Mostrando postagens com marcador NED. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador NED. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 18 de março de 2015

Moniz Bandeira: “EUA promovem desestabilização de democracias na América Latina”

17/3/2015, [*] Moniz Bandeira (entrevista por e-mail) [Equipe PT na Câmara]
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu



Em 2015, o Prof. Moniz Bandeira é nosso indicado ao Prêmio Nobel de Literatura, pela União Brasileira de Escritores (UBE). Seu livro de 2005  Formação do Império Americano (Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque), acaba de ser publicado em chinês. Luis Nassif o entrevistou, há um ano, excelente entrevista.
O Prof. Moniz Bandeira é grande amigo da Vila Vudu e muito nos ajuda! Força aí, professor! Grande abraço!


“As demonstrações de 2013 e as últimas, contra a eleição da presidente Dilma Rousseff, não foram evidentemente espontâneas”, disse o cientista político.


“Os atores, com o suporte externo, fomentam e encorajam a aguda luta de classe no Brasil, intensificada desde que um líder sindical, Lula, foi eleito presidente da República. Os jornais aqui na Alemanha salientaram que a maior parte dos que participaram das manifestações de domingo, dia 15/3/2015, era gente da classe média alta para cima, dos endinheirados’’, disse Moniz Bandeira, que reside na Alemanha e é autor de vários livros sobre as relações Brasil-EUA.


Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira
Eis a entrevista:

1) O líder do PT na Câmara, Sibá Machado, comentou nas redes sociais que a CIA tem atuado nas tentativas de desestabilização de governos democráticos na América Latina . Como o senhor avalia isso, diante de vários episódios históricos que mostram os EUA por trás da desestabilização de governos de esquerda e progressistas?

Prof. Moniz Bandeira – Washington há muito tempo está a criar ONGs com o fito de promover demonstrações empreendidas, com recursos canalizados através da USAID, National Endowment for Democracy (NED) e CIA; Open Society Foundations (OSF), do bilionário George Soros, Freedom House, International Republican Institute (IRI), sob a direção do senador John McCain, etc.. Elas trabalham diretamente com o setor privado, municípios e cidadãos, como estudantes, recrutados para fazerem cursos nos Estados Unidos. Assim o fizeram nos países da Eurásia, onde de 1989 ao ano de 2000 foram criadas mais de 500.000, a maioria das quais na Ucrânia. Outras foram organizadas no Oriente Médio para fazer a Primavera Árabe.

A estratégia é aproveitar as contradições domésticas do país, os problemas internos, a fim de agravá-los, gerar turbulência e caos até derrubar o governo sem recorrer a golpes militares. Na Ucrânia, dentro do projeto TechCamp, instrutores, a serviço da Embaixada dos Estados Unidos, então chefiada pelo embaixador Geoffrey R. Pyatt, estavam a preparar, desde pelo menos 2012, especialistas, profissionais em guerra de informação e descrédito das instituições do Estado, a usar o potencial revolucionário da mídia moderna – subvencionando a imprensa escrita e falada, TVs e sites na Internet - para a manipulação da opinião pública, e organização de protestos, com o objetivo de subverter a ordem estabelecida no país e derrubar o presidente Viktor Yanukovich as demonstrações contra o presidente Yanukovich, em fevereiro de 2014.

Essa estratégia baseia-se nas doutrinas do professor Gene Sharp e de Political Defiance, isto é, o desafio político, termo usado pelo coronel Robert Helvey, especialista da Joint Military Attache School (JMAS), operada pela Defence Intelligence Agency (DIA), para descrever como derrubar um governo e conquistar o controle das instituições, mediante o planejamento das operações e mobilização popular no ataque às fontes de poder nos países hostis aos interesses e valores do Ocidente (Estados Unidos). Essa estratégia pautou em larga medida a política de “regime change”, a subversão em outros países, sem golpe militar, incrementada pelo presidente George W. Bush, desde as chamadas “revoluções coloridas” na Europa e Eurásia, assim como na África do Norte e no Oriente Médio. Explico, em detalhes e com provas, como essa estratégia se desenvolve em meu livro A Segunda Guerra Fria, e, no momento estou a pesquisar e escrever outra obra – A desordem mundial - onde aprofundo o estudo o que ocorreu e ocorre em vários países, sobretudo na Ucrânia.

2) Além da CIA, como os EUA atuam contra os governos de esquerda da América Latina.

Prof. Moniz Bandeira – Não se trata de uma questão ideológica, mas de governos que não se submetem às diretrizes de Washington. Uma potência mundial, como os Estados Unidos, é mais perigosa quando está a perder a hegemonia do que quando expandia seu Império. E o monopólio que adquiriu após a IIª Guerra Mundial de produzir a moeda internacional de reserva – o dólar – está a ser desafiado pela China, Rússia e também o Brasil, que está associado a esses países na criação do banco internacional de desenvolvimento (BRICS BANK), como alternativa para o FMI, Banco Mundial etc.. Ademais, a Presidenta Dilma Rousseff denunciou na ONU a espionagem da NSA, não comprou os aviões - caça dos Estados Unidos, mas da Suécia, não entregou o pré-sal às petrolíferas americanas e não se alinhou com os Estados Unidos em outras questões de política internacional, entre as quais a dos países da América Latina.

