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domingo, 10 de novembro de 2013

A Invasão do Google e Yahoo pela NSA

Seu (nosso) e-mail provavelmente está sendo monitorado

5/11/2013, [*] Alfredo Lopez, Counterpunch
Traduzido por João Aroldo

Edward Snowden
Que semana! Pouco depois que o secretário de Estado John Kerry admitiu que talvez o governo tivesse ido “longe demais” em seus programas de vigilância, o Washington Post soltou outra bomba de Edward Snowden demonstrando que o governo está indo muito mais longe do que todos sabiam.

John Kerry
por Jason Seller 
Se a admissão Ersatz [1] de Kerry – redigida em uma defesa da vigilância da Agência de Segurança Nacional (NSA) – provocou um bocejo coletivo em muitos que seguem estes desenvolvimentos, essa última de Snowden nos chamou a atenção. O Washington Post publicou um artigo detalhando a interceptação pelo NSA de informação entrando e saindo de servidores do Google e Yahoo em linhas privadas e internas de fibra ótica. Apenas em dezembro de 2012, o programa (reveladoramente chamado “MUSCULAR”) processou 181.280.466 registros do Google e Yahoo que incluíam e-mail, buscas, vídeos e fotos.

Até agora, a NSA defendeu suas ações dizendo que está combatendo o terrorismo através da captura de dados em um espaço público, a Internet, após obter ordens judiciais. Isso mostra que eles estavam mentindo. MUSCULAR é roubo de quase 25% de todos os dados da Internet de duas das maiores empresas de processamento de dados sem ordens judiciais ou supervisão em completo desafio à lei e a nossos direitos. Isto é, simplesmente, gangsterismo de governo.

E isso traz à tona a questão mais importante: por quê? Porque não se trata de contraterrorismo, não com todos aqueles registros e sua captura sub-reptícia. Trata-se de vigilância e análise das comunicações diárias de um país inteiro e boa parte do mundo.

A tecnologia do MUSCULAR, um programa criado conjuntamente pela NSA e sua congênere britânica, não é difícil de explicar. Essencialmente, os tecnólogos nas agências de espionagem descobriram uma maneira de interceptar os dados sendo trocados entre servidores que armazenam tudo o que você faz no Google e Yahoo.     

Eis a diferença entre isso e os demais programas espiões revelados anteriormente. Seus dados viajam pela Internet para chegar até esses servidores e ser armazenados lá. Para os outros verem quais dados você salvou, eles devem sair, novamente, pela Internet. Isso são dados protegidos legalmente e o NSA (pelo menos, teoricamente) precisaria de uma ordem judicial para tirá-los dos servidores. A corte FISA (a fonte de bênção da NSA) quase sempre autoriza os pedidos da NSA, então é bem fácil conduzir esse tipo de extração de dados, mas pelo menos ainda existe um registro do quê a NSA está procurando e por que e alguma base para tomar ações legais contra isso.


Muscular não chega perto dos dados enquanto estão viajando pela Internet ou enquanto estão nesses servidores. Ao invés disso, ele intercepta dados (ilustração do WPost acima)que já estão armazenados e estão viajando por conexões não públicas entre os muito servidores das empresas enquanto as empresas sincronizam os dados armazenados ou os transferem internamente. Gigantes da Internet como Google transferem dados entre seus servidores constantemente em redes de servidores conhecidas como (você já ouviu isso) “nuvens”. Essa transferência constante ajuda a distribuir atividade dos servidores para que um pico de solicitações por dados em um servidor particular não o trave (chamado “gerenciamento de carga”) ou para manutenção, segurança e outros motivos. Para isso eles usam cabos de fibra ótica especiais que conectam vários servidores e não são disponíveis publicamente.

Os dados transferidos entre esses servidores é tipicamente codificado, então ninguém pode ter acesso sem as chaves decodificadoras. Isso é uma medida de segurança. De acordo com esses relatos, a NSA descobriu uma maneira de decodificar esses formatos, então ela captura os dados sendo transferidos quando entram nessas conexões e, então, sem que ninguém fora da NSA saiba, decodifica e analisa essas coisas para decidir o que, se for o caso, fazer com isso. Se eles decidirem armazená-los, eles têm vários centros de backup da NSA para salvá-los. Então eles deixam os dados seguirem seu caminho. Tudo isso acontece em microssegundos.

