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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Pepe Escobar - Síria: paraíso “jihadi”


11/1/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online, The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também 7/1/2013 – redecastorphoto, Teatro da Ópera, Damasco: “Discurso do presidente Bashar al-Assad: Passos para a paz na Síria”.
8/1/2013 – redecastorphoto, Franklin Lamb em: “Assad no Teatro de Ópera de Damasco”.

Pepe Escobar
Bashar al-Assad, pois, falou em tom marcial – pela primeira vez em sete meses. Como se poderia prever, culpou “terroristas” e “fantoches do ocidente” pela guerra civil na Síria.

O ministro turco das Relações Exteriores, Ahmet Davutoglu, aquele dos (antigamente) “zero problemas com os vizinhos”, comentou que Assad só lê relatórios do seu serviço secreto. Calma-lá, Ahmet! Bashar pode não ser nenhum Stephen Hawking, mas está administrando bastante bem os seus buracos negros.

E Assad tem um plano: diálogo nacional, que levará a uma carta constitucional nacional – a ser submetida a referendo popular – e, depois, governo ampliado e anistia geral. A questão é quem conseguirá usufruir toda essa felicidade engarrafada, porque Assad descarta total e absolutamente, não só nova oposição síria, mas também o Exército Sírio Livre [orig. Free Syrian Army (FSA)], todas as forças que, para ele, não passam de gangues de mercenários recrutados que recebem ordens de potências estrangeiras cujo único objetivo é dividir a Síria.

Bashar al-Assad  no Opera House, Damasco em 6/1/2013
Seja como for, Assad tem um plano. Primeiro estágio: as potências estrangeiras que hoje financiam os “terroristas” – como o conglomerado CCGOTAN, Conselho de Cooperação do Golfo + Organização do Tratado do Atlântico Norte – terão de parar de financiar os terroristas. Quanto a isso não há qualquer concessão: só no estágio seguinte o Exército Sírio fará cessar todas as suas operações, embora sempre se reservando o direito de responder a provocações que não se possam evitar.

Lakhdar Brahimi
O plano de Assad nada diz sobre o que acontecerá ao próprio Assad. O único ponto sobre o qual nunca houve divergência entre as várias correntes da oposição sempre foi que “o ditador tem de partir”, antes de ser possível alguma negociação. Nada disso, respondeu Assad. Assad será candidato à própria sucessão, em eleições que aconteçam em 2014.

Como se isso já não bastasse para torpedear de vez, para pôr a pique, todas as arquiteturas inventadas pelo atual mediador da ONU, Lakhdar Brahimi [1], há também o ponto crucialmente complexo de Brahimi insistir em incluir a Fraternidade Muçulmana (FM) em qualquer governo sírio de transição. Brahimi deveria prestar mais atenção em onde se mete. É como se a ONU insistisse em rezar por um milagre (a abdicação de Assad).

A Síria não é Tora Bora [2]

Hassan Nasrallah
Quem queira saber o que está realmente acontecendo na Síria, basta prestar atenção ao que diga o secretário-geral do Hezbollah, Sheikh Hassan Nasrallah, que fala das coisas como as coisas são.

Há também o que Ammar al-Musawi, terceiro homem do Hezbollah – é o ministro de Relações Exteriores de facto do Partido de Deus – disse a meu colega italiano Ugo Tramballi. [3] O cenário mais provável pós-Assad, se houver, será “não um estado unitário, mas uma série de emirados próximos à fronteira turca, e alguém proclamará um estado islâmico”. A inteligência do Hezbollah – a melhor que há no mundo, sobre a Síria – é clara: “um terço dos combatentes na oposição síria são extremistas religiosos; e dois terços das armas que circulam são controladas por eles”. Resumo da ópera: trata-se de guerra do ocidente, lutada na Síria por procuração; o Conselho de Cooperação Golfo (CCG) operando como “linha de frente” para a Organização do Tratado do Atlântico Norte.

Leitores de Asia Times Online já sabem disso há eras, como também sabem da mentira de proporções tectônicas segundo a qual haveria alguma autocracia do Golfo promovendo alguma “democracia” na Síria. A Casa de Saud abençoada pelos deuses da geologia usou até o último grão de areia para subornar quem pudesse subornar para tentar imunizar-se contra os miasmas da Primavera Árabe, mas, pelo menos no Kuwait, os ventos de mudança já forçam a família Al-Sabah a aceitar um primeiro-ministro que não é fantoche do emir. Sim, petromonarcas! Mais dia menos dia, vocês todos virão abaixo!

Ammar al-Musawi
Quem quiser continuar a ignorar Musawi, que meta a cabeça na areia o quanto queira; nem por isso evitarão a volta do chicote no lombo do chicoteador, “como no Afeganistão”. E Musawi acrescenta: “A Síria não é Tora Bora; está no litoral mediterrâneo, praticamente na Europa”. A Síria, nos anos 2010s é remix do Afeganistão nos anos 1980s – com altíssima probabilidade de o chicote voltar sobre o lombo vocês sabem de quem.