3) O governo da Venezuela tem denunciado a participação de Washington em tentativas de golpe. O mesmo poderia estar acontecendo em relação ao Brasil?

Prof. Moniz Bandeira – Evidentemente há atores, profissionais muito bem pagos, que atuam tanto na Venezuela, Argentina e Brasil, integrantes ou não de ONGs, a serviço da USAID, Now Endowment for Democracy (NED) e outras entidades americanas. Não sem razão o Presidente Vladimir Putin determinou que todas as ONGs fossem registradas e indicassem a origem de seus recursos e como são gastos. O Brasil devia fazer algo semelhante. As demonstrações de 2013 e as últimas, contra a eleição da presidente Dilma Russeff, evidentemente, não foram espontâneas. Os atores, com o suporte externo, fomentam e encorajam a aguda luta de classe no Brasil, intensificada desde que um líder sindical, Lula, foi eleito presidente da República. Os jornais aqui na Alemanha salientaram que a maior parte dos que participaram nas manifestações de domingo, dia 15, era gente da classe média alta para cima, dos endinheirados.

4) Que interesses de Washington seriam contrariados, pelo governo do PT, para justificar a participação da CIA e de grupos empresariais de direita, como os irmãos Koch (ramo petroleiro) , no financiamento de mobilizações contra Dilma? O pré-sal, por exemplo?

Prof. Moniz Bandeira – Os interesses são vários como expliquei acima. É muito estranho como começou a Operação Lava-Jato, partir de uma denúncia “premiada”, com ampla participação da imprensa, sem que documentos comprobatórios aparecessem. O grande presidente Getúlio Vargas já havia denunciado, na sua carta-testamento, que “a campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. (...) Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculizada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente”.

5) Como o senhor interpreta o surgimento de grupos de direita no Brasil, com agenda totalmente alinhada aos interesses dos EUA?

Prof. Moniz Bandeira – Grupos de direita estão no Brasil como em outros países. E despertaram com a crise econômica deflagrada em 2007-2008 e que até hoje permanece, em vários países, como o Brasil, onde irrompeu com mais atraso que na Europa. E a direita sempre foi fomentada pelos interesses de Wall Street e do complexo industrial nos EUA, que é cevado pela corrupção, e onde a porta giratória – executivos de empresas/ secretários do governo – nunca deixa de funcionar, em todas as administrações.

6) Há, entre os organizadores dos protestos, gente fracamente favorável à privatização da Petrobras e das riquezas nacionais, com um evidente complexo de vira-latas diante dos interesses estrangeiros. Como analisar esse movimento à luz da história brasileira? De novo o nacionalismo versus entreguismo?

Prof. Moniz Bandeira – Está claro que, por trás da Operação Lava-Jato, o objetivo é desmoralizar a Petrobras e as empresas estatais, de modo a criar as condições para privatizá-las. Porém, estou certo de que as Forças Armadas não permitirão, não intervirão no processo político nem há fundamentos para golpe de Estado, mediante impeachment da presidenta Dilma Rousseff, contra a qual não há qualquer prova de corrupção, fraude eleitoral etc., elemento sempre usado na liturgia subversiva das entidades e líderes políticos que a USAID, NED e outras entidades dos EUA patrocinam.

_________________________________________________

[*] Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, mais conhecido como Moniz Bandeira (Salvador, 30 de Dezembro de 1935), é um professor universitário, cientista político e historiador luso-brasileiro, especialista em política exterior do Brasil e suas relações internacionais, principalmente com a Argentina e os Estados Unidos, sendo autor de várias obras, publicadas no Brasil e na Argentina, bem como em outros países.
Formado em Direito, doutorou-se em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, com a tese “O papel do Brasil na Bacia do Prata”, posteriormente publicada como livro, com o título A expansão do Brasil e formação dos Estados na Bacia do Prata.
Enquanto estudava Direito no Rio de Janeiro, trabalhou em importantes jornais como o: Correio da Manhã e o Diário de Notícias. Aos 25/26 anos, Moniz Bandeira publicou seus primeiros livros de ensaio político, intitulado “O 24 de Agosto de Jânio Quadros” (1961), sobre a renúncia do presidente Jânio Quadros, e “O Caminho da Revolução Brasileira”, no qual defendeu a tese de que o Brasil já era um país com uma economia capitalista madura, pois estava produzindo e exportando mais bens industrializados que produtos primários e previu o golpe militar de 1964.

