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terça-feira, 10 de junho de 2014

Grande Projeto Geopolítico: A empresa russa Gazprom assina acordos para abandonar o dólar!

7/6/2014, [*] Umberto Pascali − Global Research
Traduzido por mberublue

Trata-se apenas da ponta do iceberg. Um grande projeto geopolítico começa a se materializar...

Alexander Dyukov
Em 06 de junho de 2014, a agência russa oficial Itar Tass anunciou o que já era esperado pelo menos desde o início da crise ucraniana: a maior empresa russa de energia, Gazprom Neft finalmente “assinou acordo com seus consumidores” para trocar de dólares para euros (em uma transição para o rublo) “para pagamentos por força de contratos”. Na verdade, o anúncio é de que o acordo foi assinado e não apenas discutido, conforme informou o CEO (Chief Executive Officer → Diretor Executivo [NT]) da Gazprom, Alexander Dyukov.

Apesar das pressões de Wall Street, dos militares dos EUA, da propaganda política e do aparato político movido, 9 entre 10 consumidores de petróleo e gás da Gazprom concordaram em pagar em euros. Torna-se claro que o divisor de águas foi o mega acordo sem precedentes firmado pela Gazprom para fornecimento de suprimento de gás natural para a China, feito em 21/5/2014 por 30 anos e no valor de US$ 400 bilhões, assinado na presença do presidente Putin e do presidente Xi Jinping no meio da violenta desestabilização da Ucrânia deflagrada pelos governos anglo/ americanos/ sionistas. Na realidade, é até impróprio falar em “acordo de US$ 400 bilhões”, tendo em vista que tal negócio foi denominado não em dólares, mas nas moedas nacionais dos dois países, o rublo russo e o renminbi (ou Yuan) chinês. A China e a Rússia ficam, pois, ligados econômica e estrategicamente por três décadas, de fato (embora não de direito) criando uma aliança inabalável e simbiótica que envolverá necessariamente o aspecto militar.

O acordo Rússia/China promove uma clara derrota nas obsessivas tentativas geopolíticas de Wall Street de colocar os dois países em uma situação de competição desenfreada ou, ainda melhor, em estado de confrontação bélica. Com o acordo, ataca-se o fundamento histórico principal do mecanismo de dominação colonialista pela geopolítica britânica, de dividir para governar. Apesar de estarem sob ameaça constante e intimidações à segurança nacional dos dois países, China e Rússia superaram brilhantemente diferenças históricas, ideológicas e culturais que haviam sido estrategicamente colocados pelos poderes coloniais (e seus herdeiros financeiros em Wall Street e City de Londres) em sua estratégia dividir & conquistar.

Além do mais, para horror de Londres e Washington, China e Rússia concluíram um acordo com a Índia (os BRICS!) quebrando mais um conceito fundamental e sagrado da geopolítica colonial britânica: o segredo para controlar a Ásia (e a Eurásia) sempre foi o de instigar uma rivalidade perene entre China, Rússia e Índia. Esta era a fórmula para o “Grande Jogo do Século XIX”. Foi o motivo que levou à escolha de Obama para suceder George W. Bush. O então candidato a vice presidente Joe Biden explicou muito clara e abertamente na convenção democrata em 27 de agosto de 2008 porque Obama-Biden foram escolhidos para assumir a Casa Branca. O grande erro da administração Bush e dos republicanos, disse ele, não foi a sua belicosidade desenfreada e atroz, mas o seu fracasso.

Para fazer frente às maiores forças que moldam este século:a emergência da Rússia, China e Índia como grandes poderes.

O sonho de Zbigniew Brzezinski, protegido de Barack Obama, era derrotar esta “ameaça”. Claro, “eles” falharam! Mas isso explica a obstinada, irracional, arrogância autodestrutiva ao estilo Rei Canuto que tomou conta da atual administração.

Rei Canuto afastando o mar
O significado do desenvolvimento dos acontecimentos deve ser enfatizado não só em relação à economia real, mas a suas estruturas financeiras subjacentes. Estes desenvolvimentos têm o condão de ser suscetível de enfraquecer as “correntes que tem mantida amarrada a União Europeia a Wall Street e à City londrina”. O fim do sistema de pagamento em dólar (também conhecido como Petrodólar) não diz respeito apenas à moeda dos Estados Unidos ou a este enquanto tal. De fato, superar esse sistema significa a restauração de uma racional e próspera economia nos próprios Estados Unidos. Aquilo que conhecemos como “sistema dólar” não passa de um instrumento através de qual os senhores feudais dos centros financeiros pilham a economia mundial. Esses centros são capazes e estão prontos para fazer qualquer coisa para salvar esse direito de pilhagem. É bem sabido que qualquer que tenha tentado, até agora, criar uma alternativa para o sistema dólar, encontrou-se face a face com uma reação feroz.

