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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Pepe Escobar: China vai alinhavando a Rota da Seda

(da Organização de Cooperação de Xangai)

13/9/203, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online –The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O PM do Quirquistão, Jantoro Satubaldiev e Xi Jinping (D)
 Bishkek - 11/9/2013 (Clique na imagem para aumentar)
Enquanto o mundo parava, petrificado ante o risco de o governo Obama bombardear a Síria, o presidente Xi Jinping da China trabalhava, costurando a Rota da Seda.

É dito que muito se deve amar, aquele, famoso, de Deng Xiaoping: “mantenha-se discreto”, low profile. Mas no caso da segunda maior economia do mundo, low profile sempre implica grande impacto.

Foi o que aconteceu dia 7/9, em Astana, capital do Cazaquistão, quando o presidente Xi propôs oficialmente nada menos que uma Nova Rota da Seda, em coprodução com a Ásia Central.

A nova Rota da Seda e os ramais comerciais
(Clique na imagem para visualizar)
O “cinturão econômico ao longo da Rota da Seda” que Xi apresentou oficialmente é um mega projeto transeurasiano de integração, estimulado pelos chineses, do Pacífico ao Mar Báltico. Uma espécie de mega zona de livre comércio. O argumento de Xi parece impecável: na região demarcada vivem “quase 3 bilhões de pessoas e ali está o maior mercado do mundo, com potencial sem paralelos”. Caso de “UAU!”, boquiaberto. Mas significaria que a China estaria tomando todos os “-stões” da Ásia Central? Não é assim tão simples.

Um salão de espelhos

Na viagem de Xi pela Rota da Seda, o destino final era Bishkek, capital do Quirguistão, para a 13ª Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai [orig. Shanghai Cooperation Organization (SCO)]. Mas Xi viajou também, para que ninguém jamais esqueça tudo que se disputa no Novo Grande Jogo na Eurásia, para um encontro trilateral, à margem da reunião da Organização de Cooperação de Xangai: Xi da China, Putin russo e o novo presidente do Irã Hassan Rouhani.

É a primeira viagem internacional de Rouhani desde a posse, dia 4/9. Não é viagem épica, como a de Xi: só dois dias em Bishkek. Em encontro preliminar cara a cara com Xi, Rouhani até já começou a falar “chinês diplomático” – disse que espera que as negociações sobre o dossiê nuclear iraniano levem a uma situação de “ganha-ganha”. Xi apoiou enfaticamente o direito do Irã a um programa nuclear pacífico nos termos do Tratado de Não Proliferação; e Rouhani destacou que o relacionamento Irã-China “tem significação vital para a Ásia e para a sensível questão do Oriente Médio”. O que leva à frente comum Irã-China-Rússia, em relação à Síria. Mesmo antes da reunião com Putin, Rouhani já concordara com o plano russo de quatro passos para a Síria; como Asia Times Online noticiou, o plano foi construído entre Damasco, Teerã e Moscou. Por esse plano, Damasco une-se à Organização para Proibição de Armas Químicas; revela a localização dos arsenais químicos; dá acesso aos inspetores da Organização; e depois começa o longo processo de destruir as armas químicas.

Presidente do Irã, Hassan Rouhani  com Xi Jinping em Bishkek
No front nuclear, Teerã e Moscou permanecem abertas para negócios. A Rússia entregará ao Irã a operação da unidade 1 da usina nuclear de Bushehr em menos de duas semanas. E depois haverá mais “cooperação”.

Difícil avaliar a descomunal importância dessa triangulação. Ah! Quem dera ser uma mosca na parede daquela sala quirguiz, e ouvir o que dizem Xi-Putin-Rouhani. Teerã, Moscou e Pequim estão mais que nunca unidas para construir uma nova ordem internacional multipolar. Partilham a certeza de que uma vitória do eixo dos cães de guerra na Síria será prelúdio de futura guerra contra o Irã – e futuros incômodos para ambas, Rússia e China.

Somos o Deus Mercado

Simultaneamente, oportunidades monstros de negócios – e estratégicas – correm pelo corredor eurasiano. O Cinturão Econômico da Rota da Seda de Xi, que leva a marca registrada do pragmatismo chinês, é assunto, todo ele, de livre comércio, conectividade e circulação de moeda (circulará, é claro, o Yuan chinês). Está pronta para operar, porque já não há problemas de fronteira entre a Rússia e a Ásia Central. E combina-se à perfeição com o impulso chinês para desenvolver seu faroeste, o Extremo Oeste, como Xinjiang. Avaliem só o apoio estratégico extra que daí advirá, para o desenvolvimento do extremo oeste da China.

Eis um exemplo. Numa Exposição China-Eurásia em Urumqi, capital de Xinjiang, no começo dessa semana, a China Telecom e duas empresas de telecomunicações de Hong Kong assinaram vários negócios com os governos e com empresas do Cazaquistão, Tadjiquistão, Rússia e Mongólia. Poucos sabem, mas Urumqi é sede de mais de 230 empresas de Internet; quase metade delas são conectadas com países vizinhos. Xinjiang não é só chineses han que exploram uigures: é também nada menos que a base de comunicações para o corredor eurasiano – portal para banda larga e computação em nuvem.

Pequim também está investindo massivamente em novas estradas e pontos ao longo da Ponte Terrestre Eurasiana – outra denominação pela qual é conhecida a Nova Rota da Seda. Como Asia Times Online noticiou, na Nova Rota da Seda trata-se, sempre, de estradas, ferrovias, fibras óticas e oleogasodutos – e, agora, do novo impulso, acrescentado pelos chineses, na direção de centros de logística, polos de manufatura e, inevitavelmente, de novos centros de urbanização.

