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segunda-feira, 22 de junho de 2015

Pepe Escobar: S.Petersburgo, no coração dos acontecimentos


Fórum Econômico Internacional
de S. Petersburgo (SPIEF 2015)

20/6/2015, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Vladimir Putin fala na abertura do SPIEF 2015

Os cães das sanções e do medo ocidental ladram, enquanto a caravana eurasiana passa.
Nenhum caravanserai poderá jamais competir com a 19ª edição do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo [St. Petersburg International Economic Forum (SPIEF)]. Milhares de líderes de empresas globais – inclusive europeus, mas nenhum norte-americano; afinal, o presidente Putin seria “o neo-Hitler” – representando mais de mil empresas/corporações internacionais, inclusive os presidentes da British Petroleum, da Shell Holandesa e da Total, chegaram à cidade em grande estilo.
Por todos os lados, painéis fascinantes – incluindo sessões sobre os BRICs; a Organização de Cooperação de Xangai (OCX); a(s) Nova(s) Rota(s) da Seda; a União Econômica Eurasiana (UEE); e, claro, o tema de todos os temas, “A Formação [orig. making] do Século Pacífico-Asiático: Reequilibrar o Leste”, em que falou o Primeiro-Ministro australiano, Kevin Rudd.
Como se podia prever, houve muito suspense sobre o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICs, com grandes novidades a serem divulgadas na Cúpula dos BRICS, mês que vem, em Ufa. O brasileiro Paulo Nogueira Batista, novo vice-presidente do banco, espera entusiasmado a primeira reunião dos diretores.
E noutro tema chave – deixando de lado o dólar norte-americano – coube a Anatoliy Aksakov, presidente da Comissão Parlamentar do Parlamento Russo para Política Econômica, Desenvolvimento Inovador e Empreendedorismo, chegar logo ao que interessa:
Precisamos completar a transição, até fazermos todos os nossos pagamentos recíprocos em moedas nacionais, e acreditamos que já se encontram preparadas todas as condições para que assim seja.
Não é movimento só retórico. Adiante, apenas alguns dos negócios fechados no Fórum SPIEF. Como se poderia prever, verdadeiro show por todos os cantos do Oleogasodutostão.
●– Os dutos para o gasoduto do Ramo Turco pelo fundo do Mar Negro começarão a ser instalados ainda este mês, mais tardar em julho, segundo Alexander Novak, Ministro de Energia da Rússia.

Oleogasoduto - Ramo Turco (em azul)

●– O presidente da Gazprom, Aleksey Miller e o Ministro de Energia da Grécia, Panagiotis Lafazanis, praticamente fecharam negócio para a extensão do Ramo Turco até a Grécia. Estão “preparando o devido memorando intergovernamental”, segundo a Gazprom.

Oleogasoduto Turquia - Grécia
●– A Gazprom também anunciou que construirá um duplo gasoduto, da Rússia até a Alemanha, pelo Mar Báltico, em parceria com a E.ON alemã, a Shell anglo-holandesa e a austríaca OMV.
Oleogasoduto Ramo Norte (North Stream) será duplicado
Em outro front eurasiano crucial, a Índia assinou o projeto de acordo para criar uma zona de livre comércio com a União Econômica Eurasiana. A Ministra do Comércio da Índia, Nirmala Sitharaman, estava eufórica:
São duas grandes regiões, qualquer coisa que façam juntas com certeza levará a resultados ainda maiores.
Oh, como vão longe os dias de Bandar Bush e suas ameaças de que atiçaria os jihadistas contra a Rússia!
Em vez disso, aconteceu uma reunião sob todos os aspectos notável, entre o Presidente Putin e Mohammad bin Salman, o vice-príncipe coroado saudita e atual Ministro da Defesa (o homem que comanda a guerra no Iêmen). Foi resultado lógico de Putin estar em contato, há semanas, com o novo chefe da Casa de Saud, rei Salman.
A Casa de Saud informou polidamente que se tratou de discutir “relações e aspectos da cooperação entre os dois países amigos”. Fatos em campo incluíram discussão, entre os ministros do petróleo saudita e russo, para um amplo acordo de cooperação; assinatura de seis acordos sobre tecnologia nuclear; e o Imponderável Supremo: Putin e o vice-príncipe coroado discutindo preços do petróleo. Podemos estar diante do fim da guerra do preço do petróleo movida pelos sauditas?
Mohammad bin Salman e Vladimir Putin (19/6/2015)