É bom lembrar neste momento de grande esperança, as palavras de um grande estrategista ainda vivo, o general Leonid Ivashov. Em 15 de junho de 2011, refletindo sobre a selvagem destruição da Líbia, o general, que é uma espécie de porta voz não oficial das forças armadas russas e foi representante da Rússia na OTAN, escreveu:

BRICS e a missão de reconfigurar o mundo

Quem desafia a hegemonia de dólar, explica Ivashov, torna-se um alvo.

Dá exemplos precisos: Iraque, Líbia, Irã.

Os países que desafiam a dominação do dólar sofrem enormes pressões e em certo número de casos, ataques devastadores. Mas o império financeiro erguido por Rothschilds e Rockefellers é impotente contra cinco grandes civilizações representadas pelos BRICS.

General Leonid Ivashov
Adiante, Ivashov defende uma estratégia coordenada dos países que representam a metade da população mundial para ganhar a independência ao usar suas próprias moedas.

A mudança para as moedas nacionais nas transações financeiras entre os países BRICS certamente lhes garantirá um nível sem precedentes para a sua independência...

Desde o colapso da União Soviética os países que desafiaram a dominação do dólar invariavelmente ficaram sob forte pressão e em certo número de casos – sob ataques devastadores. Saddam Hussein, que proibiu ma circulação do dólar em todas as áreas da economia iraquiana – inclusive nas transações comerciais de petróleo – foi deslocado e executado e seu país ficou em ruínas. Muammar. Gadaffi iniciou uma troca nas transações de petróleo e gás utilizando moedas árabes garantidas em ouro, teve seu país alvo de ataques aéreos quase imediatamente... Teerã teve que segurar seu plano de sair do sistema dólar para também não se tornar vítima de ataques agressivos.

Ainda assim, mesmo com apoio ilimitado dos Estados Unidos, o império financeiro construído pelos Rothschilds e Rockefellers são impotentes contra a cinco grandes civilizações representadas pelos países que contabilizam quase a metade da população mundial, os países BRICS. Estes países são claramente imunes à grande pressão, seus países membros não parecem vulneráveis a revoluções coloridas e a estratégia de provocação e exportação de crises financeiras podem facilmente sair pela culatra, ser um tiro no pé.


Contrastando com os Estados Unidos e a União Europeia, os países do grupo BRICS têm recursos naturais suficientes não só para manter suas economias à tona nas configurações de disponibilidade de contratação de combustíveis de hidrocarbonetos, comida, água potável e energia elétrica, como também para manter um vigoroso crescimento econômico. A mudança para suas próprias moedas nacionais nas transações financeiras entre os países BRICS deverá garantir para eles um nunca visto nível de independência ante os Estados Unidos e em relação ao ocidente em geral, mas isto é apenas a ponta do iceberg. Um grande projeto geopolítico começa a se materializar.

Este é o momento para que a Europa dê o grande passo. A crise ucraniana é, na realidade, uma batalha pela Europa.

As elites do continente europeu – a Alemanha de Alfred Herrausen, a França de Charles de Gaulle, a Itália de Enrico Mattei e Aldo Moro, a Europa que tentou trilhar o caminho da independência e da soberania... até agora tem sido ameaçada e aterrorizada exatamente nos termos colocados com precisão pelo General Ivashov. Agora, a batalha pela Europa está sendo travada. Nós examinaremos em um novo artigo, para as grandes forças europeias, os parceiros silenciosos, ainda traumatizados e assustados, que observam com ansiedade e memórias dolorosas das derrotas que sofreram, a posição firme da Rússia.


[*] Umberto Pascali é um autor independente e analista baseado em Washington DC. Tem escrito sobre assuntos estratégicos e a geopolítica europeia. Também tem conduzido pesquisas de campo em países em conflito. Pascali é observador astuto e muito respeitado da política externa dos Estados Unidos. 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Vladimir Putin: “Relações com a China são prioridade da política exterior russa”

18/5/2014, Entrevista de Vladimir Putin – RT-TV en español
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Às vésperas de sua visita à China, o presidente russo, Vladimir Putin, concedeu entrevista aos principais veículos da imprensa russa. Aqui, a transcrição da conversa, de RT.

