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domingo, 10 de novembro de 2013

A Invasão do Google e Yahoo pela NSA

Seu (nosso) e-mail provavelmente está sendo monitorado

5/11/2013, [*] Alfredo Lopez, Counterpunch
Traduzido por João Aroldo

Edward Snowden
Que semana! Pouco depois que o secretário de Estado John Kerry admitiu que talvez o governo tivesse ido “longe demais” em seus programas de vigilância, o Washington Post soltou outra bomba de Edward Snowden demonstrando que o governo está indo muito mais longe do que todos sabiam.

John Kerry
por Jason Seller 
Se a admissão Ersatz [1] de Kerry – redigida em uma defesa da vigilância da Agência de Segurança Nacional (NSA) – provocou um bocejo coletivo em muitos que seguem estes desenvolvimentos, essa última de Snowden nos chamou a atenção. O Washington Post publicou um artigo detalhando a interceptação pelo NSA de informação entrando e saindo de servidores do Google e Yahoo em linhas privadas e internas de fibra ótica. Apenas em dezembro de 2012, o programa (reveladoramente chamado “MUSCULAR”) processou 181.280.466 registros do Google e Yahoo que incluíam e-mail, buscas, vídeos e fotos.

Até agora, a NSA defendeu suas ações dizendo que está combatendo o terrorismo através da captura de dados em um espaço público, a Internet, após obter ordens judiciais. Isso mostra que eles estavam mentindo. MUSCULAR é roubo de quase 25% de todos os dados da Internet de duas das maiores empresas de processamento de dados sem ordens judiciais ou supervisão em completo desafio à lei e a nossos direitos. Isto é, simplesmente, gangsterismo de governo.

E isso traz à tona a questão mais importante: por quê? Porque não se trata de contraterrorismo, não com todos aqueles registros e sua captura sub-reptícia. Trata-se de vigilância e análise das comunicações diárias de um país inteiro e boa parte do mundo.

A tecnologia do MUSCULAR, um programa criado conjuntamente pela NSA e sua congênere britânica, não é difícil de explicar. Essencialmente, os tecnólogos nas agências de espionagem descobriram uma maneira de interceptar os dados sendo trocados entre servidores que armazenam tudo o que você faz no Google e Yahoo.     

Eis a diferença entre isso e os demais programas espiões revelados anteriormente. Seus dados viajam pela Internet para chegar até esses servidores e ser armazenados lá. Para os outros verem quais dados você salvou, eles devem sair, novamente, pela Internet. Isso são dados protegidos legalmente e o NSA (pelo menos, teoricamente) precisaria de uma ordem judicial para tirá-los dos servidores. A corte FISA (a fonte de bênção da NSA) quase sempre autoriza os pedidos da NSA, então é bem fácil conduzir esse tipo de extração de dados, mas pelo menos ainda existe um registro do quê a NSA está procurando e por que e alguma base para tomar ações legais contra isso.


Muscular não chega perto dos dados enquanto estão viajando pela Internet ou enquanto estão nesses servidores. Ao invés disso, ele intercepta dados (ilustração do WPost acima)que já estão armazenados e estão viajando por conexões não públicas entre os muito servidores das empresas enquanto as empresas sincronizam os dados armazenados ou os transferem internamente. Gigantes da Internet como Google transferem dados entre seus servidores constantemente em redes de servidores conhecidas como (você já ouviu isso) “nuvens”. Essa transferência constante ajuda a distribuir atividade dos servidores para que um pico de solicitações por dados em um servidor particular não o trave (chamado “gerenciamento de carga”) ou para manutenção, segurança e outros motivos. Para isso eles usam cabos de fibra ótica especiais que conectam vários servidores e não são disponíveis publicamente.

