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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Pepe Escobar: “Nem sempre a OTAN pode ter tudo que quer”


29/5/2015, [*] Pepe Escobar, SputnikNews
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A reunião EUA-Rússia em Sochi (12/5/2015)
O cerne da questão na já mítica reunião do dia 12 de maio de 2015 em Sochi (Rússia) entre o Presidente Putin e o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, é que, depois de uma torrente de demonização da Rússia, pelos EUA, um acordo, alguma espécie de acordo, no mínimo, pode ter sido alcançado. Desnecessário dizer que nenhuma fonte oficial, nem em Washington nem em Moscou, confirmará.
Imperativos geopolíticos fazem supor que Kerry – nada além de leva-e-traz dos verdadeiros Masters of the Universe no Departamento de Estado – pediu que Putin “ajudasse” no ex-“Oriente Médio Expandido” inventado pelos EUA, e que facilitasse o processo que pode levar a um acordo que parece iminente no P5+1, sobre o programa nuclear do Irã.
Putin disse a Kerry que negócio fechado, desde que aquela histeria sobre a Ucrânia sumisse completamente e imediatamente.
Não há prova material – por enquanto – de que Washington esteja disposta a admitir, afinal, mesmo que só tangencialmente, que cometeu monumental tolice geopolítica na Ucrânia; o aprofundamento da parceria Rússia-China, que se constituiu e já dá frutos à velocidade da luz, é apenas um dos efeitos chaves daquela tolice. O fim das sanções seria evento sem precedentes em solo (da Eurásia).
Em vez disso, por enquanto, o que se tem é a usual promoção de guerra a qualquer custo, pela OTAN – remix.
“Perigoso jogador!”
O general Hans-Lothar Domröse, Comandante da Força Conjunta Aliada Brunssum, da OTAN, está convencido de que a Rússia é “uma ameaça”; que Putin não passa de “perigoso jogador”; e que os russos “consideram possível usar armas nucleares táticas para assim iniciar uma guerra. Nós [a OTAN], não”.  
Hans-Lothar Domröse
Herr General mente, é claro – nos dois lados (que Moscou quer usar armas nucleares; e que a OTAN não quer). Pelo menos foi forçado a admitir que a OTAN não vê a Rússia como inimiga; no máximo, como “ameaça” potencial.
A narrativa prossegue – monotonamente – sempre a mesma. No início desse mês, o manda-chuva da OTAN, general Philip Breedamor – melhor dizendo, Breedraiva — acusou a Rússia de fazer ameaças nucleares “irresponsáveis”. Além disso, o general Breedraiva nunca perde a ocasião de repetir mentira das gordas, sempre acusando a Rússia de ter cometido a proverbial “ofensa” no Donbass e de “violar” Minsk-2. A verdade é que todas as ofensas e/ou violações vêm de Kiev.
O Secretário-Geral da OTAN, o patético norueguês desdentado Jens Stoltenberg, não deixa passar nenhuma ocasião de “declarar” que “a Rússia usará armas nucleares”. Insiste que o sistema de mísseis de defesa da OTAN não está orientado contra a Rússia (é mentira), e que a OTAN não quer confronto (é mentira).
Todo esse pandemônio sobre armas nucleares baseia-se no que o Diretor do Departamento de Não Proliferação e Controle de Armas do Ministério de Relações Exteriores da Rússia, Mikhail Ulyanov, disse, numa conferência revisora do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, que o que Washington está urdindo poderia – palavra chave aí é “poderia” – levar Moscou a decidir ampliar seu arsenal nuclear.
Ulyanov logo na palavra seguinte já disse que Moscou não fará nada disso. Mas não adiantou. A parte que não interessa à OTAN sempre, inevitavelmente, se perde na tradução.
Permanece também o fato de que, enquanto EUA/Pentágono/OTAN falam – ou correm de um lado para outro em perfeita alucinação – Moscou vai silenciosamente se preparando para proteger o território russo contra qualquer coisa que os militares dos EUA possam disparar para lá, inclusive um Prompt Global Strike (PGS).
Rússia pode aumentar seu arsenal nuclear
E manobre a OTAN quanto quiser, a Rússia sempre reage à altura, muitas vezes com exercícios militares de surpresa. Se a OTAN lança seu maior jogo de guerra da história bem ali junto às fronteiras russas – pura provocação – Moscou reage com jogos de guerra no Mediterrâneo, em ação coordenada com o Exército Popular de Libertação, o chinês. Mais uma instância da parceria estratégica, faça chuva, faça sol, entre Rússia e China.
Verão nuclear, alguém se interessa?
Inevitavelmente, a incansável incitação à guerra, ação do Pentágono, tinha de se estender também à China. E o jornal Global Times – ecoando certamente a visão predominante dentro do Exército de Libertação Popular – respondeu na hora, alertando que “a guerra é inevitável”, se Washington insistir em “exigir” que Pequim pare de construir ilhas artificiais no Mar do Sul da China.
Na sequência, mais um moinho lança ao vento incontáveis provocações de guerra, empurrado adiante pelos suspeitos de sempre do turbocapitalismo da tribo de George Soros, que sopram as chamas histéricas de “a-guerra-está-chegando” e chegam a perguntar quantas nações do fragmentado “Ocidente” Washington conseguirá arregimentar para a guerra não só contra a Rússia, mas também contra a China.
Marinha chinesa em exercício no Mar do Sul da China
E isso, quando os generais norte-americanos da OTAN não conseguem convencer as nações membros a gastar, com a Defesa, nem 2% dos respectivos PIBs.
Seguindo a mesma deixa, há também um tuíto de John Schindler, ex-Agência de Segurança Nacional e ex-professor da Academia de Guerra Naval dos EUA, devidamente ampliado pela máquina de gerar boatos. Schindler insiste que um alto agente da OTAN (não norte-americano), disse a ele que:
No próximo verão estaremos provavelmente em guerra. Se tivermos sorte, não será nuclear.
Quer dizer que os Drs. Fantásticos lá em Bruxelas, em vez de sol & festa na Costa Brava, estão-se “preparando” para um Bravo Verão Nuclear.
Longe vão os dias quando qualquer infração direta ao dictum excepcionalista – “se não gostamos de você, bombardeamos você” – era assunto resolvido. Hoje, só lhes resta um pequeno Mare Nostrum onde promoverem o medo, para os generais da OTAN cevadores de ódios, como os Breed-raiva.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