Títulos:
  • Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo;
  • Doutor Honoris Causa pelas Faculdades Integradas do Brasil;
  • Bundesverdienst Kreuz (Erster Klasse), (Cruz do Mérito - Primeira Classe), conferida pelo governo da República Federal da Alemanha;
  • Grande Oficial da Ordem do Mérito Barão do Rio Branco (Brasil);
  • Comendador da Orden de Mayo (Argentina);
  • Intelectual do Ano de 2005 pela União Brasileira de Escritores (Prêmio Juca Pato);
  • Comendador da Ordem do Mérito Cultural (Brasil).
Obras mais recentes:
  • 2005 − Formação do Império Americano (Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque).
  • 2004 − As Relações Perigosas: Brasil-Estados Unidos (De Collor a Lula).
  • 2003 − Brasil, Argentina e Estados Unidos (Da Tríplice Aliança ao MERCOSUL), também traduzida e publicada na Argentina.
  • 2000 – O Feudo – A Casa da Torre de Garcia d’Ávila: da conquista dos sertões à independência do Brasil, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 601 pp.
  • 1999 – Brasil – Estados Unidos no Contexto da Globalização, vol. II (2ª. revista, aumentada e atualizada de Brasil-Estados Unidos: A Rivalidade Emergente, São Paulo, Editora SENAC, 224 pp.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

EUA: neoconservadores não foram eleitos... mas governam

17/11/2014, [*] Robert ParryConsortium News.com
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Essas políticas “antiguerra” de Putin [na Síria e no Irã] implicam oposição ativa, contra a agenda dos neoconservadores – que nunca desistem de tentar golpes para “mudança de regime” em todos os países que eles considerem hostis a Israel.


Obama e seus "neocons" na Sala Oval da Casa Branca
Num sistema político racional, os neoconservadores norte-americanos seriam o grupo mais desacreditado e desmoralizado de toda a moderna história dos EUA. Se já não estivessem condenados por cumplicidade em crimes de guerra – da América Central nos anos 1980s ao Iraque, na década passada – no mínimo não seriam, num sistema político racional, repetidamente elogiados por intelectuais de renome em think tanks importantes, nem seriam ativamente promovidos como sumidades e nomes dignos de respeito e reverência, aos quais os grandes veículos da imprensa-empresa norte-americana entregariam a palavra, como colunistas sempre convidados e reconvidados.

Mas os EUA não vivem hoje sob sistema político racional. Em vez de denunciados, processados e condenados, ou de serem postos no ostracismo, os neoconservadores continuam a dominar a política externa da Washington Oficial. Os neoconservadores e seus assessores “intervencionistas liberais” continuam a demonizar líderes “inimigos” – exatamente como fizeram no caso da América Central e do Iraque – e a atacar quem manifeste qualquer dúvida, declarados “fracos” se não embarcam na canoa deles.

E a imprensa-empresa dominante nos EUA, liderada por The New York Times, Washington Post e assemelhados alinha-se com eles sem qualquer resistência ou já é realmente dirigida por neoconservadoresNa sequência, os políticos eleitos, mesmo os que já deveriam saber como opera essa máquina, como o presidente Barack Obama, não se atrevem a afastar jornalistas influentes ou “formadores de opinião” prestigiados pela própria empresa-imprensa. Assim, para se fazerem de “durões”, acabam, também os políticos eleitos, por reforçar os temas dos neoconservadores.

Na altura em que estamos dos acontecimentos, seria terrivelmente simplório e ingênuo esperar que o presidente Obama venha ainda a demonstrar alguma real liderança e repudie o “pensamento” neoconservador em ampla gama de questões, dentre as quais as gravíssimas situações que os EUA criaram no Irã, Síria, Iraque, Rússia e Ucrânia.

Mas paremos por um minuto, só para imaginar o que teria acontecido se o presidente Obama tivesse seguido o aconselhamento dos neoconservadores, ano passado, para atacar massivamente a Síria, deixando-se convencer por acusações sem qualquer fundamentosegundo as quais o governo sírio teria sido responsável por ataque com gás sarín.
Síria - falsas acusações de uso de armas químicas pelo governo de Bashar al-Assad

Por mais que o “pensamento” da Washington oficial insista que de algum modo, por efeito de mágica, a oposição “moderada” síria (que, de fato, não existe) teria assumido o poder e tudo teria saído magnificamente bem, o resultado mais provável daquele ataque, se tivesse acontecido, teria sido que islamistas radicais, fosse o Estado Islâmico ou a Frente al-Nusra da al-Qaeda, teriam tomado o poder. A bandeira negra dos jihadistas poderia ter sido vista a tremular sobre Damasco.

Nesse caso, aconteceria o quê? O ocidente admitiria que a Síria, no coração do Oriente Médio, permanecesse governada pela al-Qaeda, ou pelo Estado Islâmico, ainda mais extremista? E mais: sem o governo secular de Bashar al-Assad, seria de esperar e temer que acontecessem massacres horríveis de cristãos, xiitas, alawitas e outras minorias que apoiam o governo de Assad.

Europa e EUA fariam o quê, nesse caso? Deixar-se-iam ficar de lado, só observando? Cresceriam os clamores para que Obama fizesse “alguma coisa”. E então, naquelas circunstâncias, a única “alguma coisa” a fazer seria intervenção militar pelos EUA, em grande escala, o que significaria mobilizar centenas de milhares de soldados e centenas de bilhões de dólares, sem qualquer possibilidade realista de sucesso.