Os dados transferidos entre esses servidores é tipicamente codificado, então ninguém pode ter acesso sem as chaves decodificadoras. Isso é uma medida de segurança. De acordo com esses relatos, a NSA descobriu uma maneira de decodificar esses formatos, então ela captura os dados sendo transferidos quando entram nessas conexões e, então, sem que ninguém fora da NSA saiba, decodifica e analisa essas coisas para decidir o que, se for o caso, fazer com isso. Se eles decidirem armazená-los, eles têm vários centros de backup da NSA para salvá-los. Então eles deixam os dados seguirem seu caminho. Tudo isso acontece em microssegundos.

Isso é chamado tipicamente de “interceptação de intermediário” e é como ligar um cabo entre seu computador e um hard drive externo que você usa para backup — exceto que é multiplicado por centenas de milhões de vezes.

Eu sabia que o desenho da NSA era real pela carinha smiley, escreveu David Auerbach da Slate, referindo-se ao ícone smile da Internet usado no diagrama vazado e reproduzido acima . Só mesmo um engenheiro de software ansioso e míope — vendo a interceptação de dados do Google e Yahoo como um desafio e um jogo ao invés de uma questão de segurança e política — faria uma coisa tão alegre e satisfeita com a possibilidade de invadir os servidores internos do Google.  

Claro, isso não é um jogo. Isso é um método altamente sofisticado e intencionalmente intrusivo de coleta de dados: espionagem pernicionsa realizada constantemente em e-mails, fotos, vídeos e outros dados postados por pessoas nos EUA (e em muitos outros países).

Keith Alexander
O diretor da NSA, Keith Alexander, foi imediatamente enviado para dar suas desculpas previsíveis:

Isso seria ilegal para fazermos. Portanto, eu não sei qual é o relato, ele disse em uma conferência de de cibersegurança na semana passada. Mas eu posso dizer factualmente que nós não temos acesso aos servidores do Google e Yahoo. Nós precisamos de uma ordem judicial.

Alexander mostrou-se um mestre de evasão no passado, mas isso foi bizarro. Isso se trata de conectar cabos, e não acessar servidores.

Funcionários do Google e Yahoo tentaram pôr maquiagem em seus olhos roxos com declarações de ultraje, pedidos de “contenção”, e garantias de que eles não foram “avisados” da ação de vigilância em massa que eles nunca aprovariam. Mas o fato é que isso está acontecendo e suas garantias guiadas por RP aos usuários de que seus dados estão seguros não significam nada.

Que confusão! No período de duas semanas, o presidente Obama afirmou publicamente que ele não sabia da extensão da espionagem mas vai “examiná-la” agressivamente. O secretário Kerry admite que ela pode ter ido muito longe, mas é feita por uma boa causa. Alexander evitou comentários sobre a revelação real e o chefe do conselho de segurança nacional, James Clapper, parecia decidido a evitar completamente a questão ao divulgar uma de suas famosas declarações que não desmentem. De fato, os não desmentidos estavam pulando como bolas de pingue pongue num terremoto — se chocando umas nas outras loucamente. E isso ligado com o fluxo de ultraje retórico vindo de vários países já que as informações de Snowden deixaram claro que a vigilância é conduzida em tudo, desde as contas de e-mail de cidadãos espanhóis aos e-mails pessoais (e talvez telefones) da chanceler alemã Angela Merkel.

Obviamente, a coleta de dados dessa magnitude não é para capturar terroristas. Isso poderia ser certamente parte do resultado, mas não há como analisar mais de 183 milhões de partes de dados para identificar alguns malucos. Outra coisa está acontecendo.

Barton Gellman

(…) aparentemente eu não vejo nenhuma evidência de que eles estão desrespeitando a lei aqui. Eles fazendo de maneiras que as empresas e o público não esperavam.

Mas isso desafia a razão. Entrar nos sistemas internos de uma empresa para remover dados sem o conhecimento da empresa certamente parece ilegal. No mínimo, isso revela um cinismo perturbador da parte do governo sobre o espírito da lei e sobre o que as leis de privacidade dizem ao governo sobre como ele deve se relacionar com os cidadãos.

