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segunda-feira, 28 de julho de 2014

Pepe Escobar: Preparar, “resetar” e... Já (direto para Guerra Fria 2.0)!

28/7/2014, [*] Pepe Escobar, RT, Russia Today – Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Voluntário federalista guarda fronteira entre a RPD  e a Ucrânia em 22/7/2014
O Novo Grande Jogo na Eurásia nunca deixa de arrepiar, com as viradas extremas no roteiro. Os Três Grandes atores são sempre os mesmos: EUA, Rússia e China. O diabo mora nas subtramas concêntricas.

De Washington, já se viu que a “política” profunda de estado para a Rússia são sanções, sanções e mais sanções; por causa da Crimeia, por causa do apoio aos federalistas no leste da Ucrânia, por causa da tragédia do MH17.

Há sanções contra a energia, a defesa e as finanças da Rússia – e andam rápidas na trilha rumo a guerra econômica total, o que, por si só já é declaração de guerra. Como contra Cuba; como contra o Iraque (até que haja mudança de regime); como contra o Irã (até que aconteça um acordo nuclear, mas nem isso é garantido).

Temei a ira do Império do Caos! A prescrição nunca muda: sanções; guerra geoeconômica/política sem lei ou limite; subversão provocada dentro do país (NED, variado sortimento de ONGs); e boataria envenenada em tempo integral pela imprensa-empresa, marinada em muita arrogância e húbris.

Em Moscou não há ilusões: não importa o que o Kremlin faça na Ucrânia, não haverá reset algum. A histeria das sanções em Washington – que já ultrapassou há muito o nível da “contenção” – é já vista meio para (e o que mais seria?!) mudança de regime, não obstante a imensa popularidade de Putin. Não surpreende que a Think-tank-elândia dos EUA já se tenha posto a cacarejar sobre o tema.

Em termos gerais, há, nas esferas do poder russo, uma escola atlanticista – neoliberal – que se quer render ao Império do Caos; esses atlanticistas estão em luta contra os Eurasianistas, que sonham com ser respeitados pelos EUA como iguais. Ora! O Império do Caos absolutamente não reconhece iguais. Para ter certeza, basta consultar a doutrina da Dominação de Pleno Espectro do Pentágono.

Os melhores e mais brilhantes na Rússia sabem muito bem que ninguém consegue vencer quando a força descomunal da grande finança do Império do Caos – embora já em processo de acelerada decadência – e dos vassalos do Império do Caos são postas a trabalhar contra você. Mas isso não implica que Moscou vá encolher-se e resignar-se a ser “isolada”. Até um Irã muito mais fraco que a Rússia soube combater com sucesso contra o “isolamento”, durante anos.

Moscou conta hoje com cerca de US$ 500 bilhões de reservas. Elas e o capital doméstico podem ser usados para fortalecer o rublo e apoiar investimentos na indústria russa. A porta está aberta para diversificar a economia russa e fazê-la deixar para trás a figura de uma Rússia exportadora de matérias primas, tomando o rumo da manufatura pós-moderna; no percurso, geram-se milhões de oportunidades de negócios para as PMEs (pequenas e médias empresas) russas.

Soldados carregam caixão com as vítimas do MH17
Agora, sobre o capítulo União Europeia

É onde entra em cena uma Europa fragilíssima. A Rússia é o terceiro maior parceiro comercial da Europa. Grandes economias como Alemanha, França e Itália estão muito profundamente integradas com a economia russa.

Etapa chave da estratégia de Washington é desconectar Europa e Rússia, parte de uma agenda muito mais ampla, para impedir por todos os meios que se desenvolva qualquer integração comercial/de trocas/de desenvolvimento econômico de toda a Eurásia. Tudo isso depende da Alemanha.

