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segunda-feira, 28 de julho de 2014

Hillary é vírus Reaganista. E o Clintonismo? O que é?

25-27/7/2014, [*] Andrew Levine, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido quiosque “Xicnoúrtimo” na Vila Vudu: Este artigo é excelente leitura, para um domingo em que o ex-FHC e atual NADA e autoproclamado “príncipe” da sociologia brasileira [só rindo!], escreve n’O Estado de S.Paulo (27/7/2014) que a presidenta Dilma “é uma cabra cega”. O ex-FHC e atual NADA é Clintonista sub-do-sub, neoliberal de segunda-mão, udenista golpista histórico. Nenhum candidato do ex-FHC, nunca será eleito em 2016 à presidência do Brasil. NUNCA. Never. Núncaras.

Presidentes dos EUA
Não há políticos norte-americanos cujas ideias sobre política mereçam análise séria por qualquer outra razão que não o poder que tenham. E tem sido assim, só com mínimas exceções (e há muito tempo!), desde depois dos pais fundadores dos EUA.

Por convicção sincera (embora quase sempre irrefletida), ou para melhorar as possibilidades eleitorais ou promover interesses pecuniários, vez ou outra os políticos esforçam-se para exibir maquiagem “ideológica”. Mas não trabalham com ideias ou teorias ou práticas políticas para desasnar seus eleitores. Nem saberiam como fazer.

Por essa razão, dentre outras, a expressão “Reaganismo” é expressão errada. É conveniente e frequentemente usada, mas dá excessiva importância a ator ruim, que não conseguia manter duas ideias simultaneamente ativas no cérebro.

“Neoliberalismo” seria expressão melhor, exceto por sugerir foco exclusivo em questões de economia política. O Reaganismo não trata só de economia; é também importante fenômeno de ativo atrasamento político dos povos.

A expressão denota uma teoria e uma prática que poucos ainda celebram, sempre os mesmos poucos ainda (auto) celebrados, mas super-super (auto) superestimados economistas e politólogos [Taí! Taí! Alguém conhece economista mais super-super-super (auto) estimado que o Graciano?! E politólogo mais super-super-super (auto) estimado que o ex-FHC e atual NADA?! 8-))] convocados para reviver linhas já há muito tempo dormentes do pensamento liberal clássico. É empreitada fracassada de antemão, sem densidade e peso intelectuais e sem apelo moral.

Mas, por artes e vicissitudes do capitalismo tardio, ainda sobrevive em programas de televisão e redações de “jornais” impressos ou televisivos (a chamada “mídia”).

Ronald Reagan
Nos anos 1970s, com a reconstrução pós-guerra e a fase de crescimento do capitalismo chegadas ao fim, sob o peso de excesso de produção e capacidade produtiva, tornou-se óbvio – sobretudo para capitalistas à procura de oportunidades de investimentos – que os velhos péssimos modos de operar teriam de mudar.

O resultado foi um crescimento na influência política do setor financeiro e um declínio no poder do trabalho organizado.

Esses desenvolvimentos pavimentaram o caminho para a chamada “Revolução Reagan”.

Nada mais de desenvolvimento capitalista que, apesar do mal que fez, pelo menos melhorou materialmente a vida de bastante gente; e nada mais, sequer, de qualquer semelhança, ainda que remota, de justiça e equidade na distribuição do benefício e da carga do crescimento econômico.

O Reaganismo iniciou um novo “contrato social” – segundo o qual um pequeno punhado de gente no topo ganharia faustosamente, ao mesmo tempo em que o resto todo da pirâmide ganharia muito menos.

Aumentar o endividamento pessoal e a pronta disponibilidade de produtos de baixa qualidade feitos longe de casa, além de outras medidas paliativas, mascararam a nova realidade por algum tempo; e uma série de bolhas econômicas mantiveram a economia à tona.

Mas não há como negar o fato de que a condição econômica de muita gente estagnou ou deteriorou, e que a esfera pública, sem fundos, declinou ainda mais rapidamente. Isso é o que faz o Reaganismo.

E, porque a ideia de que o governo seria o problema, não a solução, é um dos núcleos da doutrina Reaganista, o Reaganismo também milita contra programas públicos para melhorar as condições de vida e contra todos os remédios que o estado de bem-estar provê. Para substituir tudo isso, o Reaganismo oferece as trampas e ilusões da teologia do livre mercado.

Com sociedades mais ricas, a maioria contudo se via cada vez mais pobre – em relação não só aos hiper-ricos ou a como estariam numa ordem econômica mais racional, mas em relação ao que estavam acostumados.

Não é tudo culpa de Reagan, que teve muito menos a ver com o Reaganismo do que a maioria supõe. A presidência de Reagan [foi presidente de 1981 a 1989 (NTs)] foi mais efeito, que causa.