A questão, contudo, não é se isso é legal, mas o que a administração Obama está tentando fazer com a definição de legalidade. O histórico desta administração demonstra que ela está se preparando para tempos muito conturbados e essas preparações são obscenamente repressivas. Com uma economia que simplesmente não pode levar 25 milhões de desempregados de volta ao trabalho, a redução maciça dos direitos das pessoas, o corte dos benefícios sociais, uma sociedade marcada pela histeria frenética semanal de terrorismo interno, uma extrema direita insana e crescente e o Congresso que não tem apoio popular e não está governando ninguém, o surgimento de protestos e resistência em massa em cada canto da sociedade não é surpresa. Nem precisamos de muita visão para predizer que as coisas vão ficar ainda mais quentes.

Os poderosos políticos estão envolvidos num debate intenso sobre como governar essa sociedade enquanto o contrato social usado no passado não pode mais ser cumprido. O debate continua, mas está claro que todos estão falando sobre uma sociedade mais restritiva. A chave para tal restrição está na captura de dados. Não importa quão intensa e generalizada essa repressão seja, eles têm os dados que eles precisam para ter todas as opções possíveis, incluindo o esmagamento de movimentos de protesto. Nós confiamos que eles não vão usar os dados dessa maneira?

Em contribuições passadas para estas páginas, eu escrevi que, enquanto não estamos em um estado policial, o governo construiu uma capacidade de transformar o país com um botão de liga-desliga do sistema legal.

Esse é o significado das revelações do MUSCULAR. Quanto aos dados, tudo está no lugar.
__________________________

[*] Alfredo Lopez escreve atualmente sobre avanços tecnológicos no blog This Can’t Be Happening! . Alfredo Jose Miguel Lopez (nasceu em 1949) é um ativista, escritor, produtor de mídia, professor e organizador no Brooklyn, New York. Atualmente, ele é um ativista de Internet bem conhecido e Co-Diretor de May First/People Link, organização dos usuários da Internet. Lopez é autor de seis livros e milhares de artigos. Foi um dos líderes do Puerto Rican Socialist Party durante os anos 1970. É o principal organizador do Dia da Solidariedade com o Puerto Rico no Madison Square Garden, a maior demonstração de seu tipo na história, e do 1976 Counter-Bicentennial. Ele coordenou a delegação dos EUA na Conferência Internacional de Solidariedade em Porto Rico em 1975, a primeira conferência internacional sobre o assunto. Durante esse mesmo período, editou a edição em inglês do jornal PSP Claridad. Em anos mais recentes foi o arquiteto da campanha para impedir que os hospitais públicos NYC fossem privatizados, notadamente nos anos 1990. Tem participado da organização de dezenas de campanhas semelhantes ao longo de seus 40 anos de ativismo. É um dos fundadores da The Brooklyn New School como escola alternativa em Brooklyn. Recentemente, em 2007, foi um dos organizadores do grupo de tecnologia para o United States Social Forum.

 Nota do tradutor 
[1] Substituta, em alemão.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Agência de Segurança Nacional dos EUA grampeia a Google. OK. Mas... E a espionagem econômica?

31/10/2013, Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Certa vez, eu disse a uma empresa para a qual presto serviços:

É importantíssimo que vocês não usem NENHUM serviço baseado em nuvem. Vocês estariam entregando o controle dos dados de vocês a muitas mãos desconhecidas.



Usar serviços em nuvem é modismo estúpido. Como o New York Times pode esperar alguma privacidade na coleta de informes e notícias, se seus sistemas de e-mail são “terceirizados” para a [empresa] Google? Não. Não pode contar com nenhuma privacidade.

