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quinta-feira, 25 de junho de 2015

50 livros que mais influenciaram Leon Tolstoy (1891)

11/7/2014, Open Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

É impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe [keném jornalista brasileiro, com comunicação política de democratização: acham que sabem; nuuunca aprenderão] (Epíteto, o Enorme)

A lista é de 1891, aos 63 anos de Tolstoy. Um editor russo pediu a 2 mil professores, intelectuais, artistas e gente de letras e luminares em geral, que listassem os livros mais importantes para cada um. Tolstoy respondeu com essa lista dividida por cinco idades da vida, e até com o grau da “influência” (“enorme”, “m.[uito] grande” ou apenas “grande”). É uma espécie de preciosidade, até aqui só encontrável num postado do Valley Advocate, Northampton, Massachusetts:


Leon Tolstoy


TRABALHOS QUE ME IMPRESSIONARAM
Infância até os 14 anos, aproximadamente
  • História de José, da Bíblia – Enorme
  • Contos das Mil e Uma Noites: os 40 ladrões, Prince Qam-al-Zaman – Grande
  • A Pequena Galinha Preta [The Little Black Hen], Pogorelsky – M. grande
  • Russian byliny:Dobrynya Nikitich, Ilya Muromets, Alyosha Popovich. Contos Folclóricos – Enorme
Idade 14-20 anos
  • Evangelho Segundo São Mateus: Sermão da Montanha – Enorme
  • Jornada Sentimental, SterneM. grande
  • Confissões, Rousseau – Enorme
  • Emílio, Rousseau – Enorme
  • Nova Heloísa, Rousseau – M. grande
  • Yevgeny Onegin, Pushkin  – M. grande
  • Die Räuber [Os bandoleiros] Schiller – M. grande
  • Capote Gogol, The Two Ivans, Nevsky Prospect – Grande
  • “Viy” [conto de Gogol] – Enorme
  • Almas Mortas Gogol – M. grande
  • Esquetes de um Esportista Turgenev – M. grande
  • Polinka Sachs Druzhinin – M. grande
  • The Hapless Anton  [Infeliz Antônio] Grigorovich – M. grande
  • David Copperfield Dickens  – Enorme
  • A Hero for our Time, Taman Lermontov – M. grande
  • Conquest of Mexico  Prescott – Grande
Idade, 20-35 anos
  • Goethe. Hermann and Dorothea – M. grande
  • Victor Hugo. Notre Dame de Paris – M. grande
  • Poemas de Tyutchev – Grande
  • Poemas de Koltsov – Grande
  • Odisseia e Ilíada (lidas em russo) – Grande
  • Poemas de Fet – Grande
  • Fedro e Banquete de Platão (fr., na tradução de Cousin) – Grande
Idade 35 a 50 anos
  • Odisseia e Ilíada (em grego) – M. grande
  • The byliny – M. grande
  • Victor Hugo. Os Miseráveis – Enorme
  • Anabase de Xenofonte – M. grande
  • Mrs. [Henry] Wood. Romances – Grande
  • George Eliot. Romances – Grande
  • Trollope, Romances – Grande
Idade 50 a 63 anos
  • Todos os Evangelhos em grego – Enorme
  • Livro do Gênesis (em hebraico) – M. grande
  • Henry George. Progresso e Pobreza – M. grande
  • [Theodore] Parker. Discurso sobre tema religioso – Grande
  • [Frederick William] Sermões de Robertson – Grande
  • Feuerbach (Esqueci o título; trabalho sobre o Cristianismo) [A Essência do Cristianismo] – Grande
  • Ensaios de Pascal – Enorme
  • Epiteto – Enorme
  • Confúcio e Mêncio – M. grande
  • Sobre o Buddha. Francês conhecido (esqueci) [“Lalita Vistara”] – Enorme
  • Lao-Tze. Julien [São Julião, tradutor francês ] – Enorme
FIM DA LISTA
Nota dos tradutores
[1] Tolstoy ainda viveu quase 20 anos depois dessa lista.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Salò e Petróleo: agir apesar de tudo

Como pode o intelectual intervir no mundo?