Como chegamos a esse ponto

É preciso não esquecer como os EUA chegamos a esse ponto. Não havia qualquer Al-Qaeda no Iraque ou na Síria, antes de o presidente George W. Bush embraçar o esquema alucinado dos neoconservadores para invadir e ocupar o Iraque em 2003. O brutal Estado Islâmico cresceu no Iraque, como a Al-Qaeda-no-Iraque, como movimento de resistência contra a ocupação militar norte-americana.

Sob a liderança do extremista jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, a Al-Qaeda-no-Iraque desenvolveu estratégia ultraviolenta, operando sempre com extrema brutalidade, inclusive com massacres de xiitas e ocidentais, como meio para expulsar de terras dos muçulmanos todas aquelas forças pressupostas heréticas.

Zarqawi foi assassinado num atentado terrorista levado a efeito pelos EUA, em 2006, mas sua estratégia sobreviveu, inspirando a crueldade sem limites que se vê ativada hoje no Estado Islâmico, e ao qual até a Al-Qaeda já renunciara, a favor de sua afiliada síria preferida, a Frente al-Nusra.

Abu Musab al-Zarqawi
Assim sendo, se os neoconservadores não tivessem conseguido impor, há uma década, seu “projeto” de invadir e ocupar o Iraque – com o apoio entusiástico de jornalistas e políticos carreiristas profissionais da imprensa-empresa “liberal” norte-americana – é bastante provável que não houvesse hoje as crises do Iraque e da Síria. Pois mesmo assim, a Washington oficial continua a obedecer cegamente a um consenso comandado pelos neoconservadores, sobre tudo que deva ser feito no Oriente Médio e em outras partes do mundo.

Claro: a situação hoje é de tal gravidade e de tal modo confusa que é difícil decidir qual o melhor curso de ação a adotar. Mas qualquer política racional ou sistema racional de fazer política obrigariam a descartar o aconselhamento e todas as opiniões dos “pensadores” que criaram toda essa desgraça.

Pois em vez de serer mandados ajoelhar no milho no canto da sala, com orelhas de burro, os neoconservadores ganharam ainda mais espaço, para ampliar o campo de suas operações! Agora já estão intrometidos no conflito na Ucrânia e na decisão de converter o presidente Vladimir Putin em absoluto Satã, para tentar justificar uma nova Guerra Fria.

Os neoconservadores iniciaram sua estratégia geopolítica soprando as brasas da guerra na Ucrânia, sabendo da sensibilidade dos russos às questões de segurança. Os neoconservadores decidiram que a Ucrânia e Putin seriam seus alvos diretos em setembro de 2013, quando Putin ajudou Obama a evitar um bombardeio aéreo contra o governo sírio.
Carl Gershman, presidente da NED
O plano chegou a ser anunciado por neoconservadores norte-americanos como o presidente do National Endowment for Democracy [lit. Dotação Nacional para a Democracia], Carl Gershman, que se serviu da página de colunistas convidados do Washington Post, jornal que é a nave-madrinha dos neoconservadores, para declarar que a Ucrânia seria “o grande prêmio” e degrau importante para, no futuro, derrubar Putin da presidência da Rússia.

Gershman, cuja Dotação Nacional para a Democracia é mantida e paga pelo Congresso dos EUA, escreveu:

A decisão da Ucrânia de unir-se à Europa acelerará o fim da ideologia do imperialismo russo que Putin representa. (...) Os russos também terão de fazer escolhas, e Putin pode acabar se vendo na ponta mais fraca, não só em relação aos vizinhos próximos, mas também dentro da Rússia.

Em outras palavras, desde o início Putin foi o alvo do ataque norte-americano, na crise ucraniana, não o instigador de qualquer crise. Mas ainda que se ignore que Gershman obra na direção de promover um golpe contra Putin, ainda assim seria preciso construir e acreditar numa rocambolesca conspiração, antes de engolir a ideia de que Putin estaria tramando terrível “agressão” contra a Ucrânia, como primeiro passo no projeto de reconstruir o Império Russo.

Sochi distraiu a atenção de Putin

Verdade é que, quando eclodiu a crise ucraniana, em fevereiro de 2014, Putin estava distraído, ocupado com os Jogos de Inverno em Sochi – e apoiava o status quo na Ucrânia, vale dizer, o governo eleito do presidente Viktor Yanukovych, sem qualquer “projeto” de ampliar o território russo para dentro da Ucrânia.

Vladimir Putin em Sochi (24/2/2014)
Quem apoiava declaradamente a derrubada do governo constitucionalmente eleito na Ucrânia eram EUA e União Europeia, não Putin! Os promotores do golpe na Ucrânia eram neoconservadores norte-americanos conhecidos, como Gershman; a secretária-assistente de Estado dos EUA para a Europa, Victoria Nuland; o senador John McCain.

Esses são fatos conhecidos, sobre os quais já não há qualquer dúvida. Foram plenamente reconhecidos até por Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA, que disse em entrevista à revista alemã Der Spiegel:

Putin gastou bilhões de dólares nos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi. Otema daqueles jogos foi a Rússia como estado progressista ligado ao Ocidente pela cultura, e estado o qual, presumivelmente, deseja permanecer como parte do ocidente. Não faz sentido algum que, uma semana depois de encerrados os Jogos Olímpicos, Putin inventasse de tomar a Crimeia e iniciar uma guerra pela Ucrânia.