E os que sigam os mais cegos que vivem a repetir que o Hezbollah seria organização “terrorista”, anotem aí: o Hezbollah está trabalhando em íntima cooperação com a ONU, nas fronteiras do campo de combate, ao lado dos mais de 10 mil Capacetes Azuis comandados pelo general italiano Paolo Serra – para manter o sul do Líbano protegido contra qualquer contágio/contaminação pela guerra civil síria.

O ditador deixará o poder. É inevitável... De novo?!

Não surpreendentemente, as gangues de mercenários apresentadas e rotuladas como se fossem alguma “oposição síria” rejeitaram em bloco o plano de Assad. Para a Fraternidade Muçulmana – aspirante ao trono sírio, ou, no mínimo, a uma parte dele – Assad seria “criminoso de guerra” e terá de ser julgado. Para Georges Sabra, vice-presidente do tal “combinado” norte-americano/qatari chamado “Coalizão Nacional”, as palavras de Assad teriam sido “declaração de guerra contra o povo sírio”.

William Hague
Como se previa, o Departamento de Estado dos EUA – ainda não comandado por John Kerry – disse que Assad estaria “descolado da realidade”. Londres decretou que o discurso não passaria de hipocrisia e, imediatamente, inventou mais dois dias de reunião “secreta”, agendada para essa semana no Wilton Park em West Sussex, em que se misturarão os membros da tal “coalizão” e o velho selecionado de sempre de “especialistas”, professores de universidades, funcionários de governos do CCG e as tais “agências multilaterais”. William Hague, o espetacularmente patético ministro de Relações Exteriores do Reino Unido tuitou – pela centésima milésima vez – que “Assad deixará o poder em breve. É inevitável”.

Fatos em campo sugerem fortemente que Assad não deixará coisa alguma nem irá a parte alguma em futuro próximo.

Quanto ao que dizem os britânicos, que “a comunidade internacional pode dar apoio a um governo de transição”, nenhum sírio bem informado – dos que sabem que essa guerra civil está sendo financiada, mantida e amplamente coordenada pelo ocidente, especificamente pela parte OTAN do grupo CCGOTAN – deu qualquer importância à “novidade”.

Os sírios bem informados farejam a ação de um rato – ocidental – na obsessiva repetição de que a guerra na síria seria “guerra sectária”; para ter certeza de que nada é bem assim, consideram a quantidade imensa de sunitas influentes que permanecem leais ao governo sírio.

Farejam o rato – ocidental – quando olham para trás e veem que tudo começou exatamente no momento em que o gasoduto Irã-Iraque-Síria, de US$10 bilhões (que passa ao largo da Turquia, membro crucial da OTAN) começou a ser viabilizado, com chances reais de ser construído. Seria enorme impulso econômico para uma Síria independente, balde de água geladíssima, gesto não-e-não, contra tudo que tenha a ver com interesses ocidentais.

O governo Obama 2.0 – e Israel – gostariam muitíssimo de ver a Fraternidade Muçulmana no poder na Síria, acompanhando o modus operandi do que está sendo feito no Egito. A Fraternidade promove a ideia de um “estado civil”; basta examinar as poucas “áreas libertadas” na Síria, para saber o de que civilidade se trata, quando encarna em degoladores de vários matizes, seguidores linha-dura da Xaria.

Mas o que o CCGOTAN e Israel realmente desejam é um modelo à Iêmen, para a Síria: ditadura militar, sem o ditador. Pelo que se pode ver, continuarão a só obter, no curto prazo, um Paraíso Jihadista.

Cortem a cabeça deles!

Ayman al-Zawahiri
Há quase um ano, o número 1 da al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, convocou todos os fiéis sunitas linha-dura do Iraque e Jordânia ao Líbano, Turquia, e de toda parte, para viajar à Síria e, alegremente, derrubar, esmagar Assad.

E eles começaram a viajar, e continuam a chegar, incluindo – como aconteceu no Afeganistão – chechenos e uigures e asiáticos do sudeste da Ásia, reunindo gente de todo o tipo, do Exército Sírio Livre à Frente al-Nusra – principal milícia de assassinos, que hoje já reúne mais de 5.000 jihadistas.

Matéria publicada essa semana pela Quilliam Foundation [4], instituto de estudos de contraterrorismo com sede em Londres, confirma o papel da Frente Al-Nusra. O principal autor do relatório, Noman Benotman, é líbio, ex-jihadi, com laços muito estreitos com al-Zawahiri e com o falecido “Geronimo”, também conhecido como Osama bin Laden.

Frente al-Nusra, braço sírio da al-Qaeda
A Frente Al-Nusra é, de fato, o braço sírio da al-Qaeda no Iraque (AQI), marca terrorista registrada do falecido Abu Musab al-Zarqawi, também conhecida como Estado Islâmico do Iraque, depois que Zarqawi foi incinerado por um míssil dos EUA, em 2006. Até o Departamento de Estado sabe que o emir da al-Qaeda no Iraque, Abu Du’a comanda ambos os grupos, a AQI e a Frente al-Nusra, cujo emir é Abu Muhammad al-Jawlani.