11/2014, [*] Vinícius Nicastro HoneskoRevista Cult
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na gafieira Batecoxa, na Vila Vudu: Quem não viu, veja: os “âncoras” e torsos falantes fascistas sorridentes e jornalistas do jornalismo brasileiro — o jornalismo mais degradado DO MUNDO — são a cara escarrada de nosso “presunçoso neocapitalismo”. 
Pasolini vive!


Pasolini durante as gravações de Salò (1975)
Durante as gravações de Salò ou os 120 dias de Sodoma, em 1975, Pier Paolo Pasolini mostrava-se exausto. Era um tempo de muito trabalho, de muita exposição política, de debates públicos intermináveis, de uma Itália assolada pela polarização extrema entre direita e esquerda e pelos atentados terroristas que tingiam de sangue os diários e semanários. A exaustão do intelectual podia ser notada na expressão cansada com que, por vezes, aparecia em entrevistas. Além da produção e filmagem de Salò, que lhe consumiam, em 1975 Pasolini escrevia contundentes cartas públicas e artigos para jornais e revistas em que beirava certo desespero: anunciava o fim de um modo de vida tradicional, a ascensão de um novo fascismo (guiado pela sociedade de consumo), a corrupção e os crimes políticos daqueles anos de chumbo italianos.

Esse cansaço e desespero, quase ontológicos, de Pasolini, entretanto, não impediam seu trabalho. Escrevia como nunca, expunha-se quase ao ponto de saturação de sua imagem, pensava projetos, organizava ideias etc.. Dentre essas inúmeras atividades, incluía-se aquilo que, segundo ele mesmo, seria sua grande e derradeira obra, um imenso romance, “um Satyricon do moderno”. Em entrevista concedida a Luisella Re, em 01 de janeiro de 1975, quando da pergunta, “O senhor tem algumas previsões para o futuro?”. Pasolini responde que estava trabalhando em um projeto, “uma espécie de summa”, diz ele, “de todas as minhas experiências, de todas as minhas memórias”. Tal projeto é Petróleo, livro que, sabemos, permaneceu inconcluso durante a vida do autor. De fato, o livro, inacabado, recebeu sua primeira edição apenas em 1992, pela Editora Einaudi, com organização de Maria Careri e Graziella Chiarcossi. Mais do que um romance tecido de modo convencional, o livro seria, como atesta a carta que Pasolini envia a Alberto Moravia (incluída já na edição de 1992), construído com uma narrativa na qual o próprio autor estaria implicado (e os críticos apontam as personagens centrais – Carlo I e Carlo II – como autorretratos do próprio Pasolini) e, além disso, seria também uma denúncia dos abusos de poder na Itália.

Pasolini escrevendo (1974)
Pouco antes da entrevista a Luisella Re, Pasolini escreve um texto para sua coluna no Corriere della Sera, em 14/11/74, intitulado “O que é este golpe?”, no qual fala sobre os crimes e problemas políticos fundamentais que estão acontecendo na Itália daqueles anos. No artigo, diz ser necessário colocar em debate os problemas, bem como denunciar tais crimes. Essa seria a função do intelectual. Entretanto, ao mesmo tempo, ele sabe que qualquer forma de ingresso de um intelectual na prática política estatal daqueles anos é impossível. “A coragem intelectual da verdade e a prática política são duas coisas inconciliáveis na Itália”, diz. Restaria ao intelectual um papel servil: debater problemas morais e ideológicos, numa pura figuração hipócrita.

Pasolini, todavia, pensa a posição do intelectual para além dessa função. No mesmo artigo, diz que o intelectual deve intervir, ainda que seja numa denúncia de toda a classe dos políticos, postura que reassume em entrevista concedida a Jean Duflot, em 1975, quando afirma literalmente: “um intelectual tem o dever de exercer uma função crítica sobre práticas políticas globais, de ‘'destotalizar'’, senão, que intelectual seria ele?”.

No limite, portanto, o intelectual tinha de se colocar como alguém que tem o dever de intervir eticamente no mundo e, assim, agir como um corsário – e tal é o adjetivo que recebem seus textos publicados no Corriere della Sera naqueles mesmos anos.

