Mostrando postagens com marcador Moniz Bandeira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Moniz Bandeira. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 18 de março de 2015

Moniz Bandeira: “EUA promovem desestabilização de democracias na América Latina”

17/3/2015, [*] Moniz Bandeira (entrevista por e-mail) [Equipe PT na Câmara]
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu



Em 2015, o Prof. Moniz Bandeira é nosso indicado ao Prêmio Nobel de Literatura, pela União Brasileira de Escritores (UBE). Seu livro de 2005  Formação do Império Americano (Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque), acaba de ser publicado em chinês. Luis Nassif o entrevistou, há um ano, excelente entrevista.
O Prof. Moniz Bandeira é grande amigo da Vila Vudu e muito nos ajuda! Força aí, professor! Grande abraço!


“As demonstrações de 2013 e as últimas, contra a eleição da presidente Dilma Rousseff, não foram evidentemente espontâneas”, disse o cientista político.


“Os atores, com o suporte externo, fomentam e encorajam a aguda luta de classe no Brasil, intensificada desde que um líder sindical, Lula, foi eleito presidente da República. Os jornais aqui na Alemanha salientaram que a maior parte dos que participaram das manifestações de domingo, dia 15/3/2015, era gente da classe média alta para cima, dos endinheirados’’, disse Moniz Bandeira, que reside na Alemanha e é autor de vários livros sobre as relações Brasil-EUA.


Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira
Eis a entrevista:

1) O líder do PT na Câmara, Sibá Machado, comentou nas redes sociais que a CIA tem atuado nas tentativas de desestabilização de governos democráticos na América Latina . Como o senhor avalia isso, diante de vários episódios históricos que mostram os EUA por trás da desestabilização de governos de esquerda e progressistas?

Prof. Moniz Bandeira – Washington há muito tempo está a criar ONGs com o fito de promover demonstrações empreendidas, com recursos canalizados através da USAID, National Endowment for Democracy (NED) e CIA; Open Society Foundations (OSF), do bilionário George Soros, Freedom House, International Republican Institute (IRI), sob a direção do senador John McCain, etc.. Elas trabalham diretamente com o setor privado, municípios e cidadãos, como estudantes, recrutados para fazerem cursos nos Estados Unidos. Assim o fizeram nos países da Eurásia, onde de 1989 ao ano de 2000 foram criadas mais de 500.000, a maioria das quais na Ucrânia. Outras foram organizadas no Oriente Médio para fazer a Primavera Árabe.

A estratégia é aproveitar as contradições domésticas do país, os problemas internos, a fim de agravá-los, gerar turbulência e caos até derrubar o governo sem recorrer a golpes militares. Na Ucrânia, dentro do projeto TechCamp, instrutores, a serviço da Embaixada dos Estados Unidos, então chefiada pelo embaixador Geoffrey R. Pyatt, estavam a preparar, desde pelo menos 2012, especialistas, profissionais em guerra de informação e descrédito das instituições do Estado, a usar o potencial revolucionário da mídia moderna – subvencionando a imprensa escrita e falada, TVs e sites na Internet - para a manipulação da opinião pública, e organização de protestos, com o objetivo de subverter a ordem estabelecida no país e derrubar o presidente Viktor Yanukovich as demonstrações contra o presidente Yanukovich, em fevereiro de 2014.

Essa estratégia baseia-se nas doutrinas do professor Gene Sharp e de Political Defiance, isto é, o desafio político, termo usado pelo coronel Robert Helvey, especialista da Joint Military Attache School (JMAS), operada pela Defence Intelligence Agency (DIA), para descrever como derrubar um governo e conquistar o controle das instituições, mediante o planejamento das operações e mobilização popular no ataque às fontes de poder nos países hostis aos interesses e valores do Ocidente (Estados Unidos). Essa estratégia pautou em larga medida a política de “regime change”, a subversão em outros países, sem golpe militar, incrementada pelo presidente George W. Bush, desde as chamadas “revoluções coloridas” na Europa e Eurásia, assim como na África do Norte e no Oriente Médio. Explico, em detalhes e com provas, como essa estratégia se desenvolve em meu livro A Segunda Guerra Fria, e, no momento estou a pesquisar e escrever outra obra – A desordem mundial - onde aprofundo o estudo o que ocorreu e ocorre em vários países, sobretudo na Ucrânia.

2) Além da CIA, como os EUA atuam contra os governos de esquerda da América Latina.

Prof. Moniz Bandeira – Não se trata de uma questão ideológica, mas de governos que não se submetem às diretrizes de Washington. Uma potência mundial, como os Estados Unidos, é mais perigosa quando está a perder a hegemonia do que quando expandia seu Império. E o monopólio que adquiriu após a IIª Guerra Mundial de produzir a moeda internacional de reserva – o dólar – está a ser desafiado pela China, Rússia e também o Brasil, que está associado a esses países na criação do banco internacional de desenvolvimento (BRICS BANK), como alternativa para o FMI, Banco Mundial etc.. Ademais, a Presidenta Dilma Rousseff denunciou na ONU a espionagem da NSA, não comprou os aviões - caça dos Estados Unidos, mas da Suécia, não entregou o pré-sal às petrolíferas americanas e não se alinhou com os Estados Unidos em outras questões de política internacional, entre as quais a dos países da América Latina.

3) O governo da Venezuela tem denunciado a participação de Washington em tentativas de golpe. O mesmo poderia estar acontecendo em relação ao Brasil?