Reagan fez pouco, se é que fez alguma coisa, para modelar a doutrina Reaganista, e não foi muito bem-sucedido, sequer, na aplicação da doutrina. No máximo, acreditava na doutrina; e pôs seus talentos de comunicador a serviço de promovê-la.

O Reaganismo tomou conta de tudo quase imediatamente depois da virada na trajetória do capitalismo. Jimmy Carter [foi presidente de 1977 a 1981 (NTs)], portanto, foi o primeiro presidente Reaganista. E Carter não abraçou a causa com paixão, mas bastante desanimadamente; e só nos anos finais de sua presidência.

Reagan: "Você ainda é meu padrinho na Europa"
Reagan não foi sequer o líder Reaganista mais importante nos primeiros dias. Essa duvidosa honra cabe a Margaret Thatcher [primeira-ministra britânica de 1979 a 1990 (NTs)]. Foi durante o governo dela na Grã-Bretanha que a teoria e a prática Reaganistas tomaram plena forma.

Por isso é que, no mundo anglófono fora dos EUA, o Reaganismo é chamado de Tatcherismo.

Os norte-americanos são paroquiais no seguir modas, mas essa não é a única razão para terem dado ao fenômeno o nome do Gipper [Nome de um personagem que Reagan fez no filme Knute Rockne, All American (NTs)]. Desde o final da IIª Guerra Mundial, a Grã-Bretanha se mantivera como parceira júnior – incapaz de, por meios seus, liderar qualquer grande mudança no curso dos eventos mundiais. Nem a Dama de Ferro teria conseguido, sozinha, causar todo o dano que causou ao mundo, se os ianques não a tivessem ajudado. E assim aconteceu que a coisa ficou conhecida como Reaganismo.

No começo, o sofrimento ficou confinado sobretudo à Grã-Bretanha e aos EUA. Para infelicidade do resto do mundo, a coisa não tardou a alastrar-se. E, hoje, todos os políticos capitalistas são Reaganistas.

Os políticos norte-americanos ainda aparecem puxando a fila. Os presidentes dos EUA merecem ter todo um círculo especial reservado só para eles, no Inferno. E, dado que esses presidentes são feitos do mesmo pano Reaganista, não faz sentido inventar algum outro “−ismo” para colar aos seus nomes. A família Bush agachou-se pela Casa Branca por mais tempo que os Reagans, mas nem por isso se fala de “bushismo”. E por que se falaria?

Bush Pai foi Reaganista “mais bondoso, mais gentil”; é o que ele próprio conta. E, não fosse Carter, teria sido o melhor (o menos ruim) presidente que os EUA conheceram, desde que o Reaganismo emergiu. Se por mais não for, sua presidência foi a última, nos EUA, na qual os assuntos internacionais foram conduzidos com um mínimo de competência e decência.

"Vamos primeiro falar de Economia"
Mas foi tedioso, previsível. Seu principal problema era o que ele chamava de “a coisa da visão”. Era presidente quando o comunismo ruiu, e a URSS implodiu; para ele, essa “nova ordem mundial” era a velha ordem, só que sem a União Soviética. Nada haveria, em lugar algum, que deixasse qualquer marca duradoura.

Bush Filho, esse, deixou inúmeras marcas muito duradouras. Mas ninguém, em juízo perfeito, reivindicaria como feitos seus, os feitos de Bush.

Os neoconservadores aos quais Bush Filho entregou o comando do show desencadearam catástrofes que ainda estão tendo desdobramentos. O homem, afinal, estava em mar tão mais profundo do que sabia enfrentar que é quase injusto culpá-lo pelos tais desdobramentos. Mas é claro que é preciso responsabilizá-lo; era nominalmente o presidente. De qualquer modo, Dick Cheney e Donald Rumsfeld foram, no mínimo, tão culpados quanto o presidente.

Num mundo justo, George W. Bush e seus servidores não estariam tendo hoje vida mansa. No nosso mundo, graças à magnanimidade do Advogado Geral do presidente que sucedeu Bush, escaparam todos de serem condenados por assassinato – e, de fato, até por crimes piores que assassinato. Não há “-ismo” que diga tudo isso.

“Bushismo” portanto não funciona, não importa o Bush que se tenha em mente. Mas “Clintonismo” [Clinton foi presidente de 1993 a 2001 [NTs]), aí, sim, já é outra coisa!

A expressão já está em circulação há algum tempo. As pessoas sabem usá-la porque, como o juiz Potter Stewart disse da obscenidade, você reconhece quando vê o Clintonismo.

Mas o que, exatamente, significa o Clintonismo? Essa é questão longe de esclarecida – principalmente porque a relação entre Reaganismo e Clintonismo é sutil e complicada.

