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quinta-feira, 12 de março de 2015

Castelos no ar no Kaganato de Nuland

8/3/2015, [*] David Goldman (“Spengler”) [1] – PJ Media
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Victoria Nuland
Há um país das maravilhas onde príncipes e princesas mágicos resgatam pessoas das garras e sortilégios maléficos de bruxas horrorosas. Chama-se Kaganato de Nuland.

No Kaganato reinam, claro, a Secretária–Assistente de Estado para a Europa, Victoria Nuland, e o marido dela, Robert Kagan, autores, respectivamente, da mais completa imbecilidade jamais registrada nos anais da política externa dos EUA (“Foda-se a União Europeia”); e do pior livro sobre política externa surgindo numa década que, no geral, só produziu livros péssimos.

Comentei a horrorosa peça que Kagan produziu, quando do lançamento, há três anos, com a tal tese dele, de contos de fadas, sobre o triunfo inevitável da democracia liberal.

É possível na Primavera Árabe que estamos vendo, uma continuação de Terceira Onda, ou talvez mesmo uma quarta. A explosão de democracia está entrando já na quinta década sem interrupção, a mais longa e mais ampla dessas expansões na história – escreveu Kagan.

E Nuland teve seus 15 minutos de fama quando alguém, presumivelmente a inteligência russa, vazou para o Youtube o seu palavreado rastaquera, ridículo, em conversa, em 2013, com o embaixador dos EUA na Ucrânia. Vídeo legendado a seguir:  


Kagan e Nuland sinceramente creram que a derrubada do governo de Yanukovich pelo movimento da Praça Maidan inspiraria um movimento na Rússia que acabaria por depor Vladimir Putin, assim como creram que a Primavera Árabe inauguraria uma grande onda democrática no Oriente Médio. Danaram-se.

A popularidade de Putin alcançou os píncaros de toda a sua longa carreira política (86%); e a hostilidade russa contra os EUA ultrapassou até os níveis da era soviética.

Mais de 80% dos russos têm hoje concepção negativa dos norte-americanos, segundo o independente Levada Center, número que mais do que dobrou durante o ano passado e é, de longe, o mais baixo pico negativo em toda a série histórica que o Centro acompanha desde 1988,  como noticiou o Washington Post dia 9/3/2014.

Popularidade de Putin após o golpe em Kiev
Os europeus – em cuja porta foi deixada aquela descomunal trapalhada ucraniana – estão compreensivelmente furiosos. Der Spiegel, maior empresa-imprensa alemã, reclamou, dia 6/3/2014, de que Nuland e outros norte-americanos querem “mudança de regime” em Moscou. Eu também quero mudança de regime em Moscou, e também quero a restauração dos sacrifícios no Templo em Jerusalém. Nem por isso estou esperando que aconteça semana que vem. Temos de conviver com Putin ainda por muito tempo, e a conversa de forçar “mudança de regime” a torto e a direito é equivalente a todos os dias disparar balas de papel e cuspe, com estilingue, no focinho do leão do zoológico: só serve para aumentar a probabilidade de o leão devorar o tratador.

A política dos EUA produziu resultado que é o perfeito inverso do que queria produzir: nunca nos passou pela cabeça que a maioria dos russos consideraria péssima notícia que a Crimeia, província russa desde a fundação, passasse a integrar o sistema da aliança ocidental; ou que os russos protestariam furiosamente, se o ocidente se pusesse a mandar em seus assuntos políticos. Nunca consideramos a ideia de que China e Rússia poderiam dar jeito em suas diferenças, e alinhar-se contra nós. Não demos nenhuma atenção ao alerta aberto, claro, da Rússia, de que se aliaria ao Irã, para retaliar contra a política norte-americana na Ucrânia. Somos como jogador de xadrez que pensa uma jogada à frente. Mas Putin pensa três, quatro jogadas à frente. Pode nos encurralar num canto e, movimento seguinte, nos despachar para bem longe do tabuleiro.