Prof. Moniz Bandeira – Evidentemente há atores, profissionais muito bem pagos, que atuam tanto na Venezuela, Argentina e Brasil, integrantes ou não de ONGs, a serviço da USAID, Now Endowment for Democracy (NED) e outras entidades americanas. Não sem razão o Presidente Vladimir Putin determinou que todas as ONGs fossem registradas e indicassem a origem de seus recursos e como são gastos. O Brasil devia fazer algo semelhante. As demonstrações de 2013 e as últimas, contra a eleição da presidente Dilma Russeff, evidentemente, não foram espontâneas. Os atores, com o suporte externo, fomentam e encorajam a aguda luta de classe no Brasil, intensificada desde que um líder sindical, Lula, foi eleito presidente da República. Os jornais aqui na Alemanha salientaram que a maior parte dos que participaram nas manifestações de domingo, dia 15, era gente da classe média alta para cima, dos endinheirados.

4) Que interesses de Washington seriam contrariados, pelo governo do PT, para justificar a participação da CIA e de grupos empresariais de direita, como os irmãos Koch (ramo petroleiro) , no financiamento de mobilizações contra Dilma? O pré-sal, por exemplo?

Prof. Moniz Bandeira – Os interesses são vários como expliquei acima. É muito estranho como começou a Operação Lava-Jato, partir de uma denúncia “premiada”, com ampla participação da imprensa, sem que documentos comprobatórios aparecessem. O grande presidente Getúlio Vargas já havia denunciado, na sua carta-testamento, que “a campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. (...) Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculizada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente”.

5) Como o senhor interpreta o surgimento de grupos de direita no Brasil, com agenda totalmente alinhada aos interesses dos EUA?

Prof. Moniz Bandeira – Grupos de direita estão no Brasil como em outros países. E despertaram com a crise econômica deflagrada em 2007-2008 e que até hoje permanece, em vários países, como o Brasil, onde irrompeu com mais atraso que na Europa. E a direita sempre foi fomentada pelos interesses de Wall Street e do complexo industrial nos EUA, que é cevado pela corrupção, e onde a porta giratória – executivos de empresas/ secretários do governo – nunca deixa de funcionar, em todas as administrações.

6) Há, entre os organizadores dos protestos, gente fracamente favorável à privatização da Petrobras e das riquezas nacionais, com um evidente complexo de vira-latas diante dos interesses estrangeiros. Como analisar esse movimento à luz da história brasileira? De novo o nacionalismo versus entreguismo?

Prof. Moniz Bandeira – Está claro que, por trás da Operação Lava-Jato, o objetivo é desmoralizar a Petrobras e as empresas estatais, de modo a criar as condições para privatizá-las. Porém, estou certo de que as Forças Armadas não permitirão, não intervirão no processo político nem há fundamentos para golpe de Estado, mediante impeachment da presidenta Dilma Rousseff, contra a qual não há qualquer prova de corrupção, fraude eleitoral etc., elemento sempre usado na liturgia subversiva das entidades e líderes políticos que a USAID, NED e outras entidades dos EUA patrocinam.

_________________________________________________

[*] Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, mais conhecido como Moniz Bandeira (Salvador, 30 de Dezembro de 1935), é um professor universitário, cientista político e historiador luso-brasileiro, especialista em política exterior do Brasil e suas relações internacionais, principalmente com a Argentina e os Estados Unidos, sendo autor de várias obras, publicadas no Brasil e na Argentina, bem como em outros países.
Formado em Direito, doutorou-se em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, com a tese “O papel do Brasil na Bacia do Prata”, posteriormente publicada como livro, com o título A expansão do Brasil e formação dos Estados na Bacia do Prata.
Enquanto estudava Direito no Rio de Janeiro, trabalhou em importantes jornais como o: Correio da Manhã e o Diário de Notícias. Aos 25/26 anos, Moniz Bandeira publicou seus primeiros livros de ensaio político, intitulado “O 24 de Agosto de Jânio Quadros” (1961), sobre a renúncia do presidente Jânio Quadros, e “O Caminho da Revolução Brasileira”, no qual defendeu a tese de que o Brasil já era um país com uma economia capitalista madura, pois estava produzindo e exportando mais bens industrializados que produtos primários e previu o golpe militar de 1964.

Títulos:
  • Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo;
  • Doutor Honoris Causa pelas Faculdades Integradas do Brasil;
  • Bundesverdienst Kreuz (Erster Klasse), (Cruz do Mérito - Primeira Classe), conferida pelo governo da República Federal da Alemanha;
  • Grande Oficial da Ordem do Mérito Barão do Rio Branco (Brasil);
  • Comendador da Orden de Mayo (Argentina);
  • Intelectual do Ano de 2005 pela União Brasileira de Escritores (Prêmio Juca Pato);
  • Comendador da Ordem do Mérito Cultural (Brasil).
Obras mais recentes:
  • 2005 − Formação do Império Americano (Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque).
  • 2004 − As Relações Perigosas: Brasil-Estados Unidos (De Collor a Lula).
  • 2003 − Brasil, Argentina e Estados Unidos (Da Tríplice Aliança ao MERCOSUL), também traduzida e publicada na Argentina.
  • 2000 – O Feudo – A Casa da Torre de Garcia d’Ávila: da conquista dos sertões à independência do Brasil, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 601 pp.
  • 1999 – Brasil – Estados Unidos no Contexto da Globalização, vol. II (2ª. revista, aumentada e atualizada de Brasil-Estados Unidos: A Rivalidade Emergente, São Paulo, Editora SENAC, 224 pp.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Moniz Bandeira: “Síria: a loucura tem método”

Professor Moniz Bandeira

Luiz Alberto Moniz Bandeira [1]

Parece loucura que a oposição, levantada na Síria, desde 26 de janeiro de 2011, ainda continue e se desdobre, mais de um ano, sob a forma de luta armada, apesar da dura e sangrenta repressão do governo de Bashar al-Assad. Porém, conforme comentou Polônio a respeito do comportamento de Hamlet, “embora seja loucura, há um método nela” (Shakespeare, Hamlet, Act II, Scene I).

