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sábado, 17 de maio de 2014

Eu amo a BBC!


16/5/2014, The SalkerThe Vineyard of the Saker
Traduzido por mberublue


The Saker
Eu realmente amo a BBC. Amo odiá-la, é isso. Eles acabaram de postar um artigo sobre o fato da Rússia agora querer pré pagamento para o gás que vende à Ucrânia, concluindo com esta formidável sentença:

É perigoso para as nações da União Europeia que a Ucrânia comece a tomar o gás que a Rússia destinou para seus clientes europeus, o que já fizeram quando de disputa anterior com a Rússia nos idos de 2006 e 2009.

Jennifer Psaki
É ou não é para deixar Psaki orgulhosa? Em vez de escrever que a Ucrânia começará a sequestrar, desfalcar, pilhar, saquear ou simplesmente ROUBAR com apropriação indébita o gás que a Rússia vende à União Européia, escrevem “tomar”.

Como se um mercado de energia fosse como um buffet de self-service, para comer à vontade, onde cada um pode pegar o que quiser.

Em Kiev existe uma gangue de bandidos que chegaram ao poder através de uma insurreição ilegal armada, massacrando civis com o que chamam de exército em seu ridículo Banderastão.

Esse bando de celerados enlouquecidos está prestes a roubar o gás da União Europeia que pagou por ele em euros e a BBC chama isso de “tomar”?

Realmente, eu amo odiar a BBC.

Boa noite.

The Saker

terça-feira, 13 de maio de 2014

Pepe Escobar − “Ucrânia: O jogo de espera”

13/5/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Assim sendo, eis a mensagem-chave dos referendos: REJEITAMOS a junta neoliberal neofascista de Kiev-OTAN. É “governo” ilegal, de putschistas. NÃO SOMOS SEPARATISTAS PRÓ-RÚSSIA. Não queremos nos separar da Ucrânia. Queremos uma Ucrânia federalizada, unificada e civilizada, com províncias autônomas.

E a suástica adentra ao Parlamento do Banderastão!
Tudo o que há para ver em matéria de mediocridade, nas elites políticas medíocres que supostamente representariam os “valores” da civilização ocidental, apareceu bem claro, à vista de todos, na reação daquelas elites aos referendos em Donetsk e Lugansk.

Os referendos podem ter sido coisa de última hora; podem ter sido organizados na correria; aconteceram no meio de uma guerra civil de facto; e, além do mais, foram realizados sob fogo – fogo, aliás, fartamente fornecido pela junta neofascista neoliberal da OTAN, a qual conseguiu inclusive assassinar alguns votantes em Mariupol. Processo imperfeito? Sim. Mas absolutamente perfeito em termos do que mostrou de um movimento de massas a favor do autogoverno e da independência política em relação a Kiev.

Jen Psaki - Porta-voz
Depto de Estado
Foi democracia direta em ação; não surpreende que o Departamento de Estado dos EUA tenha odiado tudo; e que tenha decidido vingar-se (QUE VERGONHA! Shame on you, US!).

O comparecimento foi gigante. A vitória do voto pela independência, indiscutível. Transparência, também, total: votação à vista de todos, em urnas de vidro, com monitores para acompanhar cada passo do processo, jornalistas ocidentais dos principais veículos alemães, mas também da Kyodo News Agency ou do Washington Post.

O que teria de vir depois que a República Popular de Donetsk se autoproclamou estado soberano e pediu que Moscou considere a integração do país à Federação Russa, não é a secessão, nem guerra civil generalizada, mas uma negociação.

Ficou perfeitamente claro, a partir da reação ponderada, equilibrada, do Kremlin:

Moscou respeita o desejo do povo de Donetsk e Lugansk e espera que a realização prática da decisão alcançada nos referendos seja feita de maneira civilizada.

O tom de cautela refletiu-se também no pedido, que o Kremlin encaminhou, para que a Organização de Segurança e Cooperação da Europa (OSCE), ajude a construir a negociação.

Oleksandr Turchynov
Pois mais uma vez, há prova concreta de que a junta neoliberal neofascista da OTAN não quer negociar coisa alguma. Palhaço, rei da farsa, o presidente “interino” Oleksandr Turchynov rotulou  que o exercício da democracia direta teria sido aquela “farsa que os terroristas chamam de referendo”. E Washington e Bruxelas decidiram que os referendos teriam sido “ilegais”.