Agora, os Republicanos meteram-se numa situação tal que estão obrigados a se posicionar contra Putin e a culpar Obama pelo espantoso, vergonhoso resultado. Obama, verdade seja dita, deu-nos o pior de dois mundos: a descarada provocação (da Sra. Kagan), combinada com fraqueza. As opções dos EUA na Ucrânia são limitadas. Podemos mandar para a Ucrânia quantas armas nos dê na telha; os russos podem até ser muito mais fracos que nosso exército; mas lá, no quintal deles, sempre serão mais eficazes que nós.

Putin joga xadrez com o "OCIDENTE"
Putin não quer controlar a Ucrânia. Está convertendo a Ucrânia, isso sim, num abcesso supurado de instabilidade – como eu previ, há um ano, que ele faria. Putin não é dado a surtos e chiliques. Suas ações são refletidas, calculadas e cheias de segundas intenções, e ele está alcançando exatamente o resultado que queria. Como Jakub Grygiel observou em American Interest, Putin “não tem medo de estados zumbis”.

A grande vantagem de Putin sobre os EUA – apesar da fraqueza da Rússia – é a capacidade para empurrar todo o peso da incerteza para as costas do adversário. Se se ouvem as sandices de Nuland no YouTube... é de doer! A noção que tem essa senhora do que seja o governo na Ucrânia soa como garotinha de seis anos arrumando as bonequinhas para brincar de comidinha.

Putin pensa como o grande anti-herói norte-americano, o Agente Continental [orig. Continental Op], detetive sem nome de Dashiell Hammett:

Às vezes, tudo bem planejar muito... Mas às vezes, tudo bem dar uma agitada – se você se segura e continua a saber o que quer, mesmo quando o agito chega à cabeça (Red Harvest, 1929; Seara Vermelha).

Contra esse Putin-Continental Op, os EUA são o Cavaleiro Solitário (Lone Ranger).

Entrementes, a perspicaz chanceler alemã Angela Merkel já nos disse, em fórmula compacta:

Nós?! Nós quem, cara pálida?!

S-400 - Sistema anti-aéreo de mísseis  de defesa
(clique na imagem para aumentar)


Que ninguém espere que a realidade brote do chão, no reino mágico do Kaganato de Nuland; essa gente acredita na marcha da democracia liberal com fervor de apóstolos milenaristas. É a religião deles. Nenhum fato-efeito na vida real sequer faz cócegas na intensidade da fé.

Vencemos a União Soviética durante a Guerra Fria, porque persuadimos os líderes russos de que eles nunca conseguiriam suplantar a geração seguinte da tecnologia bélica dos EUA. Muitas coisas ajudaram, mas esse foi o fator decisivo. O esforço massivo dos EUA em Pesquisa e Desenvolvimento na produção de mísseis de defesa e outras tecnologias convenceu os russos de que nunca nos derrotariam em guerra.

O único modo que há agora para pôr Putin no lugar dele, é lançar programa gigante, descomunal, massivo, que torne obsoletos, o mais rapidamente possível, os formidáveis sistemas de defesa russos (inclusive o sistema S-400 que Putin está vendendo à China). Putin ficará sem suas mais fortes capacidades e deixará de receber atenção total, concentrada, da China. 

Nota dos tradutores:

[1] Não é engraçado?! O cerebral “Spengler”, que sempre foi inteligente sionista, já começou, ele também, a pirar! Mais um pouco, exigirá fabricação de toneladas de pó-de-pirlimpimpim para fazer voar os seus hiper - mega - over - super... mísseis de Falso Brilhante (vídeo abaixo;-))


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[*] Spengler, apelido de David P. Goldman, escreve a coluna Spengler para o Asia Times Online e contribui frequentemente para as publicações The Tablet, First Things (2009-2011) e outras. Foi Chefe Global de Pesquisa de Dívida do Bank of America (2002-2005), Diretor Global de Estratégia de Crédito do Credit Suisse (1998-2002). Ocupou cargos importantes nas organizações financeiras Bear Stearnse Cantor Fitzgerald. Foi colunista da revista Forbes (1994-2001). Seu livro How Civilizations Die (and why Islam is Dying, Too) foi lançado em setembro de 2011.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Mísseis em Cuba e Mísseis na Ucrânia


Semelhanças e diferenças


25/2/2015, [*] MK BhadrakumarIndian Punchline − rediffBLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na Escolinha de Política da Vila Vudu

Elaborem o quanto quiserem intelectuais ocidentais “liberais-do-bem”, e a impressão que se tem é de que fazem o-di-a-bo, p’ra não ver o que tá aí, tão na cara: os EUA temeriam mortalmente até uma Rússia enfraquecida, em todos os casos, faça chuva ou faça sol, porque ainda temem a herança dos sete anos [foram só sete anos: 1917-1924!] de governo leninista, que mudaram o mundo para sempre. 