É a al-Qaeda no Iraque que facilita o vai-e-vem de comandantes iraquianos – todos com vasta experiência de luta em terra contra os norte-americanos – para e de áreas sensíveis na Síria, enquanto os sírios, iraquianos e jordanianos da Frente al-Nusra também trabalham pelo telefone, para arrancar financiamentos de fontes do Golfo. A Frente Al-Nusra quer – claro, e o que mais quereria?! – um Estado Islâmico, não só na Síria, mas em todo o Levante. Tática favorita: carros e caminhões-bomba, com suicidas-bomba, e carros-bomba acionados por controle remoto. No momento, a Frente Al-Nusra mantém um regime tenso de colaboração/concorrência com o Exército Sírio Livre.

E o que acontecerá a seguir? A nova Coalizão Nacional Síria é piada. Aqueles bastiões de democracia organizados no CCG estão já completamente submergidos no tsunami jihadista. A Rússia demarcou a linha vermelha e a OTAN não se atreverá a bombardear; russos e norte-americanos estão discutindo detalhes. Mais dia, menos dia, Ancara afinal lerá a mensagem que grita pelos muros – e voltará atrás, revertendo para uma política de, pelo menos, reduzir ao mínimo qualquer problema com os vizinhos.

Assad viu e entendeu com clareza O Grande Quadro – daí o tom “confiante” de seu discurso. Agora se trata de Assad contra os jihadistas. A menos que, ou até que, a nova CIA, agora sob o comando de John Brennan, o Exterminador & seus drones, opte por intrometer-se diretamente no quadro da guerra clandestina-suja, para vingar-se.




Notas dos tradutores

[1] “Brahimi é o especialista em conflitos que envolvam forças islamistas (...) preferido do ocidente. Tem currículo consistente na arte de criar a ilusão de que haja negociações em curso onde nenhuma negociação exista, e a real discussão prossiga, inalterada, no campo de batalha. Kofi é independente demais; Brahimi obedece em tempo integral” (12/8/2012, redecastorphoto, MK Bhadrakumar, em: “A proposta do Irã ao ocidente, sobre a Síria”). 

[2] Sobre isso ver: “Batalha de Tora Bora”

Ugo Tramballi
[3] 8/1/2013, “Al-Mussawi, numero tre di Hezbollah: ‘Se crolla Assad l'estremismo islamico si avvicinerà all'Europa’” [Al-Mussawi, número 3 do Hezbollah: “Se Assad cair, o extremismo islâmico se aproximará da Europa”], entrevista ao enviado Ugo Tramballi, Il sole 24 ore, Itália. (em italiano).

[4]
 8/1/2013, em Quilliam Foundation, press release: QUILLIAM RELEASES NEW STRATEGIC BRIEFING “JABHAT AL-NUSRA”

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Assad no Teatro de Ópera de Damasco


8/1/2013, Franklin Lamb, Countercurrents.org
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Franklin Lamb
Ler também: 7/1/2013, redecastorphoto, em: Presidente Bashar al-Assad: “Passos para a paz na Síria”.

Damasco – Distante apenas alguns quarteirões do hotel em me hospedei, perto do centro da cidade, o Teatro de Ópera de Damasco, onde o presidente Bashar al-Assad discursou ontem, foi inaugurado em maio de 2004, pelo presidente e sua esposa, depois de completada a construção projetada e iniciada pelo pai de Bashar, Hafez, que planejou detalhadamente a construção, interrompida no final dos anos 1970s. Situado na Praça Umayyad, o Teatro de Ópera é um centro cultural; há alguns meses, encenou-se ali As bodas de Fígaro, de Mozart.

Com cerca de 1.400 lugares, o Teatro estava absolutamente lotado para o discurso de ontem e, como na cena final da ópera de Mozart, depois do discurso de Bashar também se seguiu “uma noite de celebração” para os muitos apoiadores que o presidente tem em Damasco. A glória de Bashar al-Assad, ao tentar deixar o palco na noite passada, cercado por uma legião de apoiadores, pode não ser semelhante à de Cesar nas guerras da Gália, quando descreveu a crise doméstica e sua luta contra a oposição, como luta de defesa para salvar “Roma”. E dificilmente o presidente da Síria será visto por seus críticos, como um John Kennedy no Teatro de Ópera de Viena.

Bashar al-Assad durante o discurso no Opera House, Damasco em 6/1/2013

Mas havia conexão profunda entre o homem e seu (vasto) público, durante o discurso caudaloso. Foi um magnífico discurso político, em forma e conteúdo e, sobretudo, pelo calor com que o presidente defendeu o que, para ele, é a causa da salvação da Síria e a causa dos sírios. Sem descartar nenhuma ajuda solidária sobre como pôr fim a atual crise, o presidente insistiu na ideia de que a Síria tem longa história de resistência à ocupação; que várias vezes rejeitou a ideia de receber ordens de governos aos quais, na atual crise, Bashar referiu-se como “chefes dos fantoches” que hoje causam morte, destruição e privações na República Árabe Síria.