E tudo isso depois do massacre de Odessa; depois do surgimento de paramilitares neonazistas travestidos como soldados de uma “Guarda Nacional” (que os sabujos da imprensa-empresa norte-americana chamam de “nacionalistas ucranianos”); dúzias de agentes da CIA e do FBI agindo em território estrangeiro; mais de 300 dos inevitáveis mercenários da empresa Academi – ex-Blackwater. E o que mais esperar, se o atual secretário de Segurança Nacional ucraniano é o neonazista Andriy Parubiy, ex-comandante das “forças de defesa” de Maidan, e chefe de torcida de Stepan Bandera, colaborador dos nazistas na IIª Guerra Mundial?!

Ex-Ucrânia com o  Banderastão (em vermelho)
O Banderastão – com seu remix dos esquadrões da morte à moda América Central dos anos 1980s – não reconhece referendos: prefere queimar vivos os “insetos” russos étnicos que se atrevam a ocupar prédios.

Assim sendo, eis a mensagem-chave dos referendos: REJEITAMOS a junta neoliberal neofascista de Kiev-OTAN. É ‘governo’ ilegal, de putschistas. NÃO SOMOS SEPARATISTAS PRÓ-RÚSSIA. Não queremos nos separar da Ucrânia. Queremos uma Ucrânia federalizada, unificada e civilizada, com províncias autônomas.

“Dever/Responsabilidade de Proteger”, R2P? Alguém se interessa?

O Império do Caos deseja – e o que mais desejaria? – caos e mais caos. Agora, o Império do Caos está apoiando descaradamente o “emprego do exército contra o próprio povo”; foi frase e ação absolutamente verboten – castigáveis com bombas da OTAN, ou ataques de jihadistas armados pela OTAN – na Líbia e na Síria. Mas agora, na Ucrânia, é perfeitamente normal.

Samantha Power
Na Líbia e na Síria – tentaram três vezes na ONU –  seria pretexto perfeito para R2P [Responsabilidade/dever de Proteger]. Mas na Ucrânia, agora, os “terroristas” – até a terminologia é a mesma dos idos de Dábliu-Bush – são a própria população; e os “mocinhos” são milicianos neonazistas de Kiev armados com correntes e metralhadoras.

A embaixadora dos EUA à ONU e chefe da torcida pró “R2P”, Samantha Power ultrapassou todos os níveis prévios de loucura-desatino, quando declarou que:  

(...) o massacre de civis pela junta neonazista da OTAN teria sido “razoável” e “proporcional”, acrescentando que “qualquer dos nossos países” teria feito o mesmo, ante tal nível de ameaça.

Berlin, por sua vez, tenta seguir a via diplomática, embora haja clara divisão entre os Atlanticistas linha dura e os capitães de indústria alemães – que já perceberam que Washington não terá meias medidas, e está decidida a destruir a sinergia econômica russo-alemã. O Império do Caos visa a erguer um muro entre aquelas duas metades, que se manifestaria, na prática, numa “invasão” russa. É verdade que Moscou poderia facilmente dar uma “de Samantha” e invocar o Dever/Responsabilidade de Proteger russos e russófonos na Ucrânia. Mas Putin é mestre de xadrez e absolutamente não cometerá a estupidez de inventar um novo Afeganistão bem ali, em suas fronteiras do oeste.

Quanto a Berlin, só a economia interessa. A Alemanha crescerá, no máximo, 1,9% em 2014. Com 6.200 empresas alemãs na Rússia e mais de 300 mil empregos alemães dependendo do comércio recíproco, as sanções à moda dos EUA são muito contraproducentes, embora a russofobia e a histeria da Guerra Fria 2.0 continue rampante, em certo sentido.

Vladimir Putin escrevendo...
Paris, por exemplo, já entendeu o recado. O contrato de US$1,66 bilhão, para vender dois porta-helicópteros classe Mistral à Rússia prosseguirá vigente, depois que diplomatas franceses admitiram que o cancelamento – em termos de penalidades e postos de trabalho cancelados – feriria muito mais gravemente a França, que a Rússia.

Há cerca de um mês, dia 10/4/2014, Putin escreveu carta crucialmente importante a 18 chefes de estado (cinco deles fora da União Europeia), cujos países importam gás russo através da Ucrânia. Foi mais do que claríssimo: Moscou não pode continuar a financiar sozinha toda a economia ucraniana, já praticamente em bancarrota. Entre descontos e mais descontos, e perdoando multas e mais multas, desde 2009 Moscou subsidia Kiev, uma conta que já alcança espantosíssimos US$35,4 bilhões. Os europeus, Putin escreveu, também têm de pôr dinheiro sobre a mesa.