E esse é o debate chave, hoje, em Berlim. O business alemão – e até políticos conservadores – estão chegando à seguinte clara conclusão: ninguém ali quer relacionamento gravemente disfuncional com a Rússia. 57% da opinião pública quer que a política externa alemã seja mais independente dos EUA (as intrusões do complexo orwelliano/Panopticon dos EUA, na Alemanha e contra alemães, foram decisivos nessa virada de jogo).

Os EUA aplicaram pressão furiosa sobre a União Europeia na questão da tragédia do MH17. Moscou apresentou quantidade substanciosa de provas convincentes à UE. Washington não apresentou coisa alguma – nem apresentarão porque não têm prova alguma, além do que se vê em Facebook, Twitter e YouTube.

Enquanto Moscou insiste, desde o primeiro dia, na necessidade de haver investigação independente, internacional e tecnicamente confiável, Washington só faz “ordenar” que a União Europeia “ignore” e “não comente” as provas muito sólidas que Moscou distribuiu. Já há inteligência alemã que confirma, até, que a já duvidosa inteligência dos EUA sobre o caso foi “manipulada”.

Mas é difícil subestimar a capacidade de uma União Europeia terrivelmente dividida conseguir atirar nas próprias costas. Vejam-se as sanções que a UE propôs contra o gasoduto “Ramo Sul” da Gazprom sob o Mar Negro, que suprirá, quando completo, 15% da demanda europeia – e, também, um pacote de sanções contra o acesso ao mercado de capitais, no campo da defesa, do uso mútuo de bens e de tecnologia sensível (leia as “Sanções contra a Rússia que estão sendo discutidas em Bruxelas”, a íntegra do não documento, que vazou).

As principais parceiras da Gazprom no gasoduto Ramo Sul são a italiana ENI, a francesa EDF, a austríaca OMV e a Wintershall da Alemanha, subsidiária da BASF. A construção do Ramo Sul depende fortemente de know-how europeu.

Tubulação do gasoduto "South Stream"
Se a lista total de sanções vier a ser aplicada pela União Europeia (e inclui restringir o acesso dos russos a extração, perfuração, administração e plataformas flutuantes ou submersíveis de perfuração e a poços flutuantes), atrasará por muito tempo os projetos do Oleogasodutostão, e o desenvolvimento do mercado europeu de gás natural liquefeito [orig. liquefied natural gas (LNG)]. A União Europeia precisa do Ramo Sul muito mais do que a Rússia – que sempre pode vender mais gás para a Ásia, em todos os casos.

BRICS e mais BRICS...

A verdadeira razão, absolutamente sem limites, para a guerra econômica obsessiva que o Império do Caos insiste em fazer contra a Rússia, é que Moscou, como país membro dos BRICS, ao lado, sobretudo, de China e Brasil, estão na linha de frente das potências emergentes que se opõem à (des)ordem financeira/política global – que se espoja no capitalismo de cassino – comandada pelo Império do Caos.

E a coisa vai ficando cada vez mais intrigante-interessantíssima, porque o efeito da histeria de sanções foi gerar e fazer acumular mais e mais simpatias pró-Rússia, no mundo em desenvolvimento. O conversê insistente da propaganda típica de Washington, sobre “o mundo” que se teria unido para “isolar” a Rússia – perfeito replay do caso do Irã – só se aplica à OTAN.

Acompanhei bem de perto os últimos capítulos na integração da Eurásia, do “negócio do século”, de gás, entre Rússia e China, firmado entre Xangai e o Fórum Econômico de São Petersburgo; e, depois, ainda mais perto, a integração Eurásia-América do Sul, na reunião de cúpula dos BRICS no Brasil, que criou o Novo Banco de Desenvolvimento e reforçou o impulso dos BRICS para desenvolverem suas próprias instituições globais paralelas.

O presidente Putin propôs até uma coalizão de energia entre os BRICS, que se completa com acordos de energia nuclear, um “banco de reserva de combustível e um instituto de política energética.” Moscou – como Pequim – está construindo e firmando ativamente acordos de energia por toda a América do Sul, como no caso da Rosatom já contratada por Argentina e Brasil para construir usinas nucleares.