Em outras palavras, Putin realmente quer cooperar com os EUA e com o ocidente, o que demonstrou em dois casos cruciais: ao conseguir que a Síria entregasse seu arsenal químico e ao encorajar o Irã a aceitar um acordo temporário sobre a limitação de seu programa nuclear.

Essas políticas “antiguerra” de Putin [na Síria e no Irã] implicam oposição ativa, contra a agenda dos neoconservadores – que nunca desistem de tentar golpes para “mudança de regime” em todos os países que eles considerem hostis a Israel. Assim, Putin, com sua colaboração por trás dos bastidores com Obama, para encontrarem soluções políticas nas questões de Síria e Irã tornaram-se ameaças contra o objetivo máximo dos neoconservadores, ou seja, mais e mais guerrasPor isso Putin tornou-se o alvo de todos os neoconservadores.

Victoria Nuland, agente provocadora do Golpe de Estado na Ucrânia
Na sequência, a imprensa-empresa ocidental de notícias e virtualmente todos os líderes políticos do ocidente abraçaram a narrativa neoconservadora segundo a qual a crise na Ucrânia teria sido culpa integral de Putin e da Rússia, seja no grande contexto como em cada incidente, inclusive no massacre, promovido pelo governo de Kiev, de milhares de russos étnicos. Nos termos do duplipensar do “ocidente”, se Putin não tivesse provocado a crise, aquelas pessoas não teriam morrido.

E assim o golpe apoiado pelos EUA contra o governo de Kiev obteve uma espécie de “indulgência plena” para toda sua brutal operação contra russos étnicos no leste e no sul da Ucrânia, que resistiram contra o golpe que derrubou o presidente Yanukovych que eles haviam elegido, e contra a imposição de uma “nova ordem” que visa, mais uma vez, a impor as duras medidas de “austeridade” e “reformas” ordenadas pelo FMI.

Quando russos étnicos na Crimeia votaram em plebiscito a favor de se separarem da Ucrânia e de serem reintegrados à Rússia – reintegração que Moscou aceitou, depois do resultado do plebiscito – a imprensa-empresa ocidental pôs-se a desqualificar o referendo e a acusar a Rússia de ter “invadido” a Crimeia. A verdade é que sempre houve tropas russas na Crimeia, nos termos do contrato que autorizava a manutenção, em Sebastopol, de uma base naval russa.

Quando a “operação antiterrorista” do novo governo de Kiev matou milhares de russos étnicos no leste – e para esse fim recrutou até milícias neonazistas para fazerem o pior do serviço imundo – a imprensa-empresa neoconservadora nos EUA ou ignorou a brutalidade da ação, ou deu jeito para culpar Putin e a Rússia.

E o avião derrubado? Procurem o criminoso

Dia 17 de julho/2014, quando o avião da Malaysia Airlines que fazia o voo 17 foi derrubado sobre o leste da Ucrânia, o governo de Kiev, a Washington oficial e as redes de televisão correram a “noticiar” que os rebeldes teriam assassinado 298 passageiros do tal avião – o que só teria sido possível, porque a Rússia teria fornecido aos terroristas mísseis antiaéreos suficientes para derrubar um avião de passageiros que voava a 33 mil pés de altitude.

MH-17, antes e depois de derrubado pela Força Aérea da Ucrânia
Pouco depois de o avião ter sido derrubado, comecei a ouvir comentários indiretos, de analistas de inteligência dos EUA, que a investigação já sugeria fortemente outra direção, que não havia prova alguma de que os russos tivessem fornecido a alguém aquele armamento sofisticado; e que as suspeitas aproximavam-se de elementos extremistas dentro do governo ucraniano. Depois, ouvi a informação de que o presidente Obama já sabia disso tudo.

Mas Obama não se deu o trabalho de corrigir nem, sequer, de atualizar os informes para a opinião pública. Por que desperdiçar peça tão útil de propaganda? Além disso, pode ter tido medo de ser taxado de “mole”, contra Putin, por não repetir a sabedoria pressuposta dos “durões” de Washington, para os quais Putin é culpado de todos os males, sempre. Obama continuou, até, a deixar implícita a ideia de que a Rússia teria, sim, algo a ver com a atrocidade.

Falando na Austrália, dia 15 de novembro de 2014, Obama deixou a impressão de que os russos seriam culpados, e insistiu no mote autoelogiativo e autocongratulatório de “EUA acima de todos”, que os neoconservadores tanto prezam. Ainda há poucos dias, Obama disse que:

(...) trabalhamos na oposição à agressão russa contra a Ucrânia – que é ameaça ao mundo, como se viu na ação aterrorizante que derrubou o voo MH17, tragédia que roubou a vida de muitos inocentes, dentre os quais, cidadãos australianos. Como aliados e amigos, os EUA partilham o luto dessas famílias australianas e partilham a determinação de sua nação em busca de justiça e transparência.