Admito que eu estava sem dormir há dois dias. Mas o discurso de Bashar Assad fez-me pensar em falas shakespeareanas de Macbeth ou Brutus. Veio-me à cabeça o argumento de Brutus, em Julio Cesar, de Shakespeare, ato 3, cena 2:

Haverá aqui, neste momento, alguém tão vil que deseje ser escravo? Se houver, que fale, porque o ofendi. Haverá alguém tão grosseiro que não queira ser romano? Se houver, que fale, porque o ofendi. Haverá alguém tão desprezível, que não ame sua pátria? Se houver, que fale, porque o ofendi. Calo-me. Que falem. [1]

Depois do discurso do presidente, uma jornalista local, não raras vezes crítica do regime, comentou – em resposta ao que lhe perguntei, sobre a aparentemente persistente popularidade de Assad, durante época tão extraordinariamente difícil para os sírios:

É verdade. Assad continua popular, em parte porque é homem modesto, quase tímido – e excepcionalmente culto e bem educado, em comparação com alguns monarcas da região, que são, de fato, analfabetos, e absolutamente não se interessam pelo que aconteça fora dos seus palácios-fortalezas.

E continuou:

Antes da crise, não será raro encontrar o presidente, sem qualquer escolta, dirigindo ele mesmo o carro, o banco traseiro cheio de crianças, fazendo compras ou saindo para jantar com a família, ou, vez ou outra, à espera dos filhos na saída da escola. Viu-se, mesmo ontem, na entrada, que ele sorriu para vários conhecidos entre o público. Na saída, não parecia preocupado com sua segurança, nem deu sinais de pressa. Até cumprimentou várias pessoas. Todos sabem que Bashar al-Assad sente-se bem como cidadão comum, entre conhecidos. Não é, nem de longe, o tipo sinistro que seus críticos insistem em apresentar.

No mesmo dia, já no fim da tarde, estava de volta ao hotel, lendo jornais e assistindo ao noticiário pela televisão, que mostrava cenas do discurso, quando uma camareira entrou para fazer alguma coisa. A moça entrou e imediatamente sorriu ao ver a imagem de Bashar. Repentinamente, deu dois passos até a televisão e abraçou a tela, rindo; aplicou vários beijos na imagem! Tive medo que fosse eletrocutada. Mas ela ria.

À noite, em conversa com um xeique que tem muitos contatos políticos em Damasco, ouvi dele que Assad falou exclusivamente ao povo sírio e aos estrangeiros solidários e aos “neutros”. “Assad não falou, absolutamente não, aos inimigos de seu governo”. Sugeriu também que Assad fará mais dois discursos em breve, o próximo, provavelmente, no formato de “conversa ao pé da lareira”, à moda Roosevelt.

O xeique sunita referiu-se à fala de Assad ontem, como o primeiro de três discursos “da vitória” que, pelo que sabe, acontecerão. Falou também sobre os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita em relação ao que está acontecendo na Síria; lembrou que são governos que também têm seus próprios problemas.

No caso do Reino Saudita, e no contexto das consultas cada vez mais frequentes entre iranianos e sauditas sobre a Síria e o grave estado de saúde do rei Abdullah, há a considerar a previsível luta pela sucessão, que já se intensificou recentemente, porque há vários potentados dentro da família real saudita que se opõem furiosamente à atual campanha para minar o regime de Assad. O governo sírio, digam o que digam os detratores, é visto por muitos, nos países do Golfo, como governo de respeitável pedigree árabe e nacionalista, com longa história de respeito mútuo com vários países da região.

Meu informante, xeique e sunita, também já vê sinais de que o governo Obama começa a desinteressar-se de sua guerra clandestina contra a Síria, em parte como resultado das fissuras que já se observam nas vozes, antes muito coesas, de vários porta-vozes da muito erradamente chamada “coalizão”. O presidente Assad, em fala que muitos analistas do Oriente Médio bem farão se virem um “discurso histórico”, ofereceu um novo plano aos sírios, situação e oposição e, também à comunidade internacional que, sim, pode e deve pôr fim imediatamente à crise.

Em ordem sequencial, como cronograma, o plano inclui:

  • países estrangeiros param, imediatamente, de financiar, armar e insuflar as gangues terroristas, que deporão armas;
  • o governo sírio retira de campo o exército e declara uma anistia;
  • inicia-se um conferência-diálogo nacional;
  • dessa conferência-diálogo, produz-se um projeto de Constituição, a ser submetida a referendo popular; e
  • constitui-se um governo de coalizão que, presumivelmente, governará até as eleições marcadas para 2014.

Técnico que trabalha na Comissão de Relações Exteriores do Congresso dos EUA escreveu por e-mail, ontem à noite, que não se surpreenderá se o governo Obama mostrar sinais de interesse pela “fórmula que Bashar apresentou no Teatro de Ópera de Damasco”, dada a realidade geopolítica na região, que está mudando muito rapidamente, e dado o impasse militar que se vê em campo, na Síria. São duas evidências que já sugerem fortemente que não restarão muitas alternativas ao novo governo Obama, porque não há qualquer possibilidade realista de o regime Bashar “render-se”, jogar a toalha, entrar “em colapso” ou ser vencido, no curto prazo.