I. O que o senhor espera de sua próxima visita à China? Que resultados espera da Conferência sobre Interação e Medidas de Confiança na Ásia (na sigla em ing. CICA, Conference on Interaction and Confidence-Building Measures in Asia), que se celebrará em Xangai?

Vladimir Putin: Ampliar nossos laços com a China, nação amiga de confiança, é definitivamente prioridade da política exterior russa. Atualmente a cooperação bilateral está entrando numa nova etapa de ampla associação e cooperação estratégica.

Não me engano, se digo que vivemos o melhor momento de vários séculos da história da cooperação entre nossos países. Estou esperando um novo encontro com o presidente da China, Xi Jinping, com quem mantemos boa relação, tanto laboral como pessoal. Vamos discutir a implementação dos acordos alcançados e traçar novas tarefas para o futuro.

Estou certo de que as negociações proporcionam forte impulso para a cooperação bilateral em todos os âmbitos e facilitarão nossa coordenação na arena mundial. Os resultados da reunião e os planos para o futuro refletir-se-ão numa declaração conjunta dos líderes e num pacote de documentos a serem assinados durante a conferência.

Rússia e China estão promovendo ativamente a ideia de formar uma nova arquitetura de segurança e desenvolvimento, que seja estável, no Pacífico Asiático. É aliança que se baseará nos princípios da igualdade, repeito ao direito internacional, a indivisibilidade da segurança e na recusa ao uso da força como tal e como recurso de chantagem e ameaça. Hoje, essa tarefa tem máxima urgência. A próxima reunião de cúpula está centrada na realização dessa tarefa.

A Conferência sobre Interação e Medidas de Confiança na Ásia (na sigla em ing. CICA) é mecanismo de cooperação que já comprovou plenamente sua funcionalidade. Em torno desse mecanismo realizam-se trabalhos em âmbitos significativos para a região, como segurança, novos desafios e ameaças, economia, ecologia e assuntos de assistência humanitária. A Rússia participa ativamente nas atividades da CICA-Ásia.

Em meados de abril passado, os países membros da Conferencia aprovaram o Artigo sobre o Conselho de Negócios da CICA-Ásia, que foi elaborado a partir de uma iniciativa nossa. Tenho certeza de que, tão logo seja adotado,  se estreitarão os laços operacionais práticos entre os círculos empresariais dos países asiáticos. Durante a reunião de cúpula, há planos também para que seja assinado o memorando de mútuo entendimento entre os secretariados de la CICA-Ásia e da Organização de Cooperação de Xangai. Será mais um passo na direção de constituir na região um sistema de associação entre diversas organizações e fóruns.

II. A China está movendo-se na direção de implementa um ‘sonho chinês’, um grande renascimento nacional. A Rússia também se autoimpôs a missão de ressuscitar o próprio poder. Em sua opinião, como nossos países poderão cooperar para ajudar-se mutuamente na realização dessas tarefas? Que âmbitos se devem considerar prioritários, nesse contexto?

Vladimir Putin: O desenvolvimento das relações de amizade, boa vizinhança e associação correponde plenamente aos interesses mútuos de Rússia e China. Já não há qualquer problema político que possa afetar negativamente o desenvolvimento de cooperação ampla.

Conjuntamente, construímos uma interação verdadeiramente exemplar, que se deve converter em modelo para as grandes potências. É cooperação que se baseia no respeito aos interesses fundamentais de todos e no trabalho eficaz com vistas ao bem de todos os povos do mundo.

Rússia e China cooperam com êxito na arena mundial e coordenam os passos que dão para resolver problemas e crises internacionais. Nossas posições sobre os principais assuntos globais e regionais são ou extremamente próximas, ou perfeitamente coincidentes.

É gratificante que as duas partes estejam prontas a estreitar a cooperação. Tanto Moscou como Pequim entendem que os potenciais de nossos países estão longe de esgotados. Ainda há metas a alcançar. Como prioridades de nossa cooperação na fase atual, pode-se destacar o estreitamento de laços econômicos e a colaboração no âmbito das ciências e das altas tecnologias. Essa cooperação para o desenvolvimento de potenciais que beneficiam os nossos países muito ajudará também para a implementação das tarefas de desenvolvimento interno.