Há muitas trocas, muitos gambitos a implementar no Oleogasodutostão, e muitos recursos minerais a explorar. E, crucialmente importante – considerando que a Rota da Seda original atravessava o Afeganistão – há também a perspectiva de que o Afeganistão renasça como ponte privilegiada a ligar a Ásia, Central, Oriental e Sul. E para nem falar de encurtar muito o acesso da China, por terra, à Europa e ao Oriente Médio.

Na China, nenhuma decisão tão ampla como essa é jamais “espontânea”, mas cuidou-se de construir uma bem visível campanha de Relações Públicas para suavizar o impacto. Em Astana, Xi disse: “minha terra natal, a província de Shaanxi, é o ponto de partida da antiga Rota da Seda”. Disse que se “emocionou” ao repassar a história da Rota da Seda naquela viagem.

Praça Registan, em Samarcanda
(clique na imagem para visualizar)
Deixou-se ver admirando a paisagem da fabulosa Praça Registan, em Samarcanda, ao lado do presidente uzbeque, Islam Karimov e até se mostrou “poético”: disse a Karimov que “isso nos dá um sentimento especial. Estamos muito distantes, mas ao mesmo tempo tão próximos uns dos outros, na alma. É como viajar no tempo”. Ora, ora! O império dos Timúridas afinal encontrou império à altura. Não que a China já não tenha feito o mesmo, tempos atrás. Durante a dinastia ocidental Han (de 206 aC a 24 dC), o império mandou um enviado especial, Zhang Qian, duas vezes, à Ásia Central, para abrir a China ao comércio global.

“Poético” ou sem poesia, Xi cumpria tarefa que lhe coube. Em momento algum, durante toda a viagem pela Rota da Seda, deixou qualquer dúvida de que ali estava uma prioridade da política exterior chinesa. A China, agora, já firmou parceiras estratégicas com todos os cinco “-stões” da Ásia Central.

O que isso tem a ver com o Oleogasodutostão

O mais conhecido de todos os pesadelos de vocês sobre o Oleogasodutostão chama-se Kashagan. Significativamente, dia 11/9, essa semana, a empresa North Caspian Operating Co, que manda em Kashagan – um dos maiores campos de petróleo descobertos nos últimos 40 anos, com reservas estimadas em 35 bilhões de barris – anunciou que, afinal, o primeiro petróleo já aparecia à vista.

Kashagan está localizada no norte do Mar Cáspio. Estive lá. Tecnicamente, a extração do petróleo é imensamente complexa. Com certeza também é, em Kashagan. A produção deveria ter começado em 2005. Foram gastos nada menos que US$46 bilhões, dinheiro de um consórcio que une a ENI italiana, a francesa Total, a Royal Dutch/Shell, a ExxonMobil e a ConocoPhillips. A regra entre elas foi briga ininterrupta. Há uma semana Astana, afinal, aprovou a compra, pela CNPC da China, da parte que pertencia à ConocoPhillips: 8,4% das ações.

Com a chegada da China, aumenta o fluxo de dinheiro. Pequim está decidida a tornar-se ator considerável no mercado de energia do Cazaquistão. Em termos ideais, o campo de Kashagan estará produzindo 370 mil barris/dia em 2014, e 1,6 milhão, em 2016.

A estratégia da China no Cazaquistão gira basicamente em torno do petróleo. Mas a China também muito carece de gás natural. A Gazprom russa está apostando no insaciável apetite de Pequim por gás, para facilitar o projeto de exportar sobretudo para a Europa. Mas a concorrência é dura. E o Turcomenistão é elemento chave na equação chinesa.

A China já planeja expansões para o oleoduto Ásia Central-China – que os chineses construíram e pelo qual pagaram. As exportações devem começar em 2015. Nessa sua viagem pela Rota da Seda, Xi evidentemente passou pelo Turcomenistão, onde inaugurou nada menos que um dos maiores campos de gás do mundo, o gigante Galkynysh, que começou a produzir há apenas três meses. A maior parte do gás fluirá – e para onde seria? – para a China. A China está pagando a conta: $8 bilhões até aqui, e aumentando.

Agora, a economia do Turcomenistão virtualmente já depende das exportações de gás natural para a China (60% do PIB). A estratégia de Pequim é usar a alavancagem que tem no Turcomenistão, para arrancar melhores acordos da Gazprom, na venda de gás.

O Quirguistão também se encaixa na estratégia da China para o Oleogasodutostão. Pequim financiará e operará o proposto gasoduto Quirguistão-China – que é segmento chave do quarto gasoduto Turcomenistão-China. Pequim também está construindo uma ferrovia para conectá-la ao Quirguistão e ao Uzbequistão.

Ante todo esse frenesi, temos de voltar ao adágio definitivo dos tempos atuais: enquanto os cães da guerra (Washington) ladram, a caravana (China) faz negócios.

Aquelas três forças do mal

A Organização de Cooperação de Xangai está também envolvida em fazer avançar essa grande via de transporte que conecta o Leste, o Oeste e o Sul da Ásia e, afinal, o Pacífico ao Mar Báltico.

Mas o legado de Stálin sobrevive – na divisão demente que promoveu na Ásia Central. A China terá de queimar uma fortuna em transporte. Os trens chineses padecem para rodar em trilhos da era soviética. As vias aéreas são terríveis. Por exemplo, só há um voo, a cada dois dias, entre o Uzbequistão e o Quirguistão (voei nele: sempre lotado, os atrasos de praxe, extravio de bagagens...).