José Manuel Barroso
Aquela espetacular, invencível nulidade & presidente da Comissão Europeia, Jose Manuel Barroso, embora concorde que algum diálogo seria necessário, respondeu que a nova “regra” que a Gazprom estaria “implantando”, de só liberar gás para ser bombeado pela Ucrânia se o pedido for pago antecipadamente, era “preocupante”. Como se qualquer grande empresa europeia de energia estivesse disposta a perdoar credores que não paguem as contas!

Uma Ucrânia neutra, finlandizada, poria fim, com sentido positivo, à atual confusão. É questão, só, de esperar que a junta neofascista neoliberal da OTAN acabe de fracassar, e que vá prô inferno.



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Pepe Escobar: “Ucrânia e o grande tabuleiro de xadrez”

17/4/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jennifer Psaki, Porta-Voz do Depto. de Estado dos EUA
O Departamento de Estado dos EUA, pela porta-voz Jennifer Psaki, disse que notícias de que o diretor da CIA John Brennan teria dito aos mudadores-de-regimes em Kiev que “conduzissem operações táticas” – ou alguma “ofensiva antiterrorista” – no leste da Ucrânia são “completamente falsas”. Significa que as notícias são verdadeiras. Brennan já transmitiu a ordem de marcha. No momento em que escrevo, a campanha “antiterroristas” – com seu simpático toquinho de retórica à Dábliu – já degenerou em farsa.

Agora, combinem essa notícia com o Secretário-Geral da OTAN, o cão-de-caça Retriever danês, Anders Fogh Rasmussen, a latir sobre o reforço militar ao longo da fronteira leste da OTAN: “Teremos mais aviões no ar, mais navios na água e mais prontidão em terra”.

Aí está. Bem-vindos à doutrina da guerra pós-moderna dos Dois Patetas.

Paguem ou morram congelados

Vitaly Klitschko
Para todos os propósitos práticos, a Ucrânia está falida. A consistente posição do Kremlin ao longo dos três últimos meses foi encorajar a União Europeia a encontrar solução para a terrível situação econômica da Ucrânia. Bruxelas fez coisa nenhuma; apostou tudo na “mudança de regime” que beneficiaria o fantoche-campeão-de-boxe & preferido da Alemanha, Vitaly Klitschko, também conhecido como “Klitsch, o boxer”.

A “mudança-de-regime” aconteceu, mas do tipo orquestrado pelo Khaganato dos Nulands – uma célula neoconservadora dentro do Departamento de Estado − e sua Secretária-Assistente de Estado para Assuntos Europeus e Asiáticos, Victoria Nuland. E agora a opção presidencial é entre – e como não seria? – dois fantoches dos EUA, o fantoche-bilionário-do-chocolate, Petro Poroshenko e a “ex-Primeira-Ministra da Ucrânia, ex-condenada e possível presidente, “Santa Yulia” Timoshenko. E a União Europeia ficou com a conta a pagar (impagável). É onde entra o Fundo Monetário Internacional, FMI – com um iminente, repugnante “ajuste estrutural” que mandará os ucranianos direto ao inferno, para buraco ainda mais infernal do que o que já conhecem e com o qual estão habituados.

Mais uma vez, contra toda a histeria propagada pelo “Ministério da Verdade” dos EUA e seus franqueados na imprensa-empresa ocidental, o Kremlin não precisa “invadir” Ucrânia alguma. Se a Gazprom não receber o que lhe é devido, os russos só terão de fechar a torneira do braço ucraniano do Gasodutosão. Kiev será forçada a usar pelo menos uma parte do gás destinado a alguns países da União Europeia, ou os próprios ucranianos ficarão sem combustível para manterem-se vivos – as pessoas e as indústrias. E a União Europeia – cuja “política de energia” é, sobretudo, uma piada – lá estará, enredada em mais uma dificuldade autoinfligida.

Principais gasodutos atualmente em operação na Ucrânia
A União Europeia continuará a caminhar a passos largos para situação perene de perde-perde, se Bruxelas não falar com Moscou, com seriedade. Só há uma explicação para por que já não está falando: pressão linha-dura-duríssima por Washington, montada mediante a OTAN.