sábado, 16 de maio de 2015

Paul Craig Roberts: Washington recuperou o bom senso?


15/5/2015, [*] Paul Craig Roberts – Institute for Political Economy
Is Washington Coming To Its Senses?
Traduzido por mberublue
Reunião de 12/5/2015 em Sochi, Rússia
A visita apressada do Secretário de Estado estadunidense, John Kerry, à Rússia já provocou muita especulação, dado que ocorreu justamente na esteira da exitosa celebração do Dia da Vitória em 9/5/2015 em Moscou. Em 11/5/2015 o Secretário Kerry, que havia desdenhado a Rússia naquele dia 9/5, estava a caminho da Rússia, tendo Putin consentido em recebê-lo em 12/5/2015.
 
Apenas com o passar do tempo descobriremos porque Kerry menosprezou Putin em 9/5 e apenas três dias depois estava criticando o regime fantoche dos EUA atualmente instalado na Ucrânia. Pelo que se sabe até agora, uma das possíveis explicações é que Washington finalmente recuperou seu bom senso.
 
Caso você tenha assistido o vídeo de uma hora e vinte minutos da Parada do Dia da Vitória, você deve ter percebido que a celebração não foi apenas uma festa e transmitiu uma mensagem poderosa. A Rússia é uma potência militar de primeira classe, além de estar claramente apoiada pela China e pela Índia, cujos soldados marcharam juntamente com os russos na parada.
 
