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quarta-feira, 29 de abril de 2015

Eurogrupo quer Varoufakis fora do ministério: Avanços na trajetória rumo a não pagar

27/4/2015, [*] Yves SmithNaked Capitalism
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Yanis Varoufakis

COMENTÁRIO AO POSTADO: 
Mario Medjeral  April 27, 2015 at 8:33 am
Sejamos justos com Varoufakis: é economista sério (seus adversários são caixas de banco, no máximo). Qualquer pessoa que conheça seus livros e seu blog compreende que Varoufakis só quer reformar a UE na direção da ideia inicial dos franceses: uma união monetária e fiscal oposta aos EUA, distante do atual formato, que é insustentável (iniciativa americanizada para promover o projeto mercantilista alemão e atar a Europa às cadeias da OTAN).

O ponto é que do lado da UE ninguém ouve (e só poucos, provavelmente, compreendem). É a mesma gente europeia que está provocando a Rússia, uma potência nuclear, para defender um governo corrupto e falido na Ucrânia, porque não têm coragem de dizer NÃO a Washington.

De qualquer modo, se houver GREXIT, entendo que, sim, Varoufakis será o homem certo para administrar a coisa. E acho que Tsipras sabe disso.


Grécia
Caso alguém ainda não tenha percebido que o Eurogrupo espera que a Grécia aja como boa vassala da própria dívida, mais chiliques choveram sobre Yanis Varoufakis na reunião da 6ª-feira passada (24/4/2015), que gerou rajada de artigos nada elogiosos, e culminam agora com o Eurogrupo exigindo que o governo grego demita seu ministro.

Não que haja, aí, qualquer novidade; houve agitação semelhante em fevereiro, quando a hostilidade entre Varoufakis e o Ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schauble chegou a tais níveis, que Schauble recusou-se a permanecer na mesma sala com seu contraparte grego. A solução durante as negociações foi isolar Varoufakis, enquanto Christine Lagarde, o Presidente do Eurogrupo, Jeoren Djisselbloem e outros eurocratas top faziam diplomacia de porão, para reformatar a linguagem a ser apresentada diretamente ao Primeiro-Ministro grego Alex Tsipras, excluindo Varoufakis completamente (matérias jornalísticas apresentaram o memorando como fato consumado, com uma delas afirmando que Tsipras ouvira que era pegar ou largar; e outro, que Tsipras não teria tido autorização para alterar sequer uma palavra).

E Varoufakis? Sai ou não sai? A resposta, aqui, seja qual for, deve ser tomada com um punhado de sal, porque os eurocratas parecem crer que Tsipras seria mais dobrável às suas opiniões que Varoufakis. Na verdade, segundo todos os informes, Tsipras permanece no absoluto controle de tudo (apesar das falas descoordenadas de vários ministros; falar e decidir são coisas bem diferentes). Assim sendo, não há qualquer fundamento para que o Eurogrupo escolha uma ou outra cara, porque nem um nem outro dos gregos mudará qualquer coisa do que realmente interessa à Grécia. Seja como for, eis a versão do Financial Times:

Indício de que a abordagem combativa do Sr. Varoufakis está gerando preocupações também na Grécia, alto funcionário do governo em Atenas disse que a reunião em Riga provavelmente porá de lado o ministro, enquanto Tsipras e seu vice Yannis Dragasakis iniciam participação mais direta. (...)

Funcionários da Eurozona e do governo grego acreditam que as diferenças entre Varoufakis e Tsipras estão-se aprofundando e que apelo organizado ao primeiro-ministro pode ainda produzir algum acordo até o final de maio, quando talvez se chegue à conclusão de que é preciso chegar a algum acordo, se qualquer desembolso foi feito antes de que expirem o atual plano de resgate, no final de junho.

Embora haja amplas diferenças entre Atenas e os credores na Eurozona em assuntos de fundo, o atual impasse com Varoufakis tem a ver, principalmente, com questões processuais – disseram aqueles funcionários.

Porque o novo governo prometeu que não recomeçariam as inspeções intrusivas pelos monitores do resgate, antes conhecidos como “a troika”, Varoufakis recusou-se a negociar com negociadores de nível médio em Atenas, e insistiu num acordo político a ser firmado em níveis superiores. Os líderes da Eurozona apertaram a estratégia, insistindo num novo plano de reforma econômica com monitores em Atenas, antes de qualquer discussão sobre dinheiro novo dentro do eurogrupo.”