III. A cooperação russo-chinesa intensifica-se sempre, mas a economia global permanece assediada por incertezas. As economias emergentes encontram novos desafios – como a desaceleração da economia. Como Rússia e China podem ajudar-se mutuamente, para fazer frente a esses desafios? Como se pode garantir o crescimento estável do comércio e os investimentos mútuos?

Vladimir Putin: Ante as turbulências da economia global, é altamente importante reforçar os vínculos comerciais e econômicos que nos beneficiam mutuamente, além de aumentar os investimentos entre Rússia e China.

É fator significativo, não só para o desenvolvimento socioeconômico de nossos países, mas, também, é importante contribuição para a estabilização de todo o mercado global.

Atualmente, a China é líder indiscutível entre os parceiros comerciais da Rússia. Em 2013, o comércio bilateral aproximou-se dos 90 bilhões de dólares e esse não é o limite. Vamos aumentar nosso intercâmbio até 100 bilhões em 2015  e para 200 bilhões, em 2020.

Também estamos colaborando exitosamente em projetos energéticos. Estamos criando uma aliança energética estratégica. Estamos trabalhando num amplo projeto, de mais de 60 bilhões de dólares, para levar petróleo até a China, pelo oleoduto Skovorodinó-Mohe.

Os contratos de exportação de gás natural russo para a China estão adiantados, no processo de preparação e redação. A aplicação desses contratos implicará para a Rússia a diversificação de rotas de exportação de gás, e permitirá que nossos parceiros chineses reduzam seus graves problemas de escassez de energia e de segurança ecológica, o que se alcançará com o emprego de combustíveis “limpos”.

Ao mesmo tempo, estamos avançando também num trabalho para reduzir a dependência do comércio bilateral, dos mercados estrangeiros. Portanto, no marco de uma melhor cooperação comercial e econômica, estamos dedicando atenção especial aos setores de vanguarda, dentre eles o aumento da eficiência energética, a proteção ao meio ambiente, a produção de medicamentos e aparelhagem médica, desenvolvimento de novas tecnologias de informática, energia nuclear e indústria espacial.

Temos uma lista de projetos conjuntos em 40 áreas prioritárias com volume de inversões de cerca de 20 bilhões de dólares. Nessa lista também figura a indústria aeronáutica civil. Já se obteve um acordo sobre o desenvolvimento conjunto de aviões de fuselagem larga para longos percursos [para saber o que são, veem-se em: “Jets de negocios de fuselaje ancho y de largo recorrido” (NTs)]. Planejamos também a criação de um helicóptero pesado. Estou certo de que nossas empresas são capazes de produzir e fornecer produtos competitivos aos mercados mundiais.


Temos a intenção de melhorar consideravelmente a cooperação em investimentos, que ainda não atende todas as necessidades e possibilidades reais de nossos países. Há vários exemplos de projetos bem-sucedidos. Destaco a participação do capital chinês na reconstrução de um aeroporto na região de Kaluga e a construção, naquela mesma região, de fábricas de produção de componentes automotivos e materiais de construção.


Vemos muitas outras áreas promissoras para investimentos. Podem destacar-se vários ramos da engenharia, processamento de produtos agrícolas, mineração, desenvolvimento de infraestruturas de transporte e o campo da energia. Devemos fortalecer também a cooperação financeira, proteger-nos contra as flutuações das taxas de câmbio das principais divisas mundiais.

Por isso, estuda-se agora, para afinal começar a implementá-lo, afinal, o plano para aumentar os pagamentos recíprocos em moedas nacionais.

IV. Recentemente, a Rússia anunciou a criação de uma zona econômica especial em Vladivostok. Que papel, em sua opinião, a China pode ter na criação dessa zona e no desenvolvimento em geral das áreas do Extremo Leste da Rússia?

Vladimir Putin: O desenvolvimento econômico avançado da Sibéria e do Extremo Leste da Rússia é nossa prioridade nacional para o século 21. Nesse momento, já estão em andamento vários programas relacionados à modernização e ampliação das infraestruturas dessas regiões – tanto no campo dos transportes como do uso das energias e das infraestruturas sociais.