A integração da Eurásia , no front asiático, prossegue sem descanso. A Rússia venderá mais gás a baixo preço não só à China, mas também, em futuro próximo, ao Japão à Coreia do Sul. E Pequim, entrementes, move cuidadosamente suas peças financeiras, econômicas e geopolíticas sobre o tabuleiro de xadrez, e agora já sob alerta vermelho total contra a histeria das sanções. A liderança coletiva chinesa sabe muito bem que o alvo um dia pode ser a Rússia por causa da Ucrânia, mas, dia seguinte, pode ser a China, por causa do Mar do Sul da China ou mesmo uma Hong Kong que atualmente já caminha para um impasse: os candidatos do alto Executivo de Hong Kong serão escolhidos por democracia direta, ou por comitê, como Pequim prefere?

O ponto chave é: esqueçam o reset EUA-Rússia. A parceria estratégica Rússia-China será fortalecida. A China prepara-se para quando chegar a vez dela no show das sanções histéricas. E, no futuro previsível, o novo jogo no tabuleiro de xadrez é Guerra Fria 2.0.

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire, Counterpunch e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today,The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Pepe Escobar: “FMI vai à guerra na Ucrânia”

7/5/2014, [*] Pepe Escobar, RT –Rússia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido no quiosque “Bico do Corvo” na Vila Vudu e registrado por um dos tradutores: A imbecilização ativa da opinião pública no Brasil-2014, promovida por jornais, jornalismos e “jornalistas nacionais”, prossegue em todos os veículos do GRUPO GAFE (Globo, Abril, Folha de SP, Estado). Por exemplo-amostra:
·       Em O Globo de 8/5/2014 em: “Separatistas pró-Rússia rejeitam adiar referendo em Donetsk”
·       Folha de S.Paulo de 8/5/2014 em: “Separatistas ucranianos decidem realizar referendo no domingo”; e
·       Também na Folha de S.Paulo, mais noticiário FALSO, distribuído por Agências internacionais, que o sub-do-sub do sub-jornalismo brasileiro COMPRA, para re-impingir aos próprios consumidores, quer dizer, vocês-aí! Tenham a santa paciência! 8-))).

Ucrânia federalista, 5/5/2014 - foto de Sergey Supinnsky
O Fundo Monetário Internacional, FMI, aprovou um “empréstimo” de 17 bilhões de dólares à Ucrânia. Os primeiros US$ 3,2 bilhões chegaram na 4ª-feira (7/5/2014).

É essencial identificar as condições associadas a esse “empréstimo” estilo Máfia. Nada que sugira, nem de longe, que haja à vista algum renascimento de alguma economia ucraniana. O esquema é inextrincavelmente associado às notórias políticas de “ajuste estrutural” tamanho único do FMI, que centenas de milhões de pessoas conhecem bem, da América Latina e Sudeste da Ásia ao Sul da Europa.

Os mudadores de regime em Kiev fizeram o dever de casa, lançando o inevitável pacote de austeridade – de aumento de impostos e congelamento de aposentadorias, a aumento seco de mais de 50% no preço do gás natural para calefação dos lares ucranianos. O “povo ucraniano” não conseguirá pagar as próprias contas, no próximo inverno. 

Como bem se pode prever, o empréstimo gigante nada tem a ver com beneficiar “o povo ucraniano”. Kiev está em bancarrota. Há credores de todos os tipos, de bancos ocidentais à Gazprom – que tem a receber nada menos que $2,7 bilhões. O “empréstimo” pagará o que é devido a esses credores; para nem falar que $5 bilhões do total que o FMI empresta hoje está sendo emprestado para pagar – claro! – empréstimos anteriores do próprio FMI. Nem é preciso dizer que grande parte dos fundos serão devidamente rapinados – à moda afegã – pela matilha de oligarcas hoje alinhados com o governo de “Yats”, em Kiev.