Como se já não bastasse, no front asiático o presidente executivo e superstar máximo, Jack Ma, do Grupo Alibaba, disse, sem meias palavras:
É mais que hora de os players do mercado investirem na Rússia.
Pequim, aliás, estima atualmente o valor dos contratos de negócios fechados e quase-fechados com a Rússia em torno de alucinantes US$ 1 trilhão. O Vice-Primeiro Ministro russo, Igor Shuvalov, disse que preferia estimativa mais “discreta”.
Bem... Seria ótimo se outras nações sancionadas e “isoladas” – por causa das “agressões” que cometem – conseguissem mostrar tal desempenho comercial.
E por onde andavam os Masters of the Universe?
Antes do fórum de São Petersburgo, Putin dedicou-se a distribuir uma mesma e invariável mensagem, sempre que cruzava com algum líder ocidental: falava sobre comércio bilateral; e em seguida lembrava o quanto as coisas poderiam estar muito, muito melhores. No Fórum, estava mais do que evidente que a política de sanções da União Europeia contra a Rússia é completo desastre – e decida o Conselho Europeu o que decidir, semana que vem.
Aqueles gênios da burocracia kafkeana na Comissão Europeia continuam a jurar que a Europa nada sofre. Quem acreditará nisso? Burocratas da Comissão Europeia, que só se preocupam com suas gordas aposentadorias, como mostra esse estudo feito na Áustria?
E houve também A Grande Reunião à margem do Fórum SPIEF: Putin com o Primeiro-Ministro da Grécia, Alexis Tsipras. A questão aqui não é, por exemplo, a Grécia vir a ser, amanhã, membro do grupo BRICS. Yves Smith, do blog Naked Capitalism pode ter acertado na mosca:
O risco objetivo de uma nova aliança Grécia-Rússia (...) é se os europeus estiverem suficientemente preocupados para arriscar uma mudança de curso.
Não há – até agora – qualquer indício de que venha a haver alguma mudança de curso. Mas a Chanceler de Ferro Merkel já anda jogando abertamente com a carta russa – tipo Moscou obter ponto onde apoiar o pé na União Europeia – para manter outras nações da União Europeia afinadas com a obsessão alemã com a “austeridade”.

Alexis Tsipras no SPIEF 2015

Quanto à Palavra Definitiva no Fórum, difícil bater o Primeiro-Ministro Tsipras: a Europa
(...) deve parar de ver-se como o centro do universo. Deve tratar de compreender que o centro do desenvolvimento econômico mundial está de mudança para outras regiões.
E havia algum verdadeiro Master of the Universe presente ao Fórum de São Petersburgo?
No mundo real, há várias instituições e conferências que servem de base para “coordenar” políticas. Mas os Masters of the Universe não participam delas. Puxam as cordas das marionetes que vão as reuniões – e tudo que decidem é coordenado por baixo.
Putin nada perdeu por não ter sido admitido ao G7 nos Alpes Bávaros (na verdade, um G1+ “parceiros aspirantes”). Logo adiante se encontrou com quem interessava encontrar-se.
Com o Banco Internacional de Compensações [Bank for International Settlements (BIS)], onde se reúnem os principais bancos centrais, Putin reúne-se uma vez por mês, para “objetivos de coordenação”. O Grupo Bilderberg, a Comissão Trilateral e Davos também se reúnem para objetivos de coordenação. Pode-se bem dizer que o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo é, hoje, o fórum chave de coordenação para a Eurásia. Os Masters of the Universe – verdadeiros ou autoiludidos – que esnobem quem quiserem. E aguentem as consequências.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Pepe Escobar: EUA acordam para a Nova Ordem (da Seda) Mundial


15/5/2015, [*] Pepe EscobarAsia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Os verdadeiros Masters of the Universe nos EUA não são moça do tempo, mas parece que estão começando a ver de que lado sopram os ventos.

A história talvez registre que tudo começou com a viagem dessa semana a Sochi liderada pelooffice-boy e Secretário de Estado, John Kerry, que foi recebido pelo Ministro de Relações Exteriores e, depois, pelo Presidente Putin.