Com Hillary Clinton em rota para concorrer à presidência em 2016 – e com alta probabilidade de ser eleita se concorrer, dado que o Velho Grande Partido (orig. inglês: Great Old Party − GOP) dos Republicanos não consegue achar candidato crível – já não se sabe com clareza nem se a palavra aplica-se ao marido ou à esposa.

Na verdade, nem interessa a quem se aplique. Como poderia dizer um meio metafísico meio piadista: “Clinton” nomeia uma entidade supraindividual que recobre duas formas interdependentes mas analiticamente distintas.

Bill é, de longe, o mais colorido, porque tarado e patife, do tipo que transpira o mais meretrício charme. (...) Para gente de certa idade, com certeza Bill lembra uma versão crescidinha, não casta do personagem de Eddie Haskell na série de TV “Leave It To Beaver”.
Bill Clinton Lewinski

Se aquela série fosse revivida uma década ou duas mais tarde, é muito provável que a trama evoluísse em torno dos problemas de Eddie com princesas hot do estacionamento de trailers e variedades judeu-norte-americanas; e que seus arranjos com os ricos e famosos, para lucro e prazer fosse tema recorrente.

Entrementes, Hillary usa paletozinhos e calças e diz imbecilidades – muito imbecis, até pelos padrões de Joe Biden. Em matéria de dizer imbecilidades máximas, Biden já perdeu o concurso.

Hillary não é sequer vil, em sentido interessante: o personagem é raso demais. Não surpreende que os criadores da Idade de Ouro da televisão jamais tenham dado qualquer atenção a uma personagem que evoca ninguém e coisa alguma, como ela.

Questões de caráter à parte, Bill Clinton foi o mais perfeito presidente Reaganista de toda a história – não o mais visionário, não o que selecionou subordinados mais competentes, mas o mais efetivo. Ninguém, não com certeza o próprio Reagan, fez mais que Bill Clinton para privatizar e desregular e descontrolar, e para desfazer programas governamentais que existiam para cumprir funções relevantes, úteis e proveitosas.

Reagan propôs, em proposta que ficou famosa, “matar de fome o monstro” [orig. “starving the monster”]. Foi o que Bill Clinton fez. Enquanto isso, o verdadeiro monstro prosperava no governo Clinton, como já prosperara no governo Reagan. Os militares e o estado de segurança nacional que já começava a inchar operaram como gangues de bandidos.

É provável que Clinton jamais tenha investido o coração em pôr em prática o Reaganismo. Era – como é até hoje – um oportunista, não um homem de crenças, de verdadeira fé. Mas, no Partido Democrata, conseguiu neutralizar a oposição e, até, seduzi-la para o seu barco. Pôde assim realizar plenamente o que, para Reagan e o pessoal que o cercava, foram sonhos e nada mais.

Essa é uma das razões pelas quais é difícil ver com clareza o que é o Clintonismo. Parece próximo demais do Reaganismo para poder auto-ostentar-se como “-ismo” autônomo, por mérito próprio.

Bill e Hillary Clinton
O Clintonismo escapa a qualquer caracterização fácil, porque os Clintons, aliados a outros Democratas de direita, efetivamente expurgaram o partido deles de toda a ala esquerda que lá havia. Por isso é difícil distinguir a política Clintonista da política dos Democratas, em termos gerais.

Seja como for, o Clintonismo é conceito útil. O que o Bushismo nunca foi. Nem, tampouco, para não deixar de falar dele, algum Obamismo algum dia teve alguma utilidade.

Claro que ainda é possível que Obama tais e tantas ainda faça, que ainda erre mais, e tão impressionantemente, que “Obamismo” ou expressão assemelhada, venha a ganhar entrada no léxico político. Mas se acontecer, a palavra não designará qualquer traço político distintivo. Será uma espécie de forma taquigráfica para gigantíssima incompetência.

Ou para designar quem cometa erros ainda mais desastrosos que os de George W. Bush. Pode acontecer, por exemplo, se os Clintonistas que venham a assumir a política externa dos EUA inventem, mesmo, uma nova Guerra Fria. Estão trabalhando precisamente para isso.

Contudo, no curso normal dos eventos – onde “normal” inclui permitir que um governo israelense brutal e ilegal massacre palestinos em Gaza – não haverá Obamismo.

Quando o Reaganismo ainda estava tomando forma, Bertram Gross escreveu sobre o que chamou de “fascismo amigável” [orig. “friendly fascism”]. Ao falar de “fascismo”, Gross explica que o Reganismo abraçara um objetivo fundamentalmente fascista – acabar com o movimento trabalhista e, na sequência, reconfigurar a relação entre a Grande Finança e o Estado, de modo a garantir interesses desses dois lados.