De fato, não obstante existissem condições objetivas e subjetivas para as sublevações que ocorreram e ocorrem, nos países árabes, o cartel das potências industriais do Ocidente, liderado pelos Estados Unidos e seus sócios da União Européia, armou uma equação, com ampla dimensão econômica, geopolítica e geoestratégica, sobretudo por trás das sublevações na Líbia e na Síria, iniciadas em 2011.

Os Estados Unidos e demais potências ocidentais pretendem assumir o controle do Mediterrâneo e isolar politicamente o Irã, aliado da Síria, bem como restringir a influência da Rússia e da China no Oriente Médio.

Base Naval da Rússia em Tartus, Síria (vista aérea)
A Rússia, desde 1971, opera o porto de Tartus, na Síria, e projeta reformá-lo e ampliá-lo, como base naval, em 2012, de modo que possa receber grandes navios de guerra, garantindo sua presença no Mediterrâneo. Consta que a Rússia também planeja instalar bases navais na Líbia e no Iêmen. E o financiamento da oposição, na Síria, desde 2005, visou a desestabilizar e derrubar o regime de Bashar al-Assad, que representa um obstáculo, a fim de impedir o aprofundamento, no âmbito naval, de suas relações com a Rússia.

A queda do regime de Bashar al-Assad, após a derrubada de Muammar al-Gaddafi, na Líbia, pelas forças da OTAN, permitiria, portanto, suprimir a presença da Rússia, na Síria, onde ela mantém duas bases navais (Tartus e Latakia); cortar as vias de suprimento de armas para as organizações pró-xiitas Hezbollah, no Líbano, e Hamas, na Palestina; conter o avanço da China sobre as fontes de petróleo; isolar completamente e estrangular o Irã, com a consequente eliminação do governo islâmico (xiita) de Mahmoud Ahmadinejad.

O resultado da equação, ao mudar completamente o equilíbrio de forças no Oriente Médio, seria o estabelecimento pelos Estados Unidos e seus sócios da União Européia da full-spectrum dominance, i. é, o pleno domínio territorial, marítimo, aéreo e espacial, bem como apossar-se de todos ativos do Mediterrâneo.


O objetivo de controlar o Mediterrâneo Washington e Madri manifestaram abertamente com o acordo, anunciado em 5 de outubro 2011 pelo qual a base naval de Rota (Cádiz), na Espanha, devia albergar quatro destróieres, equipados com antimísseis (BMD) da Marinha dos Estados Unidos e operados por 1.100 militares e 100 civis, como um sistema de defesa da OTAN, a pretexto de prevenir ataques de mísseis balísticos do Irã e da Coréia do Norte, e será acompanhado por outros sistemas, na Romênia, Polônia e Turquia. E a derrubada do regime de Assad é fundamental para o êxito da equação.

Os aliados ocidentais sabem que não podem aplicar à Síria a mesma estratégia da Líbia, através da OTAN, extrapolando, criminosamente, a resolução do Conselho de Segurança da ONU.

O apoio à sublevação na Síria e o sistema antimísseis, implantado a partir da Espanha, indicam que o alvo é, realmente, a Rússia, ainda percebida pelos Estados Unidos como seu grande rival, razão pela qual Moscou e Pequim vetaram a resolução do Conselho de Segurança contra o regime de Bashar al-Assad. Sua derrubada, após a de Muammar al-Gaddafi, completaria o controle do Mediterrâneo... Se os fundamentalistas islâmicos Jihad (Jamaat al-Jihad), a Guerra Santa, não capturarem os governos na Síria e como, virtualmente, já o fizeram na Líbia e é muito possível que ainda o consigam no Egito. [2]

A questão do petróleo

A insurgência na Síria envolve interesses de diferentes matizes, tanto políticos quanto religiosos, de países da região (Turquia, Arábia Saudita e Qatar). Contudo, tudo indica que a conquista das fontes de energia no Mediterrâneo seja um dos principais motivos pelos quais os Estados Unidos e seus aliados da União Européia estejam a encorajar, abertamente, a mudança do regime (regime change) de Bashar al-Assad.

Embora a produção de petróleo, na Síria, seja modesta, da ordem de 530.000 barris p.d., não se pode descartar, inter alia, esse fator como rationale da sangrenta resistência, concentrada na cidade de Homs.

É preciso considerar todos os fatores que estão determinando o apoio à insurgência que o Ocidente, através de diversos mecanismos, inclusive com a guerra psicológica através da mídia internacional, e em aliança com as monarquias absolutistas do Oriente Médio.  

As reservas de petróleo na Síria são estimadas em 2,5 bilhões de barris, de acordo com o The Oil and Gas Journal (01.01.2010), situadas principalmente na parte oriental do país, próxima à fronteira com o Iraque, ao longo do Eufrates, havendo apenas um pequeno número de campos, na região central.

Sua localização é estratégica em termos de segurança e de rota de transporte de energia, cuja integração se esperava aumentar com a inauguração, em 2008, do Arab Gas Pipeline, e a inclusão no gasoduto da Turquia, Iraque e Irã. E a Síria construiu um sistema de oleodutos e gasodutos, controlados pela empresa estatal Syrian Company for Oil Transportation (SCOT), a fim de transportar óleo cru e refinado para os portos Baniyas, situado 55 km ao sul de Latakia e 34 km ao norte de Tartus, onde se encontram as duas bases navais da Rússia.

 Fonte: U.S. Energy Information Administration (EIA)
        
Em fevereiro de 2012, os terroristas da al-Qaeda atacaram e explodiram a maior refinaria de Síria, localizada em Bab Amro, distrito 7km a oeste do centro de Homs (também chamada Hims), [3] cidade em que se concentra a oposição ao regime de Assad.