Meu correspondente, que trabalha no setor de questões EUA-Oriente Médio, crê também que o novo Secretário de Estado, John Kerry e o provável novo Secretário de Defesa, Chuck Hagel– que enfrentarão dura batalha para serem aprovados no Senado, mas que, sim, provavelmente serão aprovados, operam também nessa nova linha em que o governo Obama começa a investir.

George Sabra
Fato é que, diferente do presidente Assad, que apresentou um plano, um dos líderes da chamada “oposição”, George Sabra, nada encontrou para propor, que encaminhasse qualquer solução para a atual crise. Sabra só soube dizer que “Absolutamente não se considera qualquer possibilidade de diálogo com esse regime, de forma alguma. Não é uma possibilidade. Está fora de questão”.

É possível que a chamada “comunidade internacional” já esteja começando a considerar outra saída, melhor que essa, para a questão síria.

________________________

Nota dos tradutores

[1] SHAKESPEARE, Julio Cesar, ato 3, cena 2 (em português). Fala Brutus, depois de ter assassinado Julio Cesar. Antes, na mesma fala, Brutus disse:

“Se houver alguém nesta reunião, algum amigo afetuoso de César, dir-lhe-ei que o amor que eu [Brutus] dedicava a César não era menor do que o dele. E se esse amigo, então, perguntar por que motivo levantei-me contra César, eis minhas resposta: não foi por amar menos a César, mas por amar mais a Roma. Que teríeis preferido: que César continuasse com vida e vós todos morrêsseis como escravos, ou que ele morresse, para que todos vivêsseis como homens livres? Por haver amado César, pranteio-o; por ter sido ele feliz, alegro-me; por ter sido valente, honro-o; mas por ter sido ambicioso, matei-o. Logo: lágrimas para a sua amizade, alegria para sua fortuna, honra para o seu valor e morte para a sua ambição”

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Presidente Bashar al-Assad: “Passos para a paz na Síria”

6/1/2013, Teatro da Ópera, Damasco, Sana, Síria [excerto]
Excerto escolhido e traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O presidente Bashar al-Assad, no domingo 6/1/2013, fez um discurso na Opera House em Damasco em que ele enfocou os mais recentes acontecimentos na Síria, no Oriente Médio e nos países do Norte da África, onde propôs soluções para a crise, a qual afeta todo o mundo árabe / muçulmano.


Senhor primeiro-ministro, senhores ministros,

Chefes, membros do comando e representantes de organizações populares e sindicatos

Irmãs e irmãos,

(...) A Síria sempre foi, e continuará a ser, país livre e soberano, que não aceitará submissão e tutela. Por isso, a Síria tem sido um estorvo para o ocidente; e por isso o ocidente busca tirar vantagens de eventos internos para tentar desencaminhar a Síria, extraí-la da equação política regional, livrar-se de um problema, atacar o coração de nossa cultura de resistência e converter os sírios em seus subordinados. Mas o ocidente não é a comunidade internacional. Há países – Rússia, China, Brasil, Índia, África do Sul, os países BRICS, e muitos outros – que não aceitarão imiscuir-se nos assuntos internos de outros países e desestabilizar toda a região, porque se manterão fiéis aos seus princípios e interesses, e respeitam o direito que todos os povos têm de viver em liberdade e determinar o próprio destino. Agradeço a esses países, em nome dos sírios, mais diretamente à Rússia, China e Irã, e a todos os que permanecem na defesa do direito dos sírios de traçarem o próprio destino.

À luz desses princípios, não se pode falar de solução, se não se consideram todos os fatores, no plano interno, regional e internacional. Medida alguma que não considere esses fatores será jamais solução para problema algum e não terá impacto real.

Comecemos pelo front interno: se alguns tenderam a ver a desavença inicial como discordância entre situação e oposição, essa desavença, em mundo civilizado, deve visar a construir a pátria, não a destruí-la; deve visar ao desenvolvimento da Síria, não a empurrar nosso país para décadas atrás. Quando parte do povo se associa a potências estrangeiras, o conflito passa a ser entre a Síria, nós mesmos, e aquelas potências; entre o inimigo e a independência nacional e nossa hegemonia sobre nós mesmos; entre a Síria continuar a ser nação livre, ou converter-se em terra politicamente ocupada. Nesse caso, a questão se transforma e converte-se em luta de autodefesa, de defesa da pátria, como vemos hoje, quando os sírios se unem contra os agressores externos, que se servem de algumas ferramentas que encontram aqui mesmo.

(...) Há quem diga, assistindo a tudo por que a Síria está passando, que não haveria aqui com quem alguém pudesse dialogar. É erro.

Sempre estaremos abertos, de mãos estendidas para o diálogo. Dialogaremos com todos que não concordem conosco no campo político e com quem tenha posições diferentes das nossas, desde que suas posições não visem a agredir os princípios nacionais sírios básicos.

Dialogaremos com indivíduos e partidos que não vendam a Síria a estrangeiros e com todos que deponham armas. Seremos parceiros reais e honestos de todos os sírios que lutem pelos interesses, pela segurança e pela estabilidade da Síria.

