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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Rússia: soberania, sedição e as velhas e detestáveis ONGs

31/5/2015, [*] F. William Engdahl, New Eastern Outlook – NEO
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vladimir Putin assina lei das ONGs


Dia 23 de maio de 2015, o presidente Vladimir Putin da Rússia sancionou nova lei, proposta pelo Parlamento, que dá aos Procuradores de Justiça o direito de declarar “indesejáveis” na Rússia, e mandar fechá-las, organizações estrangeiras e internacionais que se intrometam na política russa. Como se podia prever, a porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Marie Harf, disse que os EUA estariam “profundamente perturbados” ante a nova lei, a qual, na opinião dela, seria “mais um exemplo dos ataques crescentes do governo russo contra vozes independentes, para isolar o povo russo, do resto do mundo”.
 
A nova lei dá poderes às autoridades russas para banir do país ONGs declaradas indesejáveis e para processar os empregados e responsáveis, que correm risco de serem condenados a seis anos de cadeia ou a serem expulsos do país, para não mais voltar. A União Europeia fez coro ao Departamento de Estado dos EUA, e disse que a lei seria “preocupante passo numa série de restrições contra a sociedade civil, a imprensa independente (sic) e a oposição política”.
A ONG mantida por George Soros, Human Rights Watch (HRW), condenou a lei. E a Amnesty International, idem.
Com tanta coisa no mundo em que vivemos, em que impera o duplo-falar, é conveniente compreender o contexto da nova lei. Longe de ser salto na direção de converter a Rússia em estado fascista, a nova lei pode ajudar a proteger a democracia e a soberania da nação russa, num momento em que está em estado de guerra de facto contra, em primeiro lugar, os EUA, mas contra, também, vários porta-vozes, como Jens Stoltenberg, novo comandante civil russofóbico da OTAN.
A Rússia tem sido atacada por ONGs políticas que operam a serviço do Departamento de Estado e da inteligência dos EUA e, isso, desde que a URSS se autodissolveu, no início dos anos 1990s. Houve que financiaram e treinaram figuras selecionadas na oposição, como Alexei Navalny, membro de um grupo chamado Conselho de Coordenação da Oposição Russa [orig. Russian Opposition Coordination Council]. Navalny foi mantido com dinheiro de uma ONG de Washington, Dotação Nacional para a Democracia [orig. National Endowment for Democracy (NED)], conhecida como instrumento da CIA para executar ações políticas sujas demais para que o estado norte-americano as possa assumir, no projeto de “armar e militarizar direitos humanos e democracia”.
CIA - Central Intelligence Agency
Antes da nova lei, as leis russas para ONGs eram muito mais suaves – de fato baseada numa lei vigente nos EUA, a Lei de Registro de Agentes Estrangeiros [orig. Foreign Agents Registration Act (FARA)], que exige que ONGs ativas na Rússia, mas financiadas do exterior apenas registrassem seus funcionários como agentes de governo estrangeiro. Chamada de “Lei Russa dos Agentes Estrangeiros” passou a valer em novembro de 2012, depois que ONGs norte-americanas foram apanhadas organizando protestos anti-Putin. Essa lei exige que organizações sem finalidade de lucro que recebam doações do exterior e operem como instrumentos a serviço de governo de outro país sejam registradas como organizações e agentes estrangeiros. Essa lei permitiu auditar as finanças e as atividades de cerca de 55 ONGs operantes na Rússia, mas mantidas com dinheiro recebido do exterior, mas até agora não tivera grande efeito sobre as operações de ONGs como Human Rights Watch [Observatório dos Direitos Humanos] ou Anistia Internacional.
Dotação Nacional para a Democracia
[orig. National Endowment for Democracy, NED]
O caso da NED é ilustrativo. A Dotação Nacional para a Democracia é uma gigantesca operação global; seu criador, Allen Weinstein, que redigiu também a legislação que criou a NED, disse numa entrevista, em 1991, que:
(...) muito do que hoje fazemos já era feito, clandestinamente, pela CIA, há 25 anos.
De fato, a ONG que hoje se conhece como NED nasceu dos miolos criativos de Bill Casey, diretor da CIA no governo de Ronald Reagan, como parte de uma ampla “privatização” da CIA. O orçamento da NED vem do Congresso e de outras ONGs amigas do Departamento de Estado, como as Fundações Open Society, de George Soros.