Apostamos na criação de territórios especiais de desenvolvimento econômico avançado nos quais se criará ambiente favorável ao investimento. Há condições de competitividade para que se organize uma produção manufatureira orientada para a exportação.

Para as novas empresas que se instalem nas zonas de desenvolvimento avançado, planejam-se várias subvenções: de descontos em impostos e taxas reduzidas, além de regime aduaneiro simplificado, incluindo portos livres. Um regime especial de uso dos terrenos e da conexão com elementos das infraestruturas. Atualmente, trabalhamos numa lei federal para essa normatização. Estamos criando institutos de desenvolvimento e determinando as áreas de priorização.

Uma dessas áreas, sim, está planejada para ser instalada em Vladivostok, na ilha Russki, onde foi realizada a reunião de Cúpula do Foro de Cooperação Econômica Ásia- Pacífico. Sem dúvida, estamos interessados em que o setor de negócios da China aproveite as oportunidades que estão sendo criadas e posicione-se como líder naquelas regiões.

Porque fato é que o desenvolvimento avançado do Extremo Oriente da Rússia é evento que beneficia tanto a Rússia, como a China.  O comércio não é nosso único interesse. É necessário formar alianças tecnológicas e industriais sólidas. Promover conjuntamente investigações científicas e relações humanitárias. Fixar as bases para o desenvolvimento estável e durável de nossas relações econômico-comerciais para o futuro. E, sim, o Extremo Oriente da Rússia pode e deve ser o ambiente natural para esses esforços.

V. Como o senhor avalia o nível atual de cooperação entre nossos países, na esfera humanitária e as perspectivas nessa área? Que projetos no marco dos anos “duplos” (dos dois países, dos dois idiomas, de turismo nas duas direções e de intercâmbio entre jovens) causaram-lhe impressão mais marcante?

Vladimir Putin: Os laços humanitários entre Rússia e China seguem a linha do desenvolvimento progressivo de todo o complexo de associação estratégica entre nossos países. Hoje em dia, têm alcançado melhores níveis que jamais antes. Nesse processo, têm destaque os grandes projetos em grande escala, dos chamados ‘anos nacionais’, ‘anos dos idiomas’ e ‘anos do turismo’ – que são projetos que mobilizam milhões de nossos concidadãos.

Atualmente estão em andamento uma série de eventos regulares: festivais culturais, semanas de cinema, esportes juvenis, festivais de estudantes, campos de férias para crianças e estudantes, fóruns de reitores de universidades e exposições de serviços educativos, dentre outras atividades. [...] Claro que não vamos dormir sobre os louros. O interesse dos jovens na história, na cultura e nas tradições dos povos de Rússia e China está crescendo. Este é um processo objetivo e tenemos a intenção de apoiá-lo plenamente, cada vez mais, no futuro.

VI. Em 2015, Rússia e China celebrarão o 70º aniversário da vitória sobre o fascismo. Que importância têm esses esforços conjuntos de Rússia e China, na resistência contra as tentativas que se veem para distorcer o resultado da IIª Guerra Mundial?

Vladimir Putin: É verdade que, hoje, enfrentamos todos os dias novas tentativas para distorcer, alterar, deformar os fatos da história ocidental recente.

Há quatro anos, Rússia e China emitiram declaração conjunta na ocasião do 65º aniversário do fim da IIª Guerra Mundial. Nossa opinião comum partilhada já era de que não se aceitará, de modo algum, que o resultado da luta que se travou na IIª Guerra Mundial seja “reinterpretado”; é absolutamente inaceitável. As consequências de qualquer revisão nesse campo seriam extremamente perigosas.

Prova disso são os atuais e muito trágicos eventos na Ucrânia – onde já se veem as ações de forças nazi-fascistas que semeiam o terror entre a população civil.

A Rússia está profundamente agradecida a nossos amigos chineses, por homenagearem e reverenciarem a memória dos milhões de compatriotas nossos que deram a vida pela libertação do noroeste da China, quando invadido.

No próximo ano, haverá uma série de celebrações conjuntas, de russos e chineses, por ocasião do 70º aniversário da vitória contra o nazifascismo europeu, tanto no formato bilaterial, como, também, no marco da Organização de Cooperação de Xangai. Daremos especial atenção ao trabalho com os jovens. Não há dúvida de que, sim, continuaremos a resistir contra todos os esforços para falsear a história e para converter em heróis, no século XXI, os nazifascistas e seus colaboradores, tentativa que já se vê em andamento, hoje, Ucrânia.


