos do gargarejo, junto ao ringue; nenhuma luta livre vale-tudo superará, nessa temporada, os rounds de abertura do combate entre dois gigantes ocidentais. Esqueçam o tal de “pivoteamento” do Pentágono para a Ásia sem nunca sair do Oriente Médio; nada se compara a essa viagem às entranhas do turbocapitalismo digna de um neo-Balzac.

Falamos aqui de um novo Santo Graal – negócio de livre mercado entre EUA e a União Europeia: e o advento de um mercado transatlântico gigante, interno (25% das exportações globais; 31% das importações globais; 57% do investimento externo), no qual bens e serviços (mas não pessoas) circularão “livremente”, coisa que, na teoria, extrairá Europa do fundo de seu atual poço.

O problema é que, para chegar a esse Valente Novo Mundo presidido pela Deusa Mercado, a Europa terá de renunciar a parte considerável de seu complexo de leis (sobre a administração da justiça, ambientais, culturais e sanitárias).

Nesse paraíso burocrático kafkiano/orwelliano também conhecido como Bruxelas, hordas de homens sem rosto  parecidos com os homens de chapéu coco de Magritte  já começam a reclamar dessa “aventura”. Há consenso crescente de que a Europa tem tudo a perder e pouco a ganhar nesse arranjo, em contraste com os muito ridicularizados inimigos da integração europeia, caso dos fanáticos a favor de uma Europa “pró-EUA” e “ultraliberal”.

Outra vez, é aquele tal de perigo amarelo

O Perigo Amarelo
A coisa vai ficando cada vez mais e mais esquisita, se se observa que a grande maioria das nações europeias vêm desejando, há tempos, um negócio desse tipo, de livre mercado – bem diferente dos EUA sempre protecionistas.

A Comissão Europeia (CE) estima que o PIB da União Europeia como um todo crescerá 0,5% – nada que se descreva como “números chineses”. Os norte-americanos, esses sim, estão excitadíssimos: o Senado norte-americano estima que, sem barreiras aduaneiras, as exportações para a Europa crescerão coisa próxima de 20%.

O xis da questão, para fechar o negócio, será harmonizar leis e regras que têm sido acusadas de bloquear totalmente a livre circulação de bens. “Harmonizar” significa diluir todas as regras e leis europeias. E é aí que a coisa pega: Washington não quer só um acordo transatlântico. A meta final é implantar, pedra sobre pedra, um acordo “venha quem quiser” livre global, que em seguida passará a ser imposto por todo o planeta; é a chave para a abertura total do mercado chinês, absolutamente sem qualquer limitação, para as corporações ocidentais.

O German Marshall Fund of the United States  vai direto ao ponto: o capitalismo ocidental terá de continuar como norma universal, contra a “ameaça” do capitalismo chinês administrado pelo Estado. A ironia é que o capitalismo chinês foi, é – e continuará a ser – a salvação e o salvador, na crise massiva pela qual passa o capitalismo ocidental.

O negócio entre EUA e UE está previsto para ser a cereja do bolo dos negócios que os EUA já estão fechando com nações asiáticas, uma a uma. Não há absolutamente qualquer dúvida sobre qual o lado mais forte. O presidente Barack Obama dos EUA já está mergulhado em operação de Relações Públicas de alto risco, repetindo, cada vez que abre a boca, que a Europa não está encontrando fórmula que a faça crescer. E os EUA podem contar também com elementos quinta-coluna, como o Comissário Europeu para o Comércio, Karel De Gucht, para quem os franceses – que defendem inúmeras exceções – já estão isolados.

Que ninguém se engane: Washington está partindo para a degola, estilo Homem-de-ferro 3 – para atropelar-esmagar as regras sanitárias e de fiscalização fitossanitárias, para “liberar” todo e qualquer alimento, tudo que seja ou venha a ser geneticamente modificado, de carne inchada com hormônios a Frango ao Cloro. As regras estabelecidas pelos homens sem rosto de Bruxelas têm sido regularmente ridicularizadas em Washington como “não científicas”, ao contrário da regra-nenhuma que os norte-americanos pregam.

Jose Manuel Barroso: o mais chapéu coco dos homens do chapéu coco

Cidadãos europeus surpreendidos, só agora se dão conta de que foi a União Europeia quem propôs o negócio todo aos EUA – não o contrário. União Europeia, aqui, significa a Comissão Europeia. E é quando bile chega à goela: tudo é, sobretudo, efeito da ambição de um único homem (um português) contra a honra de um país inteiro (a França).

José Manuel Barroso
Acrescente-se que a negociação recebeu luz verde diretamente, pessoalmente, de Obama; e, com o Congresso dos EUA interferindo em todos os níveis, o resumo é que para os norte-americanos “tudo está sobre a mesa” – frase-código para “queremos tudo e não cederemos nem um palmo de terreno”.

A França – já apoiada pelos ministros da Cultura de 12 nações – quer que a indústria do audiovisual seja excluída de todas as negociações, em nome de sua muito premiada “exceção cultural”. A França é um dos raros países no planeta – a China é outro assunto, completamente diferente – ainda não afundado no pântano dos produtos hollywoodianos.

Se não for assim, Paris vetará tudo – embora, off the record, funcionários franceses admitam que não têm poder para vetar coisa alguma: as corporações francesas desejam furiosamente fechar o negócio.

Seja como for, Paris combaterá contra tudo, da “exceção cultural” às normas sanitárias/ambientais, mais cruciais. A Itália acompanhará a França em várias frentes: já há revolta declarada na Itália, sublimemente artesanista, contra o futuro horrendo que aguarda a humanidade, obrigada a consumir formaggio parmigiano, prosciutto di Parma e vinhos Brunello, made in USA.

Formaggio parmigianoprosciutto di Parma i vino Brunello (made in USA?)
Em front diferente é garantido que Washington não abrirá o mercado dos EUA aos serviços financeiros ou transportes marítimos europeus. Só um exemplo do muito que a Europa tem a perder, sem ganhar praticamente coisa alguma.

No frigir dos ovos, tudo se resume na ambição cega de um burocrata europeu, funcionário de carreira, inigualavelmente medíocre – o presidente português da Comissão Europeia, Jose Manuel Barroso. Barroso espera obter um mandado para negociar em nome de todos os estados-membros, dia 14 de junho. E espera que as negociações estejam concluídas antes do fim de sua presidência, que terminará em novembro de 2014.

Diplomatas da União Europeia, audivelmente enfurecidos, confirmaram off the Record a esse Asia Times Online, que Barroso montou essa formidável operação praticamente sozinho, à espera de uma simpática futura recompensa de seus patrões (em Bruxelas? Nada disso! Em Washington). Barroso quer ser secretário-geral, ou da ONU ou da OTAN. Ninguém chega a qualquer desses postos sem luz verde de Washington.

Isso explica que o chefe de Gabinete de Barroso, nomeado embaixador da União Europeia em Washington, esteja furiosamente lobbyando para os norte-americanos, com os embaixadores de Portugal nos EUA e na União Europeia.

Estão abertas as apostas: quem vencerá esse combate de luta livre vale-tudo no mundo do capital? É possível, sim, que os estados membros da União Europeia votem, mesmo, contra os próprios interesses. Mas outra coisa, completamente diversa, seria uma ensurdecedora irrupção de fúria, na ruas, dos próprios cidadãos europeus, já tão duramente supliciados.

É. Essa nova saga do turbocapitalismo ocidental reúne todos os elementos para ser... bastante revolucionária.





Nota dos tradutores
[1] Orig. catfight, que designa briga a tapas, mordidas, puxões de cabelo e unhadas, quase sempre entre mulheres.