O FMI já alertou que a Ucrânia está em recessão e pode vir a carecer de uma extensão do empréstimo já concedido. No idioma de duplifalar do FMI, tratar-se-á de “recalibração significante do programa”. É o que acontecerá, segundo o FMI, se Kiev perder o controle do Leste e do Sul da Ucrânia – o que já parece ser opera in progress.

O Leste da Ucrânia é o coração industrial do país – com o PIB per capita mais alto e onde estão indústrias e minas chaves, principalmente na região deDonetsk, precisamente a mais fortemente mobilizada contra os mudadores-de-regime em Kiev aliados dos neofascistas/neonazistas. Se a conflagração atual persistir, implicará que também as exportações e a arrecadação desabarão.

Eis, pois, o que o FMI prescreve para o bando de oligarcas – alguns dos quais financiam muito ativamente e diretamente as milícias do Setor Direita: Enquanto vocês enfrentarem rebelião popular no leste e no sul da Ucrânia, estejam sossegados; vocês, sim, receberão mais dinheiro do FMI, aí adiante, não demora. Podem chamar de rota de colisão, no capitalismo de desastre.

Militantes nazi-fascistas do Pravy Sektor (Setor Direita) montam guarda no Parlamento ucraniano em Kiev (28/3/2014) - foto: Genya Savilov
Queremos invasão, invasão, invasão

Entrementes, a Escola Obama de diplomacia de delinquentes juvenis nunca melhora: o “plano” é forçar Moscou a “invadir”. Os lucros seriam vastíssimos. Washington destruiria de uma vez por todas a emergente parceria estratégica entre União Europeia (especialmente Alemanha) e Rússia; parte de uma interação mais orgânica entre Europa e Ásia; manteria a Europa sob o tacão dos EUA perenemente; e daria novo prestígio ao RobocopOTAN, depois da humilhação que padeceu no Afeganistão.

Bem, não são delinquentes juvenis, à toa. Esse plano brilhantíssimo esquece um componente crucial: achar soldados em número suficiente, dispostos a cumprir ordens de Kiev. Os mudadores-de-regime desmobilizaram a polícia federal antitumultos da Ucrânia, a unidade Berkut. Grande erro – porque são profissionais, porque são mal remunerados, e porque agora, tendo-se sentido traídos e abandonados, os ex-Berkut estão ao lado dos ucranianos que querem a federalização.

O que o “Ministério-da-Verdade” ordenou que toda a imprensa-empresa ocidental chame de “separatistas pró-russos” (ver epígrafe) são, de fato, a favor da federalização da Ucrânia: são ucranianos federalistas. Não querem separar nada de lugar algum. Não querem unir-se à Federação Russa. O que querem é uma Ucrânia federalizada, com províncias fortes e autônomas.

Enquanto isso, no Oleogasodutostão...

Washington está ativamente querendo que a confrontação entre Rússia e União Europeia escape completamente a qualquer controle, no front do gás.Até 2050, o gás natural responderá por 25% das carências da União Europeia. Desde 2011 a Rússia é a principal fornecedora, à frente de Noruega e Argélia.

A Comissão Europeia (CE), antro de burocratas, concentra-se agora em ataques contra o gasoduto Ramo Sul da Gazprom – cuja construção começa em junho. A Comissão Europeia insiste que os acordos já assinados entre Rússia e sete países da União Europeia infringiriam as leis da União Europeia (éé?! E como não perceberam antes?!). A Comissão Europeia quer que o Ramo Sul seja projeto “Europeu”, não projeto da Gazprom.

Ora, ora, depende de muita diplomacia a sério e de políticas internas de vários países europeus membros da União Europeia. Por exemplo, Estônia eLituânia dependem 100% da Gazprom. Alguns países, como a Itália, importam mais de 80% da energia que consomem; outros, como o Reino Unido, só 40%.