[fim da entrevista]

sexta-feira, 28 de março de 2014

Pepe Escobar: Por que a União Europeia não pode “isolar” a Rússia

27/3/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Angela Merkel ensinando...
A chanceler alemã Angela Merkel pode ensinar umas coisinhas ao presidente Barack Obama dos EUA sobre como estabelecer um diálogo com o presidente Vladimir Putin da Rússia.

Mas... Obama nada ouve. Obama prefere detonar o próprio currículo de professor de Direito Constitucional e pôr-se a emitir bobagens pomposas para uma plateia de pressuposta elite eurocrática, no coruscante Palais des Beaux-Arts em Bruxelas, como fez na 4ª-feira (26/3/2014), sobre Putin ser a maior ameaça à ordem global gerenciada pelos EUA desde a IIª Guerra Mundial. Mas não deu muito certo: a maioria dos eurocratas de escol estava ocupada fotografando selfies ou tuitando.

Putin, enquanto isso recebia, em casa, em sua residência oficial nos arredores de Moscou, o presidente da Siemens, conglomerado industrial alemão de engenharia e eletricidade. A Siemens investiu mais de US$1,1 bilhão na Rússia ao longo dos últimos dois anos e, foi o que disse Kaeser, quer continuar a investir. Não há dúvidas de que Angela anotou o recado.

Obama não saberia fazer diferente. O especialista em Direito Constitucional sabe nada, zero, sobre a Rússia, e nunca, em sua magra carreira política sentiu-se obrigado a entender como a Rússia funciona; é possível também que tenha medo da Rússia – cercado, como vive, por aquela coorte de auxiliares espetacularmente medíocres. Seu tour de force retórico em Bruxelas deu em absolutamente nada – além de mais ameaças de que, se Putin persistir em sua “agressão” contra o leste da Ucrânia ou a países membros da OTAN, o presidente dos EUA dará jeito de montar pacote muito mais duro de sanções.

Robert Gates
Sem novidade, se se considera que, nos EUA, o que passa por análise política é o que escreve Bob Gates, senhor do Pentágono no primeiro governo Obama e agente honorário eterno da CIA.

O US $1 trilhão que vira o jogo

Demonizado 24 horas por dia sete dias por semana pela máquina de propaganda ocidental como cruel agressor de ucranianos, Putin e seus conselheiros no Kremlin só tem de seguir Sun Tzu. Os mudadores de regime em Kiev já estão naufragados no mais violento vale-tudo, (Moon) entre eles mesmos.  

E até o primeiro-ministro em exercício na Ucrânia, Arseniy Petrovych Yatsenyuk (“Yats”, como o chama com intimidade Victoria Nuland, do “Kaganato dos Nulands”) já falou dos tristes tempos que vêm por aí para a Ucrânia, ao confirmar que a assinatura da parte econômica do tratado de associação da Ucrânia à União Europeia fora adiada – e, assim, se evitariam as “consequências negativas” da tal “associação à Europa”, para todo o leste industrializado da Ucrânia.

Tradução: até “Yats” sabe que a associação à Europa será o beijo da morte para a indústria ucraniana, e que, além do mais, a tal “associação” virá acompanhada de um já iminente ajuste estrutural à moda do Fundo Monetário Internacional, sem o qual dificilmente haverá qualquer “resgate”, pela União Europeia, que salve a Ucrânia da total bancarrota.

Spengler
Spengler, de Asia Times Online, cunhou uma fórmula:

Um espectro ronda a Europa: o espectro da aliança russo-chinesa à custa da Europa.

A aliança já está em andamento – manifesta no G-20, no grupo dos BRICS e na Organização de Cooperação de Xangai. Há sinergias nas tecnologias militares à vista – o ultrassofisticado sistema aéreo de defesa S-500, que será apresentado por Moscou e que Pequim adorará ter imediatamente. Mas, para assistir à grande festança, esperem só mais umas poucas semanas, até que Putin visite Pequim, em maio.

É quando será assinado o famoso negócio de gás de US $1 trilhão, pelo qual a Gazprom russa passará a fornecer à CNPC chinesa 3,75 bilhões de pés cúbicos de gás por dia, durante 30 anos, a começar em 2018 (hoje, a demanda diária de gás na China está em cerca de 16 bilhões de pés cúbicos).