Parece que a imagem que disparou os sinos na cabeça dos verdadeiros Masters of the Universe foi o Exército de Libertação Popular, ELP – o exército chinês – ali, desfilando ombro a ombro com os militares russos, na Praça Vermelha, no desfile do Dia da Vitória. Nem no tempo da aliança Stálin-Mao Tse Tung tropas chineses desfilaram na Praça Vermelha.

Como manchete, é equivalente aos sistemas S-500 de mísseis russos. Adultos no prédio do Departamento de Estado fizeram as continhas e concluíram que Moscou e Pequim podem estar muito próximos de assinarem protocolos militares secretos, à maneira do pacto Molotov-RibbentropO novo jogo das cadeiras musicais é mais do que suficiente, com certeza, para causar apoplexia ao obcecado com a Eurásia Dr. Zbig “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski.

Vyacheslav Molotov e Joachim von Ribbentrop
E então, de repente, em vez da demonização incansável, e da OTAN sempre a vomitar “Agressão Russa!” a cada dez segundos... lá está Kerry, a dizer que respeitar o Acordo Minsk-2 é a única saída para a Ucrânia, e que insistirá, em termos contundentes, com o vassalo Poroshenko, que pare de alardear que bombardeará o aeroporto de Donesk e arredores, a ver se ali ressurge alguma “democracia” ucraniana.

O sempre equilibrado Ministro Lavrov, por sua vez, declarou que o encontro com Kerry foi “maravilhoso”; e o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, descreveu a nova entente EUA-Rússia como “extremamente positiva”.

Quer dizer então que o governo de Obama, autodefinido como “Não faça merda coisa estúpida”, dá sinais de estar começando a entender, pelo menos aparentemente, que aquele negócio de “isolar a Rússia” deu em nada – e que Moscou simplesmente não retrocederá das duas linhas vermelhas que Putin demarcou: nada de OTAN na Ucrânia; e Kiev, a OTAN ou seja lá quem for, que nem pensem em atacar as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk.

Portanto, o que realmente se discutiu em Sochi – mas não vazou de lá – foi algum modo de oferecer-se ao governo Obama saída não humilhante para fora da confusão geopolítica, que o próprio governo Obama atraiu para ele, é bom lembrar, na fronteira ocidental da Rússia.

Quanto àqueles mísseis...

A Ucrânia é estado falhado já agora completamente convertido em colônia do FMI. A União Europeia jamais aceitará a Ucrânia como membro, ou pagará suas dívidas astronômicas. Ação que interessa mesmo, para ambas, Washington de Moscou, é o Irã. Não por acaso, a espertalhona Wendy Sherman – que foi negociadora-chefe dos EUA nas conversações nucleares do P5+1 – viajou também a Moscou na comitiva de Kerry. Nenhum acordo amplo pode ser alcançado com o Irã, sem a essencial colaboração dos russos em tudo, do descarte de combustível nuclear utilizado, ao rápido fim das sanções da ONU.

Nova Rota da Seda - Projeto Completo
(clique na legenda para aumentar)
O Irã é nodo chave no projeto, liderado pelos chineses, da(s) Nova(s) Rota(s) da Seda. Portanto, os verdadeiros Masters of the Universe têm de ter percebido – afinal – que se trata sempre, aí, de fato, de Eurásia, a qual também, inevitavelmente, foi a verdadeira estrela do desfile do Dia da Vitória em Moscou. Depois daquela estada prenhe de significados em Moscou – onde assinou 32 acordos em separado – o presidente chinês Xi Jinping partiu a negócios para o Cazaquistão e a Bielorrússia.

Assim sendo, bem-vindos à Nova Ordem (da Seda) Mundial: de Pequim a Moscou sobre trilhos de alta velocidade; de Xangai a Almaty, Minsk e dali adiante; da Ásia Central à Europa Ocidental.

Agora já sabemos que essa jornada comercial/geopolítica em alta velocidade é imparável – e abrange o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII) [orig. Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB)], conduzido por Pequim, apoiado por Moscou. Ásia Central, Mongólia e Afeganistão – onde a OTAN acaba de perder uma guerra – estão sendo inexoravelmente atraídos para essa órbita comercial/geopolítica que cobre todo o centro, o norte e o leste da Eurásia.