Com o adjetivo “amigável”, Gross diz que o Reaganismo fez o que fez sem o antiliberalismo acintoso e a violência organizada associados aos movimentos fascistas do período entre-guerras (e posteriores). O ar amistoso e amável de Ronald Reagan ajudou, mas esse não foi o ponto central.

Barack Obama por Latuff
Obama dá prosseguimento a essa tradição de fascismo amigável. E, construindo sobre os fundamentos lançados por George Bush e Dick Cheney, Obama comanda uma virada relacionada, na política dos EUA. Bom nome para o que Obama faz é “totalitarismo amigável”.

Bush e Cheney pegaram o trem andando, mas Obama será lembrado por ter feito dos EUA estado de vigilância total, 24/7, e por ter reduzido a trapos todos os direitos à privacidade e ao devido processo legal. Será também lembrado por continuar guerras velhas e iniciar novas. São coisas que andam juntas: guerras perpétuas são indispensáveis em estado totalitário.

Obama fez tudo isso sem agredir a amicabilidade que daria legitimidade, que identificou no grande projeto Reaganista. Vivemos hoje mais ferozmente espionados do que nunca antes, mas não, supomos nós, por estado policial; e temos o exército mais poderoso que o mundo jamais conheceu, mas não temos atitudes e instituições militaristas...

Reunindo tudo, essa ordem totalitária amigável é realização equivalente a alcançar objetivos do fascismo, pela via Reaganista ostensivamente benigna.

Nem assim se justifica acrescentar um “-ismo” ao nome de Obama. Como no caso de Bush, decisões erradas e inaptidão não bastam para gerar algum novo tipo de política.

Diferente seria se houvesse realizações positivas pelas quais Obama pudesse receber os louros. Mas, exceto por ser preto que “chegou lá”, Obama nada fez. Falar de “esperança” e depois de “mudança” absolutamente não conta.

Com os Clintons é diferente: eles merecem os créditos por terem desenvolvido uma forma específica de Reaganismo, muito especialmente deletéria.

O que os Clintons urdiram é difícil de definir, mas é fácil reconhecer e opor-se “àquilo”.

Oposição ao Clintonismo não é a mesma coisa que antipatia pelos Clintons. A oposição ao Clintonismo é rampante em todo o mundo, segundo a ex-Primeira Dama: “uma vasta conspiração da direita” (contra a dupla). Supondo-se que Hillary saiba do que fala, a questão é: por quê? Não há, nem remotamente, qualquer resposta política satisfatória. Na direita, Reagan é cultuado como deus; e, embora as conexões entre Reagan e o Reaganismo possam não ser tão diretas como se supõe por aí, é certo que faz diferença que o Clintonismo seja Reaganismo na prática.

Republicanos tentam derrubar Hillary Clinton
Pergunta melhor é por que há mais antipatia contra os Clintons nos acampamentos liberais? Não há dúvidas de que fizeram por merecer.

Mas o que mais pesa é a antipatia contra o Clintonismo. Entre os quadros do próprio Partido Democrata praticamente não há. Mas, sim, há muita antipatia contra o Clintonismo entre os eleitores do Partido Democrata. O anti-Clintonismo teve papel importante na vitória de Obama sobre Hillary Clinton, nas primárias de 2008.

A esperança, naquele momento, de vários eleitores de Obama era que uma vitória de Obama conseguiria des-Clintonizar o Partido Democrata. Para quem acompanhasse de perto a campanha, não era caso de esperança, mas de delírio. De qualquer modo, Obama ganhou com folga.

Não surpreendentemente, a ilusão rapidamente evanesceu. A desilusão já crescia antes do dia da posse, desde as primeiras notícias sobre os nomeados para postos chaves. Pode-se dizer que começara bem antes – desde quando Obama acolheu Joe Biden para candidato à vice-presidência.

Quando Obama nomeou Hillary Clinton para o cargo de Secretária de Estado – posto para o qual ela absolutamente nunca apresentou as qualificações mínimas indispensáveis, e todo mundo via que não – já não havia como não ver o que o futuro traria.

Na sequência, veio plena e total Restauração Clintonista. No campo da política externa, o único sinal de “novidade” apareceu adiante – com a nomeação de imperialistas “humanitárias” do tipo de Susan Rice e Samantha Powers. E aí já se via em ação a mão de Hillary.

Se o impulso para fazer reviver a Guerra Fria é ideia saída diretamente dela, ou não, não há dúvidas de que é ideia saída de seus protegidos e coligados: e ela nunca para de dar-lhes cada vez mais corda.

Sabe-se lá por que Hillary e outros tanto querem embarcar nesse negócio tão arriscado. Será que estão sentindo que a “guerra ao terror”, ou tenha lá o novo-nome que tenha na novilíngua recente de Obama, não está rendendo tudo que se esperava para o estado do complexo militar de segurança nacional?