Pasolini e Orson Welles (La Ricotta - anos 60's)
É no dia primeiro de fevereiro de 75, um mês após anunciar a Lusinella Re o projeto em que empenharia sua vida, que Pasolini escreve, na mesma coluna do Corriere della Sera, um artigo (que se tornará notório) no qual faz uma sucinta e precisa análise do que acontece no cenário econômico e político da Itália desde o início dos anos 60.

A partir da sua constatação do desaparecimento dos vagalumes no norte da Itália, por conta da poluição e destruição dos campos vindas com a industrialização daqueles anos, Pasolini fala que o que está acontecendo em seu país não é algo esporádico e de ocasião, mas uma verdadeira mutação antropológica em que os valores tradicionais não contam mais, nem mesmo enquanto falsos valores. Surgem, diz, “os valores de um novo tipo de civilização, totalmente outra em relação à vida rural e paleoindustrial. [...] Não estamos mais, como todos sabem, diante de ‘tempos novos’, mas de uma nova época da história humana: desta história humana cuja contagem se dá em milênios”.

Alguns meses depois, pouco antes de sua morte, Pasolini, também em entrevista a Jean Duflot, fala dessa mutação antropológica, do surgimento desses novos homens e do poder que os governa. Diz ele tratar-se de “um poder histérico, que tende a massificar os comportamentos, a normalizar os espíritos simplificando freneticamente todos os códigos, especialmente “tecnicizando” a linguagem verbal. [...] O novo fascismo é propriamente uma poderosa abstração, um pragmatismo que canceriza toda a sociedade, um tumor central, majoritário…”.

Pasolini entre Alberto Moravia e Laura Betti  (1967)
Como sentir-se diante de um panorama tão obscuro? Como intervir, cumprindo seu papel de intelectual, em tal contexto? Como agir nessa era de mutação antropológica? No contexto dos primeiros cinco anos da década de 70, por certo, como se constata nos seus artigos para jornais e nas entrevistas, Pasolini expõe a própria vida no debate político. E, nesse sentido, veem-se dois momentos cruciais dessa exposição: Petróleo e Salò, suas ações radicais. O mundo no qual a vida dos homens perde seus referenciais é um lugar onde nenhum tipo de inocência é possível e ele, como intelectual, sabia que à vida no seu tempo não havia esperanças mas, mesmo assim, com uma vitalidade desesperada (título de uma das séries de sua coletânea Poesia in Forma di Rosa), sabia também que não lhe restava senão a resistência. E tal resistência, levada ao extremo, seria realizada tanto na exposição do que chama de “a anarquia do poder”, em Salò, quanto na sua summa acusativa, Petróleo. Poucos dias antes da morte, Pasolini confessa ao amigo Paolo Volpani que terminado Salò não trabalharia com cinema por um bom tempo e que, naquele momento, dedicava-se a um imenso romance, justamente, Petróleo.

Neste, diz Pasolini ao amigo, viriam “todos os problemas desses vinte anos de nossa vida italiana política e administrativa, da crise da nossa república: com o petróleo como fundo, como grande protagonista da divisão internacional do trabalho, do mundo do capital, que é aquele que determina assim essa crise, os nossos sofrimentos, as nossas imaturidades, as nossas fraquezas e, ao mesmo tempo, as condições de subjugação da nossa burguesia, do nosso presunçoso neocapitalismo”.

Pasolini e sua mãe, Susanna (anos 1960's)
A vontade de denúncia, uma espécie de “coragem da verdade”, toca a fundo Pasolini. Sem esperanças, o intelectual joga-se no confronto diário, pois, para ele, sem esperanças também estava a Itália e o mundo. Naqueles anos, a recorrência e ressonância da voz do Marquês de Sade é uma constante no seu confronto com os detentores do poder. Numa carta aberta ao Presidente da República, publicada no Il Mondo de 11/9/75, Pasolini fala do enigma que para ele é a “vocação de governar” e que, no limite, na Itália tal vocação não portaria nada de especial senão o próprio modo de deter o poder. E, nesses mesmos meses, é o monsenhor deSalò a pronunciar um trocadilho que ecoa nesse enigma que ronda Pasolini: “nada é mais anárquico do que o poder. O poder faz o que quer, como quer”.