Financial Times, depois de criar a impressão de que Varoufakis estaria nas cordas, cita uma fonte grega não identificada, que diz que Varoufakis não será removido (pressupondo que seja removido) antes de que haja acordo sobre o chamado “resgate”.

Varoufakis permanece impassível:

FDR, 1936: “Eles são unânimes no ódio contra mim; bem-vindo ódio” – Citação muito próxima do meu coração (& dos fatos) nesses dias” 6:49 AM - 26 Apr 2015

E artigo em Bloomberg sobre as explosões nas reuniões do Eurogrupo, sugere que Varoufakis continua popular em casa:

Varoufakis tem o apoio da maioria dos gregos, segundo pesquisa de Alco publicada no jornal “Proto Thema”. Cerca de 55% dos respondentes disseram que têm impressão positiva do ministro, contra 36% que disseram ter impressão negativa.

Estaremos realmente diante de algum problema “de processo”? Um dos ditos de Lambert é que quando pessoas em organizações dizem que estão com “um problema de comunicação”, o problema sempre é, de fato, problema de administração & gerência.

Há boas razões para desconfiar que o chamado problema “de processo” é sintoma de descaminho em questões de fundamento. Como vimos desde o início, não há superposição entre as posições de barganha dos dois lados. Se, como já dissemos, o governo grego está em crise de negação sobre a disposição dos credores para conceder sobre reformas estruturais, o reverso disso é que os credores, ou pelo menos o Eurogrupo, parece estar operando a partir de sua própria paranoia de negação obsessiva: se eles conseguirem pôr à mesa as personalidades individuais ‘certas’ e os corretos procedimentos de negociação... então haverá possibilidade de acordo. 

Tsipras, o Eurogrupo e o Syriza

O problema, como já dissemos, é que o governo grego está encaixotado pelos membros de sua coalizão. Ainda que os moderados do partido SYRIZA  quisessem fazer concessões (e Tsipras e Varoufakis são, ambos, moderados), eles estão obrigados a apoiar os membros da esquerda mais rígida do mesmo partido SYRIZA, 1/3 do bloco. E esses não cederão. Antes de ceder, derrubam o governo de Tsipras.

Que ossos estão sendo disputados?  dissemos que o novo governo repetidas vezes tentou contornar os impedimentos do processo apresentado no memorando do Eurogrupo, e que mandava o governo apresentar lista detalhada de reformas estruturais que, então, seriam examinadas pela Troika, e finalmente pelo Eurogrupo, e, se aprovadas, os fundos de resgate seriam liberados. O lado grego, em vez disso, tentou ir diretamente ao Eurogrupo e obter aprovação para projetos de memorandos; foram à Comissão Europeia e, agora já por duas vezes, à chanceler Merkel. Isso alimentou a queixa dos eurocratas, de que os gregos perderam tempo.

As várias listas de reformas que o governo grego apresentou até agora foram descartadas, como insuficientemente detalhadas. A julgar apenas pelo que disse a mídia-empresa sobre a extensão dos documentos, essa parte parece ser verdade.

Mas isso significará que a solução será deixar que os monitores do resgate continuem a se intrometer cada vez mais? Se os detratores de Varoufakis talvez acertem ao dizer que ele quer negociar coisas demais no nível dos atores políticos chaves, fato é que os dois lados não chegaram a nenhum tipo de acordo nesse mais alto nível. Assim sendo, que sentido faz trabalhar sobre detalhes?

A disputa é sobre reformas estruturais. Ainda que os gregos tenham visto o memorando de fevereiro como tão vago a ponto de deixar muito espaço para negociações, como nos parecia que fosse o caso, e os eventos confirmaram, e isso posto, o velho, odiado pacote de reformas estruturais estava, pelo menos, sobre a mesa. Na visão dos credores, a Grécia tem de discuti-lo, seja como for. O novo governo pode trocar umas reformas por outras, se conseguir convencer os credores de que as novas reformas não terão impacto negativo no orçamento.

Assim sendo, se se acolhe o ponto de vista da Troika/Eurogrupo, nada há, ou só há pouca coisa, a negociar. A Grécia tem de tratar de mostrar como pode fazer melhor serviço de cobrar impostos e reformar seus mercados de trabalho [arrochar os trabalhadores]. É coisa que só se faz no plano técnico, e Varoufakis não se encaixa.