É a mesma razão pela qual os EUA também temem a China de Mao by Deng Xiaoping até Xi Jinping: porque Rússia e China são como a memória emocional dos pobres explorados e oprimidos de todo o mundo, que aprenderam, delas e por elas, que o comunismo é um humanismo; e que é possível derrotar o império anglo-sionista encastelado em Wall Street.

Fooorça, Maduro! Fooorça, Syriza! Fooorça, Podemos! Fooorça, BRICS!



William R. Polk, renomado analista norte-americano, que foi reitor de Harvard e consultor de política exterior, enviou-me há alguns dias seu mais recente ensaio sobre as relações EUA-Rússia (depois publicado em Consortiumnews). Acho que estamos mais ou menos no mesmo ponto das nossas reflexões, Polk e eu, sobre a crise na Ucrânia. Polk, é claro, tem vasta experiência sobre questões russo-norte-americanas. Foi conselheiro presidencial, com papel considerável durante a presidência de John Kennedy, na redução das tensões da crise dos mísseis cubanos.

Tudo isso faz de seu mais recente ensaio, altamente pertinente, objeto de leitura detalhada – quando extrai lições da crise de 1962 e a partir delas oferece um roteiro para superar-se também o impasse EUA-Rússia na questão da Ucrânia. De fato, sim, Polk traça paralelos muito claros entre o arriscadíssimo impasse de então (entre EUA e a URSS) e o de agora, os quais, para ele, teriam mais ou menos as mesmas “linhas vermelhas”. No resumo que Polk oferece,

●– É praticamente certo que nem o governo dos EUA nem o governo russo aceitariam sem responder qualquer tipo de ataque, ainda que ataque limitado.

●– Não há motivo para crer que o governo russo, se estiver na iminência de ser derrotado por armas convencionais, conseguirá evitar o recurso a armas. nucleares.

●– Todas as tentativas para limitar a escalada provavelmente fracassarão e, ao fracassarem, levarão a guerra total.
●– E as consequências previsíveis de uma guerra nuclear são catástrofe inimaginável.

Polk indica que um possível acordo na Ucrânia deva ser baseado nos seguintes elementos:

●– Rússia não aceitará que a Ucrânia seja empurrada para dentro da OTAN;

●– Rússia tem interesses legítimos na Ucrânia;

●– A intromissão dos EUA no que são assuntos essencialmente russo-ucranianos é injustificável e tem de ter fim imediatamente.

A parte triste é que está longe de garantido que o presidente Barack Obama esteja aberto para ouvir conselho tão altamente sensível. Posto em fórmula simples, Obama é incapaz de livrar-se do triunfalismo que marcou as políticas de Washington para a Rússia pós-soviética desde o início dos anos 1990s.

Robert Kagan na Brookings Institution
(não esquecer que ele é marido da Victoria "Fuck EU" Nuland!)
Fato é que um dos principais ideólogos que aparentemente orienta o pensamento de Obama sobre a Rússia, Robert Kagan, da Brookings, escreveu há apenas uma semanaque

Apesar de toda a conversa fiada sobre o declínio dos EUA, o que conta é que é no campo militar que a superioridade norte-americana continua a aparece mais claramente. Mesmo nos quintais de outras grandes potências, os EUA ainda conservam a capacidade, além de aliados poderosos, para conter quaisquer desafios contra a ordem da segurança. Mas sem a disposição dos EUA para usar o poder militar para estabelecer o equilíbrio em regiões distantes do mundo, todo o sistema desabará sobre a incontida concorrência militar de outras potências militares regionais.

Na ordem Kaganista “liberal” do mundo, admite-se que Rússia, China ou qualquer potência regional entrem em competição econômica contra os EUA, mas “competição no plano da segurança é outra coisa”, porque “não há equilíbrio estável de poder na Europa ou na Ásia, sem os EUA”.