A Organização de Cooperação de Xangai foi fundada há 12 anos, quando o Uzbequistão uniu-se aos “Cinco de Xangai” originais: China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão. O Turcomenistão optou por seu esplêndido isolamento.

Originalmente, a ênfase era a segurança mútua. Mas hoje a Organização de Cooperação de Xangai cuida também de política e de economia. Mas persiste a obsessão com o que os chineses definem como “as três forças do mal”: o terrorismo, o separatismo e o extremismo. É a expressão em código para designar o Talibã e seus ramos, o Movimento Islamista do Uzbequistão [orig. Islamic Movement of Uzbekistan (IMU)] e os uigures em Xinjiang. A Organização de Cooperação de Xangai tenta também combater o tráfico de drogas e o contrabando de armas.

Foto oficial da reunião da Organização de Cooperação de Xangai [Shangai Cooperation Organization (SCO)] em Ala-Archa, residência presidencial em Bishkek hoje, 13/9/2013. Presidente do Tajiquistão, Emomali Rakhmon; o Presidente da Rússia, Vladimir Putin; o Presidente do Quirquistão, Almazbek Atambayev; o Presidente da China, Xi Jinping; o  Presidente do Cazaquistão, Nursultan Nazarbayev e o Presidente do Uzbequistão, Islam Karimov.
Mais uma vez no clássico estilo chinês, a Organização de Cooperação de Xangai é divulgada como organização que promove “confiança mútua, mútuos benefícios, igualdade, rotina de consultas, respeito pela diversidade entre as civilizações e busca do desenvolvimento comum”, em atmosfera de “sem alianças, sem confrontação e sem oposição a qualquer outra organização”.

Demorará muito para converter-se em alguma espécie de OTAN oriental. Mas está cada dia mais abrindo caminho rumo a se impor como contraponto para a OTAN – e, muito mais, como contraponto à Guerra ao Terror, capítulo Ásia Sul e Central, de Washington e às “revoluções coloridas”. A Organização de Cooperação de Xangai está discutindo ativamente suas opções regionais depois da retirada dos EUA do Afeganistão, em 2014. China e Rússia estarão profundamente envolvidas nisso. O mesmo vale para o Irã que permanece hoje como membro observador da Organização de Cooperação de Xangai.

Em princípio, o cinturão “Rota da Seda” de Xi ainda não fez soar sinos de alarme no Kremlin. Dizem os especialistas que as economias de Rússia e China são economias complementares – os “consideráveis recursos financeiros da China” complementariam “as tecnologias, a capacidade industrial e as relações históricas que os russos têm na região”.

Fica-se imaginando o que pensam disso tudo os adultos que vivem em quartos separados no tal cinturão chinês (supondo que saibam do que está acontecendo). A ex-secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton dava-se a arroubos poéticos sobre uma “nova rota da seda” a ser promovida pelos EUA. É. Depois da viagem de Xi, a coisa já soa, mesmo, como uma das promessas de campanha de Barack Obama.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.
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quinta-feira, 7 de junho de 2012

Conclusão da Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai: “Pela paz. Contra qualquer tipo de intervencionismo”


7/6/2012, Xinhuanet, China - Shanghai Cooperation Organization (SCO)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“Beto da Cana” lá na Vila Vudu: CALA A BOOOCA HILÁRIA!

A 12 ª Reunião do Conselho (extendido)  de Chefes de Estados-Membros da Organização de Cooperação de Xangai (SCO) foi realizada no Grande Salão do Povo, no centro de Pequim, capital da China, 7 de junho de 2012. (Foto: Xinhua /Rao aimin)
PEQUIM (Xinhua) – Na conclusão da reunião de cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, hoje, 5ª-feira, os estados-membros assinaram declaração conjunta em que unanimemente rejeitam qualquer tipo de intervenção militar como meio para resolver as graves questões internacionais em vários pontos do mundo.

Nos termos da declaração distribuída imediatamente depois de concluída a reunião, todos os estados-membros da SCO declararam sua oposição a intervenção militar na Síria e rejeitaram a ideia de mudança provocada de regime naquele país.

Os estados-membros da SCO também rejeitaram o uso de meios militares para resolver a disputa em torno da questão nuclear contra o Irã e optam por apoiar o diálogo e outros meios diplomáticos.

Há inúmeros importantes motivos pelos quais é muito oportuno esse apelo pela paz e pela estabilidade, com apoio à resolução pacífica das questões atuais, em todo o mundo.

Por todo o planeta, do Oriente Médio ao Norte da África, conflitos armados e ataques terroristas ainda continuam a fazer vítimas civis inocentes, com muitos países nessas regiões, desde o ano passado, ainda mergulhados no caos e na anarquia.

A segurança e a estabilidade dos países reunidos na Organização de Cooperação de Xangai estão intimimamente associadas à segurança e estabilidade nessas regiões. Os líderes reunidos na cúpula da SCO decidem e declaram que só será possível chegar à paz, por meios pacíficos.

É experiência sempre repetida na história humana, recente e remota, que responder à violência com mais violência só leva a mais violência e gera ódios difíceis de aplacar.

Mais de um ano se passou, desde que as forças da OTAN puseram-se a bombardear a Líbia para derrubar o governo que lá estava. O governo foi derrubado, mas, até hoje, o país continua mergulhado no caos.

Não bastasse o exemplo da Líbia, já se passaram mais de dez anos desde que os EUA e seus parceiros na coalizão da OTAN derrubaram o regime dos Talibã no Afeganistão – país que tem fronteiras com vários estados-membos da Organização de Cooperação de Xangai.