Mais uma vez, como contragolpe, contra a atual histeria – a União Europeia ainda é cliente top da Gazprom, com 61% do total do gás exportado. É uma relação complexa, baseada na interdependência. A capitalização do Ramo Norte, do Ramo Azul e do ainda a ser completado Ramo Sul inclui companhias alemãs, holandesas, francesas e italianas.

Assim sendo, sim, a Gazprom precisa do mercado da União Europeia. Mas só até certo ponto, se se considera o meganegócio de entrega de gás siberiano à China, que será assinado muito provavelmente em maio, em Pequim, (vídeo a seguir, em inglês) quando o presidente da Rússia visitará o presidente Xi Jinping.


Jogando areia na engrenagem [1]

Mês passado, enquanto o torturante sub-show estava em andamento na Ucrânia, o presidente Xi andava pela Europa fechando negócios e promovendo outro braço da Nova Rota da Seda, direto até a Alemanha.

Em ambiente não Hobbesiano e não doente, uma Ucrânia neutra só teria a ganhar se se posicionasse como um entroncamento privilegiado entre a União Europeia e a proposta União Eurasiana – além de se converter em nó crucial de distribuição na ofensiva chinesa da Nova Rota da Seda. Em vez disso, os “mudadores-de-regime” do governo de Kiev estão apostando tudo na “associação” à União Europeia (que jamais acontecerá) e deixando-se converter em base avançada para a OTAN (que é o objetivo do Pentágono).

Se se pensa num mercado comum de Lisboa a Vladivostok – ao qual visam ambas, Moscou e Pequim – ele seria também magnífica solução para a União Europeia.

Nesse contexto de possibilidades, o desastre na Ucrânia é realmente um pau, uma trava metida na roda, um saco de areia jogado na engrenagem, uma cratera rasgada no meio da estrada. E areia na engrenagem, trava na roda, cratera cavada no meio da estrada que, crucialmente, só geram vantagem para um único ator: o governo dos EUA.

O governo Obama já pode – pode, talvez; ninguém garante – ter percebido que o governo dos EUA perdeu a batalha pelo controle do Oleogasodutostão da Ásia para a Europa, apesar de todos os esforços do regime de Dick Cheney. O que os especialistas em energia chamam de “Grade Asiática de Segurança Energética” está crescendo – como seus milhares de conexões para a Europa.

Assim, só restou ao governo de Obama jogar areia na engrenagem, meter uma trava, um calço, na roda desse processo – o que se vê ser feito agora – tentando ainda impedir a plena integração econômica da Eurásia.

Oleogasodutos projetados que integrarão completamente a Eurasia
(clique na imagem para aumentar)
Pode-se facilmente ver que o governo Obama está cada vez mais obcecadamente preocupado com a crescente dependência da União Europeia, que não vive sem o gás russo. Daí se inventou o plano grandioso de posicionar o gás de xisto norte-americano na União Europeia, como alternativa à Gazprom. Ainda que se assuma que possa acontecer, demorará pelo menos uma década – sem garantia de sucesso. Na verdade, a alternativa real seria o gás iraniano – depois de um acordo nuclear amplo e o fim das sanções ocidentais (esse pacote, o que não surpreende ninguém, está sendo sabotado em massa por diferentes facções ativas dentro do governo dos EUA).

Para começar, os EUA não podem exportar gás de xisto para países com os quais não tenha assinado algum acordo de livre comércio. É “problema” que poderia ser solucionado, em boa parte, pelo acordo chamado “Parceria Trans-Atlântica” [orig. Trans-Atlantic Partnership (TAP)] negociado secretamente entre Washington e Bruxelas (sobre isso, ver 16/4/2014, redecastorphoto, Pepe Escobar, “Pé na estrada pelo sul do OTANistão”, Asia Times Online, traduzido [NTs]).

Em paralelo, o governo Obama continua a usar táticas de “dividir para governar”, com o objetivo de assustar atores menores, inventando o fantasma de uma China maléfica, militarista, tentando reforçar o “pivô para a Ásia” que só engatinha e não consegue pôr-se em pé. Todo o jogo volta sempre ao que o Dr. Zbig Brzezinski conceitualizou nos idos de 1997, em seu The Grand Chessboard – e cantou, até os mínimos detalhes, para seu discípulo Obama: os EUA no comando de toda a Eurásia.