Se se examinam com atenção as palavras de Obama, vê-se que ele não culpa a Rússia, declaradamente, pela derrubada do MH-17... mas deixa aberta a porta para uma inferência nessa direção. É mais que claro que a esperança vai-se esvaindo – se ainda houvesse alguma esperança – de que Obama aproveitasse a oportunidade pós-eleições, para delinear abordagem mais honesta e mais realista para a política externa dos EUA.

Obama parece conformado com seguir ordens dos neoconservadores, embora vez ou outra relutantemente e possivelmente se desviando alguns passos das políticas mais extremas, sempre no último momento – como quando decidiu não bombardear a Síria, no verão de 2013.

Mas há perigos graves em Obama não informar aos norte-americanos, com honestidade, sobre o que sabe de todas essas crises. Ah, sim, com certeza seria criticado pelos insiders da Washington oficial e ouviria mais acusações, pelos Republicanos, de “fraqueza” e de que teria “capitulado”.

Mesmo assim daria, pelo menos à parte que pensa da população dos EUA, uma chance de resistir ao próximo desastre, que já se avizinha, pelo script dos neoconservadores.
________________

[*] Robert Parry (nascido em 24/6/1949) é um jornalista investigativo norte-americano muito conhecido por seu papel na cobertura do Caso Irã-Contras para a Associated Press (AP) e Newsweek, inclusive quebrando o sigilo do Psychological Operations in Guerrilla Warfare ( Manual da CIA fornecido aos Contras da Nicarágua) e por ter descoberto o escândalo do Tráfico de cocaína CIA e Contras nos EUA em 1985. Foi agraciado com o Prêmio George Polk como o melhor Repórter Nacional em 1984. Edita o sítio Consortium News desde 1995.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O Império e a “faca só lâmina” [1]: exércitos globais + ONGs [3/4]

Dividir nações soberanas & substituí-las por sistemas de administração global

12/2/2012, [*] Tony Cartalucci, Blog Land Destroyer 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu (sugestão do Chico Villela)

Leia antes:


Parte 3: O imperialismo reimaginado para o século 21

Mapa do Pentágono que, sob o disfarce de "Combate ao Terrorismo", demonstra o Imperialismo do século 21 (clique na imagem para aumentar)
Já vimos alguns exemplos de como o imperialismo está vivo e bem. Também já vimos como o imperialismo foi implantado pelos britânicos. Mas como, exatamente, está sendo implantado e mantido hoje? E por que tantos embarcam, por vontade própria, nesse navio fantasma?


Vídeo: Thomas Barnett descreve a construção de um exército de “sistemas administradores” (codinome: “sociedade civil”), para expandir-se em “espaços de paz”, ao mesmo tempo em que os exércitos globais norte-americanos expandem-se nos “espaços de batalhas”. A ONG Revenue Watch de Georges Soros, e a organização National Endowment for Democracy criaram precisamente esse exército de ONGs.

E, assim como tantos soldados promovem o imperialismo, convencidos de que estariam lutando por “liberdade”, inúmeros militantes dessas ONGs expandem os tentáculos globais de Wall Street & London, convencidos de que estariam promovendo “direitos humanos”.
....

A expressão “sistemas administradores” foi usada pelo estrategista militar do EUA, Thomas Barnett, para uma audiência embevecida, na conferência “2008 TED [Technology, Entertainment, Design]” intitulada  The Pentagon’s New Map for War & Peace” [O novo mapa do Pentágono para Guerra & Paz] (vídeo acima). Aos 18 minutos desse vídeo, Barnett começa a explicar um conceito de como reformar os militares dividindo-os em duas forças separadas, “a força de Leviatã que os EUA já construíram” e “os sistemas administradores”.

A primeira daquelas forças derruba as redes em operação nos países-alvos, usando ataques aéreos, operações especiais, invasões; para isso, precisa de soldados, armamento, munição, bombardeiros. A segunda, consiste de sistemas administradores que passam a construir sobre as cinzas deixadas pela “força Leviatã” ou sobre o caos semeado por uma “desestabilização” paga com dinheiro vindo de fora. Esses “sistemas administradores” incluem tudo: de ONGs, organizações internacionais e empresários e empresas, até agentes civis e de negócios internos (guerra psicológica) e às vezes, sendo necessário, também soldados e Marines.

Barnett avisa que se alguém tentar interferir na construção das redes de “sistemas administradores” do ocidente, “os Marines vêm aí e matam você!”. Provavelmente, exatamente o que os soldados ingleses faziam, sempre que havia insatisfação nas suas colônias.

O Massacre de Boston. Os que resistam contra os “sistemas administradores”, muito cuidado! Metam-se a querer contê-los, e “os Marines vêm aí e matam vocês!”
...

Aquela palestra do vídeo acima aconteceu em 2008, e já vemos passos sólidos dados na direção de expandir e utilizar precisamente aquela tal força. Barnett disse dos “gatilhos” das operações especiais, que desejava que as regras fossem “as mais soltas possíveis”. 