Embora Washington trace já planos para a retirada, poucos são otimistas quanto à capacidade de o Afeganistão manter-se em segurança por meios próprios, considerada a fragilidade de seu aparelho de segurança e os frequentes atentados à bomba que não param de repetir-se.

Por tudo isso, é mais que hora de dizer “não” a qualquer tipo de intervenção militar, porque não se admite que as dolorosas experiências recentes continuem a repetir-se indefinidamente.

A reunião de cúpula da Organização de Cooperação de Xangai é a primeira vez que os líderes de todos os estados-membros reúnem-se e manifestam-se, numa só voz, sobre amplas questões internacionais. Com o crescente poder econômico e a indiscutível posição de destaque que ocupa no cenário internacional, esse novo bloco multinacional passa, ativamente, a atuar como força-chave a favor da paz no mundo.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Pepe Escobar: “O mapa do caminho do impasse no Afeganistão”


7/1/2012, Pepe Escobar, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

New York, New York – Era uma vez, antigamente, quando preferiam Dubai – a Meca do contrabando. Agora, o destino preferencial dos Talibã passará a ser Doha, Qatar. 

E o Talibã instalará um escritório político no Qatar [1], para poder manter negociações “com a comunidade internacional”, nas palavras do porta-voz dos Talibã, Zabiullah Mujahid.  

O presidente do Afeganistão queria que o escritório fosse instalado ou na Turquia ou na Arábia Saudita. O governo Obama apertou uns beliscões e Karzai teve de aceitar o Qatar. Pior para a “soberania” do homem conhecido informalmente como “prefeito de Kabul”.

O porta-voz do Talibã, Zabiullah Mujahid, informou que está abrindo um escritório político no Qatar

A operação Doha foi negócio, estritamente, dos EUA, Alemanha, Qatar e “representantes” dos Talibã. Doha foi escolhida, especificamente, pelo governo Obama. O conceito de recompensa esteve aí bem visível – em nome da sólida, incondicional parceria que une o Qatar e a OTAN, a qual, por falar nela, está sendo espetacularmente derrotada numa guerra, lá, no Afeganistão.


Em ano de eleições crucialmente importantes, a Casa Branca espera acumular alguns dividendos extras na política externa, incluindo à mesa os Talibã (para um rico banquete de arroz à moda Kabul no Ritz-Carlton, talvez?). Mas e quanto à história real, por trás do alarido?

Aqueles drones, fora daqui! 

Em matéria de sonhar que é e crer que seja, nada vence o AfPak, no pensamento dos EUA. O wishful thinking reina. Washington só fala de “discussões secretas entre os EUA e representantes dos Talibã”. 

De fato, nem são muito secretas. Washington queria que os Talibã renunciassem à luta armada. Os Talibã responderam “Não”. Washington queria que os Talibã renunciassem a qualquer tipo de laço com a al-Qaeda – e, em troca, todos os Talibã presos em Guantánamo seriam libertados. Os Talibã responderam “Vamos conversar”.

Washington pensa-crê que o escritório político em Doha de algum modo isolará o Paquistão, afastando-o das lideranças Talibã. O mulá Omar, como todos os grãos de areia dos desertos do Baloquistão sabem, vive em Quetta, onde não é perturbado pela vigilância ubíqua dos EUA.  

Islamabad não foi consultada sobre o escritório em Doha, e Washington pressupõe que os serviços secretos do Paquistão, ISI, não conheçam cada passo dos personagens envolvidos, porque, dos Talibã, só monitorariam os seus próprios contatos fiéis.

Washington, muito provavelmente, também subestimou Teerã. Os arquitetos da estratégia de Doha parecem ter sido hipnotizados pela visão de Tom Cruise escalando o Burj Dubai, no mais recente filme da série Missão Impossível, para acreditarem que o Paquistão e o Irã poderiam ser postos de lado, em qualquer tipo de acordo sobre o fim da guerra do Afeganistão.

Moscou – que tampouco foi ouvida – não está acreditando na estratégia de Doha. Nem Pequim, como diz um especialista chinês em “Escritório dos Talibã no Qatar pode ser um passo em direção à paz no Afeganistão, mas não é o fim da crise” [2]. E com as relações EUA-Paquistão chegando a novos fundos abismais do poço, depois de repetidas trapalhadas de Washington, o porta-voz dos militares paquistaneses, general Athar Abbas, já definiu o tom: “Doravante, exigiremos relacionamento muito formal, de negócios.”

“As linhas estão traçadas. Nada mais daquele ir e vir do passado, nada mais de interpretarem as regras como bem entendam. Queremos relacionamento formal, com limites bem claros”. 

Tradução: Washington pode dar adeus-para-sempre aos “ataques assinados” da guerra dos aviões-robôs, drones, contra as áreas tribais.

Nesse quadro, inscreve-se a visita à China do comandante do exército do Paquistão – o qual, até ontem, era queridinho do Pentágono. Tudo sugere que Pequim e Islamabad/Rawalpindi já estão coordenando detalhadamente suas estratégias, em relação ao que venha a acontecer em Doha.    

Adeus “Missão Impostor” 

Fascinante será assistir à reação desses “enviados” dos Talibã, quando virem o MIA ­– Museu de Arte Islâmica [3] (blasfêmia?) projetado por I.M. Pei, em Doha. Mas quem, exatamente, são eles?