Como Stathis Kouvelakis, membro da coalizão do Partido Syriza, explica na revista Jacobin[Grécia: o nó aperta], o que se dizia era que o governo, ou pelo menos sua ala esquerda mais crítica, não moveria um pé da posição sobre reformas estruturais: cortar (“reformar”) aposentadorias, “reformar” mercados de trabalho, aumentar o IVA [imposto sobre valor agregado], e as privatizações. Pois fato é que o governo grego já cedeu nas duas primeiras, já está fazendo avançar a privatização do porto de Pireus e disse que fevereiro que aumentará o IVA.

Como já comentamos, a reforma das aposentadorias é a ponte que nenhum dos lados consegue atravessar. A Grécia tem as aposentadorias mais altas da Eurozona, como porcentagem do PIB. Porém, se se ajusta o cálculo pela idade da população, as pensões que a Grécia paga estão abaixo da média da Eurozona. Mas os ministros do Eurogrupo (e, mais importante, os cidadãos que eles representam) creem no mito muito divulgado pela mídia-empresa de que a Grécia pagaria pensões generosíssimas. Portanto, nem querem nem jamais conseguiriam vender aos seus eleitores qualquer tipo de “ajuda” ao governo grego, se o povo continuar a crer que seus ministros estariam defendendo para os aposentados gregos pensões mais altas do que o governo paga em casa.

O fato de Varoufakis ter buscado diretamente o impasse básico parece ser a causa mais provável de a reunião de 6ª-feira (24/4/2015) ter azedado tanto. De Bloomberg:

Varoufakis descreveu as conversas como “intensas” e disse que seu país está pronto a fazer “grandes concessões” para chegar a um acordo.

“O custo de não haver solução pode ser imenso, não só para nós mas para todos”, disse ele (...).

Em resposta aos ministros reunidos, defendeu proteção às pensões públicas, ponto que continua a emperrar as negociações. Ameaçou deixar a sala, se os creditores forçassem demais a discussão.

Quando Dijsselbloem convidou o grupo a responder, houve silêncio total. Pediu novamente, e Kazimir falou.

A recusa de Varoufakis a aceitar as condições dos credores, irritou especialmente o ministro eslovaco, porque seu governo cortou o déficit no orçamento e atacou a evasão fiscal. A posição do grego pode ter caído em ouvidos surdos também entre os demais convidados em Riga.

A economia da Letônia encolheu mais de 1/5 em 2008 e 2009 quando o país foi governado por Valdis Dombrovskis, agora vice-presidente da Comissão Europeia e participante da reunião da 6ª-feira (24/4/2015). Dombrovskis implantou algumas das medidas mais duras de arrocho [orig. austerity] que o mundo conheceu – com cortes equivalentes a 16% do PIB. A economia grega encolheu cerca de ¼ desde 2008.

Entendamos, pois, o que significa isso:

1. A Grécia, como outros devedores, “deve” “aceitar as condições dos credores”; e

2. Por mais que outros membros do Eurogrupo estejam furiosos por a Grécia não aceitar o programa, muito mais furiosos estão os países que forçaram seus cidadãos a enfiar-se sob o chapéu do arrocho (“austeridade”).

Austeridade=ARROCHO
Por que os ministros do Eurogrupo levam as coisas tão “pessoalmente”? Se a Grécia não pagar nas próximas semanas o que deve ao FMI, como parece provável que aconteça (p. ex., o Financial Times noticia que funcionários da Eurozona estão desafiando a lei nacional no encaminhamento de depósitos orientados para que o governo possa fazer caixa para pagar salários, aposentadorias e dívidas vincendas), deve-se esperar que possuidores de papéis da dívida grega tendam a se desafazer deles. Adiante, uma tabela da situação recente, que não inclui a maior exposição do BCE em 2015, sob a Emergency Liquidity Assistance (ELA):

Screen shot 2015-04-27 at 4.56.15 AM

Essa é a razão pela qual Varoufakis agiu como se os credores fossem piscar primeiro: os funcionários europeus teriam de dizer aos respectivos eleitores que todos perderam dinheiro porque apostaram na dívida grega, o que seria questão política supercarregada e “intocável”. Mas continuar a financiar as aposentadorias gregas com empréstimos, como feito até aqui, também é questão política supercarregada e “intocável”. Ainda que deixar a Grécia quebrar gere custos muito maiores em todos os fronts, a opinião pública pode vir a culpar a Grécia pela própria quebra, mas não haverá Grécia alguma a culpar, se os credores cederem a favor das aposentadorias gregas.