Recentemente, o Corbett Report e Media Monarchy falaram do papel expandido proposto para a “elite” das forças militares. Recentemente, se falou do almirante William McRaven do Comando de Operações Especiais, que estaria buscando “mais autonomia para posicionar suas forças e seu equipamento de combate nos pontos que a inteligência e os eventos globais indiquem que são mais necessários”. 


Vídeo: Comando das Operações Especiais em busca de mais “autonomia” para posicionar-se onde “a inteligência e os eventos globais indiquem que são mais necessários.” Esse “afrouxamento das regras” foi parte da formatação da “faca de dois gumes”, “faca só lâmina”, da conquista neoimperial: o exército global e o sistemas administradores.
....

Além disso, entre 2008 e 2011, antes da eclosão da Primavera Árabe, o Departamento de Estado dos EUA e sua rede de facilitadores globais embarcaram numa campanha para criar um literal exército de ONGs e grupos de oposição para começar a derrubar governos e a construir exatamente a rede global de administração que Barnett expôs na conferência TED. Foi noticiado recentemente (vide Soros Big-Business Accountability Project Funded by Big-Business [O big-business da “empresa transparente”, de Soros, financiado pelo big-business]) que um outro exército de ONGs está sendo mobilizado para construir sistemas administradores dedicados a gerenciar os recursos de determinados países. Chama-se “Revenue Watch” e está focado prioritariamente na África e no Sudeste da Ásia; é a abordagem por “sistema administrador” que complementa (a) os movimentos de agressão bélica que o Comando da África, AFRICOM-EUA, move contra países africanos e (b) a declaração, pelos EUA do Século do Pacífico na Ásia.

É absolutamente claro que a proposta de Barnett não exige, necessariamente, a colaboração da “força Leviatã armada pelos EUA” para detonar as redes que interesse detonar – como se viu na Primavera Árabe financiada pelos EUA.

Fomentar tumultos e agitação, até a insurreição armada, não é ação muito distante de aberta intervenção militar, e usa ativos que Barnett incluiu na força Leviatã, como “desencadear” operações especiais, e criar unidades civis, ONGs e empresas recrutadas dentro do sistema local.

Na Líbia, por exemplo, os estrategistas de ONGs e assuntos civis iniciaram as agitações em fevereiro de 2011, enquanto entravam no país e nos grupos as armas necessárias para derrubar o governo de Gaddafi. Organizações internacionais como a Corte Criminal Internacional fora usadas para envenenar a opinião pública contra o governo líbio, usando informação que aquelas organizações recebem de várias ONGs; e a OTAN começou a preparar o assalto, com ataque aéreo de ampla escala. Depois de iniciado o bombardeio, foi questão, apenas, de acionar forças especiais, armas e os demais facilitadores infiltrados, para preencher o vácuo deixado pela violentíssima campanha aérea da OTAN. Assim, as forças de Leviatã e os sistemas administradores trabalharam coordenadamente, uma limpando o caminho, varrendo de lá as velhas redes instaladas; os outros construindo as novas redes, para facilitar a permanência dos EUA, já residentes, e do presidente do Instituto do Petróleo, Abdurrahim el-Keib, como primeiro-ministro.

Em nações onde as opções militares como essa não sejam possíveis, sejam difíceis ou impossíveis de justificar, como na Tailândia, por exemplo, todo o peso do apoio de Wall Street & London é aplicado para fortalecer sistemas administradores e movimentos “adequados” de oposição que lá ficarão, como procuradores “seguros”, no caso de ser possível detonar as redes locais.

No caso da Tailândia, o “preposto seguro” é Thaksin Shinawatra, grande empresário e ex-consultor do Grupo Carlyle, que conta com extensivo apoio dos EUA, com serviços de lobbying fornecidos a ele por outro membro do Grupo Carlyle, James Baker e de sua empresa Baker Botts; do enviado pessoal de Bush ao Iraque, Robert Blackwill; da empresa Barbour Grifith & Rogers; e de Keneth Adelman, signatário do PNAC, da empresa Edelman.

Durante seu governo, de 2001 até ser derrubado por golpe popular em 2006, na véspera do qual ele estava literalmente prestando contas de seus serviços ao Conselho de Relações Exteriores em New York, Thaksin envolveu soldados tailandeses na invasão norte-americana do Iraque e autorizou a CIA a incluir a Tailândia para seu horrendo programa de entrega especial de prisioneiros para serem torturados.

Atualmente, o mesmo Thaksin é comandante-em-chefe de uma “revolução colorida”, bastião da força de ocupação de Barnett, porque nenhuma força ocidental é sustentável naquelas circunstâncias. Inclui-se entre seus serviços o uso documentado de manifestantes armados, em 2010, contra uma tentativa de insurreição. Esses exército privado de Thaksin é chamado “camisas vermelhas” ou “Frente Unida pela Democracia contra a Ditadura” [orig. United Front for Democracy Against Dictatorship (UDD)] e reuniu-se com a ONG Human Rights Watch, mantida pela Open Society de Soros; com o National Democratic Institute for International Affairs (NDI); com a National Endowment for Democracy (NED) e com o Conselho Comercial EUA-ASEAN, em abril de 2011, em visita a Washington, DC.