Ora, pelo menos não poderão comportar-se como completos impostores – como o suicida-bomba que matou um ícone da política afegã, Burhanuddin Rabbani, em setembro de 2011, com bomba escondida no turbante. Ou como o “negociador” Talibã falso que embolsou um punhado de dólares da inteligência dos EUA e Grã-Bretanha, em 2010.  

E quanto ao Supremo Líder, o mulá Omar?

O mulá Omar não está, exatamente, mandando comprar sua passagem para o próximo voo da Qatar Airways. Ao contrário: por ordem dele, domingo passado os Talibã afegãos e paquistaneses constituíram um conselho assessor da Shura, com cinco membros.

Principal decisão: o Talibã-no-Paquistão não mais combaterá contra o exército paquistanês, nem com suicidas-bombas nem com sequestros nas áreas tribais. Todo o poder de fogo dos Talibã paquistaneses passa a mirar as tropas de ocupação de EUA/OTAN no Afeganistão.

O recado do mulá Omar foi claríssimo: “Minha palavra aos Talibã-no-Paquistão. Digo que vocês não esqueçam que o real propósito é combater as forças invasoras no Afeganistão e libertar o Afeganistão ocupado”. 

Só um argumento levaria o mulá Omar a formar uma frente unida no AfPak e lançar a undécima ofensiva de verão contra EUA/OTAN: ter recebido, dos serviços secretos do Paquistão, a promessa de que os Talibã-no-Paquistão não voltarão a ser atacados; e que o Paquistão porá fim, absolutamente, aos ataques dos drones norte-americanos. 

Portanto, se já há uma frente unida dos Talibã no AfPak, pronta a controlar mais território afegão em 2012, do que controlam hoje, o que fazem aqueles Talibã na trilha para Doha?   

Não há melhor pista para conhecer as intenções dos Talibã que uma de suas declarações oficiais: “Desde o início, a posição do Emirado Islâmico do Afeganistão sempre foi pôr fim à invasão do Afeganistão e deixar que os afegãos estabeleçam lá o governo islâmico que prefiram e que não ameace ninguém.”

Em idioma Talibã, “que não ameace ninguém” significa: nada de abrigos seguros para a al-Qaeda no Afeganistão. É o máximo que os EUA conseguirão – se, é claro, os Talibã presos em Guantánamo forem postos em liberdade.

Quanto aos Talibã que andarem pela trilha de Doha, serão os chamados “Talibã do bem” – delírio e miragem que os EUA cultivam há anos. A maioria deles vive em Kabul, protegidos pelo elaborado aparato made-in-USA da segurança de Karzai. 

Fato é que não existe um “movimento Talibã” monolítico. O que se conhece como “os Talibã” é uma “coalizão de vontades” à moda dos pashtuns. 

A rede Haqqani, por exemplo, não tomará o avião para Doha. Mas a facção de Gulbuddin Hekmatyar – através do genro do chefe – já está em conversações com gente da OTAN em Kabul.

Mais uma vez, é instrutivo ouvir a voz oficial do Emirado Islâmico a propósito de “negociações”: “Notícias inquietantes, divulgadas por agências noticiosas e agentes ocidentais sobre negociações, nada têm de verdade e são enfaticamente rejeitadas pelo Emirado Islâmico do Afeganistão” [4]. 

E há ainda o fascinante caso do ex-comandante-em-chefe dos Talibã: mulá Mohammed Fazl [5]. 

Os EUA o entregarão em Kabul ou em Doha – direto de Guantánamo? De carniceiro dos hazaras xiitas no Afeganistão a hóspede de Guantánamo e, em seguida, alto negociador islâmico – eis a carreira do homem, ao longo das eras. 

Tudo isso, se o mulá Fazl for solto – e há aí um grande “se”. Já se percebe uma espécie de pânico em Washington, bem visível nos repetidos desmentidos, segundo os quais não haveria qualquer negociação que envolvesse a libertação de Talibãs presos em Guantánamo.  

The end, beautiful friend[6] 

Doha é o Salve-Rainha. O governo Obama tinha de apresentar alguma coisa – afinal, em maio próximo, haverá a Cúpula da OTAN em Chicago. A Eurozona está implodindo. 2012 será ano de agitação social hardcore em toda a Europa Ocidental. Ninguém mais tem estômago – para nem falar de dinheiro – para o interminável “impasse” no AfPak.   

Pelo menos, o governo Obama não cometeu a estupidez estratégica gigante – alguém aí está contando todas? – de iniciar uma guerra contra o Paquistão.

Apostando em que permanecerá no poder depois de novembro de 2012, o governo Obama sabe que Washington terá de sair de lá em 2014.

O Pentágono literalmente se mudará do Hindu Kush, para conseguir manter, pelo menos, algumas bases do Comando Conjunto de Operações Militares [orig. Joint Special Operations Command (JSOC)] no norte do Afeganistão, de onde possa monitorar China, Rússia e Irã: é item crucial da doutrina de Dominação de Pleno Espectro [orig. Full Spectrum Dominance doctrine]. 

O problema é que os Talibã de modo algum admitirão que ali se instalem postos avançados permanentes do Império de Bases dos EUA. A concessão máxima que farão é romper os laços que os unem à al-Qaeda.  

A Organização de Cooperação de Xangai [orig. Shanghai Cooperation Organisation (SCO)] quer solução afegã para o Afeganistão, com apoio de todos os vizinhos. Os principais membros da SCO, Rússia e China, além de Paquistão e Irã (ainda como membros observadores, mas em vias de tornarem-se membros plenos), absolutamente não querem bases dos EUA na região. E se a SCO conseguir o que quer, Washington terá de dar adeus à ideia de uma Nova Rota da Seda.  