A Gazprom pode até continuar a recolher da Europa a maior parte de seus lucros, mas a Ásia é seu futuro privilegiado. No front da concorrência, a super propagandeada “revolução do gás de xisto” dos EUA é mito – assim como o delírio de que os EUA aumentarão repentinamente, em futuro próximo, a quantidade de gás que exportam para o mundo. Simplesmente, não acontecerá.

A Gazprom usará esse meganegócio para ampliar os investimentos no leste da Sibéria – que a qualquer momento, antes do que muitos estimam, estará configurada como fonte privilegiada de exportação de gás, por mar, para o Japão e para a Coreia do Sul. Essa é a razão básica, substancial, pela qual a Ásia não “isolará” a Rússia.

Gazprom já está projetando os oleogasodutos para a China, Japão e Coreia
(clique nas imagens para aumentar)

Isso, para nem falar do risco “termonuclear” a que está exposto o petrodólar, uma vez que Rússia e China definirão que o pagamento no negócio Gazprom−CNPC pode ser feito em Yuans (chineses) ou em Rublos (russos). Será a alvorada de uma cesta de moedas a ser usada como moeda internacional de reserva – objetivo-chave dos países BRICS e o mais impressionante, radical, incendiário novo fato (econômico) em campo.

É hora de investir no Oleogasodutostão

Embora a importância dela empalideça, na comparação com a Ásia, a Europa não é “desperdiçável” para Rússia. Ouviram-se rumores em Bruxelas, distribuídos por alguns daqueles poodles, sobre o cancelamento do gasoduto Ramo Sul [orig. South Stream] – para bombear gás russo pelo subsolo do Mar Negro (passando longe da Ucrânia) para Bulgária, Hungria, Eslovênia, Sérvia, Croácia, Grécia, Itália e Áustria. O Ministro da Economia e da Energia da Bulgária, Dragomir Stoynev, desmentiu tudo. Disse que não, de modo algum. O mesmo fez a República Tcheca, porque precisa muito do investimento russo; e a Hungria, que recentemente firmou um acordo de compra de energia nuclear com Moscou.

O gasoduto Ramo Sul (South Stream) pode ser cancelado...
(clique na imagem para aumentar)
A única outra possibilidade para a União Europeia seria o gás do Cáspio, a partir do Azerbaijão – seguindo a trilha do oleoduto Baku-Tblisi-Ceyhan (BTC) negociado por Zbig Brzezinski e concebido expressamente para passar longe de Rússia e Irã. Como se a União Europeia tivesse a vontade, o tempo sobrando e o dinheiro necessário para pôr bilhões de dólares na construção de mais um oleoduto que teria de já estar em operação, pode-se dizer, amanhã cedo; e, isso, assumindo-se que o Azerbaijão tenha capacidade suficiente de oferta (o que o Azerbaijão não tem; outros atores – como o Cazaquistão ou o ultra-nada-confiável Turcomenistão, o qual prefere vender seu gás à China – teriam de participar desse quadro).

Ora, ninguém jamais perdeu dinheiro apostando na absoluta falta de noção dos eurocratas de Bruxelas. O Ramo Sul e outros projetos de energia criarão muitos empregos e investimentos em muitas das super atribuladas nações da União Europeia. Sanções extras? Nada menos de 91% da energia da Polônia, e 86% da da Hungria, vem da Rússia. Mais de 20% do total do dinheiro que bancos franceses emprestam ao exterior está emprestado a empresas russas. Nada menos que 68 empresas russas negociam seus papéis na Bolsa de Valores de Londres. Para os países do Club Med, o turismo russo é hoje uma linha de salvação (1 milhão de russos foram à Itália ano passado, por exemplo).

A Think-tankelândia norte-americana está tentando enganar a opinião pública nos EUA, induzindo-a a crer que o governo Obama poderia aplicar alguma espécie de replay da política de “contenção” dos anos 1945-1989, para “conter o desenvolvimento da Rússia como potência hegemônica”. A “receita”? Armar todo mundo, todos, por todos os lados, e também seu vizinho, das nações do Báltico ao Azerbaijão, para “conter” a Rússia. É a Nova Guerra Fria, mesmo que, do ponto de vistas das ditas “elites” norte-americanas, a Velha nunca tenha terminado.

Entrementes, as ações da Gazprom estão subindo. Compre. Você não se arrependerá.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.