Adstritos a nossos firmes propósitos e princípios, dentre os quais e acima de todos a soberania do Estado sírio e a firme independência de sua posição; baseados nos princípios e metas estabelecidos na Carta das Nações Unidas e nas leis internacionais que garantem a soberania, a independência e a integridade territorial dos países; e o direito de não sofrerem interferência em seus assuntos internos; apoiados na nossa firme convicção de que é necessário que todo o povo sírio seja convocado para um diálogo nacional amplo, que restaure a atmosfera de segurança e estabilidade, a solução política que encaminharemos na Síria é a seguinte:

Estágio 1:

1.1: Todos os países envolvidos, da região e de fora dela, comprometem-se a suspender todas as ações de financiamento, armamento, acobertamento e promoção de indivíduos e gangues armadas. Decorrência disso, se espera que todos os elementos armados encerrem as operações terroristas – o que permitirá que todos os sírios forçados ao deslocamento possam voltar em segurança aos seus locais de residência.

Imediatamente depois, as Forças Armadas da Síria suspenderão as operações militares; mas preservam o direito de responder, no caso de a Síria, de cidadãos sírios ou de prédios e instalações públicas ou privadas sírias serem atacados.

1.2: Será construído um mecanismo que assegure o cumprimento do decidido no item acima, sobretudo para que se mantenha efetivo controle nas fronteiras.

1.3: O atual governo da Síria iniciará imediatamente o processo intensivo de fazer contato com todos os ramos em todo o espectro político da sociedade síria, com todos os partidos e corpos, para construir e construir a discussão nacional, abrindo o caminho para uma conferência-diálogo nacional, na qual se reúnam todas as forças que buscam uma solução na Síria, seja dentro, seja fora do país.


Estágio 2:

2.1: O atual governo sírio convocará uma conferência nacional ampla, para que o país formule um pacto de defesa da soberania, da unidade e integridade territorial da Síria, o qual, simultaneamente, rejeitará qualquer interferência em nossos negócios e descartará o terrorismo e a violência, em todas as suas modalidades e formatos.

O governo convoca todos os partidos e grupos, em todo o espectro da sociedade, para definir os critérios para aquela conferência, a ser realizada adiante.

Quanto ao pacto a ser firmado na conferência nacional, ali se traçará o futuro político da Síria. O pacto proporá os traços gerais do sistema constitucional e judicial, e as características políticas e econômicas; o pacto incluirá também o acordo sobre nova legislação partidária, sobre eleições, sobre a administração pública e outros detalhes.

2.2: O pacto será submetido a referendo.

2.3: Formar-se-á um governo expandido no qual estarão representados todos os componentes da sociedade síria, que terá a tarefa de implementar as provisões do pacto nacional.

2.4: A nova constituição será submetida a referendo e, depois de aprovada, o governo expandido adotará as leis discutidas e aprovadas na conferência nacional, inclusive a legislação que regerão as eleições. Depois disso, se realizarão eleições parlamentares.

Deve-se acrescentar a palavra ‘se’ em tudo que se relacione à nova constituição e novas leis, porque são detalhes que dependem de acordo a ser construído no diálogo-conferência; esse acordo será tornado público pelo governo sírio, tão logo esteja construído e tenha obtido o acordo de todos.


Estágio 3:

3.1: Constituir-se-á um novo governo, nos termos da nova Constituição que, então, já estará aprovada e vigente.

3.2: Organizar-se-á uma conferência geral para reconciliação nacional e para que sejam anistiados todos os presos durante os eventos dos meses recentes; todos os direitos civis de todos serão preservados.

3.3: Trabalhar-se-á para a reabilitação e reconstrução da infraestrutura, compensando-se todos os afetados pelos eventos.

Quanto à anistia, os direitos civis dos reclamantes serão preservados, considerada a evidência de que o Estado pode considerar a possibilidade de abrir mão de direitos seus, mas não pode dispor igualmente dos direitos de todos os reclamantes.

Creio firmemente que, quando tivermos chegado a esse momento desse estágio, a anistia será assegurada não só pelo Estado, mas também por outros que tenham direitos. Atingiremos assim praticamente a reconciliação nacional, quando todos perdoarão todos.

Esses traços centrais da solução política como a apresentamos são títulos, que precisam ainda ser detalhados. O governo encarregar-se-á de dar encaminhamento ao processo, detalhar e expandir esses itens, preparando o caminho para que, nos próximos dias, apresentemos iniciativa já planejada, que seguirá os passos e itens gerais acima listados.

Cuidemos de deixar tudo bem claro e em contexto próprio, porque vivemos tempos de falsificações e interpretações viciosas. Não se trata aqui de como o governo vê o futuro imediato, nem de nossa exclusiva interpretação. Hoje, não se trata de o governo interpretar ou interpretar erradamente os eventos, nem de interpretá-los em sentido contrário ao que realmente significam. Cuidemos, pois de esclarecer completamente as ideias e termos que usamos, pondo-os em seus respectivos contextos.