Algum tipo de cabeças mais frias podem ainda prevalecer. Mas a verdade é que o Banco Central Europeu é ainda mais ‘sangue-no-olho’ que qualquer outra das partes em litígio. Do artigo da revista Jacobin [Grécia: o nó aperta]:

Mas amostra mais representativa da visão das duas principais instituições europeias que, juntas, são credoras de cerca de 2/3 da dívida grega, o Banco Central Europeu e o Mecanismo Europeu de Estabilidade [orig. European Stability Mechanism (ESM)], encontra-se nas entrevistas dadas dia 22/4/2015, por Klaus Regling, diretor-gerente do ESM, e por Benoît Coeuré, membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu.

Os dois manifestam linha especialmente dura sobre a Grécia, rejeitando duas demandas chaves do governo grego na atual fase das negociações: nada de desembolso do €1,9 bilhão a que a Grécia faz jus depois de “completada a revisão”, que significa que se alinham a favor do tipo das “reformas” contra as quais está o lado grego (essa soma corresponde aos juros gerados pelos papéis gregos e devem ser devolvidos à Grécia, nos termos do Securities Markets Programme (SMP) do Banco Central Europeu, desde fevereiro/2015). E nada de “abordagem gradual” às reformas, como propôs o ministro grego das Finanças Yanis Varoufakis, para permitir que a Grécia alcançasse liquidez antes de junho e para facilitar um acordo.

Em vez disso, requereram “lista compreensiva de reformas”, que deve incluir mais desregulação do mercado de trabalho e cortes nas pensões, duas “linhas vermelhas” que os gregos não cogitam ultrapassar.

Regling foi ainda mais longe que Coeuré: comentando sobre a possibilidade de a Grécia sair da Eurozona (“Grexit”), ele disse calmamente que “não é o cenário básico. Mas se tiver de acontecer e trabalhamos muito, muito duro para não chegarmos a isso, nesse caso acho que haverá muita incerteza, porque não temos nenhum tipo de experiência semelhante”. Acrescentou que “claro que seria mais administrável que há cinco ou seis anos, porque temos novas instituições, o European Financial Stability Facility (EFSF), o ESM, outros países na área do euro fizeram tremendos progressos nos ajustes, como Irlanda, Portugal, Espanha.”

Regling também se opôs declaradamente aos atuais planos do governo grego para reduzir alguns impostos e aumentar o salário mínimo e as aposentadorias e pensões; disse que isso seria “andar para trás” e está pondo em risco as negociações. Sobretudo, deixou bem claro que o desacordo é muito profundo, uma vez que o governo grego pensa que a abordagem do governo anterior seria errada, quando, segundo ele, “a estratégia está dando certo”. “Essa diferença ainda não foi resolvida” – diz Regling.

E conclui ridicularizando a ideia de que os credores poderiam “recuar porque não querem um evento ou um acidente de crédito”. Disse que “nossos procedimentos para conceder empréstimos são muito claros e muito bem estabelecidos. Estão associados à condicionalidade, estão claramente escritos no tratado do ESM. Precisamos de decisão unânime dos acionistas e da aprovação de seis parlamentos da União Europeia, e os parlamentos com certeza verificarão cuidadosamente se a condicionalidade — uma exigência chave – foi satisfeita.

Matéria da Reuters insiste que o Banco Central Europeu não será quem puxará o gatilho contra a Grécia, se a Grécia tornar-se inadimplente, mas é possível que estejam supondo que podem oferecer suficiente cobertura para cortar ou recusar-se a renovar ou aumentar a ELA, forçando uma Grexit.

Parece sadismo, e é sadismo, mas é preciso não esquecer uma coisa: esse jogo é da Troika e do Eurogrupo e, portanto, eles podem definir as regras. A Grécia pode estar sendo ingênua, supondo-se em posição de negociar de igual para igual. Do ponto de vista dos credores, a Grécia é mendiga suplicante, e tem de agir mais como tal, para ter qualquer esperança de ganhar algum dinheiro.

Grécia
Não há motivo para supor que os credores seriam mais “fáceis”, se Varoufakis fosse substituído. As diferenças entre a Grécia e seus emprestadores é fundamental, e ter interlocutor mais cordato não mudará isso. Além do mais, uma cara nova será provavelmente pior. Embora o vice-ministro de Varoufakis pareça mais palatável no curto prazo, qualquer novo ministro das Finanças será necessariamente membro do Parlamento. Todas as substituições possíveis estão ainda mais à esquerda, sabem menos de economia e não falam tão bom inglês quanto Varoufakis. Se acham que Varoufakis não é suficientemente conciliador, menos ainda será qualquer cara nova.