Essa refinaria, com capacidade de transportar 250.000 barris (bpd), liga, através de um oleoduto inaugurado em 2010, os campos de petróleo, no leste da Síria, à estação de Tel Adas e ao porto de Tartus.

A exploração do petróleo estava a cargo da empresa General Petroleum Corporation (GPC), com o suporte da Syrian Petroleum Co., Gulfsands Petroleum Syria Ltd.. A
Royal Dutch Shell e a China National Petroleum Corporation são sócias of GPC, através da “joint venture” Al-Furat Petroleum Co (AFPC).

O governo de Assad ainda planejava construir duas refinarias na Síria: a de
Deir ez-Zour com capacidade de processar 100.000 bbl/d pela CNPC, em Abu Khashab, e a da cidade de Homs, com capacidade 140,000 bbl/d, a ser construída por um consorcio de companhias da Venezuela, Síria, Irã e Malásia. [4]

Os ativos da Bacia do Mediterrâneo

Contudo, se as reservas de petróleo na Síria, calculadas em 1 de janeiro de 2011, por The Oil and Gas Journal, contém, aparentemente, 2.5 bilhões de barris (400.000.000 m3), [5] o interesse das potências ocidentais, entre outros, aponta, sobretudo, para os ativos petrolíferos, no mar da região.

Segundo o Ministro do Petróleo e Recursos Naturais da Síria, Sufian Allaw, na Bacia do Mediterrâneo, os estudos científicos modernos indicaram a existência de enorme reserva de gás natural, calculada em 122 trilhões de pés cúbicos, e petróleo, da ordem de 107 bilhões de barris, ao longo da plataforma marítimo da Síria. [6]

Diversas companhias anunciaram recentemente que ali descobriram importantes reservas de gás e petróleo, mas a exploração é complicada devido às tensões entre os países da região. [7]

Essas reservas, em águas profundas, nas camadas sub-sal, a leste do Mediterrâneo, próxima à Bacia Levantina, [8] estendem-se ao longo dos 193 km da costa da Síria até o Líbano e Israel. [9]

Fonte: (U.S. Geological Survey)

Desde o ano de 2010, ou mesmo antes, já se estimava a existência de jazidas com 122 trilhões de pés cúbicos, de gás natural, localizadas na Bacia Levantina, no leste do Mediterrâneo, não descobertas e tecnicamente recuperáveis.

A partir de então, o Great Game, na região, [10] intensificou-se, dramaticamente, com a descoberta na zona econômica exclusiva de Israel, na Bacia Levantina, de gigantesca reserva de gás natural, por isto denominada Leviathan. [11]

Os geólogos da U.S. Geological Survey calculam que área, abrangendo o litoral Israel, Líbano e Síria, contém ainda reservas que podem ser recuperadas, com o uso das atuais tecnologias disponíveis. [12]

O Líbano questionou na ONU a exploração de tais reservas, dado que também se estendem à sua zona econômica exclusiva, mas Israel não está disposto a ceder sequer “uma polegada”, conforme declarou seu ministro do Exterior Avigdor Lieberman. [13]

A companhia petrolífera americana Nobler Energy, sediada em Houston, anunciou, em fevereiro de 2012, a descoberta em Tanin, 13 milhas ao noroeste do campo de Tamar, na plataforma maritíma de Israel, de outro campo de gás natural, prospectando uma profundidade de 18-212 pés, um depósito de aproximadamente 120 pés de gás natural espesso. De acordo com as estimativas U.S. Geological Survey (USGS) os depósitos de gás na Bacia Levantina são da ordem de aproximada de 3.5 trilhões de metros cúbicos.

As descobertas na zona econômica exclusiva de Israel, dos campos de Marie B, Gaza Marine, Y ½, Leviathan, Dalit e Tamar já somavam, em 2011, 800 bilhões de metros cúbicos de gás. [14]

A exploração do campo Leviathan I, em 2011, já havia alcançado 5.170 metros de profundidade, onde os depósitos de gás natural eram estimados em 16 trilhões de metros cúbicos, e devia ainda atingir 7.200 metros, onde existe uma reserva adicional de 250 milhões de metros cúbicos.

As grandes descobertas da Nobler Energy, que explora a zona econômica exclusiva de Israel, no Mediterrâneo, são estimadas entre 0.9 e 1,4 trilhão de pés cúbicos de gás. [15] E ao lado de tais reservas de gás, há a possibilidade da existência de 4.2 bilhões de barris de óleo.

Relevância da Síria no Mediterrâneo

As grandes reservas de óleo e gás, ao longo da Grécia, Turquia, Chipre, Síria, Líbano e Israel, são da maior importância geoeconômica, geopolítica e geoestratégica, uma vez que podem abastecer, diretamente, o Estados Unidos e União Européia, e evitar as ameaças de interrupção no Golfo Pérsico, por onde atualmente milhões de barris do hidrocarbonetos são transportados em navios-tanques e oleodutos.

A disputa dessas fontes de gás e óleo, na Bacia Levantina constitui, também, fator do litígio geopolítico entre a Turquia e a República de Chipre, bem como entre Israel e o Líbano, evidenciando o grau da relevância estratégica da Bacia Levantina, que se estende do mar da Líbia à Síria. [16]

Em 24 de março de 2011, o ministro do Petróleo e Recursos Minerais e a General Petroleum Corporation (GPC), empresas estatal da Síria, anunciaram a abertura de uma concorrência internacional para a exploração e produção de petróleo, oferecendo três blocos (I, II e III), cada um com 3,000 km2 em uma extensão total de 9038 Km2 , localizados offshore, na zona econômica da Síria, no Mar Mediterrâneo. [17]

Localização dos três blocos offshore da Síria oferecidos no Bid Round 2011. Fonte: PetroView® 

O anúncio da concorrência excitou as empresas petrolíferas, ao abrir a perspectiva de acesso aos hidrocarbonetos, em uma área sub-explorada e considerada como a verdadeira fronteira da exploração de petróleo, no Mediterrâneo. 