Até 2014, Washington ainda terá de enfrentar as novas regras que o Paquistão impôs às linhas de suprimento, de Karachi para Chaman e para o Desfiladeiro Khyber; e as novas regras que Moscou impôs à Rede de Distribuição do Norte [orig. Northern Distribution Network (NDN). Nos dois casos, quanto mais grosso tenta fala, mais Washington se autoderrota.

Depois de 2014, absolutamente ninguém sabe ainda o que acontecerá. O mais provável é que o Exército Nacional Afegão – constituído, na maioria, de tadjiques – controlará o norte do Afeganistão, treinado e financiado pelos EUA. Essa ideia já começa a circular em Washington, com as tropas americanas assumindo “papel de aconselhamento”, já a partir de 2013.   

Os Talibã – a maioria dos quais são pashtuns – controlarão todo o arco do sudoeste ao sudeste do país, com apoio do Paquistão e da Arábia Saudita.

Mas o Pentágono continua obcecado com a ideia de manter um exército, por “emagrecido” que seja [7], para combater os Talibã... até o Juízo Final?

O que nos leva de volta a Doha.

O governo Bush invadiu o Afeganistão para arrancar de lá os Talibã. Arrancou, mas – imaginem! – a missão não foi cumprida. Os Talibã estão de volta, em grande estilo. Hoje, o governo Obama os convida, mais ou menos, para voltarem ao poder. 

Os linhas-duras do Pentágono absolutamente não suportam a ideia de Washington sair de Kabul, como em versão remix de Saigon 1975 – os helicópteros decolando, em fuga, do telhado da embaixada norte-americana. O governo Obama tenta salvar as aparências. Os fiéis da igreja da Dominação de Pleno Espectro querem suas bases. Nada está decidido, até que o último míssil Hellfire cante – no Hindu Kush, não na agradável Doha. 



Notas dos tradutores

[1]  3/1/2011, Reuters, em: “Taliban say Office in Qatar has been agreed” (em inglês). 
[2]  4/1/2011, Xinuanet, Pequim, em: “Taliban Office in Qtar a step towards Afghan peace but not end of crisis” (em inglês).
[3]  Veja a página oficial do museu (em inglês).
[4]  Ver 20/12/2011, MK Bhadrakumar, “EUA suplicam que os Talibã negociem”.
[5]  Ver 4/1/2012, MK Bhadrakumar, “2012: ano dos Talibã”. 
[6]  “O fim, meu belo amigo/bela amiga”. É verso de “The End”, da banda The Doors (Jim Morrison), criada em 1965 (letra original e traduzida e vídeo). 
[7]  Ver 6/1/2012, “O novo plano de Defesa de Obama: Drones, Operações Especiais e Ciberguerra”. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

EUA: sem lugar no Afeganistão depois de 2014


3/11/2011, *M K Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Não haveria melhor cenário que a velha capital bizantina no Bósforo, para uma conferência sobre o Afeganistão, na atual conjuntura. A conferência em Istambul ontem, 4ª-feira, 2/11/2011, recebeu título imponente: “Segurança e Cooperação no Coração da Ásia”. O “coração”, no caso, tinha 14 câmaras: Afeganistão, Paquistão, Irã, China, Tadjiquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Cazaquistão, Rússia, Índia, Turquia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. 


A conferência foi carregada de alto drama, o que não surpreende, uma vez que o “cérebro” da conferência – os EUA – operaram como se o coração praticamente nem existisse. 

Intriga e contraintriga dominaram desde o início, de tal modo que se adivinhava facilmente o fracasso da Conferência. 

Os EUA e seus aliados ocidentais começaram com altas esperanças de que a Turquia, parceira da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), conseguiria arrancar uma declaração – de preferência assinada pelos 14 estados “do coração da Ásia” – a qual prepararia o terreno para que se estabelecesse um mecanismo de segurança e integração semelhante à Organização para Segurança e Cooperação na Europa [Organization of Security and Cooperation in Europe (OSCE)]. E essa organização, por sua vez, alçaria voo na próxima Conferência Bonn II, em dezembro (para a qual a Alemanha convidou 90 países e 15 organizações internacionais). 

Mas a 4ª-feira em Istambul chegou ao fim, com nada além de uma nota paupérrima. O coração da Ásia não sofreu rupturas e passa bem. O Uzbequistão separou-se e afastou-se no último minuto, e os restantes 13 países assinaram declaração anódina, mais uma, na mais recente série de platitudes e boas intenções ocas, desde que os EUA invadiram o Afeganistão. 

“Em campo”, um pouso forçado

Logo à primeira vista, já era claro que a agenda da conferência tomava rumo errado. Em vez de cuidar de construir uma reconciliação nacional viável para o Afeganistão, definir o que fazer para pôr em andamento tal processo e garantir que fosse genuinamente conduzido pelos afegãos, os “cérebros” da conferência – os EUA, principalmente – encheram a agenda com geopolítica. 

A Conferência emperrou, sob uma agenda ambiciosa, planejada para impor à região, sob liderança ocidental, um mecanismo para mediar inúmeras disputas e diferenças intrarregionais, questões que, se pode dizer, apenas tangenciam a estabilização do Afeganistão e não são hoje, de modo algum, a maior preocupação de todos. 

Para dizer o mínimo, foi como pôr o carro à frente dos bois. Os cérebros ocidentais tentaram impor à conferência, desnecessariamente, um modelo controverso de nova arquitetura da segurança para a Ásia Central e do Sul, a ser completado por um mecanismo institucional e um “grupo de contato” para monitorar a implementação de medidas “para construir confiança”. 