O poder na sua arbitrariedade e, por isso, Pasolini recorre a Sade: os imperativos do sádico que nulificam o corpo, reduzem-no a mercadoria, assim como também o fazem os imperativos do poder com aqueles a ele sujeitados.

Se, para lembrar o crítico René Schérer, podemos dizer que, em Salò, está a exposição clara da democracia que termina em fascismo, e do hedonismo que se traduz na putrefação e destruição dos corpos, em Petróleo – em seu caráter alegórico obscuro e viscoso – por sua vez, Pasolini procura demonstrar como ele, intelectual público, também está implicado nessa destruição. Nos últimos anos de sua vida, portanto, Pasolini faz de suas denúncias uma maneira de declarar-se nesse processo destrutivo, mas, ao mesmo tempo, sua forma de resistir, sua única ação possível diante da evidente catástrofe de seu tempo. Portanto, ao dirigir Salò (e com exposições viscerais de como se lhe mostrava o poder) e ao escreverPetróleo (com seus quase autobiográficos Carlo I e II, com as denúncias veladas e, por vezes, claras de corrupção e crimes políticos), sabia-se implicado nesses mundos que descrevia: a Salò de 1945, que alegoriza a tirania de todo poder, e a Itália de seu presente, os anos 70, onde o horror do poder se consolida de modo nefasto. No limite, Pasolini sabia que, com a função de destotalizar que cabia ao intelectual, deveria se expor, custasse isso sua vida.

Pasolini atormentado... (anos 1970's)
“Tudo o que faço está provavelmente destinado ao fracasso, mas faço-o apesar de tudo, porque há que fazê-lo”, disse Sartre em um programa de rádio em setembro de 1973 (e sabemos desse seu resistir até os limites dos pulmões, em 1980). Talvez poderíamos dizer que diante de um mundo que se mostrava impossível, aos intelectuais não restava senão certo desespero (e não seria isso de uma atualidade inconteste?). Porém, àqueles que se nutriam de mundo não havia saída e, ainda que fadados ao fracasso, colocavam-se inexoravelmente em jogo até o fim, até a morte. Nesse sentido, Pasolini, apesar de tudo, faz tudo o que faz até o limite, até não mais poder fazê-lo, até os confins da praia de Ostia.


[*] Vinícius Nicastro Honeskograduei-me em Direito pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Mestre em Filosofia do Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mesma instituição onde obtive título de doutor em Literatura. Desenvolvo um projeto de pós-doutorado no IEL/UNICAMP, sob supervisão da professora Maria Betânia Amoroso, em que trabalho com a tradução de “Petrolio”, de Pier Paolo Pasolini. Atualmente sou professor do Departamento de História (DEHIS/UFPR), atuando nas áreas de História Contemporânea. Minhas pesquisas recentes tratam das questões da “Leitura da História” por meio de análises de teóricos como Walter Benjamin, Aby Warburg, Georges Didi-Huberman e, sobretudo, Giorgio Agamben (de quem já traduz algumas obras e ensaios para o português). Além disso, também trabalho com a interseção história e narrativa ficcional (no âmbito do cinema e da literatura). Sou membro pesquisador do grupo NAVIS – Núcleo de Artes Visuais. Além de artigos em revistas acadêmicas e literárias, publiquei “O Paradigma do Tempo. Messianismo e Walter Benjamin em Giorgio Agamben” (Rio de Janeiro; São Paulo; Florianópolis, 2009). Temas de pesquisa e orientação: história e narrativas ficcionais; história do cinema; história e literatura; teoria da história e historiografia.
Curriculo Lattes: aqui 
E-mail: viniciushonesko@gmail.com 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Radiografia-desmonte do Nobel de Mo Yan


13/10/2012, MK Bhadrakumar*, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Anna Akhmatova

O que estamos fazendo - nem nós mesmos sabemos,
mas a cada momento, mais isso nos assusta...
Como quem saiu da prisão,
sabemos algo um do outro,
algo terrível. Estamos num círculo infernal.
Mas talvez isto não sejamos nós”.
“Através dos Espelhos”, in Anna Akhmatova - Poesia: 1912-1964, Porto Alegre, Ed. L&PM, 1991 - trad. port. do Brasil, de Lauro Machado Coelho*




O Prêmio Nobel de Literatura ter sido dado ao romancista chinês Mo Yan provocará mais de um olhar de incômodo ou de arrogância [1]. Não porque Mo não mereça a honraria, mas porque o prêmio tem história sempre muito controvertida. 