Ou talvez percebam que meteram de tal modo os pés pelas mãos, tão profundamente, no Oriente Médio, que já não há lugar para eles por lá e terão de puxar o carro – rumo a outras aventuras. Faria sentido, mais é pouco provável que pensem, pode-se dizer, tanto. É reflexão que exigiria um grau de autoconhecimento e de autocompreensão que está muito além do capacidade dela e deles.

De fato, chega a ser espantoso o quanto é pouco o que eles, pode-se dizer, entendem. Será que se dão conta de o quanto uma Guerra Fria contra a Rússia – e contra a China também – pode ser perigosa? Como podem não saber?

Putin: "Olha o que Obama me mandou!"
Essa, afinal, é uma questão psicológica: a resposta pode variar de pessoa a pessoa. Mas num nível político, os contornos gerais de uma resposta já aparecem suficientemente claros.

Essa resposta é que isso, precisamente, é o que acontece quanto o espírito do Reaganismo toma conta de descendentes ideológicos dos anticomunistas da Guerra Fria!

Por quase 40 anos depois do fim da IIª Guerra Mundial, sempre houve liberais que foram levados, por simpatias e convicções, a apoiar o movimento trabalhista e outras forças populares de pensamento assemelhado, o que sempre serviu de freio contra o impulso inerente e incansável do capitalismo para enriquecer os capitalistas à custa de todo o resto da população.

Aqueles liberais eram tão devotados ao capitalismo quanto qualquer outro setor da classe política, mas eram menos inclinados que os demais a só promover os interesses dos principais beneficiários do capitalismo.

Essa sensibilidade começou a evanescer quando os Reaganistas chegaram ao poder; em pouco tempo, já sumira completamente. Ao mesmo tempo o liberalismo social continuou e até avançou, com o avanço de atitudes da sociedade.

Como reação, o zero-liberalismo social endureceu na direita. Em pouco tempo, discordâncias sobre valores, mais do que sobre valores materiais, passaram a ser a principal linha divisória a rachar a política norte-americana.

Disso trata, precisamente, o Clintonismo.

É liberalismo Reaganizado; é liberalismo anticomunista de Guerra Fria, sem a dimensão econômica progressista.

Os Clintonistas ainda estão comprometidos com tolerância e outros valores liberais não econômicos, mas nas questões econômicas, não há nenhuma diferença entre eles e seus adversários Republicanos.

Essa é a mais perfeita descrição de Hillary Clinton. Disseque-se sua persona pública, e está tudo lá: o liberalismo social, mas também o neoliberalismo econômico e, sobretudo, a insuperável animosidade contra a Rússia – e contra a China – herdada do passado da Guerra Fria.

Ninguém pode acusar Bill Clinton de ser presidente “transformador” no sentido em que Obama pensa que Ronald Reagan foi. Mas Reagan e sua primeira dama sim, transformaram o Partido Democrata – e de tal modo, em tal extensão, que já não há redenção possível.

Richard Nixon [foi presidente dos EUA de 1969 a 1974 (NTs)] conseguiu levar com ele os Republicanos e a ala direita dos Democratas quando abriu relações diplomáticas com a China – porque era homem da direita que provara inúmeras vezes as suas credenciais.

Mas o pessoal que levou com ele, esses, nunca mudaram. Eram doentiamente anticomunistas antes e eram doentiamente anticomunistas depois de Nixon os levar à China. Foi questão de fazer uma escolha estratégica, não de mudar corações e mentes.

Governo de Bill Clinton
Bill Clinton, por outro lado, não levou com ele seus companheiros Democratas quando decidiu promover o Reaganismo. Ele os modificou fundamentalmente; conseguiu que assumissem a agenda Reaganista, como se fosse sua própria agenda. Isso, agora, é o que Hillary Clinton fará – o que ela, de fato, já começou a fazer. E por isso a possibilidade de que ela venha a comandar o Partido Democrata é tão apavorante.

Converter os Democratas em direitistas já foi ruim que chegue sob o comando do Clinton marido, há uma geração. Imaginem as consequências disso agora, depois de décadas de deriva à direita e de oito anos de Barack Obama e sob comando de Hillary!

O Clintonismo é pior que simples Reaganismo, para os Democratas. É como um vírus Reaganista, dirigido contra os Democratas. Quando entra no sistema, dissemina-se como um vírus: e corrompe sem parar; só faz corromper.

Como em geral no trato com outros vírus, o melhor modo de lidar com ele é mantê-lo à distância. Se for impossível, o Plano B é salvar e restaurar o mais que se consiga salvar e restaurar.

É possível que já seja tarde demais. Tendo já iniciado a virada Clintonista, o Partido Democrata – que, afinal, nunca foi nenhuma maravilha – pode já estar danificado demais para ser salvo.