Sempre foi ideia condenada “em campo” a ter de fazer um pouso forçado, porque há muitas e profundas desconfianças quanto às reais intenções dos EUA na “guerra ao terror” no Afeganistão e pouca ou nenhuma disposição, pelos estados regionais, para aceitar a presença permanente do ocidente como árbitro-moderador-mediador de praticamente tudo, na região. 

Nos encontros preparatórios da conferência oficial, em Oslo, Noruega, e em Kabul, nos meses de setembro e outubro, já era evidente que não havia na região interessados em comprar alguma nova organização de segurança regional a ser comandada pelo ocidente. 

Rússia, China, Irã, Paquistão e a maioria dos países da Ásia Central demoliram a proposta dos EUA, de uma nova “arquitetura de segurança regional”. A Índia, que não gosta de mediação externa em suas disputas, manteve-se calada, para não ofender os EUA (confiando, provavelmente, que o Paquistão se encarregaria de todo o serviço). 

Moscou apareceu com sua própria contraproposta, nos moldes de uma declaração de princípios para a cooperação regional, listando medidas políticas, econômicas e outras para construir confiança e encorajar a cooperação entre os países vizinhos do Afeganistão. A ação russa foi bem acolhida por China, Paquistão e Irã; sem ter de fato nada de excepcional, a proposta russa ganhou impulso e parece ter pavimentado o caminho que levou à declaração conjunta de ontem, em Istambul. 

De qualquer modo, Washington (e Ancara) tentou até o último momento institucionalizar, fosse como fosse, um processo regional, com “grupos de trabalho” e formato “estruturado” para consultas. Tudo indica que o Paquistão encarregou-se de derrubar firmemente essas ideias; disse que conferência sobre segurança, do tipo da OSCE, ou qualquer tipo de aparelho de segurança muito amplo, seria em todos os casos completamente inaceitável, porque há um universo de diferenças entre (I) as compulsões da Guerra Fria que iniciaram o processo de Helsinki; e (II) a real situação no Afeganistão. 

O Paquistão entende que os países vizinhos do Afeganistão podem, no máximo, cumprir papel de apoio à paz, à segurança e à integridade daquele país; em vez de propor novos mecanismos, é preciso tratar de implementar mecanismos já existentes que visam a promover a paz, a segurança e o desenvolvimento. 

O plano de jogo dos EUA em Istambul visava a quatro objetivos. 

(1) Washington planejara “enquadrar” o Paquistão entre as quatro paredes de um mecanismo regional de segurança dominado pelo ocidente, de tal modo que o Paquistão aparecesse como apenas mais um, dentre outros; assim Washington contava diluir o papel protagonista e a aspiração, do Paquistão, a uma posição destacada no processo de paz afegão. 

(2) O mecanismo regional daria boa ajuda aos EUA e seus aliados, que manteriam o comando, na construção de algum encaminhamento para o Afeganistão, também depois de 2014.

(3) Washington estimava que o aparelho regional de segurança acabasse inevitavelmente por sobrepor-se à Organização de Cooperação de Xangai [ing. Shanghai Cooperation Organization (SCO)] como principal processo de segurança regional na Ásia Central e no sul da Ásia; assim, Washington esperava minar a influência dominante de Rússia e China na Ásia Central.

(4) Os EUA planejavam criar um mecanismo regional que garantisse a infraestrutura de segurança para seu projeto “Nova Rota da Seda”, que corre por via paralela – uma versão modernizada da “estratégia Grande Ásia Central”, nascida ainda durante a presidência de George W Bush. Pelo projeto “Nova Rota da Seda”, o Afeganistão seria um nódulo regional para aproximar entre eles a Ásia Central e o sul da Ásia, num mesmo projeto de integração e de desenvolvimento regional. 

Mas em todos esses objetivos está presente o objetivo central de Washington, de fazer Rússia e China recuar da posição em que estão na Ásia Central, e conseguir acesso direto, para os EUA, aos vastos recursos minerais da região, através de elos de comunicação que contornem, sem ter de cruzá-los, a Rússia e o Irã. A agenda dos EUA incluía conseguir para a OTAN alguma espécie de papel formal, institucional, na segurança da Ásia Central. (Proteger oleodutos, gasodutos e outras rotas de energia é “desafio” recém-descoberto, no século 21, que a OTAN apresenta-se para assumir.) 

Provavelmente, Moscou e Pequim desconfiaram desde o primeiro momento do que estava sendo arquitetado. O principal resultado da Conferência de Istambul, portanto, talvez seja que a Organização de Cooperação de Xangai acelerará seus processos de tomada de decisões, na direção de apressar os trâmites para que Paquistão e Índia incorporem-se à organização. 

A declaração dos russos, divulgada na 2ª-feira, depois de consultas entre os ministros de Relações Exteriores russo e chinês em Moscou, informava que os dois países discutiram as modalidades de finalização do ingresso na Organização de Cooperação de Xangai e “falaram sobre apressar o processo de inclusão” de Índia e Paquistão (com o Afeganistão no status de “Observador” na OCX). O mais provável é que uma decisão seja formalizada na reunião de Chefes de Governo dos países da OCX marcada para a próxima 2ª-feira em São Petersburgo. 

Nota de triunfalismo 

Sublinhando todo esse alto drama, Washington (e outras capitais regionais) parece ter entendido que a situação político-militar no Afeganistão está alterando-se decisivamente a favor do Paquistão, o que disparou uma tentativa desesperada para garantir a presença militar dos EUA e da OTAN no estratégico Hindu Kush. 