O que se pode chamar de Grande Ásia Expandida já está tomando forma – não só de Pequim a Moscou, mas também de Xangai, centro comercial, para São Petersburgo, conexão para a Europa. É a consequência natural de um projeto complexo que venho examinando já há algum tempo – o casamento do enorme Cinturão Econômico da Rota da Seda liderado por Pequim, com a União Econômica Eurasiana liderada por Moscou. Putin descreveu a coisa como “um novo nível de parceria”.

Os verdadeiros Masters of the Universe nos EUA parecem também ter percebido as discussões muito íntimas entre o Ministro da Defesa da Rússia, Sergey Shoigu, e o Vice-Comandante do Conselho Militar Central da China, general Fan Changlong. Rússia e China farão manobras navais no Mar Mediterrâneo e no Mar do Japão, e darão prioridade absoluta à posição comum dos dois países em relação aos mísseis de “defesa global” dos EUA.

S-500, Missile Air Defense System
Há também o assunto, afinal nem tão negligenciável, da descobertapelo Pentágono, de que a China tem silos com cerca de 60 mísseis balísticos intercontinentais – o CSS-4 – que podem alcançar praticamente qualquer ponto dos EUA, exceto a Flórida.

Por fim, mas não menos importante, há em desenvolvimento o ultrassofisticado sistema russo de mísseis de defesa S-500 – que protegerá definitivamente a Rússia contra algum Rápido Ataque Global [orig. Prompt Global Strike (PGS)dos EUA. Cada míssil S-500 pode interceptar dez mísseis balísticos intercontinentais a velocidades de até 15.480 milhas/hora, em altitudes de 115 milhas e com alcance horizontal de 2.174 milhas. Moscou insiste que o sistema só será operacional em 2017. Se a Rússia tiver 10 mil desses mísseis S-500, poderá interceptar 100 mil mísseis balísticos intercontinentais dos EUA quando já houver novos moradores na Casa Branca.

Mais uma vez, parece que os verdadeiros Masters of the Universe afinal fizeram as contas. Não reduzirão a Rússia a cinzas. Não derrotarão a Nova Ordem (da Seda) Mundial. Parece que estão querendo sentar e conversar. Mas contenham aí os vossos cavalos (geopolíticos): os EUA ainda podem mudar de ideia.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.

Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Pepe Escobar: A Eurásia como nós (e os EUA) a conhecemos está morta

18/4/2015, [*] Pepe EscobarAsia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Vá andando, caia fora daqui, Move over (vídeo acima), Guerra Fria 2.0. A verdadeira história, agora e no futuro próximo, em suas muitas e muitas declinações, e, claro, descontados os muitos solavancos pela estrada, é uma nova Eurásia integrada, que se vai forjando aí à nossa frente.

O projeto chinês imensamente ambicioso de uma Nova Rota da Seda continuará em intersecção com a União Econômica Eurasiana (UEE) liderada pela Rússia. E dia virá quando a União Europeia acordará e descobrirá um fervilhante eixo de comércio e trocas que se estenderá de São Petersburgo a Xangai. É sempre pertinente lembrar que Vladimir Putin vendeu visão similar e ainda mais abrangente, na Alemanha, há uns poucos anos – e que se estendia de Lisboa a Vladivostok.

Vai demorar – e serão tempos difíceis. Mas é inexorável esse face lift radical da Eurásia. Implica o sonho excepcionalista – os EUA como hegemon na Eurásia, que ainda parecia viável na virada do milênio – dissolvendo-se rapidamente, bem aí diante dos olhos de todos.

Rússia pivoteia-se para leste, e China, para oeste

Algumas boas cabeças nos EUA ainda são essenciais para a completa desconstrução dos aspectos negativos, e porque apontam para os perigos da Guerra Fria 2.0. Dmitri Trenin, do Centro Carnegie Moscou, por sua vez, ocupa-se mais com os aspectos positivos e propõe um mapa do caminho para a convergência eurasiana.

A parceria estratégica Rússia-China – do comércio de energia à defesa e ao desenvolvimento da infraestrutura – só se firmará cada vez mais, com a Rússia em movimento de pivô para leste, e a China, para oeste. Geopoliticamente, não significa uma Moscou subordinada a Pequim, mas um relacionamento cada vez mais simbiótico, trabalhosamente desenvolvido em múltiplos estágios.