Maio é mês especialmente ruim para entrar em inadimplência. O público grego opõe-se atualmente em grande maioria à saída da Grécia da zona do euro (“Grexit”) e como já indicamos, é o Banco Central Europeu, não o governo grego, quem determina se a inadimplência significará saída da zona do euro.

Pesquisa de kapa para [jornal] to_vima: 72,9% #greeks querem ficar na Eurozona, 20,3% querem a volta da moeda nacional.  #greece   11:33 AM - 25 Apr 2015 

Observe-se que to-vima é hostil à atual coalizão governante; a pesquisa, portanto, foi provavelmente construída para dar resultados que interessam aos conservadores. Mesmo assim, como Kouvelakis explica:

A complicação aqui é que tornar-se inadimplente em maio significa não pagar o FMI, o que implica complicações enormes para o comércio (o FMI pode impor sanções que tornarão quase impossível o acesso do comércio ao crédito privado). Melhor seria a Grécia não pagar o que deve ao EFSF do Banco Central Europeu, mas são dívidas que só vencem no verão e parece quase impossível que a Grécia se aguente até lá.

O governo grego parece estar em estado de negação, ou de paralisia. Os funcionários fazem declarações disparatadas sobre se a coalizão quer manter suas posições, mesmo que ao custo de ter de deixar a União Europeia, ou se o governo organizará um referendo para resolver o caso, se as conversações gorarem. Quanto ao referendo, o tempo das finanças anda mais depressa que o tempo da política. Na maioria dos países, o processo de organizar um referendo implica tempo (votação pelo Parlamento e um período de tempo, não raras vezes fixado pela Constituição, antes da votação). Com a inadimplência já consumada provavelmente no início de maio, e acordo tendo de ser fechado à velocidade desatinada, para evitar que aconteça, a Grécia praticamente com certeza já passou do ponto em que poderia organizar um referendo para informar decisões.

Diane Shugart informa em tuíto posterior, que a pesquisa de Kapa mostra apoio de 36,9% para o Syriza – virtualmente o mesmo que o partido alcançou nas eleições. Mas é redução significativa em relação aos altos índices que o governo alcançou depois das eleições.

Embora o custo da saída da Grécia, da zona do euro, possa ser extremamente alto em termos econômicos (já vi previsão de redução de 20% no PIB, pior do que qualquer previsão existente para o futuro com arrocho [“austeridade”]), Kouvelakis argumenta que os cidadãos só estão sendo informados de um lado da história [“Grécia: o nó aperta”]:

O elemento que serve mais claramente como combustível para essa atmosfera confusa é, porém, o fato de que continua a campanha  "midiática" de aterrorizamento da população contra o “Grexit”, sem qualquer ação do governo Tsipras.

A oposição de direita e a grande mídia-empresa, cada dia mais hostil contra o governo e usando discurso cada dia mais agressivo, e todos os argumentos possíveis a favor da rendição incondicional, continua a mostrar a ruptura com a Eurozona como um apocalipse – o que fizeram sem parar, todos os dias, desde o início da crise.

Mas a resposta do governo tende a ser que essa ruptura será evitada, graças ao “compromisso honesto” com o qual os europeus acabarão por concordar. Absolutamente não é, para dizer o mínimo, discurso capaz de mobilizar a base popular do Syriza e preparar a sociedade para uma eventual ruptura com a Europa.

Ambos, a Grécia e seus credores caminham como sonâmbulos rumo a uma ruptura que os dois lados dizem querer evitar. Mas a falta de confiança mútua e a troca de farpas são dinâmicas clássicas do divórcio, e nesse caso não há conselheiro matrimonial. Tsipras acerta ao ver Merkel como sua melhor ou, melhor dizendo, como sua única, esperança, mas a rachadura pode já ser profunda demais, para que Merkel consiga remendá-la (assumindo-se que ela queira fazer isso).
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[*] Yves Smith passou mais de 25 anos na indústria de serviços financeiros e atualmente dirige a Aurora Advisors, empresa de consultoria sediada em New York, especializada em consultoria de finanças corporativas e serviços financeiros. Sua experiência inclui trabalho na Goldman Sachs (em finanças corporativas), McKinsey & Co. e Sumitomo Bank (como chefe de fusões e aquisições). Yves já escreveu para várias publicações nos EUA e na Austrália, incluindo The New York Times, The Christian Science MonitorSlateThe Review Conference Board, Institutional InvestorThe Daily Deal e na Australian Financial ReviewÉ graduada no Harvard College e no Harvard Business SchoolAnima o blog Naked Capitalism  desde 2006.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Governo grego desafia o “sistema” da União Europeia e Rússia desafia o “sistema” global

23/3/2015, [*] Conflicts Forum, Comentário Semanal, 13-20/2/2015
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Sir John Sawyers
No início dessa semana (13-20/2/2015), o chefe recentemente aposentado do Serviço Secreto da Inteligência Britânica, Sir John Sawyers, disse:

(…) mas a crise na Ucrânia já não é crise só sobre a Ucrânia. Agora é crise muito maior, muito mais perigosa, entre Rússia e os países ocidentais, sobre valores e ordem na Europa.