É evidente que ONGs e movimentos de oposição que muitos creiam ser espontâneos, legítimos, locais e independentes são, de fato, parte de uma rede mais ampla criada para o único objetivo de impor e manter o sistema administrador global. Não é rede de associações vagas ou indefinidas. Em cada caso há uma via direta que liga os movimentos a fundações e think-tanks ocidentais que traçam as políticas das ONGs e movimentos, e em todos os casos são mantidos e comandados pelas empresas “as 500 +” da revista Fortune de Wall Street & London. (clique na imagem para ampliar).
....

Há também círculos acadêmicos organizados para dar apoio a todos os esforços que surjam para minar as redes locais soberanas da Tailândia. Desses círculos, os mais conhecidos são “Nitirat”, ou “Juristas Esclarecidos”, cujo público é formado quase completamente dos “camisas vermelhas de Thaksin, e inclui, sempre sentado na primeira fila, Robert Amsterdam, o lobbysta profissional norte-americano cujos serviços Thaksin contratou.  

Finalmente, há ONGs de propaganda, que empregam jornalistas, como a conhecida Prachatai, que recebe centenas de milhares de dólares por ano do Departamento de Estado dos EUA, mediante o National Endowment for Democracy (NED); da Open Society de George Soros; e da USAID.

NED também financia o Comitê de Campanha pelos Direitos Humanos, a Fundação Cruz-cultural e a Environmental Litigation and Advocacy for the Wants. Dado que todas são mantidas por dinheiro da mesma fonte, cada ONG assina as petições das demais, e assim todos perpetuam suas agendas comuns (além de idênticas).

Por mais que suas declarações digam promover “liberdade”, “democracia” e “direitos humanos”, não deixa de ser impressionante o quão completamente conseguem misturar os interesses dos patrocinadores e das organizações “internacionais”, com as causas locais que dizem promover, e com o trabalho que, afinal, esses grupos realmente fazem.

Claramente há “fios” que ligam o dinheiro que a ONG Prachatai recebe do National Endowment for Democracy e “Freedom House”, que regularmente publica postados, colunas, indicações para prêmios e premiação de “jornalistas independentes” tailandeses. Também é absolutamente claro como todos esses mesmos interesses estão envolvidos também no apoio à volta de Thaksin Shinawatra ao governo, como preposto preferido do Império para a Tailândia.  (clique na imagem para ampliar) 
(...)

Como se viu acontecer também na Geórgia, EUA (Parte 2/4), a ignorância e as boas intenções são usadas para atrair quadros para essas ONGs. Também como na Georgia, essas organizações dependem, propositalmente, de repetido e substancial aporte de dinheiro que lhes vem de Wall Street & London, dado que o dinheiro que esses grupos arrecadam localmente praticamente nunca é suficiente. E embora muitos “seguidores” desses movimentos e ONGs creiam que estejam trabalhando para alguma “alta causa”, não passam de mercenários a serviço de forças que desconhecem completamente, num outro tipo de sistema imperial que se foi aperfeiçoando ao longo dos séculos, por tentativa e erro. (...)

Trevor Reese oferece uma interessante observação sobre o estado do imperialismo no século 18, que ainda se aplica aos nossos dias:

No século 18, os negócios coloniais eram questões subsidiárias na vida política inglesa; o dictum de Sir John Seeley, de que o povo britânico fundou um império num momento de desmaio ou privação de sentidos, é verdadeiro, no sentido de que a expansão imperial nunca foi objeto da atenção da opinião pública. Embora sempre tenha havido alguns críticos no país que manifestaram sentimentos anti-imperiais e temiam que o império escapasse a qualquer controle dos ingleses, sempre foram pequena maioria. Geralmente, quando se pensa sobre as colônias, o que raramente acontece, as pessoas as veem com aprovação, e creem que há vantagem em ser um império, embora saibam praticamente nada desse assunto.

Assim também, a grande maioria da opinião pública é deixada em completa escuridão sobre o que Wall Street & London fazem do outro lado do mundo.

Enquanto intervenções militares são manchete e todo o mundo e criam diversão (confusa e para confundir) para muitos, esses mesmos, a chamada “opinião pública”, é mantida absolutamente ignorante sobre tudo que tenha a ver com ONGs, sobre o conceito, mas e mais importante, também sobre a terrível, horrenda máquina de guerra à qual as ONGs estão integradas e que hoje está em operação da Tunísia à Tailândia e em todo o território entre uma e outra. (...)




Nota dos tradutores
[1] É imagem-criação de João Cabral de Melo Neto, no poema A faca só lâmina: “assim como uma faca / que sem bolso ou bainha / se transformasse em parte / de vossa anatomia”. Lê-se, na íntegra, na Revista Bula.. Recolhemos aqui, para traduzir o título original “Empire’s Double Edged Sword: Global Military + NGOs”.
_____________________


[*] Tony Cartalucci é um pesquisador de geopolítica e escritor sediado em Bangkok, Tailândia. Seu trabalho visa cobrir os eventos mundiais a partir de uma perspectiva do Sudeste Asiático, bem como promover a auto-suficiência como uma das chaves para a verdadeira liberdade.