Os BRICS – que já virou palavrão em Washington – já têm apelo muito mais global, e tanta influência quanto o já superado G-7. O Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, pronto para entrar em operação antes do final de 2015, é alternativa chave para os mecanismos controlados pelo G7 e para o FMI.

A Organização de Cooperação de Xangai (OCX – SCO, em inglês) deve incorporar Índia e Paquistão já na próxima reunião na Rússia, no verão (julho-agosto/2015), e a inclusão do Irã como membro oficial, pós-sanções, é negócio praticamente sacramentado para 2016. A OCX está finalmente desabrochando como fórum chave para a cooperação para desenvolvimento 

Nova Rota da Seda - Projeto Completo
(clique na legenda para aumentar)
A “Grande Europa” de Putin, de Lisboa a Vladivostok – que significaria UE + UEE – pode ter de esperar, enquanto a China super turbina sua Nova Rota da Seda por duas vias, por terra e marítima. Enquanto isso, o Kremlin se concentrará numa estratégia paralela – para usar capital e tecnologia do leste da Ásia para desenvolver a Sibéria e o Extremo Oriente da Rússia. O yuan será moeda de reserva em toda a Eurásia em futuro muito próximo, e o rublo e o yuan regerão sem tumultos o comércio bilateral.


O fator alemão

A “Grande Europa” de Lisboa a Vladivostok inevitavelmente depende de uma solução para o quebra-cabeça alemão. Os industriais alemães veem claramente as maravilhas de a Rússia garantindo à Alemanha – muito mais que à UE como um todo – um canal geopolítico e estratégico privilegiado para o Pacífico Asiático. Mas não se pode dizer o mesmo dos políticos alemães. A chanceler Angela Merkel, seja qual for a retórica, continua a dançar conforme a música de Washington.

A estratégia do Oleogasodutostão Russo já estava implantada – via os gasodutos Ramo Norte e Ramo Sul – quando o vai-e-volta interminável da UE obrigou Moscou a cancelar o Ramo Sul e lançar o Ramo Turco (o qual, no fim, aumentará os custos da energia para a UE). A UE, em troca, teria acesso virtualmente gratuito aos imensos recursos e ao mercado interno da Rússia. O desastre na Ucrânia significa o fim de todos esses elaborados planos.

Alemanha já é a condutora de facto, da UE, desse trem econômico expresso. Como poderosa usina de exportações que é, a única via para que a Alemanha avance não é rumo ao ocidente ou ao sul, mas rumo leste. Daí aquele portentoso espetáculo de uma orquestra de industriais salivantes, quando Xi Jinping esteve na Alemanha na primavera de 2104. Xi propôs nada menos que uma linha de trens de alta velocidade para conectar a Nova Rota da Seda, de Xangai a Duisburg e Berlim.

Nova Rota da Seda de Xangai a Duisburg (Lisboa) por terra e por mar
Ponto chave que os alemães não deixarão de ver: um ramo vital da Nova Rota da Seda é o remix da linha Transiberiana, para trens de alta velocidade. Uma das linhas dos BRICS amarelo para Pequim e Xangai faz um pit stop estratégico em Moscou.

Esse Império do Caos...

A estratégia de Pequim de “Rumo ao Ocidente” por terra está abençoadamente livre de intromissões da hiperpotência – do remix da Transiberiana às rotas ferroviárias e rodoviárias através dos “-stões” da Ásia Central, direto até Irã e Turquia. Além disso, a Rússia a vê como uma simbiose, considerando resultado de ganha-ganha que os “-stões” da Ásia Central saltem simultaneamente para bordo da União Econômica Eurasiana e do que Pequim chama de Cinturão Econômico da Rota da Seda.

Enquanto isso, em outros fronts, Pequim toma o máximo cuidado para não antagonizar os EUA, hiperpotência reinante. Vejam por exemplo, essa entrevista bastante franca, mas também altamente diplomática, ao Financial Times, do Primeiro-Ministro chinês, Li Keqiang.