Barton Gellman, em matéria para o Washington Post (“Agência de Segurança Nacional dos EUA invadiu links para os centros de dados de Yahoo e Google, em todo o planeta – dizem documentos de Snowden”), diz que:

Barton Gellman
A Agência de Segurança Nacional dos EUA entrou secretamente nos principais elos [links] de comunicações que conectam os centros de dados das empresas Yahoo e Google por todo o planeta, segundo documentos obtidos pelo ex-empregado terceirizado da Agência de Segurança Nacional dos EUA, Edward Snowden, e entrevistas com funcionários bem informados.

Tendo “grampeado” esses links, a agência posicionou-se para recolher o que bem entendesse do material de centenas de milhões de contas de usuários, muitas das quais são contas de cidadãos dos EUA. A Agência de Segurança Nacional dos EUA não armazena tudo que coleta, mas armazena muita coisa.

Duvido que esse esquema restrinja-se ao tráfego entre centros de dados de Google e Yahoo. O mais provável é que o tráfego de outros grandes serviços em nuvem – Apple, Microsoft, Amazon, etc. – também seja “grampeado” por algum sistema da Agência de Segurança Nacional dos EUA.

Imediatamente depois de o artigo de Gellman ter aparecido no jornal de hoje (30/10/2013), o diretor da Agência de Segurança Nacional dos EUA, general Alexander, foi interrogado sobre a matéria, durante depoimento ao Congresso:

Keith Alexander
O diretor da Agência de Segurança Nacional general Keith Alexander já foi obrigado a responder, hoje mesmo, ao mais recente escândalo publicado sobre as atividades de vigilância da Agência; primeiro, disse que não sabia da publicação; em seguida, negou a substância da matéria publicada.
...
“Não sei de que matéria estão falando” – disse Alexander. Perguntado sobre se a Agência de Segurança Nacional grampeara os centros de dados, Alexander respondeu “Não, que eu saiba. Que eu saiba, isso nunca aconteceu”.

As transcrições dos depoimentos ainda não foram divulgadas, e é bem possível que Alexander tenha dito a verdade, em termos literais – é possível que a Agência de Segurança Nacional dos EUA não tenha grampeado centros individuais de dados – e, ao mesmo tempo, é possível que, factualmente, ele esteja mentindo. Num serviço hospedado em nuvem, vários centros de dados são vistos como um só, do ponto de vista de sistema. É o que mostra o desenho a seguir.

Grampear o tráfego entre eles não é diferente de grampear um deles. Alexander sabe disso e disse o que disse como uma espécie de negativa que nada nega e que também atende pelo nome de “mentira”.

Trata-se sempre, sempre e sempre dos pontos para conversação do 11/9 preparados por funcionários da Agência de Segurança Nacional [1] e que a rede Al-Jazeera obteve por força da Lei da Liberdade de Informação [orig. Freedom of Information Act (FOIA)]. Os pontos para conversação são também um amontoado de mentiras sobre a regulação que rege (ria) a Agência de Segurança Nacional dos EUA. Na verdade, não há regulação alguma. Nada. Nenhuma regulação. A Agência de Segurança Nacional é o estado profundo dos EUA.

É claro que a arapongagem-espionagem pela Agência de Segurança Nacional dos EUA nada tem a ver com 11/9. Ali se trata sempre, sempre, de controlar indivíduos e empresas comerciais, sociedades e economias.

Esse detalhe continua ausente de todas as matérias e reportagens sobre “a espionagem” pela Agência de Segurança Nacional dos EUA, por mais que todos saibam que a espionagem econômica é uma das principais tarefas da Agência de Segurança Nacional dos EUA.

No passado, em 1995, artigo do NewYork Times já explicava:

Bill Clinton
Espionar aliados para obter vantagens econômicas é a nova e crucial tarefa atribuída à CIA, agora que a política exterior dos EUA está focada em interesses comerciais no exterior. O presidente Clinton deu alta prioridade em seu governo à inteligência econômica, informação especificamente para proteger e defender a competitividade, a tecnologia e a segurança financeira dos EUA, em mundo no qual uma crise econômica pode alastrar-se, em minutos, pelos mercados globais.
...
No Departamento do Tesouro, no gabinete comercial e na Divisão de Comércio, os funcionários dizem que, agora, recebem uma torrente de informações vindas da CIA.