Isso é chamado tipicamente de “interceptação de intermediário” e é como ligar um cabo entre seu computador e um hard drive externo que você usa para backup — exceto que é multiplicado por centenas de milhões de vezes.

Eu sabia que o desenho da NSA era real pela carinha smiley, escreveu David Auerbach da Slate, referindo-se ao ícone smile da Internet usado no diagrama vazado e reproduzido acima . Só mesmo um engenheiro de software ansioso e míope — vendo a interceptação de dados do Google e Yahoo como um desafio e um jogo ao invés de uma questão de segurança e política — faria uma coisa tão alegre e satisfeita com a possibilidade de invadir os servidores internos do Google.  

Claro, isso não é um jogo. Isso é um método altamente sofisticado e intencionalmente intrusivo de coleta de dados: espionagem pernicionsa realizada constantemente em e-mails, fotos, vídeos e outros dados postados por pessoas nos EUA (e em muitos outros países).

Keith Alexander
O diretor da NSA, Keith Alexander, foi imediatamente enviado para dar suas desculpas previsíveis:

Isso seria ilegal para fazermos. Portanto, eu não sei qual é o relato, ele disse em uma conferência de de cibersegurança na semana passada. Mas eu posso dizer factualmente que nós não temos acesso aos servidores do Google e Yahoo. Nós precisamos de uma ordem judicial.

Alexander mostrou-se um mestre de evasão no passado, mas isso foi bizarro. Isso se trata de conectar cabos, e não acessar servidores.

Funcionários do Google e Yahoo tentaram pôr maquiagem em seus olhos roxos com declarações de ultraje, pedidos de “contenção”, e garantias de que eles não foram “avisados” da ação de vigilância em massa que eles nunca aprovariam. Mas o fato é que isso está acontecendo e suas garantias guiadas por RP aos usuários de que seus dados estão seguros não significam nada.

Que confusão! No período de duas semanas, o presidente Obama afirmou publicamente que ele não sabia da extensão da espionagem mas vai “examiná-la” agressivamente. O secretário Kerry admite que ela pode ter ido muito longe, mas é feita por uma boa causa. Alexander evitou comentários sobre a revelação real e o chefe do conselho de segurança nacional, James Clapper, parecia decidido a evitar completamente a questão ao divulgar uma de suas famosas declarações que não desmentem. De fato, os não desmentidos estavam pulando como bolas de pingue pongue num terremoto — se chocando umas nas outras loucamente. E isso ligado com o fluxo de ultraje retórico vindo de vários países já que as informações de Snowden deixaram claro que a vigilância é conduzida em tudo, desde as contas de e-mail de cidadãos espanhóis aos e-mails pessoais (e talvez telefones) da chanceler alemã Angela Merkel.

Obviamente, a coleta de dados dessa magnitude não é para capturar terroristas. Isso poderia ser certamente parte do resultado, mas não há como analisar mais de 183 milhões de partes de dados para identificar alguns malucos. Outra coisa está acontecendo.

Barton Gellman

(…) aparentemente eu não vejo nenhuma evidência de que eles estão desrespeitando a lei aqui. Eles fazendo de maneiras que as empresas e o público não esperavam.

Mas isso desafia a razão. Entrar nos sistemas internos de uma empresa para remover dados sem o conhecimento da empresa certamente parece ilegal. No mínimo, isso revela um cinismo perturbador da parte do governo sobre o espírito da lei e sobre o que as leis de privacidade dizem ao governo sobre como ele deve se relacionar com os cidadãos.

A questão, contudo, não é se isso é legal, mas o que a administração Obama está tentando fazer com a definição de legalidade. O histórico desta administração demonstra que ela está se preparando para tempos muito conturbados e essas preparações são obscenamente repressivas. Com uma economia que simplesmente não pode levar 25 milhões de desempregados de volta ao trabalho, a redução maciça dos direitos das pessoas, o corte dos benefícios sociais, uma sociedade marcada pela histeria frenética semanal de terrorismo interno, uma extrema direita insana e crescente e o Congresso que não tem apoio popular e não está governando ninguém, o surgimento de protestos e resistência em massa em cada canto da sociedade não é surpresa. Nem precisamos de muita visão para predizer que as coisas vão ficar ainda mais quentes.

Os poderosos políticos estão envolvidos num debate intenso sobre como governar essa sociedade enquanto o contrato social usado no passado não pode mais ser cumprido. O debate continua, mas está claro que todos estão falando sobre uma sociedade mais restritiva. A chave para tal restrição está na captura de dados. Não importa quão intensa e generalizada essa repressão seja, eles têm os dados que eles precisam para ter todas as opções possíveis, incluindo o esmagamento de movimentos de protesto. Nós confiamos que eles não vão usar os dados dessa maneira?