A NED tem subunidades: National Republican Institute, cujo presidente é o senador John McCain, que teve papel chave no golpe de Estado que os EUA deram na Ucrânia, em 2014. O National Democratic Institute, ligado ao Partido Democrata dos EUA, cuja presidenta é a ex-Secretária de Estado de Clinton e bombardeadora-em-chefe da Sérvia, Madeline Albright. No Conselho Diretor da ONG NED estão, dentre outros, todos os neoconservadores mais empenhadamente belicistas do governo Bush-Cheney, como Elliott Abrams; Francis Fukuyama; Zalmay Khalilzad, ex-embaixador dos EUA no Iraque e no Afeganistão e arquiteto da guerra afegã; e Robert Zoellick, íntimo da família Bush e ex-presidente do Banco Mundial.
Em outras palavras, essa EUA-ONG “para promoção da democracia” é item integrante de uma nefanda agenda global de Washington, que usa essa ONG armada, pseudo promotora de Direitos Humanos e Democracia, para livrar-se de governos e regimes e autoridades que se recusem a obedecer os comandos de Wall Street ou Washington. A NED esteve no coração de todas as Revoluções Coloridas que Washington promoveu pelo mundo desde o golpe bem-sucedido para derrubar Slobodan Milosevic na Sérvia em 2000.
Quatro principais satélites da NED
Foram também golpes dessa EUA-ONG que instalaram presidentes pró-OTAN na Ucrânia e na Geórgia em 2003-4, tentaram desestabilizar o Irã em 2009, comandaram operações da Primavera Árabe para redesenhar o mapa político do Oriente Médio depois de 2011, e, mais recentemente, criaram e sustentaram a “Revolução dos guarda-chuvas” em Hong Kong para criar embaraços à China. A lista é longuíssima.
A NED na Rússia hoje
Dentro da Rússia, apesar da lei dos agentes estrangeiros, a sempre bem financiada ONG NED continua a operar. Desde 2012, a NED não divulga a lista das organizações que financiam dentro da Rússia, coisa que a ONG fazia antes. Só fazem indicar os setores e, raramente, as atividades que financiam.
Mais importante, não há relatório anual das atividades da ONG no ano de 2014, ano crítico, depois do golpe da CIA na Ucrânia, quando Washington escalou nos truques sujos contra Moscou, e de fato declarou estado de guerra contra a Federação Russa, impondo sanções financeiras que visavam a “incapacitar” a economia russa.
Em todas as Revoluções Coloridas geradas pelos EUA até hoje, as instituições norte-americanas, bancos de Wall Street e fundos hedge sempre tentam gerar o máximo de caos econômico e usá-lo para insuflar atos de agitação política, como se vê em ação hoje no Brasil, contra a presidenta Dilma Rousseff, figura de destaque no grupo BRICS.
O modo como a EUA-ONG NED está consumido milhões, do dinheiro dos contribuintes norte-americanos, na Rússia, é altamente revelador. No relatório abreviado do ano de 2014, a ONG NED revela que, dentre vários projetos na Rússia, gastou US$ 530.067 numa rubrica “Transparência na Rússia”, para “ampliar a consciência da corrupção”.
Como assim? A EUA-ONG NED apropriou-se das funções da Polícia ou dos Procuradores de Justiça russos? Como é que descobrem e comprovam a tal “corrupção” cuja “consciência”, depois, eles trabalham para “ampliar”?
Claro que a “operação” aí gera lucros colaterais, sob a forma de detalhes íntimos de corrupção na Rússia e da vida de corruptos russo, que são encaminhadas às autoridades russas para providências: são encaminhadas às autoridades norte-americanas para chantagem. Há treinamento especializado nos EUA para ONG-ativistas em outros pontos do mundo (como os grupos Navalny).
E há uma EUA-ONG financiada pelo Congresso dos EUA, ligada à CIA e ao Departamento de Estado de Victoria Nuland, que decide quais as empresas russas são “corruptas”? Tenham a santa paciência!
ONGs que corroem a democracia
Outra categoria na qual essa EUA-ONG NED consome somas consideráveis de dinheiro na Rússia hoje aparece sob a rubrica “Ideias e Valores Democráticos”: US$ 400 mil, para algo que leva o nome de “Encontrar pontos de confluência de Direitos Humanos e História – Para ampliar a consciência do bom e do mau uso da memória histórica, e estimular discussões públicas de questões políticas e sociais prementes”. O quê?!
A coisa soa muito parecida com recentes tentativas, pelo Departamento de Estado dos EUA, de negar o significado e a importância da participação do Exército Soviético – que foram realmente decisivos para a derrota do IIIº Reich, na IIª Guerra Mundial.
É preciso perguntar também: quem decide quais são as tais “questões políticas e sociais prementes”? A NED? A CIA? Os neoliberais de Victoria Nuland no Departamento de Estado?
Outros pés nos mesmos sapatos
Imaginemos outros pés nesses mesmos sapatos. Vladimir Putin e o serviço secreto de inteligência da Rússia decidem montar em New York uma “operação’ que chamarão de Nossa Empreitada “Futura Democracia nos EUA” (NoFuDemEUA).