O centro desse projeto são 5.000 km de “long-offset multi-client 2D seismic data”, i. é, dados geológicos (coletados através de explosões que provocam ressonâncias sísmiscas, como uma espécie de pequeno terremoto controlado) adquiridos pela companhia francesa CGGVeritas, em 2005, [18] para exploração em águas profundas, entre 500 e 1,700 m.

A guerra na Síria constitui, portanto, um capítulo da guerra para enfraquecer o Irã e, mudando os regimes de Bashar al-Assad e, depois de Mahmoud Ahmadinejad, os Estados Unidos e aos seus aliados, inclusive Israel e Arábia Saudita, mudem o equilíbrio de poder, na região, e possam controlar toda a Bacia do Mediterrâneo.
____________________________

Notas de rodapé:

[1] Luiz Alberto Moniz Bandeira é cientista político, professor titular de política exterior do Brasil na Universidade de Brasília (UnB), aposentado, e autor de mais de vinte obras, entre as quais Formação do Império Americano (Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque). Mora na Alemanha.

[2] Em 6 de outubro de 1981, o coronel Khalid Islambuli, conspirando com outros jihaditas, assassinou o presidente do Egito  Muhammad Anwar al-Sadat, declarado infiel, por ter assinado o Tratado de Paz com Israel, em 1979, com o aval do presidente dos Estados Unidos, Jimmiy Carter.

[3] Homs encontra-se a 450 m acima do nível do mar, a 160 km de Damasco e 190 km de Aleppo. Situa-se às margens do rio Orontes é o ponto onde as cidades do interior e a costa Mediterrâneo se interligam.




[7] Eric Fox “The Mediterranean Sea Oil And Gas Boom Sep 07, 2010 14:53 PM

[8] A Bacia Levantina, com enormes reservas, está situada na região oriental do Mediterrâneo entre o Chipre e o delta do Nilo e contém  10.000 de sedimentos mesozoicos e cenezoicos.

 

[10] Natural Gas Potential Assessed in Eastern Mediterranean. ScienceDaily (Apr. 8, 2010). 


[11] A Bacia Levantina situa-se no Mar Mediterrâneo, entre a Ásia menor e o Egito.

[12] F. William Engdahl.The New Mediterranean Oil And Gas Bonanza Part I - Israel’s Levant Basin - A New Geopolitical Curse?ASEA – RENSE.COM ,  F. William Engdahl é autor de Century of War - Anglo-American Oil Politics, 2-19-12.

[13] Ibid.

[14] Alain Bruneton, Elias Konafagos & Anthony E Foscolos. Economic and Geopolitic Importance of Eastern Mediterranean Gas  ffor Greece and the E.U. Enphasis on the Probable Natural Gas Deposit occurring in the Lybian Sea with the Exclusive Economic Zone of Greece”, in Oil Mineral Wealth.

 

[16] “Announcement For International Offshore Bid Round 2011” . Syrian Petroleum. Co.  


[17] “Engineer Live”. 22.feb. 2nd February 2012

 

[18] CGGVeritas é uma firma francesa de trabalho geofísico, formada pela fusão das empresas Compagnie Générale de Géophysique (CGG) e Veritas DGC Inc, em 2007. Sua atividade consiste na aquisição de áreas terrestres ou marítimas para monitorar as reservas, analisar e interpretar estudos eletromagnéticos.


 

domingo, 18 de março de 2012

Os marqueteiros de Sérgio Cabral e do anti-Chávez



O Anti - Chávez

Publicado em 18/03/2012 por *Mário Augusto Jakobskind

O foco da direita de todos os quadrantes do mundo volta-se com toda a força para a Venezuela. Por lá haverá eleição presidencial em outubro. Hugo Chávez se recupera de uma cirurgia de extração de um tumor maligno. A mídia de mercado de um modo geral tem reproduzido informes do colunista de O Globo, Merval Pereira, que, com base na revelação de um médico, o presidente venezuelano não tem dois anos de vida.

A informação é, no mínimo, questionável, pois não apresenta nada de concreto a não ser a palavra de um suspeito. No currículo apresentado pelo médico consta que ele é anticomunista. Esta é a fonte do colunista, que não esconde sua preferência pelo candidato de oposição de nome Henrique Capriles Radonsky (foto).

Este senhor, de origem judaica, converteu-se ao catolicismo e se vinculou sempre a setores mais à direita da referida religião, como a Opus Dei, segundo analistas de linha oposta a de Merval Pereira.

Capriles participou ativamente da tentativa de golpe contra Chávez, em abril de 2002. Esteve presente numa manifestação que tinha por objetivo ocupar a embaixada cubana em Caracas. Capriles Radonski é extremista de direita e nunca escondeu tal fato até bem pouco tempo.

Só que agora, como candidato da oposição tenta vender imagem de político moderado e chegou até a dizer que se eleito seguirá a linha de Lula. Para mudar a sua imagem, o candidato contratou, possivelmente a peso ouro, dois marqueteiros brasileiros, Renato Pereira e Chico Mendes, da agência Prole.

Fontes fidedignas garantem que os dois foram indicados à oposição venezuelana nada mais nada menos que pelo Governador Sergio Cabral, a quem prestam serviços de propaganda enganosa.

Tem lógica. Os marqueteiros de Cabral conseguiram vender uma marca podre elegendo-o com 63% votos. Convenhamos, tiveram um árduo trabalho, que foi possível dar certo graças a inestimável colaboração da maquina fisiológica do PMDB e da mídia de mercado.