Então, enquanto o cada vez mais irrelevante ocidente continua engolfado em um narcisismo doentio, sonhando com a própria e suposta importância e desprezando as celebrações da vitória que o Exército Vermelho lhe deu contra Hitler, os três maiores países do mundo estavam presentes. Juntos. A Rússia é detentora da maior massa geográfica e a China e a Índia, também países enormes geograficamente falando, têm as maiores populações do mundo.
 
A celebração em Moscou, entre outras coisas, serviu para deixar claro que Washington falhou miseravelmente na tentativa de isolar a Rússia. O que Washington conseguiu mesmo foi unir ainda mais os países do grupo BRICS. 
 

BRICS versus EUA
A celebração, que viu o presidente da China sentado ao lado direito de Putin, tornou cristalino, mesmo para os imbecis que fazem parte do staff de Obama, que os EUA já não são poder onipotente.
 
Pensem agora no impacto causado entre os fantoches dos EUA na Europa, os quais são a parte mais importante do império norte americano. Os Europeus estão cientes que duas das maiores potências militares que a história registrou não sobreviveram quando resolveram invadir a Rússia. Napoleão perdeu o Grande Exército na Rússia e Hitler viu a Wehrmacht destroçada na Rússia. Os Europeus estão sabedores de que estão sendo empurrados para um conflito contra a Rússia, apenas para defender os interesses de Washington nos seus desejos de hegemonia mundial. Mesmo acostumados a obedecer a Washington, quando o assunto é lutar contra a Rússia as dissensões começam a pipocar. Já se podem ver sinais de tentativas de independência na política externa europeia, quando Merkel e Hollande se encontraram com Putin para tentar solucionar o conflito na Ucrânia, orquestrado por Washington.
 
Tendo que encarar a falha completa de suas tentativas de isolar a Rússia, em combinação com a emergência de uma política externa independente na Europa, Obama enviou Kerry para pedir a Putin que trabalhe para encontrar uma maneira de amenizar a crise ucraniana. As atividades pacificadoras de Putin permitirão que Obama não passe tanta vergonha, livrando um pouco a cara, mas isso não é nada agradável para os neoconservadores do complexo exército/segurança nos EUA. Já investiram pesadamente na arrogância de Amerika über alles (Amerika über alles – aqui, o autor faz um jogo de palavras com o primeiro verso do hino alemão “Deutschland, Deutschland über alles” ou seja: Alemanha, Alemanha acima de tudo – NT) e estão no momento babando pelos lucros que adviriam de uma nova guerra fria. Ou quente.
 
Resumindo, Obama, Cameron e Kerry terão que aprender a fazer mágica: eles têm “apenas” que fazer uma transição instantânea – da demonização de Putin para o trabalho em conjunto com o presidente russo. 
 
A Junta nazifascista de Kiev bombardeia áreas civis no Donbass
Agora, os EUA pretendem usar a sedução, não tendo tido sucesso ao usar a força contra a Rússia. Mas se os povos do ocidente esperam escapar do estado policialesco que Washington impôs ao mundo ocidental, eles precisam rezar muito para que Putin não seja seduzido.
 
Não há estadistas no ocidente. Existe apenas o egoísmo e a arrogância. A “liderança” ocidental baseia-se na exploração. Tendo saqueado impiedosamente os países não ocidentais, agora o ocidente começa a comer as próprias entranhas, através do saque efetuado contra a Irlanda e a Grécia, com a Itália, Espanha e Portugal como os próximos alvos para a pilhagem e o roubo. A própria população norte americana foi saqueada cruamente ao perder seus empregos, suas aspirações de progresso pessoal e seus direitos civis.
 
O modelo ocidental de “capitalismo democrático” não é democracia nem capitalismo, mas uma forma de fascismo conduzida por uma oligarquia. O país que mais desesperadamente necessita de uma mudança de regime são os Estados Unidos da América. 

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[*] Paul Craig Roberts (nascido em 3/4/1939) é um economista norte-americano, colunista doCreators Syndicate. Serviu como Secretário-Assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da ReaganomicsEx-editor e colunista do Wall Street Journal,Business Week e Scripps Howard News ServiceTestemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch  Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia,  Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.