Em 2012, as controvérsias distribuem-se em três categorias – se o premiado realmente merece tão excepcional honra; por que alguns outros autores foram mais uma vez deixados de lado; e, terceira categoria, claro, a nacionalidade do premiado.


A primeira categoria induz a crer que nada se sabe nem se pode saber (por algum tempo) – até que a comissão do Nobel desencave outro nome excitante.

A segunda categoria de controvérsias é causa de incômodo – Anna Akhmatova, Yevgeny Yevtushenkov e Andrey Voznesensky foram deixados de lado, e Joseph Brodsky “ganhou”. (Vladimir Mayakovsky suicidou-se aos 37 anos, [2] antes de que o Nobel sequer soubesse de sua existência).

A terceira categoria de controvérsias obriga a considerar uma verdadeira pequena galeria de souvenirs excêntricos do tempo da Guerra Fria.

E onde entra Mo?

Sinceramente, só li sobre ele e não o conheço diretamente; parece ser romancista de vanguarda como Gao Xingjian (2000) cujo A Montanha da Alma [São Paulo: Alfaguara/Objetiva] li duas vezes (e talvez volte a ler), embora esteja longe do romancista emigrado que foi Gao (rejeitado pelo establishment chinês, optou pelo exílio). Todos os comentários concordam [3] em que Mo é autor valiosíssimo. Gao é autor de experimentos com a escritura de diferentes modalidades narrativas, e Mo, ao que parece, buscou reconectar-se à cultura e as tradições chinesas.

Fã apaixonado do realismo mágico na ficção, mal posso esperar para ler Mo.

Mas... É a nacionalidade, estúpido!

O que mais se discute, no caso de Mo, é ele ser CHINÊS e, ainda mais inacreditável e surpreendente, que Mo integra “a sociedade chinesa mainstream [4], como escreve ardilosamente o Global Times chinês. O que nos leva à questão seguinte: haverá aí alguma mensagem política?

Ah, sim! A política jamais se afasta do Prêmio Nobel – como quando premiaram Pasternak (ainda em vida de [Anna] Akhmatova [5]).

Em tom de incontrolável euforia, o Global Times chinês compara 2012 e 1930, quando Sinclair Lewis recebeu o Nobel — como se o Nobel estivesse reconhecendo o aparecimento da China no cenário global hoje; assim como teria reconhecido o aparecimento dos EUA no cenário global, como grande potência, há 82 anos.

Mikhail Sholokov 
Em minha opinião, a coisa aí está mais para Mikhail Sholokov [6] (1965), tudo outra vez. Aqueles tempos foram tão tumultuosos quanto os tempos chineses, hoje.

O “Degelo de Khruchev” [7] arquitetou e promoveu transformação irreversível na economia, na política e na sociedade soviéticas. Autores libertos, desmesurados, nas artes, literatura, música; atletas soviéticos conquistando medalhas olímpicas às pencas; a muito simbólica retirada da múmia de Josef Stalin de onde estivera até então, no Mausoléu de Lênin; a URSS abrindo-se para a “comunidade internacional”; teorias da coexistência pacífica; consumismo; novas cozinhas familiares privadas, não mais coletivas. (Evidentemente, todos esses eventos enfraqueceram muito, dali em diante, o Partido Comunista Soviético).

E então sobreveio a demissão de Khruchev, em 1964. Um ano depois, havia ainda grandes perguntas no ar, sem respostas, sobre para que lado sopraria o vento, que estrada a União Soviética tomaria. O julgamento Sinyavsky-Daniel [8] com seus traços de ideologia autoritária que lutava para se reimplantar, aconteceu em 1965. Nesse momento, precisamente, Sholokov foi escolhido para receber o Nobel.