Essa operação NoFuDemEUA financia, com milhões e milhões de dólares, o treinamento de jovens ativistas afro-americanos, em técnicas de “arrastões”, tumultos, vandalismo, manifestações de brutalidade contra policiais, ensinam a preparar coquetéis Molotov, a usar as mídias sociais para desmoralizar o estado, a Polícia. O objetivo da operação NoFuDemEUA será denunciar todos os abusos de direitos humanos cometidos pelo governo dos EUA, FBI, Polícia, governo instituições da ordem pública. Esse pessoal assim treinado, saberá colher um incidente ambíguo em Baltimore, Maryland ou Chicago ou New York e disparar vídeos por Youtube para todo o mundo, tuítos, mensagens sobre a violência policial, real ou falsificada. Ninguém se preocupa com determinar o que fez a Polícia, se agiu bem ou mal. Mas multidões reagem, tomam as ruas contra a Polícia, eclodem tumultos, morre gente.
Caros leitores, alguém aí supõe que o governo dos EUA admitiria que uma ONG russa se intrometesse nos assuntos internos soberanos dos United States of America? Alguém acha que o FBI hesitaria um segundo para prender todo o pessoal da ONG NoFuDemEUA, fechar o escritório, acabar com a “operação”?
EUA - Ilusão de democracia
Pois o que essa ONG NoFuDemEUA estaria fazendo é exatamente o mesmo que a ONG National Endowment for Democracy, NED, financiada pelo Congresso dos EUA e apoiada pela CIA, faz na Rússia. O pessoal dessa ONG não tem absolutamente nada a fazer em lugar algum da Rússia, que é nação soberana. Nem, é claro, essas ONGs têm algo a fazer em qualquer lugar do mundo. Elas só existem para semear confusão, criar tumultos. O governo russo faz muito bem em mostrar-lhes a porta de saída, como organizações realmente indesejáveis.
Em outubro de 2001, dias depois do choque dos ataques contra as torres do WTC e o Pentágono, o governo Bush conseguiu aprovar uma lei que, na prática, rasgou a Lei dos Direitos da Constituição Norte-Americana, das melhores constituições que o mundo conheceu. A “Lei Patriótica”, como é cinicamente chamada pelos seus patrocinadores, dá poderes ao governo dos EUA para, dentre outras violências
(...) vigiar terroristas suspeitos, todos os suspeitos de praticar fraudes ou abusos por computador (sic!), e agentes de potência estrangeira engajado em atividades clandestinas nos EUA.
Outra sessão dessa Lei Patriótica permite que o FBI confisque
(...) produto tangível de qualquer tipo (livros, gravações, papeis, documentos e outros itens) para investigação necessária para proteger contra terrorismo internacional ou atividades clandestinas.
Essa lei, que é lei do estado policial que passou a haver nos EUA, provocou apenas gotas de ultraje; agora está para ser renovada pelo Congresso. O fato de a ONG NED ter parado de declarar a quem dá dinheiro na Rússia é prova de que tem algo a esconder. Essa ONG NED é o coração das operações da CIA e do Departamento de Estado dos EUA para
(...) militarizar e armar os Direitos Humanos [orig. “Weaponization of Human Rights”], para provocar “mudança de regime pelo mundo, de modo a verem-se livres de governos que “não cooperam”.
ONG = Espionagem
Como eu já disse em recente entrevista na Rússia sobre a NED, pouco depois de a nova lei russa ter sido aprovada, o que me surpreendia é que a Rússia não tivesse criado lei semelhante há muito tempo, porque era evidente que as ONGs norte-americanas não estavam lá para qualquer serviço positivo. A NED é realmente uma ONG “indesejável” – como o são Human Rights Watch, Freedom House, as fundações Open Society e toda a escória das falsas ONGs de Direitos Humanos patrocinadas pelo governo dos EUA.
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[*] Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pelaPrinceton University; autor consagrado e especialista em questõesenergéticas e geopolítica da revista online  New Eastern Outlook.
Nascido em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos, é filho de F. William Engdahl e Ruth Aalund (nascida Rishoff). F.W. Engdahl cresceu no Texas, e depois de se formar em engenharia e jurisprudência na Princeton University em 1966 (bacharelado), e pós-graduação em economia comparativa da University of Stockholm 1969-1970. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em New York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche.
Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis.Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).
Engdahl é autor frequente do sítio do Centre for Research on Globalization. É casado desde 1987 e vive há mais de duas décadas perto de Frankfurt am Main, na Alemanha.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O Império e a “faca só lâmina” [1]: exércitos globais + ONGs [3/4]