Polk dificilmente encontrará ouvidos racionais que lhe deem atenção em meio ao triunfalismo e sob a mentalidade de Guerra Fria que ainda prevalecem em Washington. Mas, como escrevi há algum tempo com admiração (vide Obama’s “moving finger” writes Irã ties), e por surpreendente que seja, no que tenha a ver com o engajamento com o Irã, Obama tem sido o realismo em pessoa, perfeito na avaliação dos limites do poder dos EUA. Assim sendo... como é possível que a mesma mente capaz de reflexão tão ponderada, converta-se em exatamente o contrário de qualquer ponderação refletida e equilibrada, se o assunto é a Rússia?

Obama insiste...
Para mim, a diferença crucial está noutro ponto: a Ucrânia nada tem a ver com reagir contra alguma “agressão” russa, como Obama repete incansavelmente.

Na realidade, a Ucrânia tem muito mais a ver com os EUA reafirmarem a própria liderança transatlântica, nesses tempos de pós-Guerra Fria.

Não é o caso no que tenha a ver com o Irã, porque aí Obama conta com o apoio da Europa. E com certeza absoluta não foi o caso na crise dos mísseis em Cuba em 1962, em plena era da Guerra Fria.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House,  e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Pepe Escobar: “A volta dos mortos (neoconservadores) vivos”

3/6/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama em West Point (29/5/2014)
Recebida com muita histeria, logo se divulgou a noção de que a “nova” doutrina de política exterior dos EUA que o presidente Obama anunciou semana passada em West Point rejeitaria neoconservadores e neoliberais e seria, essencialmente, pós-imperialista e demonstração de realpolitik.

Muita calma nessa hora. Embora se afastando dos excessos do regime Cheney – tipo bombardear nações inteiras para “democratizá-las” – o “desejo de mandar” ainda lá está; poder é direito.

Sobretudo, o “excepcionalismo” continua a ser regra. Agora, não tão acintoso, mas ainda implementado mediante uma caixa de ferramentas horrendas, das financeiras à ciberguerra, da promoção da “democracia” à moda do National Endowment for Democracy ao contraterrorismo à moda do Comando Conjunto das Operações Especiais dos EUA, guerra de drones e guerras clandestinas ilegais de todos tons.

No início dos anos 2000s, o modelo era a destruição física e a ocupação do Iraque. Nos anos 2010s, o modelo é a destruição em câmera lenta, à distância, por procuração, da Síria.

E, além do mais, os que “conceitualizaram” a destruição do Iraque continuam a cultivar aquela mesma cabeça estreita-monstruosa, de Alien. O ícone deles é, é claro, Robert Kagan – um dos fundadores do apocalíptico funéreo Project for a New American Century (PNAC) [Projeto do Novo Século Americano] e marido da cripto-detonadora de ucranianos e que-venha-o-inferno, Victoria “Foda-se a União Europeia” Nuland (daí o sonho do casal, de uma Ucrânia convertida no Khaganato dos Nulands ou, simplesmente, Nulandistão)

Victoria “Foda-se a União Europeia” Nuland
Kagan erra devastadoramente em tudo, como no best-seller de sua autoria, de 2003, Of Paradise and Power: America and Europe in the New World Order [De paraíso e poder: EUA e a Nova Ordem Mundial], um elogio dos EUA “benignos” sempre de guarda contra as “ameaças” (do fundamentalismo muçulmano) que emanam de um mundo Hobbesiano, em tudo muito distante do lar Kantiano acolhedor em que vive(ria) a Europa.

Depois, no livro de 2008, The Return of History and the End of Dreams [A volta da história e o fim dos sonhos], o “mal” já não era o fundamentalismo muçulmano (esfarrapado demais), mas a emergência de vastas autocracias, Rússia e China, antíteses das democracias ocidentais. Mas com The World America Made [O mundo que os EUA fizeram] (2012), a cidade paradisíaca que brilha luminescente no alto da colina novamente triunfará, mais que perfeitamente capaz de detonar aquelas autocracias; e a única garantia confiável da paz global é o excepcionalismo norte-americano.