Em contribuições passadas para estas páginas, eu escrevi que, enquanto não estamos em um estado policial, o governo construiu uma capacidade de transformar o país com um botão de liga-desliga do sistema legal.

Esse é o significado das revelações do MUSCULAR. Quanto aos dados, tudo está no lugar.
__________________________

[*] Alfredo Lopez escreve atualmente sobre avanços tecnológicos no blog This Can’t Be Happening! . Alfredo Jose Miguel Lopez (nasceu em 1949) é um ativista, escritor, produtor de mídia, professor e organizador no Brooklyn, New York. Atualmente, ele é um ativista de Internet bem conhecido e Co-Diretor de May First/People Link, organização dos usuários da Internet. Lopez é autor de seis livros e milhares de artigos. Foi um dos líderes do Puerto Rican Socialist Party durante os anos 1970. É o principal organizador do Dia da Solidariedade com o Puerto Rico no Madison Square Garden, a maior demonstração de seu tipo na história, e do 1976 Counter-Bicentennial. Ele coordenou a delegação dos EUA na Conferência Internacional de Solidariedade em Porto Rico em 1975, a primeira conferência internacional sobre o assunto. Durante esse mesmo período, editou a edição em inglês do jornal PSP Claridad. Em anos mais recentes foi o arquiteto da campanha para impedir que os hospitais públicos NYC fossem privatizados, notadamente nos anos 1990. Tem participado da organização de dezenas de campanhas semelhantes ao longo de seus 40 anos de ativismo. É um dos fundadores da The Brooklyn New School como escola alternativa em Brooklyn. Recentemente, em 2007, foi um dos organizadores do grupo de tecnologia para o United States Social Forum.

 Nota do tradutor 
[1] Substituta, em alemão.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Agência de Segurança Nacional dos EUA grampeia a Google. OK. Mas... E a espionagem econômica?

31/10/2013, Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Certa vez, eu disse a uma empresa para a qual presto serviços:

É importantíssimo que vocês não usem NENHUM serviço baseado em nuvem. Vocês estariam entregando o controle dos dados de vocês a muitas mãos desconhecidas.



Usar serviços em nuvem é modismo estúpido. Como o New York Times pode esperar alguma privacidade na coleta de informes e notícias, se seus sistemas de e-mail são “terceirizados” para a [empresa] Google? Não. Não pode contar com nenhuma privacidade.

Barton Gellman, em matéria para o Washington Post (“Agência de Segurança Nacional dos EUA invadiu links para os centros de dados de Yahoo e Google, em todo o planeta – dizem documentos de Snowden”), diz que:

Barton Gellman
A Agência de Segurança Nacional dos EUA entrou secretamente nos principais elos [links] de comunicações que conectam os centros de dados das empresas Yahoo e Google por todo o planeta, segundo documentos obtidos pelo ex-empregado terceirizado da Agência de Segurança Nacional dos EUA, Edward Snowden, e entrevistas com funcionários bem informados.

Tendo “grampeado” esses links, a agência posicionou-se para recolher o que bem entendesse do material de centenas de milhões de contas de usuários, muitas das quais são contas de cidadãos dos EUA. A Agência de Segurança Nacional dos EUA não armazena tudo que coleta, mas armazena muita coisa.

Duvido que esse esquema restrinja-se ao tráfego entre centros de dados de Google e Yahoo. O mais provável é que o tráfego de outros grandes serviços em nuvem – Apple, Microsoft, Amazon, etc. – também seja “grampeado” por algum sistema da Agência de Segurança Nacional dos EUA.

Imediatamente depois de o artigo de Gellman ter aparecido no jornal de hoje (30/10/2013), o diretor da Agência de Segurança Nacional dos EUA, general Alexander, foi interrogado sobre a matéria, durante depoimento ao Congresso:

Keith Alexander
O diretor da Agência de Segurança Nacional general Keith Alexander já foi obrigado a responder, hoje mesmo, ao mais recente escândalo publicado sobre as atividades de vigilância da Agência; primeiro, disse que não sabia da publicação; em seguida, negou a substância da matéria publicada.
...
“Não sei de que matéria estão falando” – disse Alexander. Perguntado sobre se a Agência de Segurança Nacional grampeara os centros de dados, Alexander respondeu “Não, que eu saiba. Que eu saiba, isso nunca aconteceu”.