Alertou que os países ocidentais têm de “encarar” Moscou, mas

(...) uma vez que Mr. Putin vê a questão em termos da própria segurança da Rússia, ele estará preparado para ir mais longe que nós.

Não se pode adivinhar o que, exatamente, o Sir subentende nesse confronto de valores: possivelmente, só quis destacar o meme já conhecido, segundo o qual a secessão voluntária da Crimeia, que votou a favor de separar-se da Ucrânia, equivaleria a pôr em risco toda a “ordem” europeia (muitos interpretam assim, embora, para isso, seja preciso fazer-se de cego e não ver o que aconteceu no que foi um dia a Iugoslávia).

Ou, possivelmente, SirJohn falava de algo mais profundo: que Moscou estaria realmente desafiando o Ocidente, ao reclamar prerrogativas para a Rússia contra a ordem financeira e comercial global e o respectivo modelo de governança democrática-consumerista liberal/neoliberal apresentado como imperativo universal; e a respectiva reengenharia da ordem internacional, distanciada das normas sobre as quais ela foi fundada, com coerção geofinanceira, isolamento e sanções. O sentimento de choque existencial prevalente entre quase todos os russos, sim, sugere fortemente que estejamos assistindo a algo bem profundo: um choque de valores civilizacionais à moda Fukayama (sic), que parece ser o que Sawyers está apontando.

Yves Smith
Em certo sentido, essa tensão russa de algum modo ecoa aquela outra crise da Europa, crise – que também é de “valores e ordem” – que se vê no desafio que a Grécia trouxe à elite da UE. Como Yves Smith observou:

Esse incidente [o rompimento das conversações do Eurogrupo com a Grécia]sugere que está em curso uma luta muito mais básica, que não aparece diretamente refletida nas conversações da Grécia com a Troika. O governo grego e seus credores parecem ter visões fundamentalmente diferentes sobre o que a Grécia realmente tem poder para fazer.

De fato, a posição dos vários credores da dívida grega é que a Grécia já entregara parte significativa da própria soberania, se não toda ela, em troca do dinheiro do “resgate”. E os credores teriam fixado um sistema de arrecadação pelo qual a Grécia jamais conseguiria livrar-se das dívidas e obrigações.

Dito de outro modo: a Grécia, na visão dos credores, teria sido reduzida, submetida em vasta medida a autoridades da Eurozona, sobre as quais não há controle algum; e teria perdido todos os direitos e benefícios de ser parte de uma federação real – o principal dos quais é poder receber transferências fiscais.

Por seu lado, a Grécia tem a visão de que ainda é Estado e ainda têm direitos que não lhe podem ser tirados.

Se é essa a natureza subjacente do desentendimento, da qual as dificuldades na negociação seria mero sintoma, não há motivo algum para manter alguma esperança de acordo futuro, exceto se o governo do SYRIZA capitular. A Grécia está efetivamente pedindo uma mudança na ordem constitucional oculta: quer dizer, dos vários termos impostos nos acordos de resgate que outros estados periféricos tratam como cláusulas cogentes e irrevogáveis. Mudanças nas ordens constitucionais são difíceis, para dizer o mínimo; e quase sempre só acontecem via golpes ou guerras.

De fato, o SYRIZA está contestando as prerrogativas do microcosmo, assim como a Rússia desafia o macrocosmo. A Grécia contesta a ordem financeira (como se vê na priorização absoluta dos credores sobre quaisquer outros interesses, inclusive a própria realidade ou o sofrimento humano); e também desafia o modelo de governança – o neoliberalismo institucionalizado – que determina que a Grécia seja sangrada até que pague as dívidas que, avaliadas com realismo, são absolutamente impagáveis, e cuja cobrança esvazia qualquer aspiração que a Grécia tenha à soberania. E a Grécia também está desafiando a prerrogativa que teria aquela ordem financeira de coagir financeiramente (ameaçando com levar os bancos gregos à falência), para obter o que quer.