Seu romance mais conhecido (Tikhy Don [O Don Corre Tranquilo]) é retrato pungente da luta heroica e trágica dos cossacos, pela independência da região do Don, contra os bolcheviques.

Sholokov era melhor personagem que Mo. Era membro do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética; membro do Soviete Supremo; membro da Academia Soviética; Herói do Trabalhismo Socialista – e laureado com o Prêmio Stálin. Mas, examinado mais de perto, também era figura enigmática – arquetípico e rebelde.

Sholokov escreveu cartas a Stálin reclamando das terríveis consequências do programa de coletivização no final dos anos 1920s e início dos 1930s. E acompanhou Khruchev em sua histórica visita aos EUA em 1959. Foi símbolo do “Degelo de Khruchev”. E denunciou Alexander Solzhenitsyn.



Notas de rodapé

*Epígrafe acrescentada pelos tradutores [NT].

[1] 12/10/2012, New York Times, em: After Fury Over 2010 Peace Prize, China Embraces Nobel Selection

[2] Prominent Russians: Vladimir Mayakovsky (July 19, 1893 – April 14, 1930)
[3] 12/10/2012, The Guardian, UK, Howard Goldblatt em: My hero: Mo Yan.
[4] 12/10/2012, Global Times, em: Nobel Prize a win for mainstream values
[5] Collection of Poems by Anna Akhmatova:  ((Born 1889, Died 1966)
[6] Leia mais sobre Mikhail Sholokhov.
[7] Orig. Khrushchev Thaw. Período, de meados dos anos 1950s ao início dos 1960s, quando a repressão e a censura foram reduzidas na URSS e milhões de prisioneiros foram libertados dos campos de trabalhos forçados, com a política de “des-stalinização” de Nikita Khrushchev. [NT].
[8] Orig. Sinyavsky-Daniel Trial. “Em setembro de 1965, autoridades soviéticas prenderam um conhecido crítico literário, Andrei Sinyavsky, e um tradutor relativamente obscuro, Yuly Daniel, e os acusaram de denegrir o sistema soviético em trabalhos publicados no exterior, sob pseudônimo. Os trabalhos em questão eram satíricos, mas de modo algum antissoviéticos; no ensaio On Socialist Realism [Sobre o realismo socialista], por exemplo Sinyavsky (ou "Abram Tertz") advogava nada mais radical que um retorno ao estilo aventuroso de Vladimir Mayakovsky. Apesar disso, depois de uma campanha furiosa de denúncias pela imprensa em janeiro de 1966, os dois foram condenados, em tribunal espetaculoso em fevereiro. Sinyavsky foi condenado a sete anos, e Daniel a cinco, em regime fechado, num campo de trabalhos forçados.
Tudo sugere que elementos conservadores do regime Brezhnev-Kosygin, determinados a por fim aos “experimentos” artísticos da era Khrushchev, criaram o “caso” como sinal para alertar os artistas de que havia uma linha vermelha que não poderia ser ultrapassada; e para calar os intelectuais. Mas foi sinal ambíguo, em momento em que os conservadores absolutamente não estavam firmemente plantados no poder – e o “sinal” não produziu os efeitos esperados. Sinyavsky e Daniel recusaram-se a representar os papéis a eles atribuídos e defenderam-se vigorosamente no tribunal. Houve protestos nas ruas de Moscou contra as prisões em dezembro de 1965, seguidos de uma campanha pública, que fez crescer o número de protestos e samizdat [prática pela qual indivíduos e grupos de pessoas copiavam e distribuíam clandestinamente livros e outros bens culturais que haviam sido proibidos pelo governo na União Soviética], que levaram à edição de Chronicle of Current Events [Crônica dos Eventos Atuais] em abril de 1968.
O julgamento Sinyavsky-Daniel tem sido interpretado como a faísca que galvanizou o movimento dissidente, e acabou por induzir muitos intelectuais a deixar de trabalhar dentro do sistema” [De WALLACE, JONATHAN D.. “Sinyavsky-Daniel Trial". Encyclopedia of Russian History. 2004. [NT].

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MK Bhadrakumarfoi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.