Kagan ainda atrai a atenção até do em geral indiferente Comandante-em-chefe, que leu avidamente O mundo que os EUA fizeram, antes de sua fala sobre “o Estado da União” de 2012, no qual proclamou que “os EUA voltaram” [orig. “America is back”].

É esclarecedor voltar ao que Kagan escreveu no Weekly Standard em março de 2011, soando como menino de escola que, deslumbrado, elogia o presidente:

Ele rejeitou completamente a chamada abordagem realista, exaltou o excepcionalismo norte-americano, falou de valores universais e insistiu que o poder dos EUA seja usado, quando adequado, em nome daqueles valores.

Qualquer semelhança com a “nova” doutrina da política externa de Obama é, de fato, proposital.

O "protégé" da Brookings Institution, Robert Kagan
Arranca-rabo em Cingapura [1]

Agora aparece a opus mais recente de Kagan, Superpowers Don't Get to Retire: What our tired country still owes the world [Superpotências não conseguem aposentar-se: o que nosso fatigado país ainda deve ao mundo], uma lastimável confusão que já aparece no título (o sujeito, afinal, nunca leu Paul Kennedy). A história ensina que superpotências, sim, se aposentam, por causa da super-extensão – não só militar, mas mais, quase sempre, econômica e fiscal, como quando está diante da falência.

É perda de tempo esperar de Kagan e da nebulosa neoconservadora algo além de cegueira total às lições da história – com menção especial, trágica, à [operação] Choque e Pavor, à detonação das Convenções de Genebra e à tortura institucionalizada. Mais uma vez, trabalham sobre sua velha dicotomia paroquial: ou eterna hegemonia global norte-americana... ou caos total.

Progressistas nos EUA ainda tentam salvar o dia, clamando, frenéticos, por uma “restauração” básica da economia e da saúde democrática dos EUA; missão bem impossível, se o capitalismo de cassino reina, e os EUA são agora, para todos os objetivos práticos, uma oligarquia. Esses sonhadores realmente creem que a tal “restauração” seria o que Obama tentou ou ainda tenta fazer; a qual projetaria os EUA mais uma vez como modelo global – o que “encorajaria” a democracia por todos os cantos do mundo.

Lamento ter de dar-lhes a notícia, mas para a vastíssima maioria da “comunidade internacional” (a verdadeira, a que existe, a que considera os fatos em campo), a ideia de que os EUA promovam alguma democracia já foi declarada MaD (“Morta ao Desembarcar”).

Xi Jinping e Vladimir Putin brindam o nascimento do século eurasiano (21/5/21014)
Assim, sob o rótulo do excepcionalismo – versus o nascimento de um século eurasiano – é exercício fascinante assistir ao arranca-rabo no Diálogo em Cingapura-Xangrilá, que já descrevi ano passado como os Spielbergs e Clooneys da esfera militar, todos trancados num salão de Guerras das Estrelas (de fato, o salão de bailes, candelabros incluídos, do Hotel Xangrilá).

Tudo começou com Shinzo Abe, primeiro-ministro militarista daquele protetorado norte-americano, o Japão, a denunciar “esforços unilaterais” para alterar o status quo estratégico na Ásia. O general Martin Dempsey, comandante do Estado-Maior dos EUA, logo se associou à ideia, dizendo que o Pacífico Asiático ficara menos estável por causa da “coerção e provocação” da China. E o Supremo-do-Pentágono, Chuck Hagel, também se pôs a culpar Pequim, acusando-a de cometer “ações unilaterais de desestabilização” no Mar do Sul da China.

Foi quando o tenente-general, Wang Guanzhong, vice-comandante do Exército do Povo Chinês, reagiu com estilo; disse que a fala de Hagel soava “cheia de hegemonismo, cheia de palavras de ameaça e intimidação” e como “desafio de provocação contra a China”.

O major-general Zhu Chenghu permitiu-se alguma condescendência (oh, aqueles bárbaros...); disse que:

Dessa vez os norte-americanos estão cometendo erros estratégicos bastante importantes. Se se posicionarem como inimigos da China, a China se posicionará como inimiga absoluta dos EUA.

E denunciou a hipocrisia de Hagel:

Tudo que a China faz seria ilegal, e tudo que os EUA fazem seria certo...