Dividir nações soberanas & substituí-las por sistemas de administração global

12/2/2012, [*] Tony Cartalucci, Blog Land Destroyer 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu (sugestão do Chico Villela)

Leia antes:


Parte 3: O imperialismo reimaginado para o século 21

Mapa do Pentágono que, sob o disfarce de "Combate ao Terrorismo", demonstra o Imperialismo do século 21 (clique na imagem para aumentar)
Já vimos alguns exemplos de como o imperialismo está vivo e bem. Também já vimos como o imperialismo foi implantado pelos britânicos. Mas como, exatamente, está sendo implantado e mantido hoje? E por que tantos embarcam, por vontade própria, nesse navio fantasma?


Vídeo: Thomas Barnett descreve a construção de um exército de “sistemas administradores” (codinome: “sociedade civil”), para expandir-se em “espaços de paz”, ao mesmo tempo em que os exércitos globais norte-americanos expandem-se nos “espaços de batalhas”. A ONG Revenue Watch de Georges Soros, e a organização National Endowment for Democracy criaram precisamente esse exército de ONGs.

E, assim como tantos soldados promovem o imperialismo, convencidos de que estariam lutando por “liberdade”, inúmeros militantes dessas ONGs expandem os tentáculos globais de Wall Street & London, convencidos de que estariam promovendo “direitos humanos”.
....

A expressão “sistemas administradores” foi usada pelo estrategista militar do EUA, Thomas Barnett, para uma audiência embevecida, na conferência “2008 TED [Technology, Entertainment, Design]” intitulada  The Pentagon’s New Map for War & Peace” [O novo mapa do Pentágono para Guerra & Paz] (vídeo acima). Aos 18 minutos desse vídeo, Barnett começa a explicar um conceito de como reformar os militares dividindo-os em duas forças separadas, “a força de Leviatã que os EUA já construíram” e “os sistemas administradores”.