Há à frente, sem dúvida, período de muitos perigos para EUA e OTAN, ante a forte possibilidade de as forças de Mulá Omar e da rede Haqqani passarem a colaborar abertamente, com vistas a intensificar as atividades dos guerrilheiros. 

O devastador ataque de um suicida-bomba, num carro, em Kabul, que matou 13 soldados americanos e dois australianos, bem pode ser o primeiro ato de uma nova ofensiva. O momento – na véspera da conferência em Istambul – aparece como claro recado ao governo dos EUA, de que as coisas mudaram, e que a estratégia dos EUA para degradar os Talibã e forçá-los a entrar em negociações não apenas falhou: hoje, os Talibã parecem mais convencidos do que nunca de que avançam, passo a passo, na direção de vitória conclusiva. 

Visivelmente, a visita da secretária de Estado Hillary Clinton a Islamabad há dez dias não ajudou a reduzir o imenso déficit de confiança na relação EUA-Paquistão. Os militares paquistaneses parecem ter-se divertido com a tentativa, de Clinton, de transformar em mérito o que é a dura necessidade, ao “oferecer” graciosamente a Islamabad a “primazia” para “apertar” os Haqqanis e levá-los à mesa de negociação. 

De fato, o cerne da questão é que as tentativas clandestinas dos EUA, nos últimos meses, para tentar chegar diretamente aos líderes Talibã e tentar iniciar suo moto um processo de paz, com os EUA em posição de força, deram em nada, como hoje se vê.

Por outro lado, o Paquistão avalia que o presidente Barack Obama dos EUA estará confinado cada dia mais no campo defensivo, quanto mais se aproximem as eleições do próximo ano, o que reduz ainda mais a capacidade dos EUA para pressionar Islamabad. Já se ouve um tom triunfalista, nos discursos dos paquistaneses.

Sem dúvida, também o governo Obama perceberá que os fatores de vantagem tendem cada vez mais a favor do Paquistão, e que os EUA não têm qualquer instrumento efetivo para pressionar os militares paquistaneses. Os EUA atrelaram-se à Turquia, na esperança de que os turcos fizessem avançar a agenda, na Conferência de Istambul, porque a Turquia mantém relações calorosas e amistosas, tradicionalmente, com o Paquistão. Também esperavam que a presença da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, em Istambul, influenciasse o Paquistão. Mas é possível que a Conferência de Istambul tenha, até, provocado fissuras nos laços entre Turquia e Paquistão. Um observador turco escreveu:

“Sopram ventos frios entre os dois países [Turquia e Paquistão], por causa do problema afegão (...). Islamabad está bastante irritada com a Turquia, pelo papel que teve na Conferência (...). Basicamente, o Paquistão irritou-se com Turquia e EUA, que queriam conferência orientada para resultado pré-fixado. Para que a conferência dê frutos, é indispensável que o processo se institucionalize. Em outras palavras, na falta de qualquer tipo de mecanismo que monitore o processo que pode incluir medidas para construir confiança, tudo que se disse em Istambul ficará no papel.

Os diplomatas turcos tentaram acalmar os paquistaneses; disseram que a presença da Turquia no quadro regional deve tranquilizar os paquistaneses vis-à-vis outros atores. Afinal, os turcos não têm agenda secreta para fortalecer a Índia à custa do Paquistão. Mas duvido que tenham conseguido acalmar os paquistaneses”.[1]

Tudo considerado, do ponto de vista de russos e chineses, tornou-se desejável – quase imperativo – doravante, olhando adiante, que o Paquistão ganhe autonomia estratégica para resistir à pressão dos EUA. Com certeza apreciarão a firmeza do Paquistão, na operação para frustrar os planos norte-americanos de instalar um mecanismo de segurança regional pelo qual poderiam manter continuada interferência na Ásia Central. 

Em termos gerais, o fracasso da Conferência de Istambul cria grave dificuldade para a próxima Conferência Bonn II, em dezembro. Sem um quadro institucionalizado de cooperação regional, que não nasceu em Istambul, Bonn II resulta sem agenda viável, exceto pelo fato de 2011 oferecer excelente oportunidade para fotos históricas: é o décimo aniversário de Bonn I, realizada em dezembro de 2001. 

Originalmente, se esperava que representantes dos Talibã participassem do encontro em Bonn. Mas, exceto por milagre, não acontecerá. Assim, EUA e os aliados da OTAN estarão completamente isolados, para planejar alguma transição no Afeganistão para depois de 2014, quando se reunirem na Cúpula dos Países da OTAN, em maio, em Chicago. 

Em suma, as potências regionais não dão qualquer sinal de querer colaborar com EUA e seus aliados, na coreografia da segurança regional pós-2014. Rússia e China insistem que a comunidade internacional seja representada pela ONU, na questão afegã, a partir do instante em que EUA e OTAN saiam do Afeganistão, em 2014. 

Evidentemente, esperam que a Organização de Cooperação de Xangai assuma papel protagonista na estabilização do Afeganistão. A rápida admissão do Afeganistão como observador na OCX e a admissão do Paquistão como membro, falam alto e claro: a mensagem é que a segurança regional estará mais bem servida se deixada a cargo dos países da região, com potências extra-regionais atuando como facilitadores. Essa é, também, a mensagem final da Conferência de Istambul. 



Nota dos tradutores
[1]  2/11/2011, Barçin Yinanç, “Pakistan should stop relying on its nuisance value”, Hurriyet Daily News, Paquistão. 

 
*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.