Operários trabalham nas tubulações feitas para as obras oleogasoduto South Stream na fábrica da Metais OMK em Vyksa na região de Nizhny, Novgorod 15/4/2014. (foto:Sergei Karpukhin)
É como se a Comissão Europeia acordasse repentinamente do torpor habitual, e decidisse que o Ramo Sul é futebolzinho político. Günther Oettinger, da Comissão da União Europeia para energia, está tocando a corneta das leis de proteção à concorrência na UE chamadas “terceiro pacote de energia” – o qual, na essência, só visa a forçar a Gazprom a abrir o Ramo Sul a outros fornecedores. Moscou já apresentou queixa-crime à Organização Mundial do Comércio [orig. World Trade Organization (WTO)].

Aplicação rigorosa de lei da União Europeia da qual ninguém jamais ouvira falar é uma coisa; fatos em campo são outra. O Ramo Sul pode custar mais de 16 bilhões de euros – mas será construído, mesmo se tiver de ser financiamento previsto no orçamento da Rússia.

Além do mais, a Gazprom, só em 2014, já assinou vários novos negócios com parceiros na Alemanha, Itália, Áustria e Suíça. A italiana ENI e a francesa EDF já eram parceiras desde o início. Alemanha, Itália, Bulgária, Hungria e Áustria estão profundamente envolvidas no Ramo Sul. Não surpreende que nenhum desses países favoreça novas sanções contra a Rússia.

Quanto a algum movimento substancial pela União Europeia para encontrar novas fontes de oferta, é processo que demorará anos – e que deve envolver a melhor fonte alternativa existente, o Irã, assumindo-se que, ainda esse ano, se alcance algum tipo de acordo nuclear com o P5+1. Outra fonte possível, o Cazaquistão, exporta menos do que poderia (porque o país enfrenta problemas de infraestrutura).

Assim sendo, voltemos então à tragédia ucraniana. Moscou não “invadirá”. E por que invadiria? O ajuste estrutural do FMI será ainda mais devastador para a Ucrânia, que uma guerra; pode acontecer até de a maioria dos ucranianos acabar forçada a suplicar ajuda da Rússia. Berlim não se porá em posição antagonista contra Moscou. E assim então, se vê que a retórica de Washington, de “isolar” a Rússia, aí está, à vista de todos, como o que realmente é: delinquência juvenil.

O que resta ao Império do Caos é rezar para que o caos se alastre por toda a Ucrânia, consumindo a energia de Moscou. E tudo isso, só porque o establishment de Washington borra nas calças, de medo de uma potência emergente na Eurásia. Aliás: de duas, não de uma: Rússia e China. Pior: duas, e estrategicamente alinhadas. Muito pior: tendendo a integrar Ásia e Europa.

Assim se entende o quadro: uma gangue de velhotes norte-americanos assustados, fazendo caretas de delinquentes juvenis: “Não gosto de você. Estou de mal de você. Vou linchar você. Quero que você morra”.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Red Zone Blues: A Snapshot of Baghdad During the Surge, Nimble Books, 2007.     
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Pepe Escobar: Por que a União Europeia não pode “isolar” a Rússia

27/3/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Angela Merkel ensinando...
A chanceler alemã Angela Merkel pode ensinar umas coisinhas ao presidente Barack Obama dos EUA sobre como estabelecer um diálogo com o presidente Vladimir Putin da Rússia.

Mas... Obama nada ouve. Obama prefere detonar o próprio currículo de professor de Direito Constitucional e pôr-se a emitir bobagens pomposas para uma plateia de pressuposta elite eurocrática, no coruscante Palais des Beaux-Arts em Bruxelas, como fez na 4ª-feira (26/3/2014), sobre Putin ser a maior ameaça à ordem global gerenciada pelos EUA desde a IIª Guerra Mundial. Mas não deu muito certo: a maioria dos eurocratas de escol estava ocupada fotografando selfies ou tuitando.