A primeira daquelas forças derruba as redes em operação nos países-alvos, usando ataques aéreos, operações especiais, invasões; para isso, precisa de soldados, armamento, munição, bombardeiros. A segunda, consiste de sistemas administradores que passam a construir sobre as cinzas deixadas pela “força Leviatã” ou sobre o caos semeado por uma “desestabilização” paga com dinheiro vindo de fora. Esses “sistemas administradores” incluem tudo: de ONGs, organizações internacionais e empresários e empresas, até agentes civis e de negócios internos (guerra psicológica) e às vezes, sendo necessário, também soldados e Marines.

Barnett avisa que se alguém tentar interferir na construção das redes de “sistemas administradores” do ocidente, “os Marines vêm aí e matam você!”. Provavelmente, exatamente o que os soldados ingleses faziam, sempre que havia insatisfação nas suas colônias.

O Massacre de Boston. Os que resistam contra os “sistemas administradores”, muito cuidado! Metam-se a querer contê-los, e “os Marines vêm aí e matam vocês!”
...

Aquela palestra do vídeo acima aconteceu em 2008, e já vemos passos sólidos dados na direção de expandir e utilizar precisamente aquela tal força. Barnett disse dos “gatilhos” das operações especiais, que desejava que as regras fossem “as mais soltas possíveis”. 

Recentemente, o Corbett Report e Media Monarchy falaram do papel expandido proposto para a “elite” das forças militares. Recentemente, se falou do almirante William McRaven do Comando de Operações Especiais, que estaria buscando “mais autonomia para posicionar suas forças e seu equipamento de combate nos pontos que a inteligência e os eventos globais indiquem que são mais necessários”. 


Vídeo: Comando das Operações Especiais em busca de mais “autonomia” para posicionar-se onde “a inteligência e os eventos globais indiquem que são mais necessários.” Esse “afrouxamento das regras” foi parte da formatação da “faca de dois gumes”, “faca só lâmina”, da conquista neoimperial: o exército global e o sistemas administradores.
....

Além disso, entre 2008 e 2011, antes da eclosão da Primavera Árabe, o Departamento de Estado dos EUA e sua rede de facilitadores globais embarcaram numa campanha para criar um literal exército de ONGs e grupos de oposição para começar a derrubar governos e a construir exatamente a rede global de administração que Barnett expôs na conferência TED. Foi noticiado recentemente (vide Soros Big-Business Accountability Project Funded by Big-Business [O big-business da “empresa transparente”, de Soros, financiado pelo big-business]) que um outro exército de ONGs está sendo mobilizado para construir sistemas administradores dedicados a gerenciar os recursos de determinados países. Chama-se “Revenue Watch” e está focado prioritariamente na África e no Sudeste da Ásia; é a abordagem por “sistema administrador” que complementa (a) os movimentos de agressão bélica que o Comando da África, AFRICOM-EUA, move contra países africanos e (b) a declaração, pelos EUA do Século do Pacífico na Ásia.

É absolutamente claro que a proposta de Barnett não exige, necessariamente, a colaboração da “força Leviatã armada pelos EUA” para detonar as redes que interesse detonar – como se viu na Primavera Árabe financiada pelos EUA.

Fomentar tumultos e agitação, até a insurreição armada, não é ação muito distante de aberta intervenção militar, e usa ativos que Barnett incluiu na força Leviatã, como “desencadear” operações especiais, e criar unidades civis, ONGs e empresas recrutadas dentro do sistema local.