Syriza comemora vitória eleitoral
Um analista sugere, com boa percepção da realidade, que a verdadeira luta da Grécia seria menos contra o Eurogrupo (o microcosmo), mas, de fato, mais, com o que há por trás dele: o “estado profundo” financeiro, desterritorializado, de Europa & EUA.

Para muitos, seria “irracional” desafiar esse “estado profundo” de Europa & EUA; e que a Grécia – para ser racional – teria de aceitar, no último momento, o que lhe ordena “Mr. Market”. Mas o que se tem visto no caso presente é que o partido SYRIZA não parece ser o velho partido social-democrático centrista, que sempre cede. E o argumento dele não é a velha dialética simplória do pró ou anti-mercado.

O argumento agora é mais complexo, sobre o quanto políticas monetaristas radicais, a manipulação pelo Banco Central Europeu e umas poucas formas de negociar operadas por uns poucos grandes atores de mercado distorceram o “mercado”, a ponto de o converterem numa autocracia global predatória e impermeável a qualquer mecanismo ou controle democrático.

Não surpreende portanto que essas duas crises (à primeira vista tão separadas e diferentes) – Ucrânia e Grécia – estejam se politizando muito rapidamente (cada dia mais gregos mostram-se mais abertos a Moscou que a Bruxelas, como mostram pesquisas recentes). Há sem dúvida uma correlação política entre todos os partidos políticos europeus que compreendem o sofrimento dos gregos e que se mostram mais ‘abertos’ para a Rússia.

Superpreocupados talvez com a questão da dívida e com o destino do euro, parece que perdemos de vista a questão política: o governo grego está desafiando o “sistema” União Europeia de modo muito fundamental (e a Rússia está desafiando o “sistema” global). Não surpreende que partidos políticos por todo o sul da Europa, também desencantados com a violência e a intolerância de Bruxelas, estejam prestando tanta atenção. Também eles, com certeza, já perceberam que o SYRIZA fez uma aliança com um partido da Direita, na construção de uma campanha comum anti-‘sistema’ (mesmo que, no longo prazo, esses caminhos tenham de se separar).

Esse quadro deve ter desencadeado arrepios de medo em muitos partidos europeus de centro, comprometidos com o arrocho [“austeridade”] e com a União Monetária Europeia.

Eurozona
Muito provavelmente, é o medo – mais de contágio político, que de contágio financeiro – que está provocando reações nas euro-elites, que as fazem reagir com tanta fúria no caso grego. Mas a própria fúria, a irascibilidade, da resposta daquelas elites e dos líderes europeus, ameaça converter uma disputa econômica em disputa nacionalista – incendiando as chamas do nacionalismo (e do sentimento anti-alemão) por todo o sul da Europa e pelos Bálcãs.

Vê-se que os partidos euro-céticos no Reino Unido, França e Itália, inter alia, estão de olhos postos, acompanhando o destino da rebelião dos gregos. Nos Bálcãs, essas crises gêmeas também já convergiram na percepção pública, e estão reabrindo as feridas do desmembramento da Iugoslávia.

Para os sérvios, especialmente, a crise ucraniana desperta emoções de déjà vu: a Ucrânia está sendo instrumentalizada, ferramenta do desejo ocidental de castigar a “impertinência” e a “ousadia” da Rússia, como Croácia e Eslovênia foram instrumentalizadas, ferramentas do desejo do mesmo ocidente, de também castigar uma Sérvia que se “atrevia” a tender, também, a favor dos russos.

Yves Smith (acima) ecoa o ponto de Sawyer, de que desafios a valores coletivos ou à ordem estabelecida nunca são facilmente bem-sucedidos, e praticamente sempre só se consumam mediante conflito, que é o que torna tão intratáveis essas duas crises. O elemento comum a ambas é um desejo de recobrar a soberania assaltada pela ordem financeira e política global ou financeira: em outras palavras, o desejo de “ressoberanizar” os dois estados “contestadores”.

É bastante claro que os EUA não querem Rússia “ressoberanizada”, nem a Alemanha quer alguma “ressoberanização” da Grécia (seja por medo de criar um precedente para Espanha, Portugal e Itália, seja pelo custo político, para a Alemanha, de ver desmoralizadas a sua autoridade e a sua liderança na Europa).

E é nessa profundidade que as crises gêmeas na Europa têm laços que as conectam também ao Oriente Médio. Perguntado recentemente se via solução política para a Síria, o embaixador russo em Beirute respondeu que a crise ucraniana tornava improvável qualquer movimento nessa direção; o Moscow Times também citou um conselheiro do Ministério da Defesa, especulando que, no caso de os EUA armarem Kiev, a Rússia armaria o Irã.