Mais ou menos em meados do próximo ano, como agora, ano que vem, com a campanha presidencial de 2016 já em andamento, já saberemos com certeza.


[*] Andrew Levine é professor sênior do Institute for Policy Studies, e autor de THE AMERICAN IDEOLOGY (Routledge) e POLITICAL KEY WORDS (Blackwell), bem como de muitos outros livros e artigos em filosofia política. Seu livro mais recente é In Bad Faith: What’s Wrong With the Opium of the People. Foi professor de Filosofia) na University of Wisconsin-Madison e professor pesquisador (filosofia) na University of Maryland-College Park. Foi também co-autor de Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press).

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Nos EUA, guerra contra a realidade


16/1/2013, Robert Parry, Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Robert Parry
A verdadeira luta que se trava nos EUA não põe em confronto a Direita e a Esquerda em qualquer sentido tradicional, mas os que acreditam na realidade e os que foram sequestrados pela irrealidade. É batalha em que se testa a determinação, de um lado, dos que pensam baseados em fatos; de outro, dos que operam num universo sem fatos e defendem as próprias fantasias.

Essas linhas de combate mantêm alguma relação com a divisão Esquerda/Direita, porque a Direita norte-americana, hoje, abraçou como se fosse fato e verdade o que não passa de ideologia e propaganda, e abraçou as próprias crenças mais completamente e mais agressivamente que a Esquerda. Não implica dizer que a Esquerda e o Centro sejam completamente imunes à prática de ignorar os fatos, em busca de encaminhamento eficaz de alguma agit-prop.

Mas os elementos chaves da Direita norte-americana estão muito firmemente fixados no mundo de faz-de-conta, o que torna quase impossível qualquer abordagem racional, de senso comum, que considere o mundo real, no mundo político. Os delirantes de Direita também são imbuídos da paixão dos verdadeiros crentes, como um culto que se vai tornando mais feroz, quanto mais se questionam suas crenças.

Assim sendo, não importa os milhões de provas de que o aquecimento global é fenômeno real e verificado; os negadores nunca se cansarão de repetir que não passam de novas mentiras e conspirações do governo para impor sua “tirania”. Não importa quantas criancinhas de jardim de infância sejam mortas a tiros de rifles semiautomáticos de assalto – nem qual seja a verdadeira história da Segunda Emenda. (...)

Barack Obama
Em questões menores, não importa que o presidente Obama tenha exibido sua Certidão de Nascimento: alguma coisa deve ter sido falsificada no estado do Havaí, para ocultar o nascimento no Quênia. Ah, sim, e Obama é “vagabundo”, por mais que observadores muito próximos e objetivos falem dele como "workaholic capaz de fazer bem várias tarefas ao mesmo tempo”.

O distanciamento entre a Direita americana coletivamente considerada e a realidade começou há décadas, mas foi fortemente acelerado quando o ex-ator Ronald Reagan entrou em cena no palco nacional. Até seus admiradores reconhecem que Reagan mantinha conturbadas relações com os fatos; sempre preferiu ilustrar seus argumentos com historietas e citações apócrifas, quase sempre distorcidas.

Ronald Reagan
O abismo que, em Reagan, separava fatos e realidade ia da política externa à economia. Seu concorrente na disputa pela indicação dos Republicanos à presidência em 1980, George H.W. Bush, chamou as políticas de Regan que visavam a fortalecer a oferta – cortes massivos de impostos para os mais ricos, o que, por hipótese, faria aumentar os salários – de “economia vudu”.

Mas Bush adiante reconsiderou e rendeu-se ao feitiço de Reagan, quando aceitou o lugar de vice-presidente em sua chapa. Bush-pai tornar-se-ia assim modelo que outros seguiriam dentro do Establishment, todos pragmaticamente rendidos ao descaso e à desconsideração que Reagan dedicava aos fatos e ao mundo real.

Gestão das percepções

O governo Reagan também erigiu em torno do presidente uma infraestrutura de propaganda que sistematicamente castigava políticos, cidadãos, jornalistas, qualquer um que se atravesse a desmentir as fantasias presidenciais. Essa estreita rede de colaboração público-privada – pela qual se coordenavam as ações da imprensa-empresa de direita com os especialistas governamentais em desinformação – trouxe para dentro de casa, nos EUA, a estratégia da CIA conhecida como “gestão das percepções”, normalmente orientada para manobras entre populações hostis.

Mediante operações de “gestão de percepções”, os Contra da Nicarágua, que na realidade jamais deixaram de ser terroristas com conexões com o tráfico de drogas e que varriam o interior da Nicarágua, assassinando, torturando e estuprando, foram convertidos em “equivalente moral” dos Pais Fundadores dos EUA. Discordar ou criticar ou desmascarar a “conversão” estigmatizava qualquer um como perigoso agitador que tinha de ser “controversializado” [orig.“controversialized”] e marginalizado.