Em primeiro lugar, no que tenha a ver com o que aqui apresentamos, haverá quem se preocupe e veja, nesse esquema, um retrocesso em termos de segurança. Asseguro que no que tenha a ver com combater o terrorismo, nada nos deterá e não pararemos de lutar, enquanto houver, na Síria, um único terrorista. O que começamos a fazer, continuaremos a fazer. Façamos o que fizermos nessa iniciativa, nada jamais significará que tenhamos negligenciado combate contra o terrorismo. Ao contrário, quanto mais avançarmos no combate ao terrorismo, mais possibilidade de sucesso terá o plano que aqui expusemos.

Em segundo lugar, o que aqui apresentamos – chamemos de “iniciativa”, ou “visão” ou de “nossas ideias”, dirige-se a todos os que desejem dialogar e a todos que desejam dar solução política, na Síria, em futuro próximo.

O que aqui apresentamos não se dirige aos que não querem diálogo. Sabemos, todos aqui sabem muito bem, que hoje ouviremos muitas vozes de rejeição; vocês também sabem quem são e de onde vêm. A esses nos dirigimos agora, antecipadamente: por que tanto se empenham em rejeitar uma ideia, uma iniciativa ou uma proposta que não se dirige prioritariamente a vocês? Não percam tempo com rejeições!

Em terceiro lugar, qualquer iniciativa, venha de onde vier, partido, figura ou país, deve considerar a visão síria. Isso significa que nenhuma iniciativa substituirá a visão local, que temos hoje, de uma via para solucionar a crise síria.

Dito em termos mais claros: novas ideias e sugestões podem-se acrescentar ao que aqui fica posto, se ajudarem a fazer o que os sírios farão; mas nenhuma iniciativa substituirá o que aqui fica posto. Tendo, como fez, apresentado o plano do que será feito na Síria, o governo sírio não considerará quaisquer outras ideias ou iniciativas que, vindas do exterior, não contribuam para o mesmo objetivo e não se baseiem diretamente no que aqui fica exposto nem venham para facilitar a execução do que aqui fica exposto. Mais uma vez: que ninguém perca tempo, seu ou de outros, para inventar iniciativas que nos desviem da trilha e do contexto que definimos.

Ao mesmo tempo, para que possamos avaliar as iniciativas que venham de fora, para determinar se ajudam ou prejudicam a Síria, indico aqui dois eixos: o eixo do trabalho político e o eixo do contraterrorismo.

No primeiro eixo, os sírios não precisamos de ajuda alguma e somos perfeitamente capazes de conduzir um processo político integrado. Quem deseje ajudar a Síria, de modo honesto, limpo e objetivo, que se dedique a conter efetivamente a entrada na Síria, de pistoleiros, armas e dinheiro para pagar mercenários. Essa é a mensagem para todos que vivam no exterior e que desejem ajudar a Síria.

Não precisamos de ninguém que apareça por aqui pretendendo nos ensinar como se conduz um processo político. País com história de milhares de anos sabe perfeitamente como conduzir ao sucesso os próprios negócios.

Em quarto lugar, apoiar iniciativas estrangeiras que nos pareçam úteis não significa, não, de modo algum, que aceitemos a respectiva interpretação dos fatos, se diferir do modo como os sírios vemos as coisas. Nenhuma interpretação de qualquer iniciativa pode ser dada por aceita, se não for orientada para o objetivo de servir melhor aos interesses dos sírios.

Nesse quadro, falo especificamente sobre a Iniciativa de Genebra, que a Síria apoiou, mas incluiu um artigo capcioso e ambíguo, sobre um dito “estágio de transição”.

É claro que esse artigo não foi explicado, nem jamais seria explicado com clareza, por uma simples razão: porque, se se fala em “estágio de transição”, é preciso declarar o que estará ‘em transição, de onde para onde; ou do quê, para o quê. Talvez se trate da ‘transição’ de país livre e independente, para país sob ocupação? Ou de “transição” de país que tem Estado organizado, para país sem Estado e estado de caos total? Ou tratar-se-á de “transição” de uma Síria com instrumentos para tomar decisões independentes, para país que delegaria todos seus instrumentos a forças estrangeiras? Nossos inimigos e opositores querem ver tudo isso, simultaneamente.

A nós só interessam iniciativas que promovam transição clara, da instabilidade para a estabilidade. Sem esse esclarecimento, nenhuma ‘transição’ vaga será jamais aceitável. Em circunstâncias sem crise, transição óbvia sempre seria, de estado, para estado aprimorado. É parte do processo de desenvolvimento. Em estado de direito, não há “transição” se não for feita pelas regras, pelas vias e para os objetivos definidos pela Constituição: exatamente o que, a partir de agora, estaremos fazendo na Síria.

Do ponto de vista da Síria, entramos agora em “estágio de transição”. Mas é transição comandada pelos sírios, por desejo dos sírios.

Em quinto lugar, qualquer iniciativa que venhamos a aceitar, terá sido aceita porque se baseava no princípio da soberania e da decisão popular. De fato, as iniciativas que nos foram apresentadas e que examinamos já partem desse ponto e não se afastam dele. Daqui em diante, tudo quando se decida, dentro ou fora da Síria, terá de ser decisão decidida pelo povo sírio e só será vigente se aprovada pelo povo sírio.