As transcrições dos depoimentos ainda não foram divulgadas, e é bem possível que Alexander tenha dito a verdade, em termos literais – é possível que a Agência de Segurança Nacional dos EUA não tenha grampeado centros individuais de dados – e, ao mesmo tempo, é possível que, factualmente, ele esteja mentindo. Num serviço hospedado em nuvem, vários centros de dados são vistos como um só, do ponto de vista de sistema. É o que mostra o desenho a seguir.

Grampear o tráfego entre eles não é diferente de grampear um deles. Alexander sabe disso e disse o que disse como uma espécie de negativa que nada nega e que também atende pelo nome de “mentira”.

Trata-se sempre, sempre e sempre dos pontos para conversação do 11/9 preparados por funcionários da Agência de Segurança Nacional [1] e que a rede Al-Jazeera obteve por força da Lei da Liberdade de Informação [orig. Freedom of Information Act (FOIA)]. Os pontos para conversação são também um amontoado de mentiras sobre a regulação que rege (ria) a Agência de Segurança Nacional dos EUA. Na verdade, não há regulação alguma. Nada. Nenhuma regulação. A Agência de Segurança Nacional é o estado profundo dos EUA.

É claro que a arapongagem-espionagem pela Agência de Segurança Nacional dos EUA nada tem a ver com 11/9. Ali se trata sempre, sempre, de controlar indivíduos e empresas comerciais, sociedades e economias.

Esse detalhe continua ausente de todas as matérias e reportagens sobre “a espionagem” pela Agência de Segurança Nacional dos EUA, por mais que todos saibam que a espionagem econômica é uma das principais tarefas da Agência de Segurança Nacional dos EUA.

No passado, em 1995, artigo do NewYork Times já explicava:

Bill Clinton
Espionar aliados para obter vantagens econômicas é a nova e crucial tarefa atribuída à CIA, agora que a política exterior dos EUA está focada em interesses comerciais no exterior. O presidente Clinton deu alta prioridade em seu governo à inteligência econômica, informação especificamente para proteger e defender a competitividade, a tecnologia e a segurança financeira dos EUA, em mundo no qual uma crise econômica pode alastrar-se, em minutos, pelos mercados globais.
...
No Departamento do Tesouro, no gabinete comercial e na Divisão de Comércio, os funcionários dizem que, agora, recebem uma torrente de informações vindas da CIA.

A espionagem econômica é, muito provavelmente, a principal razão pela qual a Agência de Segurança Nacional dos EUA mantém grampeados os chefes de estados militarmente aliados, como a chanceler Merkel. Conhecer suas decisões mais prováveis em questões econômicas permite que os EUA e os bancos conectados à Agência de Segurança Nacional dos EUA extraiam a máxima vantagem possível, antes de as decisões serem divulgadas para o grande público. 

E fica-se a pensar... Quantos bilhões/dia as empresas norte-americanas roubam mediante esses ardis!

Fica-se a pensar também quanto tempo demorará, para que outros países e gente como meu cliente acordem para esse fato e tratem de implantar regime muito mais estrito de segurança de dados, para proteger sua própria informação? O que mais terão ainda de compreender sobre a atitude “acessar tudo” da Agência de Segurança Nacional dos EUA?




Nota dos tradutores

[1] Ver em: 17/10/2013: FOIA Case: 71184B (aqui traduzido)
(...) Esse documento complementa a resposta ao seu pedido, nos termos da Lei da Liberdade de Informação [orig. Freedom of Information Act (FOIA)] de 13/6/2013, recebido nesse escritório dia 14/6/2013, de “cópias dos pontos para conversação [orig. talking points] e de todos os documentos, o que inclui, mas não se limita a e-mails, relatórios, memorandos, transcrições, usados para preparar os supracitados pontos para conversação para os membros do Congresso, a imprensa e todos e quaisquer dentro do governo Obama, sobre o vazamento de informação relativa às atividades de vigilância da Agência de Segurança Nacional. Para que fique bem claro: o vazamento noticiado pela primeira vez pelos jornais The Guardian e Washington Post em 27/6/2013, o senhor concordou com limitar o escopo do pedido a: “versão final dos pontos para conversação; documentos dos quais foi extraída informação para compor os pontos para conversação; e o “de acordo” final dos que usassem os pontos para conversação como conteúdo” (...). E o documento continua...