Na Líbia, por exemplo, os estrategistas de ONGs e assuntos civis iniciaram as agitações em fevereiro de 2011, enquanto entravam no país e nos grupos as armas necessárias para derrubar o governo de Gaddafi. Organizações internacionais como a Corte Criminal Internacional fora usadas para envenenar a opinião pública contra o governo líbio, usando informação que aquelas organizações recebem de várias ONGs; e a OTAN começou a preparar o assalto, com ataque aéreo de ampla escala. Depois de iniciado o bombardeio, foi questão, apenas, de acionar forças especiais, armas e os demais facilitadores infiltrados, para preencher o vácuo deixado pela violentíssima campanha aérea da OTAN. Assim, as forças de Leviatã e os sistemas administradores trabalharam coordenadamente, uma limpando o caminho, varrendo de lá as velhas redes instaladas; os outros construindo as novas redes, para facilitar a permanência dos EUA, já residentes, e do presidente do Instituto do Petróleo, Abdurrahim el-Keib, como primeiro-ministro.

Em nações onde as opções militares como essa não sejam possíveis, sejam difíceis ou impossíveis de justificar, como na Tailândia, por exemplo, todo o peso do apoio de Wall Street & London é aplicado para fortalecer sistemas administradores e movimentos “adequados” de oposição que lá ficarão, como procuradores “seguros”, no caso de ser possível detonar as redes locais.

No caso da Tailândia, o “preposto seguro” é Thaksin Shinawatra, grande empresário e ex-consultor do Grupo Carlyle, que conta com extensivo apoio dos EUA, com serviços de lobbying fornecidos a ele por outro membro do Grupo Carlyle, James Baker e de sua empresa Baker Botts; do enviado pessoal de Bush ao Iraque, Robert Blackwill; da empresa Barbour Grifith & Rogers; e de Keneth Adelman, signatário do PNAC, da empresa Edelman.

Durante seu governo, de 2001 até ser derrubado por golpe popular em 2006, na véspera do qual ele estava literalmente prestando contas de seus serviços ao Conselho de Relações Exteriores em New York, Thaksin envolveu soldados tailandeses na invasão norte-americana do Iraque e autorizou a CIA a incluir a Tailândia para seu horrendo programa de entrega especial de prisioneiros para serem torturados.

Atualmente, o mesmo Thaksin é comandante-em-chefe de uma “revolução colorida”, bastião da força de ocupação de Barnett, porque nenhuma força ocidental é sustentável naquelas circunstâncias. Inclui-se entre seus serviços o uso documentado de manifestantes armados, em 2010, contra uma tentativa de insurreição. Esses exército privado de Thaksin é chamado “camisas vermelhas” ou “Frente Unida pela Democracia contra a Ditadura” [orig. United Front for Democracy Against Dictatorship (UDD)] e reuniu-se com a ONG Human Rights Watch, mantida pela Open Society de Soros; com o National Democratic Institute for International Affairs (NDI); com a National Endowment for Democracy (NED) e com o Conselho Comercial EUA-ASEAN, em abril de 2011, em visita a Washington, DC.

É evidente que ONGs e movimentos de oposição que muitos creiam ser espontâneos, legítimos, locais e independentes são, de fato, parte de uma rede mais ampla criada para o único objetivo de impor e manter o sistema administrador global. Não é rede de associações vagas ou indefinidas. Em cada caso há uma via direta que liga os movimentos a fundações e think-tanks ocidentais que traçam as políticas das ONGs e movimentos, e em todos os casos são mantidos e comandados pelas empresas “as 500 +” da revista Fortune de Wall Street & London. (clique na imagem para ampliar).
....

Há também círculos acadêmicos organizados para dar apoio a todos os esforços que surjam para minar as redes locais soberanas da Tailândia. Desses círculos, os mais conhecidos são “Nitirat”, ou “Juristas Esclarecidos”, cujo público é formado quase completamente dos “camisas vermelhas de Thaksin, e inclui, sempre sentado na primeira fila, Robert Amsterdam, o lobbysta profissional norte-americano cujos serviços Thaksin contratou.  

Finalmente, há ONGs de propaganda, que empregam jornalistas, como a conhecida Prachatai, que recebe centenas de milhares de dólares por ano do Departamento de Estado dos EUA, mediante o National Endowment for Democracy (NED); da Open Society de George Soros; e da USAID.