A espionagem econômica é, muito provavelmente, a principal razão pela qual a Agência de Segurança Nacional dos EUA mantém grampeados os chefes de estados militarmente aliados, como a chanceler Merkel. Conhecer suas decisões mais prováveis em questões econômicas permite que os EUA e os bancos conectados à Agência de Segurança Nacional dos EUA extraiam a máxima vantagem possível, antes de as decisões serem divulgadas para o grande público. 

E fica-se a pensar... Quantos bilhões/dia as empresas norte-americanas roubam mediante esses ardis!

Fica-se a pensar também quanto tempo demorará, para que outros países e gente como meu cliente acordem para esse fato e tratem de implantar regime muito mais estrito de segurança de dados, para proteger sua própria informação? O que mais terão ainda de compreender sobre a atitude “acessar tudo” da Agência de Segurança Nacional dos EUA?




Nota dos tradutores

[1] Ver em: 17/10/2013: FOIA Case: 71184B (aqui traduzido)
(...) Esse documento complementa a resposta ao seu pedido, nos termos da Lei da Liberdade de Informação [orig. Freedom of Information Act (FOIA)] de 13/6/2013, recebido nesse escritório dia 14/6/2013, de “cópias dos pontos para conversação [orig. talking points] e de todos os documentos, o que inclui, mas não se limita a e-mails, relatórios, memorandos, transcrições, usados para preparar os supracitados pontos para conversação para os membros do Congresso, a imprensa e todos e quaisquer dentro do governo Obama, sobre o vazamento de informação relativa às atividades de vigilância da Agência de Segurança Nacional. Para que fique bem claro: o vazamento noticiado pela primeira vez pelos jornais The Guardian e Washington Post em 27/6/2013, o senhor concordou com limitar o escopo do pedido a: “versão final dos pontos para conversação; documentos dos quais foi extraída informação para compor os pontos para conversação; e o “de acordo” final dos que usassem os pontos para conversação como conteúdo” (...). E o documento continua...

domingo, 9 de junho de 2013

A história real no escândalo NSA é o colapso do jornalismo

8/6/2013, Ed Bott, The Ed Bott Report
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido no quiosque do Frege na Vila Vudu:
1.      O jornalismo de esgoto – o único que se faz no Brasil – não está sozinho!
2.     Evidentemente, a Comissão Pulitzer também NUNCA cogitou de dar prêmio algum à FSP ou à Renata Loprete, pela “operação” jornalística que INVENTOU o Mentirão, depois de ouvir, como única fonte, exclusivamente o doido do Roberto Jefferson (já condenado) e publicar aquela loucurada, sem investigar absolutamente coisa alguma.
3.      Esse jornalismo LIXO da Folha de SP é caro, até se for distribuído grátis, pelas esquinas.
4.     Pago, esse jornalismo LIXO é crime contra a economia popular. É assalto.

Ed Bott
Na 5ª-feira, 6/6/, o jornal Washington Post publicou notícia bomba, segundo a qual nove gigantes da indústria de tecnologia estariam participando “deliberadamente” num vasto programa da Agência de Segurança Nacional dos EUA [orig. NSA].

No dia seguinte, sem nada noticiar e sem qualquer alerta aos leitores, o mesmo Washington Post publicou versão diferente da mesma matéria, purgada de todas as frases bombásticas e sensacionalistas que se liam no original. Mas o dano estava feito.

O jornalista que assina a primeira matéria, Barton Gellman, é “Prêmio Pulitzer”.

O Washington Post tem história no jornalismo investigativo que começa antes, até, de Watergate e All the President’s Men. Mas na lista dos mais escandalosos fracassos do jornalismo, o que agora se viu passa, de pleno direito, a encabeçar a lista.