Moldar a imagem de Capriles Radonski para apresentá-lo como democrata desde criancinha convenhamos, nem mesmo um milagre dos céus como pretende a Opus Dei.

 ----------------------------

Segundo as últimas informações, a Presidenta Dilma Rousseff está para anunciar os nomes dos sete integrantes da Comissão da Verdade, que terão a incumbência de realizar o trabalho de investigação das violações dos direitos humanos, sobretudo depois de abril de 1964.

Muitas verdades ainda estão ocultas e quem tem a revelação são civis e militares com culpa no cartório, ou seja, agentes do Estado ainda vivos, comprometidos até a medula com a repressão e o regime vigente naquele período.

Curió, Brilhante Ustra e outras figuras da ditadura seguem impunes até agora. O Ministério Público pretendia investigar Curió, responsável por crimes imprescritíveis relacionados com o desaparecimento de combatentes da guerrilha do Araguaia, mas a Justiça no Pará recusou o pedido sob a alegação de sempre, ou seja, que está em vigor a Lei da Anistia.

Os mencionados e outros ainda vivos precisam ser investigados com rigor.

Mas as investigações não podem ficar resumidas a eles. Tem gente e grupos mais poderosos escondidos debaixo do tapete da história, como, por exemplo, empresários financiadores da repressão, grupos midiáticos comprometidos desde o início com o golpe civil militar que derrubou o presidente constitucional João Goulart e também a participação de professores de torturas, de nacionalidade estadunidense, contratados para ministrar, in loco, o seu know how; entre os quais Dan Mitrione.

Para o conhecimento verdadeiro do passado é preciso também ouvir o depoimento de testemunhas como o professor Moniz Bandeira, já mencionado neste espaço, que quando preso no Centro de Informações da Marinha (CENIMAR) viu e ouviu a fala de agentes norte-americanos com sotaque carregado circulando livremente e instruindo torturadores.

É preciso deixar claro também que Curió, Brilhante Ustra, etc não são casos isolados ou desvios, como querem alguns, mas foram peças de engrenagem montada e ajeitada a partir de quebra constitucional de abrtil de 1964, a partir do primeiro general de plantão, Humberto de Alencar Castelo Branco.

Enfim, faço minhas as palavras do Deputado Chico Alencar –

“Brasileiro não tem memória, diz o senso comum. Entretanto, um povo só avança em civilização conhecendo sua própria história. Esquecer períodos é postura obscurantista e perigosa, quem não se recorda do passado corre o risco de revivê-lo”



*Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.


Enviado por Direto da Redação

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A volta dos islamistas? [1]


Uma forma questionável de liberdade para o norte da África

Sugestão do prof. Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, que nos ajuda, da Alemanha, e a quem agradecemos.

28/9/2011, Clemens Höges e Thilo Thielke, Spiegel Online
(trad. para o inglês, Christopher Sultan)
Traduzido para o português pelo pessoal da Vila Vudu

Prof. Moniz Bandeira
Foram-se os ditadores, mas quem herdará o poder na Líbia, na Tunísia e no Egito? A influência islamista é significativa em toda a região e grupos políticos conservadores já exercitam os músculos. Os próximos meses definirão o quanto de democracia o norte da África pode suportar.

Caixas de munição, agora vazias, passado o mais recente bombardeio pesado, estão empilhadas à frente de barracas militares no aeroporto de Trípoli. Um dos vitoriosos, fatigado de muitos combates militares, está sentado numa luxuosa poltrona de couro, no prédio do aeroporto. Pressiona os coturnos de combate sobre o tapete alto, o rosto, rígido, parece talhado em pedra. O homem fala com intensidade. Quer garantir que a gravação em vídeo não perca nenhuma de suas frases e que tudo seja bem compreendido.
 
As agências de inteligência de EUA e Grã-Bretanha caçaram Abdel Hakim Belhaj, durante anos. O homem, hoje, é comandante dos rebeldes líbios, da brigada de Trípoli. Mas foi caçado, antes, porque se acreditava que fosse terrorista e aliado do então líder da al-Qaeda, Osama bin Laden. Sabe-se que aquelas agências o sequestraram, que foi torturado com seringas e água gelada. Mas hoje, o ocidente e muitos, na Líbia, prestam extrema atenção ao que ele diz, bebem suas palavras.

Abdel Hakim Belhaj é o comandante de todas as tropas rebeldes em Tripoli.  Ele também é ...
Abdel Hakim Belhaj é o comandante das tropas “rebeldes”em Trípoli. Também é um ex aliado de Osama Bin Laden. Sua influência na Líbia mostra que os islamistas podem acabar tendo poder considerável no país
“A verdade é que nosso grupo nada tinha a ver com a al-Qaeda naquele tempo” – diz Belhaj, combatente veterano da guerra no Afeganistão e ex-líder do Grupo de Combate Islâmico Líbio [ing. Libyan Islamic Fighting Group (LIFG)], que, perseguido pelo regime de Muammar Gaddafi, viveu vários anos refugiado no Afeganistão. Belhaj, islamista endurecido em muitas batalhas, é hoje o comandante das tropas rebeldes na capital da Líbia.
 
Seus comandados movimentam-se, dirigindo caminhonetes, armados com armas automáticas, enquanto as cabeças civis tentam mapear um caminho para o futuro da Líbia. Belhaj diz que o poder “está nas mãos do povo líbio” e que, agora, os líbios podem decidir democraticamente o que querem fazer da vida. “Queremos país secular” – diz ele. Mas muitos líbios não acreditam sequer numa palavra do que os islamistas andam dizendo.