Um aspecto chave da parceria estratégica Rússia-China é que os dois países veem claramente que a política exterior massivamente incoerente de Washington é o principal alimentador do caos – exatamente o que também acho que seja, como escrevi em meu livro Empire of Chaos.

Financial Times entrevista Li Keqiang em 31/3/2015
No que tenha especificamente a ver com China e Rússia, é essencialmente caos, tipo dividir para governar. Pequim vê que Washington está tentando desestabilizar a periferia da China (Hong Kong, Tibete, Xinjiang), além de ativamente interferir nas disputas do Mar do Sul da China. Moscou vê que Washington está obcecada com a expansão infinita da OTAN e não deixará pedra sobre pedra, no esforço para boicotar todo o trabalho da Rússia a favor da integração eurasiana.

Daí, pois, a morte por abandono da estratégia geopolítica russa de antes. Acabou o trabalhar para se sentir incluída, como membro do clube da elite ocidental, tipo o G-8. Acabou o buscar alguma parceria estratégica com a OTAN.

Sempre especialista competente em planejar bem, com antecedência, Pequim também vê que a incansável demonização não só de Putin, mas da Rússia como um todo (tipo “submeta-se, porque se nãããããõ...”) é uma espécie de ensaio geral do que poderá ser aplicado, no futuro, contra a China.

Deng Xiaoping
Apresento-lhes os imponderáveis

Estão abertas as apostas sobre como evoluirá o fatídico triângulo EUA-China-Rússia. Uma das possibilidades é que siga o seguinte padrão: os norte-americanos falam grosso e levam um carregamento de porretes; os russos não se intimidam e falam de volta, enquanto silenciosamente se preparam estrategicamente para uma longa e difícil transformação; os chineses seguem uma doutrina do “Pequeno Timoneiro”, Deng Xiaoping, modificada – conversam muito diplomaticamente, mas já não se dedicam a manter a crista baixa [orig.while no longer keeping a low profile].

Pequim já está a par do que Moscou anda sussurrando: Washington, a excepcionalista – declinante ou não – jamais tratará Pequim como igual ou respeitará interesses nacionais chineses.

No grande capítulo dos imponderáveis, aceitam-se apostas sobre se Moscou usará essa grave, tripla crise – sanções, guerra do preço do petróleo, desvalorização do rublo – para aplicar processos que mudem radicalmente o jogo e lançar nova estratégia de desenvolvimento econômico. Sessão de Perguntas e Respostas de Putin, pela televisão, embora carregada de respostas intrigantes, nada trouxe de muito claro sobre isso.

Xi Jinping e Vladimir Putin na Base Naval de Woosung  em 29/5/2014
Outro grande imponderável é se Xi, armado com soft Power [poder suave], carisma e muito, muito dinheiro, conseguirá pilotar simultaneamente a ligeira correção de rumo do modelo econômico e uma avalanche Rumo ao Oeste, de modo que não terminem por alienar os muitos parceiros potenciais da China para a construção das estradas da Nova Rota da Seda.

Um último super imponderável é se (ou quando, se algum dia) Bruxelas decidirá assumir um simbiose mutuamente combinada com a Rússia. Isso, em direção completamente oposta à atual postura de total antagonismo que vai além das questões geopolíticas. A Alemanha, sob Merkel, parece já ter escolhido continuar submetida à OTAN e converter-se, portanto, em ninharia estratégica.

Temos aqui, portanto, os prolegômenos de uma Ásia Expandida, de Xangai a São Petersburg – incluindo, crucialmente, Teerã – em vez de uma Eurásia Total, de Lisboa a Vladivostok. A Eurásia Total pode ter sido partida, ou está partida, pelo menos por enquanto. Mas a Ásia Expandida move-se com grande pique. Haverá um tsunami de esforços, pelos suspeitos de sempre, para parti-la em pedaços.

E isso será fascinante assistir a isso. Como Moscou e Pequim olharão para o ocidente – politicamente, comercialmente e ideologicamente – sem arriscar-se a uma guerra? Como lidarão com tamanha pressão? Como venderão a estratégia dos dois países a grandes fatias do Sul Global pelas mais variadas latitudes asiáticas?

Mas uma batalha, pelo menos, está ganha. Bye, bye Zbigniew Brzezinski! O seu sonho hegemonista de um Grande Tabuleiro de Xadrez acabou...

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.