O notável sucesso da propaganda reaganista foi lição bem aprendida por uma jovem geração de operadores Republicanos e de neoconservadores que começavam a surgir e que, então, estavam empregados nos postos-chave da política para a América Central e em operações de “diplomacia pública” de Reagan (como, dentre outros assemelhados, Elliott Abrams e Robert Kagan). A devoção dos neoconservadores ao imperialismo global serviu bem como motivo-pretexto para agir contra a realidade no plano interno. Nenhum fato interessa; só resultados contam [Ver Lost History, Robert Parry]  
Mas essa estratégia jamais teria funcionado sem a contribuição de legiões de direitistas manipuláveis que foram manipulados por séries infindáveis de falsas narrativas. Os politicamente pró-Republicanos manipularam o ressentimento racista dos neo-Confederados, o fervor religioso de cristãos fundamentalistas e o culto heróico do livre mercado dos apóstolos e fiéis que seguem Ayn Rand.

Que essas técnicas de “gestão de percepções” tenham sido tão bem-sucedidas num sistema político que garantia a liberdade de manifestação e de imprensa não foi prova, apenas, da competência dos operadores da propaganda dos Republicanos, gente como Lee Atwater e Karl Rove. Foi e ainda é prova, também, de que o Centro, nos EUA é tímido e assustadiço. E de que a Esquerda é inútil, como operadora, dentro da realidade. Dito em termos simples, a Direita combateu com mais fervor e mais empenho na defesa de suas fantasias e crenças, do que o resto dos EUA combatemos na defesa do mundo real.

Propaganda pró-contras! 
Houve vários pontos de virada nessa “infoguerra”. Por exemplo, o relacionamento secreto entre Reagan e os mulás iranianos, que foi parcialmente revelado no escândalo “Irã-Contras”. Mas as origens, visíveis na atividade dos Republicanos durante a campanha de 1980 – os quais fizeram contato com o Irã, pelas costas do presidente Jimmy Carter – foram varridas para baixo do tapete por Democratas hegemônicos e pela corporação “de mídia” de Washington.

Assim também, provas de que os Contra faziam tráfico de drogas – e, inclusive, declarações em que a CIA admite ter trabalhado para acobertar aqueles crimes – desapareceram das páginas dos grandes jornais, entre os quais o Washington Post e o New York Times. Assim também, o trabalho das comissões da verdade em quase toda a América Central, que expuseram as violações massivas de direitos humanos que Reagan aprovou e ajudou a cometer.

O medo de atacar fortemente e com determinação a máquina de propaganda de Reagan era tão grande que praticamente todos optaram por só considerar ou o futuro das próprias carreiras ou os próprios prazeres pessoais. Um lado orientou-se para a guerra política; o outro, não raras vezes, concentraram-se em viagens aos paraísos vinícolas.

Descrer de jornais e jornalistas da imprensa-empresa dominante [1]  

À medida que o fantasismo, o irrealismo e o apagamento dos fatos foram-se aprofundando ao longo das décadas, as camadas mais lúcidas e letradas do povo dos EUA passou a descrer, até descrer completamente, de jornais e jornalistas da imprensa-empresa dominante.

As próprias expressões “mídia dominante” ou “imprensa-empresa dominante” converteram-se em expressões de desprezo e de desqualificação – bem merecidos, dado que a tal imprensa-empresa dominante nada fazia para encontrar e distribuir informação verdadeira [trabalho sem o qual a imprensa-empresa nada é além de empresa como qualquer outra, sem direito a nenhum privilégio e, sim, bem merecedora de rédeas e freios (NTs)].

Os Democratas nacionais tampouco manifestaram grande interesse por estabelecer e divulgar fatos verdadeiros, nem pela correspondente luta pela verdade. Quando havia provas disponíveis de crimes cometidos por Republicanos – como nas investigações, no início dos anos 1990s, no caso Irã-Contras, no caso Iraque-gate e no caso Surpresa de Outubro – os Democratas trataram logo de acomodar as coisas. Democratas acomodatícios, como o deputado Lee Hamilton e o senador David Boren preferiram olhar para o outro lado.

Al Gore
Os Democratas submeteram-se, de vez, quando a Direita e os Republicanos roubaram as eleições de 2000, quando os eleitores votaram para um lado, e a Suprema Corte votou para outro e elegeu George W. Bush na Flórida, o que lhe deu a Casa Branca, roubada de Al Gore.

Ao longo das décadas depois da guerra do Vietnã, a Esquerda norte-americana também andou célere rumo à irrelevância. De fato, ouve-se até em alguns círculos da Esquerda que “os EUA não têm Esquerda”. Mas o que sobrou da Esquerda não raras vezes agiu como fanáticos escabelados, no processo de exigir aos berros “purezas” imaculadas, sobreumanas, jogando num mesmo saco de degola tanto os bandidos que faziam coisas terríveis como os quase-bons que fizessem o quase-impossível, o melhor possível, sob condições de fato impossíveis.