Mas o Kremlin não se deixará arrastar para um sorvedouro militar. É justo dizer que Putin identificou o Grande Quadro no tabuleiro inteiro, o que significa ampliar a parceria estratégica Rússia-China, que é tão crucial quanto a sinergia energia-manufatura com a Europa; e, sobretudo, o medo avassalador que sentem as elites financeiras norte-americanas, do processo inevitável, em andamento, conduzido pelos BRICS (e que já se expande para o Grupo dos 20, G-20, grupo chave) – para deixar para trás o petrodólar.

Presidentes dos BRICS (esq. p/ dir) (Brasil, Índia, Rússia, China, África do Sul) 
Em resumo, tudo isso sugere que o petrodólar será progressivamente superado, ao mesmo tempo em que ascende uma cesta de moedas como moeda de reserva no sistema internacional. Os BRICS já trabalham na construção de sua alternativa ao FMI e ao Banco Mundial, investindo num pool de moedas de reserva e no Banco BRICS de desenvolvimento.

Enquanto o esforço tentativo de construir uma nova ordem mundial agita-se tentando nascer em todos os pontos do Sul Global, a OTAN-Robocop sonha com mais guerras.



Nota dos tradutores

[1] Orig. Spanner in the Works. A expressão pode ser traduzida, por aproximação, por “areia (jogada) na engrenagem”/”um pau metido na roda”. Resgatamos um pouco desse significado em “o desastre na Ucrânia é realmente um pau, uma trava metida numa engrenagem”, mesmo sabendo que nessa tradução perde-se um traço de “ação grotescamente ridícula”. A expressão dá nome também a uma equipe de comediantes ingleses que oferecem kits de comédias-eventos que se “misturam” a eventos reais, causando grande confusão (pressupõe-se que a confusão que eles criam divirtam os convidados). O modo como trabalham misturados a garçons de uma festa está bem descrito em: Comedy Waiters. Em Spanners in the Works há boa exposição de como trabalham, por exemplo, misturados aos seguranças que revistam convidados que chegam para um evento). Contatos. Aqui fica a anotação, para resgatar um pouco do traço de ‘'palhaçada'’ [no sentido pejorativo] da mesma expressão.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Gravação de Nuland (“F*da-se a União Europeia”) é autêntica.

6/2/2014, [*]  Tyler Durden, Zero Hedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“É golpe sujo dos russos, que gravam conversas alheias”
(Porta-voz do Departamento de Estado, em 6/2/2014)

Se alguém ainda tinha alguma esperança de que o telefonema “Foda-se a União Europeia” (entre a vice-secretária Nuland dos EUA e o embaixador Pyatt dos EUA na Ucrânia) fosse forjado, esqueça. É perfeitamente autêntico.


Em resposta a perguntas de jornalistas, a porta-voz do Departamento de Estado, Jen Psaki confirmou que é autêntica:

“Eu não disse que é falsa”.

Na sequência, na velha moda de sempre pôr a culpa em outros, 0 mundo ouviu que a culpa de tudo seria, isso sim, dos russos; e que a divulgação do telefonema interceptado seria “mais um golpe sujo dos russos”. Sem pausa, Psaki acrescentou que há momentos “em qualquer relação diplomática” em que há discordância. E afinal, meteu, de vez, os pés pelas mãos. Disse ela:

“Muito preocupante que uma conversação privada tenha sido gravada...”

Será que a porta-voz consultou a Agência de Segurança Nacional dos EUA sobre a preocupabilidade de gravar conversas privadas?!

E tem mais: só num mundo no qual só a Agência de Segurança Nacional dos EUA teria o direito de gravar todas as conversas privadas do planeta, compreende-se que o Departamento de Estado considere perfeitamente seguro discutir seus planos para derrubar mais um governo democrático no mundo, por uma linha de telefone que, ao que parece, não era protegida. A CIA, pelo menos, só usa linhas encriptadas. 

Por fim, por mais que, talvez, possa ter havido algum jogo russo bem sujo, muito mais suja está hoje, em todo mundo, a reputação dos EUA, que há muito tempo já não têm fama de jogarem lá muito limpo.

[*] Tyler Durden é o nome de um personagem do romance e do filme Fight Club (Clube da Luta) e pseudônimo coletivo dos redatores de notícia “que contribuem” para o site e agregador de conteúdos Zero Hedge, especializado em relatórios sobre Economia, Wall Street e Setor Financeiro.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Ban Ki-Moon agita Genebra-2 sobre a Síria

20/1/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ban Ki-Moon (D), Secretário-Geral da ONU convida o MRE do Irã, Mohammad Javad Zarif (E)  para participar da Conferência de Paz na Síria - Genebra-2 
Uma das precondições para ser eleito secretário-geral da ONU é que o candidato tem de ser rotineiramente capaz de chutar “com efeito” e surpreender o goleiro. Mas o atual Secretário-Geral, Ban Ki-Moon, acaba de chutar uma que, em vez de mudar de rumo e “cair para dentro do gol”, mudou de direção para fora do gol, diretamente para o mato. O Secretário-Geral insiste que não sabia que estava chutando com tanto efeito; quase disse que “saiu sem querer”.