Putin, enquanto isso recebia, em casa, em sua residência oficial nos arredores de Moscou, o presidente da Siemens, conglomerado industrial alemão de engenharia e eletricidade. A Siemens investiu mais de US$1,1 bilhão na Rússia ao longo dos últimos dois anos e, foi o que disse Kaeser, quer continuar a investir. Não há dúvidas de que Angela anotou o recado.

Obama não saberia fazer diferente. O especialista em Direito Constitucional sabe nada, zero, sobre a Rússia, e nunca, em sua magra carreira política sentiu-se obrigado a entender como a Rússia funciona; é possível também que tenha medo da Rússia – cercado, como vive, por aquela coorte de auxiliares espetacularmente medíocres. Seu tour de force retórico em Bruxelas deu em absolutamente nada – além de mais ameaças de que, se Putin persistir em sua “agressão” contra o leste da Ucrânia ou a países membros da OTAN, o presidente dos EUA dará jeito de montar pacote muito mais duro de sanções.

Robert Gates
Sem novidade, se se considera que, nos EUA, o que passa por análise política é o que escreve Bob Gates, senhor do Pentágono no primeiro governo Obama e agente honorário eterno da CIA.

O US $1 trilhão que vira o jogo

Demonizado 24 horas por dia sete dias por semana pela máquina de propaganda ocidental como cruel agressor de ucranianos, Putin e seus conselheiros no Kremlin só tem de seguir Sun Tzu. Os mudadores de regime em Kiev já estão naufragados no mais violento vale-tudo, (Moon) entre eles mesmos.  

E até o primeiro-ministro em exercício na Ucrânia, Arseniy Petrovych Yatsenyuk (“Yats”, como o chama com intimidade Victoria Nuland, do “Kaganato dos Nulands”) já falou dos tristes tempos que vêm por aí para a Ucrânia, ao confirmar que a assinatura da parte econômica do tratado de associação da Ucrânia à União Europeia fora adiada – e, assim, se evitariam as “consequências negativas” da tal “associação à Europa”, para todo o leste industrializado da Ucrânia.

Tradução: até “Yats” sabe que a associação à Europa será o beijo da morte para a indústria ucraniana, e que, além do mais, a tal “associação” virá acompanhada de um já iminente ajuste estrutural à moda do Fundo Monetário Internacional, sem o qual dificilmente haverá qualquer “resgate”, pela União Europeia, que salve a Ucrânia da total bancarrota.

Spengler
Spengler, de Asia Times Online, cunhou uma fórmula:

Um espectro ronda a Europa: o espectro da aliança russo-chinesa à custa da Europa.

A aliança já está em andamento – manifesta no G-20, no grupo dos BRICS e na Organização de Cooperação de Xangai. Há sinergias nas tecnologias militares à vista – o ultrassofisticado sistema aéreo de defesa S-500, que será apresentado por Moscou e que Pequim adorará ter imediatamente. Mas, para assistir à grande festança, esperem só mais umas poucas semanas, até que Putin visite Pequim, em maio.

É quando será assinado o famoso negócio de gás de US $1 trilhão, pelo qual a Gazprom russa passará a fornecer à CNPC chinesa 3,75 bilhões de pés cúbicos de gás por dia, durante 30 anos, a começar em 2018 (hoje, a demanda diária de gás na China está em cerca de 16 bilhões de pés cúbicos).

A Gazprom pode até continuar a recolher da Europa a maior parte de seus lucros, mas a Ásia é seu futuro privilegiado. No front da concorrência, a super propagandeada “revolução do gás de xisto” dos EUA é mito – assim como o delírio de que os EUA aumentarão repentinamente, em futuro próximo, a quantidade de gás que exportam para o mundo. Simplesmente, não acontecerá.