Selo da NSA, Agência Nacional de Segurança  dos EUA

O que o Post noticiou era de estarrecer:

A Agência de Segurança Nacional e o FBI estão gravando diretamente dos servidores centrais de nove das principais empresas de Internet dos EUA, extraindo áudio, vídeo, imagens, e-mails, documentos e conexões que permitem que analistas tracem movimentos e contatos de qualquer pessoa, todo o tempo.

Barton Gellman
A matéria diz que a Agência Nacional de Segurança:

(...) entrou profundamente nas máquinas das empresas norte-americanas que hospedam centenas de milhões de contas de norte-americanos em solo dos EUA.

Cita especificamente nove empresas: Microsoft, Yahoo, Google, Facebook, PalTalk, AOL, Skype, YouTube, Apple. E a matéria prossegue:

(...) operando dentro do fluxo de dados de qualquer dessas empresas, a NSA consegue extrair qualquer dado que deseje.

Em apenas algumas horas, a matéria já fora amplificada e repercutida por outras agências de notícias e tech websites, o que gerou manifestações de indignação e fúria pela invasão de privacidade. E sete das nove empresas publicaram declarações em que negam categoricamente que algum dia tenham participado de qualquer programa desse tipo.

E então, na manhã seguinte, aconteceu algo estranhíssimo. Se se segue o link para a matéria do Washington Post, encontra-se ali um texto completamente diferente, com quase o dobro da extensão e manchete ligeiramente modificada. A nova matéria não foi apenas aumentada: extraíram-se de lá detalhes chaves, sem qualquer notícia ou alerta sobre as alterações. A versão “atualizada”, datada das 8h51 de 7 de junho, apagou e “desdiz” vários detalhes chaves da matéria original.

Detalhe crucialmente importante: o Washington Post apagou a expressão adverbial “deliberadamente”, ao falar da participação das empresas. Também apagou a expressão “altamente secreto” que usara, antes, para falar do programa. E, além disso, o jornal mudou um detalhe no nariz da matéria: onde se lia, na versão original, que a NSA pode “rastrear os movimentos e contatos de qualquer pessoa todo o tempo”, apareceu informação completamente diferente: a NSA pode “rastrear alvos estrangeiros”.

Aqui está (imagem; texto traduzido, abaixo) um parágrafo chave da matéria publicada originalmente, em print-screen da janela do browser:

[Tradução: As empresas de tecnologia, que participam deliberadamente [eq. a “sabendo que participam”] nas operações PRISM, incluem os atores globais dominantes do Vale do Silício. Estão listadas num rol com os respectivos logos, na ordem em que aderiram ao programa: “Microsoft, Yahoo, Google, Facebook, PalTalk, AOL, Skype, YouTube, Apple”. PalTalk, embora muito menor, hospedou tráfego significativo durante a Primavera Árabe e na atual guerra civil na Síria.]

E aqui, o mesmo parágrafo, como apareceu na matéria pesadamente editada, publicada no dia seguinte. Observe-se que os editores do Post acrescentaram tanta coisa na matéria, que esse parágrafo acabou empurrado para a segunda página das quatro da versão online:

[Tradução: As empresas de tecnologia, cuja cooperação é essencial para as operações PRISM, incluem muitos dos atores globais dominantes do Vale do Silício, segundo o documento. Aparecem listadas num rol com os respectivos logos na ordem em que entraram no programa: “Microsoft, Yahoo, Google, Facebook, PalTalk, AOL, Skype, YouTube, Apple.” PalTalk, embora muito menor, hospedou tráfego de interesse substancial para a inteligência durante a Primavera Árabe e a atual guerra civil na Síria.]

Salvei uma cópia da matéria original e usei a ferramenta “comparar documentos” no Microsoft Word, para mostrar as duas versões, antes e depois da modificação. Veem-se facilmente as diferenças, com as alterações visíveis.