Mapa da aliança de segurança da Rússia
Mas, mais que esses links óbvios, a crise ucraniana – e a guerra geofinanceira desencadeada contra a Rússia – levou a Rússia a reagir no Oriente Médio, onde hoje trabalha conscientemente para reformatar a região como área mais multipolar e não denominada em dólares. Os três pilares atuais do Oriente Médio – Irã, Turquia e Egito – começam a interessar-se por construir laços mais firmes com China e Rússia e (em ritmos diferentes) afastam-se do comércio dolarizado, pelo menos nas transações entre eles mesmos.

Em outras palavras, qualquer escalada nessa dupla crise e em suas tensões inerentes incidirão diretamente sobre a capacidade de Europa e EUA mediarem conflitos no Oriente Médio, uma vez que Rússia, Irã, Egito e Turquia são, total ou parcialmente, atores chaves para ajudar a encaminhar solução nos atuais conflitos regionais.

Só para repetir bem claramente: a crítica que o presidente Putin faz contra a “ordem” global e contra os EUA estarem armando o sistema financeiro global encontra muitos ouvidos simpáticos por todo o mundo “não ocidental”.

E se a Grécia tiver de ser transformada em estado falido (para desencorajar os outros (pour décourager les autres [para desencorajar os demais, fr. no orig.]), se acelerará a tendência no Oriente Médio, de estados separarem-se do mundo unipolar, para caminhar na direção de multipolarismo mais bivalente.

A Grécia sempre foi membro do núcleo da União Europeia (é dos primeiros países que se uniram à UE – antes de Espanha ou Portugal); e a Grécia é membro da OTAN. Qualquer reorientação da Grécia na direção de Rússia e China (em busca de ajuda para enfrentar a saída do euro), ou a decisão dos gregos de se separarem da OTAN, dispararão ondas de choque por todos os Bálcãs.

Rota da Seda Sul (vermelho) e Rota da Seda Marítima (azul)
(clique na imagem para aumentar)
A China já especula sobre a possibilidade de estender sua Rota da Seda, seu corredor econômico, pela Turquia, pela Sérvia, até a Hungria (que desafiou “regras” da UE e recebeu o presidente Putin em Budapest). Há conversas também sobre um gasoduto que ligaria o novo “Ramo” Turco (que substitui o “Ramo Sul”) à Grécia, Sérvia e Hungria – e que correria talvez ao longo da projetada estrada de trens de alta velocidade e o corredor econômico chinês que ligará essa parte do sudeste da Europa.

Tudo isso acontecendo como o previsto, parte significativa do leste europeu estará já muito fisicamente orientada para, e conectada com, o Oriente Médio e, dali para a frente, também para/com Rússia e China.
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[*] Alastair Crookeàs vezes erroneamente referido como Alistair Crooke, (nascido em 1950) é um diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, uma organização que defende o engajamento entre o Islã político e o Ocidente. Anteriormente, foi figura proeminente, tanto da Inteligência Britânica (MI6) como da diplomacia da União Europeia como conselheiro para assuntos do Oriente Médio de Javier Solana (1997-2003), no cargo de High Representative for Common Foreign and Security Policy da União Europeia. Foi ácido crítico da violência e saques militares contra os territórios palestinos e movimentos islâmicos de 2000-2003. Esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade, em Belém. Foi membro do Comitê Mitchell sobre as causas da Segunda Intifada, em 2000. Manteve encontros clandestinos com a liderança do Hamas em junho de 2002. É defensor ativo do engajamento do Hamas no processo de paz na Palestina, a quem ele se referiu como “Combatentes da Resistência".
Crooke estudou na University of St Andrews (1968–1972) do qual ele obteve um mestrado em Política e Economia. Seu livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolutionfornece informações sobre o que ele chama de “revolução islâmica” no Oriente Médio, ajudando a oferecer insights estratégicos sobre as origens e a lógica de grupos islâmicos que adotaram resistência militar como uma tática, incluindo Hamas e Hezbollah. Seguindo a essência da Revolução islâmica desde as suas origens no Egito, através de Najaf, Líbano, Irã e da Revolução Iraniana até os dias de hoje, desbloqueando algumas das questões mais espinhosas que cercam estabilidade na atual paisagem do Oriente Médio
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[*] Conflicts Forum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás de narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.