Diferenças profundas 

Afinal, há mais coisas em jogo, hoje, do que apenas a questão de quem está atualmente no poder. Trata-se de modelar o futuro da Líbia. Os levantes da Primavera Árabe já são passado no Norte da África e, quando começam a mudar os regimes na Tunísia e no Egito, emergiu na Líbia, vitoriosa, uma coalizão de islamistas e insurgentes seculares. Os combates são dados por encerrados, ou quase; e as profundas diferenças entre os dois grupos da coalizão vão-se tornando mais visíveis.

Como na Tunísia e no Egito, logo se verá o quanto democrática poderá ser a nova Líbia. Acompanhará as linhas do modelo turco, divulgado pelo primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, em celebrada viagem pelo mundo árabe? Ou, no outro extremo, a Líbia seguirá o modelo da teocracia iraniana?

Os ditadores eram convenientes, do ponto de vista do ocidente, porque mantiveram os islamistas sob controle. Agora, os povos derrubaram os ditadores, e as novas liberdades aplicam-se a todos, inclusive a islamistas e jihadists que querem ver introduzida em seus respectivos países a lei da Xaria. Reclamam sua fatia de poder, que dificilmente será pequena.

As brigadas islamistas combateram muito, na Líbia. Não fizeram feio. De fato, desde décadas antes das revoluções no norte da África, os islamistas já eram o grupo mais bem organizado da oposição nos três países. Muitos de seus líderes foram presos, torturados e mortos. Os islamistas pagaram pesado preço, o que fez deles combatentes muito resistentes. Sempre tiveram, também, mais recursos financeiros que outros grupos de oposição, em parte graças ao apoio de ricos xeiques do Golfo, como do Qatar.

Está para ser eleita, em quatro semanas, uma assembleia constituinte na Tunísia, [2] e pesquisas mostram que o partido religioso Nahda pode receber 20-30% dos votos. Os islamistas, com isso, teriam maioria sobre qualquer dos partidos seculares.

Potencial estimado 

Não chega a surpreender, porque os islamistas são mobilizados para fazer as maiores campanhas eleitorais, mantêm projetos sociais, distribuem bolsas de estudo, são onipresentes e ativos nas mesquitas. Muitas mulheres já reclamam contra ataques à luz do dia. Quando, em Túnis, exibiu-se um filme com críticas à religião, os islamistas invadiram o cinema e atacaram os proprietários da sala.

Observadores no Egito estimam que os islamistas egípcios – a Fraternidade Muçulmana e os salafistas – tenham os mesmos cerca de 20-30% de eleitores em potencial. A Fraternidade Muçulmana, que hoje se chama Partido Justiça e Liberdade, já cogita criar regras rígidas de indumentária para mulheres estrangeiras, proibindo-as de usar biquínis nas praias egípcias. Os fiéis salafistas já criaram vários diferentes partidos.

Quando os dois grupos organizaram manifestação conjunta na Praça Tahrir no Cairo, reuniram dezenas de milhares de seguidores, que exigiam estado islamista. Muitos, hoje, responsabilizam os salafistas por recente ataque a igrejas cristãs coptas no Egito.
Abdul-Jalil Mustafa, chefe do Conselho Nacional de Transição da Líbia, shakes ...
Abdul Jalil Mustafá,  Chefe do Conselho Nacional de Transição da Líbia, cumprimenta o Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon, semana passada. Jalil apresentou o roteiro para a democratização da Líbia que exige a eleição de 200 membros do Congresso Nacional dentro de 8 meses.

A situação na Líbia é muito mais caótica que nos dois países vizinhos, em parte porque os rebeldes ainda enfrentam resistência de defensores de Muammar Gaddafi. Mesmo assim, o Conselho Nacional de Transição, presidido por Mustafa Abdul Jalil, e o chamado Comitê Executivo, liderado por Mahmoud Jibril, apresentou um roteiro para a democratização do país que prevê eleição de um Congresso Nacional de 200 membros, a serem eleitos dentro de oito meses. Com prazo de um ano, esse congresso deverá redigir uma constituição, organizar um referendum para que os cidadãos aprovem a nova constituição e, então, organizar eleições gerais.

Belhaj, comandante militar de Trípoli, sente-se suficientemente poderoso para opor-se a Jibril, que opera como primeiro-ministro de facto. Belhaj trabalha para derrubar Jibril do cargo que hoje ocupa.

Acusações de corrupção 

Mas os islamistas líbios mais influentes são, provavelmente, os irmãos Salabi. Ismail Salabi comanda uma da mais violentas brigadas rebeldes em Benghazi. O irmão, Ali, considerado líder religioso no país, viaja sem parar entre Líbia e Qatar, a monarquia árabe do Golfo Persa que supriu com armas os rebeldes e treinou soldados.

Os irmãos Salabi já várias vezes tentaram desacreditar os membros do Conselho Nacional de Transição, com acusações de corrupção. Ali Salabi diz que o conselho está repleto de “secularistas radicais” que tentam deslocar os grupos religiosas antes das eleições, e que Jibril quer inaugurar “nova era de tirania e ditadura”.

Os islamistas líbios planejam constituir um partido religioso. Mas Ali Salabi diz que, se não se saírem bem nas eleições, respeitarão a vontade do povo. Salabi insiste que acredita na democracia.

Mas muitos desconfiam de radicais como os irmãos Salabi, sobretudo depois do assassinato de Abdul Fattah Younis. Ex-ministro do Interior no governo de Gaddafi, Younis juntou-se aos rebeldes alguns dias depois do início da rebelião, e, como comandante-em-chefe, organizou o exército rebelde. Seu cadáver foi encontrado, com dois outros mortos, dia 28/7, perto de Benghazi. Até hoje não se sabe quem matou Younis e os dois companheiros e incineraram os corpos, mas os islamistas são os principais suspeitos.