Claro, a variação é muito importante na diplomacia, e o convite de último momento que Ban fez ao Irã para que participe da Conferência Genebra-2 sobre a Síria nem foi completamente inesperado. Mas quando apareceu, surpreendeu, sim. Particularmente, Washington. A porta-voz, Jen Psaki, do Departamento de Estado pediu que Ban rescinda o convite, a menos que o Irã endosse “integral e publicamente” o Comunicado de Junho de 2002 [chamado “Genebra-1”]. A Coalizão Nacional Síria [orig. Syrian National Coalition (SNC)] ameaçou não aparecer em Genebra-2, se o Irã lá estiver.

Nota da redecastorphoto: Faltando menos de 24 horas do início de Genebra-2 Ban Ki-Moon desconvidou o Irã. O “chute com efeito” do Secretário-Geral da ONU saiu muito longe do gol!

Ban Ki-Moon, Secretário-Geral da ONU, "desconvida" Hassan Rouhani, Presidente do Irã de Genebra-2
O próprio Ban tem dito e repetido que “falou longamente” com o Ministro de Relações Exteriores do Irã, Javad Sharif, o qual lhe “assegurou” que “compreende” que “a base” de Genebra-2 é o texto aprovado em junho de 2012. Prima facie, parece que é o fim do mundo, menos de 72 horas antes do início de Genebra-2 marcado para amanhã, 4ª-feira (22/1/2014).

Contudo, se se analisa melhor, a arte do chute direto a gol é difícil e exige longo, dedicado treinamento para que dê o resultado que se deseja que dê. Ban, todos sabemos, jamais deu qualquer sinal de algum dia ter praticando chute direto a gol nas horas de folga. A reação de Psaki pode ter sido completa encenação? Talvez o governo Obama já estivesse informado de que Ban andava treinando tiro a gol com muita determinação e dando o melhor de si, nesses últimos dias, enquanto Genebra-2 se aproximava? Talvez... o treinador fosse Tio Sam em pessoa? Talvez tudo isso não passe de estratégia de retirada?

Jen Psaki
Psaki disse com tanto de vagueza quanto de informação que Washington até conseguiria conviver com a participação do Irã, desde que os iranianos explicitamente endossem o Comunicado de junho de 2012, embora tenha usado uma fórmula de dupla negação para dizê-lo:

É algo que o Irã jamais fez publicamente e algo que nós [EUA] dizemos claramente, há muito tempo, que é indispensável. Se o Irã não aceitar publicamente e integralmente o Comunicado de Genebra, o convite deve ser rescindido.

Teerã ainda não respondeu. Apenas registrou o recebimento do convite, registro protocolar. Considerados o engenho e a arte do pensamento dos persas, eles estão certamente formatando uma declaração em que endossem o comunicado de junho de 2012, mas de tal modo e com tais palavras que nada sugira que estejam cedendo à precondição imposta pelos norte-americanos.

Humilhações e embaraços provocados e sofridos são considerações muito importantes naquela parte do mundo. (De fato, guardo nos meus arquivos o fascinante verbete redigido pela CIA, de 1994, sobre “Face” [ing., aproximadamente “autoimagem”, “autoapresentação”], Face” Among the Arabs). Mas, por outro lado, nada disso é, de fato, matéria substancial; é um não assunto, uma não questão, porque o Irã genuinamente nada esconde, que possa de algum modo ameaçar o processo de Genebra-2.

Além disso, Teerã certamente sabe que o governo Obama deseja que o Irã esteja lá, para Genebra-2, na 4ª-feira (22/1/2013); mas teme convidar Teerã publicamente (os sauditas subiriam pelas paredes).

Pela minha avaliação, o verdadeiro problema será o Conselho Nacional Sírio. Na língua malaiala, diz-se que “o coco sempre cai na cabeça de quem mais quer gemer...” O CNS é participante muito relutante de Genebra-2. Agora, se decidir fazê-lo, terá desculpa para pular fora.



[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.