Declan McCullagh
Declan McCullagh da rede CNET examinou a matéria publicada pelo Washington Post e concluiu que “a primeira matéria do Post estava errada”. Lê-se em: No evidence of NSA’s “direct Access” to tech companies. [a seguir, traduzido].

“A matéria está errada e parece baseada em leitura errada de um documento em Powerpoint que vazou”, segundo um ex-funcionário do governo muito familiarizado com o processo de aquisição de dados, e que falou hoje, pedindo para não ser identificado.

“Nada é como o Washington Post e o Guardian publicaram, nessa versão histriônica” – disse a fonte.

“Nada daquilo é verdade. Há um processo legal muito formalizado, que as empresas são obrigadas a seguir”.

A história real parece ser muito menos complexa do que as primeiras acusações alarmantes faziam crer. Todas as empresas envolvidas têm de responder a procedimentos legais estabelecidos e são obrigadas a obedecer ordens e mandados judiciais. Nenhuma delas parece estar participando de ações ilegais generalizadas de vigilância sobre os cidadãos.

Assim sendo... o que deu tão errado, no Washington Post?

O principal problema foi que o Post trabalhou sobre uma apresentação em PowerPoint vazada de uma única fonte anônima e rapidamente “concluiu” o que bem entendeu, sem procurar qualquer tipo de confirmação. McCullagh cita uma de suas fontes bem identificadas, o ex-conselheiro geral da NSA, Stewart Baker, que lhe disse que os slides pareciam “batizados” [orig. flaked]:

O PowerPoint parece ter sido “inchado” com um tipo de “conversa” que o faz parecer mais uma apresentação de “marketeiros” que um briefing – ninguém sabe de onde vem e ninguém sabe em que contexto foi produzido” – disse Baker. E concluiu, falando da cobertura do Washington Post: “Serviço feito na correria. Mal feito. Tudo errado”.

“Serviço mal feito, na correria” é o melhor modo de explicar por que o Washington Post mudou tão dramaticamente a própria matéria, em 24 horas. Normalmente, matéria desse tipo tem de ser bem investigada, antes de ser publicada. O que parece é que o Post apressou-se, temeroso de perder “o furo”, porque a mesma apresentação em PowerPoint poderia ter sido vazada para outro jornal, que poderia publicar antes.

Praticamente ninguém, dos que reagiram inicialmente à história, manifestou qualquer ceticismo quanto às fontes ou as conclusões do Washington Post. De fato, traço comum às negativas que as empresas de tecnologia estão divulgando é que todas elas se parecem e todas deixam sem comentar as “acusações”, em declarações cuidadosamente redigidas. Todas dizem praticamente a mesma coisa, porque cada companhia responde, não a algum fato, mas, exclusivamente, à específica linguagem espetaculosa da matéria do Post.

A correria para publicar acionou a câmara de eco da Internet e as redes de notícia da televisão a cabo, numa mesma onda a plenos pulmões. A matéria e seus argumentos – já, ao que parece, completamente desacreditados – disseminaram-se pelo mundo.

O Washington Post tentou remendar o erro modificando, clandestinamente, a própria matéria, sem qualquer sinal de explicação ou de retratação e sem reconhecer que errara. De fato, a versão “corrigida” continua a repetir que a NSA e o FBI “grampearam diretamente os servidores centrais” daquelas empresas – quando já se sabe que isso não foi confirmado e não parece ser verdade.

Em resumo, uma das maiores instituições jornalísticas do século 20, já vive hoje de publicar futricas e boatos, acompanhando a “tendência” de “publique primeiro e investigue depois (ou nunca)”, exatamente como faz qualquer dos seus “concorrentes” impressos ou online.

Algo me diz que a Comissão Pulitzer, ano que vem, não incluirá o Post na relação dos “melhores do ano”.