Nem o pacto nacional que venha a ser firmado na conferência do diálogo nacional será considerado vigente, antes de aprovado em referendo. Significa que talvez tenhamos de ter referendo popular sobre várias questões, sobretudo nas difíceis condições em que vivemos hoje.

Temos dito a todos com quem nos reunimos, que qualquer ideia, qualquer proposta, qualquer visão que nos chegue, de fora da Síria ou de dentro da Síria, terá de passar por referendo; não terá de passar pelo presidente, pelo governo, pelo diálogo, nada disso.

Assim se obtém uma espécie de garantia de que só se tomarão medidas que realmente manifestem o consenso popular e o interesse nacional. Se se compreendem bem claramente essas palavras simples, todos os que venham para a Síria e todos que saiam daqui, saibam que a Síria aceita conselhos, assessoramento e ajuda; mas não aceita ordens. Aceitamos ajuda; mas não aceitamos tirania.

Baseados nisso, o que quer que tenham ouvido dizer ou ouviram no passado sobre ideias, opiniões, iniciativas, declarações, que lhes cheguem pela imprensa ocidental ou de funcionários, nada tem a ver com a Síria, nem nos diz respeito. Se tiver algo a ver com “primavera”, nada tem ou jamais terá a ver com a Síria. São bolhas de sabão, como a própria “primavera”, que também é uma bolha de sabão que logo sumirá no ar.

Qualquer interpretação sobre qualquer questão, que não considere a soberania da Síria, é delírio, é sonho. Claro que todos têm direito de sonhar e há quem creia que tem direito também de fingir que vive, em sua bolha de fantasia. Mas, no mundo real, jamais subjugarão a Síria. E, de nossa parte, nada faremos que não esteja firmemente ancorado na realidade síria e no interesse e nos desejos do povo sírio. (...)


Irmãs e irmãos,

Sei, como vocês todos sabem, que a pátria passa por dores e dificuldades, e sinto a dor que dói em todo o povo sírio, pelos entes queridos que perdemos e pelo martírio de filhos e parentes e amigos, porque o fogo da guerra já atinge todos. Não há casa em que não tenha havido pelo menos uma mortalha purificada pelos mártires. Estou com vocês, que os sírios somos todos um mesmo povo. Vim do povo e assim vivo. Cargos de estado e de governo passam. Só a pátria perdura para sempre. As lágrimas da mães trarão refrigério às almas puras dos que se foram e farão arder de sofrimento os criminosos que roubam o riso de nossas crianças e aí estão, tentando roubar-lhe a vida futura em país seguro, forte e estável.

A Síria continuará forte como é, e retornará mais forte, se Deus quiser. Não se cogita de ceder direitos ou afrouxar princípios. Erram os que apostem no enfraquecimento da Síria, para que Golan fique esquecido para sempre, como terra ocupada. Golan é terra síria e a causa da Palestina é causa nossa, à qual oferecemos nossos bens mais preciosos, nosso sangue e nossos mártires. Continuaremos a apoiar a Resistência contra nosso único inimigo. Resistência é uma cultura, não são indivíduos. Resistir é resistir em pensamento e em prática, sem concessões, avaliando cada oportunidade e colhendo, de cada uma, o melhor.

O povo e o estado sírios que sempre se postaram ao lado do povo palestino na luta por sua causa justa, durante décadas, apesar dos desafios e do muito que cada cidadão sírio pagou, em termos materiais e emocionais, enfrentando pressões e ameaças, estão onde sempre estiveram e sempre estarão: com os palestinos.

Qualquer tentativa de implicar palestinos nos eventos sírios visa a desviar a atenção que tem de permanecer concertada no inimigo principal. Os palestinos na Síria fazem o que é dever deles, na defesa de sua segunda pátria, como qualquer sírio. Todos somos responsáveis – como estado sírio e como povo sírio – por cumprir o dever que temos com os palestinos, os mesmos que temos com qualquer cidadão sírio. Saúdo os palestinos honestos que valorizam as posições sírias e não veem a Síria como hotel de passagem, que podem trocar por melhor, se as condições endurecem.

Irmãs e irmãos,

Apesar de tudo quanto se planejou contra a Síria, de tudo que tem sido feito contra a Síria, por quem vive próximo de nós, antes do que fizeram os que vivem longe de nós, nada nos fará mudar. Para os sírios, nada há, mais precioso que a Síria.

Nossa resistência, uma luta que está próxima de completar dois anos, diz ao mundo que a Síria não é fácil de matar. Que o povo sírio não se deixa humilhar. A Síria não cairá. Resistir é coisa que aprendemos ao longo de gerações e geração. Somos o que somos e continuaremos a ser o que somos. Vamos de mãos dadas, apesar das feridas, levando a Síria rumo a futuro melhor, mais forte, mais brilhante. Continuaremos. Não nos assustam com suas armas, nem nos intimidam com seu ódio, porque o direito está do nosso lado. E Deus jamais abandona os que andem ao lado do direito.