Zhu também registrou a ameaça que Hagel deixava no ar:

(...) os EUA não farão como se não vissem, se princípios fundamentais da ordem internacional forem violados.

Tradução: não se metam com os excepcionais excepcionalistas. NÓS somos a ordem internacional.

Xadrez geopolítico do Pacífico Ocidental
Foi como se todos estivessem operando pelo livro de instruções de Kagan. Diferente, só, que Pequim não é Bagdá, e não responderá a ameaças baixando a cabeça. Em vez disso, a China está distribuindo movimentos táticos seletos, espertos, por todo o tabuleiro de xadrez do Pacífico Ocidental. A rede de vassalos/ clientes/ protetorados asiáticos de Washington está e continuará a ser lenta mas consistentemente minada.

Cereja do bolo: Pequim já viu com perfeita clareza que os dois, Hagel e Kerry – que absolutamente nada ou quase nada sabem das complexidades da Ásia – estão bem visivelmente entrando em pânico.

Longe vão os dias das frases de Deng Xiaoping – de “atravessar o rio sentindo as pedras” até “manter perfil discreto”. Agora já se fala sobre a iminente potência econômica n. 1 do mundo, a nação que já é principal agente de comércio e maior credor dos EUA.

Estrada para o inferno, digo: Highway to Hillary [2]

A Rússia – não os EUA – é hoje parceiro-chave ou negociador-chave na negociação de todos os conflitos internacionais barra-pesadíssima. Os recentes vários grandes contratos de energia e comércio sino-russos, parte essencial daquela parceria; a integração progressiva e a estratégia econômica/financeira concertada dos países BRICS; e até o lento processo em andamento de integração latino-americana, tudo isso aponta na direção de um mundo multipolar.

O que nos leva de volta à “nova” doutrina Obama de política exterior. Examinemos rapidamente o que temos até aqui.

Obama só não persistiu naquela tola, temerária, autoimposta linha-vermelha e só não bombardeou a Síria, porque foi salvo (dele mesmo), na undécima hora, pela diplomacia russa.

O dossiê iraniano ainda permanece vulnerável à incansável pressão pelos lobby/ setores neocons/ israelenses da indústria de armas, com o governo Obama introduzindo fatores estranhos para fazer gorar a negociação.

As sanções que Obama impôs à Rússia por causa da Ucrânia não são apenas ilegais: são também periféricas, como empresários espertos na União Europeia logo perceberam.

No Afeganistão, prossegue aquele simulacro de retirada – a ser substituído por guerra total clandestina [orig. all-out shadow war].

E o governo Obama – clandestinamente e também nada clandestinamente – está apoiando neonazistas na Ucrânia e jihadistas na Síria.

Tudo isso, e ainda não basta para a gangue dos Kagan – arquitetos “conceituais” das guerras do 11/9, que sempre quiseram que Obama bombardeasse a Síria; bombardeasse o Irã; iniciasse uma guerra contra a Rússia por causa da Crimeia; e até que, quanto antes melhor, bombardeasse a China para impedi-la de chegar ao lugar nº 1.

Hobbesianos ensandecidos – tomados pela convicção psicótica de direito perene a tudo, só para eles – não se deixarão deter ante coisa alguma para impedir o surgimento de um mundo multipolar. É o Império Excepcionalista, com a OTAN como Robocop global... ou o inferno!

Moscou e Pequim, para dizer o mínimo, não estão lá muito exatamente impressionadíssimas. E, sim, já detectaram o medo e o desespero “ocidentais”. Mas, sim, as coisas podem ficar – e provavelmente ficarão – muito mais feias, furiosas, terríveis, mesmo que os Khaganatos nada consigam: esperem até ver a doutrina Hillary.




Notas dos tradutores

[1] Orig. “Catfight at the Singapore corral”. São tantas conotações que a expressão é quase intraduzível. Dentre outras, há uma referência a Gunfight at O.K Curral, western de 1957, dir. John Sturges (“Sem lei e sem alma” em português. Trailer a seguir:


[2] Impossível não lembrar de Highway to Hell [Estrada para o Inferno], AC/DC. Assiste--se a seguir:



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
 Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.