Esses EUA pós-modernos parecem ter atingido o fundo do poço na presidência de George W. Bush. Em 2002-03, circularam notícias sobre armas de destruição em massa que haveria no Iraque. Eram notícias que logo se comprovaram falsas. Mas já praticamente não havia ninguém, pessoa ou grupo, em posição de poder para, ou com coragem suficiente para declarar mentiras as mentiras. Enganada, fraudada por Bush e os neoconservadores – com a ajuda dos centristas e dos jornalistas-editores do Washington Post – a nação atirou-se numa furiosa guerra de agressão.

George W. Bush
Vez ou outra, a Direita manifesta abertamente o desprezo que sente pelos fatos da realidade. Quando o escritor Ron Suskind entrevistou membros do governo Bush em 2004, recolheu inúmeros depoimentos carregados do mais profundo desprezo por quem se recusasse a ajustar-se ao neomundo dos neocrentes da neofé.

Citando fonte não identificada, alto assessor de George W. Bush, Suskind escreveu:

“O assessor disse que gente como eu não passa do que “nós chamamos de comunidade dos dependentes da realidade”, que o entrevistado definiu como “gente que crê que as soluções brotem de estudo atento da realidade circundante”. E o tal assessor continuou: “O mundo já não funciona assim. Os EUA agora somos um império. Quando agimos, criamos nossa própria realidade. E enquanto você estuda essa realidade – e estude muito atentamente, se quiser –, agiremos novamente criando novas realidades, que você também pode estudar o quanto quiser. E as coisas serão assim, daqui por diante. Somos atores da história (...). Você, todos vocês, ficarão para trás, para estudar o que fazemos”.

A realidade volta e morde

Apesar dessa imperial arrogância, a realidade, aos poucos, volta e mostra seus poderes, seja no pântano de sangue sem solução à vista em que está convertido o Iraque, seja nas crises econômicas que as políticas antirregulação e de baixos impostos geraram nos EUA contra os próprios norte-americanos. Nas eleições de 2008, o povo americano estava acordando com terrível ressaca, de uma farra-orgia antirrealidade que durara 30 anos.

Nesse sentido, a eleição de Barack Obama foi, potencialmente, um ponto de virada. Mas a Direita furiosa que Ronald Reagan construíra – com efeitos debilitantes, paralisantes também no Centro e na Esquerda – teimou em não desaparecer.

A Direita contra-atacou ferozmente, contra o primeiro presidente negro dos EUA, ameaçando revolução violenta se Obama agisse logo no primeiro mandato eleitoral; Obama várias vezes agiu como um daqueles Democratas acomodatícios (por exemplo, quando não demitiu grande parte da equipe de segurança nacional de Bush); a imprensa-empresa dominante manteve-se oportunista-carreirista; e a Esquerda pôs-se a exigir perfeições perfeitíssimas nas situações de mais extrema dificuldade política.

Tea Party no Capitólio
Essa combinação de grupos disfuncionais contribuiu para o crescimento do Tea Party e para as vitórias dos Republicanos no Congresso em 2010. Mas a eleição de 2012, com Obama reeleito e rejeição ampla, geral e irrestrita ao fanatismo do Tea Party, criou a oportunidade para que os que pensam nos EUA se recompusessem.

Afinal, os EUA continuam a ver as consequências de três décadas de fantasias direitistas – alto desemprego; déficits massivos; crises financeiras autoinfligidas; classe média degradada; nada de saúde pública, nem qualquer assistência pública à saúde para milhões de cidadãos; infraestrutura em ruínas; planeta em franco aquecimento; guerras cada vez mais caras em terras cada vez mais distantes; o orçamento do Pentágono manchado de sangue; e crianças assassinadas por um adolescente perturbado, que nada e ninguém impediu que pusesse as mãos em rifles semiautomáticos de assalto carregados.

Mas, se se espera que soluções racionais e pragmáticas sejam algum dia aplicadas aos nossos problemas, não bastará que se exija apenas mais espinha dorsal do presidente Obama. O país precisa de que os norte-americanos que ainda habitem o mundo real levantem-se e lutem, no mínimo com a mesma determinação com que lutam os doidos que habitam o mundo do faz-de-conta.

Claro que será luta feia e desagradável. Exigirá recursos, paciência, firmeza. Mas não há outra resposta possível. Temos de recuperar e preservar a realidade – se ainda queremos salvar o planeta e as crianças dos jardins de infância dos EUA.


Nota dos tradutores
[1]  No orig. Distrusting the MSM (mainstream media)