sábado, 3 de agosto de 2013

Pepe Escobar: “Nosso homem em Moscou”

2/8/2013, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama "extremamente desapontado" 
E o quê, então, podem fazer o governo Obama (“extremamente desapontado”), o complexo orwelliano/Panopticon e o desacreditado Congresso dos EUA? Mandar uma equipe Team 6 de Seals da Marinha para sequestrá-lo ou acertar-lhe uma bala na testa (assassinato predefinido) – convertendo Moscou em neo-Abbottabad 2.0? Dronar o cara? Envenenar a sopa borscht dele? Contaminar a casa para onde ele se mudará, com urânio empobrecido? Vão implantar uma zona aérea de exclusão em cima da Rússia?

Edward Snowden
Edward Snowden, agora com novo status legal na Rússia, simplesmente não poderá ser entregue aos meganhas que estão linchando Bradley Manning. Legalmente, Washington é hoje tão impotente quanto uma menina, em sua tribo pashtun, obrigada a encarar um míssil Hellfire que voa em direção a ela. Um POTUS (President of the United States) tão orgulhoso de seu pedigree de professor de Direito Constitucional – apesar de não fazer outra coisa além de sapatear sobre a Constituição dos EUA, para nem falar da legislação internacional – parece que não entendeu a mensagem.

Barack Obama praticamente pôs os pulmões pela boca de tanto que gritou que o presidente Vladimir Putin da Rússia tinha de entregar-lhe Snowden “sob a lei internacional”. Putin repetiu várias vezes que não tinha de entregar e não entregaria, “nunca”, “jamais”, de jeito nenhum.

Obama até telefonou a Putin. Nada. Washington até obrigou os poodles europeus a aterrar à força o avião do presidente Evo Morales da Bolívia. Pior a emenda que o soneto. Moscou manteve-se agarrada à letra da lei russa e até já garantiu asilo temporário a Snowden.

Glenn Greenwald
A saga de Edward Snowden converteu a doutrina da Dominação de Pleno Espectro do Pentágono em uma cabeça de Medusa. Não só por causa da queda de todo o aparelho de segurança dos EUA, mas também porque mandou pelos ares o mito do POTUS como Dominante Dominador de Pleno Espectro.

Obama mais uma vez revelou-se ao mundo como político medíocre e negociador incompetente. Putin devorou-o pela perna, acompanhado de porção suculenta de ovos benedict. Glenn Greenwald será o agente da morte pelos mil talhos  -vazamentos – porque é o fiel depositário da arca do tesouro digital de Snowden. E Snowden meteu-se num táxi e deixou o aeroporto – nos termos em que decidiu que as coisas seriam feitas e fê-las.

Camadas e camadas de nuances foram afinal apreendidas na fascinante discussão que Yves Smith oferece em seu blog  – o que absolutamente não se encontrará jamais no jornalismo da imprensa-empresa ocidental. Ao POTUS, restou boicotar um encontro bilateral com Putin, mês que vem, à margem da reunião de cúpula do G20 em São Petersburgo. Patético é pouco, até para começar a dizer o que significa tudo isso.

Fiz cá do meu jeito [1]

E quanta boa literatura! Snowden passou a maior parte do tempo em trânsito no aeroporto, lendo Crime e Castigo, de Dostoevsky; uma seleção de contos de Chekhov, uma história do Estado russo, do historiador do século XIX,  Nikolai Karamzin – e aprendendo o alfabeto cirílico.

Sarah Harrison
Tomou um táxi rumo ao lado ensolarado da calçada ao deixar Sheremetyevo, acompanhado por Sarah Harrison de WikiLeaks. Pode ter ido para uma base de apoio militar indevassável – chance zero de ser descoberto por algum agente da CIA em Moscou, embora seu advogado tenha dito que ficaria morando em sua residência como modalidade de proteção. Em breve receberá a visita do pai, Lon Snowden. E a sempre autodescrita super-heroína da pole-dance e namorada Lindsay Mills com certeza também reaparecerá.

Como fez para conseguir sobreviver ao enervante jogo de espera, até ter a última palavra – como na declaração publicada por WikiLeaks:

Nas oito últimas semanas vimos o governo Obama manifestar respeito zero pela lei doméstica e internacional, mas, afinal, a lei está levando a melhor. Agradeço à Federação Russa por ter-me dado asilo nos termos do que determinam a lei russa e a lei internacional.