NED também financia o Comitê de Campanha pelos Direitos Humanos, a Fundação Cruz-cultural e a Environmental Litigation and Advocacy for the Wants. Dado que todas são mantidas por dinheiro da mesma fonte, cada ONG assina as petições das demais, e assim todos perpetuam suas agendas comuns (além de idênticas).

Por mais que suas declarações digam promover “liberdade”, “democracia” e “direitos humanos”, não deixa de ser impressionante o quão completamente conseguem misturar os interesses dos patrocinadores e das organizações “internacionais”, com as causas locais que dizem promover, e com o trabalho que, afinal, esses grupos realmente fazem.

Claramente há “fios” que ligam o dinheiro que a ONG Prachatai recebe do National Endowment for Democracy e “Freedom House”, que regularmente publica postados, colunas, indicações para prêmios e premiação de “jornalistas independentes” tailandeses. Também é absolutamente claro como todos esses mesmos interesses estão envolvidos também no apoio à volta de Thaksin Shinawatra ao governo, como preposto preferido do Império para a Tailândia.  (clique na imagem para ampliar) 
(...)

Como se viu acontecer também na Geórgia, EUA (Parte 2/4), a ignorância e as boas intenções são usadas para atrair quadros para essas ONGs. Também como na Georgia, essas organizações dependem, propositalmente, de repetido e substancial aporte de dinheiro que lhes vem de Wall Street & London, dado que o dinheiro que esses grupos arrecadam localmente praticamente nunca é suficiente. E embora muitos “seguidores” desses movimentos e ONGs creiam que estejam trabalhando para alguma “alta causa”, não passam de mercenários a serviço de forças que desconhecem completamente, num outro tipo de sistema imperial que se foi aperfeiçoando ao longo dos séculos, por tentativa e erro. (...)

Trevor Reese oferece uma interessante observação sobre o estado do imperialismo no século 18, que ainda se aplica aos nossos dias:

No século 18, os negócios coloniais eram questões subsidiárias na vida política inglesa; o dictum de Sir John Seeley, de que o povo britânico fundou um império num momento de desmaio ou privação de sentidos, é verdadeiro, no sentido de que a expansão imperial nunca foi objeto da atenção da opinião pública. Embora sempre tenha havido alguns críticos no país que manifestaram sentimentos anti-imperiais e temiam que o império escapasse a qualquer controle dos ingleses, sempre foram pequena maioria. Geralmente, quando se pensa sobre as colônias, o que raramente acontece, as pessoas as veem com aprovação, e creem que há vantagem em ser um império, embora saibam praticamente nada desse assunto.

Assim também, a grande maioria da opinião pública é deixada em completa escuridão sobre o que Wall Street & London fazem do outro lado do mundo.

Enquanto intervenções militares são manchete e todo o mundo e criam diversão (confusa e para confundir) para muitos, esses mesmos, a chamada “opinião pública”, é mantida absolutamente ignorante sobre tudo que tenha a ver com ONGs, sobre o conceito, mas e mais importante, também sobre a terrível, horrenda máquina de guerra à qual as ONGs estão integradas e que hoje está em operação da Tunísia à Tailândia e em todo o território entre uma e outra. (...)




Nota dos tradutores
[1] É imagem-criação de João Cabral de Melo Neto, no poema A faca só lâmina: “assim como uma faca / que sem bolso ou bainha / se transformasse em parte / de vossa anatomia”. Lê-se, na íntegra, na Revista Bula.. Recolhemos aqui, para traduzir o título original “Empire’s Double Edged Sword: Global Military + NGOs”.
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[*] Tony Cartalucci é um pesquisador de geopolítica e escritor sediado em Bangkok, Tailândia. Seu trabalho visa cobrir os eventos mundiais a partir de uma perspectiva do Sudeste Asiático, bem como promover a auto-suficiência como uma das chaves para a verdadeira liberdade.