Fathi Bin Issa, editor-chefe do novo jornal Arus al-Bahr, de Trípoli, nos recebeu em sua sala longa e estreita, iluminada com lâmpadas fluorescentes, frias. Ao lado da mesa, tem a bandeira verde e preta da nova Líbia. Bin Issa foi porta-voz dos rebeldes logo depois que ocuparam a capital, e seus editores escrevem agora regularmente sobre os islamistas. Diz que, só na semana passada, recebeu várias ameaças de morte, gente que diz que vai explodir as salas do jornal.

Bons contatos e uma agenda 

“Há gente aqui tentando construir um Hezbollah líbio”, diz Bin Issa. “Há grande risco de que assumam o poder”. Em alguns bairros, diz o jornalista, já circulam fatwas que proíbem as mulheres de saírem desacompanhadas. Diz também que vários salões de beleza foram fechados, e que elementos de uma autoproclamada polícia religiosa já começam a circular pelas ruas. “Esse pessoal tem bons contatos e tem agenda. Por isso são tão perigosos”. Para Bin Issa, tudo agora depende de como a sociedade civil reagirá às mudanças. “Se não conseguirmos conter esse pessoal, as condições aqui ficarão parecidas com o Irã, ou com os tempos dos Talibã”, diz ele.

Apoiador dos rebeldes, Bin Issa acredita que os líbios não tenderão na direção do Islã radical. “Aqui na Líbia, as mulheres trabalham como pilotos de avião e juízas, e foram importantes para promover as mudanças que temos hoje. Nosso Islã é moderado.” 

O coronel Ali Ahmed Barathi, 53 é o novo chefe da polícia militar em Trípoli. Está instalado no prédio que abrigava a conhecida 32ª Brigada, grupo de torturadores comandado por Khamis, filho de Gaddafi, nos arredores de Trípoli. O coronel nos recebe em sua sala, sentado a uma mesa enorme. Usa os óculos escuros obrigatórios e tem mãos grossas, de soldado profissional. Mas fala com suavidade.

O coronel Barathi é nascido em Benghazi, onde imediatamente se reuniu aos rebeldes. “Reuni minha unidade e disse que tinha planos de mudar de lado. Cada soldado escolheu ficar, ou nos acompanhar. Toda a unidade desertou.”

Escaramuças com islamistas 

As atividades dos islamistas não preocupam Barathi. “Os líbios não querem ser governados por essa gente. Até Belhaj já reconheceu isso e tem sido reservado nos comentários”.

Mas, então, fala sobre escaramuças com islamistas e diz que seus homens desmontaram uma unidade inteira de islamistas, logo no início da rebelião. “Os islamistas foram isolados pelas tribos, que não queriam contato com eles. E lhes demos um ultimato: ou uniam-se a nós, ou depunham armas. Muitos entregaram as armas. Outros desertaram”.

Aref Nayed, coordenador da chamada equipe de estabilização do governo rebelde tem esperanças de que a disputa entre islamistas e seculares leve a um bom resultado – um verdadeiro pluralismo. Rico empresário da indústria informática, acadêmico islâmico e filósofo, Nayed é frequentemente encontrado no saguão do Hotel Corinthia, em Trípoli, à beira mar, como vários outros dos principais políticos do país.

Homem elegante, de barba bem aparada, Nayed estudou no Canadá e nos EUA e trabalhou na Itália. É adepto de costurar acordos entre partidos que se oponham.

“As tribos mantêm coesa a sociedade”

Depois do mal pensado discurso do papa Bento 16, em 2006, em que o papa incitou os muçulmanos religiosos contra a igreja católica, Nayed foi um dos acadêmicos muçulmanos que assinou uma carta ao papa, para reiniciar os contatos. Quando Nayed uniu-se ao Conselho Nacional de Transição, o Vaticano anunciou que o papa muito se alegrara ao ver que “um velho amigo” se tornara figura chave, na Líbia.

Nayed sonha com uma conciliação entre a Líbia secular e a Líbia islamista, arranjo que poderia vir a servir de modelo para o mundo árabe, com os islamistas reconhecidos como força política, talvez até com mulheres no Gabinete. Nada disso, diz Nayed, contrariaria qualquer dos postulados do Islã. O presidente do Conselho Nacional de Transição, Abdul Jalil, que é muçulmano devoto, também apóia a conciliação. Além do mais, diz Nayed, não são os políticos, mas as tribos líbias, “que mantêm coesa a sociedade.” 

Por mais que cite entusiasmadamente antigos filósofos, a arma está na cintura, por baixo do paletó caro. O cinto fino não suportaria a pesada pistola 9-mm. “Não planejo usar isso” – Nayed sussurra. Diz que os guarda-costas insistiram que andasse armado, para que não ficasse desprotegido quando andasse em público.

Na Praça dos Mártires – a Praça Verde, antes da chegada dos rebeldes –, em Trípoli, vê-se uma grande fotografia do general Younis, que foi assassinado. O general rebelde sabia manejar muito bem a pistola. De pouco lhe serviu.




Notas dos tradutores

[1] Optamos pela palavra “islamista”, numa decisão tradutológica. Acompanhamos, nessa decisão, o partido Ennahda [renascimento], de islâmicos moderados, fundado em 1981 e que se apresentou às eleições na Tunísia, dia 24/10/2011 (segundo notícias recentes, ainda antes do anúncio oficial do resultado, o partido alcançou de 30-50% dos votos). Segundo a BBC, “Membros do Partido Ennahda referem-se a eles mesmos como “islâmicos”, não como “islamistas”, sob o argumento de que a expressão “partido islamista” carrega conotações pejorativas” (BBC, “Perfil do Partido Ennahda”).

[2] Esse artigo é datado de setembro. Realizaram-se eleições na Tunísia, dia 23/10/2011, ainda sem resultados divulgados.