Pavel Durov
Snowden tem o direito legal de trabalhar – e já recebeu uma oferta de emprego do fundador de Vkontakte (o “Facebook russo”), Pavel Durov, para incorporar-se à sua equipe de “estrelas mundiais da segurança”. Em 2018 já terá direito a requerer a cidadania russa. Prometeu a Putin que não vazará “informação que cause dano aos EUA” – condição essencial para receber o direito de asilo. Mas não precisará fazer nem isso: Greenwald já tem plena posse de tudo, desde os primeiros dias em Hong Kong. E o que fará Washington? Vão tratar o apartamento de Greenwald no Rio de Janeiro como tratam festas de casamentos pashtuns?

O timing não poderia ter sido mais dramático. Snowden finalmente aterrissou na Rússia imediatamente depois que Greenwald revelava os detalhes de XKeyscore – mais uma vez destacando e demonstrando que a opinião pública norte-americana, a imprensa-empresa dos EUA e o cosmicamente inepto Congresso dos EUA não têm nem ideia do alcance da espionagem generalizada que a Agência de Segurança Nacional dos EUA faz, contra todos. “Controles e equilíbrios constitucionais”? Alguém se lembra disso?!

Gen. Keith Alexander
Deve haver alguma pane essencial, dano fundamental, no QI coletivo desse pessoal. O governo Obama, tanto quanto o complexo orwelliano/Panopticon estão em estado de choque, porque simplesmente não têm meio algum para deter o processo de morte pelos mil talhos-vazamentos. Esse Olhar Errante [orig. The Roving Eye] alinha-se entre os que suspeitam que a Agência de Segurança Nacional dos EUA não tem sequer alguma mínima ideia do que Snowden, como administrador de sistemas, conseguiu baixar (sobretudo porque alguém com as competências técnicas de Snowden sabe facilmente apagar todas as pistas que tenha deixado ao acessar material secreto). Até o robô-chefe da Agência de Segurança Nacional, general Keith Alexander, já admitiu oficialmente que “aquela agência” não tem ideia do que Snowden copiou. Pode ter deixado plantado algum cavalo de Tróia, ou infectado todo o sistema com alguma espécie de vírus. É possível que a festa ainda não tenha nem começado.

Vejam só, o POTUS manco

Deve-se dar o justo crédito a algumas latitudes mais cínicas, na América do Sul, por exemplo, onde muita gente comenta, rindo, que “os gringos espionam tudo que nós fazemos”; a Internet, afinal, nasceu como programa militar dos EUA. O professor John Naughton da Open University britânica já deu até um passo adiante, quando disse que:  

(...) os dias da Internet como rede realmente global estão contados. Adiante, só nos espera a balkanização – subredes geográficas governadas por EUA, China, Rússia, Irã, etc..

John Naughton
Naughton também destacou que os EUA e outras subpotências ocidentais perderam a legitimidade que tiveram como governantes da internet. E, para culminar, não há nenhuma “agenda de liberdade para a internet”, como o governo Obama vive a papaguear.

Essa obsessão do Grande Irmão com espionar, rastrear, monitorar, controlar, decodificar virtualmente tudo o que nós fazemos digitalmente está levando a estupidezes monumentais, como as pesquisas Google levarem agentes armados do governo dos EUA até uma casa, como se lê já com detalhes publicados. E mesmo todo esse Paraíso da Paranóia não conseguiu proteger os EUA de saírem corridos do Afeganistão e do Iraque, nem ajudou a prever a crise financeira de 2008. Mas, sim, é possível que as elites tenham sido informadas e tenham administrado a seu próprio favor a massiva informação à qual tiveram acesso e muito lucraram com o que souberam.

Por hora, o que temos é um complexo orwelliano/Panopticon que continuará com seus poderes incontrolados; uma população afásica; um homem calado, invisível na multidão em Moscou; e um POTUS manco condenado a morder, de raiva, o pé da mesa. Fiquem atentos. Ele pode ser tentado, como rabo, a balançar os cães (da guerra).
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Nota dos tradutores
[1] Orig. I did it my way. É um clássico da canção norte-americana, famosa em gravação de Frank Sinatra que se pode ouvir a seguir:  


Letra com tradução ruimmas suficiente para ajudar a ler. A corrigir, porque é erro grave: “I’ve seen everything without exemption” = “Vi tudo sem isenção” (não “sem exceção”, como se lê na tradução).

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (“The Roving Eye”) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes The Real News Network TV Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.
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