A Gazprom usará esse meganegócio para ampliar os investimentos no leste da Sibéria – que a qualquer momento, antes do que muitos estimam, estará configurada como fonte privilegiada de exportação de gás, por mar, para o Japão e para a Coreia do Sul. Essa é a razão básica, substancial, pela qual a Ásia não “isolará” a Rússia.

Gazprom já está projetando os oleogasodutos para a China, Japão e Coreia
(clique nas imagens para aumentar)

Isso, para nem falar do risco “termonuclear” a que está exposto o petrodólar, uma vez que Rússia e China definirão que o pagamento no negócio Gazprom−CNPC pode ser feito em Yuans (chineses) ou em Rublos (russos). Será a alvorada de uma cesta de moedas a ser usada como moeda internacional de reserva – objetivo-chave dos países BRICS e o mais impressionante, radical, incendiário novo fato (econômico) em campo.

É hora de investir no Oleogasodutostão

Embora a importância dela empalideça, na comparação com a Ásia, a Europa não é “desperdiçável” para Rússia. Ouviram-se rumores em Bruxelas, distribuídos por alguns daqueles poodles, sobre o cancelamento do gasoduto Ramo Sul [orig. South Stream] – para bombear gás russo pelo subsolo do Mar Negro (passando longe da Ucrânia) para Bulgária, Hungria, Eslovênia, Sérvia, Croácia, Grécia, Itália e Áustria. O Ministro da Economia e da Energia da Bulgária, Dragomir Stoynev, desmentiu tudo. Disse que não, de modo algum. O mesmo fez a República Tcheca, porque precisa muito do investimento russo; e a Hungria, que recentemente firmou um acordo de compra de energia nuclear com Moscou.

O gasoduto Ramo Sul (South Stream) pode ser cancelado...
(clique na imagem para aumentar)
A única outra possibilidade para a União Europeia seria o gás do Cáspio, a partir do Azerbaijão – seguindo a trilha do oleoduto Baku-Tblisi-Ceyhan (BTC) negociado por Zbig Brzezinski e concebido expressamente para passar longe de Rússia e Irã. Como se a União Europeia tivesse a vontade, o tempo sobrando e o dinheiro necessário para pôr bilhões de dólares na construção de mais um oleoduto que teria de já estar em operação, pode-se dizer, amanhã cedo; e, isso, assumindo-se que o Azerbaijão tenha capacidade suficiente de oferta (o que o Azerbaijão não tem; outros atores – como o Cazaquistão ou o ultra-nada-confiável Turcomenistão, o qual prefere vender seu gás à China – teriam de participar desse quadro).

Ora, ninguém jamais perdeu dinheiro apostando na absoluta falta de noção dos eurocratas de Bruxelas. O Ramo Sul e outros projetos de energia criarão muitos empregos e investimentos em muitas das super atribuladas nações da União Europeia. Sanções extras? Nada menos de 91% da energia da Polônia, e 86% da da Hungria, vem da Rússia. Mais de 20% do total do dinheiro que bancos franceses emprestam ao exterior está emprestado a empresas russas. Nada menos que 68 empresas russas negociam seus papéis na Bolsa de Valores de Londres. Para os países do Club Med, o turismo russo é hoje uma linha de salvação (1 milhão de russos foram à Itália ano passado, por exemplo).

A Think-tankelândia norte-americana está tentando enganar a opinião pública nos EUA, induzindo-a a crer que o governo Obama poderia aplicar alguma espécie de replay da política de “contenção” dos anos 1945-1989, para “conter o desenvolvimento da Rússia como potência hegemônica”. A “receita”? Armar todo mundo, todos, por todos os lados, e também seu vizinho, das nações do Báltico ao Azerbaijão, para “conter” a Rússia. É a Nova Guerra Fria, mesmo que, do ponto de vistas das ditas “elites” norte-americanas, a Velha nunca tenha terminado.

Entrementes, as ações da Gazprom estão subindo. Compre. Você não se arrependerá.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.